sexta-feira, 3 de abril de 2026

LÍNGUAS ESTRANHAS

O dom de línguas mencionado na Bíblia tem sido incompreendido pelos sinceros irmãos da atualidade. Há mesmo quem afirme que quem não fala em “línguas estranhas” não é batizado com o Espírito Santo (contrariando totalmente o que está escrito em Efésios 1:13 que afirma sermos selados pelo Espírito a partir do momento em que cremos em Jesus e não no momento em que “falamos línguas estranhas”), ou seja, é uma espécie de “cristão de segunda classe”. Asseguram inclusive que a única prova de ser batizado com o Espírito Santo é falar “língua estranha”.

Definição e Propósito
Segundo a Bíblia, o dom de línguas é a capacidade de falar outra língua conhecida, em outro idioma (esse é o significado do termo grego para “língua”) com o objetivo de anunciar a boa notícia e salvação por meio de Cristo.

Mateus 28:19, 20 diz que devemos “ensinar as pessoas a guardarem todas as coisas…” Observe que, para ensinar, é indispensável conhecer a língua falada do estrangeiro. “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso” (1 Coríntios 12:7). Concluímos, obviamente, que o falar em língua deve ter uma utilidade; deve ser, ao menos, inteligível. Lembrando: que tenha um propósito evangelístico.

Esta experiência autêntica aconteceu com os discípulos por ocasião do Pentecostes (a palavra pentecostes é grega e quer dizer “quinquagésimo (dia)”, pois essa festa era comemorada cinquenta dias depois da Páscoa (Dicionário da Bíblia de Almeida – Sociedade Bíblica do Brasil):

“Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. Estavam, pois, atônitos e se admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos esses que aí estão falando? E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?” (Atos 2:1-11).

O relato mostra que o dom de línguas foi dado para evangelizar. O verso 6 declara que “cada um ouvia falar na sua própria língua” o que cada seguidor de Cristo dizia e o verso 8 confirma: “e como os ouvimos falar cada um em nossa própria língua materna?” Pela terceira vez exclamaram os estrangeiros: “como os ouvimos falar em nossa própria língua as grandezas de Deus ?” (verso 11).

Havia, naquele lugar, cerca de 18 nações diferentes. Os apóstolos não tinham tempo e nem uma escola para aprender todos aqueles idiomas. Você percebeu? Houve uma “NECESSIDADE” de pregar o evangelho em um lugar onde havia muita gente (Deus não poderia perder aquela oportunidade!); por isso, o Senhor deu-lhes o dom de línguas estrangeiras. Note que os discípulos não falaram palavras ou sílabas sem sentido. Eram compreendidos em outros idiomas.

Há aspectos importantes a analisarmos o dom de línguas em Atos 2:

1. A mensagem de Pedro centralizava-se em Jesus (Atos 2:22-36);

2. O dom de línguas não foi acompanhado por um êxtase sentimental descontrolado. Observe que a mensagem foi compreendida de forma a haver resultados: 3.000 pessoas foram batizadas! (Atos 2:41);

3. Paulo também afirma que as palavras usadas no dom são idiomas que precisam ser entendidos pelos ouvintes para que se convertam a Cristo. Não adianta nada falar num idioma que a pessoa não conheça: “Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se vos não falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina? É assim que instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara? Pois também se a trombeta der som incerto, quem se preparará para a batalha? Assim, vós, se, com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar” (1 Coríntios 14:6-9).

4. “Assim vós, se com a língua não disserdes palavras compreensíveis, como se entenderá o que dizeis? Porque estaríeis como se falásseis ao ar” (ler também 1 Coríntios 14: 18, 19, 23).

5. O dom de línguas é um sinal para os descrentes a fim de que ouçam as maravilhas de Deus no idioma deles. Não é um sinal para os crentes, conforme 1 Coríntios 14:22: “De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos; mas a profecia não é para os incrédulos, e sim para os que creem.”

Portanto, tal dom não deve ser usado para orgulho pessoal. O dom de línguas é concedido para evangelizar outras pessoas de outras nações que não conhecem ao Salvador.

Regras a serem seguidas no uso do Dom de Línguas
1. No máximo três pessoas devem falar, de forma sucessiva e organizada, um de cada vez – 1 Coríntios 14:27;

2. Deve haver tradutor (intérprete) – 1 Coríntios 14:28;

3. Precisa ser entendido por todos – Atos 2:9-12;

4. Cumprir o papel de edificar a igreja edifica a Igreja estando subordinado ao dom de profecia (1 Coríntios 14:1, 5, 26).

5. Ser enriquecido pelo amor aos irmãos – 1 Coríntios 13:1 e 9.

Muitos cristãos de hoje ferem essas cinco regras frontalmente. Em muitas congregações, por exemplo, há certo número de pessoas e todos querem falar ao mesmo tempo. Não pode haver intérpretes porque os que falam não sabem o que estão falando.

Observação: Por que utilizar o dom de línguas no Brasil se todos falam o português?

Outros aspectos importantes a serem avaliados sobre o Dom
1. A gritaria não pode fazer parte da manifestação de qualquer dom – Efésios 40:30, 31;

2. A pessoa tomada pelo Espírito Santo tem paz e domínio próprio (Gálatas 5:22, 23), ou seja, não cai no chão.

3. O dom de línguas não provoca desordem na igreja. Em 1 Coríntios 14:33, 40 é dito que “Deus não é de confusão e sim de ordem e paz.” A obra de Deus sempre se caracteriza pela calma e a dignidade. Havendo barulho, choca os sentidos (ler Mateus 6:6; Gálatas 5:22, 23). Lembremos de que Deus não é surdo.

4. O Espírito Santo somente é concedido aos que obedecem a Deus (Atos 5:32). Será que os que se dizem possuidores do Espírito Santo guardam todos os mandamentos de Deus? (ver Tiago 2:10). A pessoa que conhece a Palavra e de livre vontade desobedece a Deus, não tem o Espírito Santo, mesmo que possa parecer! “O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável” (Provérbios 28:9).

5. O fato de alguém falar em línguas não é prova de tenha sido batizado(a) pelo Espírito Santo. A Bíblia apresenta diversas pessoas que receberam o Espírito Santo e, contudo, não falaram em línguas, pois não era necessário. São elas:

- Os samaritanos (Atos 8:17);
- Maria (Lucas 1:35);
- Estevão (Atos 6:5; 7:55);
- Saul, o primeiro rei de Israel (l Samuel 10:10);
- Gideão, juiz de Israel (Juízes 6:34);
- Sansão, outro juiz (Juízes 15:14);
- Zacarias, pai de João Batista (Lucas 1:67);
- Bezalel, em tempos remotos (Êxodo 31:1-3);
- João Batista e sua mãe (Lucas 1:15 e 41);
- Os sete diáconos (Atos 6:1-7);
- Jesus Cristo (Lucas 3:22).

Vemos que Jesus nunca falou em línguas. Será que Ele não tinha o Espírito Santo? Claro que tinha! Ele não usou esse dom porque não havia uma necessidade evangelística para tal. Exigir que todos os irmãos falem em línguas é querer dirigir o Espírito. É ir contra a soberania dEle, pois somente Deus Espírito Santo é quem distribui os dons como Ele quer: “Porém é um só e o mesmo Espírito quem faz tudo isso. Ele dá um dom diferente para cada pessoa, conforme ele quer” (1 Coríntios 12:11).

6. O termo “língua dos anjos” só aparece em 1 Coríntios 13:1, quando Paulo afirma: “Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.” O apóstolo está apenas destacando que, mais importante que falar a língua dos homens e dos anjos, é ter amor. Não está afirmando que essa manifestação estranha de língua angélica fizesse parte de nossa pregação (leia Gênesis 18 e Apocalipse 22:8, 9, onde os próprios anjos falaram idiomas humanos para que pudessem ser compreendidos! Leia também Gênesis 19:15; Lucas 2:8-14; 1:16-18).

7. Em Marcos 16:17 é dito: “Estes sinais hão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome, expelirão demônios: falarão novas línguas.” O que significa “falar uma nova língua” na Bíblia? O texto original grego responde. Há duas palavras gregas diferentes para descrever o termo “novas” línguas: neós e kainós.

Neós é algo novo que não existia antes.
Kainós é algo novo que já existia.

A palavra empregada em Lucas 16:17 é kainós, indicando assim que as “novas línguas” faladas pelos discípulos de Jesus seriam novas apenas para eles que não as conheciam, mas elas já existiam!

Ilustrações
Ilustração 1: A pessoa tinha um carro, ano 2007, e trocou por um 2008. Para a pessoa que comprou, o carro é novo. Significa novo na “experiência”, pois o carro já existia. Assim é o dom de línguas em Marcos 16:17. Para a pessoa que aprendeu a nova língua, é nova (Kainós), mas o idioma já existia, era falado por um grupo de pessoas.

Ilustração 2: Certa vez, um pastor foi em um culto para “testar” se realmente aqueles cristãos entendiam o que estavam dizendo. No decorrer da programação ele recitou o Salmo 23 em grego. Um dos membros daquela igreja levantou-se e foi “interpretar” o que o pastor disse. Afirmou que Deus estava pedindo para que todos entregassem o coração a Jesus, sendo que o pastor apenas falou o Salmo 23 em grego, e ainda por três vezes! Imagine que “balde de água fria” foi para a congregação quando o pastor disse o significado verdadeiro das palavras e que o suposto tradutor estava mentindo.

Considerações Finais
A língua falada é um sistema de linguagem em que os seres humanos, dotados de inteligência, se comunicam e se entendem perfeitamente. As “línguas estranhas” faladas em muitos cultos de hoje nada têm em comum com as mais de 3 mil línguas e dialetos existentes na Terra.

Por conseguinte, não possuem importância evangelística e nem servem para identificar quem é cristão consagrado ou não (lembre-se Efésios 1:13).

A teoria de que o genuíno dom de línguas se manifesta hoje na forma de línguas estáticas, não faladas atualmente por qualquer povo ou nação, carece de fundamento bíblico.

As várias alusões, na Versão Almeida Revista e Corrigida, a “línguas estranhas” (1 Coríntios 14) não aparecem no texto original grego (o termo línguas estranhas foi acrescentado pelo tradutor para tentar “facilitar” a compreensão do texto. Entretanto, dificultou mais ainda, dando apoio à idéia de que o dom de línguas bíblico é algo ininteligível) onde a expressão usada é simplesmente “línguas”.

Portanto, se estou falando a você em francês (língua estrangeira) e você não sabe nada de francês, para você estou falando língua estranha, pois não pode ser entendida. Mas isso não quer dizer que o francês é um idioma que não pode ser entendível por ninguém. Daí surge a necessidade do intérprete.

Segundo nossos dicionários, interpretar é a “arte de determinar o significado preciso de um texto ou lei”, “fazer entender”. Traduzir é apenas converter cada palavra de seu estado estrangeiro (estranho) ao corrente (entendível). Portanto, não existe tradução sem interpretação.

E, não esqueça: o dom de línguas em Atos 2 (Atos 10, 19, 1 Coríntios 12-14) tem sempre um propósito evangelístico.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

SETE DIAS VIAJANDO PARA O CÉU

"Mas, como está escrito: Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem jamais penetrou em coração humano o que Deus tem preparado para aqueles que O amam" (1 Coríntios 2:9).

Como adventistas do sétimo dia, somos movidos pela esperança de uma terra melhor: o Céu. Deus mostrou a Ellen White esse novo lar em detalhes. Naquela que foi sua primeira visão, ela subiu “mais e mais alto da escura Terra” (Primeiros Escritos, p. 14). Enquanto se distanciava, escutou uma voz que dizia: “Olha novamente, e olha um pouco mais para cima” (ibid.). Seus olhos encontraram um “caminho reto e estreito” por onde andava o povo do advento, viajando para a cidade que se achava na extremidade mais afastada.

“Se conservavam o olhar fixo em Jesus, que Se achava precisamente diante deles, guiando-os para a cidade, estavam seguros” (ibid.). Alguns ficavam cansados pela viagem tão longa e difícil, mas Jesus os animava. Outros negavam que Deus estivesse guiando Seu povo, tropeçavam e caíam, voltando para o mundo (ibid., p. 15).

Ellen diz que os perseverantes tiveram o privilégio de ouvir o dia e a hora da volta de Jesus e, na sequência, viram a pequena nuvem que cresceu, revelando o retorno do Filho do Homem em grande glória, com milhares de anjos.

E quando Cristo voltar para nos buscar, faremos uma viagem que durará sete dias. Ellen escreveu o seguinte: “Todos nós entramos na nuvem, e estivemos sete dias subindo para o mar de vidro, onde Jesus trouxe as coroas, e com Suas próprias mãos as colocou sobre nossa cabeça. Deu-nos harpas de ouro e palmas de vitória" (ibid., 16).

Todos os salvos viajaram por sete dias até o mar de vidro, onde receberam sua coroa das mãos de Jesus. Seus olhos viram uma grande cidade, um campo cheio de flores, animais de todas as espécies vivendo em harmonia e uma mesa de prata, com muitos quilômetros de comprimento.

Ela viu o fruto da árvore da vida, que era “esplêndido; tinha o aspecto de ouro, de mistura com prata” (ibid., p. 17). Pediu a Jesus para comê-lo, mas Ele disse: “‘Agora não. Os que comem do fruto deste lugar não mais voltam à Terra. Mas, dentro em pouco, se fores fiel, não somente comerás do fruto da árvore da vida mas beberás também da água da fonte.’ E disse: ‘Deves novamente voltar à Terra e relatar a outros o que te revelei.’ Então um anjo me trouxe mansamente a este mundo escuro. Algumas vezes penso que não mais posso permanecer aqui; todas as coisas da Terra parecem demasiado áridas. Sinto-me muito solitária aqui, pois vi uma terra melhor” (ibid., p. 19, 20).

Essa esperança em breve se tornará realidade. Permaneça firme no caminho estreito, tirando os olhos da Terra e colocando seu coração no Céu. Portanto, sigamos o conselho de Ellen White: "Se os olhos se dirigirem para o Céu, a luz do Céu encherá o coração, e as coisas terrenas parecerão insignificantes e nada convidativas! (The Review and Herald, 24 de Janeiro de 1888).

quarta-feira, 1 de abril de 2026

SETE MENTIRAS SOBRE DEUS

Primeiro de abril é conhecido como o dia da mentira. Tradicionalmente, pessoas pregam peças em amigos e desconhecidos e passam “trotes” com a desculpa de que é o dia da mentira. Às vezes, a brincadeira não traz consequências, e a pessoa iludida ri por ter acreditado, durante alguns instantes, em uma farsa. Outras vezes, a travessura leva alguém a ser prejudicado por imaginar que a ilusão fosse real.

Entre as mentiras com consequências mais trágicas, estão as mentiras sobre Deus. Deus é o Deus da verdade (Is 65:16), e é avesso à mentira (Pv 12:22; Hb 6:18). No entanto, o diabo existe e é o “pai da mentira” (Jo 8:44). Ele tem se empenhado em espalhar falsidades sobre Deus, a fim de que tenhamos um conceito incorreto de sua Pessoa divina (At 13:10; Gn 3:4, 5). As informações erradas sobre Deus são produto da especulação de filósofos sem compromisso com a revelação bíblica e justificativa para dogmas religiosos não fundamentados nas Escrituras Sagradas. Infelizmente, esses mitos levam muita gente a ter atitudes equivocadas para com o Único que pode salvar (At 4:12).

Com palavras poéticas, o profeta Isaías descreveu o estado de perdição espiritual em que se encontra quem crê numa mentira a respeito daquele que é a Verdade: “O seu coração enganado o iludiu, de maneira que não pode livrar a sua alma, nem dizer: Não é mentira aquilo em que confio?” (Is 44:20)

A seguir, menciono sete mentiras muito populares sobre Deus, com a respectiva apresentação do que a Bíblia tem a dizer sobre quem o Senhor realmente é.

1. Deus determina tudo o que acontece. Muita gente entende mal um dos atributos de Deus: a sua soberania. Imagina que o Todo-Poderoso, que tem autoridade sobre todo o Universo, comande tudo o que acontece em sua vasta criação a ponto de determinar cada coisa que vai acontecer. Na verdade nem tudo o que acontece é por que Deus quer. Se Deus realmente determinasse tudo, seria impossível desobedecer-lhe!

Deus intervém na história humana (Dn 2:21), mas não determina tudo. Ele concedeu ao ser humano a faculdade de tomar as decisões que determinarão seu próprio destino (Dt 30:15-20; Js 24:15; 1Rs 18:21). Pessoas podem optar por dedicar a vida a Deus (Mc 9:24; At 8:37; At 16:13), ou podem escolher permanecer sob o domínio do pecado (Gn 4:6, 7; Is 66:3, 4), mesmo que a vontade de Deus seja que todos escolham o arrependimento e a salvação (2Pe 3:9). Deus deixa as pessoas praticarem sua própria vontade, mesmo que a vontade humana seja contrariar a vontade de Deus (Rm 1:24, 25). Ele dá liberdade para você e eu escolhermos se queremos acreditar ou não nele (Jo 3:16).

2. Quando alguém morre, é porque foi a vontade de Deus. Muito ao contrário, Deus não quer que ninguém morra, mas que se arrependa e tenha a vida eterna (2Pe 3:9). Quem deseja que pessoas morram é o diabo, que “vem para roubar, matar e destruir”. Mas Deus quer nos dar “vida completa” (Jo 10:10, NTLH).

Para Deus, a morte de uma pessoa que tem a vida entregue a Ele é um momento especial (Sl 116:15). É algo comparado a um sono, do qual Deus deseja despertar-nos (Jo 11:11; 1Ts 4:14). Portanto, Deus, além de não desejar a morte de ninguém, ressuscitará aqueles que pertencem a Ele (1Ts 4:16).

3. Deus é energia. No imaginário popular, Deus frequentemente é descrito como sendo uma “energia”, uma “luz”, que permeia o Universo; uma espécie de grande fantasma, invisível, sem forma, um espírito sem corpo que está em todos os lugares, algo impessoal. Nada poderia estar mais longe da verdade. A Bíblia descreve Deus com um Ser pessoal, com aparência física, apesar de diferente da nossa natureza humana, e extremante grandioso (1Co 15:40; 1Rs 8:27).

Deus, o Pai, é apresentado na Bíblia como tendo boca (Nm 12:8), costas (Êx 33:18-23), cabeça (Ez 1:26; Dn 7:9), rosto (Lv 10:1; Dt 5:4, 1Ts 1:9), olhos (Am 9:8), dedo (Êx 8:19; 31:18; Dt 9:10), mão (Êx 9:3), pés (Êx 24:10), se assentando num trono (Is 6: 1-6; Ez 1:26-28), usando roupas (Is 6:1; Dn 7:9), com cabelos brancos (Dn 7:9); enfim, com aparência de um ser humano (Ez 1:26). E não é para menos que Ele seja parecido conosco, uma vez que nos fez semelhantes à sua imagem (Gn 1:26, 27). Apesar de Ele ser agora invisível para nós (Cl 1:15; 1Tm 1:17; Hb 11:27), um dia os salvos verão a Deus (Mt 5:8).

Deus também tem uma personalidade. Ele tem desejos (Ef 5:17), sente ira (Dt 6:15), faz reconsiderações (Gn 6:6), se compadece (2Rs 13:23), enfim, Deus tem emoções e gostos. Deus é pessoal, conhece nossa experiência. Por meio de seu Espírito Santo, pode estar em todos os lugares (Sl 139), e podemos nos aproximar dele e conversar com Ele (Hb 4:16).

4. Deus nunca vai desistir de alguém. Essa afirmação é muito próxima da verdade, mas não deixa de ser incorreta. Deus deseja que todos se salvem (2Pe 3:9), enviou Cristo para morrer por todas as pessoas do mundo (Jo 3:16), e trabalha para persuadir cada uma a aceitar a salvação (Rm 2:4). Mas, como há pessoas que desistem completamente de Deus, não há nada que Ele possa fazer para convencê-las a se arrependerem de sua vida de pecado (Hb 6:4-7).

A Bíblia descreve algumas pessoas que, apesar de Deus ter demonstrado seu favor para com elas e de terem sido agraciadas com ricos privilégios espirituais, rejeitaram de modo tão obstinado a vontade de Deus para sua vida que o Senhor não pôde fazer mais nada para salvá-las. Um exemplo bíblico claro é Saul, que rejeitou a Palavra de Deus e foi, por isso, rejeitado por Deus (1Sm 15:26).

5. Deus é Deus de bênção, não de maldição! Esse lema pode até trazer segurança para o fiel, mas trata-se de uma inverdade. Deus abençoa aqueles que lhe obedecem e fazem a sua vontade (Dt 28:1, 2), mas adverte que maldições estão reservadas para os que não guardam os seus mandamentos (Dt 28:15-68).

6. Muitos caminhos levam a Deus. Não! Só há um único caminho, que é Jesus Cristo, e ninguém pode se achegar a Deus a não ser por meio dele (Jo 14:6). Cristo é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2:5). Outras alternativas espirituais além de Jesus Cristo são “vaidade. Suas obras não são coisa alguma” (Is 41:29), e quem procurar se aproximar de Deus por outros caminhos, além de Jesus Cristo, está percorrendo “caminhos de morte” (Pv 14:12; 16:25), ou “caminho que conduz para a perdição” (Mt 7:13).

7. Deus não condena ninguém. Deus não enviou Cristo ao mundo “para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele” (Jo 3:17). No entanto, pessoas que rejeitam a salvação oferecida a elas por Deus receberão a condenação reservada aos desobedientes e incrédulos (Jo 3:18-21). Um dia, Deus, por meio de Jesus Cristo, vai julgar os segredos de todos (Rm 2:16), e castigará aqueles que terão rejeitado Cristo como seu Salvador (Hb 10:29), condenando-os à morte eterna (Mt 25:41).

Infelizmente, muita gente tem sido enganada com mentiras sobre Deus. Mas a Palavra de Deus é “em tudo verdade” (Sl 119:160). E, na Bíblia, a Palavra de Deus, podemos conhecer a verdade sobre Ele, ser libertos pela verdade (Jo 8:38), e ter a vida eterna, que advém de conhecer verdadeiramente a Deus (Jo 17:3).

Fernando Dias (via Revista Adventista)

terça-feira, 31 de março de 2026

FUNDAMENTALISMOS

O termo “fundamentalismo” nasceu entre cristãos protestantes nos Estados Unidos no início do século 20 e ganhou novos sentidos, compreensões e significações de acordo com contextos históricos distintos. O movimento que ganhou este nome é originado no final do século 19, entre teólogos protestantes conservadores, calvinistas, no Seminário Teológico de Princeton (EUA), e ampliou-se, nos primórdios do século 20, entre outros grupos protestantes dos Estados Unidos.

Na passagem do século 19 para o 20, tempo de fortes mudanças socioculturais e econômicas, com o avanço da ciência, processos de modernização, urbanização e industrialização, o evangelicalismo se dividiu em duas alas: a liberal, que assumiu o humanismo que embasava as mudanças, estabeleceu o diálogo da teologia com as ciências humanas e sociais, e o surgimento das ciências bíblicas e da teologia liberal. A outra ala é a conservadora, que reagiu fortemente às transformações e à releitura da tradição.

O marco desse movimento conservador foi a publicação da coletânea de 12 volumes intitulada The fundamentals: a testimony to the truth (1910-1915) [“Os fundamentos: um testemunho da verdade”], que teve como editor o Rev. Reuben Ancher Torrey. A coletânea apresentava textos sobre a Bíblia, com defesa de sua inerrância, além de conteúdos de crítica à modernidade, à teologia liberal, à filosofia moderna e ao catolicismo romano. Nestas bases, o cristianismo evangélico é apresentado como a religião verdadeira e é oferecida uma lista de dogmas e doutrinas que sustentam esta afirmação. Outros temas tratados foram a arqueologia e a ciência, com destaque para o fato de a abordagem não ser negacionista, introduziam críticas quando afetavam negativamente “os fundamentos”, mas as valorizava a ciência como meio de validação dos fatos históricos da Bíblia.

Estes “fundamentos” se colocam, portanto, como uma reação contra os valores da modernidade iluminista e humanista, que colocariam em xeque a centralidade do Cristianismo na cultura ocidental, provocando o processo de secularização.

Característica comum deste posicionamento religioso é a revelação divina como princípio estruturante da organização da sociedade em todas as suas dimensões. Tendo como âncora a defesa do mito da civilização cristã ocidental, corporificada na cultura dos países protestantes dominantes, o fundamentalismo nascido entre evangélicos pleiteia para si o cristianismo verdadeiro recusando o diálogo ecumênico, o qual é avaliado como “relativização da fé”.

O movimento fundamentalista manteve-se ativo até os anos 1930, com militantes conservadores presentes em todas as denominações evangélicas. A radicalização fez com que muitos destes se desvinculassem das igrejas evangélicas históricas por conta da adesão delas ao movimento ecumênico (em torno do princípio da unidade na diversidade) e suas organizações. Nos anos 1960, “fundamentalistas” significava “separatistas” e não estavam mais relacionados a conservadores das igrejas históricas e mesmo das pentecostais.

Após a Segunda Guerra Mundial, o fundamentalismo é ressignificado, se internacionaliza e se expande pelo globo acompanhando a expansão do capitalismo estadunidense. O american way of life é exportado para o mundo. Nesse momento, fundamentalistas veem-se como personagens contraculturais, numa batalha pela reconquista da América pelos valores familiares e cristãos, supostamente sequestrados pelo humanismo secular, pela ameaça comunista, pelo feminismo e pelos homossexuais.

Isto se contrapõe, no período, às lutas pelos direitos civis e aos protestos contra a Guerra do Vietnã, abraçadas por amplas parcelas de evangélicos estadunidenses, e gera um certo mal-estar com as relações entre fundamentalismo e extrema-direita, que atingia certos teólogos alinhados com o movimento. Até o final da década de 1960, o segmento fundamentalista nos EUA se mantinha politicamente desarticulado, estabelecendo vínculos com a política quando se imbuía de discursos de anticomunismo e de patriotismo.

A noção de “fundamentalismo” popularizou-se durante a revolução (islâmica) iraniana no final anos 70, a qual foi classificada como tal por analistas e mídias noticiosas, na forma de “religião tradicional militante”. Anos depois, no alvorecer do século 21, é retomado o sentido popularizado, quando passou a ser usado intensamente pelas mídias noticiosas, em todo o mundo, após os atentados de 11 setembro de 2001, nos EUA, como classificação das ações violentas extremistas assumidas por grupos radicais islâmicos.

Com isso foi estabelecida uma imagem negativa do Islã, como, praticamente, sinônimo de fundamentalismo. A popularização do termo, tornou-o equivalente a radicalismo, extremismo, a partir de posturas de autoritarismo, intolerância, intransigência, fanatismo, recusa ao diálogo, negação da pluralidade, reconstrução da ordem moral e idealização do que existiu no passado.

Foi nestes mesmos anos 1970 que se iniciou um processo de recuperação do “evangelicalismo”, como fator de unidade e transição, e o termo “fundamentalismo” ganha nova significação. Herdeiras do fundamentalismo do início do século 20, figuras de destaque inauguram a era dos televangelistas que têm ampla atuação na América Latina.

É um tempo de maior ativismo político com aproximação ao Partido Republicano, formação de grupos de pressão, lobbies, articulações como a Moral Majority [“Maioria Moral”], a nova direita cristã, liderada por Jerry Falwell, em torno das pautas pró-vida e pró-família – isto é, contra o aborto (legalizado nos Estados Unidos em 1973), pela regulação das mídias, com indicações classificativas por faixa etária, contra as conquistas dos direitos civis de mulheres e LGBTI+.

Rapidamente a Direita Cristã, da qual a Maioria Moral seria a principal organização, se tornou uma grande força política nos Estados Unidos e tinha como principais bandeiras: a defesa dos “valores da família” (o que incluía a oposição ao aborto em qualquer caso, o combate à expansão dos direitos dos homossexuais e, também, a restrição à pornografia); a volta da prática das orações e o ensino do criacionismo nas escolas públicas; o combate à disseminação do comunismo juntamente com uma defesa de cunho patriótico ferrenha do capitalismo e do “modo de vida” americano; uma posição extremamente crítica às políticas de bem-estar social; a defesa de uma postura pró-Israel por parte do governo norte-americano; entre outras.

Nestes tempos, o conceito começa a ser utilizado, também, de forma análoga, a outras religiões, para além do Islã, como o Judaísmo. Uma das características comuns desta ampliação da utilização do termo a outras religiões é o antimodernismo, o que se amplia com outras análises para a reação a uma percepção de ameaça ou crise, a dramatização e a mitologização de inimigos da fé, o idealismo religioso, a infalibilidade das escrituras, o extremismo, o proselitismo.

A Maioria Moral entrou fortalecida nos anos 1980, mas foi nos 90 que ganhou mais espaço com a Presidência dos Republicanos Ronald Reagan e George Bush, com força fundamentalista amplificada nos anos 2000, com os governos de Bush filho e de Donald Trump, avaliado como extrema-direita.

Deste processo dos anos pós-Segunda Guerra aos 1990, emergiram teologias como: (i) a do Domínio – a busca do governo do Deus cristão sobre as nações, levando seus seguidores a ocuparem postos de comando no mundo (presidências, ministérios, parlamentos, lideranças de estados, províncias, municípios, supremas cortes) para incidirem na vida pública; (ii) a da Prosperidade – as bênçãos de Deus se manifestam de forma material na vida os fiéis (patrimônio, realizações profissionais, saúde, felicidade na família tradicional); (iii) a da Guerra Cultural – uma atualização das clássicas teologias de guerra espiritual para destruir o mal que busque impedir as ações de Deus no mundo, passando-se a nomear os inimigos do governo de Deus: comunistas, humanistas, feministas, ativistas por direitos civis, e todos que impeçam a realização da prosperidade.

Neste processo, a perspectiva fundamentalista foi se transformando e ultrapassou as fronteiras da religião. Torna-se uma matriz de pensamento, uma postura, ancorada defesa de uma verdade e na imposição dela à sociedade.

É fato que, nas últimas décadas, grupos religiosos e não religiosos surgiram no espaço público, em diferentes contextos do mundo, com ações que podem ser classificadas como “fundamentalistas”, caracterizadas como reativas e reacionárias às mudanças sociais. Nesse sentido, observa-se que o fundamentalismo se torna um fenômeno social que ultrapassa a dimensão religiosa, ganha um perfil mais diversificado e adquire caráter político, econômico, ambiental e cultural.

Nessas atuações, certos “fundamentos” são escolhidos para persuadir a sociedade, a fim de estabelecer fronteiras e lutar contra “inimigos”, o que frequentemente resulta em um movimento polarizador e separatista, que nega o diálogo, a democracia e estabelece um pensamento único que visa direcionar as ações no espaço público.

Por isso, é importante tratar o termo “fundamentalismo” a partir de uma reconstituição histórica de suas diferentes expressões e rechaçar abordagens que o utilizam para denotar acusação e rótulo de contrários. Esta visão amplificada a partir das raízes e das transformações que o sentido de “fundamentalismo” experimentou, leva à compreensão do conceito no plural – “fundamentalismos” – consistindo em formas muito concretas, primeiro de interpretar a realidade (visões de mundo) e depois, de atuar em função desta interpretação.

Portanto, fundamentalismos podem ser entendidos como uma visão de mundo, uma interpretação da realidade, com matriz religiosa. Esta é combinada com ações políticas decorrentes dela, para o enfraquecimento dos processos democráticos, negação de abordagens científicas classificadas como nocivas à fé ou ao status quo, negação do valor da pluralidade cultural, da diversidade étnica, e dos direitos sexuais, reprodutivos. Matriz religiosa e ações políticas são mutuamente condicionadas nos fundamentalismos. Por isso é possível classificar certas posturas sociopolíticas e econômicas como “fundamentalismos político-religiosos”. São identificados como inimigos a serem combatidos em “defesa” da fé ou do status quo, movimentos sociais, ativistas de direitos humanos, cientistas, intelectuais, educadores, sindicatos, partidos políticos, lideranças sociais que atuam na direção oposta. As ações públicas de permanente embate contra estes “inimigos da verdade” são ancoradas no pânico moral (frequentemente com o uso de desinformação e fake news), como alimento do reacionarismo.

Magali Cunha [via Religião e Poder]

CUNHA, Magali do Nascimento. Fundamentalismos, crise da democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul: tendências e desafios à ação. Salvador: Koinonia, 2020. Disponível em: https://kn.org.br/wp-content/uploads/2020/10/FundamentalismosPT-1.pdf

PIERUCCI, Antônio Flávio. Fundamentalismo e integrismo: os nomes e a coisa. Revista USP, n. 13, p. 144-156, 30 maio 1992. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/25620

RAMIREZ, Gabriela Arguedas. Políticas Antigénero en América Latina – “Ideología De Género”, Lo “Postsecular”, el Fundamentalismo Neopentecostal y el Neointegrismo Católico: La Vocación Anti-Democrática. Rio de Janeiro: Observatorio de Sexualidad y Política (SPW)/ABIA, 2020. Disponível em: https://sxpolitics.org/GPAL/

Nota do blog: "O adventismo pode ser considerado fundamentalista? A resposta pode ser sim ou não, dependendo dos parâmetros adotados. Se tomarmos o fundamentalismo em seu sentido histórico, então teremos um conteúdo doutrinário definido e características bem destacadas para uma avaliação objetiva. Mas se tomarmos fundamentalismo no sentido metafórico atual, como um fenômeno sociológico e não como um fenômeno doutrinal, a avaliação torna-se mais subjetiva e mais sujeita a equívocos. Atualmente, o termo fundamentalismo tem uma carga quase exclusivamente negativa e pejorativa. Fundamentalista é o fanático, o sectário, o intolerante, o conservador, o autoritário, o totalitário e sempre são os ‘outros’" (Trecho do artigo de Isaac Malheiros "Os Adventistas do Sétimo Dia e o fundamentalismo cristão: Uma avaliação histórica e teológica").

Com base nesse artigo, é possível concluir que, apesar de ter algumas afinidades com o conservadorismo teológico do fundamentalismo, o adventismo não sustenta algumas crenças centrais do fundamentalismo, como a inspiração verbal e a inerrância bíblica. Apesar disso, por causa da polarização entre fundamentalistas e liberais no início do século XX, os adventistas por vezes se identificaram como fundamentalistas, e tal identificação produziu efeitos que se fazem sentir até hoje dentro do adventismo.

A VERDADEIRA CONVERSÃO

Mudança súbita, como ocorreu com o apóstolo Paulo, ou transformação gradual, como aconteceu com o discípulo Pedro, a conversão é um fenômeno marcante. Experiência de deslocamento, Céu e Terra atuando juntos, psicologia e teologia interagindo, individualidade e comunidade marcando presença, trata-se de um evento que divide a vida em antes e depois.

Lewis Rambo, autor do livro Understanding Religious Conversion (Yale University Press, 1993), escreve: “A conversão é paradoxal. É elusiva. É inclusiva. Ela destrói e salva. É súbita e gradual. É originada totalmente pela ação de Deus e criada totalmente pela ação dos humanos. É pessoal e comunal, particular e pública. É passiva e ativa. É um afastamento do mundo. É uma resolução de conflito e uma capacitação para ir ao mundo e enfrentar, ou criar, conflito. É um evento e um processo. É o fim e o começo. É definitiva e aberta. A conversão nos deixa devastados – e transformados.”

Apesar desses tons sociológicos e psicológicos, a conversão tem um caráter essencialmente religioso e sobrenatural. Ela envolve a mudança de cosmovisão (modo de pensar) e a transformação real da vida, o que afeta a identidade, as afeições, as atitudes, os costumes, os relacionamentos, os motivos, os interesses, as prioridades e o destino da pessoa.

Para Ellen White, a verdadeira conversão é mais do que mero sentimento ou um turbilhão emocional (Mensagens aos Jovens, p. 71). O primeiro passo é a convicção da real condição de pecado e da transgressão da lei (1888 Materials, p. 130). Não é apenas um evento e, portanto, precisamos de uma nova conversão cada dia (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p. 699). Essa “mudança só pode ser feita pelo Espírito Santo” (Nos Lugares Celestiais, p. 20) e envolve a pessoa toda. É uma “transformação do coração, um volver-se da injustiça para a justiça” (Nos Lugares Celestiais, p. 20), uma “mudança radical” (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p. 17), uma “transformação do caráter” (Testimonies to Southern Africa, p. 30)

Exatamente por ser uma mudança tão radical que a conversão não é simplesmente o que a maioria de nós acredita ser. Alguns acham que conversão é fazer parte de uma igreja, assumir um novo credo ou mesmo adotar novos comportamentos. Acontece que “conversão” é algo que acontece na mente e que afeta a vida inteira. Ellen White diz que "a ligação a uma igreja não substitui a conversão. A aceitação do credo de uma igreja não tem valor algum para quem quer que seja se o coração não estiver verdadeiramente transformado" (Evangelismo, p. 290).

É uma mudança desequilibrante de nossa visão de mundo. Adotar novos comportamentos, regras, ou uma nova fé mantendo a mesma leitura e visão do mundo não é e nem nunca foi conversão. A conversão questiona tudo e reverte muita coisa. Nossas crenças mais fundamentais, aprendidas na escola e ensinadas por nossos pais ou o ambiente em que crescemos são totalmente questionadas e sofrem escrutínios profundo dessa nova visão de mundo. Ellen White diz que "a conversão de almas a Deus é a obra mais grandiosa, a obra mais elevada em que os seres humanos podem empenhar-se" (Carta 121, 1902).

Não são à toa as palavras de Romanos 12:2 nos solicitando uma transformação que só ocorre com a renovação de nossa mente. Renovação da mente. Portanto, uma mudança de cosmovisão como essa que estamos falando não pode ocorrer de maneira formal, ela não ocorre em uma simples classe de estudos, nem em um estudo sistemático das doutrinas um certo número de vezes na semana ou no mês. Veja como Cristo fez com Seus discípulos. “Chamou os doze para estarem com Ele” (Mc 3:14). Você não vai encontrar Jesus dando aulas de teologia, você vai encontrar Jesus ensinando com Sua própria vida à medida que convive com eles.

É claro que isso é muito mais trabalhoso, é claro que toma mais tempo e exige muito mais envolvimento. Mas só a amizade e o contexto podem ajudar alguém a verdadeiramente mudar sua maneira de enxergar a vida. É vendo a visão de mundo de outro que transformamos a nossa.

Compreender isso pode mudar completamente a maneira como entendemos a nossa conversão e a dos outros. Para mim isso indica que me conformar exteriormente com a fé não resolve nada. Indica que Cristo é a transformação completa e absoluta dos meus conceitos mais primitivos, pessoais e que muitas vezes, são conceitos que carrego como certezas. Entender isso me diz que preciso ser outro, completamente outro, depois de começar a seguir a Cristo.

Há uma outra coisa que pode mudar alguém de uma cosmovisão para a outra, um acontecimento drástico e profundo, normalmente envolvendo muito sofrimento. A amizade cristã e o envolvimento dedicado, amoroso e real pode substituir com muito mais eficiência a capacidade didática do sofrimento. Ellen White diz que "nem todos estão constituídos da mesma maneira. Nem todas as conversões são iguais. Jesus impressiona o coração, e o pecador renasce para viver vida nova. Amiúde as almas são atraídas para Cristo sem que ocorra uma manifestação violenta, nem dilaceramento de alma, nem terrores de remorsos" (Carta 15a, 1890).

Os motivos para a conversão podem ser muitos, como retomar a herança religiosa familiar, aderir a novas verdades, resolver uma crise, mudar o roteiro pessoal e encontrar um novo propósito. Porém, o mais legítimo é o reconhecimento do estado de pecado e a necessidade de salvação. 

Finalizo com este maravilhoso texto de Ellen White: 

"A conversão é uma obra que a maioria das pessoas não aprecia. Não é coisa pequena transformar um espírito terreno, amante do pecado, e levá-lo a compreender o inexprimível amor de Cristo, os encantos de Sua graça, e a excelência de Deus, de maneira que a alma seja possuída de amor divino, e fique cativa dos mistérios celestes. Quando a pessoa compreende estas coisas, sua vida anterior parece desagradável e odiosa. Aborrece o pecado; e, quebrantando o coração diante de Deus, abraça a Cristo como a vida e alegria da alma. Renuncia a seus antigos prazeres. Tem mente nova, novas afeições, interesses novos e nova vontade; suas dores e desejos e amor, são todos novos. A concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida até então preferidas a Cristo, são agora desviadas, e Cristo é o encanto de sua vida, a coroa de seu regozijo. O Céu, que dantes não possuía nenhum atrativo, é agora considerado em sua riqueza e glória; e ele o contempla como sua futura pátria, onde ele verá, amará e louvará Aquele que o redimiu por Seu precioso sangue.

As obras da santidade, que se lhe afiguravam enfadonhas, são agora seu deleite. A Palavra de Deus, anteriormente pesada e desinteressante, é agora escolhida como estudo, como o homem do seu conselho. É como uma carta a ele escrita por Deus, trazendo a assinatura do Eterno. Seus pensamentos, palavras e atos, são comparados com esta regra e provados. Treme aos mandamentos e ameaças que ela contém, ao passo que se apega firmemente às suas promessas, e fortalece a alma aplicando-as a si mesmo. Prefere agora o convívio dos mais piedosos, e os ímpios, cuja companhia antes apreciava, já não lhe causam mais deleite. Lamenta-lhes os pecados que dantes o faziam rir. O amor-próprio e a vaidade, ele renuncia, e vive para Deus, e é rico em boas obras. Eis a santificação exigida por Deus. Nada menos que isto aceitará Ele" (Testemunhos Seletos, vol. 1, pp. 253-255).

segunda-feira, 30 de março de 2026

MORNIDÃO

"Assim, porque você é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da Minha boca" (Apocalipse 3:16).

Só há duas opções quando o assunto é vida espiritual e destino eterno. Na Bíblia encontramos muitos exemplos: caminho estreito ou caminho largo, joio ou trigo, ovelhas ou bodes, justos ou injustos, salvos ou perdidos. Não há como pertencer aos dois times ao mesmo tempo. No entanto, no Apocalipse surge uma imagem nova. Na sétima carta escrita por João e enviada à igreja de Laodiceia, a mensagem de Jesus é que os crentes ali pertencem a um inédito terceiro grupo. Não são frios nem quentes. São mornos.

Esta é também a descrição da igreja cristã no final da história. Laodiceia simboliza o povo de Deus nos últimos dias, antes da volta de Jesus. Ellen White adverte: "A mensagem à igreja de Laodicéia é uma impressionante acusação, e é aplicável ao povo de Deus no tempo presente" (Testemunhos Seletos 1, p. 327). Sendo assim, é um recado do Céu para nós. 

Mornidão é o retrato de quem não possui o fogo do primeiro amor, mas também não está completamente entregue à apostasia. Morno é o cristão que vive uma experiência medíocre. Vive de aparências. É superficial. Ellen White afirma: "O cristão ‘superficial’ pode não se distinguir agora com facilidade dos verdadeiros cristãos, mas está às portas o momento em que a diferença será evidente" (Um Convite à Diferença, p. 102).

Mornidão tem a ver com dubiedade. Quando comparado ao frio, o morno parece quente. Mas, se a referência for o quente de verdade, o morno parece frio. O crente morno é quase indecifrável. Na igreja parece quente. Em casa parece frio. No pequeno grupo, certeza que é quente. No trabalho, só pode ser frio. É uma constante mentira. São pessoas que vivem posando de piedosas, mas são hipócritas. Têm vida dupla. São indecisas. Vivem um “me engana que eu gosto”, um teatro gospel. Mas a Bíblia deixa claro o que Jesus faz com gente assim: Ele vomita. Ellen White diz: "A figura de vomitar de Sua boca significa que Ele não pode oferecer suas orações ou expressões de amor a Deus. Não pode aprovar de modo algum sua forma de ensinar a Palavra de Deus ou o seu trabalho espiritual" (Testemunhos para a Igreja 6, p. 408).

Deus não suporta essa farsa porque mornidão é a pior propaganda da religião. Há mais esperança para quem é frio e reconhece este fato do que para quem é morno e pensa que está tudo bem. Ellen White declara: "A única esperança para os laodiceanos é uma clara visão de sua condição diante de Deus, o conhecimento da natureza de sua enfermidade. Nem são frios nem quentes; ocupam uma posição neutra e, ao mesmo tempo, lisonjeiam-se de não necessitar de coisa alguma. A Testemunha Verdadeira aborrece essa mornidão. Causa-Lhe desgosto a indiferença dessa classe de pessoas. Como água morna, são nauseantes a Seu paladar. Nem são desinteressados nem egoistamente obstinados. Não se empenham inteiramente e de coração na obra de Deus, identificando-se com seus interesses; mas se mantêm afastados, e estão prontos a deixar seus postos quando os interesses mundanos, pessoais o exijam. Carecem da obra interior da graça no coração" (Testemunhos Seletos 1, p. 476).

O que o termômetro da vida cristã aponta sobre sua situação atual? Você vai à igreja, ora, lê a Bíblia e até jejua algumas vezes, mas sente que falta fervor? Alguma vez chegou a pensar que a caminhada com Jesus deveria ser mais do que tem sido até aqui? Talvez seja o Espírito Santo convidando você a sair da mornidão. Ellen White exorta: "Vivemos num importante, soleníssimo tempo da história terrestre. Achamo-nos entre os perigos dos últimos dias. Importantes e tremendos acontecimentos se acham diante de nós. Quão necessário é que todos os que temem a Deus e amam Sua lei, se humilhem diante dEle, e se aflijam e pranteiem, e confessem os pecados que têm separado Deus de Seu povo! O que deve suscitar o maior alarme, é que não sentimos nem compreendemos nossa condição, nosso baixo estado, e satisfazemo-nos de permanecer como estamos. Devemos refugiar-nos na Palavra de Deus e na oração, buscando individual e fervorosamente ao Senhor, para que O possamos achar. Cumpre-nos fazer disto nossa primeira ocupação" (Testemunhos Seletos 1, p. 333).

Lembre-se de que você só tem uma vida para viver nesta Terra. Só tem uma história para escrever com Jesus neste mundo. Ellen White alerta: Devemos sair do estado de mornidão e experimentar conversão real, ou perderemos o Céu" (Testemunhas para a Igreja 4, p. 89).

Então escolha o extraordinário e viva intensamente o que Jesus planejou para você.

sexta-feira, 27 de março de 2026

HOSANA

HOSANA - Interjeição de origem hebraica (hoshi'ah-nna) e aramaica utilizada no judaísmo e cristianismo como um clamor que significa "salva-nos, te pedimos", "salva-nos agora" ou "te peço, salva".

Hosana é uma expressão de profundo significado espiritual. Mais do que uma palavra de louvor, ela carrega em si um clamor sincero: “salva-nos, Senhor”. Ao proclamá-la, reconhecemos que a nossa esperança não está em nós mesmos, mas naquele que tem poder para salvar, restaurar e reinar sobre todas as coisas.

Nas Escrituras, vemos essa declaração sendo dirigida a Cristo em Sua entrada em Jerusalém: Mateus 21:9. Ali, a multidão não apenas O exaltava, mas também reconhecia nEle o cumprimento da promessa e a resposta de Deus para a necessidade humana.

Ellen White assim narra: “O brado ecoa da montanha e do vale: 'Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!'. Nunca antes vira o mundo um cortejo triunfal como esse. Não se assemelhava ao dos famosos conquistadores da Terra. Não fazia parte daquela cena nenhuma comitiva de lamentosos cativos, como troféus da bravura real. Achavam-se em torno do Salvador os gloriosos troféus de Seus serviços de amor pelo homem caído. Estavam os cativos a quem resgatara do poder de Satanás, louvando a Deus por sua libertação. Os cegos a quem restituíra a vista, abriam a marcha. Os mudos cuja língua soltara, entoavam os mais altos hosanas. Saltavam de alegria os coxos por Ele curados, sendo os mais ativos em quebrar os ramos de palmeira e agitá-los diante do Salvador. As viúvas e os órfãos exaltavam o nome de Jesus pelos atos de misericórdia que lhes dispensara. Os leprosos a quem purificara, estendiam na estrada as vestes incontaminadas, ao mesmo tempo que O saudavam como Rei da glória. Aqueles a quem Sua voz despertara do sono da morte, tomavam parte no cortejo. Lázaro, cujo corpo provara a corrupção no sepulcro, mas que então se regozijava na força da varonilidade gloriosa, conduzia o animal que Jesus montava" (O Desejado de Todas as Nações, p. 401).

Ainda hoje, dizer Hosana é elevar ao Senhor uma oração reverente e cheia de fé. É adorá-Lo, mas também depender dEle. É glorificá-Lo, mas também suplicar por Sua intervenção.

Hosana é o louvor de quem reconhece que somente em Jesus há salvação.

Ellen White conclui: "Jesus está para vir, porém não como Ele entrou em Jerusalém cavalgando um jumento, ocasião em que os discípulos louvavam a Deus com grande voz, exclamando: Hosana; mas na glória do Pai, e com toda a comitiva de santos anjos com Ele, escoltando-O em Seu caminho para a Terra. Todo o Céu ficará vazio de anjos. Enquanto isso os expectantes santos O estarão a olhar, olhos fixos no Céu, como estavam os “varões galileus” (Atos dos Apóstolos 1:11) quando Ele subiu do monte das Oliveiras. Então, unicamente os que estiverem santos, os que seguiram plenamente o manso Modelo, hão de, com enlevado júbilo, exclamar ao vê-Lo: “Eis que este é o nosso Deus, em quem esperávamos, e Ele nos salvará” (Isaías 25:9). E serão transformados “num momento, num abrir e fechar d’olhos, ao ressoar da última trombeta” (1 Coríntios 15:52), que desperta os santos mortos, e os chama dos leitos poeirentos, revestidos de gloriosa imortalidade, bradando: Vitória! Vitória! sobre a morte e o sepulcro. Os santos transformados são arrebatados todos juntamente com eles a encontrar o Senhor nos ares, para nunca mais se separarem do objeto de seu amor" (Filhos e Filhas de Deus, p. 360).