segunda-feira, 20 de abril de 2026

COMO LIDAR COM O LUTO

Nos últimos três dias, o Brasil teve uma overdose de luto ao vivo no Big Brother. Primeiro na sexta, quando perdemos o ídolo do esporte Oscar Schmidt, que é irmão do apresentador do programa, Tadeu. Ele não pode parar de trabalhar — talvez nem queira. O programa termina essa semana e todos os olhos do país se voltam para a final. Dois dias depois, a produção do programa opta por contar a Ana Paula Renault que seu pai Geraldo Renault morreu. É sofrido ver uma mulher triste, isolada em uma casa, sem poder abraçar quem passa pela mesma dor. O velório existe para isso, encontrar semelhantes e se apoiar neles.

Quando Tadeu fala com ela, resolve quebrar o protocolo. Conta sobre Oscar e chora. Se une a ela ao dividir a sua dor. Eles sofrem o luto ao mesmo tempo e, apesar de serem tão próximos diariamente há três meses, não podem se abraçar. A tela que nos aproxima deles evidencia o quanto tudo está afastado.

Inevitavelmente, a morte faz parte da nossa vida, não é mesmo? Todos nós, pelo fato de sermos pecadores, passaremos pela triste experiência de sepultarmos nossos queridos. A realidade da morte chegará para todos nós, querendo ou não. Será que é possível nos prepararmos para esses momentos de separação? Como agir diante de uma tragédia causada pela morte?

A morte de alguém próximo é uma das dores emocionais mais fortes que uma pessoa pode sentir. Quando perdemos alguém muito importante para nós, nossa resposta é o sofrimento. Toda perda dói. Não é fácil nos desfazermos de uma realidade que não volta mais. O sofrimento nestas ocasiões é, então, algo natural e até mesmo saudável, porque é a forma de expressarmos aquilo que estamos sentindo.

O luto é a resposta natural de sofrimento diante de uma grande perda. O tempo do luto varia de pessoa para pessoa, mas dura, em média, de 3 meses até 1 ano. Esta variação depende das circunstâncias da perda, da capacidade individual de cada pessoa para a superação do luto, e do apoio familiar e de amigos que a pessoa enlutada pode ou não receber durante o tempo de recuperação emocional.

Na sequencia do texto, vamos aprender um pouco mais sobre como podemos nos recuperar diante da perda de alguém e como lidar com a dor sentida.

O que é normal no luto?

No processo de luto, cada pessoa tem uma reação ou uma atitude peculiar. Estas fases não obedecem necessariamente uma ordem, mas geralmente são vividas por todas as pessoas enlutadas, por exemplo:

  1. Fase de choque – momento que acompanha a notícia da morte. É um momento de profunda dor expresso através de um choro desesperado, reações físicas de mal-estar e outras maneiras.
  2. Fase de raiva – quando acontecem momentos de revolta, de indignação, de grande ansiedade por causa da perda. Nesta fase, a pessoa pode questionar Deus por ter permitido isto e ter pensamentos constantes de raiva com relação à morte da pessoa querida.
  3. Fase da barganha – quando a pessoa enlutada tenta fazer negociações consigo mesma, com Deus ou com outras pessoas diante da dor da perda, como: “Se ele (a) voltar, eu vou mudar”, “Há outros médicos que podem salvá-lo (a)”, “Há outro hospital que pode ressuscitá-lo (a)”.
  4. Fase da depressão – quando a pessoa realmente percebe que não terá seu querido de volta e que terá que lidar com a perda, geralmente há um sentimento muito grande de angústia e tristeza. Algumas pessoas podem se isolar, preferir ficar em silêncio e realmente experimentar a dor, expressando todo o seu sofrimento através do choro.
  5. Fase de aceitação – quando a pessoa realmente aceita que a perda aconteceu, e começa, aos poucos, a caminhar com a própria vida, se permitindo novamente ter bons momentos. Isto não significa esquecer a pessoa querida, mas sim que a dor agora pode ser administrada até que permaneça uma lembrança carinhosa, mas sem o peso da dor.

O processo do luto e da tristeza pela morte de alguém é um processo que “cuida de si mesmo”, ou seja, com o tempo a tristeza vai passando e abrindo caminho para a recuperação emocional. Isso não significa que esse processo seja fácil de ser vivido, pelo contrário, é bastante difícil! Mas não será para sempre.

Quando o luto não passa…

O luto em si não é uma doença. No entanto, quando o luto não é devidamente elaborado ou experimentado, ele pode gerar doenças tanto físicas quanto emocionais.

De acordo com Katherine Shear, professora de psiquiatria da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, cerca de 15% das pessoas enlutadas desenvolvem um luto prolongado, afetando muito a qualidade de vida da pessoa por ter extrema dificuldade em “funcionar” em meio às tarefas e necessidades do dia. O principal sintoma é uma saudade tão intensa da pessoa que faleceu que a pessoa enlutada não consegue se concentrar em outros sonhos de vida, desejos e atividades. Segundo a pesquisadora, muitas pessoas que entram neste tipo de luto desenvolvem alcoolismo e câncer, e as tentativas de suicídio aumentam.

Por isso, se uma pessoa que está vivendo um luto não observa melhora no sofrimento ao longo dos meses que se passam, e se não consegue ir retomando suas atividades cotidianas com o tempo, mas, ao contrário, se sente cada vez mais angustiada e incapacitada pela dor emocional por causa da morte de alguém querido, então é necessário que esta pessoa busque um profissional psicólogo para ajudá-la a lidar com este sofrimento de forma saudável e atravessar o luto.

Outra dica importante é que existem grupos de apoio comunitários e gratuitos que estão disponíveis para aqueles que experimentam o luto prolongado. Esses grupos costumam ser eficazes para a recuperação emocional da pessoa enlutada por causa do amparo e da empatia de outras pessoas que estão passando pelo mesmo tipo de sofrimento.

Como enfrentar uma grande perda?

Cada pessoa vivencia a dor da perda de uma maneira e com uma intensidade. No entanto, há algumas atitudes que podem ser tomadas pela pessoa enlutada para ajudá-la a enfrentar este sofrimento:

  1. Fale sobre a sua dor. Muitas pessoas acreditam que o assunto da morte deve ser evitado. No entanto, quanto menos se fala sobre o assunto, mais a dor é acumulada.
  2. Não fique sozinho. Por mais que não sinta vontade de falar sobre o assunto ou de compartilhar o seu sofrimento com alguém, procure não ficar muito tempo sem ninguém ao seu redor.
  3. Aceite a sua dor. Aceitar não significa concordar com o que aconteceu e nem gostar do que está sentindo, mas é não negar que o fato aconteceu e que está, sim, doendo.
  4. Questione o seu sentimento de culpa. É muito comum amigos e familiares enlutados se sentirem culpados após a morte de alguém, seja por pensarem não ter cuidado bem da pessoa, ou não terem resolvido algum conflito relacional. No entanto, é importante distinguir culpas reais e irreais. Se a culpa for real, perdoe-se pelo que aconteceu. Se for uma falsa culpa, aprenda a dar limites aos pensamentos de culpa quando eles vierem.
  5. Evite tomar decisões muito importantes no período de luto. Pode acontecer de você, logo após a morte de um querido, ter dificuldade em se concentrar nas suas atividades diárias e tomar decisões. Peça ajuda a alguém se você precisa tomar decisões num momento desses, isto será mais prudente.
  6. Lidando com dias e datas difíceis. Datas de aniversário e feriados como Natal, Ano Novo, Páscoa e outros, podem ser momentos bastante difíceis de serem encarados após a morte de alguém querido. Por isso, planeje passar estas datas com amigos ou familiares a fim de receber apoio e ter companhia.
  7. Não se culpe por se sentir bem. É comum pessoas não se sentirem à vontade para sorrirem e terem momentos felizes e agradáveis após uma grande perda. Não se sinta culpado em se sentir bem e feliz quando estes sentimentos vierem. Voltar a ter momentos de felicidade não significa diminuir o valor que você dava a esta pessoa. Isto faz parte da recuperação e da finalização do luto.

Como se preparar para a morte?

Será que é possível se preparar para a morte? Esse assunto é desconfortável para você? Bem, algumas pessoas não gostam nem de pensar sobre a morte. De fato, é um assunto doloroso. Mas, para pessoas que estão com uma idade muito avançada ou para aquelas que estão enfrentando uma doença em estágio terminal, pode ser bastante benéfico pensar e ter um diálogo aberto sobre este assunto com pessoas mais próximas e queridas. Que atitudes podem ajudar uma pessoa a se preparar para o estágio final da vida? Aí vão algumas dicas:

  1. Ter uma rede social de amigos e familiares queridos. A presença de alguém que você conhece e ama colabora para o desenvolvimento de um sentimento de acolhimento muito necessário em um momento de dor ou de medo.
  2. Ter gratidão por pessoas e por momentos de sua vida. O sentimento de satisfação ao se lembrar de relacionamentos e situações que aconteceram ou ainda acontecem permite que a pessoa se sinta feliz com sua jornada de vida e se sinta tranquila com relação ao futuro.
  3. Manter uma rotina de atividades. Algumas pessoas idosas ou em algum estágio terminal de uma doença deixam de fazer atividades que ainda poderiam ser feitas, mas que são deixadas de lado por um sentimento de desistência da vida. No entanto, é importante para a manutenção da vida que a pessoa continue se sentindo útil realizando tarefas possíveis tendo a alegria em atividades prazerosas. Tarefas como artes manuais, ouvir ou tocar uma boa música, participar de atividades que beneficiem o próximo ou uma simples caminhada em meio à natureza podem ser altamente construtivas e recompensadoras para essas pessoas;
  4. Avaliar a necessidade de reparar algum erro, pedir perdão ou perdoar. Não é possível sentir tranquilidade e paz interior enquanto tivermos algo não resolvido com alguém. Quando a reconciliação é feita, prestamos um favor a nós mesmos, pois liberamos o ressentimento que inevitavelmente nos aprisionava;
  5. Ter fé e esperança de que Jesus restaurará todas as coisas em Sua segunda vinda. A esperança da salvação em Jesus apesar da morte é um grande conforto e nos permite passar pelos últimos momentos da vida em paz. A Bíblia diz que Jesus ressuscitará, em Sua segunda vinda, todos aqueles que morreram crendo nEle (1 Tessalonicenses 4:16, 17). Além dessa bendita esperança, Jesus assegurou que estaria conosco em todos os momentos, até durante a caminhada pelo “vale da sombra da morte” (Salmo 23:4). Que promessa fantástica!

Convivendo com alguém em fase terminal

Este é um período muito difícil não só para o próprio paciente, mas para a família e os amigos mais próximos. Muitos tentam viver como se isto não estivesse acontecendo, até mesmo com a boa intenção de não demonstrar tristeza para a pessoa doente. No entanto, por mais que finjam um bem-estar, todos sabem, no fundo, o que está se passando e deixam de expressar suas emoções e conversar sobre assuntos relevantes que talvez não possam ser conversados posteriormente. Portanto, algumas atitudes podem ajudar a família a se organizar melhor neste momento:

  1. Não negue o fato de a doença existir e da possibilidade da morte. A negação da realidade exige mais das pessoas do que o sofrimento que vem com a aceitação.
  2. Faça companhia ao doente. A solidão pode ser bastante dolorosa, principalmente no final da vida. Portanto, mantenha a proximidade, a conversa e o encorajamento.
  3. Permita que a pessoa fale sobre a morte. Se a pessoa doente quiser falar sobre seus desejos antes de morrer, sobre o medo de morrer, se quiser conversar especialmente com alguém antes de morrer, tudo isto deve ser levado em consideração e respeitado.
  4. Ouça o doente. Certamente muitas coisas estão se passando na mente dele. Deixe que ele fale e tenha paciência e empatia para ouvi-lo.
  5. Controle sua raiva ou irritação. É comum que pacientes terminais tenham momentos frequentes de reclamação, de resmungo ou de falta de paciência, afinal, a condição da doença, de seus sintomas e do medo da morte, mexem com a sua saúde emocional. Em momentos assim, não o critique. Lembre-se de que estas atitudes provavelmente não são contra você, mas resultados de angústias emocionais da situação que está sendo vivenciada.
  6. Fortaleça-a espiritualmente. Ore com esta pessoa. Cante hinos para ela ou com ela. Leia trechos da Bíblia que a acalmem e relembrem sobre a esperança em que você crê.

Você e o Criador

A morte é uma intrusa em nossa existência. Ninguém quer morrer ou perder algum ente querido. Toda perda dói, machuca e produz grandes sofrimentos emocionais. O que fazer quando somente a dor nos resta? Aprendemos nesse estudo que devemos permitir que a dor seja sentida e precisamos crer que ela vai passar. A promessa de Deus é: “Como alguém a quem sua mãe consola, assim eu vos consolarei” (Isaías 66:13). Podemos sim nos recuperar do luto! Temos um motivo muito significativo para isso: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (João 11:25). Quando Jesus voltar, Ele ressuscitará todos aqueles que morreram crendo nEle. A morte não é o fim. Jesus é a única solução para essa triste realidade. Você acredita nessa esperança? Então aceite agora a Jesus como o seu Salvador e Senhor.

"Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Apocalipse 21:4).

[via Esperança / UOL]

"Deus não deseja que qualquer de nós permaneça oprimido por surda tristeza, de coração ferido e quebrantado. Deseja Ele que olhemos para cima, para ver o arco-íris da promessa, e refletir luz sobre outros" (Ellen G. White - Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 257).

quinta-feira, 16 de abril de 2026

EXORCISMO

Algumas pessoas têm dúvida em relação à existência do ministério ou dom do exorcismo na Bíblia. Para compreender melhor o tema, tratarei da questão mais ampla da expulsão de demônios, que faz parte do trabalho ministerial de alguns de nossos pastores em diferentes partes do mundo. Em geral, um dos desafios que os adventistas enfrentam é abordá-lo biblicamente, sem permitir que as práticas de outros cristãos determinem como os demônios devem ser expulsos.

1. Terminologia
A palavra “exorcismo” vem do substantivo grego exorkistēs e identifica uma pessoa que expulsa espíritos malignos. A forma verbal, exorkizō, significa “colocar alguém sob juramento”, “conjurar” (Mt 26:63). Com o tempo, a expressão passou a indicar a ideia de compelir alguém a fazer algo, invocando um poder sobrenatural (“exorcizar”). No Novo Testamento, o verbo não é usado para se referir a exorcismo, e o substantivo é aplicado somente uma vez a exorcistas judeus (At 19:13). O Novo Testamento usa o verbo “expulsar” (ekballō) demônios em vez de “exorcizar”. Isso pode estar relacionado com o fato de que o exorcismo era associado à magia, à realização de certos rituais e ao uso de fórmulas religiosas específicas. Não é isso que encontramos no Novo Testamento.

2. Possessão demoníaca
Nas Escrituras, a possessão demoníaca é uma realidade levada muito a sério. Pessoas possuídas são descritas com as seguintes características: comportamento agressivo (Mt 8:28); atitudes autodestrutivas (Mt 17:15); e incapacidade de falar (Mt 9:32), ouvir (Mc 9:25) ou ver (Mt 12:22). Em geral, a possessão demoníaca é distinta das doenças (por exemplo, Mt 4:24; Mc 1:32). Um dos aspectos mais controversos da possessão demoníaca é que é difícil distingui-la da epilepsia e de outras doenças físicas ou mentais. Isso implica que a possessão demoníaca tem um impacto na mente e no corpo semelhante a essas condições. Contudo, geralmente é acompanhada por elementos de clarividência, fenômenos sobrenaturais e até levitação de objetos. Visto que em muitos casos seria difícil distingui-la de uma doença natural, sempre que possível devemos consultar médicos e outras pessoas qualificadas.

3. Abordagem bíblica
A expulsão de demônios era comum no ministério de Jesus, mas Ele não ensinou aos discípulos um procedimento específico. Cristo simplesmente expulsou os espíritos malignos pelo poder de Sua palavra, sem a realização de nenhum ritual ou o uso de fórmulas tradicionais (Mt 8:16). Ele ordenava que fossem embora, e eles obedeciam (Lc 9:49, 50; 10:17). Não houve ações longas e demoradas, nenhum grito específico nem envolvimento físico de Jesus com a pessoa possuída. De fato, Cristo nunca tocou um endemoninhado; e somente uma vez dialogou com ele (Mc 5:7-10). Ele simplesmente exercia autoridade sobre os poderes do mal, e eles não podiam resistir-Lhe.

Jesus compartilhou com Seus discípulos essa mesma autoridade (Mt 10:8; Mc 3:15; Lc 9:1). A maneira pela qual eles provavelmente expulsassem demônios é ilustrada no livro de Atos. Os apóstolos invocavam o nome de Jesus para libertar as pessoas dos espíritos malignos. A fórmula é simples: “Em nome de Jesus Cristo, eu ordeno que você saia dela” (At 16:18). Foi Cristo quem libertou a pessoa; o apóstolo O chamou para que interviesse. Não houve luta prolongada com o demônio nem diálogo com ele. O poder de Cristo foi eficaz por meio da palavra dos discípulos.

4. Exorcismo e dons espirituais
No Novo Testamento, o exorcismo não é listado entre os dons espirituais. Ninguém foi chamado por Jesus para estabelecer um ministério de exorcismo. Ele deu aos Seus discípulos poder e autoridade sobre os demônios, mas nenhuma vez sugeriu que esse seria seu papel principal. A responsabilidade deles era a proclamação do reino de Deus, as boas-novas da salvação. Cristo disse: “Pelo caminho, preguem que está próximo o Reino dos Céus. Curem enfermos, ressuscitem mortos, purifiquem leprosos, expulsem demônios” (Mt 10: 7, 8). A proclamação do reino de Deus é a missão de cada cristão. Quando, no cumprimento dessa missão, confrontamos os endemoninhados, recebemos o poder de Cristo para enfrentá-los. Contudo, nosso chamado principal é proclamar o evangelho da redenção por intermédio de Jesus. 

5. Perfil do possesso
Satanás não pode se apossar de qualquer pessoa que ele queira. Se isso fosse possível nosso mundo teria se tornado, há muito tempo, num gigantesco manicômio. Para que aconteça a possessão é necessário que o indivíduo se entregue a ele, o que comumente é feito pouco a pouco, quando segue suas sugestões para praticar o mal. Assim, um filho de Deus jamais poderá ficar possesso, porque sua vontade foi e permanece rendida a Cristo.

O tentador jamais nos poderá compelir a praticar o mal. Não pode dominar as mentes, a menos que se submetam a seu controle. A vontade tem que consentir, a fé largar sua segurança em Cristo, antes que Satanás possa exercer domínio sobre nós. Mas todo desejo pecaminoso que nutrimos lhe proporciona um palmo de terreno. Todo ponto em que deixamos de satisfazer à norma divina, é uma porta aberta pela qual pode entrar para nos tentar e destruir.

Comentando o caso de um endemoninhado com o qual Jesus Se deparou, Ellen White declara: "A causa oculta da aflição [...] achava-se em sua própria vida. Fora fascinado pelos prazeres do pecado, e pensara fazer da vida um grande carnaval. [...] Julgou poder gastar o tempo em extravagâncias inocentes. Uma vez no declive, porém, resvalou rapidamente. A intemperança e a frivolidade perverteram-lhe os nobres atributos da natureza, e Satanás tomou sobre ele inteiro domínio. [...] Colocara-se no terreno do inimigo, e Satanás tomara posse de todas as suas faculdades" (Testemunhos Seletos, vol. 1, p. 141).

6. Quando o demônio vai à igreja
A maior parte das vezes em que um pastor se depara com um endemoninhado parece ser nas reuniões da igreja. Mesmo que o possesso vá à reunião com o sincero desejo de buscar ajuda, as intenções de Satanás, ao permiti-lo ir, são outras. Em Lc 4:31-36 encontra-se o relato de que Cristo estava numa sinagoga, num sábado, ensinando Sua doutrina, e que ali estava também um homem possesso o qual começou a bradar em alta voz. Então, “a atenção do povo se desviou de Cristo, e Suas palavras não foram escutadas. Tal era o desígnio de Satanás em levar a vítima à sinagoga” (O Desejado de Todas as Nações, p. 141).

Sabendo que o objetivo do maligno é desviar a atenção de Cristo e do evangelho para si, não devemos de modo algum permitir que ele tenha êxito. Sugerimos que é melhor que alguns irmãos conduzam o possesso imediatamente para uma das salas contíguas à nave principal da igreja e que ali se proceda ao trabalho de expulsão, enquanto segue a programação da igreja. Essa tarefa de remoção certamente não será fácil nem agradável, todavia, se vários irmãos se unirem, por mais forte e violento que ele possa parecer, será possível. É necessário que, se o possesso estiver agressivo, outros o segurem e que o pastor fique livre para dedicar-se aos aspectos espirituais.

7. Maior atividade das forças do mal
Por meio dos escritos de Ellen White somos advertidos de que no grande e prolongado conflito entre o bem e o mal se destacam dois períodos em que as forças do mal estão em maior atividade: os dias do ministério de Cristo e os dias finais da história humana.

"O período do ministério pessoal de Cristo entre os homens foi o tempo de maior atividade das forças do reino das trevas. Durante séculos Satanás e seus anjos haviam estado procurando controlar o corpo e a alma dos homens, para trazer sobre eles pecados e sofrimento; depois acusara a Deus de toda essa miséria. Jesus estava revelando aos homens o caráter de Deus. Estava a despedaçar o poder de Satanás, libertando-lhe os cativos. Nova vida e amor do Céu moviam o coração dos homens, e o príncipe do mal despertou para contender pela supremacia do seu reino. Satanás convocou todas as suas forças, e a cada passo combatia a obra de Cristo. [...] Assim será na grande batalha final do conflito entre a justiça e o pecado. Ao passo que nova vida e luz e poder descem do alto sobre os discípulos de Cristo, uma vida nova está brotando de baixo, e revigorando os instrumentos de Satanás" (O Desejado de Todas as Nações, p. 142).

Por isso, enquanto nos aproximamos do fim, podemos esperar maiores e mais frequentes demonstrações de possessão demoníaca, sabendo, contudo, que nossa vitória é certa, pois “o Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio” (Sl 46:11).

quarta-feira, 15 de abril de 2026

SIX SEVEN... NA BÍBLIA

Qual o melhor capítulo da Bíblia? SIX SEVEN (6-7). Se você passou pelo menos 6 ou 7 segundos perto de crianças ou adolescentes ultimamente, provavelmente já imaginava que essa seria a resposta. Veículos de imprensa 
têm noticiado o fenômeno global que encanta crianças, intriga adultos e deixa 67% dos professores certos de que deveriam se aposentar mais cedo.

Quando uma criança levanta as duas mãos com as palmas para cima, fazendo um movimento de quem pesa objetos imaginários no ar, provavelmente não chama a atenção. Mas esse é o "six seven", ou "6-7": a gíria mais recente saída das entranhas da internet anglófona, e que chegou ao Brasil sem tradução possível.

"Six seven" (ou 6-7) é um meme viral da internet e gíria de "brain rot" (conteúdo de repetição rápida) popularizado no TikTok e Instagram em 2025-2026, usada principalmente por adolescentes e pré-adolescentes. A expressão não tem um significado fixo, sendo usada por jovens para representar algo mediano, uma resposta vaga, ou apenas como uma brincadeira sem sentido acompanhada de um gesto com as mãos.

O ponto principal é entender que… não há o que entender. A origem do “6-7”, por exemplo, é uma mistura de fatos aleatórios:

- uma música de drill (gênero do sul de Chicago) chamada “Doot Doot”, do rapper Skrilla, em que ele repete “six seven” no refrão de forma bem marcante e ritmada;

- a altura do jogador de basquete LaMelo Ball, da NBA, de exatamente 6 pés e 7 polegadas de altura (1,98 m);

- um menino americano que apareceu em um vídeo sobre basquete em que olha para a câmera, faz um gesto com as mãos e grita bem alto: “six-seven!”. Ele virou o rosto oficial do meme.

Existe apenas um capítulo 67 nos 66 livros da Bíblia, e é um salmo. O Salmo 67 começa assim:

Que Deus tenha misericórdia de nós,
nos abençoe e faça resplandecer o seu rosto sobre nós,
para que os teus caminhos sejam conhecidos na terra,
a tua salvação entre todas as nações.
Que os povos te louvem, ó Deus;
que todos os povos te louvem.

Existem 42 ocorrências do capítulo 6, versículo 7 na Bíblia. Aqui está uma seleção de passagens que podem ser bons versículos para memorização por crianças:

“Eu os tomarei como meu povo, e serei o seu Deus. Então vocês saberão que eu sou o Senhor, o seu Deus, que os libertou do jugo dos egípcios” (Êxodo 6:7).

“Chamando os Doze, Jesus começou a enviá-los dois a dois e deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos” (Marcos 6:7).

“Porque todo aquele que morreu está justificado do pecado” (Romanos 6:7).

“Porque nada trouxemos para este mundo, e nada podemos levar dele” (1 Timóteo 6:7).

Uma criança mais velha ou um adolescente que esteja procurando uma passagem mais desafiadora para memorizar pode tentar Provérbios 6:16-19, que contém uma sutil referência a esses números onipresentes:

Há seis coisas que o Senhor odeia,
sete que lhe são detestáveis:
olhos altivos,
língua mentirosa,
mãos que derramam sangue inocente,
coração que maquina planos perversos,
pés que se apressam para o mal,
testemunha falsa que profere mentiras
e aquele que provoca discórdia entre irmãos.

Além de memorizar versículos bíblicos que contenham os números 6 ou 7, podemos também observar o significado simbólico dos números na Bíblia.

Os números 6 e 7, individualmente, possuem significados específicos nas Escrituras. O número seis frequentemente carrega conotações negativas, representando incompletude e até mesmo o mal. O número 7, por outro lado, representa completude e perfeição. Vejamos:

6 – Representa o culto do homem, e é o número do homem, significando sua rebelião, imperfeição, obras e desobediência. Ele é usado 273 vezes na Bíblia, incluindo os seus derivados (por exemplo, sexto) e outras 91 vezes como “sessenta” ou “60”. 

O homem foi criado no sexto dia (Gênesis 1:26, 31). Representa o homem sem Deus, pois não alcança o descanso divino do sete. Veja também Êxodo 31:15 e Daniel 3:1. O número é especialmente significativo no livro de Apocalipse, como o “666”, que identifica a besta. “Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Seu número é seiscentos e sessenta e seis” (Apocalipse 13:18). A água que Jesus transformou em vinho estava em 6 talhas (representando a purificação da lei, incompleta sem Cristo). A mulher samaritana teve 5 maridos e vivia com o 6º, ilustrando incompletude emocional/espiritual. A estátua de Nabucodonosor tinha 60 côvados de altura e 6 de largura.

7 – Representa a perfeição, e é o sinal de Deus, o culto divino, obediência e descanso. O “príncipe” dos números da Bíblia, é usado 562 vezes, incluindo os seus derivados (ex. sétimo). (Veja Gênesis 2:1-4, Salmo 119:164 e Êxodo 20:8-11, apenas como alguns dos exemplos). 

O número sete também é o mais comum na profecia bíblica, ocorrendo 42 vezes em Daniel. Em Apocalipse, há sete igrejas, sete espíritos, sete candelabros de ouro, sete estrelas, sete lâmpadas, sete selos, sete chifres, sete olhos, sete anjos, sete trombetas, sete trovões, sete mil mortos em um grande terremoto, sete cabeças, sete coroas, sete últimas pragas, sete frascos de ouro, sete montanhas, sete reis.

Além da unidade 7, os números múltiplos de 7 seguem o mesmo significado, só que carregando uma ênfase maior, algo comum nos escritos antigos. Podemos ver isto quando Jesus disse a Pedro que deveríamos perdoar 70 vezes 7, ou seja, 490 vezes, enfatizando ainda mais a importância do perdão. Podemos encontrar essa ênfase no trecho de Daniel 9:24, na “profecia das 70 semanas”, que totalizava 490 anos (7x7x10). Segundo Jeremias 29:10, o povo de Israel ficou cativo na Babilônia por 70 anos (7x10). Além do estabelecimento do ano do jubileu, sendo um ciclo de 49 anos (7x7).

Só compreenderemos plenamente o significado desses números quando Jesus voltar. Até lá, podemos aproveitar a onda de "6-7" e talvez até mesmo usá-la para absorver alguma verdade bíblica.

Estas palavras que hoje vos ordeno estarão no vosso coração; 
inculcarás com persistência a vossos filhos, 
e delas falareis assentados em casa, 
e andando pelo caminho, e deitando-vos, e levantando-vos.

Isso é de Deuteronômio, capítulo 6, versículos... espere só... 6-7 (six seven).

terça-feira, 14 de abril de 2026

OS HUMILHADOS SERÃO EXALTADOS

Com pequenas variações cá e acolá, é uma frase que permeia a Bíblia, do Antigo ao Novo Testamento: "Os humilhados serão exaltados". A maioria das pessoas pensam, quando usam esta frase, que há um sentimento de "revanche" ou "vingança" quando se sentem humilhadas por outros. A frase aparece nos evangelhos como algo proferido pelo próprio Jesus. Aparece no livro dos Provérbios como um ensinamento próprio da sabedoria dos judeus. Aparece em textos de profetas anteriores a Cristo e em textos de apóstolos posteriores a ele. E até nos manuscritos do Mar Morto, textos que não integram a Bíblia.

No evangelho de Mateus, o texto coloca Jesus em uma forte crítica aos fariseus, a elite religiosa judaica da época. "Vós, porém, não queirais ser chamados de mestre, porque um só é o vosso mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso Pai, porque um só e o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestres, porque um só é o vosso mestre, que é o Cristo. O maior dentre vós será vosso servo. E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado. Mas ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que fechais aos homens o reino dos céus; e nem vós entrais nem deixais entrar aos que estão entrando" (Mt 23:8-13).

Ellen White diz: "Repetidamente ensinara Cristo que a verdadeira grandeza se mede pelo valor moral. Na estimativa celeste, a grandeza de caráter consiste em viver para o bem-estar de nossos semelhantes, em praticar obras de amor e de misericórdia. Cristo, o Rei da Glória, foi servo do homem caído" (DTN, p. 431).

Já na narrativa que consta do evangelho de Lucas, a mesma expressão aparece em outra situação. Jesus também é situado em um debate com os fariseus, mas recorre a uma parábola, recurso muito comum nos evangelhos. Ou seja: ele conta uma história de fácil compreensão para ilustrar seu ensinamento.

No caso, sua parábola era ambientada em uma festa de casamento. Jesus orienta que "quando por alguém fores convidado às bodas, não te assentes no primeiro lugar". Ele recomenda que se escolha sempre as cadeiras mais distantes e menos favorecidas. "Para que, quando vier o que te convidou, te diga: 'amigo, sobe mais para cima'. Então terás honra diante dos que estiverem contigo à mesa", diz ele. "Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado", sentencia (Lc 14:8-11).

"Eu lhes digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”. Ao lermos o texto (Lc 18:9-14), podemos ver que trata-se de uma parábola contada por Jesus e já no início do versículo observamos o motivo pelo qual Jesus contou esta história. Numa olhada rápida nesta passagem bíblica já podemos perceber que o texto não diz respeito a pessoas que foram humilhadas e depois o Deus as exaltou. Aliás o versículo nove desta passagem já deixa claro para quem Jesus estava falando: “alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros”.

Vejamos a história com mais atenção! Neste texto lemos a história de dois homens que estavam orando a Deus: Um fariseu e um publicano. Os fariseus eram religiosos, mestres da lei, enquanto os publicanos eram os cobradores de impostos, que eram mal vistos por todos. O fariseu se achava digno, santo, melhor que todos os outros. Do outro lado estava o publicano, que tinha o entendimento de quem era e que precisava mesmo de Jesus. O fariseu deixou-se levar pela arrogância e o publicano se humilhou diante de Deus.

É interessante perceber neste texto bíblico que só alcançou o objetivo da oração aquele que teve uma atitude humilde diante de Deus. O outro, com toda sua prepotência e justiça própria não enxergava nem mesmo seu próprio coração pecador. Quando você se humilha diante de Deus é quando você é exaltado por Deus! Ellen White afirma: "Toda exaltação verdadeira provém da humilhação desenvolvida na vida de Cristo, manifestada pelo maravilhoso sacrifício que Ele fez para salvar almas prestes a perecer. Aquele que é exaltado por Deus, primeiro deve humilhar-se" (RP, p. 54).

“Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido” (1Pe 5:6). Humilhar-se diante de Deus é reconhecer nossa pobreza espiritual. Jesus disse que há certas condições para recebermos as bênçãos do reino de Deus. A primeira é ser pobre de espírito (Mt 5:3). Do ponto de vista espiritual, não temos nada. Precisamos ter consciência de nossas fraquezas e reconhecer que somos fracos. É assim que o poder de Deus se aperfeiçoa em nossa fraqueza.

"Humilhai-vos na presença do Senhor, e Ele vos exaltará" (Tg 4:10). A palavra humilhar vem do hebraico kana e significa “ajoelhar”. Talvez esse gesto seja o mais representativo para a humildade. O pecador não arrependido é orgulhoso demais para orar. Oração é submissão, dependência, rendição. O orgulho não tolera essas coisas. Na oração, abrimos mão de achar que somos alguma coisa. Somente os humildes oram de verdade. Ellen White afirma: "Deve haver oração unida e perseverante, e o reclamar, pela fé, as promessas de Deus. Deve haver profunda humilhação de alma. Não temos a mínima razão para congratulação e exaltação própria. Devemos humilhar-nos sob a potente mão de Deus. Ele aparecerá para confortar e dar bênçãos aos que deveras buscam" (ME1, p. 126).

"Essa questão da humilhação e da exaltação é uma coisa que de fato aparece em todo o contexto bíblico. É recorrente. Essa temática é uma advertência pra que os homens não se exaltem, reconheçam seu estado, sua condição finita. Está muito associada à religiosidade judaica porque ela de alguma forma representa esse processo de saída de um povo em busca da terra prometida. Esse grupo é chamado o tempo todo a reconhecer que há um único Deus, portanto só cabe a Ele a exaltação. Aos oprimidos resta reconhecer o estado de humilhação, um estado que de alguma forma será recompensado em algum momento", comenta o historiador, filósofo e teólogo Gerson Leite de Moraes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Distorções contemporâneas
Essa é a chave que, graças a interpretações literais e uma boa dose de deturpação teológica, chega à sensação de empoderamento vivenciada por muitos a partir do versículo.

"É curioso como a frase foi distorcida na narrativa política de boa parte da comunidade evangélica. Nas escrituras, a esperança da humilhação dos poderosos e opressores e da exaltação dos humildes é uma expectativa futura, que acontecerá apenas no fim da história, com a consumação plena do Reino de Deus", analisa o teólogo e escritor evangélico Gutierres Fernandes Siqueira, membro da Assembleia de Deus e autor de, entre outros, Quem Tem Medo dos Evangélicos? - Religião e Democracia no Brasil de Hoje.

"Não é um lema de empoderamento político para a era presente. É uma esperança que só pode ser concretizada pelo próprio Cristo", completa ele, em sua explicação.

Siqueira ressalta, contudo, que o domínio histórico do catolicismo acabou deixando evangélicos acuados, vendo-se "como parte marginalizada da sociedade". "Na primeira metade do século 20, especialmente em pequenas cidades, ainda era comum padres usarem o poder político para perseguirem pastores e igrejas nascentes", recorda.

"Os evangélicos, como um grupo minoritário, abraçavam uma postura de aversão à política como 'coisa do Diabo'. A imprensa chama-os de 'seita' e os políticos não os viam como ativo eleitoral", relata.

"Próprio desse passado de perseguição e dificuldade, os evangélicos nutrem ainda hoje dois sentimentos comuns: ressentimento e empolgação com o poder que hoje possuem. É nesse contexto que fazem a leitura da frase de Jesus como 'reversão de quadro' ou 'agora é a nossa vez'."

Em um caldo teológico-sociocultural que, diga-se, mescla doses de pobreza, baixa escolaridade e pitadas fortes de teologia da prosperidade — aquela ideia de que Deus dará riqueza aos mais fiéis.

"Com muitas exceções, o segmento evangélico brasileiro é majoritariamente um segmento de pessoas muito pobres, excluídas do sistema. Quando uma dessas pessoas abre a Bíblia e se depara com uma mensagem como esta, que faz parte da ética de Jesus, ela se reconhece automaticamente", ressalta Moraes.

Aí vem o empoderamento. O fiel pode estar passando fome, pode ser alvo de preconceitos étnicos ou mesmo pela própria religiosidade. "E aí se depara com essa fala na boca de Jesus, e se identifica, olha para aquilo e pensa: quer dizer que essa injustiça toda que eu estou sofrendo aqui ela não ficará impune?", reflete Moraes.

"Há alguém olhando por mim, há uma promessa de Jesus dizendo que a minha humilhação há de ser recompensada e a exaltação dos homens ao meu redor aqui haverá de ser punida."

Fundamentalismo e fé
Esse raciocínio, lembra o professor, automaticamente "entra como uma promessa que motiva, que alimenta a fé".

"Nesse sentido, saber que há uma Providência, com p maiúsculo, cuidando de tudo e de alguma forma pesando tudo, avaliando as minhas ações e não deixando impunes as humilhações… Essa pessoa quando se depara com um versículo como esse se identifica", pontua.

O grande problema é o fundamentalismo. "Há uma apropriação de maneira isolada dessa frase, esquecendo o contexto maior, esquecendo que Jesus estava falando dentro de um contexto histórico, político e social", alerta Moraes.

"Aí o risco é transformar aquilo num mantra, e simplesmente começar a reproduzir um jargão como se a frase valesse para toda e qualquer situação."

"Mas, sim, é uma expressão que de fato gera um empoderamento. Mas gera um empoderamento a partir de uma promessa de que Deus está vendo tudo e aquele que é humilde há de ser exaltado", diz o professor.

"E aquele que é exaltado aqui, que prefere pompa e circunstância, sendo uma pessoa injusta há de ser humilhado. Tudo isso mostra um cenário de juízo: a ideia de que há um Deus julgador e que, então, as injustiças aqui não ficarão impunes." Conforme diz o teólogo, as pessoas "se sentem megaconfortadas" com essa ideia.

Especialistas, entretanto, ressaltam que a promessa de que os humilhados serão exaltados não deve ser entendida como uma revolução "neste mundo". "Não é uma inversão de classes em que o rico se tornará pobre e o pobre se tornará rico", afirma o frei Marcelo Toyansk Guimarães, especialista em assessoria bíblica pela Escola Superior de Teologia e assessor da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (seção Sul 1). A tal recompensa divina seria na vida eterna. "A religiosidade cristã tem essa dinâmica: a perspectiva da salvação", comenta o religioso.

Mas ele vê uma evolução teológica em correntes evangélicas que se baseiam nesse versículo para fundamentar a teologia da prosperidade. "Aquela ideia de austeridade, de trabalhar bastante e usufruir pouco… Isso vai construindo uma teologia", comenta.

"A palavra exaltado é muito forte. Quando cresce o neopentecostalismo nos grupos evangélicos nas periferias, o objetivo de se tornar mais abastado, ainda que isso não aconteça de forma tão concreta, cria a tendência de se colocar a fé como algo que vai tirar as pessoas dessa situação", analisa ele. "Todavia é um empoderamento muito frágil, pois trabalha com o otimismo, mas muitas vezes desconectado das situações históricas."

Mensagem clara
Toda essa noção ampliada acabou ressignificando a passagem original, cuja mensagem é extremamente direta e profundamente cristã. "O sentido teológico é relativamente simples: o caminho da grandeza é a auto-humilhação diante de Deus e diante dos homens. É a inversão de autoridade presente no Reino de Deus: os grandes são abatidos, enquanto os pequenos são exaltados", ressalta o teólogo Siqueira. "É uma advertência contra o orgulho e o poder. A grandeza está no serviço, na doação; e não nos títulos e nas glórias humanas. Porém, essa realidade de reversão só acontecerá no fim da história."

Para o vaticanista Filipe Domingues, doutor em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Gregoriana e vice-diretor do Lay Centre, em Roma, é importante lembrar que a mensagem de que "Deus vai ao encontro daquele que é humilhado pela sociedade" está presente na religião desde o judaismo.

"O cristianismo reforça isso porque Jesus vai pessoalmente ao encontro da mulher adúltera, do leproso, das crianças… Ele sempre coloca os humilhados em primeiro lugar. Esta é a mensagem política e social", frisa ele.

E não é à toa que essa mensagem de salvação ecoa por boa parte da Bíblia. São histórias vividas e textos escritos em um cenário de dominação. "As primeiras comunidades cristãs eram pobres e viviam em um contexto de dominação imperialista. A perseguição do Império Romano contra os primeiros cristãos lembrava a opressão babilônica contra a nação de Israel", comenta Siqueira.

"A frase de Jesus, que ressoa a tradição hebraica, é relembrada no texto de Mateus como a manifestação da esperança de uma reversão do quadro de opressão que a comunidade vivia."

Ellen White conclui: "'No reino que estou para estabelecer — disse Jesus — a luta pela supremacia não terá lugar. Todos vós sois irmãos. Ali todos os Meus servos serão iguais. A única grandeza reconhecida ali será a grandeza da humildade e dedicação ao serviço dos outros. Quem a si mesmo se humilhar, será exaltado; e quem a si mesmo se exaltar, será humilhado'. Os que crêem em Cristo e andam humildemente com Ele, não lutando pela supremacia, e que observam para ver o que podem fazer para ajudar, abençoar e fortalecer a alma dos outros, cooperam com os anjos que ministram aos que serão herdeiros da salvação. Jesus lhes dá graça, sabedoria e justiça, tornando-os uma bênção a todos aqueles com os quais são postos em contato. Quanto mais humildes forem eles em sua própria estima, tanto mais bênçãos receberão de Deus" (EDD, p. 373).

[Com informações de BBC]

segunda-feira, 13 de abril de 2026

ORGULHO ESPIRITUAL

François, duque de La Rochefoucauld, disse que “às vezes, a humildade nada mais é que um artifício do orgulho que se abaixa para levantar-se”.

O orgulho se aninhou, como um intruso, no coração de Lúcifer, e, não muito tempo depois, o mesmo pecado que levou o “anjo de luz” à ruina, foi transplantado para o coração humano. Onde há pecado, há orgulho.

O orgulho forja muitas fantasias, e uma delas é a idéia de que o homem é um deus. Essa fraqueza humana possui subtilezas que muitas pessoas desconhecem. Mencionemos algumas:

Falsa Modéstia – Há pessoas que se orgulham de sua humildade, ou seja, orgulham-se de não se acharem orgulhosas. Quando renunciamos a alguma coisa, não por sermos humildes, mas para sermos considerados como tais; quando, para sermos notados, damos atenção a pessoas humildes; quando optamos pelo último lugar, a fim de que os que estão por perto nos tenham na conta de pessoas desprendidas e corteses – então, somos reprovados por Aquele que perscruta os corações.

Quando nos ofendemos – O orgulhoso se ofende por qualquer coisa. Não aceita a menor repreensão. Essa atitude é uma das muitas máscaras do orgulho.

Farisaísmo – Todo legalista se acha superior às demais pessoas. Diz Ellen G. White: “Ergo a voz em advertência contra toda espécie de orgulho espiritual. Existe abundância disto atualmente na igreja” (Testemunhos Seletos, vol. 2, p. 205).

Quando outros sobem – A pior derrota para um coração orgulhoso é a vitória de seus semelhantes. O orgulhoso não sabe perder. Ressente-se do progresso dos outros.

Quando não somos elogiados – Quando realizamos alguma coisa importante e não somos reconhecidos, quase sempre nos sentimos amargurados. Essa pitada de tristeza é sinal de que desejamos chamar a atenção para nosso valor, nossa inteligência e nossa capacidade.

“No dia de Deus – diz Ellen White – muitos hão de ser pesados na balança e achados em falta por causa de sua exaltação pessoal” (Testemunhos Seletos, vol. 1, p. 321).

O orgulho espiritual é um poço escondido em que muitos cristãos inocentes caíram. É especialmente insidioso porque se disfarça como virtude. No Antigo Testamento, o Rei Uzias, foi em geral um bom governante, mas ele caiu por seu orgulho religioso. Ele achava que merecia os mesmos privilégios que os sacerdotes. O rei Saul também perdeu o seu reino, após usurpar as responsabilidades do sacerdócio.

Jesus abordou essa falha fatal em uma de suas parábolas mais populares. “Dois homens foram ao Templo para orar. Um era fariseu, e o outro, cobrador de impostos” (Lucas 18:10). Aqui Jesus contrasta duas pessoas que pertenciam à mesma igreja. No tempo de Jesus, os fariseus eram profundamente respeitados por sua religiosidade, enquanto os publicanos eram considerados párias.

Na parábola, “O fariseu, em pé, orava no íntimo: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho”, enquanto “o publicano ficou a distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’“ (Lucas 18:11-13).

De acordo com Jesus, foi o humilde publicano quem foi para casa justificado (Lucas 18:14). Você vê, o fariseu estava orgulhoso de suas boas obras, acreditando que ações espirituais valeriam sua aceitação diante de Deus. Mas o publicano tinha simples confiança na misericórdia de Deus. O publicano foi perdoado, mas o fariseu não. Não podemos perder essa lição, se quisermos crescer em Cristo.

O orgulho espiritual é mortal – e é a desgraça da Igreja de Laodicéia. Quando uma pessoa ou igreja diz: “Eu sou rico, e me tenho enriquecido, e de nenhuma coisa tenho necessidade” isso é nada mais do que o orgulho espiritual egoísta. E Deus tem algo a dizer sobre isso. Ele diz que nós realmente somos “pobres, miseráveis, cegos e nús e não sabemos disso”. Quanto mais você se tornar espiritualmente orgulhoso, mais espiritualmente pobre você é. Mas aqueles que reconhecem e admitem o seu estado espiritual falho, sabem que podem ser salvos apenas pela graça de Cristo, e tem uma vantagem nessa humildade. Jesus promete-lhes: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus.”

No clássico, Parábolas de Jesus, de Ellen White lemos: “O mesmo mal que levou Pedro à queda e excluiu da comunhão com Deus o fariseu, torna-se hoje a ruína de milhares. Nada é tão ofensivo a Deus nem tão perigoso para o espírito humano como o orgulho e a presunção. De todos os pecados é o que menos esperança incute, e o mais irremediável” (p. 154).

É por isso que Jesus disse: “Cuidado com os mestres da lei. Eles fazem questão de andar com roupas especiais, de receber saudações nas praças e de ocupar os lugares mais importantes nas sinagogas e os lugares de honra nos banquetes. Eles devoram as casas das viúvas, e, para disfarçar, fazem longas orações. Estes homens, diz Jesus “… receberão condenação mais severa!” (Marcos 12:38-40).

Você está sobrecarregado com orgulho espiritual? Você está orgulhoso de seu conhecimento das doutrinas da Bíblia? Você vai à igreja zombando daqueles que não vão no mesmo dia que você? Sonde o seu coração para as razões pelas quais você faz as coisas religiosas. O orgulho é a semente que Satanás plantou para ter Jesus pregado na cruz. Em Marcos 15 é nos dito que Pilatos perguntou aos judeus “Vocês querem que eu lhes solte o rei dos judeus? sabendo que fora por inveja que os chefes dos sacerdotes lhe haviam entregado Jesus” (versos 9 e 10). O orgulho ofendido por sentirem que Jesus ameaçava a importância deles entre os povos, fizeram com que eles o matassem.

A Bíblia nos diz repetidamente que Deus quer corações humildes em Seu povo. “O Senhor já nos mostrou o que é bom, ele já disse o que exige de nós. O que ele quer é que façamos o que é direito, que amemos uns aos outros com dedicação e que vivamos em humilde obediência ao nosso Deus” (Miquéias 6:8, NTLH).

O orgulho é uma bússola que aponta sempre para si mesmo. Mas nós podemos escolher resistir a essa tendência natural. Através do Espírito de Deus, podemos optar por sermos humildes. A Bíblia não diz que devemos pedir a Deus para nos humilhar, em vez disso, nós somos repetidamente convidados a nos humilhar “se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (2 Crônicas 7:14). Deus certamente pode encontrar formas de fazê-lo recuar em seu orgulho, e isso, porque Ele te ama.

A verdadeira humildade reequilibra nossas emoções, dando-nos a capacidade de aceitar a porção que Deus nos concedeu. Ellen White alerta: "A pessoa que cai em algum pecado grosseiro sente, talvez, sua vergonha e miséria, e sua necessidade da graça de Cristo; mas o orgulho não sente necessidade alguma, e assim fecha o coração a Cristo e às infinitas bênçãos que veio dar" (Caminho à Cristo, p. 30).

Talvez seja preciso lembrar aos orgulhosos, que, historicamente, o orgulho sempre oprimiu, o orgulho sempre devastou, o orgulho sempre colocou os diferentes em posição vexatória, o orgulho sempre dividiu, o orgulho sempre caminha para a supremacia usando os diferentes como degraus. O orgulho não ama, o orgulho usa; ele não se compadece, ele oprime; o orgulho não ouve, ele vocifera; o orgulho não estende a mão, ele cerra os punhos; o orgulho não tem espelho; até porque o orgulho não enxerga muito bem. O orgulho é nefasto. O orgulho é vergonhoso.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

FALTA DE CARÁTER

Caráter é um conjunto de características e traços relativos à maneira de agir e de reagir de um indivíduo ou de um grupo. É um feitio moral. É a firmeza e coerência de atitudes. O conjunto das qualidades e defeitos de uma pessoa é que vai determinar a sua conduta e a sua moralidade, o seu caráter. Os seus valores e firmeza moral definem a coerência das suas ações, do seu procedimento e comportamento.

Ellen G. White assim define a importância do caráter: "A formação do caráter não é obra de um dia, nem de um ano, mas de uma existência. A luta pela conquista do eu, pela santidade e o Céu, é uma luta que se prolonga por toda a vida. Sem contínuo esforço e atividade constante, não pode haver progresso nem ganho da coroa da vitória" (A Ciência do Bom Viver, p. 452). Continua: “O caráter formado segundo a semelhança divina é o único tesouro que deste mundo podemos levar para o futuro. Aqueles que nesta vida estão sob a instrução de Cristo, levarão consigo, para as mansões celestes, todo aprendizado divino. E no Céu deveremos progredir continuamente” (Parábolas de Jesus, p. 332). E finaliza: "O caráter que uma pessoa forma neste mundo determina seu destino para a eternidade” (Meditação Matinal 2013 – Perto do Céu, p. 61).

FALTA DE CARÁTER
As falhas de caráter são características naturais do ser humano. Errar faz parte do desenvolvimento e é graças aos erros que muitas de nossas aprendizagens, e mesmo evolução como pessoas, acontece. A falha está relacionada com consciência e busca sincera por mudanças. Mas o que significa então, a chamada falta de caráter? A falta de caráter é percebida quando, mesmo errando repetidamente com os outros, causando prejuízo a terceiros, e ferindo sentimentos através de manipulações e mentiras, a pessoa insiste no ato. A falta de caráter é característica de pessoas com baixa consciência moral, uma vez que essas pessoas não objetivam melhorar, pelo menos não sinceramente. Confira alguns sinais de falta de caráter:

Mentiras - Todos nós mentimos, quer admitamos, quer não. As mentiras podem ser coisas banais do dia a dia, como dizer que vamos para casa, quando realmente não queremos sair com alguém (nesse caso, até uma maneira de tentar abrandar um mal-estar), como podem ser mentiras mais graves, e que envolvem consequências importantes. Entretanto, todos estamos sujeitos a um erro grave. A diferença entre uma mentira acontecer em uma pessoa normal (cheia de falhas, mas que tem consciência), e em uma pessoa com falta de caráter, será a repetição, e a não correção do ato, mesmo após ter passado por situações delicadas com as mentiras anteriores.

Segundo Ellen White, "a firme adesão à verdade é necessária à formação do caráter cristão. Aquele que profere mentiras vende o caráter em mercado barato" (Nos Lugares Celestiais, p. 173).

Traição - Longe de ser um tópico moralista, a traição pode ser entendida como falta de caráter, quando também acontece em uma relação em que o pacto do casal é de fidelidade. A traição também deve ser lembrada nos contextos de sociedade, no trabalho e amizade, em que o raciocínio é o mesmo: quebra de acordos e confiança.

Ellen White define assim: "Engano, falsidade e infidelidade podem ser dissimulados e ocultos dos olhos humanos, mas não dos olhos de Deus. Os anjos de Deus, que observam o desenvolvimento do caráter e pesam o valor moral, registram nos livros do Céu essas pequeninas transações reveladoras do caráter" (Conselhos para a Igreja, p. 85).

Dívidas - Uma coisa é a pessoa passar por situações complexas e que impossibilitem o pagamento de suas contas, outra coisa é a má administração do dinheiro, o consumismo desnecessário e o “comprar sem ter a intenção de pagar”. Um exemplo que deve ser observado são as pessoas que emprestam dinheiro de familiares e/ou amigos e não se veem na obrigação de pagar, aproveitando-se do vínculo afetivo existente. Mais uma vez, a falta de caráter será observada na frequência das ações.

Veja o conselho de Ellen White: "Fazei, com Deus, o solene concerto de, com a Sua bênção, pagar vossas dívidas e a ninguém dever coisa alguma, ainda que tenhais de viver a pão e água. Economizai vosso dinheiro e pagai vossas dívidas. Esforçai-vos para pagá-las o mais depressa possível. Quando vos puderdes apresentar novamente como um homem livre, não devendo nada a ninguém, tereis alcançado uma grande vitória" (Conselhos sobre Mordomia, p. 155).

Tratamento diferenciado - O que motiva alguém a tratar bem algumas pessoas em detrimento de outras? O que pensar de alguém que só trata bem àqueles que têm dinheiro ou que podem lhe oferecer algo em troca? A arrogância, a hipocrisia e comportamento interesseiro também são, sem dúvidas, sinais de falta de caráter.

Ellen White afirma: "Mas a posição não faz o homem. É a integridade de caráter, o Espírito de Cristo, que o torna grato, nada interesseiro, sem parcialidade e sem hipocrisia; e, para Deus, isto é que tem valor” (Liderança Cristã, p. 24).

Manipulação - Tentar convencer alguém a pensar ou fazer algo de maneira diferente são coisas completamente diferentes de manipular pessoas a fazerem coisas que elas, se estivessem em plena consciência de seus atos, talvez não fizessem. A manipulação é um comportamento egoísta, uma vez que tira o direito de escolha do outro, e mostra falta ou total ausência de consideração pelo outro. O manipulador sempre visa driblar vontades e regras para favorecimento pessoal.

Mas Ellen White alerta que "Deus não Se deixa enganar pela aparência de piedade. Não comete erros em Sua apreciação do caráter. Os homens podem ser enganados pelos que são de coração corrupto, mas Deus penetra todos os disfarces e lê a vida íntima" (Cristo em Seu Santuário, p. 115).

Falta de palavra - A falta de palavra pode caminhar próximo à mentira e à manipulação. Quando alguém combina algo ou assume um compromisso, a espera social é que o mesmo seja cumprido. Mais uma vez, descartando os casos isolados, uma “palavra” quebrada com frequência oferece sérios indícios de falta de caráter.

Ellen White diz que "aquele que segue um mau procedimento, profere falsidade ou pratica engano, perde o respeito de si mesmo. Deus quer que os homens ao Seu serviço, sob Sua bandeira, sejam estritamente honestos, de caráter irrepreensível, que sua língua não pronuncie nada que se assemelhe a uma inverdade" (Conselhos para a Igreja, p. 85).

Não assumir as próprias responsabilidades e erros - Um dos maiores sinais de maturidade que pode ser encontrado em alguém é a capacidade de assumir as próprias responsabilidades. A falta de caráter pode ser observada se uma pessoa repetidamente atribui a outros a responsabilidade por atos que deveriam ser assumidos pessoalmente, principalmente, no que se refere às quebras de regras e leis que infringem com frequência.

Pessoas de caráter também costumam assumir os próprios erros – e não para por aí: elas buscam formas de reparar o estrago que causaram e aproveitam os erros cometidos para aprender com eles. Ellen White afirma que "o verdadeiro arrependimento levará o homem a assumir a própria culpa e reconhecê-la sem fraude ou hipocrisia" (Testemunhos para a Igreja 5, p. 638).

CORRIGINDO OS DEFEITOS DE CARÁTER
Finalizo com estes cinco maravilhosos e sábios conselhos de Ellen White para que possamos corrigir nossos defeitos de caráter:

1. “A descoberta desses defeitos deve levá-los a odiar o espelho ou odiar a si mesmos? Devem rejeitar o espelho que revela tais defeitos? Não. Os pecados cultivados, que o espelho fiel revela existirem em seu caráter, fecharão os portais do Céu para sua entrada, a menos que sejam abandonados e eles se tornem perfeitos diante de Deus” (Meditação Matinal 2013 – Perto Do Céu, p. 137).

2. “Ninguém diga: Não posso corrigir meus defeitos de caráter. Se chegardes a essa decisão, certamente deixareis de alcançar a vida eterna. A impossibilidade está em nossa própria vontade. Se não quiserdes não vencereis. A dificuldade real vem da corrupção de um coração não santificado, e da involuntariedade de se submeter à direção de Deus. Cristo, porém, não nos deu garantia alguma de que é fácil alcançar perfeição de caráter. Não se herda caráter perfeito e nobre. Não o recebemos por acaso. O caráter nobre é ganho por esforço individual mediante os méritos e a graça de Cristo. Deus dá os talentos e as faculdades mentais; nós formamos o caráter. É formado por combates árduos e relutantes com o próprio eu. As tendências herdadas devem ser banidas por um conflito após outro. Devemos esquadrinhar-nos detidamente e não permitir que permaneça traço algum incorreto” (Parábolas de Jesus, p. 331).

3. "Pela fé, cada deficiência de caráter pode ser suprida, todas as contaminações purificadas, cada falta corrigida e toda boa qualidade desenvolvida" (Ato dos Apóstolos, p. 315).

4. "Deus providenciou, em Cristo, meios para vencer todo mau traço de caráter, e resistir a toda tentação, por mais forte que seja" (A Ciência do Bom Viver, p. 19).

5. "Os que lutam para subjugar seus naturais defeitos de caráter, não podem ser coroados a menos que lutem legitimamente; mas os que forem muitas vezes encontrados em oração, porfiando pela sabedoria que vem do alto, esses se tornarão assemelhados ao divino" (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, p. 523).

quarta-feira, 8 de abril de 2026

P DO PECADO

A música "P do Pecado", interpretada pela cantora Simone Mendes (abertamente cristã) e Grupo Menos é Mais, gerou controvérsia no meio religioso por abordar traição e mentira. A letra usa o "P" como metáfora para a parcela de culpa na relação, narrando uma situação de infidelidade, onde o eu-lírico se coloca apenas como parte ("P") do pecado, não o total responsável. 

Parte do público religioso questionou a conduta da cantora por, segundo eles, normalizar temas contrários aos valores cristãos. A cantora defendeu sua arte, alegando que sua vida pessoal e fé em Deus não estão ligadas ao conteúdo das músicas que interpreta: “A minha fé em Deus não tem nada a ver com o que eu canto”, disparou a artista. “Tem um povo narcisista difícil religioso, que é uma pena por que quem tem que condenar é só Deus, que tem que dizer o que está certo e o que está errado. Eu continuo levando amor, alegria e vou continuar cantando porque essa é minha arte”, acrescentou.

Uma coisa é certa: todo pecado é uma terrível ofensa a Deus. O pecado é a soma de todos os males, o oposto de tudo que é bom, santo e belo. Até mesmo o menor dos meus pecados exigiu a morte do Filho de Deus. Todo pecado é uma traição cósmica. Mas polêmicas à parte, vamos refletir neste artigo sobre a compreensão bíblica da natureza e das definições do pecado.

O pecado é descrito na Bíblia principalmente em termos teológicos e relacionais, pois se dirige contra o nosso Deus, o Criador e Redentor, e destrói a nós e aos nossos relacionamentos com as pessoas ao nosso redor. Davi o expressou eloquentemente em seu arrependimento, após compreender profundamente a natureza desmoralizante de seus atos pecaminosos contra si mesmo, Bate-Seba e sua família: “Contra ti [ó Deus], ​​[...] pequei e fiz o que é mau perante os teus olhos” (Salmo 51:4; cf. Gênesis 39:8).

A terminologia hebraica abrangente e colorida para pecado revela sua natureza devastadora. O rico vocabulário demonstra a complexidade do pecado. A linguagem bíblica mais forte para pecado — a trilogia do pecado — consiste nos seguintes termos: hattah (o termo mais comum para pecado no sentido de errar o alvo, desviar-se do caminho certo ou se perder da senda reta; a palavra grega hamartia expressa a mesma ideia), avon (transgressão, algo que é torto, distorcido ou desviado) e peshah (rebelião, revolta). Deus perdoa todas essas variantes pecaminosas e transgressões mencionadas em passagens cruciais das escrituras hebraicas (ver Êxodo 34:6; Levítico 16:21; Salmo 32:1, 2; Isaías 53:5, 6, 8-12; Daniel 9:24). Além dessas três palavras principais para pecado, a Bíblia contém termos adicionais que descrevem a complexidade do pecado e nossa natureza pecaminosa, por exemplo: maldade, culpa, perversidade, transgressão, impureza, engano, desonestidade, falsidade, ofensa, abominação, profanação, perversão, injustiça, erro, arrogância e fracasso.

De acordo com o relato da Criação em Gênesis, os seres humanos foram criados (1) para um relacionamento com Deus, (2) em total dependência Dele, (3) para desfrutar e cultivar Sua presença na vida. O pecado destrói esse modelo e arruína o belo projeto original que Deus estabeleceu para a felicidade, prosperidade e crescimento da humanidade.

Cinco definições bíblicas de pecado
É possível resumir os vários aspectos do problema do pecado em cinco definições bíblicas principais de pecado:

1. O pecado, segundo Gênesis 3, é uma relação rompida com Deus, uma tentativa de viver de forma independente e autônoma, longe de Deus (do grego autos, “próprio”, e nomos, “lei”, ou seja, ser a lei de si mesmo). É uma vida sem Deus, Sua autoridade e Sua lei. Destrói as qualidades básicas da vida e nega a presença de Deus (por isso, Adão e Eva se esconderam após pecarem). O pecado é, portanto, a descriação, o desfazimento da maravilhosa Criação de Deus. O pecado inverte todas as três funções e propósitos fundamentais da vida para os quais fomos criados: rompe uma comunhão de confiança com Deus, decide pela própria autoridade o que é certo ou errado e nos afasta da presença do Senhor. Assim, o mal nos separa de Deus e nos isola Dele. 

O pecado surge como resultado da recusa da autoridade de Deus e da falta de vontade de reconhecê-Lo como o Criador, a quem somos e devemos prestar contas. A lei de Deus é quebrada primeiro na mente e depois no comportamento. A mesma ideia de Gênesis 3 é expressa por Paulo no Novo Testamento: “Tudo o que não provém da fé é pecado” (Romanos 14:23). Fé é uma relação de confiança com Deus, e quebrar a fé é pecado (Malaquias 2:10, 11). Deus comentou sobre o pecado de Moisés da mesma maneira: “Vocês não confiaram em mim o suficiente para me honrar como santo aos olhos dos israelitas” (Números 20:12). Portanto, pecado é desconfiança em Deus, descrença nele; é um estado de espírito com rejeição direta da lei de Deus.[1]

A Bíblia apresenta definições adicionais de pecado; no entanto, elas são, em princípio, uma elaboração e expansão da descrição acima, construídas sobre a teologia do pecado apresentada na narrativa da Queda.

2. A definição bem conhecida de pecado na Bíblia vem do apóstolo João (com base em Gênesis 3): pecado é a transgressão da lei (1 João 3:4; a palavra grega anomia significa literalmente “transgressão da lei”), um ato concreto de desobediência. É uma ação externa, um resultado visível de um relacionamento rompido, uma consequência de pensamentos errados, um efeito da fé quebrada e um produto da desconfiança. A pergunta de Deus: “Comestes da árvore da qual te ordenei que não comesses?” (Gênesis 3:11) revelou que a desobediência é o resultado do desrespeito ao mandamento de Deus. Dessa forma, o pecado é uma rebelião desafiadora e arrogante contra Deus, e uma rejeição orgulhosa de Sua palavra, vontade e autoridade. Isso foi bem explicado por Samuel a Saul, o primeiro rei de Israel, após sua desobediência: “Obedecer é melhor do que sacrificar. [...] A rebeldia é como o pecado da adivinhação, e a arrogância como a maldade da idolatria” (1 Samuel 15:22, 23). Viver em pecado significa viver sem se concentrar em Deus e cumprir a Sua vontade.

3. O pecado é um estado inato para os seres humanos. Isso já se reflete em Gênesis 5:1-3, onde se afirma que Adão foi criado à imagem de Deus, mas Sete nasceu à imagem de Adão, seu pai. A diferença entre Adão ser criado à imagem de Deus (Gênesis 1) e Sete ser feito à imagem de Adão (Gênesis 5) pode ser explicada pelo evento que provocou essa mudança: a queda no pecado, conforme descrito em Gênesis 3. Após o pecado de Adão e Eva, nossa natureza humana foi corrompida, e sua posteridade nasceu com uma natureza pecaminosa. Davi afirma isso claramente: “Certamente eu nasci em pecado, e em iniquidade me concebeu minha mãe” (Salmo 51:5). Também no Salmo 58:3, Davi fala sobre a atitude errada dos ímpios para com Deus: “Desde o nascimento os ímpios se desviam; desde o ventre materno se desviam, espalhando mentiras”. Antes do nosso arrependimento, todas as nossas vestes estão imundas (Isaías 64:6); Antes da regeneração, nosso coração está pervertido e nos engana (Jeremias 17:9). O caminho parece reto aos homens, mas seu fim é a morte (Provérbios 14:12). Não somos capazes de mudar nossa natureza, assim como um leopardo não pode trocar de pele (Jeremias 13:23). Sem exceção, somos todos pecadores (Eclesiastes 7:20; Romanos 3:23; 1 João 1:8). Temos medo de Deus por natureza (Gênesis 3:10); nascemos alienados dEle e mortos em nossos pecados (Efésios 2:1, 12, 19).[2]

O apóstolo Paulo explica isso claramente em Romanos 7:15-20, quando declara que o pecado reside em nossa natureza humana. Os seres humanos nascem com uma natureza pecaminosa e, consequentemente, nascem como pecadores, separados de Deus e necessitados de salvação. Como pecadores, amamos e praticamos o pecado, e nossa natureza pecaminosa é caracterizada por egoísmo, tendências ao mal, propensões ao pecado e inclinações para o mal. O poder do pecado nos escraviza (Romanos 5:6; 6:6, 7, 14; 7:25). Não apenas uma parte do ser humano pecou, ​​mas a pessoa inteira; portanto, tudo é afetado e corrompido pelo pecado.

Tiago reforça essa mesma verdade ao explicar que o pecado começa com os desejos íntimos da nossa natureza pecaminosa, que o “desejo maligno” reside dentro de nós e, quando cultivado, produz pecado, a busca pelo fruto proibido. Esse desejo errado ainda não é pecado (a menos que seja acalentado), mas quando cedemos a ele, leva a ações erradas e à morte (Tiago 1:14, 15). Somos culpados quando nos entregamos a esses desejos malignos e nos associamos a eles.

4. Pecado é a negligência em fazer o bem, a omissão em fazer o que é certo (Tiago 4:17). Envolve uma atitude de indiferença. Essa atitude também pode ser chamada de apatia ou tibieza (Apocalipse 3:15-18). O cristianismo é mais do que apenas não fazer coisas erradas (Tiago 1:27), pois a verdadeira religião consiste em fazer o que é bom, certo e proveitoso (Miquéias 6:8; João 5:29; Tito 3:8; Tiago 1:27; cf. Filipenses 4:5, 6). O cristianismo é uma religião ativa. O Deus vivo é um Deus de ação; portanto, Ele deseja seguidores proativos. Conhecer a verdade e praticar boas obras devem sempre andar de mãos dadas (Gálatas 5:4; Tiago 1:27; 1 Pedro 2:9; Efésios 2:10).

5. O pecado por excelência é não crer em Jesus Cristo, pois Ele é a única solução para a nossa pecaminosidade (João 16:8, 9). Os seres humanos não podem se ajudar, curar o problema do pecado e sarar suas próprias feridas. Cristo é o único e exclusivo Salvador do mundo (Atos 4:12; 16:31; Romanos 8:1; 1 João 5:12, 13). Rejeitar o Seu sacrifício supremo por nós — a Sua morte na cruz — é como se afogar no oceano e, quando o socorro chega, recusar a oferta de salvação. Pecado é a incredulidade em Jesus, a recusa da Sua ação salvadora em nosso favor, porque Ele é o único que pode nos resgatar da escravidão do pecado. Deixar de aceitar Jesus como Salvador pessoal e permanecer no pecado é fatal (Provérbios 24:16; João 3:36).

Somente quando compreendemos a verdadeira natureza do pecado podemos nos conhecer melhor e admirar ainda mais o que Jesus fez e está fazendo por nós, em nós e através de nós. A compreensão de que a solução para o problema do pecado exigiu a encarnação e a morte de Jesus Cristo (Gênesis 3:15; Isaías 53:1-6; João 3:16; Romanos 6:23; 2 Coríntios 5:21) nos ajuda a enxergar a verdadeira e terrível natureza do pecado, com toda a sua seriedade e profundidade. Deus teve que deixar Sua posição no céu, viver como um ser humano e passar por imenso sofrimento e morte para nos salvar e nos libertar do poder do pecado. Essa solução teve um custo extremamente alto — custou a vida do Filho de Deus, Jesus Cristo.

Conclusão
Onde o primeiro Adão falhou, o segundo Adão venceu (Rm 5:14-21; 1Co 15:22, 45-49). O que os humanos perderam no Jardim do Éden, Cristo veio restaurar na cruz. Nossa nova e verdadeira identidade pode e deve ser moldada e edificada de acordo com a vitória conquistada por Jesus Cristo (2Co 5:17). Deus não nos deixou à mercê do poder de Satanás e do pecado — o Espírito de Deus traz a vitória quando, pela fé, nos apegamos a Deus e à Sua Palavra, pois somente o Espírito Santo e a Palavra de Deus podem produzir a verdadeira vida (Ez 36:25-27; Rm 8:4, 14). A solução para o pecado envolve não apenas o perdão, mas também a renovação e a restauração da imagem de Deus e a libertação da escravidão e dos vícios do pecado. Uma nova vida é orientada pela Palavra e pelo Espírito (Rm 8:2-6; Cl 3:1-4, 10).

Nossa natureza pecaminosa não muda nem desaparece por meio da conversão ou do arrependimento. Contudo, nossa natureza pecaminosa, tendências ou inclinações (herdadas ou cultivadas) podem ser controladas pelo poder do Espírito Santo, Sua Palavra e a graça de Deus (Romanos 7:25; 8:1-11). Até a Segunda Vinda, teremos nossa natureza pecaminosa, e somente então os crentes serão completamente transformados e receberão um corpo incorruptível (1 Coríntios 15:50-57; Filipenses 3:20, 21; 1 João 3:2-5). Enquanto isso, porém, podemos ter plena confiança em Cristo, que nos liberta do pecado.

Referências
[1] Ellen G. White define com precisão o primeiro pecado de Adão e Eva no Jardim do Éden como “desconfiança na bondade de Deus, descrença em Sua palavra e rejeição de Sua autoridade, que fizeram de nossos primeiros pais transgressores e que trouxeram ao mundo o conhecimento do mal” (Educação, p. 25). A natureza do pecado é, portanto, explicada pelo conceito de um relacionamento rompido e um estado de espírito hostil em relação a Deus. Veja também o artigo “Pecado” em The Ellen G. White Encyclopedia, pp. 1164-1167.

[2] Somente Jesus nasceu como “o santo” (Lucas 1:35); todos os humanos nascem hostis a Deus (Romanos 8:7) e mortos em seu pecado (Salmo 51:5; Efésios 2:1-3).

[Com informações de Adventist Review]