terça-feira, 12 de maio de 2026

DIGNIDADE HUMANA

"Promovendo a liberdade religiosa, a vida familiar, a educação, a saúde e a ajuda mútua, e atendendo às necessidades humanas, os adventistas do sétimo dia afirmam a dignidade da pessoa humana criada à imagem de Deus".1 - Trecho extraído da declaração feita pela Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, no dia 17 de novembro de 1998, por ocasião do 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Por que, como igreja, cremos na dignidade de todo ser humano e a proclamamos ao mundo? Por que o direito de cada homem e mulher à igualdade, saúde, liberdade, oportunidades pessoais e vocacionais, expressão e culto, independentemente de raça, religião, nacionalidade, idioma, cor ou tribo, é tão fundamental à visão e missão da igreja? A resposta é simples. Nossa missão em prol da dignidade humana não deriva de política, educação, sociologia ou psicologia. Ele está enraizado no compromisso de fé que temos com nosso Deus Criador.

Assim sendo, quando falamos em dignidade humana, temos de começar com o relacionamento Deus-homem e isso envolve profundas implicações teológicas e relacionais. Tal consideração leva em conta a realidade da Criação, a cruz, o Espírito Santo, a lei moral e o discipulado.

CRIAÇÃO E DIGNIDADE HUMANA

O conceito adventista de dignidade humana teve sua origem na própria mente de Deus, quando Ele, em Sua infinita sabedoria, tornou a humanidade a coroa de Seu processo criativo. Quando o Criador disse: "Façamos o homem à Nossa imagem" (Gênesis 1:26),2 estava compartilhando com os seres humanos algo de Sua singularidade. O ser humano não é mera criatura. Seu lugar na criação é absolutamente singular. Foi-lhe atribuído o domínio "sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra". Foi-lhe concedida a faculdade de pensar, escolher, ser criativo e desfrutar parceria com Deus por meio de comunhão e mordomia.
Todas as demais criaturas são também "seres viventes", mas os seres humanos devem refletir a imagem de Deus e ser cumpridores da Sua vontade. Adão recebeu uma missão: gerenciar o planeta Terra. A diferença entre o conceito bíblico e as antigas tradições ou a teoria da evolução é imensa. Não somos o produto acidental de um longo e sinuoso processo evolucionário, nem a ação arbitrária de uma divindade lunática. Somos fruto do amor de Deus e parte de Seu desígnio universal. Somos chamados a ser os principais protagonistas de um extraordinário destino. Portanto, quando lidamos com seres humanos, estamos lidando com o seu Criador. É esse parentesco divino que fundamenta o conceito adventista de dignidade humana.

A CRUZ E A DIGNIDADE HUMANA

O segundo fator que reforça a âncora teológica da dignidade humana, como defendido pelos adventistas, é que Deus não abandonou a raça humana à morte e destruição, mesmo após ter ela se rebelado contra a Sua vontade. Quando Adão e Eva pecaram no Jardim do Éden, revoltaram-se contra a manifesta vontade divina e se tornaram merecedores de morte. Mas Deus preferiu enfrentar o pecado de uma forma diferente. Rebeldes como fossem, Adão, Eva e seus descendentes eram ainda Sua criação, e Deus preferiu enfrentar a rebelião com redenção, a morte com vida, o ódio com amor. "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16). Embora sejamos pecadores e a despeito de quão longe tenhamos ido, ainda somos a preciosa propriedade de Deus. Ele nos dotou de certa dignidade. Não obstante seja firme propósito de Satanás destruir essa dignidade mediante o pecado e seus vários meios enganosos, Deus, mediante Seu Filho Jesus, revelou quão valiosos somos à Sua vista. Tanto assim que Jesus morreu na cruz por nossos pecados. Por isso, a cruz se torna a afirmação perdurável de que todo ser humano é uma pessoa de imenso valor e dignidade. De fato, Jesus de tal modo Se identificou com a humanidade, que aquilo que fazemos a uma pessoa equivale a tê-lo feito ao próprio Cristo. "Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes" (Mateus 25:40). Portanto, toda vez que alguém sofre abuso, tortura ou humilhação, Cristo é atingido. A criatura de Deus, motivo da redenção provida por Cristo, nunca deve ser tratada como um objeto comum a ser manipulado, mas como uma joia insubstituível.

A DIGNIDADE HUMANA E O TEMPLO DO ESPÍRITO SANTO

Se os atos criativos e redentores de Deus propiciam o fundamento para o nosso conceito de dignidade humana, essa concepção é ainda elevada a maiores alturas pela proclamação bíblica de que somos o templo do Espírito Santo. "Não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado" (I Coríntios 3:16 e 17). E novamente: "Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço" (6:19 e 20).
Declarar que somos o templo de Deus e que nosso corpo é o lugar de habitação do Espírito Santo, é atribuir a mais elevada dignidade possível ao ser humano. Mesmo um descrente não ousaria pensar em cometer sacrilégio contra um local de adoração. Como, pois, podemos insultar nossos semelhantes, seres criados à imagem de Deus e templos em potencial do Espírito Santo? Ninguém é demasiado insignificante, pobre e indigno para ser tratado com desrespeito. E isso não é tudo. Nossa doutrina de dignidade humana chega ao ponto de requerer que tratemos nossa mente e nosso corpo com o maior cuidado, e que não permitamos estejam eles sujeitos a abuso ou maus-tratos de qualquer espécie. Assim, o apelo adventista em prol da dignidade humana procede da nossa atitude com relação a nós mesmos, para envolver toda a humanidade em escala global.

A DIGNIDADE HUMANA E OS MANDAMENTOS DE DEUS

Os Dez Mandamentos podem ser chamados de a primeira declaração de direitos humanos. A violação de um deles afeta diretamente a qualidade de vida, paz e dignidade humanas. Jesus sumariou os Dez Mandamentos em poucas palavras: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento... Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mateus 22:37). Os primeiros quatro mandamentos tratam da nossa aliança com Deus, que é a origem de nossos direitos. Os últimos seis definem nosso relacionamento uns com os outros como seres humanos. Conquanto Deus permaneça como o supremo ponto de referência e definidor de nossa atitude para com outros, é nas especificações da segunda parte da lei moral que temos as relações humanas codificadas. Você acha que alguém, tendo sua bússola moral calibrada pelos Dez Mandamentos, possa mentir, matar ou manifestar desprezo e desrespeito para com seu próximo? Esse relacionamento conceitual entre a lei moral e a dignidade humana foi ampliado ainda mais por Jesus no Sermão da Montanha. Um exemplo basta: Jesus definiu o assassinato não simplesmente como o ato de tirar a vida de alguém, mas até ofato de desprezar e chamar um semelhante de louco (ver Mateus 5:21 e 22). Daí a ênfase adventista sobre a lei moral e a incorporação do amor puro e ilimitado para o qual ela aponta, constituir-se o firme e inabalável fundamento de nossa defesa da dignidade e dos direitos humanos.

DIGNIDADE HUMANA: IMPLICAÇÕES NO DISCIPULADO

Para os adventistas do sétimo dia, a dignidade humana não deve aparecer como algo distante e inatingível. Isolar as crenças da prática tem sido uma contínua tentação em nossa vida religiosa, e isso não se mostra mais real do que na arena das relações humanas. Quando Deus nos ordena amá-Lo com todo o nosso ser e aos nossos semelhantes como a nós mesmos, está apelando a um retorno à meta da vida como planejada originalmente por Ele. O centro da vida é o relacionamento bom e apropriado, tanto com Deus quanto com os seres humanos. O profeta Isaías declara quão inseparáveis são: "Porventura não é também este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante?" (Isaías 58:6 e 7.)
A religião, portanto, é mais do que uma rotina formal. É mais do que belas frases, comoventes orações, hinos inspiradores ou reuniões movimentadas num templo elegante e confortável. Não se trata de um catálogo de doutrinas, a despeito de quão importantes elas sejam. É vida real! Como declara Tiago: "A religião pura e sem mácula para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo" (Tiago 1:27). Em outras palavras, não pode haver verdadeira experiência religiosa sem respeito pela dignidade humana.
Isso explica por que os adventistas, desde o início de sua história, têm-se comprometido em defender o valor de todo ser humano. Desde o princípio foi adotada uma firme posição contra toda forma de injustiça social. Ellen White escreveu: "A escravidão, o sistema de castas, os preconceitos raciais, a opressão dos pobres, a negligência dos desventurados -- isso tudo é estabelecido como anticristão e uma séria ameaça ao bem-estar da humanidade, e como males apontados por Cristo que a Sua igreja tem o dever de vencer".3
E também: "O Senhor requer que reconheçamos os direitos de todos os homens. Os direitos sociais dos homens, e seus direitos como cristãos, devem ser tomados em consideração. Todos têm de ser tratados fina e delicadamente, como filhos e filhas de Deus".4
Como resultado, nossa igreja desenvolveu um ministério de restauração e respeito pela dignidade humana. Mediante um sistema global de igrejas, escolas, hospitais, serviços comunitários e a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), os adventistas difundem a mensagem de preocupação e cuidado para com toda a humanidade em 203 dentre 208 países reconhecidos pelas Nações Unidas. Entre as igrejas cristãs, assumimos um papel de liderança na promoção da liberdade religiosa para todos. Através da pena e da voz, de missão e ministério, não somente suscitamos mais tentamos oferecer uma resposta significativa a perguntas como: De que forma estamos defendendo e promovendo os direitos humanos? Que deve ser feito quanto às várias formas de discriminação em diferentes países? Como nos relacionamos com políticas que tratam de guerra e terror? Que dizer de sistemas e estruturas políticas que podem afetar a vida das pessoas, gerar fome, refugiados e campos de concentração? Que dizer da exploração do trabalho infantil, da escravidão e da condição da mulher?
Não pretendemos ter todas as respostas ou soluções eficazes para todos os problemas. Mas levantar tais indagações e agir em cooperação com outras agências na promoção dos valores humanos são, por si só, tarefas necessárias. Não podemos de forma alguma dar-nos ao luxo de permanecer em silencio no que se refere à violação do ser humano.

MARGEM ALGUMA PARA O SILÊNCIO

Em 1988, Zdravko Plantak publicou um livro corajoso sobre nossa igreja e os direitos humanos. O título por si só é eloquente: The Silent Church [A Igreja Silenciosa]. Ele escreveu: "Os adventistas precisam começar a envolver-se (no mundo) porque o seu Deus Se interessa nisso e deseja que eles cuidem uns dos outros. Identificar-se com Jesus significa identificar-se com pobres, oprimidos e aqueles a quem têm sido negados os direitos e liberdades básicos. Não é suficiente cuidar da pessoa e deixar de preocupar-se com as leis que afetam a vida dela na sociedade".5
Os pioneiros adventistas entendiam isso perfeitamente. Ellen White pode não ter promovido uma melhoria das condições dos escravos, mas condenou a escravidão em termos bem vigorosos: "A instituição da escravatura... permite [o homem] exercer sobre seu semelhante um poder que Deus nunca lhe conferiu, e que pertence somente ao Senhor".6Ela prosseguiu condenando a política escravagista como "um insulto a Jeová".7
Tiago White escreveu que o cristão "tem realmente tanto interesse neste velho mundo quanto qualquer outro homem. Aqui ele deve permanecer e fazer sua parte até que o Príncipe da Paz venha para reinar".8
Essa visão dos pioneiros, de que o cristão deve ir além da metodologia tradicional de assistência social, até os problemas da dignidade e valor humanos, refletiu-se na resolução da Associação Geral de 1865: "Resolvido que, a nosso ver, o ato de votar quando exercido em benefício da justiça, humanidade e direito, é em si mesmo correto e pode às vezes ser altamente apropriado; mas a admissão de tais crimes como intemperança, insurreição e escravidão, consideramos como altamente condenáveis à vista do Céu".9
Essa resolução apelava à promoção e defesa da dignidade humana mediante "o ato de votar" para mudar a lei. Contudo, os pioneiros estabeleceram um limite: "Mas devemos reprovar qualquer participação no espírito de disputa partidária".10

A DIGNIDADE HUMANA: UM VALOR CENTRAL

Assim, para os adventistas, a dignidade humana é um valor essencial. Não devemos apoiar de modo algum uma política ou atitude que negue a dignidade de qualquer segmento da humanidade. Como igreja, devemos ser prudentes e sábios ao falarmos oficialmente, mas ser uma igreja silenciosa sobre questões vitais é envergonhar-se de Jesus, nosso Salvador e de Deus, nosso Criador. Como membros da igreja, não devemos tomar parte em nenhum empreendimento que transforme alguém feito à imagem de Deus em uma coisa ou objeto. A questão não tem a ver somente com coerência, mas também com testemunho. Nunca devemos nos esquecer de que somos embaixadores do reino de Deus na Terra, e arautos de uma nova criação que restaura e estabelece para sempre a dignidade humana. Só então, "romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda" (Isaías 58:8).
John Graz (via Diálogo Universitário)

NOTAS E REFERÊNCIAS:

  1. Declarações de Igreja, 1a. ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), p. 59.
  2. Todas as referências bíblicas deste artigo foram extraídas da Versão Almeida revista e atualizada no Brasil.
  3. Ellen G. White, Life Sketches of Ellen G. White (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publ. Assn., 1943), p. 473.
  4. __________, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), p. 123.
  5. Zdravko Plantak, The Silent Church (Nova York: St. Martin's Press, Inc., 1998), p. 48.
  6. Ellen White, Testemunhos Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), vol. 1, p. 358.
  7. Ver Douglas Morgan, Adventists and the American Republic (Knoxville: The University of Tennessee Press, 2001), p. 31.
  8. Tiago White, citado por Morgan, p. 34.
  9. "Report on the Third Annual Session of the General Conference", p. 197; citado por Morgan, pp. 36 e 37.
  10. Ibidem.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

JESUS E AS FRALDAS QUE VAZAM

Quem já teve filho sabe do que vou falar. Você deixa seu neném todo cheirosinho, passa creminho, talquinho. Uma graça. Fofo. Lindo. Por cima de tudo vem a fraldinha. Coisa boa. Tem desenhos de bichinhos, da Turma da Mônica, de balões coloridos. São objetos úteis, mimosos e que deixam o neném com aquela aparência divertida de gorilinha, com o traseiro desproporcionalmente maior do que deveria. Que invenção extraordinária. A fralda retém o xixi e o cocô, mantém o bebê sequinho, limpinho e cheiroso e impede desastres que só quem já segurou um neném peladinho no colo enquanto ele faz xixi descontroladamente entende.

Mas as fraldas têm um problema: se elas não estiverem bem ajustadas, certinhas, no lugar certo… elas vazam. E aí, meu irmão, minha irmã, não queira saber a desgraceira que é. Não foi uma nem duas vezes em que acordei de manhã e encontrei o berço da filhota parecendo um circo de horrores: cocô espalhado pelas paredes, bichinhos, lençóis e, o que é pior: pelos braços, pernas, rosto e até cabelo do neném. Porque não pense você que ele entende que aquilo é sujo: para o pequeno é divertidíssimo se esbaldar jogando caquinha pra todo lado, se esfregando com aquela coisa quentinha e diferente e se emporcalhando com as imundícies que vazaram da fralda mal ajustada. Prefiro nem pensar na hipótese de que depois da farra feita ela lambeu os dedos. E isso não ocorre só no berço. Ocorre no carrinho, na cadeirinha de comer, no automóvel da família, no colo. Se a fralda não está justa é certeza de que a coisa não vai prestar.

A vida espiritual do crente tem certas semelhanças com esse processo. Antes da conversão, somos como bebês peladinhos, fazendo todo tipo de porcaria por aí, descontroladamente, sem nada que impeça que nossas sujeiras e imundícies atinjam quem estiver ao nosso redor – e, em especial, a nós mesmos. Até que Jesus nos chama para si, nos elege, estende-nos sua graça. Com isso, numa metáfora, é como se Ele pusesse uma fralda em nós. Pois na regeneração ocorre o processo de adoção (Jo 1): fomos feitos filhos de Deus e, com isso nos tornamos Seus herdeiros. E Jesus passa a cuidar de nós com olhar paterno. Passa creminho nas assaduras do passado, nos limpa. Também nos torna justos. Ou seja: ajusta-nos ao que é perfeito. Assim, pela graça do crucificado somos justificados mediante a fé e nossas “fraldinhas espirituais” são ajustadas perfeitamente em nós, impedindo que a sujeirada que antes fazíamos volte a ser contaminação. Ficamos limpos, puros ou, como diz o antigo hino, “alvos, mais que a neve”.

O grande problema ocorre quando, por culpa nossa, essa proteção é removida mediante o que chamamos pecado. O pecado distorce o que é perfeito e faz nossas fraldas se “desajustarem”. É como se o elástico ficasse frouxo ou se a fralda se deslocasse para fora do lugar. Com isso, surgem espaços que não deveriam existir numa realidade de justificação e toda aquela imundície que estava contida volta a vazar. E, ao vazar, suja tudo e todos ao nosso redor – em especial aquele que, como um neném, voltou a se divertir com as coisas impuras – afinal, para a mente cauterizada, o que é imundo é divertido e quentinho.

Fraldas que vazam são o terror dos pais. Pecados que retornam são o terror dos cristãos. Ninguém deseja um ou outro. Mas acontece. E aí, o que fazer? No caso do neném, troca-se a fralda desajustada por uma nova e todo o processo de limpeza se repete: dá-se um banho no bebê ou passa-se lencinhos umedecidos, creminho, talquinho… tudo de novo até que aquele que fez a sujeirada retorne ao seu estado de pureza. Já no caso do pecador o processo é bem similar. Mediante nosso arrependimento, Jesus nos limpa, dá banho, cuida de nossa alma com o creminho do perdão sobre as assaduras que o pecado provocou e ajusta novamente aquilo que impedirá que a caquinha da desobediência a Deus volte a nos sujar novamente. E aí retornamos ao nosso estado de pureza.

A você que ainda não teve filhos, meu desejo é que nunca tenha que passar pela experiência de uma fralda que vaza. Embora, sinceramente, eu ache impossível que isso não venha a ocorrer. Converse com qualquer pai veterano e ele terá histórias e mais histórias sobre isso para contar. De igual modo, meu desejo é que você nunca tenha de passar pela imundície de retornar ao pecado como, em linguagem bíblica, um cachorro que retorna ao próprio vômito. Embora, sinceramente, eu ache impossível que isso não venha a ocorrer. Converse com qualquer cristão veterano e ele terá histórias e mais histórias sobre isso para contar. A solução? O bebê tem os pais para limparem suas sujeiras. E o cristão tem Jesus para fazer exatamente a mesma coisa. Mantenha-se sempre perto de Cristo e, assim, você terá a garantia de que o pecado pode ocorrer, mas o teu advogado prontamente correrá em seu auxilio para solucionar a sujeirada que teus desajustes provocaram.

Você se desajustou? Está coberto de imundície espiritual? Não se desespere. Arrependa-se. Quem se sujava, não se suje mais. Mude de atitude. Pois, mediante seu arrependimento e a graça de Cristo, Jesus vai limpá-lo, purificá-lo e fazer você ficar limpinho e cheiroso aos olhos e às narinas do Pai, como aqueles lindos e fofos bebês que sempre nos deixam encantados por sua pureza e inocência.

Ellen White diz: "Se vier a Jesus, confessando seus pecados como um humilde penitente, Ele os perdoará e limpará você de toda iniquidade. Mas não lhe será possível voltar as costas ao pecado a menos que odeie o pecado e ame a pureza, a verdade e a justiça. Imploro-lhe que venha agora mesmo como uma criança pequena, humilhando o coração diante de Deus, e Jesus perdoará a sua transgressão" (Carta 1e, 1890).

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

[via Apenas]

sábado, 9 de maio de 2026

PALAVRAS PARA AS MÃES (POR ELLEN WHITE)

É privilégio da mãe educar seus filhos para o céu. Essa é a sua nobre vocação. Mas o trabalho é árduo, exigindo mais do que força e sabedoria humanas, e muitas vezes a mãe cansada e sobrecarregada sente que a tarefa é demais para ela. Mas ouça, mãe cansada, o convite do Salvador: “Vinde a Mim, e Eu vos aliviarei”. Vá até Ele, com seus filhos pequenos nos braços. Aquele que disse: “Deixem vir a Mim as crianças e não as impeçam”, não a rejeitará. Ele a acolherá e lhe dará paz e alegria. Em Sua presença, você encontrará força que lhe dará coragem e sabedoria para a hora mais difícil. 

Se as mães se voltassem para Cristo com mais frequência, se confiassem mais plenamente nEle, seus fardos seriam mais leves e elas encontrariam descanso. Jesus conhece o fardo de cada mãe. Ele é seu melhor amigo em todas as emergências. Seus braços eternos a sustentam. Aquele Salvador cuja mãe lutou contra a pobreza e a privação, se compadece de cada mãe em seu trabalho e ouve suas orações sinceras. Aquele Salvador que fez uma longa jornada com o propósito de aliviar o coração aflito de uma mulher cananeia, fará o mesmo pela mãe aflita de hoje. Aquele que devolveu à viúva de Naim seu único filho enquanto ele era levado para o sepultamento, hoje se comove com a dor da mãe enlutada. Aquele que chorou no túmulo de Lázaro, que perdoou Maria Madalena, que na cruz se lembrou das necessidades de sua mãe, que após a ressurreição apareceu às mulheres que choravam e as tornou suas mensageiras, é hoje o melhor amigo da mulher, pronto para ajudá-la em sua necessidade, se ela confiar nele. 

Mães, sejam fiéis. Não se desanimem em seu trabalho. Conversem com seus filhos de Cristo e orem com eles e por eles. Suas palavras permanecerão em seus corações. Eles podem parecer não dar ouvidos ao que vocês dizem. Podem demonstrar indiferença e leviandade, como se suas palavras fossem ignoradas. Mas não cessem seus esforços em favor deles. Suas palavras estão em suas mentes. Eles não podem esquecê-las. Vocês semearam a semente. Nos anos vindouros, ela brotará e dará muitos frutos. 

Quantas vezes a lembrança das orações e admoestações de uma mãe conteve o filho ausente quando ele estava prestes a ceder à tentação? “Quando eu era criança”, disse um velho, “minha mãe costumava me pedir para ajoelhar ao seu lado e, colocando a mão sobre minha cabeça, implorava a bênção de Deus para seu filho. Antes que eu tivesse idade suficiente para reconhecer seu valor, ela morreu e eu fiquei à minha própria sorte. Eu tinha uma inclinação natural para o mal, mas repetidamente fui contido pela lembrança das orações de minha mãe. Quando jovem, viajei muito e fui exposto a muitas tentações. Mas quando eu estava prestes a ceder à tentação, parecia sentir a pressão da mão de minha mãe sobre minha cabeça e eu era salvo. Às vezes, junto com isso, vinha uma voz em meu coração, uma voz que devia ser obedecida: “Ó, não cometa essa maldade, meu filho; não peque contra o teu Deus.” 

Mãe cristã, não te esqueças de onde reside a Fonte da tua força. Abunda em oração — oração fervorosa, sincera e perseverante. Grandes e árduos são os teus deveres, e grande a tua necessidade de auxílio do Alto. Precisas de sabedoria, firmeza, paciência e autocontrole. Aonde podes recorrer para obter essas coisas senão ao trono da misericórdia Daquele que “dá liberalmente a todos, sem censura”? “Toda boa dádiva e todo dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das luzes.” 

A oração constante o capacitará para suas obrigações. Pela oração, você poderá se apoderar da força de Deus e ser capaz de dizer com o apóstolo: “Tudo posso naquele que me fortalece”. 

Nos braços da fé, leve seus filhos ao Salvador. Interceda por eles pelas promessas de Deus. A voz de uma mãe jamais suplicará em vão. O orgulho quer que você peça honras mundanas, grandeza terrena, para seus entes queridos; mas, ó, peça por eles uma dádiva maior do que essas. Estenda a mão e agarre por eles um prêmio cujo valor somente a eternidade revelará. 

Ó mãe, tens uma missão de amor a cumprir. Não desanimes, nem te canses. Que a importância da tua elevada vocação te inspire a correr com paciência a corrida que te foi proposta. E quando terminares a tua jornada, terás a alegria indizível de seres recebida com as palavras: “Muito bem, servo bom e fiel; ... entra no gozo do teu Senhor”. E com os teus entes queridos ao teu redor, estarás no Monte Sião e lançarás a tua coroa aos pés de Jesus, dizendo: Não a nós, mas ao teu nome seja a glória. 

E ser mãe, o que é?

Ser independente
A mulher deve ocupar a posição que Deus originariamente lhe designou, de igualdade com o marido. O mundo necessita de mães que o sejam não meramente no nome, mas em todo o sentido da palavra. A mãe não deve sacrificar sua força e permitir fiquem adormecidas suas faculdades, dependendo inteiramente do esposo. Sua individualidade não pode imergir na dele. Ela deve sentir que é igual ao marido - deve estar ao seu lado, fiel no seu posto de dever e ele no seu. Sua obra na educação dos filhos é em todos os respeitos tão elevada e nobre como qualquer posição de honra que ele seja chamado a ocupar, ainda que seja a de principal magistrado da nação.

Ser rainha do lar
A mãe é a rainha do lar, e os filhos são os seus súditos. Deve governar a casa sabiamente, na dignidade de sua maternidade. Sua influência no lar deve ser excelsa; sua palavra, lei. Se é cristã sob o governo de Deus se imporá ao respeito dos filhos. Os filhos devem ser ensinados a considerar sua mãe, não como uma escrava cujo trabalho seja servi-los, mas como uma rainha que deve guiá-los e dirigi-los, ensinando-os mandamento sobre mandamento, regra sobre regra.

Ser fiel
Mães, em grande medida o destino de seus filhos está em suas mãos. Se falharem na função, podem levá-los para as fileiras do inimigo, tornando-os seus instrumentos na ruína das almas; mas por piedoso exemplo e fiel disciplina podem levá-los a Cristo e torná-los instrumentos em Suas mãos para a salvação de muitas almas. Seu trabalho [das mães cristãs], se feito fielmente em Deus, será imortalizado. Os cultores da moda jamais verão ou compreenderão a beleza imortal da obra da mãe cristã, e escarnecerão de suas ideias arcaicas e de suas vestimentas simples e sem adornos, enquanto a Majestade do Céu escreverá o nome dessa fiel mãe no livro da fama imortal.

Ser poderosa
A esfera de atividade da mãe pode ser humilde; mas sua influência, unida à do pai, é tão duradoura como a eternidade. Depois de Deus, o poder da mãe para o bem é a maior força conhecida na Terra.

Ser alegre
A mãe que alegremente assume os deveres que jazem diretamente em seu caminho sentirá que a vida para si é preciosa, porque Deus lhe deu uma obra a realizar. Nesta obra ela não precisa necessariamente comprimir o espírito nem permitir que seu intelecto se debilite.

Ser paciente
Mas frequentemente a paciência da mãe é sobrecarregada com essas numerosas pequenas provas que quase não parecem dignas de atenção. Mãos traquinas e pés inquietos criam uma grande quantidade de trabalho e perplexidade para a mãe. Ela tem de segurar firme as rédeas do domínio próprio, pois do contrário sairão de seus lábios palavras de impaciência. Muitas vezes ela chega quase a perder a cabeça, mas uma oração silenciosa a seu misericordioso Redentor acalma-lhe os nervos, e ela volta a controlar-se revelando calma dignidade. Ela fala com voz calma, mas custa-lhe esforço restringir palavras ásperas e subjugar sentimentos de revolta que, se expressos, destruiriam sua influência, a qual demandaria tempo readquirir.

Ser influente
É privilégio da mãe abençoar o mundo pela sua influência, e fazendo isto trará alegria ao seu próprio coração. Ela pode fazer retas veredas para os pés de seus filhos, através de claridade e sombra, em direção às alturas gloriosas do Céu. Mas, unicamente quando procura em sua vida seguir os ensinos de Cristo, é que a mãe pode esperar formar o caráter de seus filhos segundo o modelo divino. Ela, de cujo sangue a criança se nutre e se forma fisicamente, comunica-lhe também influências mentais e espirituais que tendem a formar-lhe a mente e o caráter. Foi Joquebede, a mãe hebreia que, fervorosa na fé, não temeu o “mandamento do rei”, a progenitora de Moisés, libertador de Israel. Foi Ana, a mulher de oração e espírito abnegado, inspirada pelo Céu, que deu à luz Samuel, a criança divinamente instruída, juiz incorruptível, fundador das escolas sagradas de Israel. Foi Isabel, a parenta e o espírito-irmão de Maria de Nazaré, que gerou o precursor do Messias.

Ser instrumento de Deus
A mãe é o instrumento de Deus para tornar cristã sua família. A educação dos filhos constitui parte importante do plano de Deus para demonstrar o poder do cristianismo. Uma solene responsabilidade repousa sobre a mãe de assim educar os filhos, de modo que quando saírem para o mundo, façam bem e não mal aos que com eles se associarem.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

OS ADVENTISTAS E A POLÍTICA (ATUALIZADO)

Como adventistas do sétimo dia, esperamos o breve retorno de nosso Senhor Jesus Cristo e ansiamos por aquela pátria eterna “da qual Deus é o arquiteto e edificador” (Hebreus 11:10). Aceitamos igualmente o desafio de ser “sal da terra” e “luz do mundo” (Mateus 5:13, 14). Assumimos o compromisso de pregar o evangelho com seus valores eternos e o dever de ser relevantes e servir às comunidades em que estamos inseridos, tornando-as lugares melhores.

“A Igreja Adventista tem procurado, desde seu início, seguir o exemplo de Cristo ao advogar a liberdade de consciência como parte integral de sua missão evangélica. À medida que o papel da igreja na sociedade se expande, é apropriado declarar os princípios que guiam nossa igreja em sua extensão mundial nos contatos com os governos das regiões nas quais operamos” (Declarações da Igreja, p. 154). Portanto, como Igreja estamos determinados a cumprir nossos deveres institucionais e individuais, desenvolvendo relacionamentos saudáveis com as instâncias de poder. 

Este documento foi elaborado e aprovado para servir como a referência oficial a respeito do pensamento adventista sobre a relação da organização com questões políticas, partidárias e eleitorais. Ele será útil para pastores, servidores e membros, indicando o posicionamento adequado nessa esfera. Não pretende substituir os conselhos divinos, mas sim expressar claramente a compreensão que a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem acerca do relacionamento institucional com os poderes públicos e os assuntos políticos, bem como os deveres de seus membros como cidadãos. 

1. OS ADVENTISTAS E A POLÍTICA PARTIDÁRIA 

Existem alguns princípios fundamentais que regem a posição da Igreja Adventista do Sétimo Dia sobre política partidária. Um deles é o princípio da separação entre Igreja e Estado, o que leva cada uma dessas entidades a cumprir suas respectivas funções sem interferir nas atividades da outra. A Igreja acredita que adotar uma postura sem filiação partidária ou qualquer tipo de compromisso com partidos políticos é uma das maneiras de manter esse princípio. Tal prática deve nortear não apenas a organização adventista em todos os seus níveis administrativos, mas também as instituições por ela mantidas, seus pastores e servidores. 

A Igreja encontra nos ensinos do Senhor Jesus e dos apóstolos base segura para evitar qualquer militância político-partidária institucional. O cristianismo apostólico cumpriu sua missão evangélica sob as estruturas opressoras do Império Romano sem se voltar contra elas. O próprio Cristo afirmou que Seu reino “não é deste mundo” e que, portanto, os Seus “ministros” não empunham bandeiras políticas (João 18:36). Qualquer posicionamento ou compromisso com legendas partidárias dificultaria a pregação do evangelho a todos indistintamente. 

Por outro lado, a Bíblia não isenta a comunidade de crentes dos deveres civis e do compromisso com a cidadania, e isso está evidente na ordem de Jesus: “Deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Marcos 12:17). O Novo Testamento apresenta várias orientações sobre o dever cristão de reconhecer e respeitar os governos e as autoridades (Romanos 13:1-7; Tito 3:1, 2; 1 Pedro 2:13-17). Somente quando os poderes temporais impõem transgressão às leis divinas é que o cristão deve assumir a postura de antes “obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29). 

Assim, a Igreja Adventista do Sétimo Dia: 

Reconhece as obrigações do exercício da cidadania, mas não possui nem mantém partidos políticos, não se filia a eles, tampouco repassa recursos denominacionais para atividades dessa natureza. Por adotar uma postura apartidária, respeita as autoridades constituídas, mas não incentiva a participação institucional em qualquer atividade político-partidária. 

Entende a importância do processo democrático. Todavia não permite que em seus templos, sedes administrativas e instituições sejam realizadas reuniões com finalidades eleitorais, seja para promoção ou apoio de candidatos (membros e não membros da igreja) ou de partidos políticos. 

Respeita as pessoas eleitas para os diferentes cargos públicos. No entanto, não possui uma bancada de parlamentares, não investe na formação de lideranças partidárias nem trabalha para esse fim. 

2. OS ADVENTISTAS E AS ELEIÇÕES  

Os adventistas reconhecem a autoridade profética e a influência da vida e da obra de Ellen G. White, mensageira e cofundadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Seus escritos não substituem a Bíblia, mas têm servido para aprofundar a compreensão das Escrituras Sagradas. Isso ocorre também em assuntos relacionados com a esfera pública.

Em um de seus diários, ela registrou que, em determinada reunião, os pioneiros adventistas consideraram demoradamente a questão de votar. Depois de serem mencionadas algumas opiniões, ela escreveu: “Eles acham que é correto votar em favor dos homens defensores da temperança para governar nossa cidade, em vez de, por seu silêncio, correr o risco de serem eleitos homens intemperantes” (Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 337).

Em outra oportunidade, encontramos Ellen G. White assumindo uma posição clara sobre a participação dos membros da Igreja na escolha de candidatos que pudessem favorecer a aprovação de leis que combatessem a venda de bebidas alcoólicas. Nessa ocasião, ela destacou que cada cristão tem a responsabilidade de exercer toda influência possível para estabelecer leis com o propósito de conter essa atividade destruidora da saúde e das famílias. Ela escreveu: “Todo indivíduo exerce uma influência na sociedade. Em nossa terra favorecida, todo eleitor tem, de certo modo, voz para decidir que tipo de leis governará a nação. Não devem sua influência e voto se posicionar ao lado da temperança e da virtude?” (Obreiros Evangélicos, p. 387).

Esses textos deixam claro que cada adventista deve exercer o direito ou o dever de votar, usando essa prerrogativa para eleger pessoas que promovam conceitos em favor da saúde e da qualidade de vida. Certamente isso envolve a preferência por candidatos que também promovam outros princípios e valores bíblicos praticados e defendidos pelos adventistas e que podem se tornar um benefício para toda a população.

Assim, a Igreja Adventista do Sétimo Dia:

Recomenda que seus membros cumpram o direito ou o dever do voto.

Orienta que seus membros votem de acordo com a consciência individual.

Determina que pastores, outros obreiros, jubilados com credencial especial, funcionários da organização, líderes locais e membros não apresentem nem promovam candidatos nos templos, em suas sedes administrativas, unidades educacionais, de saúde e em quaisquer outras instituições, seja nos cultos seja em programas promovidos e realizados pela denominação.

Veda o uso do dízimo e de quaisquer outros recursos denominacionais para financiar candidatos, campanhas eleitorais ou partidos políticos.

Repudia e não autoriza o recebimento de vantagens e benefícios pessoais ou institucionais ilícitos, indevidos ou em desacordo com os Regulamentos Eclesiástico-Administrativos.

Não usa, não fornece nem autoriza o fornecimento de dados cadastrais ou de qualquer outra natureza para o envio de propaganda eleitoral aos seus membros.

Não autoriza a impressão de propaganda ou material de cunho político em suas editoras nem o uso de espaço publicitário em seus periódicos para veiculação de propaganda eleitoral. Fica igualmente não autorizado o uso de internet, rádio, televisão e publicações da Igreja e de suas instituições para esse mesmo fim, salvo quando impostas obrigatoriamente por lei, como no caso da Rádio e da TV Novo Tempo.

Não autoriza o uso do espaço físico de seus templos, escolas, colégios, universidades, sedes administrativas, escritórios de projetos assistenciais e demais instituições para qualquer tipo de propaganda político-partidária eleitoral.

Não aprova que sejam organizados encontros e reuniões por pastores, outros obreiros, jubilados com credencial especial e funcionários da organização, com propósitos político-partidários, em ambientes públicos ou privados.

Determina, clara e expressamente, quem deve falar em nome da Igreja para se comunicar com os órgãos de imprensa e demais meios. Pastores e servidores, editores das casas publicadoras, apresentadores da Rádio e da TV Novo Tempo, jornalistas, assessores de comunicação e comunicadores não estão autorizados a escrever, postar e falar em nome dos adventistas sobre temas políticos, e devem ter constante cuidado para não dar declarações que demonstrem preferências por ideologias, candidatos ou partidos.

3. CANDIDATOS QUE SÃO ADVENTISTAS

Entre os direitos do cristão adventista no exercício da cidadania está o de ocupar cargos públicos, eletivos ou não. O Antigo Testamento menciona exemplos de pessoas que exerceram funções de grande projeção nos governos de sua época. Por exemplo, José foi primeiro-ministro do Egito (Gênesis 41:38-46) e, tendo sido colocado por Deus no comando dessa nação, se manteve puro e fiel na corte do rei e foi “um representante de Cristo” junto aos egípcios (Patriarcas e Profetas, p. 369). Daniel exerceu importantes cargos governamentais em Babilônia sob os reinados de Nabucodonosor, Belsazar, Ciro e Dario, e, com lealdade incondicional aos princípios divinos, ele e seus companheiros foram embaixadores do verdadeiro Deus nas cortes desses reis.

É interessante notar que José e Daniel foram nomeados para funções públicas diretamente pelos próprios monarcas. Hoje, na maioria dos governos, oficiais públicos tanto podem ser nomeados como podem ser eleitos por voto popular. A Igreja Adventista do Sétimo Dia respeita a decisão de seus membros de ocuparem cargos públicos, seja por meio de processo eleitoral seja por nomeação direta. Reconhece também que, como nos tempos de José, Daniel e Ester, a sociedade pode ser beneficiada pelo bom exemplo de políticos religiosos que exerçam suas atividades dignamente, sem comprometer princípios cristãos, ao mesmo tempo em que dão um bom testemunho da fé e promovem os valores bíblicos.

Assim, a Igreja Adventista do Sétimo Dia:

Determina que candidatos adventistas não usem os cultos e programas oficiais da igreja.

Define que os membros que se candidatarem a cargos públicos eletivos se afastem de suas funções de liderança na igreja local durante o período de campanha.

Estabelece que pastores, outros obreiros e funcionários que decidirem lançar candidatura devem se desvincular obrigatoriamente do trabalho na organização adventista. Estabelece que pastores e outros obreiros que decidirem atuar em qualquer trabalho direta ou indiretamente relacionado à política partidária, como assessorias, propaganda, publicidade, ou outras atividades afins, devem se desvincular obrigatoriamente do trabalho na organização adventista.

Estabelece que pastores jubilados com credencial especial que decidirem lançar candidatura ou atuar em qualquer trabalho direta ou indiretamente relacionado à política partidária, como assessorias, propaganda, publicidade, ou outras atividades afins, tenham sua credencial suspensa enquanto durar esse envolvimento.

Reconhece que, quando membros adventistas se candidatarem a cargo eletivo com mandato, serão candidatos exclusivamente do partido político ao qual se filiarem e nunca candidatos oficiais da Igreja Adventista.

Estabelece que, quando surgirem situações em que candidatos, membros da igreja ou não, no exercício do mandato, estiverem concorrendo à reeleição ou a qualquer outro cargo público eletivo, serão tratados de acordo com as orientações deste documento.

Orienta aos administradores e diretores de departamentos de Associações/Missões, Uniões e diretores de instituições que se limitem, no exercício de suas funções, a informar aos pastores e membros sobre candidatura de adventistas. E que o façam com prudência, sem utilizar a estrutura organizacional para pedir ou induzir membros ao voto.

4. OS ADVENTISTAS E AS MANIFESTAÇÕES EM REDES SOCIAIS

O avanço da tecnologia digital em todas as áreas da vida humana, inclusive na discussão da temática político-partidária, é fato inegável e, de certa forma, ilimitado. Como ambiente de manifestações relacionadas a partidos, candidatos e eleições, as redes sociais propiciam muitos debates, mas também apresentam acusações mútuas e a propagação de dados inverídicos. Essas acusações podem ser caracterizadas pelas legislações nacionais como crimes, sujeitando seus propagadores a penalidades.

A livre expressão do pensamento, especialmente em relação às questões políticas, implica profunda responsabilidade, podendo gerar consequências indesejáveis decorrentes da veiculação de conteúdos inadequados. Ainda que as postagens e opiniões de seus membros não reflitam necessariamente o pensamento da Igreja, muitas vezes as manifestações individuais são tidas como se fossem o posicionamento oficial da organização adventista sobre o assunto.

Assim, a Igreja Adventista do Sétimo Dia:

Orienta a todos os que têm vínculo religioso/missionário ou laboral com a organização adventista que não postem nas redes sociais nem encaminhem mensagens com opiniões ou manifestações sobre política partidária nem opções de candidatos a cargos eletivos, especialmente em período de eleições.

Recomenda que membros adventistas sejam muito prudentes ao se envolver em posicionamentos e discussões nas mídias sociais a respeito de política, partidos e eleições. Há outros temas de relevância espiritual e missionária que merecem atenção maior por parte dos que compreendem seu papel como multiplicadores do evangelho.

Reconhece o valor da veiculação nas redes sociais de conteúdos que motivem boas iniciativas em favor das pessoas como forma de contribuir para o bem-estar de todos. A própria organização adventista, quando julgar necessário, expressará seu posicionamento acerca de temas de interesse social, cumprindo seu papel de ser uma voz de esperança na sociedade.

CONCLUSÃO

Como denominação cristã, a Igreja Adventista do Sétimo Dia reconhece o papel legítimo dos governos organizados na sociedade, respeita o direito do Estado de legislar nas questões seculares e consente com essas leis quando não contrariam os preceitos divinos. Entende também que seus membros devem assumir responsabilidades civis com seriedade e exercer o papel de cidadãos, mas sem se esquecer da cidadania celestial.

Não desmerecendo as questões políticas e sua importância, a Igreja Adventista do Sétimo Dia entende ser seu dever dar o devido destaque ao objetivo de desenvolver práticas que resultem no fortalecimento da fé e promovam a esperança na iminente volta do Senhor Jesus Cristo. Reconhece que a vocação de pregar o evangelho envolve executar ações de solidariedade que expressem amor ao próximo e produzam alívio ao sofrimento humano. Por isso, todo esforço e toda energia devem ser canalizados para o serviço desinteressado em favor das pessoas, revelando profundo interesse na sua salvação. Seja nossa oração: “[…] Vem, Senhor Jesus” (Apocalipse 22:20).


Este documento foi preparado em harmonia com as declarações oficiais da igreja, conforme conteúdo do capítulo “A Relação entre Igreja e Estado” (Declarações da Igreja, p. 154-160), adotado pela Associação Geral em março de 2002 e que serve de diretriz e referência para o departamento de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa.

Votado em maio de 2026 pela Comissão Diretiva Plenária da Divisão Sul-Americana.

[via adventistas.org]

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O SOM DO SILÊNCIO

Hoje, dia 7 de maio, comemora-se o Dia do Silêncio. O principal objetivo desta data é conscientizar as pessoas dos males que a poluição sonora provoca, em diversos aspectos, a queda da saúde e da qualidade de vida das pessoas. Além de consequências físicas, o excesso de ruídos também prejudica a concentração e eleva os níveis de estresse. Por este motivo, o Dia do Silêncio convida as pessoas a separar uns minutos durante o dia para desfrutar do total silêncio!

Mas vamos refletir um pouco mais sobre isso...

The Sound of Silence (O Som do Silêncio - ouça aqui) é uma das melhores músicas que já ouvi. Era cantada por Simon e Garfunkel em um arranjo inesquecível, suave, sussurrado. Emocionante. Uma parte da letra dizia: “pessoas conversando sem falar; pessoas ouvindo sem escutar”. A ideia da música era claramente irônica. Não era o som que estava perdido, mas a capacidade de reflexão.

O silêncio era de idéias. Na última estrofe a letra diz “e as pessoas se curvavam e oravam ao deus neon que elas fizeram; e o sinal iluminava seu alerta, nas palavras que formava, e o sinal dizia ‘as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metrô’ (…)”.

O que os autores ressaltavam era que as pessoas estavam buscando ‘luzes’, no sentido de que queriam shows, entretenimento, diversão. Não queriam o real, não queriam o profundo, não queriam a verdade. Estavam satisfeitos com a imagem dela projetada pelo neon. Mesmo que a mensagem tivesse o intuito de dirigi-los a outro rumo.

Na verdade, todos têm medo do silêncio. Não o silêncio barulhento, cheio de palavras vazias que não dizem nada. O silêncio reflexivo. O medo que esse tipo de silêncio provoca é o do autoconhecimento. Do encontro consigo mesmo. É desse silêncio que fugimos quando chegamos em casa e ligamos a TV. É dele que fugimos quando enchemos nossos dias de milhões de atividades, inclusive as religiosas.

Kierkegaard (teólogo e filósofo dinamarquês do século XIX) coloca que é este o silêncio que provoca a fé. Que provoca o encontro com o Invisível. Quietos, obrigamos nossa mente a refletir em quem somos, no que fazemos, no que queremos. A dureza deste encontro é que realizamos a finitude de tudo o que somos. Somente depois disto, podemos enxergar o Infinito.

A Bíblia diz que Jesus buscava o silêncio e a quietude (Jo 6:15; Mt 14:23; etc.). Ficou no deserto sozinho por 40 dias (Mt 4:1-11). Eram nesses momentos que Ele encontrava-se com Ele. Ellen White diz: "A Majestade do Céu frequentemente, ficava de joelhos a noite toda em oração. Enquanto a cidade estava envolta em silêncio, e os discípulos haviam retornado a seus lares a fim de obter refrigério no sono, Jesus não dormia. Ele escolhia o silêncio da noite, quando não haveria interrupção" (Testemunhos para a Igreja 2, p. 508).

No decorrer de mais um dia, com tantos ‘luminosos de neon’, retire o seu tempo, ligue a sua tecla ‘mute’ e reflita, se encontre, e encontre-se com Ele. Ouça o que fica escondido no barulho do trabalho, do estudo, do namoro, etc. Ouça o verdadeiro som do silêncio.

Ellen White conclui: "Se os que professam crer nas grandes verdades para este tempo se preparassem examinando as Escrituras, orando fervorosamente, e exercitando a fé, colocar-se-iam em posição em que poderiam receber a luz que tanto ambicionam. A eloquência do silêncio diante de Deus é muitas vezes essencial. Se a mente é mantida em contínua agitação, o ouvido é impedido de ouvir a verdade que o Senhor quer comunicar a Seus crentes. Cristo tira Seus filhos daquilo que lhes prende a atenção, a fim de que contemplem Sua glória" (Manuscrito 94, 1897).

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A BÍBLIA E O CUIDADO COM OS DE FORA

O Brasil abriga pouco mais de 2 milhões de migrantes, entre residentes, temporários, refugiados e solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado, de aproximadamente 200 nacionalidades, segundo dados divulgados na última quinta-feira (30/04) pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). O 12º Relatório Anual do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) também mostra dados demográficos da população de migrantes e refugiados, como empregabilidade e concentração de comunidades em regiões específicas.

Cerca de 414 mil da população de migrantes estão empregados formalmente no país. O destino principal para trabalho formal é a Região Sul, com 56,2% dos migrantes empregados, sobretudo no setor agroindustrial. Os três estados sulistas também são destaque na oferta de capacitação profissional, especialmente o Paraná (PR), que marca a maior atuação na revalidação de diplomas.

O estudo destaca mudanças nos fluxos migratórios de venezuelanos, haitianos, cubanos e angolanos no Brasil e aponta a necessidade de políticas específicas.

Entre venezuelanos, há incerteza sobre novos fluxos, com possível pressão sobre Roraima e demanda por assistência a mulheres, crianças e idosos em vários estados. Entre haitianos, a tendência é de estabilização, com foco na reunificação familiar e atendimento a mulheres e crianças.

Outro ponto de relevância do relatório é o crescimento da imigração cubana, concentrada em Roraima, Amapá e estados do Sul e Sudeste, pressionando o mercado de trabalho local. Já os angolanos ampliaram a chegada desde 2021, sobretudo homens em idade ativa, além de crianças, exigindo ações de emprego e apoio social.

O cuidado com os de fora
Os cristãos precisam estar atentos para unir esforços e atender os que são de fora, refugiados ou migrantes, com a mesma disposição de ajudar os amigos mais chegados. Na Bíblia percebemos que, em diferentes épocas, os ensinos divinos por meio de profetas, mestres, apóstolos e do próprio Cristo exaltam o devido atendimento aos estrangeiros.

Na Palavra de Deus, vemos ­Moisés recebendo diretamente do Senhor a certeza de que o estrangeiro que peregrinava com os israelitas não deveria ser oprimido, mas sim amado (Êx 23:9; Lv 19:33, 34). Afinal, o povo hebreu sabia o significado de ser estrangeiro devido à sua experiência durante o cativeiro egípcio.

Essa preocupação ainda abrangia a alimentação e os estatutos (Lv 23:22; 24) porque a parte da colheita que caía não devia ser recolhida, pois serviria aos de fora. E tanto os estrangeiros quanto os naturais recebiam a mesma lei.

O tratamento precisava ser igual também nas cidades de refúgio que serviam de proteção na época. Elas abrigavam os filhos de Israel e os estrangeiros (Nm 35:15).

Deus reforçou continuamente o pedido de misericórdia e piedade para que Seu povo não oprimisse os que haviam se juntado a eles (Sl 146; Is 56; Jr 7; Jr 22; Zc 7; Ml 3).

Já o Novo Testamento mostra judeus e samaritanos como inimigos acirrados. Para romper esse problema, Jesus fez questão de passar por Samaria e Se encontrar com a mulher no poço de Jacó e então Se apresentar como o próprio Messias (Jo 4:26). A atenção foi tanta aos estrangeiros que, a pedido deles, Cristo ficou em Sicar dois dias e, assim, muitos creram em Suas palavras.

Atos 8 é outro exemplo da mensagem de amor que alcança todos. O encontro de Filipe com o eunuco etíope, oficial da rainha Candace, resultou na explicação das boas-novas de Jesus e no batismo do etíope.

Quando o assunto é o estrangeiro no Novo Testamento, o ­apóstolo Paulo tem muitas passagens em que afirmou que Deus o colocou como representante perante eles. Mais que isso, ele é enfático ao frisar que seu ministério estava voltado aos de fora, denominados naquela época de gentios (At 9, 22, 28). Aliás, qualquer pessoa que não fosse descendente de judeus era automaticamente considerada gentia.

Essa ênfase paulina aparece de suas cartas (Gl 1; 1Tm 2), sem contar que Paulo exaltou seu ministério aos de fora (Rm 11:13) e ainda fez questão de demonstrar seu amor pela missão voltada aos gentios (Ef 3:1).

Respeito e ajuda aos estrangeiros
Diante de tantos exemplos bíblicos do cuidado com os estrangeiros, é preciso atentar a essas situações. O atendimento aos refugiados e aos migrantes deve ser uma prática costumeira dos cristãos que “amam o próximo como a si mesmos” (Mt 22:39).

O exercício do amor assiste o próximo, seja ele o vizinho de porta ou alguém chegado de outro país, pois todos somos irmãos de um único Pai. Portanto, não deve haver disparidade no tratamento quando nos relacionamos com nativos ou estrangeiros, com familiares de sangue com quem convivemos durante toda a vida ou com irmãos em Cristo que acabamos de conhecer e com quem precisamos fortalecer laços e vínculos.

Toda ajuda aos refugiados e migrantes demonstra a disposição do amor cristão em servir como participante de um reino que demanda urgência na atenção à fragilidade humana. É essencial atender disposições cotidianas e reafirmar a esperança vindoura de uma pátria em que não mais seremos “estrangeiros e peregrinos na terra” (Hb 11:13).

O auxílio ao próximo é um remédio contra o coração egoísta, e o serviço a estrangeiros necessitados deve aumentar consideravelmente para que as situações de xenofobia sejam combatidas.

As seguintes palavras publicadas por Ellen White na Review and Herald de 25 de julho de 1918 parecem ganhar mais sentido atualmente: “O povo de Deus deve trabalhar fielmente em terras distantes, segundo Sua providência abrir o caminho; e deve também cumprir seu dever para com os estrangeiros de várias nacionalidades nas cidades e vilas e distritos rurais próximos”.

Se com o passar do tempo os relacionamentos que rompem fronteiras aumentam, é certo que também precisamos de boas práticas no acolhimento e no atendimento do estrangeiro. Enquanto um novo céu e uma nova Terra não chegam, devemos nos dispor a ser usados pelo Espírito para amenizar as tensões que chegam até nossa cidade.

[Com informações de Revista Adventista]

sexta-feira, 1 de maio de 2026

TRABALHO: BÊNÇÃO OU MALDIÇÃO?

“Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (1Co 15:58).

O trabalho é ideia de Deus. No mundo ideal antes do pecado, Deus deu a Adão e Eva a tarefa de cuidar do jardim (Gn 2:15). Como Criador, em cuja imagem eles haviam sido formados, eles deveriam se ocupar com trabalho criativo e serviço amoroso. Ou seja, mesmo no mundo não caído, sem pecado, morte e sofrimento, a humanidade deveria trabalhar. Diz Ellen G. White: "Deus colocou nossos primeiros pais no Paraíso, circundando-os de tudo quanto era útil e belo. Em seu lar edênico não faltava coisa alguma que lhes pudesse servir ao conforto e felicidade. E a Adão foi dado o trabalho de cuidar do jardim. O Criador sabia que Adão não poderia ser feliz sem ocupação. A beleza do jardim encantava-o, mas isto não era suficiente. Precisava de ter trabalho que chamasse ao exercício os maravilhosos órgãos do corpo. Houvesse a felicidade consistido em nada fazer, e o homem, em seu estado de inocência, haveria sido deixado sem ocupação. Mas Aquele que criou o homem sabia o que seria para sua felicidade; e assim que o criou designou-lhe um trabalho. A promessa da glória futura, e o decreto de que o homem deve trabalhar pelo pão de cada dia, vieram do mesmo trono" (Nossa Alta Vocação, p. 219).

Nesse período intermediário (após o mundo ideal e antes do prometido), somos convidados a considerar o trabalho como uma das bênçãos de Deus. Toda criança aprendia um ofício entre os judeus. Dizia-se que um pai que não ensinasse um ofício ao seu filho criaria um criminoso. Jesus, o Filho de Deus, passou muitos anos cumprindo a vontade de Seu pai em um trabalho honesto como carpinteiro e artesão habilidoso, talvez fornecendo às pessoas de Nazaré móveis e utensílios agrícolas necessários (Mc 6:3). Isso também fazia parte da educação que O prepararia para o ministério adiante. O apóstolo Paulo realizou a obra do Senhor da mesma forma ao trabalhar ao lado de Áquila e Priscila por um ano e meio como fabricante de tendas, enquanto debatia na sinagoga aos sábados (At 18:1-4;2Ts 3:8-12).

Mas às vezes o trabalho parece ter vindo como parte da maldição do pecado (Gn 3:17). Porém, uma leitura mais atenta revela que a Terra foi amaldiçoada, e não o trabalho. Ellen G. White declarou que Deus pretendia que essa ordem funcionasse como uma bênção: “E a vida de trabalho árduo e preocupações, que dali em diante deveria ser o destino do homem, foi ordenada com amor. Uma disciplina que havia se tornado necessária pelo seu pecado foi o obstáculo posto à satisfação do apetite e dos maus desejos, para desenvolver hábitos de domínio próprio. Fazia parte do grande plano de Deus para restaurar o ser humano da ruína e degradação do pecado” (Patriarcas e Profetas, p. 60).

Será que temos feito do trabalho uma maldição pela monotonia, excesso ou supervalorização de sua função em nossa vida? Qualquer que seja a nossa situação, precisamos colocar o trabalho em sua perspectiva adequada. E a educação cristã deve ensinar as pessoas para que elas aprendam o valor do trabalho, mas, ao mesmo tempo, que não façam dele um ídolo.

Para algumas pessoas, o trabalho significa apenas a enfadonha labuta diária, que terminará com a morte. Elas trabalham em empregos que desprezam, na esperança de se aposentarem enquanto ainda têm saúde. Para outras, o trabalho pode até dominar a vida, tornando-se o centro da sua existência, até mesmo a fonte abrangente da identidade pessoal. Longe do trabalho, essas pessoas se sentem deprimidas ou desorientadas, sem saber o que fazer ou para onde ir. Na aposentadoria, elas podem desmoronar física e psicologicamente, e geralmente morrem prematuramente.

Os cristãos precisam aprender a trabalhar da maneira que Deus deseja. O trabalho é mais que uma necessidade econômica. O homem é mais que um empregado. Compreendido da maneira correta, o trabalho de alguém pode ser uma possibilidade de ministério, uma expressão de seu relacionamento com o Senhor. Parte da tarefa de um professor é ajudar os alunos a encontrar um trabalho em que suas habilidades e interesses dados por Deus coincidam com as necessidades do mundo.

Embora “a obra das nossas mãos” seja uma bênção de Deus para nós (veja Sl 90:17) e possibilite que vivamos de maneira significativa, o plano supremo de Deus é que “a obra das nossas mãos” abençoe os outros. Paulo declarou que devemos trabalhar, fazendo algo útil com nossas mãos, para que possamos ter algo a compartilhar com os outros (Ef 4:28). Ele certamente viveu por este princípio: “Vós mesmos sabeis que estas mãos serviram para o que me era necessário a mim e aos que estavam comigo. Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20:34, 35). A oração simples de Neemias deve ser a nossa: “Agora, pois, ó Deus, fortalece as minhas mãos” (Ne 6:9).

O fato de sermos seres humanos caídos e pecadores não é desculpa válida para tratar qualquer tarefa com nada menos que a máxima dedicação. Deus espera que sempre tenhamos o melhor desempenho, usando bem nossos talentos, habilidades, tempo e educação para grandes causas.

“Se vivemos no Espírito, andemos também no Espírito” (Gl 5:25). O trabalho e a espiritualidade são inseparáveis. O cristianismo não é uma peça de roupa que pode ser vestida ou tirada quando mudamos de humor ou passamos por diferentes fases da vida. Em vez disso, o cristianismo cria um novo ser que se manifesta em todas as dimensões da vida, inclusive no trabalho.

Uma das armadilhas comuns da vida é a tendência de “compartimentalizar” os diferentes aspectos da vida. Existe vida profissional, familiar, espiritual e até uma vida de lazer. A tendência de separar essas áreas para que haja pouca ou nenhuma convergência entre elas deve ser desejada em alguns casos. Por exemplo, não é bom levar o trabalho para casa de maneira que interfira nas responsabilidades da família. A busca do lazer também não deve reduzir o tempo que passamos com Deus.

No entanto, essa restrição não deve se aplicar à função que nossa vida espiritual deve desempenhar em toda a nossa existência. O trabalho do cristão é modelado pela comunhão com Deus e pela nossa obra com Ele. O trabalho é um modo de praticar a presença de Deus. Compartimentalizar nossa vida religiosa, limitar Deus a um dia, a uma hora ou até apenas a uma área da vida é rejeitar a própria presença de Deus nessas outras áreas.

Portanto, o trabalho foi criado por Deus para: (1) contribuir para o desenvolvimento harmonioso de todas as faculdades do ser humano; (2) cuidar da Terra, assim como veio das mãos de Deus; (3) fazer parte da vida religiosa do ser humano, o que implica adoração; (4) ser uma bênção para o ser humano; (5) fazer parte do plano da redenção; (6) ser um canal de recompensa econômica que permita ao ser humano honrar a Deus; (7) possibilitar que o homem desfrute da obra de suas mãos; mas, (8) o trabalho não deve interferir em suas outras responsabilidades, nem deve exceder suas capacidades.

Ao invés de ser algo cansativo, entediante ou um instrumento de exploração, Deus sempre desejou que o trabalho fosse uma bênção, que desse sentido para a vida. Os aspectos negativos relacionados ao trabalho acompanharão nossa rotina apenas enquanto durar as consequências do pecado. No Éden, Adão trabalhou, e na Terra restaurada, os salvos continuarão a trabalhar, não “em vão”, porque aproveitarão ao máximo essa atividade (Is 65:21-23). Quem espera um paraíso sem trabalho vai se decepcionar, pois Deus trabalha e os anjos também.

Ellen G. White conclui: A sonolência e a preguiça destroem a piedade, e ofendem o Espírito de Deus. Um poço estagnado exala desagradável odor; mas uma corrente pura esparge saúde e alegria pela terra. Nenhum homem ou mulher convertido pode deixar de ser um trabalhador. Há certamente e sempre haverá emprego no Céu. Os remidos não viverão num estado de sonhadora preguiça. Resta um repouso para o povo de Deus — repouso que eles encontrarão em servir Aquele a quem devem tudo quanto possuem e são" (Nossa Alta Vocação, p. 219).