quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

JAULAS

A morte do jovem Vaqueirinho atravessou nossa alma feito lâmina fria. Rasgou sem pedir licença. Tem tragédias que estilhaçam ao extremo este mundo tão quebrado. Esta foi uma delas. Um menino de dezenove anos, ferido desde seu berço de espinhos, entrou na jaula da leoa buscando uma miragem. Sonho, desafio, fuga, pedido de socorro. A leoa reagiu como a natureza reage. Ele se moveu como a dor se move. E o fim chegou rápido e silencioso. Terrível. Neste planeta que perdeu outro filho sem nunca saber o que foi colo.

Ali na jaula não havia culpados. Ambos presos. A fera cercada por ferro, rotina e instinto. O rapaz cercado por abandono, diagnósticos tardios, violência, invisibilidade. Dois seres encarcerados por razões diferentes, e empurrados por forças maiores que seus desejos. Em algum ponto desta história, nasce a pergunta que arde sem resposta: quem poderia ter visto ele antes da jaula virar destino? Quantas oportunidades de cuidado se perderam?

A Bíblia revela um Deus que vê o que o mundo ignora. Ele recolhe cada lágrima em um odre, como quem guarda tesouros que ninguém valoriza (Sl 56:8). Nada escapa ao Seu olhar. Por isso, o milênio será o tempo para mostrar o que agora não entendemos. A justiça que não enxergamos. O coração que desconhecemos. E as correntes invisíveis prendendo um menino que sonhava com leões.

Ellen White escreveu: “O amor de Deus é tão vasto, profundo e completo que envolve todo ser humano” (CC, p.9). Se o amor do Pai é mais forte que a morte (Ct 8:6), nenhuma história terminará no portão lacrado da jaula. A memória divina não esquece anônimos, nem descarta biografias confusas. Aliás, nenhuma história se resume ao seu último ato. Só se for para redimir e perdoar. Diante desse amor, a breve vida do Vaqueirinho não foi só notícia, ele foi um filho sofrido visto do Céu.

Que esta tragédia devore nossa indiferença. Que nos torne atentos aos jovens engatinhando à beira dos precipícios emocionais. Que nos aproxime de quem vive esmagado por dentro. E que, enquanto o milênio não chega, sejamos testemunhas da misericórdia de Deus. Até que tudo se faça novo para cada vida neste mundo de grades visíveis e invisíveis.

Até quando?

Odailson Fonseca (via instagram)

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