quinta-feira, 30 de abril de 2026

TÚMULOS ABERTOS

De acordo com o evangelho de Mateus, quando Jesus morreu, “os túmulos se abriram, e muitos corpos de santos, já falecidos, ressuscitaram e, saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos” (Mt 27:52, 53). Esse evento só está registrado nesse verso da Bíblia e levanta uma série de perguntas para as quais não temos respostas definitivas.

O QUE DIZ O TEXTO?
O texto estabelece uma série de pontos muito claros: (1) confirma que Jesus morreu e ressuscitou; (2) declara que houve um terremoto que abriu os túmulos, e alguns do povo de Deus foram ressuscitados; (3) informa que a ressurreição deles ocorreu paralelamente à morte e à ressurreição de Jesus, indicando que Sua ressurreição beneficiará as gerações passadas; (4) reitera que essa foi uma ressurreição literal, com a intenção de afirmar que Jesus tinha poder sobre a morte; e (5) destaca o fato de que os ressuscitados foram a Jerusalém e “apareceram a muitos”, o que sugere que eles não permaneceram entre os vivos para morrer novamente, mas foram ressuscitados para a vida eterna. 

MUITAS PERGUNTAS
A passagem desperta muitas perguntas. Quem eram eles? Muitos cristãos incluem Adão, José, ­Moisés e Jó entre os santos ressuscitados. Alguns comentaristas sugerem que entre eles estavam patriarcas, profetas e mártires. Outros perguntam sobre os critérios que Deus usou para escolher quem haveria de ressuscitar, e há aqueles que afirmam que eram mártires. A sugestão parece ter algum valor teológico, indicando que aqueles que voluntariamente deram sua vida pelo Senhor foram os primeiros a receber a vida de volta por meio da morte do Filho de Deus. Ellen White diz que "aqueles favorecidos santos ressurgidos saíram glorificados. Eram escolhidos e santos de todos os tempos, desde a criação até os dias de Cristo" (Primeiros Escritos, p. 184). E continua: "Eram os que haviam colaborado com Deus, e que à custa da própria vida tinham dado testemunho da verdade. Agora deviam ser testemunhas dAquele que os ressuscitara dos mortos" (O Desejado de Todas as Nações, p. 786).

QUANDO ELES RESSUSCITARAM?
A versão Nova Almeida Atualizada (NAA) parece sugerir que eles ressuscitaram na sexta-feira, mas permaneceram no túmulo até depois da ressurreição de Jesus. O texto também poderia ser traduzido como: “os túmulos se abriram, e muitos corpos de santos já falecidos ressuscitaram e saindo dos túmulos depois da ressurreição de Jesus…” Assim, as tumbas foram abertas na sexta-feira, mas a ressurreição ocorreu no domingo, após a ressurreição de Jesus. Ellen White diz: "Quando Cristo ressurgiu, trouxe do sepulcro uma multidão de cativos. O terremoto, por ocasião de Sua morte, abrira-lhes o sepulcro e, ao ressuscitar Ele, ressurgiram juntamente" (Idem).

O DESTINO DOS RESSURRETOS
Mateus declara apenas que os santos apareceram a outras pessoas em Jerusalém, provavelmente para testificar sobre a ressurreição de Jesus. Se foram ressuscitados para a vida eterna, teriam ido para o Céu quando Cristo ascendeu. A declaração de Paulo em Efésios 4:8 pode ser útil: “Quando Ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e concedeu dons aos homens.” O verso descreve dois benefícios da obra de Cristo: em Sua ascensão, Ele concedeu o dom do Espírito a Seu povo e levou consigo um exército de cativos, ­conduzindo-os ao Céu como troféus de Sua vitória sobre a morte e Satanás. Jesus é as primícias dos que dormem (1Co 15:20), e aqueles que ressuscitaram com Ele são a primeira expressão de Seu poder de conceder vida eterna aos seres humanos. A ressurreição deles antecipa a ressurreição escatológica dos justos na segunda vinda.

Ellen White diz: "Aqueles que ressurgiram por ocasião da ressurreição de Cristo, saíram para a vida eterna. Ascenderam com Ele, como troféus de Sua vitória sobre a morte e o sepulcro. Estes, disse Cristo, não mais são cativos de Satanás. Eu os redimi. Trouxe-os da sepultura como as primícias de Meu poder, para estarem comigo onde Eu estiver, para nunca mais verem a morte nem experimentarem a dor" (Idem).

Ellen White finaliza: "Depois que Jesus abençoou os discípulos [na ascensão], separou-Se deles e foi recebido em cima. E, ao subir, a multidão de cativos que ressuscitara por ocasião de Sua ressurreição, seguiu-O. Uma multidão do exército celestial estava no cortejo, enquanto no Céu uma inumerável multidão de anjos aguardava a Sua chegada" (Primeiros Escritos, p. 190). 

quarta-feira, 29 de abril de 2026

DANÇA

O Dia Mundial da Dança, comemorado no dia 29 de abril, foi instituído pelo CID (Comitê Internacional da Dança) da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) no ano de 1982. A comemoração tem por base o dia de nascimento de Jean-Georges Noverre, que nasceu em 1727 e foi um dos grandes nomes mundiais da dança.

Os cristãos e a dança
Você já foi a algum lugar, talvez em um shopping, um restaurante ou até mesmo em uma esquina quando, de repente, começou a ouvir música? Não estou falando de qualquer música, mas de um ritmo quente, uma batida forte. Pode ser que você nunca tenha ouvido aquela música e nem conheça a letra, mas antes de se dar conta, seus pés estão acompanhando a batida e seu corpo começa a balançar no ritmo. Você está – dançando!

Os adventistas e outros cristãos conservadores têm, em geral, se oposto à dança social, tão popularizada em nossos dias. Pergunta: A dança é apropriada para os cristãos hoje? Expressar-se com o corpo é algo absolutamente normal para todos nós. Mas até sobre nossa comunicação corporal há uma responsabilidade a ser tomada.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia geralmente desaconselha a dança social moderna, bailes e discotecas, focando em evitar ambientes associados a comportamentos considerados sensuais ou seculares. No entanto, não há uma regra explícita, sendo comum a aceitação de danças culturais ou artísticas.

A prática de ballet, por exemplo, é um tema com nuances, focado mais no contexto e intenção do que na dança em si. Embora a igreja tradicionalmente desaconselhe a dança de salão ou festiva, o ballet técnico, a dança cultural ou atividades físicas que promovem a beleza e a saúde não são proibidos. O ballet é aceitável quando focado em arte, disciplina física e expressão artística, sem conotação sensual. Escolas adventistas já organizaram atividades de ballet, como indicado pelo Kraft Ballet. 

Embora a denominação tradicionalmente desaconselhe estas danças, muitos veem a zumba e o fit dance como atividades físicas que ajudam a emagrecer e tonificar músculos, como exercícios físicos aeróbicos saudáveis (semelhante à ginástica) para saúde e alegria, desde que evite estilos sensuais, músicas inadequadas ou ambientes impróprios. A avaliação sobre se a coreografia ou a música extrapolam os limites aceitáveis é, muitas vezes, pessoal, guiada pela consciência e princípios bíblicos.

Dança nos tempos bíblicos
Veja só, as pessoas dançavam nos tempos bíblicos! Elas dançavam e nem sempre era errado. Qual é o critério para definir o certo e o errado neste caso? Para responder a essa pergunta, vamos começar com Davi.

Tensa de entusiasmo, a multidão se acotovelava para ver o cortejo que passaria em seguida. Eles podiam ouvir as trombetas e os tamborins e as canções de louvor a Deus ecoavam pelos campos. A Arca do concerto, finalmente, estava voltando a Jerusalém depois de tantos anos que havia sido levada de seu lugar de honra. Tudo seria diferente agora. À medida que o cortejo se aproximava, uma figura sobressaía à vista dos observadores. Davi, o rei de Israel, não vestia os trajes reais. Ao invés disso, ele dançava diante da arca do concerto vestido com uma estola sacerdotal de linho branco. Davi tinha conseguido o que queria. Naqueles dias, quando um exército capturava tropas inimigas, era costume forçar um ou mais cativos a dançar alegremente diante do rei vitorioso. Isso simbolizava submissão e humilhação na presença do rei. Quando Davi dançou diante da arca, ele queria que todo Israel reconhecesse que ele era cativo de Deus e estava demonstrando submissão e humildade ao Rei do Universo.

Você acha que o povo ficou chocado por que ele dançou? De jeito nenhum. Você acha que a multidão entendeu a mensagem que Davi queria passar? É claro que sim. E que mensagem foi aquela! Vamos ler o que Ellen White nos diz a esse respeito: "A dança de Davi em júbilo reverente, perante Deus, tem sido citada pelos amantes dos prazeres para justificarem as danças modernas da moda; mas não há base para tal argumento. Em nosso tempo a dança está associada com a extravagância e as orgias noturnas. A saúde e a moral são sacrificadas ao prazer. Para os que frequentam os bailes, Deus não é objeto de meditação e reverência; sentir-se-ia estarem a oração e o cântico de louvor deslocados, na assembléia deles. Esta prova deve ser decisiva. Diversões que tendem a enfraquecer o amor pelas coisas sagradas e diminuir nossa alegria no serviço de Deus, não devem ser procuradas por cristãos. A música e dança, em jubiloso louvor a Deus, por ocasião da mudança da arca, não tinham a mais pálida semelhança com a dissipação da dança moderna. A primeira tendia à lembrança de Deus, e exaltava Seu santo nome. A última é um ardil de Satanás para fazer os homens se esquecerem de Deus e O desonrarem" (Patriarcas e Profetas, p. 707).

A Bíblia tem apenas 27 versos que mencionam diretamente a dança. A partir deles, temos elementos para compreender que tipo de atitude deve estar por trás da dança. “Cantem glória ao Senhor com trombetas, com harpas e liras! Cantem glória ao Senhor com tamborins e danças, com instrumentos de corda e flautas! Cantem glória ao Senhor com címbalos de som bem forte e puro!” (Sl 150:3-5).

Esses versos, obviamente, falam da dança como um meio de louvar a Deus. É importante compreender o significado hebraico da palavra “dança” nesse texto. A dança mencionada aqui é a dança de roda ou círculo. Não é uma dança individual ou em pares como muitas danças seculares hoje. Nada sugere isso no contexto. Esse tipo de dança consiste de movimentos como bater os pés, saltar, girar e dar pequenos pulos com os pés juntos.

Outros versos falam a respeito da dança como um meio de expressar alegria entre a comunidade. Isso acontecia quando uma vitória era conquistada sobre o inimigo. Uma análise das referências bíblicas à dança revela o fato de que as danças israelitas consideradas como apropriadas eram de natureza litúrgica, sendo acompanhadas por hinos de louvor a Deus. Elas eram geralmente praticadas entre grupos de pessoas do mesmo sexo e sem quaisquer conotações sensuais (ver Êx 15:20; Jz 11:34; 21:21-23; 1Sm 18:6; 21:11; 2Sm 6:14-16; 1Cr 15:29; Jr 31:14).

Alguns conselhos
Se estiver pensando: “Ah, viu só? Não tem nada de errado com a dança”, não se esqueça de que há outros pontos a considerar além de sua aceitabilidade como forma de louvor. Se você começar a pular e a dançar no corredor central de sua igreja no próximo sábado, imitando Davi, não espere ser recebido calorosamente como ele foi. Como qualquer outra atividade, é importante relembrar o conselho de Paulo aos coríntios: “Bem, vou dizer-lhes a razão. É que vocês devem fazer tudo para a glória de Deus, até mesmo ao comer e ao beber. Portanto, não sejam pedra de tropeço para ninguém, quer sejam eles judeus, gentios ou cristãos” (1Co 10:31-32, BV).

Em contraste com as danças litúrgicas do período bíblico, a maioria das danças modernas são praticadas sob o ritmo sensual das músicas profanas, que desconhecem completamente o princípio enunciado em Filipenses 4:8: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvou existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento.” 

É certo que Satanás trabalha muito para perverter qualquer coisa boa que Deus nos deu. Ele fez a mesma coisa com a dança, torcendo-a de tal modo que nada de bom ficasse na dança secular; e, embora ela esteja tão cheia de intenções pecaminosas, alguns cristãos relutam em evitá-la completamente. Ellen White adverte: "O verdadeiro cristão não desejará entrar em nenhum lugar de diversão nem se entregar a nenhum entretenimento sobre que não possa pedir a bênção divina" (Mensagens aos Jovens, p. 398).

Quando os israelitas se juntaram ao pé do Monte Sinai, Deus ordenou que eles não tivessem outros deuses diante dEle. Hoje, reconhecemos tal ordem como um dos Dez Mandamentos. Alguns capítulos adiante, em Êxodo 32:19, esses mesmos israelitas estão cultuando um bezerro de ouro através de danças. Em algumas partes do mundo, danças folclóricas são usadas para cultuar os deuses da fertilidade, o espírito dos mortos e para apaziguar Buda e outros deuses.

Em Mateus 14, a história de Salomé, a filha de Herodias que dançou diante de Herodes, acrescenta outra dimensão à degradação da dança. O episódio implica que a performance de Salomé foi muito sensual. Ao se tornar excitado sensualmente, Herodes, de modo insensato, prometeu que daria a Salomé qualquer coisa que pedisse. E, por ter deixado que as emoções o controlassem, João Batista perdeu a cabeça – literalmente.

Embora os judeus nos dias de Jesus continuassem praticando a dança (ver Lc 15:25), não encontramos nenhuma evidência no Novo Testamento de que a igreja cristã primitiva perpetuasse tal costume. Há quem sugira que esse rompimento cristão com a dança deve-se à degeneração desde já no tempo de Cristo.

Antes de os israelitas cruzarem o Jordão, muitos deles foram seduzidos por mulheres moabitas (veja Números 25). Como parte de seu envolvimento, os homens participaram de atos de perversão que incluíam a dança. A dança promovia excitação sexual de modo inadequado. A Bíblia diz: “a ira do Senhor se acendeu contra Israel” (Nm 25:3). Deus deu instruções a Moisés para que matasse os que haviam participado desses eventos. Depois de tudo acabado, vinte e quatro mil israelitas foram mortos. Foram mortos por que dançaram? Não. Morreram porque aquele tipo de comportamento inapropriado levou a ações indecentes e inaceitáveis diante de Deus.

Conclusão
Como podemos observar, a partir dessas histórias podemos saber que há vários tipos de dança, como por exemplo: 1 - Aquelas que cultuam qualquer outro deus que não o Deus do universo; 2 - Danças que estimulam sexualmente os participantes.

Grande parte das danças de hoje tem-se transformado em um dos maiores estimuladores do sensualismo. Mesmo não se envolvendo diretamente em relações sexuais explícitas, seus participantes geralmente se entregam ao sensualismo mental (ver Mt 15:19-20), desaprovado por Cristo em Mateus 5:27-28: “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo: qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração, já adulterou com ela.”

Há aqueles que endossam as danças particulares entre cônjuges unidos pelos laços matrimoniais. Embora tais práticas pareçam inocentes à primeira vista, elas representam o primeiro passo rumo a estilos mais avançados de dança, integrando eventualmente o casal a grupos dançantes. Seja como for, o cristão dispõe hoje de outras formas de integração e entretenimento sociais mais condizentes com os princípios bíblicos de conduta do que a excitação e o sensualismo promovidos pela maioria das danças modernas.

Considerado tudo isso, você pode dizer honestamente que sua participação na dança secular demonstraria aos outros um caráter cristão? Ou será que seu testemunho ficaria comprometido? Em cada decisão que tomamos, escolhemos ficar a favor ou contra Deus. Por isso, é bom ter certeza absoluta do que está escolhendo. Isso fará diferença no mundo – neste e no vindouro.

terça-feira, 28 de abril de 2026

MÚSICAS EMPRESTADAS

Não há nada inerentemente errado em cantar músicas escritas por outros. O povo de Deus sempre compartilhou música, transcendendo fronteiras geográficas e gerações. Canções adaptadas podem nos ensinar teologia, nos conectar ao corpo de Cristo em geral e dar voz a verdades que ainda estamos aprendendo a expressar.

Mas um perigo silencioso surge quando as músicas emprestadas se tornam as únicas músicas que oferecemos.

Com o tempo, a igreja pode perder não apenas a criatividade, mas também a identidade.

Adoração no micro-ondas versus Louvor caseiro
Imagine uma casa onde todas as refeições vêm do micro-ondas. A comida é preparada em outro lugar. É consistente, eficiente e “segura”. Mata a fome, mas nunca preenche a casa com o cheiro da comida, o som do preparo ou a alegria do trabalho em equipe.

Espiritualmente, algo semelhante acontece quando a adoração é sustentada inteiramente por músicas compostas por outras pessoas.

Músicas emprestadas são convenientes. Economizam tempo. Reduzem riscos. E muitas vezes soam muito bem. Mas não nasceram de nossas orações, nosso arrependimento, nossa dor ou nossa gratidão. Elas carregam o testemunho de outra pessoa — fiel, sincero e real —, mas não o nosso .

Deus nunca pediu ao Seu povo que trouxesse sobras ao altar.

A inconsistência que jamais aceitaríamos em qualquer outro lugar
Imagine o quão artificial seria se esse mesmo padrão moldasse o restante da vida da igreja.

E se os pregadores apenas reutilizassem os sermões exatos de outros pregadores — sem nunca se debruçarem sobre o texto, sem nunca ouvirem o que o Espírito poderia estar dizendo àquela congregação, naquele momento ?

E se todas as nossas orações fossem recitadas exclusivamente a partir das palavras de outras pessoas — nunca moldadas por nossas próprias confissões, intercessões ou súplicas por misericórdia?

E se a igreja simplesmente repetisse o que outros já disseram — refletindo pensamentos emprestados em vez de envolver o coração, a mente e o corpo em resposta a Deus?

Com razão, pressentiríamos que algo estava errado.

Não porque esses sermões, orações ou escritos fossem infiéis, mas porque o culto deixou de ser participativo. As pessoas estariam consumindo a fé em vez de praticá-la.

No entanto, muitas vezes aceitamos esse padrão na música sem questioná-lo.

A adoração razoável exige que sejamos nós mesmos por inteiro
As palavras de Paulo em Romanos 12:1, 2 são surpreendentemente concretas e pessoais:

“Apresentem os seus corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o culto racional de vocês. [...] Transformem-se pela renovação da sua mente.”

Segundo as Escrituras, a adoração não é mera repetição, mas sim oferecer-nos a nós mesmos.

Nossas mentes.

Nossos corpos.

Nossas experiências.

Terceirizar toda a expressão musical é, involuntariamente, reter parte dessa oferta.

Deus não deseja apenas a precisão das palavras; Ele convida à transformação das pessoas. E a transformação acontece quando os crentes se envolvem ativamente — pensando, criando, respondendo e oferecendo a Deus aquilo que Ele primeiro operou neles.

Canções emprestadas moldam teologia emprestada
A música nos forma muito antes de nos informar. O que cantamos repetidamente torna-se o que instintivamente assumimos. Quando todas as nossas canções vêm de outras comunidades, outras culturas e outros ecossistemas teológicos, adotamos lentamente suas ênfases como se fossem nossas — às vezes sem perceber.

Repito, isto não é uma acusação. É uma observação pastoral.

Quando uma igreja nunca compõe suas próprias canções, ela pode até manter suas crenças, mas gradualmente perde a capacidade de expressá- las musicalmente. Eventualmente, a congregação deixa de saber como cantar sua fé com suas próprias palavras.

E aquilo que uma comunidade não consegue cantar, terá dificuldade em transmitir.

Compor canções não é uma performance — é um ato de cuidado pastoral
Compor canções não é exclusividade de profissionais, artistas de gravação ou pessoas especialmente talentosas. Na vida da igreja, é um ato pastoral.

Músicas locais:

• Dar voz ao lamento local.

• Preservar os testemunhos locais.

• Ensine a doutrina com um sotaque familiar.

• Ancore a fé na experiência vivida.

Uma canção escrita localmente pode nunca viajar muito longe, mas pode influenciar profundamente.

Os Salmos não foram escritos para impressionar as gerações futuras. Foram escritos porque Deus encontrou pessoas em situações reais, e o louvor foi a resposta natural.

Um convite à coragem
Este não é um chamado para abandonar canções emprestadas. É um chamado para completar nossa adoração.

Cante a igreja global.

Cante a igreja histórica.

Mas também — cante na sua igreja.

Cante o que Deus fez entre este povo.

Cante enquanto responde às suas perguntas.

Cante seu arrependimento.

Cante a sua esperança.

Músicos: Deus não está esperando que vocês soem como todo mundo. Ele está convidando vocês a oferecerem o que Ele já colocou dentro de vocês.

O mesmo Senhor que acolhe sermões preparados com estudo e oração e orações proferidas com corações sinceros também se alegra com canções que nascem de vidas fiéis.

Não foi aquecido no micro-ondas.

Mas feita em casa.

Preparado com reflexão, sacrifício e amor.

E oferecido como um ato de adoração vivo e racional.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O SÁBADO E OS DOIS MARRECOS

João era um homem simples, temente a Deus. Buscava viver à luz das orientações bíblicas e era fiel ao Senhor em cada pequeno detalhe de sua vida. No entanto, enfrentava muitas lutas. Ganhava pouco e sua esposa vivia muito doente.

O patrão de João tinha uma vida completamente diferente. Não acreditava em Deus, vivia de maneira desregrada, bebia muito e era violento. E vez após vez zombava de João, já que, mesmo vivendo desta forma, era muito rico, tinha uma mulher linda e gozava de boa saúde. “Acho que Deus não gosta tanto assim de você! Olhe para sua vida e olhe para a minha! Se tem alguém aqui de bem com Deus, esse sou eu!”, dizia o chefe entre gargalhadas.

O funcionário cristão permanecia em silêncio diante dos gracejos e zombaria. No fundo, eram bons amigos e João sabia que seu testemunho poderia ser o único contato que seu patrão talvez tivesse com as realidades da fé.

Um dia, os dois saíram para caçar marrecos. Chegaram no lugar, preparam tudo e ficaram aguardando o momento certo para atacar. Deram dois tiros. O primeiro foi certeiro. O marreco caiu morto. Colocaram-no em uma sacola. O segundo tiro atingiu outro marreco, mas este, ainda vivo, começou a fugir. O patrão largou o marreco morto de lado e foi correndo atrás do que estava vivo. E assim a caçada continuou.

No fim da tarde, João levou seu patrão para um lanche, e propôs a seguinte explicação para a situação dos dois. Com amor em sua voz, ele disse: “Chefe, o diabo dá tiros em todos nós. Ele deseja nos afastar de Deus, que é a fonte da vida de verdade. Você é o marreco morto. Eu sou o marreco vivo. O diabo corre atrás de mim, porque não tem certeza de que me abateu”.

Enquanto estivermos deste lado da eternidade, é possível que carreguemos mais perguntas do que respostas. Não é fácil conviver com o silêncio de Deus, enquanto a maldade do mundo nos rouba a paz. É possível que nestes últimos dias, o mal tenha posto você na mira. Quem sabe tenha feridas abertas, esteja sangrando. Doença, traição, despedida, privação… São inúmeras balas perdidas nessa guerra da vida.

Em meio a tudo isso, o Sábado é um lugar de cura e descanso. As portas estão abertas. Entre. Deixe as ferramentas de lado. Permita que Deus cuide das coisas por você. Ele vai lhe dar um abraço, vai secar suas lágrimas. Ele vai restaurar você. Descanse.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

O PRIMEIRO CULTO NO CÉU

(Dando asas à imaginação sobre um sonho tão sonhado)

Não é errado sonhar e nem tentar vislumbrar aquilo que tanto queremos. Deixei a imaginação fluir e construir um possível cenário do que seria o primeiro culto dos remidos no céu. Ainda que possa parecer presunçoso, eu me imagino lá, presente, pela graça, tão somente pela graça de Deus.

Embora saibamos que vamos estar na presença de Deus “de uma lua nova até a outra, de um sábado até o outro”, ou seja, diariamente, gosto da ideia de que esse culto se dará em um dia de sábado, celebrando assim a nova criação de Deus. Ao redor do trono, diante do nosso maravilhoso Pai, com vestes brancas, todos nós salvos, a grande multidão de remidos, homens, mulheres e crianças, pessoas de todas as épocas, justificados pela graça de Cristo, santificados pela ação do Espírito, glorificados pelo poder de Deus. Estamos circundados pelos exércitos de anjos celestes, em total reverência, com alegria sem fim no coração. Em nosso pobre planeta lá embaixo, o mal ainda não terá sido extinto, estamos iniciando o milênio de glória, mas já estamos livres dos efeitos do pecado, já sem lembrança de tudo de ruim que passamos.

O coro de anjos, a orquestra maravilhosa, instrumentos jamais vistos, todos a postos, prontos, aguardando o início daquele culto especial. A um sinal de Gabriel, o magnífico arcanjo, maestro maior de todos os coros, erguem-se as vozes celestes.

Perfeição completa, eis a música do céu! Finalmente a conhecemos, nós que sobre ela tanto falamos, discutimos e divergimos em nossa velha Terra. Como é diferente de tudo que pensávamos! Como era pobre nossa imaginação! Falávamos em tantos padrões, culturas, escolas musicais, gêneros, e a música de Deus agora nos surpreende a todos. Como teria sido tão melhor ter deixado, lá em nosso velho planetinha, o Espírito falar ao nosso coração, sempre, acima de qualquer erudição, acima de qualquer preconceito, acima da estratificação de nossas mentes!

E os músicos celestes nos brindam com um concerto extraordinário de boas vindas aos salvos. São momentos eternos que passam, que não sentimos, que não nos cansam nem incomodam. Criação musical coletiva, todos parecem pensar os mesmos acordes e sequências, e a música flui espontânea e bela, é mágica, impressiona os corações, alegra a alma dos salvos em Jesus.

De repente, a música muda. Cristo Jesus levanta-se ao lado do Pai e adianta-se. É o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo, o Leão da tribo de Judá, o Príncipe da Paz. Para Ele voltam-se todos os olhares, as mentes e os corações. É para Ele a próxima música do céu. Os acordes são outros, é outra a cadência, os anjos mal conseguem conter a emoção. A letra, de poesia perfeita e maravilhosa repete: “Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor”. Não dá pra descrever o que vai no coração de todos os presentes. Os remidos choram, mas é um choro de alegria, de agradecimento. São mais momentos eternos e inesquecíveis.

E agora, algo especial: a uma modulação maravilhosa, que o mais experimentado dos músicos terrestres jamais conseguiu sequer imaginar, a orquestra e o coro param. Jesus vai solar. Sua voz é completamente harmônica. Em alguns momentos suave e doce, a voz do Bom Pastor; em outras partes é como o som de muitas águas. Dispensa o acompanhamento. A letra diz, entre outras belezas: “Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo”. A orquestra e o coro de anjos, voltam em contracanto perfeito, respondem e devolvem a Cristo toda a honra, repetindo: “Digno é o Cordeiro, que foi morto, de receber o poder, e riqueza, e sabedoria, e força, e honra, e glória, e louvor”. A participação do Salvador, do Rei dos Reis, é perfeita.

Mas ainda há mais emoção nesse culto difícil de narrar. Todos os remidos que estão prostrados diante do trono, agora se levantam. Sim, nós vamos agora cantar. E não vamos fazer feio, temos mentes transformadas e corpos glorificados, dons restaurados, alcançamos a perfeição em Cristo Jesus. E sobre o que cantamos? Ah, com toda certeza, cantamos da experiência humana, da experiência pessoal de cada um. Cantamos daquilo que vivemos e passamos. E os outros mundos, habitados por seres superinteligentes e sem pecado, a tudo assistem maravilhados, sendo que jamais poderão cantar como nós cantamos, pois serão incapazes de transmitir musicalmente aquilo que não viveram.

E cantamos o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: “Grandes e admiráveis são as tuas obras, ó Senhor Deus Todo-Poderoso; justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei dos séculos”.

E o grande culto, antecedendo a monumental Escola que virá depois, prossegue todo em música, alternando coro e orquestra de anjos, solos maravilhosos, corais de remidos triunfantes. Não existe mais cansaço, não mais tédio, não mais monotonia, o tempo não existe, estamos enfim na Eternidade, vivendo dentro do sonho!

No final, a bênção do Pai, o Deus dos Exércitos, o Criador de todos os mundos, que sobre nós levanta o Seu rosto, e nos dá a paz, a Sua paz, que excede a todo o entendimento.

Em seguida, o início do nosso aprendizado na grande Escola dos céus. Quantas perguntas, quanta curiosidade, quanta sede de saber e conhecimento. Deus, Cristo Jesus, os santos anjos, a influência esclarecedora do Espírito Santo, são os nossos Mestres nessa Escola eterna. Ali, diariamente, ouviremos de Suas bocas santas e sábias, tudo que não entendíamos, e com mente clara agora compreendemos perfeitamente, sem sofismas, sem enganos, sem dúvidas.

Depois, ao lado do rio da água da vida, encimados por um céu de azul perfeito, a ceia dos remidos, com os frutos da árvore da vida, alimento sadio que nos garante a vida eterna, sem doenças, sem dores, sem sofrimento, sem pecado.

Amigos, quando aqui cantamos o que vivemos, o canto sai livre, verdadeiro, consistente, autêntico e transmite um prenúncio da atmosfera do céu. Quando aqui estudamos e nos alimentamos da Palavra de Deus, estamos nos aprimorando no conhecimento de um Deus maravilhoso e um Salvador justificador. Deus queira, e Ele com certeza quer, que cada ser humano se arrependa e se salve. O fogo eterno não foi preparado para nós, mas para o diabo e seus anjos. Aquele culto maravilhoso, de cuja liturgia aqui consegui apenas arranhar um pouquinho a superfície, nos espera. Não podemos faltar, não iremos chegar atrasados! Deus nos abençoe, e mesmo em meio às nossas manias e aos nossos desencontros, nos conserve em união de propósitos e em amor fraterno, sem o que, não estaremos lá naquele dia. Sejam felizes.

Mário Jorge Lima (via Instantâneos do Reino)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

TRUMP, O PAPA E A DISSONÂNCIA CRISTÃ

Em menos de quinze dias, os temas religiosos entraram com força no debate político e tem impactado o cenário eleitoral brasileiro. O caso mais recente ganhou repercussão na última segunda (20), quando a imagem de um soldado israelense esmagando a cabeça de uma estátua de Jesus em Debel, no sul do Líbano, se espalhou nas redes.

O episódio se soma a uma postagem de Donald Trump, em sua própria rede social, de uma foto, produzida por inteligência artificial, em que aparece retratado como Jesus. Além disso, houve a troca de farpas entre a Casa Branca e o papa americano, Leão XIV. A sequência toca em um ponto de conexão entre evangélicos e católicos brasileiros à pauta trumpista e expõe contradições que o bolsonarismo terá dificuldade de blindar em 2026.

Segundo os dados da Palver, que analisa em tempo real mais de 100 mil grupos públicos de Whatsapp e Telegram, o tema tem se mantido em patamar elevado. Considerando as mensagens trocadas nos últimos 15 dias sobre essas questões de política e religião, 70% se concentram no embate de Trump com o papa, 29% na imagem de IA em que o presidente dos Estados Unidos aparece como Jesus, e o caso do soldado israelense já responde por 5%, com curva ascendente nos últimos três dias. O pico foi em 13 de abril, dia seguinte ao ataque de Trump ao pontífice.

No campo pró-papa, que representa 56% das mensagens que se posicionaram sobre o tema no monitoramento da Palver, há prevalência do argumento de que o presidente dos Estados Unidos desrespeitou os cristãos. Já nas mensagens pró-Trump há uma tentativa de enquadrar o papa como "progressista", "comunista" e, em variação mais recente, "pró-islã". Segundo a Palver, 44% das mensagens que tomam lado no embate replicam esse enquadramento, com destaque para vídeos em que o vice-presidente dos Estados Unidos JD Vance rebate o papa invocando os soldados americanos da segunda guerra. A tese desse grupo é que o pontífice só se pronuncia em casos contra Donald Trump como na invasão da Venezuela e na guerra contra o Irã.

O problema dessa narrativa é que ela exige do eleitor cristão um deslocamento teológico difícil, uma vez que se posicionar contra a paz e contra o líder da igreja católica produz uma dissonância cognitiva. Mais difícil ainda é aceitar que o presidente dos EUA pode se retratar como Jesus sem que isso seja blasfêmia. E foi exatamente aqui que a base trumpista se dividiu.

Influenciadoras do MAGA como Megan Basham e Riley Gaines se pronunciaram prontamente contra a postagem. O grupo CatholicVote e o bispo Robert Barron, alinhados à direita, também condenaram. Trump, que apagou a postagem, chegou a negar que a intenção foi de se retratar como Jesus, alegando que a montagem seria dele como um médico ajudando as pessoas, mas essa versão não colou.

Trump publicou imagem em que se retrata como Jesus após criticar papa
Uma das vozes mais duras contra Trump é de Tucker Carlson. O ex-apresentador da Fox News ganhou enorme protagonismo dentro do MAGA e usou sua influência para ajudar a colocar Trump de volta na Casa Branca. No entanto, mais recentemente esse apoio se transformou em críticas, principalmente após o início da guerra do Irã.

Após a postagem de Trump se retratando como Jesus, Carlson postou um vídeo no qual faz uma construção narrativa lendo um trecho da Bíblia em que há paralelos com as ações de Trump. Acontece que o trecho em questão se refere ao anticristo. Sem ser enfático, o apresentador apresenta a comparação e apenas questiona se Trump seria o anticristo, finalizando com um "quem sabe".

Esse tipo de recurso retórico é bastante utilizado pela direita nas redes sociais e se mostra bastante eficaz na formação e moldagem da opinião pública. Em um vídeo postado na última segunda (20) em sua conta do Youtube, Carlson pede desculpas ao seu público por levar às pessoas ao erro no que se refere ao apoio a Trump.

Sobre o soldado em Debel, no Líbano, a base aparece dividida em duas narrativas principais. Pouco mais de 48% reproduzem a linha institucional de que Israel vai investigar e punir o soldado, enquanto 39% tratam o caso como "ofensa a cristãos", proporção que vem ganhando força nas redes com ampla divulgação da imagem.

Um soldado israelense danifica a cabeça de uma estátua de Jesus em Debel, no Líbano.
Uma narrativa de menor expressão, focada na militância cristã, aponta que não se trata de um episódio isolado, mas um ataque aos cristãos, relembrando que recentemente houve a obstrução do acesso do Patriarca Latino à Igreja do Santo Sepulcro pela polícia israelense, em um caso que teve repercussão internacional. Em ambas as situações, o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu se pronunciou, seja condenando a ação do soldado em Debel, seja permitindo o acesso do Patriarca Latino, ressaltando a liberdade religiosa do país.

A direita brasileira construiu nos últimos anos um alinhamento automático com Trump e Israel, aposta que funciona principalmente pelas questões morais e religiosas. Mas quando o presidente americano dispara contra o papa, se pinta como Cristo e um soldado aliado aparece destruindo a estátua de Jesus, o custo desse alinhamento pode ter um forte impacto eleitoral, principalmente em meio aos grupos cristãos. Além disso, os acontecimentos limitam também a ação dos líderes religiosos que possuem intenção de declarar apoio político, uma vez que precisam estar atentos para não produzirem contradições capazes de afetar a fé dos fiéis.

[via UOL]

segunda-feira, 20 de abril de 2026

COMO LIDAR COM O LUTO

Nos últimos três dias, o Brasil teve uma overdose de luto ao vivo no Big Brother. Primeiro na sexta, quando perdemos o ídolo do esporte Oscar Schmidt, que é irmão do apresentador do programa, Tadeu. Ele não pode parar de trabalhar — talvez nem queira. O programa termina essa semana e todos os olhos do país se voltam para a final. Dois dias depois, a produção do programa opta por contar a Ana Paula Renault que seu pai Geraldo Renault morreu. É sofrido ver uma mulher triste, isolada em uma casa, sem poder abraçar quem passa pela mesma dor. O velório existe para isso, encontrar semelhantes e se apoiar neles.

Quando Tadeu fala com ela, resolve quebrar o protocolo. Conta sobre Oscar e chora. Se une a ela ao dividir a sua dor. Eles sofrem o luto ao mesmo tempo e, apesar de serem tão próximos diariamente há três meses, não podem se abraçar. A tela que nos aproxima deles evidencia o quanto tudo está afastado.

Inevitavelmente, a morte faz parte da nossa vida, não é mesmo? Todos nós, pelo fato de sermos pecadores, passaremos pela triste experiência de sepultarmos nossos queridos. A realidade da morte chegará para todos nós, querendo ou não. Será que é possível nos prepararmos para esses momentos de separação? Como agir diante de uma tragédia causada pela morte?

A morte de alguém próximo é uma das dores emocionais mais fortes que uma pessoa pode sentir. Quando perdemos alguém muito importante para nós, nossa resposta é o sofrimento. Toda perda dói. Não é fácil nos desfazermos de uma realidade que não volta mais. O sofrimento nestas ocasiões é, então, algo natural e até mesmo saudável, porque é a forma de expressarmos aquilo que estamos sentindo.

O luto é a resposta natural de sofrimento diante de uma grande perda. O tempo do luto varia de pessoa para pessoa, mas dura, em média, de 3 meses até 1 ano. Esta variação depende das circunstâncias da perda, da capacidade individual de cada pessoa para a superação do luto, e do apoio familiar e de amigos que a pessoa enlutada pode ou não receber durante o tempo de recuperação emocional.

Na sequencia do texto, vamos aprender um pouco mais sobre como podemos nos recuperar diante da perda de alguém e como lidar com a dor sentida.

O que é normal no luto?

No processo de luto, cada pessoa tem uma reação ou uma atitude peculiar. Estas fases não obedecem necessariamente uma ordem, mas geralmente são vividas por todas as pessoas enlutadas, por exemplo:

  1. Fase de choque – momento que acompanha a notícia da morte. É um momento de profunda dor expresso através de um choro desesperado, reações físicas de mal-estar e outras maneiras.
  2. Fase de raiva – quando acontecem momentos de revolta, de indignação, de grande ansiedade por causa da perda. Nesta fase, a pessoa pode questionar Deus por ter permitido isto e ter pensamentos constantes de raiva com relação à morte da pessoa querida.
  3. Fase da barganha – quando a pessoa enlutada tenta fazer negociações consigo mesma, com Deus ou com outras pessoas diante da dor da perda, como: “Se ele (a) voltar, eu vou mudar”, “Há outros médicos que podem salvá-lo (a)”, “Há outro hospital que pode ressuscitá-lo (a)”.
  4. Fase da depressão – quando a pessoa realmente percebe que não terá seu querido de volta e que terá que lidar com a perda, geralmente há um sentimento muito grande de angústia e tristeza. Algumas pessoas podem se isolar, preferir ficar em silêncio e realmente experimentar a dor, expressando todo o seu sofrimento através do choro.
  5. Fase de aceitação – quando a pessoa realmente aceita que a perda aconteceu, e começa, aos poucos, a caminhar com a própria vida, se permitindo novamente ter bons momentos. Isto não significa esquecer a pessoa querida, mas sim que a dor agora pode ser administrada até que permaneça uma lembrança carinhosa, mas sem o peso da dor.

O processo do luto e da tristeza pela morte de alguém é um processo que “cuida de si mesmo”, ou seja, com o tempo a tristeza vai passando e abrindo caminho para a recuperação emocional. Isso não significa que esse processo seja fácil de ser vivido, pelo contrário, é bastante difícil! Mas não será para sempre.

Quando o luto não passa…

O luto em si não é uma doença. No entanto, quando o luto não é devidamente elaborado ou experimentado, ele pode gerar doenças tanto físicas quanto emocionais.

De acordo com Katherine Shear, professora de psiquiatria da Universidade de Columbia, em Nova Iorque, cerca de 15% das pessoas enlutadas desenvolvem um luto prolongado, afetando muito a qualidade de vida da pessoa por ter extrema dificuldade em “funcionar” em meio às tarefas e necessidades do dia. O principal sintoma é uma saudade tão intensa da pessoa que faleceu que a pessoa enlutada não consegue se concentrar em outros sonhos de vida, desejos e atividades. Segundo a pesquisadora, muitas pessoas que entram neste tipo de luto desenvolvem alcoolismo e câncer, e as tentativas de suicídio aumentam.

Por isso, se uma pessoa que está vivendo um luto não observa melhora no sofrimento ao longo dos meses que se passam, e se não consegue ir retomando suas atividades cotidianas com o tempo, mas, ao contrário, se sente cada vez mais angustiada e incapacitada pela dor emocional por causa da morte de alguém querido, então é necessário que esta pessoa busque um profissional psicólogo para ajudá-la a lidar com este sofrimento de forma saudável e atravessar o luto.

Outra dica importante é que existem grupos de apoio comunitários e gratuitos que estão disponíveis para aqueles que experimentam o luto prolongado. Esses grupos costumam ser eficazes para a recuperação emocional da pessoa enlutada por causa do amparo e da empatia de outras pessoas que estão passando pelo mesmo tipo de sofrimento.

Como enfrentar uma grande perda?

Cada pessoa vivencia a dor da perda de uma maneira e com uma intensidade. No entanto, há algumas atitudes que podem ser tomadas pela pessoa enlutada para ajudá-la a enfrentar este sofrimento:

  1. Fale sobre a sua dor. Muitas pessoas acreditam que o assunto da morte deve ser evitado. No entanto, quanto menos se fala sobre o assunto, mais a dor é acumulada.
  2. Não fique sozinho. Por mais que não sinta vontade de falar sobre o assunto ou de compartilhar o seu sofrimento com alguém, procure não ficar muito tempo sem ninguém ao seu redor.
  3. Aceite a sua dor. Aceitar não significa concordar com o que aconteceu e nem gostar do que está sentindo, mas é não negar que o fato aconteceu e que está, sim, doendo.
  4. Questione o seu sentimento de culpa. É muito comum amigos e familiares enlutados se sentirem culpados após a morte de alguém, seja por pensarem não ter cuidado bem da pessoa, ou não terem resolvido algum conflito relacional. No entanto, é importante distinguir culpas reais e irreais. Se a culpa for real, perdoe-se pelo que aconteceu. Se for uma falsa culpa, aprenda a dar limites aos pensamentos de culpa quando eles vierem.
  5. Evite tomar decisões muito importantes no período de luto. Pode acontecer de você, logo após a morte de um querido, ter dificuldade em se concentrar nas suas atividades diárias e tomar decisões. Peça ajuda a alguém se você precisa tomar decisões num momento desses, isto será mais prudente.
  6. Lidando com dias e datas difíceis. Datas de aniversário e feriados como Natal, Ano Novo, Páscoa e outros, podem ser momentos bastante difíceis de serem encarados após a morte de alguém querido. Por isso, planeje passar estas datas com amigos ou familiares a fim de receber apoio e ter companhia.
  7. Não se culpe por se sentir bem. É comum pessoas não se sentirem à vontade para sorrirem e terem momentos felizes e agradáveis após uma grande perda. Não se sinta culpado em se sentir bem e feliz quando estes sentimentos vierem. Voltar a ter momentos de felicidade não significa diminuir o valor que você dava a esta pessoa. Isto faz parte da recuperação e da finalização do luto.

Como se preparar para a morte?

Será que é possível se preparar para a morte? Esse assunto é desconfortável para você? Bem, algumas pessoas não gostam nem de pensar sobre a morte. De fato, é um assunto doloroso. Mas, para pessoas que estão com uma idade muito avançada ou para aquelas que estão enfrentando uma doença em estágio terminal, pode ser bastante benéfico pensar e ter um diálogo aberto sobre este assunto com pessoas mais próximas e queridas. Que atitudes podem ajudar uma pessoa a se preparar para o estágio final da vida? Aí vão algumas dicas:

  1. Ter uma rede social de amigos e familiares queridos. A presença de alguém que você conhece e ama colabora para o desenvolvimento de um sentimento de acolhimento muito necessário em um momento de dor ou de medo.
  2. Ter gratidão por pessoas e por momentos de sua vida. O sentimento de satisfação ao se lembrar de relacionamentos e situações que aconteceram ou ainda acontecem permite que a pessoa se sinta feliz com sua jornada de vida e se sinta tranquila com relação ao futuro.
  3. Manter uma rotina de atividades. Algumas pessoas idosas ou em algum estágio terminal de uma doença deixam de fazer atividades que ainda poderiam ser feitas, mas que são deixadas de lado por um sentimento de desistência da vida. No entanto, é importante para a manutenção da vida que a pessoa continue se sentindo útil realizando tarefas possíveis tendo a alegria em atividades prazerosas. Tarefas como artes manuais, ouvir ou tocar uma boa música, participar de atividades que beneficiem o próximo ou uma simples caminhada em meio à natureza podem ser altamente construtivas e recompensadoras para essas pessoas;
  4. Avaliar a necessidade de reparar algum erro, pedir perdão ou perdoar. Não é possível sentir tranquilidade e paz interior enquanto tivermos algo não resolvido com alguém. Quando a reconciliação é feita, prestamos um favor a nós mesmos, pois liberamos o ressentimento que inevitavelmente nos aprisionava;
  5. Ter fé e esperança de que Jesus restaurará todas as coisas em Sua segunda vinda. A esperança da salvação em Jesus apesar da morte é um grande conforto e nos permite passar pelos últimos momentos da vida em paz. A Bíblia diz que Jesus ressuscitará, em Sua segunda vinda, todos aqueles que morreram crendo nEle (1 Tessalonicenses 4:16, 17). Além dessa bendita esperança, Jesus assegurou que estaria conosco em todos os momentos, até durante a caminhada pelo “vale da sombra da morte” (Salmo 23:4). Que promessa fantástica!

Convivendo com alguém em fase terminal

Este é um período muito difícil não só para o próprio paciente, mas para a família e os amigos mais próximos. Muitos tentam viver como se isto não estivesse acontecendo, até mesmo com a boa intenção de não demonstrar tristeza para a pessoa doente. No entanto, por mais que finjam um bem-estar, todos sabem, no fundo, o que está se passando e deixam de expressar suas emoções e conversar sobre assuntos relevantes que talvez não possam ser conversados posteriormente. Portanto, algumas atitudes podem ajudar a família a se organizar melhor neste momento:

  1. Não negue o fato de a doença existir e da possibilidade da morte. A negação da realidade exige mais das pessoas do que o sofrimento que vem com a aceitação.
  2. Faça companhia ao doente. A solidão pode ser bastante dolorosa, principalmente no final da vida. Portanto, mantenha a proximidade, a conversa e o encorajamento.
  3. Permita que a pessoa fale sobre a morte. Se a pessoa doente quiser falar sobre seus desejos antes de morrer, sobre o medo de morrer, se quiser conversar especialmente com alguém antes de morrer, tudo isto deve ser levado em consideração e respeitado.
  4. Ouça o doente. Certamente muitas coisas estão se passando na mente dele. Deixe que ele fale e tenha paciência e empatia para ouvi-lo.
  5. Controle sua raiva ou irritação. É comum que pacientes terminais tenham momentos frequentes de reclamação, de resmungo ou de falta de paciência, afinal, a condição da doença, de seus sintomas e do medo da morte, mexem com a sua saúde emocional. Em momentos assim, não o critique. Lembre-se de que estas atitudes provavelmente não são contra você, mas resultados de angústias emocionais da situação que está sendo vivenciada.
  6. Fortaleça-a espiritualmente. Ore com esta pessoa. Cante hinos para ela ou com ela. Leia trechos da Bíblia que a acalmem e relembrem sobre a esperança em que você crê.

Você e o Criador

A morte é uma intrusa em nossa existência. Ninguém quer morrer ou perder algum ente querido. Toda perda dói, machuca e produz grandes sofrimentos emocionais. O que fazer quando somente a dor nos resta? Aprendemos nesse estudo que devemos permitir que a dor seja sentida e precisamos crer que ela vai passar. A promessa de Deus é: “Como alguém a quem sua mãe consola, assim eu vos consolarei” (Isaías 66:13). Podemos sim nos recuperar do luto! Temos um motivo muito significativo para isso: “Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (João 11:25). Quando Jesus voltar, Ele ressuscitará todos aqueles que morreram crendo nEle. A morte não é o fim. Jesus é a única solução para essa triste realidade. Você acredita nessa esperança? Então aceite agora a Jesus como o seu Salvador e Senhor.

"Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Apocalipse 21:4).

[via Esperança / UOL]

"Deus não deseja que qualquer de nós permaneça oprimido por surda tristeza, de coração ferido e quebrantado. Deseja Ele que olhemos para cima, para ver o arco-íris da promessa, e refletir luz sobre outros" (Ellen G. White - Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 257).