O céu de Tel Aviv, em Israel, foi tomado por milhares de corvos nesta terça-feira (24). O fenômeno chamou a atenção de moradores e gerou vídeos impressionantes que rapidamente viralizaram nas redes sociais. As imagens mostram os pássaros circulando em massa por grandes arranha-céus, como as famosas Torres Azrieli. O cenário, considerado sinistro por muitos espectadores, intensificou o clima de apreensão em meio às crescentes tensões geopolíticas com o Irã.
Nas plataformas digitais, usuários descreveram o evento como um "presságio de desgraça" e um sinal de desastre iminente na região. Diversos internautas associaram as nuvens escuras formadas pelas aves a profecias bíblicas, citando a passagem de Apocalipse 19:17. Outros relembraram tradições da Roma Antiga, onde os voos de pássaros eram interpretados como mensagens divinas que antecediam guerras, além da lenda secular que envolve a segurança da monarquia britânica e os corvos da Torre de Londres.
Mas apesar do pânico na internet, ornitólogos e cientistas esclarecem que o espetáculo não tem qualquer relação sobrenatural ou com o conflito armado. O evento faz parte de uma migração sazonal de rotina ao longo de uma das rotas de aves mais movimentadas do mundo. Especialistas destacam que cerca de 500 milhões de pássaros passam pelo território israelense anualmente durante a primavera. No mês de março, é comum que a espécie corvo-cinzento se reúna em massa em áreas urbanas na época de nidificação.
O CORVO NA BÍBLIA
A Bíblia não fala somente de Deus e do ser humano, mas dirige sua atenção também aos seres não humanos, acolhendo espaços celestes e terrestres, água, ar, solo e temperatura, vegetais e animais.
À procura de um exemplo disso, o presente artigo propõe-se focar em um pássaro que a Bíblia menciona onze vezes. Na Bíblia hebraica, lida por cristãos e cristãs como Antigo Testamento, o “corvo” ( בֵרֹע ) aparece dez vezes (Gn 8:7; Lv 11:15; Dt 14:14; 1Rs 17:4.6; Is 34:11; Sl 147:9; Jó 38:41; Pr 30:17; Ct 5:11). Além disso, o nome da ave ainda se torna topônimo, ou seja, nome de lugar – “o rochedo de Oreb” (Jz 7:25; Is 10:26) –, e antropônimo, ou seja, nome de pessoa: “Oreb, príncipe de Madiã” (Jz 7:25 – três vezes; Jz 8:3; Sl 83:12). No Novo Testamento, por sua vez, Jesus apresenta esse pássaro a seus discípulos como paradigma de comportamento: “Olhai os corvos!” (κόραξ: Lc 12:24). Portanto... o que o corvo, um dos animais selvagens talvez menos imponentes, biblicamente traz de mensagem em relação a Deus e ao ser humano?
1. O PRIMEIRO A SAIR
Na história sobre o dilúvio (Gn 6:9-9,17), “quarenta dias e quarenta noites de chuva sobre a terra” (Gn 7:4, 12, 17), com “o rompimento de todas as fontes do grande abismo e a abertura das comportas do céu” (Gn 7:11), provocam uma inundação total da terra durante “cento e cinquenta dias” (Gn 7:24; 8:3). Em seguida, as águas do dilúvio diminuem, e “a arca atracou sobre os montes de Ararate” (Gn 8:4). Outros 74 dias depois, “apareceram os cumes dos montes” (Gn 8:5). Noé, no entanto, ainda não vislumbra espaços maiores de terras não inundadas, tanto que, somente ao fim de outros quarenta dias, “abre uma janela da arca” (Gn 8:6). Com isso nasce a esperança de que, em algum momento, a saída da arca seja possível.
Não obstante, a abrangência da catástrofe ambiental exige paciência e cautela. As águas recuam lentamente. Prova disso é que, da “abertura da janela” (Gn 6:8) até a saída de todos os seres vivos da arca, vão se passar outros 107 dias (cf. Gn 8:10, 12, 13, 14). Nesse tempo, por sua vez, Noé usa duas espécies de aves para, constantemente, obter informações sobre o nível dos alagamentos. Afinal, nos tempos antigos, antes da invenção da bússola e de outros instrumentos de navegação, era comum entre os navegantes soltar pássaros a fim de constatar se e em qual direção existia terra firme nas proximidades.
O primeiro pássaro enviado por Noé é um corvo: este, de fato, saiu, quer dizer, “saía e voltava, enquanto as águas sobre a terra secavam” (Gn 8:7). Sete dias depois, com o mesmo propósito de querer saber se a terra já havia secado, Noé envia uma pomba (Gn 8:8), mas a ave logo lhe volta, justamente por “não encontrar lugar de pouso para suas patas” (Gn 8:9). Enviada uma segunda vez após outros sete dias, “a pomba lhe voltou com um ramo fresco de oliveira em seu bico” (Gn 8:11). Tendo esperado outros sete dias, a terceira pomba já “não lhe voltou mais” (Gn 8:12). A terra, portanto, estava seca.
Todavia, o corvo, talvez por ser mais robusto, cumpre na narrativa o papel de pioneiro. É o primeiro a sair da arca. Com isso, faz Noé chegar a um primeiro conhecimento sobre o estado das inundações. Ellen White assim narra: "Noé e sua família ansiosamente esperaram o recuo das águas; pois almejavam sair de novo à terra. Quarenta dias depois que os altos das montanhas se tornaram visíveis, enviaram um corvo, ave de fino olfato, para revelar se a terra se tornara enxuta. Esta ave, nada encontrando senão água, continuou a voar da arca para fora e de fora para a arca" (Patriarcas e Profetas, p. 65). Ademais, com as suas repetidas “saídas” (Gn 8:7), o corvo traz a dinâmica exodal à memória do ouvinte-leitor, prefigurando as posteriores “saídas” de todos os seres vivos, humanos e não humanos, da arca (Gn 8:15-19), a fim de que, após a catástrofe provocada pela “maldade do ser humano” (Gn 6:5), retomem a vida sobre a terra.
2. ABENÇOADO E PROTEGIDO
Duas leis no Pentateuco incluem “todo corvo segundo sua espécie” (Lv 11:15; Dt 14:14) entre as aves a não serem comidas pelo ser humano (Lv 11:13; Dt 14:12). Pelo contrário, estas devem ser consideradas uma “abominação” (Lv 11:13) ou “coisa detestável” (Dt 14:3).
Não obstante, ao prescrever essa restrição alimentícia, Deus não condena o corvo por não ser uma “ave pura comestível” (Dt 14:20). Pelo contrário, considerando todo o Pentateuco como direito, narra-se logo em seu início que, ao criar as “aves aladas”, Deus as avalia como “boas” (Gn 1:21). Mais ainda, junto com os “seres vivos na água”, os “seres vivos que voam” são merecedores da primeira bênção do Criador (Gn 1:20-22).
3. O SABER ALIMENTAR(-SE)
O contraste não poderia ser maior quando se descobre a presença do corvo na vida de Elias. É no século IX a.C. que esse profeta anuncia uma seca a Acabe (1Rs 17:1), rei de Israel, que tinha aderido ao deus Baal (1Rs 16:29-33). Para escapar dessa catástrofe ambiental, Elias, por ordem divina, “escondeu-se junto à torrente de Querite, a leste do Jordão”: não só para encontrar água para beber, mas também para comer, uma vez que “os corvos lhe levavam pão e carne pela manhã, e pão e carne à tarde” (1Rs 17:2-6). Isto é, os corvos (1Rs 17:4.6), cuja carne não pode ser comida, alimentam de modo milagroso o profeta refugiado.
Deus carinhosamente cuida da sobrevivência de Elias em uma região sem ser humano, quando põe os corvos a serviço de seu profeta. Veja que lindo este pensamento de Ellen White: "Aquele Deus que mandou os corvos alimentarem Elias junto à fonte de Querite, não passará por alto um de Seus filhos fiéis, pronto a se sacrificar" (O Maior Discurso de Cristo, p. 110).
4. PROMOVEDOR DA JUSTIÇA
Em dois momentos, também de forma surpreendente, o corvo ganha uma função quando, de forma compensatória, se visa à promoção da justiça. Num deles, isso ocorre quando a terra de uma nação, em vista de seu comportamento, chega à desolação. Com os seres humanos e o gado mortos, com as construções transformadas em ruínas, os animais selvagens novamente tomam posse daqueles espaços dos quais, no passado, foram expulsos e/ou afastados. Eis o anúncio profético em relação a Edom: “Nunca mais haverá quem passe por lá” (Is 34:10), mas as aves selvagens, entre as quais o corvo, “tomarão posse” dessas terras e nelas “morarão” (Is 34:11).
Outro momento dramático de promoção da justiça surge quando os filhos não sabem respeitar os pais e cuidar deles. Eis a atroz punição que a sabedoria proverbial anuncia para o caso, envolvendo outra vez a ave aqui estudada: “O olho que escarnece o pai e menospreza a obediência à mãe, os corvos da torrente o arrancarão e os filhotes do abutre o devorarão” (Pv 30:17). Ou seja, cabe a essas aves necrófagas a tarefa de tirar a bicadas e consumir o órgão de visão de quem não enxerga as necessidades nem dos próprios pais.
5. SÍMBOLO DA BELEZA
Porventura o corvo é bonito? Decerto, a cor de sua plumagem se destaca. Nesse sentido, ao descrever, da cabeça aos pés, a beleza de seu amado (Ct 5:10-16), também os “cachos dele” chamam a atenção da amada no Cântico dos Cânticos: são como “panículas de tâmaras”, isto é, um conjunto de racemos que formam um cacho, e “pretos como um corvo” (Ct 5:11). Isto é, ou essas palavras de admiração parecem investir no contraste atraente entre o cabelo profundamente preto e a pele branca e brilhante do rosto, ou o cabelo preto talvez queira indicar saúde, juventude e vitalidade, em contraste com os cabelos brancos do idoso. Em todo caso, um grau elevado de pretidão e, com isso, a profundidade, a beleza e/ou a presença da cor em questão se fazem presentes, de forma extraordinária, nas penas de um corvo.
6. ALVO DA PROVIDÊNCIA DIVINA
Em seus discursos dirigidos ao sofredor Jó (Jó 38-41), o Senhor pergunta: “Quem prepara a provisão para o corvo, quando os filhotes dele gritam por socorro a Deus e vagueiam sem comida?” (Jó 38:41). A pergunta pressupõe que o corvo seja o mais fraco entre os catadores necrófagos, pois apenas se banqueteia no final com o que os outros deixam para trás. Não obstante, também essa ave se alimenta pela graça divina e não fica sem comer.
De forma semelhante, a oração poética acolhe o Senhor, Deus de Israel, como quem “oferece alimento aos filhotes do corvo, quando clamam” (Sl 147:9). No caso, os animais em questão representam as criaturas pequenas e indefesas, dependentes dos cuidados de outros. Contudo, essa situação singular deixa clara a dependência existencial de todos os seres em relação à assistência e solicitude de Deus.
Fazendo parte do mundo pensado no Antigo Testamento, também Jesus dirige sua atenção aos pássaros dez vezes contemplados na Sagrada Escritura, dando a seguinte ordem a seus discípulos: “Olhai os corvos: não semeiam, nem colhem, não têm despensa nem celeiro e, no entanto, Deus os alimenta! Quanto mais valeis vós do que as aves!” (Lc 12:24). Ellen White comenta: "Como podem aqueles que esperam estar ao redor do trono de Cristo, e ser revestidos com Sua justiça, desconfiar de Deus e temer que os deixe chegar à penúria? Onde está a fé dessas pessoas? Nosso Pai celeste alimenta os corvos, e não alimentará muito mais a nós?" (Filhos e Filhas de Deus, p. 234).
CONCLUSÃO
A natureza, de forma semelhante à Sagrada Escritura, torna-se Palavra de Deus para quem a medita. A própria Bíblia, constantemente, celebra esse saber. Isto é, os mais diversos seres não humanos – fenômenos celestes e espaços terrestres, ar, água, solo e temperatura, vegetais e animais – aproximam o ser humano do mistério da vida e de Deus.
O exercício ecoespiritual aqui realizado, insistindo em um simples e místico olhar bíblico para o corvo – coabitante, com o ser humano, na terra, a casa comum de ambos –, permite buscar o sentido da própria existência e, com isso, um encontro autêntico com Deus. No caso, o corvo representa bem algumas dinâmicas fundamentais: a) após a catástrofe ambiental, é preciso sair dos abrigos, visando ao movimento exodal em busca de novas e mais justas convivências sobre a terra; b) diante da grande bênção divina que é a natureza, é preciso respeitar os recursos naturais, especialmente as fontes de alimentação; c) no entanto, deve prevalecer a preocupação com o que o necessitado precisa para alimentar-se; d) é preciso resistir aos que insistem em domínios, políticas opressivas e comportamentos desrespeitosos e humilhantes; e) deve-se olhar para o que é bonito; f) não há alternativa à confiança na Providência divina.
Para a perspectiva bíblica, o corvo é um animal que evoca a necessidade de confiança em Deus acima dos temores naturais ou superstições. Portanto, em vez de olhar de forma negativa e/ou indiferente para o corvo, a Bíblia convida seu leitor(a) a aprender tudo isso com ele.
[Com referências de O Tempo / Vida Pastoral]






