quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

CONSERVADORISMOS CRISTÃOS CONTEMPORÂNEOS

O cenário sociopolítico do século XXI tem sido marcado pelo avanço de movimentos e mobilizações conservadoras em várias partes do mundo, em especial, com a ocupação de espaços na política institucional de países em todos os continentes. No Brasil, este contexto é também marcado pelo protagonismo de atores cristãos, dos segmentos católicos e evangélicos, com marcas ideológicas e teológicas dos conservadorismos cristãos constituídos ao longo da história contemporânea. Este glossário busca apresentar verbetes que introduzem as teologias e movimentos conservadores cristãos que têm orientado essas ações.

Integralismo, Integrismo, Intransigentismo
Movimento católico – com mais de um nome – nascido entre a segunda metade do século XIX e o início do século XX, que busca ser uma oposição à Modernidade. Em certa medida, foi uma resposta católica ao Iluminismo e à Revolução Francesa. Em 1864, o Papa Pio IX publicou a encíclica Quanta Cura, que condenava os erros do nosso tempo, principalmente, a laicização do poder, que levaria – como levou, de fato – a própria Igreja Católica à perda de parte de sua influência e de seus domínios. Assim, o integralismo interpreta com viés político a Doutrina Social da Igreja, e defende que os princípios do catolicismo sejam a base de todo sistema legal e político dos Estados civis, não para a criação de um Estado Católico, mas para a subjugação de todos os Estados ao poder da Igreja.

Além disso, nota-se que o integralismo é avesso às motivações pluralistas do cristianismo, à secularização, ao liberalismo e ao comunismo. No Brasil, o movimento integralista ganhou força com a Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada por Plínio Salgado, um nacionalista católico de extrema-direita, que se inspirou no fascismo italiano para a formação de seu movimento político. As posições integristas também motivaram Plínio Corrêa de Oliveira na criação do movimento Tradição Família e Propriedade (1960), como pode ser visto adiante, bem como Jackson Figueiredo, para a criação da associação de leigos denominada de Centro Dom Vital (1922), que propagava o pensamento católico conservador autoritário, antiliberal e antissocialista. Com a morte de Jackson Figueiredo em 1928, o Centro Dom Vital passou a ser liderado por Alceu de Amoroso Lima. Atualmente, o Centro Dom Vital mantém suas atividades e administração laica, suas principais atividades se concentram na promoção de cursos em torno da fé católica e na publicação da revista A Ordem. Numa perspectiva ainda mais conservadora e fortemente presente nas redes sociais, surgiu em 2016 o Centro Dom Bosco que teve inspiração na TFP e nas ideias propagadas por Olavo de Carvalho para a atualização do cristianismo católico tradicionalista no século XXI.

Sobre a terminologia, pode-se usar integralismointegrismo e intransigentismo, pois no contexto católico se referem ao mesmo movimento. No entanto, o movimento possui uma amplitude que ultrapassa o contexto eclesial, haja vista que os termos integralismo e integrismo também são utilizados para designar a política estatal fascista, veiculada pela AIB no Brasil – que não corresponde, necessariamente, ao desejo inicial do intransigentismo europeu.

Fundamentalismo
No protestantismo conservador, os assim chamados erros do nosso tempo – por comparação com o caso católico da encíclica Quanta Cura (de Pio IX) – foram apontados pelo movimento fundamentalista, cuja origem se deu em igrejas batistas e presbiterianas dos EUA, na passagem das últimas décadas do século XIX para as primeiras do século XX. O fundamentalismo protestante se caracteriza pela doutrina da inerrância ou infalibilidade da Bíblia (porque as Escrituras são inspiradas por Deus), pela recusa da teologia moderna ou liberal (e de sua leitura metodológica, histórica e crítica dos textos bíblicos), pela rejeição de toda contribuição da ciência que coloque em xeque os alicerces das crenças tradicionais (o darwinismo, por exemplo) e pela tentativa de exclusão do cristianismo de todas as pessoas que não concordem com os pressupostos e consequências do próprio fundamentalismo.

Os fundamentalistas originais foram pródigos na disseminação de sua teologia, moralidade e mentalidade, principalmente, por meio de publicações. Entre elas, duas obras alcançaram maior relevância: The Scofield Reference Bible, do pastor Cyrus Ingerson Scofield, publicada em 1909, e os 12 volumes da coletânea The Fundamentals: A Testimony to the Truth, publicados entre 1910 e 1915. Estas obras não fundaram o movimento, mas são marcos importantes de sua genealogia. A coletânea The Fundamentals ajudou a nomear e a difundir o movimento fundamentalista para fora de suas fronteiras mais restritas; a Bíblia de Scofield, por sua vez, foi a principal responsável pela difusão e popularização do dispensacionalismo pré-milenarista. Embora o qualificativo fundamentalista já circulasse, como motivo de orgulho, em conferências, campanhas e acampamentos missionários, desde o final do século XIX, o nome de batismo – fundamentalismo – foi cunhado em 1920, por um batista conservador, Curtis Lee Laws, para nomear seu partido numa disputa dentro da Convenção Batista do Norte.

Opus Dei
Trata-se de uma organização católica formada por leigos e clérigos, fundada, em 1928, por Josemaría Escrivá, em Madri (Espanha). Do latim, Opus Dei significa Obra de Deus, e essa era a compreensão do fundador do movimento, já que afirmava ser o Opus Dei uma obra iniciada pelo próprio Deus, a reunir pessoas das mais diversas profissões. Escrivá entendia que a Obra de Deus ocorre na vida cotidiana dos fiéis e tem por objetivo santificar o mundo por meio do trabalho cotidiano. Na vida pessoal, a santificação se refere a práticas penitenciais.

Desde 1982, o Opus Dei é uma prelazia pessoal, o que significa que no interior da Igreja Católica é considerado uma estrutura institucional composta por prelados, clérigos e leigos. Assim, o Opus Dei tem autonomia e administração própria, atuando como se fosse uma diocese, mas com dimensão global. Sobre sua atenção política, é importante notar que, embora Escrivá nunca tenha se pronunciado a respeito da ditadura de Francisco Franco na Espanha, é notório que alguns ministros dos governos franquistas, entre a primeira e a segunda metade do século XX, pertenceram à prelazia. Em 2002, o Papa João Paulo II canonizou o fundador do Opus Dei.

Legionários de Cristo
O foco do trabalho pastoral e educacional dos Legionários de Cristo – congregação fundada por Marcial Maciel, em 1941, na Cidade do México – é a elite católica, e seu objetivo principal é a instauração do Reino de Cristo por meio de uma formação integral de excelência. O surgimento dos Legionários de Cristo se deu em um momento delicado da história política do México e do mundo, já que quem governava o país era o militar Manuel Ávila Camacho, enquanto o contexto da Segunda Guerra Mundial favorecia as aproximações políticas e econômicas do México com parceiros como a Espanha, governada por Francisco Franco. Em tal contexto, o arcebispo Luis María Martínez incentivou os católicos mexicanos a colaborarem com o governo de Ávila Camacho, que se declarava católico. Foi por este incentivo que Marcial Maciel criou os Legionários de Cristo como uma congregação contrarrevolucionária e em defesa das verdades do catolicismo.

TFP
Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP) foi fundada em São Paulo, em 1960, por leigos católicos, sob a liderança de Plínio Corrêa de Oliveira, em contextos anteriores à ditadura militar, e ganhou força e maior notoriedade depois do golpe civil-militar, bem como durante o regime ditatorial, uma vez que se alinhava ideologicamente ao conservadorismo de direita. Constituindo como uma associação civil – de acordo com seu próprio documento de institucionalização –, sem fins lucrativos e extrapartidária, os membros da TFP estavam inseridos em núcleos eclesiais antes da fundação da sociedade. Desde a primeira metade do século XX, aqueles que viriam a ser os fundadores da TFP participavam da elite católica brasileira e buscavam a recatolização da sociedade nacional, por meio da propaganda da religião, sobretudo pela editoração e divulgação de jornais, revistas e livros.

De modo geral, os objetivos iniciais da TFP eram moldar a sociedade brasileira de acordo com o magistério da Igreja Católica, a fim de estimular a valorização e manutenção da tradição cristã católica, da família tradicional e da propriedade privada – os três pilares que representavam a ideia de civilização de seus associados. Do ponto de vista teológico, a TFP afirma que o reinado de Cristo está próximo e, por isso, tem como projeto glorificar a Deus ao fazer o bem e ao combater o mal e a revolução. A influência da TFP ainda pode ser encontrada nos Arautos do Evangelho, uma associação de vida apostólica fundada, em 1999, por João Scognamiglio Clá Dias, que foi secretário de Plínio Corrêa de Oliveira.

Teologia do domínio (Dominionismo)
Nomenclatura popular utilizada para se referir a ideias teológicas sobre o imperativo do domínio por parte dos cristãos nas sociedades contemporâneas. A Teologia do domínio tem duas vertentes principais.

A vertente reformada ou calvinista tem sua origem a partir dos anos 1960 e 1970 nos EUA, sendo elaborada, principalmente, por Rousas John Rushdoony e seu genro, Gary North, e é caracterizada por unir o teonomismo ao reconstrucionismo. O primeiro designa a crença de que as leis apresentadas no Antigo Testamento têm valor normativo e legal até hoje, devendo ser instituídas em todas as sociedades do mundo com vistas à justiça universal. O segundo é a convicção de que, antes do retorno ou segunda vinda de Jesus (a decretar o fim dos tempos), os cristãos devem trabalhar para o estabelecimento do Reino de Deus na Terra, de forma que o controle do mundo, perdido no paraíso do Éden, em virtude do pecado humano, seja progressiva e continuamente reconstituído por princípios bíblicos aplicados no âmbito individual e social. 

A vertente pentecostal tem origem em visões proféticas de líderes carismáticos que entendem o fiel como agente de influência, e habilitado pelo Espírito Santo para atuar nos diversos setores que formam a sociedade, tendo em vista o estabelecimento do Reino de Deus e o retorno escatológico de Jesus. Alguns proponentes são os pastores e missionários Peter Wagner, Johnny Enlow, Lance Wallnau, Loren Cunningham e Brill Bright. Também conhecida como teologia dos sete montes ou mandato das sete montanhas, o Dominionismo, em sua vertente pentecostal, propõe que as esferas da sociedade devem ser submetidas ao mandato de Deus a fim de que malignos principados e potestades não impeçam a expansão do reino divino na Terra. As sete esferas ou sete montes são: educação, família, religião, negócios, governo, artes e mídia.

Confissão positiva
Expressão utilizada para designar a teologia e a postura religiosas de quem crê na materialização de desejos e preces, por meio da verbalização de pedidos a Deus. Origina-se na prática evangélica, especialmente neopentecostal, de proferir palavras segundo o vocabulário bíblico, a fim de determinar a ação divina para a realização do que é declarado com fé. Seu principal precursor foi o pastor batista Essek William Kenyon, que introduziu a confissão positiva no meio evangélico estadunidense partir dos anos 1940, sendo largamente disseminada pelos líderes carismáticos Kenneth Hagin e Kenneth Copeland, dos anos 1970 em diante.

Teologia da confissão positiva explica o mecanismo da fé, utilizando textos bíblicos esparsos – por exemplo: Provérbios 6.2; Romanos 10.8-9; Hebreus 11.1 –, que evocam a noção do poder contido na confissão declarada pela boca do fiel. O efeito é trazer à existência aquilo que é decretado com palavras, incluindo a salvação eterna, assim como bênçãos materiais, curas, sinais miraculosos e livramento de adversidades e sofrimentos. A principal proposição teológica da confissão positiva é que as promessas bíblicas de uma vida abundante e próspera àqueles que servem a Deus devem ser reivindicadas pelo fiel, de modo que a declaração verbal antecipe, pela fé, o recebimento da bênção.

Teologia da prosperidade
Conjunto de conceitos teológicos característicos do movimento neopentecostal, disseminado nos anos 1980 e 1990, tanto nos EUA quanto na América Latina, que enfatiza a prosperidade material e o bem-estar do crente como resultados de sua dedicação espiritual e de sua contribuição financeira à igreja ou ao ministério a que está associado. Segundo essa perspectiva, o desejo de Deus é que aqueles que o servem sejam bem-sucedidos e prósperos, não somente no campo espiritual, mas, também, nos âmbitos material e financeiro. O favor divino, porém, deve ser alcançado, e não recebido. Por meio da fé, da semente plantada com a doação financeira de dízimos e ofertas, e da obediência às leis bíblicas, o fiel é positivamente recompensado por Deus. Em contrapartida, o sofrimento, o mal, a doença e as adversidades da vida são expressões da ausência de fé e de uma insuficiente dedicação às práticas que levam à prosperidade na vida terrena e à garantia da salvação no porvir. Seus principais expoentes internacionais são os pastores Kenneth Hagin, Kenneth Copeland e Benny Hinn, e, no Brasil, Edir Macedo, Valdemiro Santiago e Silas Malafaia.

Teologia da prosperidade (ou evangelho da prosperidade) é a principal marca que distingue o neopentecostalismo do pentecostalismo clássico. Enquanto a vertente clássica se destaca pelo papel proeminente da ação do Espírito Santo por meio de dons e carismas espirituais dados aos crentes, o braço neopentecostal interpreta o carisma de Deus sob o prisma da lei da semeadura. Isto significa que à medida que o fiel se esforça para plantar (com fé, contribuição financeira e obediência moral), verá seu esforço multiplicado por Deus na forma de bençãos, de modo que, ao constatar o resultado, o crente é impelido a continuar sua semeadura para uma constante melhoria de vida. Assim, a teologia da prosperidade se desvincula da lógica protestante da graça divina e se assemelha à lógica do mercado (da troca e do lucro).

Teologia da retribuição
Concepção segundo a qual o crente recebe a bênção ou o juízo em virtude de sua obediência ou desobediência à vontade divina. A premissa central da Teologia da retribuição é que a postura religiosa de cada pessoa é recompensada por Deus de forma correspondente e proporcional. Por essa razão, a fidelidade a Deus resulta em benefício espiritual e material àquele que obedece a vontade divina. A principal base bíblica para a noção de retribuição está na literatura legal (jurídica) e sapiencial da assim chamada Bíblia Hebraica ou Antigo Testamento (Primeiro Testamento). Nos textos jurídicos, a lógica retributiva aparece nas leis de Moisés, dadas ao Israel antigo. Já na literatura sapiencial, como Provérbios, Salmos e Eclesiastes, essa mesma lógica se expressa em conselhos para uma vida sábia e próspera.

No contexto neopentecostal, a Teologia da retribuição está estreitamente ligada à Teologia da prosperidade, cuja crença está assentada na qualidade da fé e das ações individuais em face da vontade Deus, sendo que os resultados podem ser prosperidade ou miséria financeira, salvação ou condenação eternas, bênção ou punição ainda nesta vida. Retrospectivamente, a Teologia da retribuição também se vincula à noção de lei da retribuição: princípio moral do Mundo Antigo, especialmente do Antigo Oriente Próximo (que inclui a tradição judaica), que buscava explicar uma suposta ordem cósmica, segundo a qual o bem retorna como benefício ao benfeitor, e o mal resulta em dano ao malfeitor.

Cristofascismo e Nacionalismo Cristão
A teóloga alemã Dorothee Sölle cunhou, nos anos 1970, o termo cristofascismo como categoria de análise para a teologia identificar o uso do cristianismo pelos sistemas políticos totalitários. Ela se referia à usurpação da mensagem do cristianismo pela Alemanha nazista, inclusive, com a instauração da Igreja do Reich – algo que foi denunciado à época também por Paul Tillich e Dietrich Bonhoeffer. Nos estudos decoloniais, cristofascicmo tem sido discutido pelo teólogo espanhol, José Tamayo, que vê uma nova aliança dos projetos políticos nacionalistas de direita com a extrema direita religiosa. No Brasil, destaca-se o trabalho do sociólogo da religião Fábio Py, que analisa a apropriação da teologia fundamentalista – e da prosperidade – por projetos políticos contemporâneos de extrema direita (como o que foi conduzido no mandato presidencial de Jair Bolsonaro).

Seguindo a mesma compreensão teológica, o nacionalismo cristão tende a se alinhar aos projetos políticos de extrema direita com aspirações autoritárias e totalitárias. Trata-se de um movimento que busca a formação de uma maioria moral (Moral Majority), a estabelecer um vínculo estreito entre crenças e símbolos do cristianismo (família, ordem moral) e a identidade nacional (origem, poder bélico e econômico) de determinado povo ou país. Embora esteja largamente disseminado, o nacionalismo cristão surgiu nos EUA nos anos 1980. Pastores e políticos, como Jerry Falwell, Paul Weyrich, Pat Robertson (além de outros nomes ligados à Nova Direita estadunidense e ao movimento de maioria moral) impulsionam o patriotismo crescente, revestindo-o com a linguagem teológica conservadora com forte tom anticomunismo e antissecularismo.

Teologia Coaching
Refere-se a ideias que unem técnicas de desenvolvimento pessoal (personal coaching, programação neurolinguística, noções de empreendedorismo) à espiritualidade evangélica. Com vocabulário motivacional próprio de círculos corporativos e empresariais, a Teologia Coaching se vale de elementos da literatura de autoajuda, de conceitos derivados da psicologia positiva e de práticas de alto rendimento profissional, propondo uma espiritualidade voltada à prosperidade, que resulta do compromisso do fiel com seu próprio aperfeiçoamento. Assim, ela absorve a lógica do empreendedorismo capitalista, que encoraja a busca pela produtividade e pela recompensa proporcional ao esforço dispensado pelo crente. Assume-se que o desejo de Deus é o de contribuir para que cada pessoa atinja o sucesso e, portanto, seu papel se assemelha ao de um facilitador do triunfo.

Teologia Coaching pode ser vista como um desdobramento recente da Teologia da Prosperidade. Todavia, diferentemente de sua precursora, que se espalhou por mídias analógicas, a Teologia Coaching é disseminada por meios digitais, ou seja, pela presença e influência de seus expoentes na Internet. Está intimamente relacionada ao fenômeno dos pastores midiáticos e líderes evangélicos influencers. Entre os nomes mais conhecidos do movimento, destacam-se Paulo Vieira, Tiago Brunet e Pablo Marçal.

Breno Martins Campos; Felipe de Queiroz Souto; Tiago de Melo Novais (via Religião e Poder)

Referências
CAMPOS, Breno Martins Campos. Fundamentalismo. In: RIBEIRO, Claudio de Oliveira; ARAGÃO, Gilbraz; PANASIEWICZ, Roberlei (Org.). Dicionário do pluralismo religioso. São Paulo: Recriar, 2020. p. 84-92.

COSTA, Ranieri. Teologia Coaching: a ilusória ideologia de que nascemos só para vencer. São Paulo: Fonte Editorial, 2024.

NOVAIS, Tiago de Melo; CAMPOS, Breno Martins. Teologias do domínio: revisitando fontes e autoriasProtestantismo em Revista, v. 47, n. 2, p. 29-40, 2023.

SANTIROCCHI, Ítalo Domingos. Uma questão de revisão de conceitos: romanização – ultramontanismo – reformaTemporalidades, v. 2, n. 2, ago./dez. 2010, p. 24-33.

ZANOTTO, Gizele. O integrismo tefepista da segunda metade do século XXReflexão, v. 48, 2023, p. 1-17.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

TEMPOS DIFÍCEIS VÊM POR AÍ

Entre tantas evidências dos últimos dias da Terra estão também fenômenos sociais e humanos. Jesus pede que estejamos atento aos tempos, assim como alguém se atenta para o dia da colheita de uma figueira (Mateus 24). É costume dos cristãos que aguardam a volta de Jesus tentar se atentar a sinais mais literais e físicos, como o escurecimento do sol, queda das estrelas, etc. No entanto, existem outros fatores tão evidentes quanto, mas que por sua natureza subjetiva são menos observados. Mas talvez sejam os mais evidentes.

Paulo nos adverte sobre alguns personagens que aparecerão nos últimos tempos. É uma lista terrível. Semelhantes têm aparecido em outros momentos, mas somos guiados por sua advertência a apreender que eles aparecerão em maior número nos últimos dias do que em qualquer época anterior: “Não seja ingênuo. Tempos difíceis vêm por aí. À medida que o fim se aproxima, os homens vão se tornando egoístas, avarentos, orgulhosos, vaidosos, xingadores, ingratos, desobedientes aos seus pais e não terão respeito pela religião. Não terão amor pelos outros e serão duros, caluniadores, incapazes de se controlarem, violentos e inimigos do bem. Serão traidores, atrevidos e cheios de orgulho. Amarão mais os prazeres do que a Deus; parecerão ser seguidores da nossa religião, mas com as suas ações negarão o verdadeiro poder dela. Fique longe dessa gente!” (2 Timóteo 3:1-5).

EGOÍSTAS
A antítese do genuíno espírito cristão de abnegação (1Co 13:5) e mansidão (Mt 5:5). Vivemos num mundo maligno. As intenções que movem as pessoas são de fato egoístas. Na cosmovisão bíblica, o mundo está imerso numa constante decadência moral, resultado do pecado que impera na vida das pessoas. Nesse sentido, a natureza humana é egoísta e má, pondo em evidência só o que é favorável a si própria. Na Bíblia encontramos frases como “Negue-se a si mesmo” (Lucas 9:23); “Ninguém se glorie” (Efésios 2:9); “Ninguém busque o seu próprio interesse” (1 Coríntios 10:24); “Não vivam mais para si mesmos” (2 Coríntios 5:15); “E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:27) e muitos outros que fazemos questão de não decorar porque denunciam a mais importante e difícil transformação a ser feita: a morte do eu. O egoísmo segue como a marca dos atuais tempos da humanidade. Diz Ellen G. White: "Os perigos dos últimos dias estão a alcançar-nos. Os que vivem para agradar-se e satisfazer-se a si mesmos estão desonrando ao Senhor. Ele não pode operar por intermédio deles, pois O representariam mal perante os que são ignorantes da verdade". E completa: "O egoísmo é a essência da depravação, e, devido a se terem os seres humanos submetido ao seu poder, o que se vê no mundo é o oposto à fidelidade a Deus. Nações, famílias, e indivíduos estão cheios do desejo de fazer do eu um centro" (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 1, p. 273).

AVARENTOS
Do grego philarguroi, “amantes do dinheiro” (ver com. de Lc 16:4; cf. com. de 1Tm 6:10). O apego aos bens materiais é a raiz dos grande problemas do mundo. Ele está na base de grande parte das filosofias políticas e econômicas, sendo, assim, responsável pela maioria dos conflitos nacionais e de classes. Em Lucas 12:15-21, Jesus apresentou os aspectos negativos da vida de um homem “avarento” e sordidamente apegado ao dinheiro, obcecado por adquirir e acumular, alguém que não é generoso. Ellen G. White adverte: "Não deves ser avarento, mas honesto contigo mesmo e com teus irmãos. A avareza é um abuso das beneficências de Deus. Seja qual for a vossa vocação ou posição, se acariciardes o egoísmo e a cobiça, sobre vós recairá o desagrado do Senhor" (Conselhos sobre Mordomia, p. 145).

ORGULHOSOS
Orgulho é sinônimo de arrogância, altivez, soberba, prepotência. São os que consideram os outros com desprezo ou desrespeito. O orgulho é uma doença espiritual maligna e silenciosa. O orgulho sufoca, destrói, mata, derruba. É um pecado mencionado com bastante frequência nas Escrituras e todas as suas menções indicam que Deus o odeia. Ellen G. White adverte: "Deus aborrece o orgulho, e… todos os orgulhosos, e todos os que procedem impiamente, serão como palha, e o dia que está para vir os consumirá. [...] A soberba é um terrível aleijão no caráter. 'A soberba precede a ruína'. Isto é verdade na família, na igreja e na nação. Sempre que a ambição e o orgulho são tolerados, a vida é maculada; pois o orgulho, não sentindo necessidade, cerra o coração para as bênçãos infinitas do Céu" (Mensagens aos Jovens, p. 128 / Profetas e Reis, p. 60).

VAIDOSOS
Em sentido bíblico original, a “vaidade” não se referia primariamente à obsessão pela aparência, mas à falta final de significado dos esforços humanos. Depois de Salomão mencionar seus grandes feitos e sua busca hedonista pelo prazer, concluiu: “E eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (Ec 2:11). Sabemos também que todos os troféus e conquistas humanos, todos os deuses pessoais e sociais não passam de vaidade. O texto bíblico nos diz: “Nossos pais herdaram só mentiras e vaidade, em que não havia proveito. Porventura fará um homem deuses para si, que contudo não são deuses?” (Jr 16:19, 20, ACF). Ellen G. White alerta: "A vaidade e a presunção estão matando a vida espiritual. O eu é exaltado; fala-se sobre o eu. Oh! se morresse esse eu! 'Cada dia morro' (1Co 15:31), disse o apóstolo Paulo. Quando esta orgulhosa, jactanciosa presunção, e esta complacente justiça própria permeiam a alma, não há lugar para Jesus. É-Lhe dado um lugar inferior, ao passo que o eu incha em importância, e enche todo o templo da alma. Eis a razão por que o Senhor pode fazer tão pouco por nós" (Testemunhos Seletos, vol. 2, p. 210).

XINGADORES
Ou blasfemadores, ou caluniadores, ou abusadores, são os que falam mal na tentativa de prejudicar a reputação de outros, seja de Deus ou de outras pessoas. Um dos sinais bíblicos que apontam para o tempo do fim é a proliferação de escarnecedores, aqueles que debocham da fé e do próprio Deus como escreveu Pedro em sua segunda carta, capítulo 3 verso 3: "Nos últimos dias, virão escarnecedores com seus escárnios, andando segundo suas próprias paixões". Infelizmente, este tipo de atitude desrespeitosa só tem aumentado. Quem blasfema mostra desprezo por Deus. Blasfêmia é rejeitar Deus de forma consciente. Não há salvação para o blasfemo que rejeita Deus completamente e se recusa a reconhecer Sua ação. Ellen G. White alerta: "Quando houver sido feita a última decisão, quando todos houverem tomado partido, ou em favor Cristo e dos mandamentos, ou em favor do grande apóstata, Deus levantar-Se-á em Seu poder, e para sempre será tapada a boca aos que blasfemaram contra Ele. Todo poder oponente receberá a sua punição" (Carta 28, 1900).

INGRATOS
A ingratidão é manifestada apesar dos benefícios recebidos de Deus. Os que são “amantes de si mesmo” raramente são gratos. A invenções modernas têm contribuído para a autossuficiência humana que, com frequência, faz com que as pessoas não sintam necessidade das bênçãos de Deus. Ellen G. White afirma: “Como Deus considera nossa ingratidão e falta de apreciação por Suas bênçãos? Quando vemos alguém desprezar ou usar mal nossas dádivas, nosso coração e nossas mãos se fecham contra essa pessoa. Mas os que recebem as dádivas misericordiosas de Deus, dia após dia e ano após ano empregam mal Suas bênçãos e negligenciam as pessoas por quem Cristo deu Sua vida. Os meios que Ele emprestou para sustentar Sua causa e construir Seu reino são investidos em casas e terras, desperdiçados com o orgulho e satisfação própria, e o Doador é esquecido” (Advent Review and Sabbath Herald, 7 dezembro de 1886).

DESOBEDIENTE AOS PAIS
Em toda a Escritura, a desobediência aos pais é tratada como um dos piores males (Rm 1:30; 2Tm 3:2). Ellen G. White adverte: "Nestes últimos dias, os filhos se fazem notar tanto por sua desobediência e desrespeito, que Deus os tem observado especialmente, e isto constitui um sinal da proximidade do fim. É um indício de que Satanás tem completo domínio sobre a mente dos jovens. Por parte de muitos, já não há respeito para com a idade" (Testemunhos Seletos, vol. 1, p. 76). A palavra “obediência” não soa agradável aos ouvidos modernos, mas os que se ressentem dela como uma “imposição” devem assumir sua parcela de culpa pelo alarmante aumento da delinquência juvenil nos últimos tempos.

VIOLENTOS
Estamos vivendo em um mundo sem sentido do qual o Espírito Santo vai Se retirando paulatinamente. Vejamos o que diz Ellen G. White: "Foi-me mostrado que o Espírito do Senhor está-Se retirando da Terra. O poder mantenedor de Deus logo será recusado a todos os que continuam desrespeitando os Seus mandamentos. Os relatos de transações fraudulentas, homicídios e crimes de toda a espécie chegam até nós diariamente. [...] Roubos ousados são ocorrência frequente. Homens possuídos de demônios tiram a vida a homens, mulheres e crianças. Os homens têm-se enchido de vícios, e campeia por toda parte toda espécie de mal. Os terríveis relatos que ouvimos de atos de violência declaram que o fim de todas as coisas está próximo. Agora, agora mesmo, precisamos estar nos preparando para a segunda vinda do Senhor” (Testemunhos Seletos, vol. 3, p. 280 / Carta 308, 1907).

MAIS AMIGOS DOS PRAZERES DO QUE DE DEUS
Aqueles que amam a si mesmos, naturalmente vão em busca dos prazeres, em vez de cumprir as exigências do sagrado modo de viver estipulado por Deus. Tais pessoas são controladas pelo amor ao prazer e não pelo amor a Deus. Essa descrição pode se aplicar tanto os que são membros da igreja como aos que não o são. Ellen White diz: "A mente natural tende para o prazer e a satisfação egoístas. É método de Satanás providenciar abundância dessas coisas. Busca encher o espírito dos homens com o desejo dos prazeres mundanos, a fim de não lhes sobrar tempo algum para perguntarem a si mesmos: Como vai minha alma? O amor do prazer é infeccioso. A ele entregue, a mente precipita-se de um a outro ponto, buscando sempre algum entretenimento. Nesta fase do mundo há uma busca de prazeres sem precedentes. Dissipação e absurda extravagância prevalecem por toda parte. As multidões estão famintas por divertimentos" (O Lar Adventista, p. 521).

PARECERÃO SER SEGUIDORES DA NOSSA RELIGIÃO
Em outras versões, "forma de piedade", ou seja, características exteriores de religião, como a frequência à igreja, ofertas e até mesmo um serviço personalizado para ela. Essa característica se aplica especificamente aos que se identificam superficialmente com o cristianismo. Ao longo dos anos, o comportamento dos membros nominais da igreja, isto é, os que professam lealdade ao modo de vida de Deus, mas não revelam evidência tangível de um desenvolvimento à semelhança de Cristo, tem sido o maior obstáculo para o progresso do evangelho do que outro fator (comparar com 2Co 2:14-16; 1Tm 4:16; 2Pe 3:12). Ellen White adverte: "Satanás quer que sejais cristãos nominais, pois assim podereis melhor servir aos seus desígnios. Se tendes uma forma de piedade e não a piedade verdadeira, ele vos pode usar para seduzir outros ao mesmo caminho, isto é, a se iludirem a si mesmos" (Testemunhos Seletos, vol. 1, p. 55).

CONCLUSÃO
A presença do mal não é uma característica única dos “últimos dias”. No entanto, a progressiva degradação moral da humanidade atesta a total incapacidade humana de se salvar. Com a crescente atividade do príncipe do mal (cf. Ap 7:1; 12:12), é de se esperar que o curso milenar do mal chegue a um clímax de intensidade nos “últimos dias”. Em contradição às afirmações amenas de uma miríade de religiosos equivocados que ensinam que o ser humano está ficando cada vez melhor e que, finalmente, o mudo inteiro será convertido, as Escrituras declaram que declaram que os homens malignos “irá de mal a pior” (2Tm 3:13). É nesse cenário que as palavras do apóstolo a respeito dos “últimos dias” assumem seu significado pleno e completo.

O mundo sempre foi o mesmo, porém, cada dia mais vemos as características que Paulo mencionou na humanidade. Nosso egoísmo se agrava com o tempo e nossa presunção também. Amamos mais o entretenimento que a Deus, os prazeres pessoais que o Criador. E o pior: neste tempo, temos a forma de piedade, a aparência de piedade, mas negamos o poder de Deus. Sinais do fim. De uma sociedade doente moralmente e espiritualmente. Não seja um deles, querido leitor. Creia em Deus para estar seguro. Creia nos profetas dEle para prosperar.