sexta-feira, 8 de maio de 2026

OS ADVENTISTAS E A POLÍTICA (ATUALIZADO)

Como adventistas do sétimo dia, esperamos o breve retorno de nosso Senhor Jesus Cristo e ansiamos por aquela pátria eterna “da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Hebreus 11:10). Aceitamos igualmente o desafio de ser “sal da terra” e “luz do mundo” (Mateus 5:13, 14). Assumimos o compromisso de pregar o evangelho com seus valores eternos e o dever de ser relevantes e servir às comunidades em que estamos inseridos, tornando-as lugares melhores.

“A Igreja Adventista tem procurado, desde seu início, seguir o exemplo de Cristo ao advogar a liberdade de consciência como parte integral de sua missão evangélica. À medida que o papel da igreja na sociedade se expande, é apropriado declarar os princípios que guiam nossa igreja em sua extensão mundial nos contatos com os governos das regiões nas quais operamos” (Declarações da Igreja, p. 154). Portanto, como Igreja estamos determinados a cumprir nossos deveres institucionais e individuais, desenvolvendo relacionamentos saudáveis com as instâncias de poder. 

Este documento foi elaborado e aprovado para servir como a referência oficial a respeito do pensamento adventista sobre a relação da organização com questões políticas, partidárias e eleitorais. Ele será útil para pastores, servidores e membros, indicando o posicionamento adequado nessa esfera. Não pretende substituir os conselhos divinos, mas sim expressar claramente a compreensão que a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem acerca do relacionamento institucional com os poderes públicos e os assuntos políticos, bem como os deveres de seus membros como cidadãos. 

1. OS ADVENTISTAS E A POLÍTICA PARTIDÁRIA 

Existem alguns princípios fundamentais que regem a posição da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre política partidária. Um deles é o princípio da separação entre Igreja e Estado, o que leva cada uma dessas entidades a cumprir suas respectivas funções sem interferir nas atividades da outra. A Igreja acredita que adotar uma postura sem filiação partidária ou qualquer tipo de compromisso com partidos políticos é uma das maneiras de manter esse princípio. Tal prática deve nortear não apenas a organização adventista em todos os seus níveis administrativos, mas também as instituições por ela mantidas, seus pastores e servidores. 

A Igreja encontra nos ensinos do Senhor Jesus e dos apóstolos base segura para evitar qualquer militância político-partidária institucional. O cristianismo apostólico cumpriu sua missão evangélica sob as estruturas opressoras do Império Romano sem se voltar contra elas. O próprio Cristo afirmou que Seu reino “não é deste mundo” e que, portanto, os Seus “ministros” não empunham bandeiras políticas (João 18:36). Qualquer posicionamento ou compromisso com legendas partidárias dificultaria a pregação do evangelho a todos indistintamente. 

Por outro lado, a Bíblia não isenta a comunidade de crentes dos deveres civis e do compromisso com a cidadania, e isso está evidente na ordem de Jesus: “Deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Marcos 12:17). O Novo Testamento apresenta várias orientações sobre o dever cristão de reconhecer e respeitar os governos e as autoridades (Romanos 13:1-7; Tito 3:1, 2; 1 Pedro 2:13-17). Somente quando os poderes temporais impõem transgressão às leis divinas é que o cristão deve assumir a postura de antes “obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29). 

Assim, a Igreja Adventista do Sétimo Dia: 

Reconhece as obrigações do exercício da cidadania, mas não possui nem mantém partidos políticos, não se filia a eles, tampouco repassa recursos denominacionais para atividades dessa natureza. Por adotar uma postura apartidária, respeita as autoridades constituídas, mas não incentiva a participação institucional em qualquer atividade político-partidária. 

Entende a importância do processo democrático. Todavia não permite que em seus templos, sedes administrativas e instituições sejam realizadas reuniões com finalidades eleitorais, seja para promoção ou apoio de candidatos (membros e não membros da igreja) ou de partidos políticos. 

Respeita as pessoas eleitas para os diferentes cargos públicos. No entanto, não possui uma bancada de parlamentares, não investe na formação de lideranças partidárias nem trabalha para esse fim. 

2. OS ADVENTISTAS E AS ELEIÇÕES  

Os adventistas reconhecem a autoridade profética e a influência da vida e da obra de Ellen G. White, mensageira e cofundadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Seus escritos não substituem a Bíblia, mas têm servido para aprofundar a compreensão das Escrituras Sagradas. Isso ocorre também em assuntos relacionados com a esfera pública.

Em um de seus diários, ela registrou que, em determinada reunião, os pioneiros adventistas consideraram demoradamente a questão de votar. Depois de serem mencionadas algumas opiniões, ela escreveu: “Eles acham que é correto votar em favor dos homens defensores da temperança para governar nossa cidade, em vez de, por seu silêncio, correr o risco de serem eleitos homens intemperantes” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 337).

Em outra oportunidade, encontramos Ellen G. White assumindo uma posição clara sobre a participação dos membros da Igreja na escolha de candidatos que pudessem favorecer a aprovação de leis que combatessem a venda de bebidas alcoólicas. Nessa ocasião, ela destacou que cada cristão tem a responsabilidade de exercer toda influência possível para estabelecer leis com o propósito de conter essa atividade destruidora da saúde e das famílias. Ela escreveu: “Todo indivíduo exerce uma influência na sociedade. Em nossa terra favorecida, todo eleitor tem, de certo modo, voz para decidir que tipo de leis governará a nação. Não devem sua influência e voto se posicionar ao lado da temperança e da virtude?” (Obreiros Evangélicos, p. 387).

Esses textos deixam claro que cada adventista deve exercer o direito ou o dever de votar, usando essa prerrogativa para eleger pessoas que promovam conceitos em favor da saúde e da qualidade de vida. Certamente isso envolve a preferência por candidatos que também promovam outros princípios e valores bíblicos praticados e defendidos pelos adventistas e que podem se tornar um benefício para toda a população.

Assim, a Igreja Adventista do Sétimo Dia:

Recomenda que seus membros cumpram o direito ou o dever do voto.

Orienta que seus membros votem de acordo com a consciência individual.

Determina que pastores, outros obreiros, jubilados com credencial especial, funcionários da organização, líderes locais e membros não apresentem nem promovam candidatos nos templos, em suas sedes administrativas, unidades educacionais, de saúde e em quaisquer outras instituições, seja nos cultos seja em programas promovidos e realizados pela denominação.

Veda o uso do dízimo e de quaisquer outros recursos denominacionais para financiar candidatos, campanhas eleitorais ou partidos políticos.

Repudia e não autoriza o recebimento de vantagens e benefícios pessoais ou institucionais ilícitos, indevidos ou em desacordo com os Regulamentos Eclesiástico-Administrativos.

Não usa, não fornece nem autoriza o fornecimento de dados cadastrais ou de qualquer outra natureza para o envio de propaganda eleitoral aos seus membros.

Não autoriza a impressão de propaganda ou material de cunho político em suas editoras nem o uso de espaço publicitário em seus periódicos para veiculação de propaganda eleitoral. Fica igualmente não autorizado o uso de internet, rádio, televisão e publicações da Igreja e de suas instituições para esse mesmo fim, salvo quando impostas obrigatoriamente por lei, como no caso da Rádio e da TV Novo Tempo.

Não autoriza o uso do espaço físico de seus templos, escolas, colégios, universidades, sedes administrativas, escritórios de projetos assistenciais e demais instituições para qualquer tipo de propaganda político-partidária eleitoral.

Não aprova que sejam organizados encontros e reuniões por pastores, outros obreiros, jubilados com credencial especial e funcionários da organização, com propósitos político-partidários, em ambientes públicos ou privados.

Determina, clara e expressamente, quem deve falar em nome da Igreja para se comunicar com os órgãos de imprensa e demais meios. Pastores e servidores, editores das casas publicadoras, apresentadores da Rádio e da TV Novo Tempo, jornalistas, assessores de comunicação e comunicadores não estão autorizados a escrever, postar e falar em nome dos adventistas sobre temas políticos, e devem ter constante cuidado para não dar declarações que demonstrem preferências por ideologias, candidatos ou partidos.

3. CANDIDATOS QUE SÃO ADVENTISTAS

Entre os direitos do cristão adventista no exercício da cidadania está o de ocupar cargos públicos, eletivos ou não. O Antigo Testamento menciona exemplos de pessoas que exerceram funções de grande projeção nos governos de sua época. Por exemplo, José foi primeiro-ministro do Egito (Gênesis 41:38-46) e, tendo sido colocado por Deus no comando dessa nação, se manteve puro e fiel na corte do rei e foi “um representante de Cristo” junto aos egípcios (Patriarcas e Profetas, p. 369). Daniel exerceu importantes cargos governamentais em Babilônia sob os reinados de Nabucodonosor, Belsazar, Ciro e Dario, e, com lealdade incondicional aos princípios divinos, ele e seus companheiros foram embaixadores do verdadeiro Deus nas cortes desses reis.

É interessante notar que José e Daniel foram nomeados para funções públicas diretamente pelos próprios monarcas. Hoje, na maioria dos governos, oficiais públicos tanto podem ser nomeados como podem ser eleitos por voto popular. A Igreja Adventista do Sétimo Dia respeita a decisão de seus membros de ocuparem cargos públicos, seja por meio de processo eleitoral seja por nomeação direta. Reconhece também que, como nos tempos de José, Daniel e Ester, a sociedade pode ser beneficiada pelo bom exemplo de políticos religiosos que exerçam suas atividades dignamente, sem comprometer princípios cristãos, ao mesmo tempo em que dão um bom testemunho da fé e promovem os valores bíblicos.

Assim, a Igreja Adventista do Sétimo Dia:

Determina que candidatos adventistas não usem os cultos e programas oficiais da igreja.

Define que os membros que se candidatarem a cargos públicos eletivos se afastem de suas funções de liderança na igreja local durante o período de campanha.

Estabelece que pastores, outros obreiros e funcionários que decidirem lançar candidatura devem se desvincular obrigatoriamente do trabalho na organização adventista. Estabelece que pastores e outros obreiros que decidirem atuar em qualquer trabalho direta ou indiretamente relacionado à política partidária, como assessorias, propaganda, publicidade, ou outras atividades afins, devem se desvincular obrigatoriamente do trabalho na organização adventista.

Estabelece que pastores jubilados com credencial especial que decidirem lançar candidatura ou atuar em qualquer trabalho direta ou indiretamente relacionado à política partidária, como assessorias, propaganda, publicidade, ou outras atividades afins, tenham sua credencial suspensa enquanto durar esse envolvimento.

Reconhece que, quando membros adventistas se candidatarem a cargo eletivo com mandato, serão candidatos exclusivamente do partido político ao qual se filiarem e nunca candidatos oficiais da Igreja Adventista.

Estabelece que, quando surgirem situações em que candidatos, membros da igreja ou não, no exercício do mandato, estiverem concorrendo à reeleição ou a qualquer outro cargo público eletivo, serão tratados de acordo com as orientações deste documento.

Orienta aos administradores e diretores de departamentos de Associações/Missões, Uniões e diretores de instituições que se limitem, no exercício de suas funções, a informar aos pastores e membros sobre candidatura de adventistas. E que o façam com prudência, sem utilizar a estrutura organizacional para pedir ou induzir membros ao voto.

4. OS ADVENTISTAS E AS MANIFESTAÇÕES EM REDES SOCIAIS

O avanço da tecnologia digital em todas as áreas da vida humana, inclusive na discussão da temática político-partidária, é fato inegável e, de certa forma, ilimitado. Como ambiente de manifestações relacionadas a partidos, candidatos e eleições, as redes sociais propiciam muitos debates, mas também apresentam acusações mútuas e a propagação de dados inverídicos. Essas acusações podem ser caracterizadas pelas legislações nacionais como crimes, sujeitando seus propagadores a penalidades.

A livre expressão do pensamento, especialmente em relação às questões políticas, implica profunda responsabilidade, podendo gerar consequências indesejáveis decorrentes da veiculação de conteúdos inadequados. Ainda que as postagens e opiniões de seus membros não reflitam necessariamente o pensamento da Igreja, muitas vezes as manifestações individuais são tidas como se fossem o posicionamento oficial da organização adventista sobre o assunto.

Assim, a Igreja Adventista do Sétimo Dia:

Orienta a todos os que têm vínculo religioso/missionário ou laboral com a organização adventista que não postem nas redes sociais nem encaminhem mensagens com opiniões ou manifestações sobre política partidária nem opções de candidatos a cargos eletivos, especialmente em período de eleições.

Recomenda que membros adventistas sejam muito prudentes ao se envolver em posicionamentos e discussões nas mídias sociais a respeito de política, partidos e eleições. Há outros temas de relevância espiritual e missionária que merecem atenção maior por parte dos que compreendem seu papel como multiplicadores do evangelho.

Reconhece o valor da veiculação nas redes sociais de conteúdos que motivem boas iniciativas em favor das pessoas como forma de contribuir para o bem-estar de todos. A própria organização adventista, quando julgar necessário, expressará seu posicionamento acerca de temas de interesse social, cumprindo seu papel de ser uma voz de esperança na sociedade.

CONCLUSÃO

Como denominação cristã, a Igreja Adventista do Sétimo Dia reconhece o papel legítimo dos governos organizados na sociedade, respeita o direito do Estado de legislar nas questões seculares e consente com essas leis quando não contrariam os preceitos divinos. Entende também que seus membros devem assumir responsabilidades civis com seriedade e exercer o papel de cidadãos, mas sem se esquecer da cidadania celestial.

Não desmerecendo as questões políticas e sua importância, a Igreja Adventista do Sétimo Dia entende ser seu dever dar o devido destaque ao objetivo de desenvolver práticas que resultem no fortalecimento da fé e promovam a esperança na iminente volta do Senhor Jesus Cristo. Reconhece que a vocação de pregar o evangelho envolve executar ações de solidariedade que expressem amor ao próximo e produzam alívio ao sofrimento humano. Por isso, todo esforço e toda energia devem ser canalizados para o serviço desinteressado em favor das pessoas, revelando profundo interesse na sua salvação. Seja nossa oração: “[…] Vem, Senhor Jesus” (Apocalipse 22:20).


Este documento foi preparado em harmonia com as declarações oficiais da igreja, conforme conteúdo do capítulo “A Relação entre Igreja e Estado” (Declarações da Igreja, p. 154-160), adotado pela Associação Geral em março de 2002 e que serve de diretriz e referência para o departamento de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa.

Votado em maio de 2026 pela Comissão Diretiva Plenária da Divisão Sul-Americana.

[via adventistas.org]

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O SOM DO SILÊNCIO

Hoje, dia 7 de maio, comemora-se o Dia do Silêncio. O principal objetivo desta data é conscientizar as pessoas dos males que a poluição sonora provoca, em diversos aspectos, a queda da saúde e da qualidade de vida das pessoas. Além de consequências físicas, o excesso de ruídos também prejudica a concentração e eleva os níveis de estresse. Por este motivo, o Dia do Silêncio convida as pessoas a separar uns minutos durante o dia para desfrutar do total silêncio!

Mas vamos refletir um pouco mais sobre isso...

The Sound of Silence (O Som do Silêncio - ouça aqui) é uma das melhores músicas que já ouvi. Era cantada por Simon e Garfunkel em um arranjo inesquecível, suave, sussurrado. Emocionante. Uma parte da letra dizia: “pessoas conversando sem falar; pessoas ouvindo sem escutar”. A ideia da música era claramente irônica. Não era o som que estava perdido, mas a capacidade de reflexão.

O silêncio era de idéias. Na última estrofe a letra diz “e as pessoas se curvavam e oravam ao deus neon que elas fizeram; e o sinal iluminava seu alerta, nas palavras que formava, e o sinal dizia ‘as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô’ (…)”.

O que os autores ressaltavam era que as pessoas estavam buscando ‘luzes’, no sentido de que queriam shows, entretenimento, diversão. Não queriam o real, não queriam o profundo, não queriam a verdade. Estavam satisfeitos com a imagem dela projetada pelo neon. Mesmo que a mensagem tivesse o intuito de dirigi-los a outro rumo.

Na verdade, todos têm medo do silêncio. Não o silêncio barulhento, cheio de palavras vazias que não dizem nada. O silêncio reflexivo. O medo que esse tipo de silêncio provoca é o do autoconhecimento. Do encontro consigo mesmo. É desse silêncio que fugimos quando chegamos em casa e ligamos a TV. É dele que fugimos quando enchemos nossos dias de milhões de atividades, inclusive as religiosas.

Kierkegaard (teólogo e filósofo dinamarquês do século XIX) coloca que é este o silêncio que provoca a fé. Que provoca o encontro com o Invisível. Quietos, obrigamos nossa mente a refletir em quem somos, no que fazemos, no que queremos. A dureza deste encontro é que realizamos a finitude de tudo o que somos. Somente depois disto, podemos enxergar o Infinito.

A Bíblia diz que Jesus buscava o silêncio e a quietude (Jo 6:15; Mt 14:23; etc.). Ficou no deserto sozinho por 40 dias (Mt 4:1-11). Eram nesses momentos que Ele encontrava-se com Ele. Ellen White diz: "A Majestade do Céu frequentemente, ficava de joelhos a noite toda em oração. Enquanto a cidade estava envolta em silêncio, e os discípulos haviam retornado a seus lares a fim de obter refrigério no sono, Jesus não dormia. Ele escolhia o silêncio da noite, quando não haveria interrupção" (Testemunhos para a Igreja 2, p. 508).

No decorrer de mais um dia, com tantos ‘luminosos de neon’, retire o seu tempo, ligue a sua tecla ‘mute’ e reflita, se encontre, e encontre-se com Ele. Ouça o que fica escondido no barulho do trabalho, do estudo, do namoro, etc. Ouça o verdadeiro som do silêncio.

Ellen White conclui: "Se os que professam crer nas grandes verdades para este tempo se preparassem examinando as Escrituras, orando fervorosamente, e exercitando a fé, colocar-se-iam em posição em que poderiam receber a luz que tanto ambicionam. A eloquência do silêncio diante de Deus é muitas vezes essencial. Se a mente é mantida em contínua agitação, o ouvido é impedido de ouvir a verdade que o Senhor quer comunicar a Seus crentes. Cristo tira Seus filhos daquilo que lhes prende a atenção, a fim de que contemplem Sua glória" (Manuscrito 94, 1897).

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A BÍBLIA E O CUIDADO COM OS DE FORA

O Brasil abriga pouco mais de 2 milhões de migrantes, entre residentes, temporários, refugiados e solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado, de aproximadamente 200 nacionalidades, segundo dados divulgados na última quinta-feira (30/04) pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). O 12º Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) também mostra dados demográficos da população de migrantes e refugiados, como empregabilidade e concentração de comunidades em regiões específicas.

Cerca de 414 mil da população de migrantes estão empregados formalmente no país. O destino principal para trabalho formal é a Região Sul, com 56,2% dos migrantes empregados, sobretudo no setor agroindustrial. Os três estados sulistas também são destaque na oferta de capacitação profissional, especialmente o Paraná (PR), que marca a maior atuação na revalidação de diplomas.

O estudo destaca mudanças nos fluxos migratórios de venezuelanos, haitianos, cubanos e angolanos no Brasil e aponta a necessidade de políticas específicas.

Entre venezuelanos, há incerteza sobre novos fluxos, com possível pressão sobre Roraima e demanda por assistência a mulheres, crianças e idosos em vários estados. Entre haitianos, a tendência é de estabilização, com foco na reunificação familiar e atendimento a mulheres e crianças.

Outro ponto de relevância do relatório é o crescimento da imigração cubana, concentrada em Roraima, Amapá e estados do Sul e Sudeste, pressionando o mercado de trabalho local. Já os angolanos ampliaram a chegada desde 2021, sobretudo homens em idade ativa, além de crianças, exigindo ações de emprego e apoio social.

O cuidado com os de fora
Os cristãos precisam estar atentos para unir esforços e atender os que são de fora, refugiados ou migrantes, com a mesma disposição de ajudar os amigos mais chegados. Na Bíblia percebemos que, em diferentes épocas, os ensinos divinos por meio de profetas, mestres, apóstolos e do próprio Cristo exaltam o devido atendimento aos estrangeiros.

Na Palavra de Deus, vemos ­Moisés recebendo diretamente do Senhor a certeza de que o estrangeiro que peregrinava com os israelitas não deveria ser oprimido, mas sim amado (Êx 23:9; Lv 19:33, 34). Afinal, o povo hebreu sabia o significado de ser estrangeiro devido à sua experiência durante o cativeiro egípcio.

Essa preocupação ainda abrangia a alimentação e os estatutos (Lv 23:22; 24) porque a parte da colheita que caía não devia ser recolhida, pois serviria aos de fora. E tanto os estrangeiros quanto os naturais recebiam a mesma lei.

O tratamento precisava ser igual também nas cidades de refúgio que serviam de proteção na época. Elas abrigavam os filhos de Israel e os estrangeiros (Nm 35:15).

Deus reforçou continuamente o pedido de misericórdia e piedade para que Seu povo não oprimisse os que haviam se juntado a eles (Sl 146; Is 56; Jr 7; Jr 22; Zc 7; Ml 3).

Já o Novo Testamento mostra judeus e samaritanos como inimigos acirrados. Para romper esse problema, Jesus fez questão de passar por Samaria e Se encontrar com a mulher no poço de Jacó e então Se apresentar como o próprio Messias (Jo 4:26). A atenção foi tanta aos estrangeiros que, a pedido deles, Cristo ficou em Sicar dois dias e, assim, muitos creram em Suas palavras.

Atos 8 é outro exemplo da mensagem de amor que alcança todos. O encontro de Filipe com o eunuco etíope, oficial da rainha Candace, resultou na explicação das boas-novas de Jesus e no batismo do etíope.

Quando o assunto é o estrangeiro no Novo Testamento, o ­apóstolo Paulo tem muitas passagens em que afirmou que Deus o colocou como representante perante eles. Mais que isso, ele é enfático ao frisar que seu ministério estava voltado aos de fora, denominados naquela época de gentios (At 9, 22, 28). Aliás, qualquer pessoa que não fosse descendente de judeus era automaticamente considerada gentia.

Essa ênfase paulina aparece de suas cartas (Gl 1; 1Tm 2), sem contar que Paulo exaltou seu ministério aos de fora (Rm 11:13) e ainda fez questão de demonstrar seu amor pela missão voltada aos gentios (Ef 3:1).

Respeito e ajuda aos estrangeiros
Diante de tantos exemplos bíblicos do cuidado com os estrangeiros, é preciso atentar a essas situações. O atendimento aos refugiados e aos migrantes deve ser uma prática costumeira dos cristãos que “amam o próximo como a si mesmos” (Mt 22:39).

O exercício do amor assiste o próximo, seja ele o vizinho de porta ou alguém chegado de outro país, pois todos somos irmãos de um único Pai. Portanto, não deve haver disparidade no tratamento quando nos relacionamos com nativos ou estrangeiros, com familiares de sangue com quem convivemos durante toda a vida ou com irmãos em Cristo que acabamos de conhecer e com quem precisamos fortalecer laços e vínculos.

Toda ajuda aos refugiados e migrantes demonstra a disposição do amor cristão em servir como participante de um reino que demanda urgência na atenção à fragilidade humana. É essencial atender disposições cotidianas e reafirmar a esperança vindoura de uma pátria em que não mais seremos “estrangeiros e peregrinos na terra” (Hb 11:13).

O auxílio ao próximo é um remédio contra o coração egoísta, e o serviço a estrangeiros necessitados deve aumentar consideravelmente para que as situações de xenofobia sejam combatidas.

As seguintes palavras publicadas por Ellen White na Review and Herald de 25 de julho de 1918 parecem ganhar mais sentido atualmente: “O povo de Deus deve trabalhar fielmente em terras distantes, segundo Sua providência abrir o caminho; e deve também cumprir seu dever para com os estrangeiros de várias nacionalidades nas cidades e vilas e distritos rurais próximos”.

Se com o passar do tempo os relacionamentos que rompem fronteiras aumentam, é certo que também precisamos de boas práticas no acolhimento e no atendimento do estrangeiro. Enquanto um novo céu e uma nova Terra não chegam, devemos nos dispor a ser usados pelo Espírito para amenizar as tensões que chegam até nossa cidade.

[Com informações de Revista Adventista]

sexta-feira, 1 de maio de 2026

TRABALHO: BÊNÇÃO OU MALDIÇÃO?

“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1Co 15:58).

O trabalho é ideia de Deus. No mundo ideal antes do pecado, Deus deu a Adão e Eva a tarefa de cuidar do jardim (Gn 2:15). Como Criador, em cuja imagem eles haviam sido formados, eles deveriam se ocupar com trabalho criativo e serviço amoroso. Ou seja, mesmo no mundo não caído, sem pecado, morte e sofrimento, a humanidade deveria trabalhar. Diz Ellen G. White: "Deus colocou nossos primeiros pais no Paraíso, circundando-os de tudo quanto era útil e belo. Em seu lar edênico não faltava coisa alguma que lhes pudesse servir ao conforto e felicidade. E a Adão foi dado o trabalho de cuidar do jardim. O Criador sabia que Adão não poderia ser feliz sem ocupação. A beleza do jardim encantava-o, mas isto não era suficiente. Precisava de ter trabalho que chamasse ao exercício os maravilhosos órgãos do corpo. Houvesse a felicidade consistido em nada fazer, e o homem, em seu estado de inocência, haveria sido deixado sem ocupação. Mas Aquele que criou o homem sabia o que seria para sua felicidade; e assim que o criou designou-lhe um trabalho. A promessa da glória futura, e o decreto de que o homem deve trabalhar pelo pão de cada dia, vieram do mesmo trono" (Nossa Alta Vocação, p. 219).

Nesse período intermediário (após o mundo ideal e antes do prometido), somos convidados a considerar o trabalho como uma das bênçãos de Deus. Toda criança aprendia um ofício entre os judeus. Dizia-se que um pai que não ensinasse um ofício ao seu filho criaria um criminoso. Jesus, o Filho de Deus, passou muitos anos cumprindo a vontade de Seu pai em um trabalho honesto como carpinteiro e artesão habilidoso, talvez fornecendo às pessoas de Nazaré móveis e utensílios agrícolas necessários (Mc 6:3). Isso também fazia parte da educação que O prepararia para o ministério adiante. O apóstolo Paulo realizou a obra do Senhor da mesma forma ao trabalhar ao lado de Áquila e Priscila por um ano e meio como fabricante de tendas, enquanto debatia na sinagoga aos sábados (At 18:1-4;2Ts 3:8-12).

Mas às vezes o trabalho parece ter vindo como parte da maldição do pecado (Gn 3:17). Porém, uma leitura mais atenta revela que a Terra foi amaldiçoada, e não o trabalho. Ellen G. White declarou que Deus pretendia que essa ordem funcionasse como uma bênção: “E a vida de trabalho árduo e preocupações, que dali em diante deveria ser o destino do homem, foi ordenada com amor. Uma disciplina que havia se tornado necessária pelo seu pecado foi o obstáculo posto à satisfação do apetite e dos maus desejos, para desenvolver hábitos de domínio próprio. Fazia parte do grande plano de Deus para restaurar o ser humano da ruína e degradação do pecado” (Patriarcas e Profetas, p. 60).

Será que temos feito do trabalho uma maldição pela monotonia, excesso ou supervalorização de sua função em nossa vida? Qualquer que seja a nossa situação, precisamos colocar o trabalho em sua perspectiva adequada. E a educação cristã deve ensinar as pessoas para que elas aprendam o valor do trabalho, mas, ao mesmo tempo, que não façam dele um ídolo.

Para algumas pessoas, o trabalho significa apenas a enfadonha labuta diária, que terminará com a morte. Elas trabalham em empregos que desprezam, na esperança de se aposentarem enquanto ainda têm saúde. Para outras, o trabalho pode até dominar a vida, tornando-se o centro da sua existência, até mesmo a fonte abrangente da identidade pessoal. Longe do trabalho, essas pessoas se sentem deprimidas ou desorientadas, sem saber o que fazer ou para onde ir. Na aposentadoria, elas podem desmoronar física e psicologicamente, e geralmente morrem prematuramente.

Os cristãos precisam aprender a trabalhar da maneira que Deus deseja. O trabalho é mais que uma necessidade econômica. O homem é mais que um empregado. Compreendido da maneira correta, o trabalho de alguém pode ser uma possibilidade de ministério, uma expressão de seu relacionamento com o Senhor. Parte da tarefa de um professor é ajudar os alunos a encontrar um trabalho em que suas habilidades e interesses dados por Deus coincidam com as necessidades do mundo.

Embora “a obra das nossas mãos” seja uma bênção de Deus para nós (veja Sl 90:17) e possibilite que vivamos de maneira significativa, o plano supremo de Deus é que “a obra das nossas mãos” abençoe os outros. Paulo declarou que devemos trabalhar, fazendo algo útil com nossas mãos, para que possamos ter algo a compartilhar com os outros (Ef 4:28). Ele certamente viveu por este princípio: “Vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo. Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20:34, 35). A oração simples de Neemias deve ser a nossa: “Agora, pois, ó Deus, fortalece as minhas mãos” (Ne 6:9).

O fato de sermos seres humanos caídos e pecadores não é desculpa válida para tratar qualquer tarefa com nada menos que a máxima dedicação. Deus espera que sempre tenhamos o melhor desempenho, usando bem nossos talentos, habilidades, tempo e educação para grandes causas.

“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gl 5:25). O trabalho e a espiritualidade são inseparáveis. O cristianismo não é uma peça de roupa que pode ser vestida ou tirada quando mudamos de humor ou passamos por diferentes fases da vida. Em vez disso, o cristianismo cria um novo ser que se manifesta em todas as dimensões da vida, inclusive no trabalho.

Uma das armadilhas comuns da vida é a tendência de “compartimentalizar” os diferentes aspectos da vida. Existe vida profissional, familiar, espiritual e até uma vida de lazer. A tendência de separar essas áreas para que haja pouca ou nenhuma convergência entre elas deve ser desejada em alguns casos. Por exemplo, não é bom levar o trabalho para casa de maneira que interfira nas responsabilidades da família. A busca do lazer também não deve reduzir o tempo que passamos com Deus.

No entanto, essa restrição não deve se aplicar à função que nossa vida espiritual deve desempenhar em toda a nossa existência. O trabalho do cristão é modelado pela comunhão com Deus e pela nossa obra com Ele. O trabalho é um modo de praticar a presença de Deus. Compartimentalizar nossa vida religiosa, limitar Deus a um dia, a uma hora ou até apenas a uma área da vida é rejeitar a própria presença de Deus nessas outras áreas.

Portanto, o trabalho foi criado por Deus para: (1) contribuir para o desenvolvimento harmonioso de todas as faculdades do ser humano; (2) cuidar da Terra, assim como veio das mãos de Deus; (3) fazer parte da vida religiosa do ser humano, o que implica adoração; (4) ser uma bênção para o ser humano; (5) fazer parte do plano da redenção; (6) ser um canal de recompensa econômica que permita ao ser humano honrar a Deus; (7) possibilitar que o homem desfrute da obra de suas mãos; mas, (8) o trabalho não deve interferir em suas outras responsabilidades, nem deve exceder suas capacidades.

Ao invés de ser algo cansativo, entediante ou um instrumento de exploração, Deus sempre desejou que o trabalho fosse uma bênção, que desse sentido para a vida. Os aspectos negativos relacionados ao trabalho acompanharão nossa rotina apenas enquanto durar as consequências do pecado. No Éden, Adão trabalhou, e na Terra restaurada, os salvos continuarão a trabalhar, não “em vão”, porque aproveitarão ao máximo essa atividade (Is 65:21-23). Quem espera um paraíso sem trabalho vai se decepcionar, pois Deus trabalha e os anjos também.

Ellen G. White conclui: A sonolência e a preguiça destroem a piedade, e ofendem o Espírito de Deus. Um poço estagnado exala desagradável odor; mas uma corrente pura esparge saúde e alegria pela terra. Nenhum homem ou mulher convertido pode deixar de ser um trabalhador. Há certamente e sempre haverá emprego no Céu. Os remidos não viverão num estado de sonhadora preguiça. Resta um repouso para o povo de Deus — repouso que eles encontrarão em servir Aquele a quem devem tudo quanto possuem e são" (Nossa Alta Vocação, p. 219).

quinta-feira, 30 de abril de 2026

TÚMULOS ABERTOS

De acordo com o evangelho de Mateus, quando Jesus morreu, “os túmulos se abriram, e muitos corpos de santos, já falecidos, ressuscitaram e, saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos” (Mt 27:52, 53). Esse evento só está registrado nesse verso da Bíblia e levanta uma série de perguntas para as quais não temos respostas definitivas.

O QUE DIZ O TEXTO?
O texto estabelece uma série de pontos muito claros: (1) confirma que Jesus morreu e ressuscitou; (2) declara que houve um terremoto que abriu os túmulos, e alguns do povo de Deus foram ressuscitados; (3) informa que a ressurreição deles ocorreu paralelamente à morte e à ressurreição de Jesus, indicando que Sua ressurreição beneficiará as gerações passadas; (4) reitera que essa foi uma ressurreição literal, com a intenção de afirmar que Jesus tinha poder sobre a morte; e (5) destaca o fato de que os ressuscitados foram a Jerusalém e “apareceram a muitos”, o que sugere que eles não permaneceram entre os vivos para morrer novamente, mas foram ressuscitados para a vida eterna. 

MUITAS PERGUNTAS
A passagem desperta muitas perguntas. Quem eram eles? Muitos cristãos incluem Adão, José, ­Moisés e Jó entre os santos ressuscitados. Alguns comentaristas sugerem que entre eles estavam patriarcas, profetas e mártires. Outros perguntam sobre os critérios que Deus usou para escolher quem haveria de ressuscitar, e há aqueles que afirmam que eram mártires. A sugestão parece ter algum valor teológico, indicando que aqueles que voluntariamente deram sua vida pelo Senhor foram os primeiros a receber a vida de volta por meio da morte do Filho de Deus. Ellen White diz que "aqueles favorecidos santos ressurgidos saíram glorificados. Eram escolhidos e santos de todos os tempos, desde a criação até os dias de Cristo" (Primeiros Escritos, p. 184). E continua: "Eram os que haviam colaborado com Deus, e que à custa da própria vida tinham dado testemunho da verdade. Agora deviam ser testemunhas dAquele que os ressuscitara dos mortos" (O Desejado de Todas as Nações, p. 786).

QUANDO ELES RESSUSCITARAM?
A versão Nova Almeida Atualizada (NAA) parece sugerir que eles ressuscitaram na sexta-feira, mas permaneceram no túmulo até depois da ressurreição de Jesus. O texto também poderia ser traduzido como: “os túmulos se abriram, e muitos corpos de santos já falecidos ressuscitaram e saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus…” Assim, as tumbas foram abertas na sexta-feira, mas a ressurreição ocorreu no domingo, após a ressurreição de Jesus. Ellen White diz: "Quando Cristo ressurgiu, trouxe do sepulcro uma multidão de cativos. O terremoto, por ocasião de Sua morte, abrira-lhes o sepulcro e, ao ressuscitar Ele, ressurgiram juntamente" (Idem).

O DESTINO DOS RESSURRETOS
Mateus declara apenas que os santos apareceram a outras pessoas em Jerusalém, provavelmente para testificar sobre a ressurreição de Jesus. Se foram ressuscitados para a vida eterna, teriam ido para o Céu quando Cristo ascendeu. A declaração de Paulo em Efésios 4:8 pode ser útil: “Quando Ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens.” O verso descreve dois benefícios da obra de Cristo: em Sua ascensão, Ele concedeu o dom do Espírito a Seu povo e levou consigo um exército de cativos, ­conduzindo-os ao Céu como troféus de Sua vitória sobre a morte e Satanás. Jesus é as primícias dos que dormem (1Co 15:20), e aqueles que ressuscitaram com Ele são a primeira expressão de Seu poder de conceder vida eterna aos seres humanos. A ressurreição deles antecipa a ressurreição escatológica dos justos na segunda vinda.

Ellen White diz: "Aqueles que ressurgiram por ocasião da ressurreição de Cristo, saíram para a vida eterna. Ascenderam com Ele, como troféus de Sua vitória sobre a morte e o sepulcro. Estes, disse Cristo, não mais são cativos de Satanás. Eu os redimi. Trouxe-os da sepultura como as primícias de Meu poder, para estarem comigo onde Eu estiver, para nunca mais verem a morte nem experimentarem a dor" (Idem).

Ellen White finaliza: "Depois que Jesus abençoou os discípulos [na ascensão], separou-Se deles e foi recebido em cima. E, ao subir, a multidão de cativos que ressuscitara por ocasião de Sua ressurreição, seguiu-O. Uma multidão do exército celestial estava no cortejo, enquanto no Céu uma inumerável multidão de anjos aguardava a Sua chegada" (Primeiros Escritos, p. 190). 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

DANÇA

O Dia Mundial da Dança, comemorado no dia 29 de abril, foi instituído pelo CID (Comitê Internacional da Dança) da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) no ano de 1982. A comemoração tem por base o dia de nascimento de Jean-Georges Noverre, que nasceu em 1727 e foi um dos grandes nomes mundiais da dança.

Os cristãos e a dança
Você já foi a algum lugar, talvez em um shopping, um restaurante ou até mesmo em uma esquina quando, de repente, começou a ouvir música? Não estou falando de qualquer música, mas de um ritmo quente, uma batida forte. Pode ser que você nunca tenha ouvido aquela música e nem conheça a letra, mas antes de se dar conta, seus pés estão acompanhando a batida e seu corpo começa a balançar no ritmo. Você está – dançando!

Os adventistas e outros cristãos conservadores têm, em geral, se oposto à dança social, tão popularizada em nossos dias. Pergunta: A dança é apropriada para os cristãos hoje? Expressar-se com o corpo é algo absolutamente normal para todos nós. Mas até sobre nossa comunicação corporal há uma responsabilidade a ser tomada.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia geralmente desaconselha a dança social moderna, bailes e discotecas, focando em evitar ambientes associados a comportamentos considerados sensuais ou seculares. No entanto, não há uma regra explícita, sendo comum a aceitação de danças culturais ou artísticas.

A prática de ballet, por exemplo, é um tema com nuances, focado mais no contexto e intenção do que na dança em si. Embora a igreja tradicionalmente desaconselhe a dança de salão ou festiva, o ballet técnico, a dança cultural ou atividades físicas que promovem a beleza e a saúde não são proibidos. O ballet é aceitável quando focado em arte, disciplina física e expressão artística, sem conotação sensual. Escolas adventistas já organizaram atividades de ballet, como indicado pelo Kraft Ballet. 

Embora a denominação tradicionalmente desaconselhe estas danças, muitos veem a zumba e o fit dance como atividades físicas que ajudam a emagrecer e tonificar músculos, como exercícios físicos aeróbicos saudáveis (semelhante à ginástica) para saúde e alegria, desde que evite estilos sensuais, músicas inadequadas ou ambientes impróprios. A avaliação sobre se a coreografia ou a música extrapolam os limites aceitáveis é, muitas vezes, pessoal, guiada pela consciência e princípios bíblicos.

Dança nos tempos bíblicos
Veja só, as pessoas dançavam nos tempos bíblicos! Elas dançavam e nem sempre era errado. Qual é o critério para definir o certo e o errado neste caso? Para responder a essa pergunta, vamos começar com Davi.

Tensa de entusiasmo, a multidão se acotovelava para ver o cortejo que passaria em seguida. Eles podiam ouvir as trombetas e os tamborins e as canções de louvor a Deus ecoavam pelos campos. A Arca do concerto, finalmente, estava voltando a Jerusalém depois de tantos anos que havia sido levada de seu lugar de honra. Tudo seria diferente agora. À medida que o cortejo se aproximava, uma figura sobressaía à vista dos observadores. Davi, o rei de Israel, não vestia os trajes reais. Ao invés disso, ele dançava diante da arca do concerto vestido com uma estola sacerdotal de linho branco. Davi tinha conseguido o que queria. Naqueles dias, quando um exército capturava tropas inimigas, era costume forçar um ou mais cativos a dançar alegremente diante do rei vitorioso. Isso simbolizava submissão e humilhação na presença do rei. Quando Davi dançou diante da arca, ele queria que todo Israel reconhecesse que ele era cativo de Deus e estava demonstrando submissão e humildade ao Rei do Universo.

Você acha que o povo ficou chocado por que ele dançou? De jeito nenhum. Você acha que a multidão entendeu a mensagem que Davi queria passar? É claro que sim. E que mensagem foi aquela! Vamos ler o que Ellen White nos diz a esse respeito: "A dança de Davi em júbilo reverente, perante Deus, tem sido citada pelos amantes dos prazeres para justificarem as danças modernas da moda; mas não há base para tal argumento. Em nosso tempo a dança está associada com a extravagância e as orgias noturnas. A saúde e a moral são sacrificadas ao prazer. Para os que frequentam os bailes, Deus não é objeto de meditação e reverência; sentir-se-ia estarem a oração e o cântico de louvor deslocados, na assembléia deles. Esta prova deve ser decisiva. Diversões que tendem a enfraquecer o amor pelas coisas sagradas e diminuir nossa alegria no serviço de Deus, não devem ser procuradas por cristãos. A música e dança, em jubiloso louvor a Deus, por ocasião da mudança da arca, não tinham a mais pálida semelhança com a dissipação da dança moderna. A primeira tendia à lembrança de Deus, e exaltava Seu santo nome. A última é um ardil de Satanás para fazer os homens se esquecerem de Deus e O desonrarem" (Patriarcas e Profetas, p. 707).

A Bíblia tem apenas 27 versos que mencionam diretamente a dança. A partir deles, temos elementos para compreender que tipo de atitude deve estar por trás da dança. “Cantem glória ao Senhor com trombetas, com harpas e liras! Cantem glória ao Senhor com tamborins e danças, com instrumentos de corda e flautas! Cantem glória ao Senhor com címbalos de som bem forte e puro!” (Sl 150:3-5).

Esses versos, obviamente, falam da dança como um meio de louvar a Deus. É importante compreender o significado hebraico da palavra “dança” nesse texto. A dança mencionada aqui é a dança de roda ou círculo. Não é uma dança individual ou em pares como muitas danças seculares hoje. Nada sugere isso no contexto. Esse tipo de dança consiste de movimentos como bater os pés, saltar, girar e dar pequenos pulos com os pés juntos.

Outros versos falam a respeito da dança como um meio de expressar alegria entre a comunidade. Isso acontecia quando uma vitória era conquistada sobre o inimigo. Uma análise das referências bíblicas à dança revela o fato de que as danças israelitas consideradas como apropriadas eram de natureza litúrgica, sendo acompanhadas por hinos de louvor a Deus. Elas eram geralmente praticadas entre grupos de pessoas do mesmo sexo e sem quaisquer conotações sensuais (ver Êx 15:20; Jz 11:34; 21:21-23; 1Sm 18:6; 21:11; 2Sm 6:14-16; 1Cr 15:29; Jr 31:14).

Alguns conselhos
Se estiver pensando: “Ah, viu só? Não tem nada de errado com a dança”, não se esqueça de que há outros pontos a considerar além de sua aceitabilidade como forma de louvor. Se você começar a pular e a dançar no corredor central de sua igreja no próximo sábado, imitando Davi, não espere ser recebido calorosamente como ele foi. Como qualquer outra atividade, é importante relembrar o conselho de Paulo aos coríntios: “Bem, vou dizer-lhes a razão. É que vocês devem fazer tudo para a glória de Deus, até mesmo ao comer e ao beber. Portanto, não sejam pedra de tropeço para ninguém, quer sejam eles judeus, gentios ou cristãos” (1Co 10:31-32, BV).

Em contraste com as danças litúrgicas do período bíblico, a maioria das danças modernas são praticadas sob o ritmo sensual das músicas profanas, que desconhecem completamente o princípio enunciado em Filipenses 4:8: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvou existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.” 

É certo que Satanás trabalha muito para perverter qualquer coisa boa que Deus nos deu. Ele fez a mesma coisa com a dança, torcendo-a de tal modo que nada de bom ficasse na dança secular; e, embora ela esteja tão cheia de intenções pecaminosas, alguns cristãos relutam em evitá-la completamente. Ellen White adverte: "O verdadeiro cristão não desejará entrar em nenhum lugar de diversão nem se entregar a nenhum entretenimento sobre que não possa pedir a bênção divina" (Mensagens aos Jovens, p. 398).

Quando os israelitas se juntaram ao pé do Monte Sinai, Deus ordenou que eles não tivessem outros deuses diante dEle. Hoje, reconhecemos tal ordem como um dos Dez Mandamentos. Alguns capítulos adiante, em Êxodo 32:19, esses mesmos israelitas estão cultuando um bezerro de ouro através de danças. Em algumas partes do mundo, danças folclóricas são usadas para cultuar os deuses da fertilidade, o espírito dos mortos e para apaziguar Buda e outros deuses.

Em Mateus 14, a história de Salomé, a filha de Herodias que dançou diante de Herodes, acrescenta outra dimensão à degradação da dança. O episódio implica que a performance de Salomé foi muito sensual. Ao se tornar excitado sensualmente, Herodes, de modo insensato, prometeu que daria a Salomé qualquer coisa que pedisse. E, por ter deixado que as emoções o controlassem, João Batista perdeu a cabeça – literalmente.

Embora os judeus nos dias de Jesus continuassem praticando a dança (ver Lc 15:25), não encontramos nenhuma evidência no Novo Testamento de que a igreja cristã primitiva perpetuasse tal costume. Há quem sugira que esse rompimento cristão com a dança deve-se à degeneração desde já no tempo de Cristo.

Antes de os israelitas cruzarem o Jordão, muitos deles foram seduzidos por mulheres moabitas (veja Números 25). Como parte de seu envolvimento, os homens participaram de atos de perversão que incluíam a dança. A dança promovia excitação sexual de modo inadequado. A Bíblia diz: “a ira do Senhor se acendeu contra Israel” (Nm 25:3). Deus deu instruções a Moisés para que matasse os que haviam participado desses eventos. Depois de tudo acabado, vinte e quatro mil israelitas foram mortos. Foram mortos por que dançaram? Não. Morreram porque aquele tipo de comportamento inapropriado levou a ações indecentes e inaceitáveis diante de Deus.

Conclusão
Como podemos observar, a partir dessas histórias podemos saber que há vários tipos de dança, como por exemplo: 1 - Aquelas que cultuam qualquer outro deus que não o Deus do universo; 2 - Danças que estimulam sexualmente os participantes.

Grande parte das danças de hoje tem-se transformado em um dos maiores estimuladores do sensualismo. Mesmo não se envolvendo diretamente em relações sexuais explícitas, seus participantes geralmente se entregam ao sensualismo mental (ver Mt 15:19-20), desaprovado por Cristo em Mateus 5:27-28: “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.”

Há aqueles que endossam as danças particulares entre cônjuges unidos pelos laços matrimoniais. Embora tais práticas pareçam inocentes à primeira vista, elas representam o primeiro passo rumo a estilos mais avançados de dança, integrando eventualmente o casal a grupos dançantes. Seja como for, o cristão dispõe hoje de outras formas de integração e entretenimento sociais mais condizentes com os princípios bíblicos de conduta do que a excitação e o sensualismo promovidos pela maioria das danças modernas.

Considerado tudo isso, você pode dizer honestamente que sua participação na dança secular demonstraria aos outros um caráter cristão? Ou será que seu testemunho ficaria comprometido? Em cada decisão que tomamos, escolhemos ficar a favor ou contra Deus. Por isso, é bom ter certeza absoluta do que está escolhendo. Isso fará diferença no mundo – neste e no vindouro.

terça-feira, 28 de abril de 2026

MÚSICAS EMPRESTADAS

Não há nada inerentemente errado em cantar músicas escritas por outros. O povo de Deus sempre compartilhou música, transcendendo fronteiras geográficas e gerações. Canções adaptadas podem nos ensinar teologia, nos conectar ao corpo de Cristo em geral e dar voz a verdades que ainda estamos aprendendo a expressar.

Mas um perigo silencioso surge quando as músicas emprestadas se tornam as únicas músicas que oferecemos.

Com o tempo, a igreja pode perder não apenas a criatividade, mas também a identidade.

Adoração no micro-ondas versus Louvor caseiro
Imagine uma casa onde todas as refeições vêm do micro-ondas. A comida é preparada em outro lugar. É consistente, eficiente e “segura”. Mata a fome, mas nunca preenche a casa com o cheiro da comida, o som do preparo ou a alegria do trabalho em equipe.

Espiritualmente, algo semelhante acontece quando a adoração é sustentada inteiramente por músicas compostas por outras pessoas.

Músicas emprestadas são convenientes. Economizam tempo. Reduzem riscos. E muitas vezes soam muito bem. Mas não nasceram de nossas orações, nosso arrependimento, nossa dor ou nossa gratidão. Elas carregam o testemunho de outra pessoa — fiel, sincero e real —, mas não o nosso .

Deus nunca pediu ao Seu povo que trouxesse sobras ao altar.

A inconsistência que jamais aceitaríamos em qualquer outro lugar
Imagine o quão artificial seria se esse mesmo padrão moldasse o restante da vida da igreja.

E se os pregadores apenas reutilizassem os sermões exatos de outros pregadores — sem nunca se debruçarem sobre o texto, sem nunca ouvirem o que o Espírito poderia estar dizendo àquela congregação, naquele momento ?

E se todas as nossas orações fossem recitadas exclusivamente a partir das palavras de outras pessoas — nunca moldadas por nossas próprias confissões, intercessões ou súplicas por misericórdia?

E se a igreja simplesmente repetisse o que outros já disseram — refletindo pensamentos emprestados em vez de envolver o coração, a mente e o corpo em resposta a Deus?

Com razão, pressentiríamos que algo estava errado.

Não porque esses sermões, orações ou escritos fossem infiéis, mas porque o culto deixou de ser participativo. As pessoas estariam consumindo a fé em vez de praticá-la.

No entanto, muitas vezes aceitamos esse padrão na música sem questioná-lo.

A adoração razoável exige que sejamos nós mesmos por inteiro
As palavras de Paulo em Romanos 12:1, 2 são surpreendentemente concretas e pessoais:

“Apresentem os seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o culto racional de vocês. [...] Transformem-se pela renovação da sua mente.”

Segundo as Escrituras, a adoração não é mera repetição, mas sim oferecer-nos a nós mesmos.

Nossas mentes.

Nossos corpos.

Nossas experiências.

Terceirizar toda a expressão musical é, involuntariamente, reter parte dessa oferta.

Deus não deseja apenas a precisão das palavras; Ele convida à transformação das pessoas. E a transformação acontece quando os crentes se envolvem ativamente — pensando, criando, respondendo e oferecendo a Deus aquilo que Ele primeiro operou neles.

Canções emprestadas moldam teologia emprestada
A música nos forma muito antes de nos informar. O que cantamos repetidamente torna-se o que instintivamente assumimos. Quando todas as nossas canções vêm de outras comunidades, outras culturas e outros ecossistemas teológicos, adotamos lentamente suas ênfases como se fossem nossas — às vezes sem perceber.

Repito, isto não é uma acusação. É uma observação pastoral.

Quando uma igreja nunca compõe suas próprias canções, ela pode até manter suas crenças, mas gradualmente perde a capacidade de expressá- las musicalmente. Eventualmente, a congregação deixa de saber como cantar sua fé com suas próprias palavras.

E aquilo que uma comunidade não consegue cantar, terá dificuldade em transmitir.

Compor canções não é uma performance — é um ato de cuidado pastoral
Compor canções não é exclusividade de profissionais, artistas de gravação ou pessoas especialmente talentosas. Na vida da igreja, é um ato pastoral.

Músicas locais:

• Dar voz ao lamento local.

• Preservar os testemunhos locais.

• Ensine a doutrina com um sotaque familiar.

• Ancore a fé na experiência vivida.

Uma canção escrita localmente pode nunca viajar muito longe, mas pode influenciar profundamente.

Os Salmos não foram escritos para impressionar as gerações futuras. Foram escritos porque Deus encontrou pessoas em situações reais, e o louvor foi a resposta natural.

Um convite à coragem
Este não é um chamado para abandonar canções emprestadas. É um chamado para completar nossa adoração.

Cante a igreja global.

Cante a igreja histórica.

Mas também — cante na sua igreja.

Cante o que Deus fez entre este povo.

Cante enquanto responde às suas perguntas.

Cante seu arrependimento.

Cante a sua esperança.

Músicos: Deus não está esperando que vocês soem como todo mundo. Ele está convidando vocês a oferecerem o que Ele já colocou dentro de vocês.

O mesmo Senhor que acolhe sermões preparados com estudo e oração e orações proferidas com corações sinceros também se alegra com canções que nascem de vidas fiéis.

Não foi aquecido no micro-ondas.

Mas feita em casa.

Preparado com reflexão, sacrifício e amor.

E oferecido como um ato de adoração vivo e racional.