terça-feira, 19 de maio de 2026

CONFLITO DE GERAÇÕES NA IGREJA

O conceito de gerações engloba “o conjunto de pessoas nascidas na mesma época dentro de um espaço de tempo (aproximadamente 25 anos) que vai de uma geração a outra” 
(Minidicionário Aurélio). Cada geração tende a viver conforme os conceitos preestabelecidos pelo mundo que a cerca. Fatores econômicos, sociais, religiosos e culturais, somados aos paradigmas da família, influenciam o comportamento, o estabelecimento de valores e a formação de seus pontos de vista com relação à vida. 

Embora sociologicamente as gerações não possuam um limite fixado pela idade e não exista base cronológica que permita datá-las com exatidão, cientistas sociais viram a necessidade de nomeação das gerações a fim de entendê-las melhor. Em linhas gerais, essa nomeação compreende seis principais gerações:

Tradicionais (até 1945): É a geração que enfrentou uma grande guerra e passou pela Grande Depressão. Com os países arrasados, precisaram reconstruir o mundo e sobreviver. São práticos, dedicados, gostam de hierarquias rígidas, ficam bastante tempo na mesma empresa (organização) e sacrificam-se para alcançar seus objetivos.

Baby Boomers (1946-1964): Inicialmente essa nomenclatura não era uma geração, mas era um termo usado para descrever quem nasceu logo após a Segunda Guerra Mundial, quando houve um grande aumento no número de nascimentos, provavelmente resultado da empolgação dos soldados que voltaram da guerra para seus países de origem. O termo foi usado pela primeira vez em um artigo do Washington Post em 1970. São os filhos do pós-guerra, que romperam padrões e lutaram pela paz. Não conheceram o mundo destruído e puderam pensar em valores pessoais e na boa educação dos filhos. Têm relações de amor e ódio com os superiores, são concentrados e preferem agir em consenso com os outros.

Geração X (1965-1977): Com o nome baseado no livro de Douglas Copeland Geração X: Contos para uma cultura acelerada, essa geração é a herdeira do recomeço experimentado pelos Baby Boomers. Pressionados para serem os melhores, é a geração que experimentou os livros de autoajuda, programas de auto-treinamento e viveram em permanente estado de ansiedade – social, financeira e sexual. Nesse período, as condições materiais do planeta permitiram que os integrantes dessa geração pensassem em qualidade de vida, liberdade no trabalho e nas relações. Com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação, tentaram equilibrar vida pessoal e trabalho. Mas, como enfrentaram crises violentas, incluindo a do desemprego na década de 1980, também se tornaram céticos e superprotetores. 

Geração Y ou Millenials (1978-1999): Nascidos e crescendo em meio a um mundo onde a tecnologia digital e a internet se proliferava e se barateava, essa é a geração moldada pela influência high techAlguns, herdando os anseios dos Yuppies, se tornaram bilionários da tecnologia com serviços como redes sociais. O nome Geração Y foi usado primeiro em um artigo de Ad Age, já o termo millennials foi cunhado pelos sociologistas Neil Howe e William Strauss. Confortáveis em compartilhar toda sua vida online, essa é uma geração que experimenta o crescimento da individualidade e da autossuficiência. De modo geral, é a geração onde ser relevante no mundo é vivenciar experiências exclusivas e ser interessante.

Geração Z (2000-2009): Nascidos em meio a um turbilhão político e financeiro, a Geração Z é preocupada com seu dinheiro e em fazer do mundo um lugar melhor. É a primeira geração 100% digital e já nascem em um mundo conectado. Desse modo, se usam da internet e das tecnologias digitais para se tornarem mais inteligentes, seguros e maduros, mesmo muito novos. Costumam ser dispostos a trabalhos voluntários, conscientes da importância da educação e possuem fortes noções éticas e sociais. De modo geral, é a geração que abraça a diversidade absorvida na internet e lidera a mudança ao agir no mundo por meio de ações práticas. 

Geração Alpha (2010-1019): Herdeiros da segurança e das noções éticas da Geração Z, os Alphas vibram em uma energia de transformação como nunca antes. De modo geral, é a geração dos conectados e autossuficientes que não verão mais a tecnologia como algo separado da vida humana. Tudo será tecnologia digital e tudo estará conectado com o resto do mundo.

Geração Beta (a partir de 2020): Suscedendo a geração Alpha, essas crianças estão crescendo totalmente imersas na Inteligência Artificial (IA), em ambientes de realidade virtual/aumentada e em um mundo que enfrenta desafios climáticos e urbanos profundos, e provavelmente serão moldados por sistemas inteligentes e experiências digitais imersivas.

Biblicamente, a duração de uma geração é mutável. O teólogo Alberto Fonseca lembra que, de acordo com Jó 42:16, uma geração era um período de aproximadamente 30 a 40 anos e, em Gênesis 15:16, cerca de 100 anos. Mateus 1 mostra que se tratava de um período de vida humana, independentemente da duração. 

A pedagógica divisão proposta pelos sociólogos e especialistas da atualidade é parâmetro para tentar compreender os valores humanos contemporâneos. Eles afirmam que, em uma família, várias gerações estão presentes: avós, pais, filhos e netos. Isso significa distintas visões de mundo e presença de variados pensamentos, conceitos e valores. E como cada geração tem sua maneira de agir, sentir, pensar e decidir, diversos conflitos acabam aparecendo.

Choque de gerações na Igreja
Nos últimos anos, o choque de gerações, que era mais visível apenas no contexto familiar, passou a ser o grande quebra-cabeças dos especialistas em recursos humanos, especialmente por causa da inserção de um grande número de jovens na faixa etária entre 20 e 30 anos em postos hierarquicamente elevados nas mais diferentes organizações.

O embate de gerações existe não somente na família e no ambiente de trabalho, mas também em toda relação de convivência de pessoas com intervalos diferentes de idade geracional, e isso inclui a igreja, pois ela também é um grupo social composto por pessoas de diferentes segmentos etários. Ela é palco de encontros de famílias e de interações, onde crianças, adolescentes e jovens participam de atividades litúrgicas e diversos outros eventos com seus pais e demais adultos das mais variadas idades. 

Nesse contexto, uma vez que a igreja pode ser classificada como multigeracional, é necessário muito esforço para atender as necessidades de todas as gerações que a compõem. Essa realidade leva a sérias questões: (1) Como atender as necessidades e expectativas de gerações tão diversas? (2) Como promover um clima harmonioso entre elas dentro da igreja? (3) Quais são os principais pontos que devem ser explorados para diminuir as chances de conflitos? (4) Como a comunidade eclesial pode desfrutar melhor do imenso potencial dos jovens sem desvalorizar a experiência dos mais vividos? (5) O que tem contribuído mais para afastar os jovens das gerações anteriores? (6) Como “agradar” os mais idosos que cobram o retorno dos “marcos antigos” e, ao mesmo tempo, como agradar os mais jovens que pedem o avanço das “novas conquistas”? 

Para uma reflexão mais acurada sobre a existência de conflitos de gerações na igreja e a busca de soluções dentro de uma perspectiva cristã, as pedagógicas divisões geracionais propostas por especialistas do comportamento humano serão subdivididas em dois grupos: os mais jovens e os mais idosos. Essa classificação tem a proximidade cronológica de faixas etárias como principal fator de ligação. Assim, o primeiro grupo é formado da geração X para trás. E o segundo grupo, a partir da geração Y. Feita essa divisão, também fica mais fácil garimpar referências bíblicas que mostram, explícita ou implicitamente, a tendente conduta comportamental tanto dos mais idosos quanto dos mais jovens de todas as épocas. 

Os mais idosos
A Bíblia apresenta os mais idosos como símbolo da pessoa repleta de sabedoria e do temor de Deus. Ela também revela que, em momentos decisivos, o conselho de anciãos se reunia para que o melhor caminho fosse procurado e indicado. Há amplo consenso no pensamento de que, quanto mais se vive, mais se acumula experiência. Velhice não é finalização das atividades, tampouco doença, mas uma fase de riqueza em sabedoria armazenada num arquivo vivo que, se for sensatamente “pesquisado”, mostrará como tomar decisões prudentes e como aprender sem dor desnecessária. Os mais idosos têm perdas no aspecto físico, mas, em contrapartida, ganham muito em espiritualidade e sensatez.

Entretanto, como alerta a escritora Orfelina Melo no livro Espiritualidade na Terceira Idade e Melhor Idade, “a soma dos anos por si só não jubila ninguém, mas o bom uso dos seus dias colocados a serviço do próximo é que dá sentido, amadurece e plenifica uma existência”. É preciso saber aceitar, mesmo a contragosto, as mudanças que não sepultam princípios. Aceitar algo novo não significa necessariamente aprová-lo ou reprovar o antigo. Aceitar o novo significa aprender a viver com as mudanças inevitáveis na vida pessoal, no lar, na educação, no trabalho, na igreja e na sociedade em geral. Muitos conflitos de gerações surgem devido à falta dessa capacidade. Portanto, diante de algumas mudanças, esse tipo de conduta é uma das maneiras de viver a linda oração coletiva feita por Moisés (Sl 90:12), na qual, após reconhecer a eficácia do incomparável refúgio encontrado em Deus (v. 1) – Sua eternidade e Seu insuperável poder (v. 2, 3) contrastados com a mortalidade e finitude humana (9, 10) –, ele elucida: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio.” 

Talvez outro ponto a ser melhorado em algumas pessoas mais vividas seja a prática da arte de conversar, ou seja, falar com o próximo e ouvi-lo. Não pode haver interação e harmoniosa amizade entre pessoas que não sabem conversar umas com as outras. É preciso perseguir o interminável aprimoramento da prática da comunicação verbal, pois esse é o tipo mais usado nas relações interpessoais.  

Na condição de representante da ala da igreja composta pelos mais idosos, Ellen G. White disse: “Em nossa obra em prol dos jovens, devemos chegar até eles, se os queremos auxiliar. Quando jovens discípulos são vencidos pela tentação, não os tratem os mais experientes com aspereza, nem olhem com indiferença seus esforços. Lembrem-se de que vocês têm manifestado muitas vezes pouca força para resistir ao poder do tentador. Sejam tão pacientes com esses cordeiros do rebanho como gostariam que os outros fossem para com vocês” (Obreiros Evangélicos, p. 209).

Também é preciso não esquecer que há muitas coisas consideradas importantes, mas não fundamentais. Logo, muitos conflitos podem ser evitados com bom senso e tolerância, à medida que se identifica o que é essencial e o que é secundário; ou o que é inegociável e o que é tolerável. Quantas vezes ocorrem brigas por algo que, após pouco tempo, não tem valor nenhum para ninguém? Essa conduta faz parte do preparo para um envelhecimento que não os torne amargos, alienados e fixados em só falar do passado. 

Ter discernimento e sabedoria para desfrutar as conquistas modernas, sem menosprezar a Bíblia como a mais eficaz bússola para um viver sensato, e ter abalizada autocrítica para filtrar aspectos positivos e negativos dos ganhos no mundo atual, é uma das consequências da incessante busca pela vivência do Salmo 71:18: “Não me desampares, pois, ó Deus, até à minha velhice e às cãs; até que eu tenha declarado à presente geração a Tua força e às vindouras o Teu poder.” 

Os mais jovens
Um olhar retrospectivo na História mostra que boa parte das grandes realizações humanas teve pessoas jovens como protagonistas. Atualmente, não é diferente. A juventude é possuidora de grande potencial; sua personalidade é formada em uma época de avanços tecnológicos constantes. Para eles, a tecnologia e a interação digital são tão comuns quanto escovar os dentes. Conseguem se dedicar a muitas atividades simultâneas, gostam de desafios, são rápidos, criativos e usam recursos tecnológicos para criar soluções. 

Mas não basta ter potencial e grande aspiração; também é preciso descobrir o caminho que conduz ao êxito. E todo êxito genuíno e duradouro tem Deus como esteio. Assim como o jovem não compreende a ideia de uma vida longe da comunicação instantânea, deve também ser para ele inconcebível uma vida sem a contínua dependência do Senhor. 

A Bíblia faz muitas referências aos mais jovens. Uma delas diz que eles são fortes quando a Palavra de Deus é mantida no coração deles, e assim podem vencer continuamente o maligno (1Jo 2:14). Eles também são exortados a ser criteriosos em todas as coisas (Tt 2:6). São incentivados a se lembrar do Criador durante a fase da “eterna juventude”, para depois não ter seu sentido e contentamento de viver “deletados” pelas vicissitudes da vida, que geralmente se agigantam na fase adulta (Ec 12:1). Somente observando a Palavra de Deus podem ter seu caminho purificado (Sl 119:9). E, quando guardam os preceitos de Deus, podem ser mais prudentes que os idosos (Sl 119:100).

Mesmo sendo possuidor da constante dificuldade que todo mortal tem de conceder a primazia da vida para o Senhor Jesus Cristo, o jovem cristão geralmente reconhece ser imprescindível o senhorio de Cristo para uma existência humana com sentido e verdadeira realização. Porém, quando o foco é a esfera humana, no que tange à relevância do respeito e à convivência harmoniosa com os mais idosos, geralmente os mais jovens sentem muita dificuldade, pois, em relação a eles, possuem ideias, gostos e estilos antagônicos. Por isso, muitas vezes podem considerar as pessoas mais idosas retrógradas e descartadas. No entanto, pelas lentes da Bíblia, o mais idoso pode ser um portador de valores e de experiências e sua riqueza vivencial pode representar relevante contribuição para as outras gerações. Contundentemente, Pedro exorta os jovens a respeitar os mais idosos quando declara: “Rogo igualmente aos jovens: Sede submissos aos que são mais velhos; outrossim, no trato de uns com os outros, cingi-vos todos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, contudo, ao humildes concede a Sua graça” (1Pe 5:5). 

Ênio R. Mueller, em seu livro I Pedro: Introdução e Comentário, explica que a expressão “ser submisso” é uma característica do comportamento cristão, a qual consiste na decisão de se postar debaixo da liderança de outros, por amor à ordem e para a prática do bem. Para tanto, é indispensável o revestimento da humildade. O texto usa o termo “cingir” como uma figura para a leal disposição com relação a alguma coisa. Nesse caso, a firme disposição pela humildade. Essa aplicação é relevante para o realce da contraposição e a constante inimizade entre a humildade e a repulsiva soberba feita na segunda parte do verso. 

Essa voluntária submissão evoca três aspectos: (1) equivale a respeitar os mais idosos em respeito a Deus; (2) promove relações interpessoais não conflitantes; (3) reconhece a vantajosa experiência de vida que os mais idosos detêm. Provérbios 15:22 diz: “Onde não há conselho, fracassam os projetos.” 

Na escalada da montanha da existência humana, os que apenas passaram do sopé precisam da experiência dos que já estão mais próximos do cimo, para completar o percurso a contento. Nesse contexto, a Bíblia registra a imprudência do jovem monarca Roboão, quando sucedeu seu pai Salomão. Como novo detentor do cetro do reino israelita, “tomou o rei Roboão conselho com os homens idosos, que estiveram na presença de Salomão, seu pai, quando este ainda vivia, dizendo: ‘Como aconselhais que se responda a este povo?’ Eles lhe disseram: ‘Se te fizeres benigno para com este povo, e lhes agradares, e lhes falares boas palavras, eles se farão teus servos para sempre’” (2Cr 10:6, 7). Com base em 1 Reis 12:9, Ellen G. White explica que, não satisfeito, Roboão se voltou para os jovens que com ele tinham se associado durante sua juventude e maturidade, e inquiriu deles: “Que aconselhais vós, que respondamos a este povo, que me falou, dizendo: Alivia o jugo que teu pai nos impôs?” (Profetas e Reis, p. 89). Os jovens sugeriram que ele tratasse asperamente com os súditos de seu reino, e lhes tornasse claro que desde o princípio ele não admitiria interferência com seus desejos pessoais. Inflado pela perspectiva de exercer suprema autoridade, Roboão determinou desconsiderar o conselho dos homens mais idosos do seu reino, e fazer dos jovens seus conselheiros. Como consequência, a nação foi dividida e a parte norte estabeleceu outro rei para si. 

Via de regra, os mais jovens têm mais energia. Contudo, os mais idosos conhecem melhor o caminho da sensatez, pois o tempo lhes trouxe experiência, e assim têm condição de errar menos. Por essa ótica, é mais coerente o conselho que Paulo deu ao jovem Timóteo (1Tm 5:1, 2) de não repreender asperamente uma pessoa idosa, mesmo quando esta cometesse algum equívoco; ao contrário, ela deveria ser admoestada como pai ou mãe. A atitude de menosprezar as pessoas mais idosas por achar que elas são antiquadas, muito defensivas, incapazes de se comunicar com os mais jovens, contribui para aumentar os conflitos geracionais tanto nas relações familiares, especialmente na prática de seus papéis do lar, quanto nas relações fraternais e funcionais da igreja. 

Construção de pontes entre as gerações
A diferença de idade gera conflitos entre as gerações, pois cada uma delas foi criada em um momento da história que contribuiu distintamente para a construção de sua cosmovisão. Assim, geralmente existem conflitos entre pessoas de diferentes faixas etárias. Mas esses embates podem ser diminuídos se ao menos três aspectos forem considerados.

O primeiro é a efetiva comunicação mutuamente respeitosa. Para Fernando Basto de Ávila, em seu livro Introdução à Sociologia, o reencontro das gerações, no diálogo leal, na redescoberta de valores comuns e na convergência de esforços para um projeto solidário que respeite a colaboração específica de cada uma delas, seria uma sensata forma de superação do conflito. A esse processo de harmonização de diferenças etárias e culturais ele denomina de alternativa processiva. Esse diálogo leal ou mutuamente respeitoso evoca a empatia. Quando todo esforço é feito a fim de entender a posição do outro apenas como uma posição diferente – nem melhor nem pior –, a convivência se torna mais harmoniosa. Mas, para isso, é preciso lembrar que ambos os lados precisam falar e ser ouvidos. Assim, as dissonâncias existentes na comunicação serão minimizadas ou até eliminadas.

O segundo aspecto é o da complementaridade geracional, por meio da qual a compreensão, maturidade e boa vontade aliadas ao tirar proveito do melhor das duas culturas, pela complementaridade de propósitos, valores, conhecimentos e habilidades são as chaves para minimizar o conflito de gerações. Trata-se da tentativa de aproximação da sabedoria dos mais vividos com o dinamismo dos mais jovens. Dentro da dinâmica administrativa e funcional da igreja, essa adição e esse intercâmbio enriquecem os dois lados e presenteiam a comunidade eclesial com ganhos de sábia experiência e força polivalente devidamente canalizadas. Ellen G. White endossa a relevância desse aspecto ao declarar: “Necessita-se de jovens na obra – daqueles que assumam o trabalho com interesse e o executem zelosa e vigorosamente. Mas o Senhor está, e estará sempre, com os idosos e firmes líderes que se mantiveram apegados à verdade em tempos de perigo. Quando o fundamento da fé dos jovens líderes parecer ser varrido, e tombadas as suas casas, será ouvido dos idosos guerreiros um testemunho como aquele de Calebe: ‘Eia! Subamos e possuamos a terra, porque, certamente, prevaleceremos contra ela’ (Nm 13:30)” (Cristo Triunfante, p. 119). Por outro lado, a falta de coexistência leva a uma perda de energia que impacta os resultados de forma negativa. Em suma, essa complementaridade mostra a importância do bom uso das “diferenças” ao buscar os pontos de convergência e identificação, onde e como cada uma poderá contribuir mais e melhor.

O terceiro aspecto é o da unidade cristã como principal evidência da genuína religião. Ele prega que a Bíblia apresenta princípios aplicáveis para a situação em estudo que norteiam o diligente cristão que deseja a postura da integração em vez da deliberada rivalidade. É o caso de Efésios 4:11-16, que primariamente não trata da relação entre diferentes gerações, mas de dons que o Espírito Santo outorga ao corpo de Cristo, visando ao crescimento espiritual e relacional de cada integrante da igreja. Por extensão ou secundariamente, essa unidade pode também ser buscada pelas diferentes gerações como um alvo supremo, pois, para que a igreja avance e alcance unidade (v. 13), maturidade (v. 14), discernimento (v. 14) e perfeição cristã (v. 13 = varonilidade e estatura da plenitude de Cristo), o verso 15 contundentemente orienta que é imprescindível viver em amor autêntico para crescer em todos os aspectos em direção a Cristo. Assim que, vivendo uma relação fraterna em que haja autêntico amor, caracterizado pelo respeito, paciência, humildade, afetos ternos, diálogo, bondade, mansidão e todas as demais marcas do fruto do Espírito Santo (Gl 5:22, 23), não apenas poderá o povo de Deus superar os conflitos entre pessoas e gerações, mas também aprender com eles e uns com os outros. 

A construção da unidade de gerações não é algo facultativo para o cristão, pois a “prova dos nove” do genuíno cristianismo declarada por Jesus diz: “Nisto conhecerão todos que sois Meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:35). Logo, não é suficiente gostar apenas das pessoas da mesma faixa etária. Também se faz necessário gostar fraternalmente dos que têm idade, comportamento e concepções diferentes. Essa conduta constrói pontes e não muros de separação e indiferença. Caso contrário, o cristianismo não passará de hipócrita e seletiva religiosidade. 

Conclusão
A igreja é mais que um local em que se realizam atividades litúrgicas. É um grupo social, um lugar de encontro de famílias e de interações reais entre pessoas das mais variadas faixas etárias. Consequentemente, embates de gerações ocorrem entre seus integrantes. Mas a igreja também é uma comunidade de pessoas que foram alcançadas pelo amor divino, transformadas pela graça e instruídas pela Palavra de Deus. Por isso, é o melhor lugar para se aprender ou reaprender as coisas que estimulam a superação dos conflitos entre as gerações. Nela há sempre o incentivo ao companheirismo sadio, ao reconhecimento das diferenças, do valor e da capacidade que o outro tem. 

Quando os mais jovens e os mais idosos, em situações de conflitos, praticam respeitoso diálogo, ouvindo um ao outro sem se colocar na defensiva, e as diferenças são desfocalizadas para se apreciar a riqueza da complementaridade entre cada um dos lados, os embates são dirimidos. Como resultado, a comunidade eclesial usufrui melhor do polivalente potencial dos jovens sem desvalorizar e sem abrir mão da experiência dos mais vividos. Em Cristo, os mais jovens reprimem a conduta de impor o ponto de vista deles em detrimento das orientações e advertências dos mais idosos e os mais idosos não ignoram a dinamicidade dos mais jovens, pois a força jovial aliada à sábia visão dos idosos forma um exército poderoso (Pv 20:29). Afinal, pelas lentes da eternidade, a didática classificação das gerações em Tradicional, Baby Boomer, X, Y, Z, Alpha e Beta proposta pelos cientistas sociais, perde sua aplicação, porque os redimidos pela graça de Cristo, de todas as idades e épocas, formarão uma só geração: a dos salvos. 
 
Ellen G. White conclui: "Como é comovente ver a mocidade e a velhice dependendo uma da outra, o jovem olhando ao idoso quanto aos conselhos e à sabedoria, e o ancião ao adolescente em busca de auxílio e simpatia! Assim é como devia ser" (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, p. 746).

segunda-feira, 18 de maio de 2026

OS ESCOLHIDOS

A cada quatro anos acontece a copa do mundo de futebol. Todos os países qualificados para a edição final procuram formar um time para o qual são selecionados os melhores jogadores, quer joguem no próprio país ou no exterior.

Nesta segunda, 18, o técnico Carlo Ancelotti convocou os jogadores que disputarão a Copa do Mundo. Foram 26 nomes divulgados pelo treinador em cerimônia no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Os atletas convocados representarão a Seleção Brasileira na busca pelo hexacampeonato no torneio realizado no México, Canadá e Estados Unidos, de 11 de junho a 19 de julho. 

Confira os convocados do Brasil para a Copa do Mundo:

Goleiros: Alisson (Liverpool), Ederson (Fenerbahçe), Weverton (Grêmio).

Defensores: Alex Sandro (Flamengo), Bremer (Juventus), Danilo Luiz (Flamengo), Douglas Santos (Zenit), Gabriel Magalhães (Arsenal), Ibañez (Al-Ahli), Léo Pereira (Flamengo), Marquinhos (PSG), Wesley (Roma).

Meio-campistas: Bruno Guimarães (Newcastle), Casemiro (Manchester United), Danilo Santos (Botafogo), Fabinho (Al-Ittihad), Lucas Paquetá (Flamengo).

Atacantes: Endrick (Lyon / Real Madrid), Gabriel Martinelli (Arsenal), Igor Thiago (Brentford), Luiz Henrique (Zenit), Mateus Cunha (Manchester United), Neymar (Santos), Raphinha (Barcelona), Rayan (Bournemouth), Vini Jr. (Real Madrid).

E nos dias que antecederão o grande evento, os técnicos reunirão seus jogadores para estabelecer as táticas que serão usadas para saírem vencedores. No campo religioso, Jesus também procurou formar um time com os melhores atletas.

"E, quando amanheceu, chamou a Si os Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos" (Lucas 6:13).

Ao estabelecer as bases da igreja, Jesus chamou doze homens para serem Seus atletas mais chegados. Com esse número, confirmou que Seus planos não haviam mudado, apenas Seus representantes. Originalmente, Deus estabeleceu 12 patriarcas, que depois se organizaram em 12 tribos. Como em todo e qualquer selecionado, Jesus não deixou de concentrar seus aliados para ajudá-los a entender o seu projeto de vida e as esperanças do Reino de Deus. Ao escolher os 12 apóstolos, Ele deixou claro que seguia buscando salvar o mundo por meio de Seus representantes.

Antes dessa escolha, porém, passou a noite orando para nos dar o exemplo de que, antes de uma grande decisão, é preciso gastar um grande tempo em oração. Mesmo que Seus escolhidos parecessem não ser os melhores, Ele chamou, aceitou e amou cada um.

Veja a lista dos doze atletas de Cristo conforme Lucas: “E aconteceu que naqueles dias subiu ao monte a orar, e passou a noite em oração a Deus. E, quando já era dia, chamou a si os seus discípulos, e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de apóstolos: Simão, ao qual também chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelote; Judas, irmão de Tiago, e Judas Iscariotes, que foi o traidor” (Lucas 6:12-16).

Pedro - Também chamado de Simão, era sincero em sua busca, mas muito impulsivo. Falava e agia sem pensar e criou muitas situações difíceis por isso. Negou a Jesus três vezes, mas reconciliou-se. Foi autor de dois livros bíblicos. Segundo a tradição, foi crucificado de cabeça para baixo em Roma.

João - Conhecido como o "discípulo amado", e também como “filho do trovão” por ter um temperamento forte. Além disso, ele e o irmão, Tiago, eram ambiciosos. Foi lançado vivo num tacho de óleo fervente, mas nada sofreu. Depois foi exilado para a ilha de Patmos onde recebeu as Revelações do Apocalipse. Autor do evangelho de João, também escreveu 3 epístolas. Era o mais jovem dos discípulos, e foi o último deles a morrer, possivelmente em Éfeso, de morte natural.

Tiago - Irmão mais velho do apóstolo João, ambos eram filhos de Zebedeu e Salomé; era pescador. Também chamado de "Tiago, o maior". Ele foi executado à espada por ordem de Herodes Agripa I, em aproximadamente 44 d.C. (Atos 12:1,2).

André - Irmão de Simão Pedro, ambos eram pescadores, era discípulo de João Batista antes de Jesus. Segundo a tradição, foi martirizado e morto na Grécia.

Filipe - Era galileu de Betsaida, a mesma cidade de Pedro e André; apresentou Jesus para Natanael. Ouviu a pregação de João Batista, mas tinha dúvidas sobre a divindade de Cristo. Conseguia ver o Filho de Deus apenas como “Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo 1:45). De acordo com “Genealogias dos Apóstolos”, morreu de morte natural.

Bartolomeu - É Natanael. Este, seria o seu nome próprio e Bartolomeu significa "filho de Tolmai". Sua cidade natal era Caná da Galileia (João 1:45,51). Segundo a tradição, foi posto vivo num saco e lançado no mar.

Tomé - Em algumas passagens bíblicas ele é chamado de Dídimo, que significa “gêmeo” (João 11:16; 20:24; 21:2). Foi o discípulo que duvidou da ressurreição de Jesus, mas converteu-se a seguir e creu. Segundo a tradição, trabalhou na Índia e aí foi martirizado e morto.

Mateus - Autor do Evangelho de Mateus, provavelmente era uma das pessoas mais cultas entre o grupo dos discípulos de Jesus. Também chamado de Levi, era "publicano", cobrador de impostos, antes de ser chamado. Essa classe de trabalhadores era desprezada pelos demais judeus que os reputavam praticamente como traidores de seu próprio povo. Segundo a tradição, morreu de morte natural na Etiópia ou na Macedônia.

Tiagofilho de Alfeu - Sem dúvida ele é a pessoa identificada pelo evangelista Marcos como “Tiago, o menor” (Marcos 15:40). Essa descrição pode ser em referência a sua estatura ou um indicativo de que ele era mais jovem que o outro apóstolo Tiago. Um livro do seu tempo relata que ele foi apedrejado pelos judeus, em Jerusalém, por pregar Cristo.

Simão (Zelote) - Seu apelido sugere que ele pertencia a um grupo judeu de zelosos pela religião e nação. Também era conhecido como Simão, o cananeu. Segundo uma tradição, trabalhou no norte da África e sofreu martírio na Palestina durante o reinado de Domiciano, perseguidor dos cristãos.

Judas Tadeu - A única informação sobre sua vida é fornecida por Lucas ao dizer que ele era filho de Tiago (Lucas 6:16). No original grego a expressão indica “Judas de Tiago”, e embora seu significado mais provável seja denotar uma relação de pai e filho, isto é, “Judas, filho de Tiago”, alguns estudiosos sugerem que talvez tal expressão indique uma relação entre irmãos, ficando “Judas, irmão de Tiago”. Sabe-se apenas que foi sepultado em Beirute, ou no Egito.

Judas Iscariotes - Ofereceu-se para ser discípulo, e Jesus o aceitou. Apesar de conhecer a ganância dele, Jesus lhe deu as mesmas oportunidades. Foi o discípulo que traiu Jesus por 30 moedas de prata. Com remorsos, suicidou-se. Foi substituído entre os doze apóstolos por Matias (ver Atos 1:20-26).

Veja a missão que Jesus deu aos seus atletas: “E, convocando os seus doze discípulos, deu-lhes virtude e poder sobre todos os demônios, para curarem enfermidades. E enviou-os a pregar o reino de Deus, e a curar os enfermos. E disse-lhes: Nada leveis convosco para o caminho, nem bordões, nem alforje, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas. E em qualquer casa em que entrardes, ficai ali, e de lá saireis. E se em qualquer cidade vos não receberem, saindo vós dali, sacudi o pó dos vossos pés, em testemunho contra eles. E, saindo eles, percorreram todas as aldeias, anunciando o evangelho, e fazendo curas por toda a parte” (Lucas 9:1-6).

Os doze apóstolos eram homens comuns a quem Deus usou de maneira extraordinária. Os Evangelhos registram as constantes falhas, dificuldades e dúvidas destes doze homens que seguiam a Jesus Cristo. Após testemunharem a ressurreição e a ascensão de Jesus ao Céu, o Espírito Santo transformou os doze apóstolos em homens poderosos de Deus que viraram o mundo de cabeça para baixo (ver Atos 17:6). O motivo de tamanha revolução é o fato de que os discípulos estiveram com Jesus (ver Atos 4:13). Que o mesmo possa ser dito de nós. Devemos ser verdadeiros discípulos e estar capacitados pelo Espírito Santo.

Finalizo com este maravilhoso este texto de Ellen G. White: “Deus toma os homens tais quais são, e educa-os para Seu serviço, uma vez que se entreguem a Ele. O Espírito de Deus, recebido na mente, vivificar-lhes-á todas as faculdades. Sob a direção do Espírito Santo, o intelecto que se consagra sem reservas a Deus desenvolve-se harmonicamente, e é fortalecido para compreender e cumprir o que Deus requer. O caráter fraco e vacilante muda-se em outro forte e firme. A devoção contínua estabelece uma relação tão íntima entre Jesus e Seu discípulo, que o cristão se torna como Ele em espírito e caráter. Mediante ligação com Cristo terá visão mais clara e ampla. O discernimento se tornará mais penetrante, mais equilibrado o juízo. Aquele que anela ser de utilidade a Cristo é tão vivificado pelo vitalizante poder do Sol da Justiça, que é habilitado a produzir muito fruto para glória de Deus. Homens da mais elevada educação em ciências e artes, têm aprendido preciosas lições de cristãos de condição humilde, classificados pelo mundo como ignorantes. Mas esses obscuros discípulos haviam recebido educação na mais alta das escolas. Tinham-se sentado aos pés dAquele que falava 'como nunca homem algum falou'" (O Desejado de Todas Nações, p. 168).

sexta-feira, 15 de maio de 2026

DARK HORSE DO APOCALIPSE

A expressão "Dark Horse" ganhou destaque recentemente como o nome do filme sobre a trajetória do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. O filme ganhou mais relevância desde esta quarta-feira (13), quando foi revelado que o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pressionava o banqueiro Daniel Vorcaro para ajudar a financiar o filme. Dono do Banco Master, Vorcaro está preso em São Paulo, acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras que podem chegar a R$ 12 bilhões, segundo a PF.

O termo "Dark Horse" surgiu no século XIX, no universo das corridas de cavalos na Inglaterra. Ele era usado para descrever cavalos de corrida que não tinham histórico de vitórias ou que eram desconhecidos pelos apostadores, tornando difícil prever o seu desempenho. O termo foi adotado no título do filme tanto pelo seu significado de "azarão político" (devido à vitória de Jair Bolsonaro em 2018) quanto pelas analogias simbólicas com o colapso econômico representado pelo cavaleiro preto das Escrituras. E é especificamente sobre este cavalo preto e seu significado que vamos falar neste artigo. 

Muitas vezes ouvimos falar dos 7 selos, os quatro cavalos e os 4 cavaleiros do Apocalipse. Todos eles formam parte da mesma profecia. Os 4 cavaleiros com seus respectivos cavalos aparecem nos 4 primeiros selos. Os acontecimentos representados nos sete selos devem ser entendidos no contexto das maldições da aliança do Antigo Testamento, especificadas em termos de espada, fome, pestes e feras do campo (Lv 26:21-26). Ezequiel os chamou de os “quatro terríveis juízos” de Deus (Ez 14:21). Eram juízos disciplinares pelos quais o Senhor, buscando despertar Seu povo para sua condição espiritual, castigou-o quando ele se tornou infiel à aliança. Semelhantemente, os quatro cavaleiros são o meio que Deus usa para manter Seu povo desperto enquanto aguarda o retorno de Jesus.

O cavaleiro do cavalo preto é o terceiro dos quatro cavaleiros que aparecem no Apocalipse na abertura do livro selado com sete selos. Portanto, o cavaleiro do cavalo preto do Apocalipse é mencionado na abertura do terceiro selo, e seu significado simbólico fala sobre a pobreza e a fome.

Em Apocalipse 6:5 e 6 lemos – “E, havendo aberto o terceiro selo, ouvi dizer ao terceiro animal: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo preto e o que sobre ele estava assentado tinha uma balança na mão. E ouvi uma voz no meio dos quatro animais, que dizia: Uma medida de trigo por um denário, e três medidas de cevada por um denário; e não danifiques o azeite e o vinho.”

O terceiro selo representa o período da igreja de Pérgamo. A visão retrata um cavalo preto e seu cavaleiro que tinha nas mãos uma balança. Sua oferta de trigo e cevada significa a escassez e a fome presentes. Representa o terceiro período da igreja, quando as trevas espirituais começaram a envolver o cristianismo ao ele se aliar com o Estado. A cor preta muitas vezes representa nas Escrituras as trevas morais, o pecado, a apostasia ou o erro. Corresponde ao período que vai desde 313 a 538 dC. Durante esse período, houve o processo de paganização da igreja. O espírito de materialismo contaminou o cristianismo. A maioria acompanha o processo de deterioração da verdade, porém uns poucos fiéis (remanescentes) seguem respeitando as doutrinas bíblicas. O azeite representa o Espírito Santo (Zc 4:2-6), e o vinho representa o sangue de Cristo derramado pelos pecadores (Mt 26:27-29).

Esse cavaleiro continua montado em seu cavalo cavalgando pela Terra. A fome, a exploração, a opressão e a injustiça assombram o mundo cada vez mais. Com relação ao povo de Deus, ainda hoje muitos cristãos passam por terríveis necessidades por seu compromisso com Cristo. Em várias partes do mundo, muitos crentes têm dificuldades de sustentarem suas famílias, porque não aceitam participar dos esquemas corruptos que caracterizam este mundo e desagradam ao Senhor. E o cavaleiro do cavalo preto do Apocalipse continuará espalhando opressão até o dia em que Deus dará um basta em tudo isso.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

CORRUPÇÃO

Corrupção vem do latim corrupta que por sua vez é uma junção de palavras cor (coração) e rupta (quebra, rompimento). É bonita essa origem porque a origem da corrupção como nos foi revelado no livro do Gênesis é justamente no coração, ou seja, na realidade mais intima da pessoa, que rompe com Aquele que é a própria vida, ou seja, Deus mesmo. Conhecemos esse movimento como pecado original e é a partir dele que os cristãos entendem toda a classe de corrupção que apareceu depois no mundo. Seja a corrupção mais escandalosa ou aquela mais silenciosa, ambas possuem sua origem no coração que rompeu sua ligação com o Senhor.

Mas há quem pense que a corrupção seja um fenômeno recente na sociedade. Se o fosse, não haveria tantas advertências bíblicas contra ela.

Advertência contra a corrupção no funcionalismo público
“Chegaram também uns cobradores de impostos, para serem batizados, e lhe perguntaram: Mestre, que devemos fazer? Respondeu-lhes: Não peçais mais do que o que vos está ordenado” (Lucas 3:12-13).

Advertência contra a corrupção policial
“Então uns soldados o interrogaram: E nós, o que faremos? Ele lhes disse: A ninguém trateis mal, não deis denúncia falsa, e contentai-vos com o vosso soldo” (Lucas 3:14).

Advertência contra a corrupção no Poder Judiciário
“Não torcerás a justiça, nem farás acepção de pessoas. Não tomarás subornos, pois o suborno cega os olhos dos sábios, e perverte as palavras dos justos. Segue a justiça, e só a justiça, para que vivas e possuas a terra que o Senhor teu Deus te dá” (Deuteronômio 16:19-20).

“Também suborno não aceitarás, pois o suborno cega os que têm vista, e perverte as palavras dos justos” (Êxodo 23:8).

“O ímpio acerta o suborno em secreto, para perverter as veredas da justiça” (Provérbios 17:23).

“Ai dos que... justificam o ímpio por suborno, e ao justo negam justiça” (Isaías 5:22a,23).

“Até quando defendereis os injustos, e tomareis partido ao lado dos ímpios? Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles nada sabem, e nada entendem. Andam em trevas” (Salmos 82:2-5a).

“Não farás injustiça no juízo; não favorecerás ao pobre, nem serás complacente com o poderoso, mas com justiça julgarás o teu próximo” (Levítico 19:15).

“Pereceu da terra o homem piedoso, e não há entre os homens um que seja reto. Todos armam ciladas para sangue; cada um caça a seu irmão com uma rede. As suas mãos fazem diligentemente o mal; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, e o grande fala da corrupção da sua alma, e assim todos eles são perturbadores” (Miquéias 7:2-3).

Advertência contra a corrupção no Poder Executivo
“Os teus príncipes são rebeldes, companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno, e corre atrás de presentes. Não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas” (Isaías 1:23).

“Pela justiça o rei estabelece a terra, mas o amigo de subornos a transtorna” (Provérbios 29:4).

“Abominação é para os reis o praticarem a impiedade, pois com justiça se estabelece o trono” (Provérbios 16:12).

Advertência acerca dos assessores corruptos
“Tira o ímpio da presença do rei, e o seu trono se firmará na justiça” (Provérbios 25:5).

Advertência contra a corrupção no Poder Legislativo
“Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivães que escrevem perversidades, para privar da justiça os pobres, e para arrebatar o direito dos aflitos do meu povo, despojando as viúvas, e roubando os órfãos! Mas que fareis no dia da visitação, e da assolação, que há de vir de longe? A quem recorrereis para obter socorro, e onde deixareis a vossa glória, sem que cada um se abata entre os presos, e caia entre os mortos?” (Isaías 10:1-4).

Advertência contra a corrupção e a ganância no meio empresarial
“No meio de ti aceitam-se subornos para se derramar sangue; recebes usura e lucros ilícitos, e usas de avareza com o teu próximo, oprimindo-o. E de mim te esqueceste, diz o Senhor Deus. Eu certamente baterei as mãos contra o lucro desonesto que ganhastes...” (Ezequiel 22:12-13a).

“Melhor é o pouco, com justiça, do que grandes rendas, com injustiça” (Provérbios 16:8).

“O que oprime ao pobre para aumentar o seu lucro, ou o que dá ao rico, certamente empobrecerá” (Provérbios 22:16).

Advertência contra juros absurdos praticados pelo Sistema Financeiro
“O que aumenta a sua fazenda com juros e usura, ajunta-a para o que se compadece do pobre” (Provérbios 28:8).

“Sendo o homem justo, e fazendo juízo e justiça (...) não oprimindo a ninguém, tornando ao devedor o seu penhor, não roubando, dando o seu pão ao faminto, e cobrindo ao nu com vestes; não dando o seu dinheiro à usura, não recebendo demais, desviando a sua mão da injustiça, e fazendo verdadeiro juízo entre homem e homem; andando nos meus estatutos, e guardando os meus juízos, para proceder segundo a verdade, o tal justo certamente viverá, diz o Senhor Deus” (Ezequiel 18:5,7-9).

“Se emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre, que está contigo, não te haverás com ele como credor; não lhe imporás juros” (Êxodo 22:25).

“Aos retos até das trevas nasce a luz, pois é compassivo, compassivo e justo. Bem irá ao que se compadece e empresta, que conduz os seus negócios com justiça. (...) É liberal, dá aos pobres, a sua retidão permanece para sempre; a sua força se exaltará em glória” (Salmos 112:4-5,9).

Advertência acerca dos direitos trabalhistas
“Se desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando contendiam comigo, então que faria eu quando Deus se levantasse? E, inquirindo ele a causa, que lhe responderia?” (Jó 31:13-14).

“Chegar-me-ei a vós para juízo, e serei uma testemunha veloz contra os feiticeiros e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o trabalhador, e pervertem o direito da viúva, e do órfão, e do estrangeiro, e não me temem, diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 3:5).

“Vós, senhores, dai a vossos servos o que é de justiça e equidade, sabendo que também vós tendes um Senhor nos céus” (Colossenses 4:1).

“Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás. O salário do operário não ficará em teu poder até o dia seguinte” (Levítico 19:13).

Advertência contra lucros desonestos
“O mercador tem balança enganadora em sua mão; ele ama a opressão” (Oséias 12:7).

“Não terás dois pesos na tua bolsa, um grande e um pequeno. Não terás duas medidas em tua casa, uma grande uma pequena. Terás somente pesos exatos e justos, e medidas exatas e justas, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Pois o Senhor teu Deus abomina todo aquele que pratica tal injustiça” (Deuteronômio 25:13-16).

“Balança enganosa é abominação para o Senhor, mas o peso justo é o seu prazer” (Provérbios 11:1).

“O peso e a balança justos são do Senhor; obra sua são todos os pesos da bolsa” (Provérbios 16:11).

“Poderei eu inocentar balanças falsas, com um saco de pesos enganosos?” (Miquéias 6:11).

“Não cometereis injustiça nos julgamentos, nas medidas de comprimento, de peso ou de capacidade. Balanças justas, pesos justos, efa justo, e justo him tereis. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do Egito” (Levítico 19:35-36).

Advertências de Ellen G. White
"A corrupção dominante está além da capacidade humana de descrevê-la. Cada dia traz novas revelações de dissensões, corrupção e fraude que campeiam na política" (Testemunhos para a Igreja, vol. 9, p. 89).

"Advogados, juízes, senadores tornar-se-ão corruptos, e, entregando-se ao suborno, deixar-se-ão comprar e vender" (Manuscrito 154, 1898).

"A onda de corrupção que rola sobre o mundo é resultado do mau emprego e abuso da maquinaria humana" (Carta 145, 1897).

"A corrupção política está destruindo o amor à justiça e a consideração para com a verdade" (O Grande Conflito, p. 578).

"Este é um século em que a corrupção prolifera por toda parte" (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, p. 591).

"Nesta época de corrupção, quando nosso adversário, o diabo, anda em derredor bramando como leão, buscando a quem possa tragar, vejo a necessidade de erguer minha voz em advertência: 'Vigiai e orai, para que não entreis em tentação' (Marcos 14:38)" (Conselhos para a Igreja, p. 109).

“A maior necessidade do mundo é a de homens – homens que se não comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus” (Educação, p. 40).

O que Deus diz a você e a mim
“Minha filha, meu filho, seja honesto. Seja honesto nas pequenas atividades e nos grandes negócios. Seja honesto não apenas em cumprimento da lei, mas acima de tudo porque você me ama. Pode ser que a sua honestidade aqui na Terra não lhe garanta uma estátua com seu nome numa placa comemorativa. Mas certamente sua honestidade fará com que você seja minha amiga, meu amigo, e fará com você e Eu passemos a eternidade desfrutando das bênçãos da Nova Terra, com todas as suas riquezas”.

quarta-feira, 13 de maio de 2026

VENERAÇÃO DE MARIA

O Novo Testamento deixa claro que Jesus foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria quando ela ainda era virgem (Mt 1:18-25; Lc 1:26-56; 2:1-7). Mas a igreja apostólica jamais atribuiu a Maria qualquer função especial junto à comunidade dos crentes. No entanto, várias teorias especulativas a respeito de Maria começaram a se infiltrar no cristianismo pós-apostólico. Justino Mártir, Irineu e Tertuliano sugeriam que, como Eva havia sido a fonte do pecado e da morte, Maria trouxe a bênção da redenção ao mundo. Não demorou muito para que se consolidasse também a noção da perpétua virgindade de Maria.

No Concílio de Éfeso (431), Maria foi declarada “mãe de Deus” (grego Theotokos), o que ajudou a estimular a crescente veneração da Virgem Maria através de cultos e orações a ela dedicados. Mas foi, sem dúvida, a oração da “Ave Maria”, originária do século 11, que mais contribuiu para popularizar essa veneração. Philip Schaff declara que durante a Idade Média “a veneração de Maria degenerou-se gradualmente na adoração de Maria”, a ponto de suplantar a própria “adoração de Cristo”.

A teoria da imortalidade natural da alma proveu o embasamento necessário para abrigar o dogma católico da assunção de Maria. Na Idade Média difundiu-se a crença de que a alma de Maria teria sido levada para o Paraíso logo após a sua morte; mas, quando o seu corpo estava para ser sepultado, Jesus o buscou a fim de ser reunido com a alma dela. Como se isso não bastasse, Maria passou a ser considerada como exercendo a função de mediadora humana junto ao trono de Cristo, através da qual os seres humanos poderiam ter acesso à majestade divina e obter graça especial. Em 8 de dezembro de 1854, o papa Pio IX decretou o dogma da Imaculada Conceição de Maria, sugerindo que ela “foi preservada imune de toda mancha do pecado original”.

A veneração de Maria continua ocupando um lugar central na teologia católica romana. O novo Catecismo da Igreja Católica (publicado em 1992) corrobora a crença: “Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãe da Igreja, continua no Céu sua função materna em relação aos membros de Cristo.” E mais: “Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura ininterruptamente… Assunta aos céus, não abandonou este múnus salvífico, mas, por sua múltipla intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna.”

A revista Newsweek de 25 de agosto de 1997 revelou que “um crescente movimento na Igreja Católica Romana” estava sugerindo que o papa aprovasse um novo dogma reconhecendo Maria como co-redentora com Cristo. Naquela ocasião, o papa já havia recebido em apoio a essa proposta “4.340.429 assinaturas de 157 países”, entre as quais constavam as assinaturas de “aproximadamente 500 bispos e 42 cardeais”.

Por mais significativa que a veneração da Virgem Maria tenha se tornado para a Igreja Católica Romana, ela não possui qualquer base bíblica. Jesus mesmo advertiu contra tal postura em Lucas 11:27 e 28: “Ora, aconteceu que, ao dizer Jesus estas palavras, uma mulher, que estava entre a multidão, exclamou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram! Ele, porém, respondeu: Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” Em Lucas 8:21, Cristo acrescenta: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam.”

A teoria da mediação de Maria diante de Cristo a favor dos seres humanos é contrária ao ensino de Cristo de orarmos diretamente ao Pai em Seu nome. Jesus mesmo afirmou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim” (Jo 14:6). “E tudo quanto pedirdes em Meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14:13). E o apóstolo Pedro acrescentou: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12).

O próprio dogma da assunção de Maria ao paraíso cai por terra se levarmos em consideração o ensino bíblico de que os mortos permanecem em estado de completa inconsciência na sepultura (ver Sl 115:17; 146:4; Ec 3:19, 20; 9:5, 6 e 10), aguardando o dia da ressurreição final (ver Jo 5:28 e 29; 1Co 15:51-54; 1Ts 4:13-18). Se os justos fossem levados ao céu por ocasião da morte, o apóstolo Pedro jamais poderia ter afirmado no Pentecostes que Davi, um dos heróis da fé, ainda não havia subido “aos Céus” (At 2:29 e 34).

Cremos, por conseguinte, que Maria foi uma pessoa piedosa e temente a Deus; mas, como Davi, ela ainda não se encontra no céu e, como qualquer outra criatura, ela jamais deveria ser venerada (ver Ap 22:8 e 9). 

Em todas as denominações cristãs, Maria é reconhecida como uma pessoa especial, escolhida por Deus pela sua vida santa e devotada à prática da religião. Segundo Cáio Fábio D’ Araújo Filho, “a mãe de Jesus é vista nos evangelhos como uma bem-aventurada, eleita pela graça de Deus para a mais sublime de todas as missões que um mortal já recebeu”. Paulo Pinheiro, editor de Sinais dos Tempos, afirma: “Maria, a mãe de Jesus, foi uma pessoa formidável”. Ao escrever o seu Comentário ao Magnificat, Martinho Lutero declarou que “Maria é a mulher mais sublime da Terra”. Augustin George, professor de Novo Testamento da Faculté Catholique de Théologie de Lyon, França, declara que, “por sua fé, seu amor e sua humildade, [Maria] é a bela flor de seu povo e toda a raça humana”. Ellen G. White apresenta-a como uma fonte de sabedoria e instrução para Jesus, “sua mãe foi-lhe a primeira professora humana” (OC, 19). Para ela, “as próprias palavras por Ele [Jesus] ditas a Moisés para Israel, eram-lhe agora ensinadas aos joelhos de Sua mãe” (DTN, 70). 

E finalmente Hermes C. Fernandes, conferencista, autor, psicólogo e doutor em Ciência da Religião, disse em sua página do facebook: "Jesus é o único caminho que nos leva a Deus. Maria foi o caminho tomado por Deus para vir ao encontro dos homens. Maria é a representação da humanidade em todas as suas cores, etnias e expressões culturais, que traz ao mundo o Filho de Deus. O desprezo protestante a Maria é uma reação grotesca e exacerbada à devoção que se presta a ela. Deveríamos, antes, optar por uma postura idônea e equilibrada. Amemos a Maria e adoremos o fruto do seu ventre. E ainda que não compreendamos a devoção que lhe é prestada por nossos irmãos católicos, que possamos respeitá-la e buscar considerar o contexto de onde emerge e suas implicações sociais. No fundo, todos somos marianos, pois nos submetemos à instrução que ela deu aos serventes em Caná da Galileia: 'Fazei tudo o que Ele vos disser' (Jo 2:5)."

Maria disse que as pessoas devem fazer tudo o que Ele – Jesus Cristo disser. Obedeça a Jesus e muitas bênçãos você receberá. Para descobrir o que Jesus quer de sua vida, basta ir às Escrituras (Jo 5:39). Nelas você encontrará o caminho a seguir. Só Jesus Salva! Creia nisso e seja feliz!

terça-feira, 12 de maio de 2026

DIGNIDADE HUMANA

"Promovendo a liberdade religiosa, a vida familiar, a educação, a saúde e a ajuda mútua, e atendendo às necessidades humanas, os adventistas do sétimo dia afirmam a dignidade da pessoa humana criada à imagem de Deus".1 - Trecho extraído da declaração feita pela Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, no dia 17 de novembro de 1998, por ocasião do 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Por que, como igreja, cremos na dignidade de todo ser humano e a proclamamos ao mundo? Por que o direito de cada homem e mulher à igualdade, saúde, liberdade, oportunidades pessoais e vocacionais, expressão e culto, independentemente de raça, religião, nacionalidade, idioma, cor ou tribo, é tão fundamental à visão e missão da igreja? A resposta é simples. Nossa missão em prol da dignidade humana não deriva de política, educação, sociologia ou psicologia. Ele está enraizado no compromisso de fé que temos com nosso Deus Criador.

Assim sendo, quando falamos em dignidade humana, temos de começar com o relacionamento Deus-homem e isso envolve profundas implicações teológicas e relacionais. Tal consideração leva em conta a realidade da Criação, a cruz, o Espírito Santo, a lei moral e o discipulado.

CRIAÇÃO E DIGNIDADE HUMANA

O conceito adventista de dignidade humana teve sua origem na própria mente de Deus, quando Ele, em Sua infinita sabedoria, tornou a humanidade a coroa de Seu processo criativo. Quando o Criador disse: "Façamos o homem à Nossa imagem" (Gênesis 1:26),2 estava compartilhando com os seres humanos algo de Sua singularidade. O ser humano não é mera criatura. Seu lugar na criação é absolutamente singular. Foi-lhe atribuído o domínio "sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra". Foi-lhe concedida a faculdade de pensar, escolher, ser criativo e desfrutar parceria com Deus por meio de comunhão e mordomia.
Todas as demais criaturas são também "seres viventes", mas os seres humanos devem refletir a imagem de Deus e ser cumpridores da Sua vontade. Adão recebeu uma missão: gerenciar o planeta Terra. A diferença entre o conceito bíblico e as antigas tradições ou a teoria da evolução é imensa. Não somos o produto acidental de um longo e sinuoso processo evolucionário, nem a ação arbitrária de uma divindade lunática. Somos fruto do amor de Deus e parte de Seu desígnio universal. Somos chamados a ser os principais protagonistas de um extraordinário destino. Portanto, quando lidamos com seres humanos, estamos lidando com o seu Criador. É esse parentesco divino que fundamenta o conceito adventista de dignidade humana.

A CRUZ E A DIGNIDADE HUMANA

O segundo fator que reforça a âncora teológica da dignidade humana, como defendido pelos adventistas, é que Deus não abandonou a raça humana à morte e destruição, mesmo após ter ela se rebelado contra a Sua vontade. Quando Adão e Eva pecaram no Jardim do Éden, revoltaram-se contra a manifesta vontade divina e se tornaram merecedores de morte. Mas Deus preferiu enfrentar o pecado de uma forma diferente. Rebeldes como fossem, Adão, Eva e seus descendentes eram ainda Sua criação, e Deus preferiu enfrentar a rebelião com redenção, a morte com vida, o ódio com amor. "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16). Embora sejamos pecadores e a despeito de quão longe tenhamos ido, ainda somos a preciosa propriedade de Deus. Ele nos dotou de certa dignidade. Não obstante seja firme propósito de Satanás destruir essa dignidade mediante o pecado e seus vários meios enganosos, Deus, mediante Seu Filho Jesus, revelou quão valiosos somos à Sua vista. Tanto assim que Jesus morreu na cruz por nossos pecados. Por isso, a cruz se torna a afirmação perdurável de que todo ser humano é uma pessoa de imenso valor e dignidade. De fato, Jesus de tal modo Se identificou com a humanidade, que aquilo que fazemos a uma pessoa equivale a tê-lo feito ao próprio Cristo. "Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes" (Mateus 25:40). Portanto, toda vez que alguém sofre abuso, tortura ou humilhação, Cristo é atingido. A criatura de Deus, motivo da redenção provida por Cristo, nunca deve ser tratada como um objeto comum a ser manipulado, mas como uma joia insubstituível.

A DIGNIDADE HUMANA E O TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO

Se os atos criativos e redentores de Deus propiciam o fundamento para o nosso conceito de dignidade humana, essa concepção é ainda elevada a maiores alturas pela proclamação bíblica de que somos o templo do Espírito Santo. "Não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado" (I Coríntios 3:16 e 17). E novamente: "Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço" (6:19 e 20).
Declarar que somos o templo de Deus e que nosso corpo é o lugar de habitação do Espírito Santo, é atribuir a mais elevada dignidade possível ao ser humano. Mesmo um descrente não ousaria pensar em cometer sacrilégio contra um local de adoração. Como, pois, podemos insultar nossos semelhantes, seres criados à imagem de Deus e templos em potencial do Espírito Santo? Ninguém é demasiado insignificante, pobre e indigno para ser tratado com desrespeito. E isso não é tudo. Nossa doutrina de dignidade humana chega ao ponto de requerer que tratemos nossa mente e nosso corpo com o maior cuidado, e que não permitamos estejam eles sujeitos a abuso ou maus-tratos de qualquer espécie. Assim, o apelo adventista em prol da dignidade humana procede da nossa atitude com relação a nós mesmos, para envolver toda a humanidade em escala global.

A DIGNIDADE HUMANA E OS MANDAMENTOS DE DEUS

Os Dez Mandamentos podem ser chamados de a primeira declaração de direitos humanos. A violação de um deles afeta diretamente a qualidade de vida, paz e dignidade humanas. Jesus sumariou os Dez Mandamentos em poucas palavras: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento... Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mateus 22:37). Os primeiros quatro mandamentos tratam da nossa aliança com Deus, que é a origem de nossos direitos. Os últimos seis definem nosso relacionamento uns com os outros como seres humanos. Conquanto Deus permaneça como o supremo ponto de referência e definidor de nossa atitude para com outros, é nas especificações da segunda parte da lei moral que temos as relações humanas codificadas. Você acha que alguém, tendo sua bússola moral calibrada pelos Dez Mandamentos, possa mentir, matar ou manifestar desprezo e desrespeito para com seu próximo? Esse relacionamento conceitual entre a lei moral e a dignidade humana foi ampliado ainda mais por Jesus no Sermão da Montanha. Um exemplo basta: Jesus definiu o assassinato não simplesmente como o ato de tirar a vida de alguém, mas até ofato de desprezar e chamar um semelhante de louco (ver Mateus 5:21 e 22). Daí a ênfase adventista sobre a lei moral e a incorporação do amor puro e ilimitado para o qual ela aponta, constituir-se o firme e inabalável fundamento de nossa defesa da dignidade e dos direitos humanos.

DIGNIDADE HUMANA: IMPLICAÇÕES NO DISCIPULADO

Para os adventistas do sétimo dia, a dignidade humana não deve aparecer como algo distante e inatingível. Isolar as crenças da prática tem sido uma contínua tentação em nossa vida religiosa, e isso não se mostra mais real do que na arena das relações humanas. Quando Deus nos ordena amá-Lo com todo o nosso ser e aos nossos semelhantes como a nós mesmos, está apelando a um retorno à meta da vida como planejada originalmente por Ele. O centro da vida é o relacionamento bom e apropriado, tanto com Deus quanto com os seres humanos. O profeta Isaías declara quão inseparáveis são: "Porventura não é também este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante?" (Isaías 58:6 e 7.)
A religião, portanto, é mais do que uma rotina formal. É mais do que belas frases, comoventes orações, hinos inspiradores ou reuniões movimentadas num templo elegante e confortável. Não se trata de um catálogo de doutrinas, a despeito de quão importantes elas sejam. É vida real! Como declara Tiago: "A religião pura e sem mácula para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo" (Tiago 1:27). Em outras palavras, não pode haver verdadeira experiência religiosa sem respeito pela dignidade humana.
Isso explica por que os adventistas, desde o início de sua história, têm-se comprometido em defender o valor de todo ser humano. Desde o princípio foi adotada uma firme posição contra toda forma de injustiça social. Ellen White escreveu: "A escravidão, o sistema de castas, os preconceitos raciais, a opressão dos pobres, a negligência dos desventurados -- isso tudo é estabelecido como anticristão e uma séria ameaça ao bem-estar da humanidade, e como males apontados por Cristo que a Sua igreja tem o dever de vencer".3
E também: "O Senhor requer que reconheçamos os direitos de todos os homens. Os direitos sociais dos homens, e seus direitos como cristãos, devem ser tomados em consideração. Todos têm de ser tratados fina e delicadamente, como filhos e filhas de Deus".4
Como resultado, nossa igreja desenvolveu um ministério de restauração e respeito pela dignidade humana. Mediante um sistema global de igrejas, escolas, hospitais, serviços comunitários e a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), os adventistas difundem a mensagem de preocupação e cuidado para com toda a humanidade em 203 dentre 208 países reconhecidos pelas Nações Unidas. Entre as igrejas cristãs, assumimos um papel de liderança na promoção da liberdade religiosa para todos. Através da pena e da voz, de missão e ministério, não somente suscitamos mais tentamos oferecer uma resposta significativa a perguntas como: De que forma estamos defendendo e promovendo os direitos humanos? Que deve ser feito quanto às várias formas de discriminação em diferentes países? Como nos relacionamos com políticas que tratam de guerra e terror? Que dizer de sistemas e estruturas políticas que podem afetar a vida das pessoas, gerar fome, refugiados e campos de concentração? Que dizer da exploração do trabalho infantil, da escravidão e da condição da mulher?
Não pretendemos ter todas as respostas ou soluções eficazes para todos os problemas. Mas levantar tais indagações e agir em cooperação com outras agências na promoção dos valores humanos são, por si só, tarefas necessárias. Não podemos de forma alguma dar-nos ao luxo de permanecer em silencio no que se refere à violação do ser humano.

MARGEM ALGUMA PARA O SILÊNCIO

Em 1988, Zdravko Plantak publicou um livro corajoso sobre nossa igreja e os direitos humanos. O título por si só é eloquente: The Silent Church [A Igreja Silenciosa]. Ele escreveu: "Os adventistas precisam começar a envolver-se (no mundo) porque o seu Deus Se interessa nisso e deseja que eles cuidem uns dos outros. Identificar-se com Jesus significa identificar-se com pobres, oprimidos e aqueles a quem têm sido negados os direitos e liberdades básicos. Não é suficiente cuidar da pessoa e deixar de preocupar-se com as leis que afetam a vida dela na sociedade".5
Os pioneiros adventistas entendiam isso perfeitamente. Ellen White pode não ter promovido uma melhoria das condições dos escravos, mas condenou a escravidão em termos bem vigorosos: "A instituição da escravatura... permite [o homem] exercer sobre seu semelhante um poder que Deus nunca lhe conferiu, e que pertence somente ao Senhor".6Ela prosseguiu condenando a política escravagista como "um insulto a Jeová".7
Tiago White escreveu que o cristão "tem realmente tanto interesse neste velho mundo quanto qualquer outro homem. Aqui ele deve permanecer e fazer sua parte até que o Príncipe da Paz venha para reinar".8
Essa visão dos pioneiros, de que o cristão deve ir além da metodologia tradicional de assistência social, até os problemas da dignidade e valor humanos, refletiu-se na resolução da Associação Geral de 1865: "Resolvido que, a nosso ver, o ato de votar quando exercido em benefício da justiça, humanidade e direito, é em si mesmo correto e pode às vezes ser altamente apropriado; mas a admissão de tais crimes como intemperança, insurreição e escravidão, consideramos como altamente condenáveis à vista do Céu".9
Essa resolução apelava à promoção e defesa da dignidade humana mediante "o ato de votar" para mudar a lei. Contudo, os pioneiros estabeleceram um limite: "Mas devemos reprovar qualquer participação no espírito de disputa partidária".10

A DIGNIDADE HUMANA: UM VALOR CENTRAL

Assim, para os adventistas, a dignidade humana é um valor essencial. Não devemos apoiar de modo algum uma política ou atitude que negue a dignidade de qualquer segmento da humanidade. Como igreja, devemos ser prudentes e sábios ao falarmos oficialmente, mas ser uma igreja silenciosa sobre questões vitais é envergonhar-se de Jesus, nosso Salvador e de Deus, nosso Criador. Como membros da igreja, não devemos tomar parte em nenhum empreendimento que transforme alguém feito à imagem de Deus em uma coisa ou objeto. A questão não tem a ver somente com coerência, mas também com testemunho. Nunca devemos nos esquecer de que somos embaixadores do reino de Deus na Terra, e arautos de uma nova criação que restaura e estabelece para sempre a dignidade humana. Só então, "romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda" (Isaías 58:8).
John Graz (via Diálogo Universitário)

NOTAS E REFERÊNCIAS:

  1. Declarações de Igreja, 1a. ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), p. 59.
  2. Todas as referências bíblicas deste artigo foram extraídas da Versão Almeida revista e atualizada no Brasil.
  3. Ellen G. White, Life Sketches of Ellen G. White (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publ. Assn., 1943), p. 473.
  4. __________, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), p. 123.
  5. Zdravko Plantak, The Silent Church (Nova York: St. Martin's Press, Inc., 1998), p. 48.
  6. Ellen White, Testemunhos Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), vol. 1, p. 358.
  7. Ver Douglas Morgan, Adventists and the American Republic (Knoxville: The University of Tennessee Press, 2001), p. 31.
  8. Tiago White, citado por Morgan, p. 34.
  9. "Report on the Third Annual Session of the General Conference", p. 197; citado por Morgan, pp. 36 e 37.
  10. Ibidem.