quarta-feira, 14 de outubro de 2026

MEDITAÇÃO #106 - DESOBEDIENTES

"Mais importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29).

Daniel viveu na Babilônia por muitos e muitos anos, talvez até o fim de sua vida. Sobreviveu a vários reinados. Assistiu Babilônia ser tomada das mãos dos caldeus, e entregue aos medos e persas. Independente de quem estivesse no poder, Daniel se mantinha fiel à sua consciência. Ele não estava comprometido com uma ideologia ou império, e sim com o Deus de seus pais.

Durante o reinado de Dario, o rei medo, Daniel foi vítima de uma conspiração. “Todos os presidentes do reino, os prefeitos e sátrapas, conselheiros e governadores concordaram em que o rei devia baixar um decreto e fazer firme o interdito, que qualquer que, por espaço de trinta dias, fizer uma petição a qualquer deus, ou a qualquer homem, e não a ti, ó rei, seja lançado na cova dos leões” (Dn 6:7).

A arapuca estava armada. Bastava flagrar Daniel orando ao seu Deus, desobedecendo este decreto, para que este fosse lançado na cova dos leões. Era uma questão de tempo. Mas não muito tempo. “Ora, quando Daniel soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa, no seu quarto em cima, onde estavam abertas as janelas para o lado de Jerusalém, e, três vezes ao dia, se punha de joelhos, orava e dava graças, diante do seu Deus, como também antes costumava fazer” (v.10).

Pode parecer simples, porém, orar é muito mais do que uma prática religiosa. Orar é conspirar! Orar é sabotar! Orar é emperrar as engrenagens deste mundo. É denunciar as injustiças. É ser cúmplice de Deus na implantação do Seu Reino na Terra. É, portanto, uma atitude subversiva, revolucionária. Quem deixa de orar, acaba por conformar-se com o mundo. Perde a esperança. Torna-se cínico. Daniel não se dobrou ante aquele decreto injusto. Ele o desobedeceu conscientemente.

Como podemos desobedecer a autoridades constituídas por Deus? Isso não contraria o ensino das Escrituras em Romanos 13? “Toda pessoa esteja sujeita às autoridades superiores, pois não há autoridade que não venha de Deus. As autoridades que há foram ordenadas por Deus. Por isso, quem resiste à autoridade resiste à ordenação de Deus” (Rm 13:1-2a).

Como resolver este conflito? Creio que a resposta pode ser encontrada no episódio em que as autoridades judaicas proíbem os apóstolos Pedro e João de proclamarem o Evangelho e ensinarem em nome de Jesus (At 4:18). Observe a resposta que eles deram: “Julgai vós se é justo, diante de Deus, obedecer antes a vós do que a Deus?” (At 4:19).

Devemos obedecer às autoridades civis, desde que suas ordens e leis não conflitem com a vontade de Deus revelada nas Escrituras. Não confunda submissão com subserviência! É dever cristão insurgir-se contra qualquer autoridade que não esteja cumprindo seu dever de promover o bem e punir a injustiça, atribuições que lhe são requeridas na mesma passagem em que somos ordenados a submeter-nos a elas (Rm 13). 

Temos o dever de rebelar-nos contra leis injustas, que favorecem a uns à custas de outros. Ainda que os beneficiados sejamos nós mesmos. Insurgir-se contra a injustiça pode nos custar caro. Dietrich Bonhoeffer, proeminente teólogo alemão, pagou com sua própria vida por resistir à autoridade nazista em nome de sua fé. A justificativa de seu ato pode ser encontrada no livro "Resistência e Submissão", de sua autoria.

Ao ser flagrado em oração, Daniel foi lançado na cova dos leões, conforme previa a lei. Porém, o Deus a quem devia total lealdade enviou Seu anjo para impedir que fosse devorado pelas feras. Portanto, não devemos temer às ameaças daqueles que se nos opõem. Mesmo que não recebamos um livramento semelhante ao de Daniel, terá valido a pena manter-nos fiéis à nossa consciência. 
"O povo de Deus reconhecerá o governo humano como sistema estabelecido por determinação divina e, por preceito e exemplo, ensinará obediência a ele como dever sagrado enquanto sua autoridade for exercida em sua legítima esfera de ação. Mas quando as suas reivindicações estão em desacordo com as reivindicações de Deus, devemos escolher obedecer antes a Deus do que aos homens. A Palavra de Deus precisa ser reconhecida e obedecida como autoridade acima de toda legislação humana. O 'Assim diz o Senhor' não deve ser posto de lado por um 'Assim diz a Igreja ou o Estado'. A coroa de Cristo deve ser erguida acima de todos os diademas dos potentados terrestres" (Ellen G. White - Eventos Finais, p. 142).

terça-feira, 13 de outubro de 2026

MEDITAÇÃO #105 - EGOCÊNTRICOS

“Não negligencieis a prática do bem e a mútua cooperação” (Hebreus 13.16).

O egocentrismo não tem lugar na igreja. Nem devíamos dizer isso, mas, desde o alvorecer da era apostólica até hoje, o amor próprio em todas as suas formas tem prejudicado incessantemente a comunhão dos santos. 

Em nosso estado caído, estado de carnalidade, somos todos assediados por uma tendência para o egocentrismo. Isto não é uma ofensa insignificante, nem um pequeno defeito de caráter, nem uma ameaça irrelevante à saúde de nossa fé. O amor próprio é a mãe de todas as heresias. De fato, o egocentrismo é herético porque é a própria antítese de tudo que Jesus ensinou ou exemplificou. E produz sementes que dão origem a todas as outras heresias imagináveis.

Ellen White diz que "aquele que é egocêntrico perde inúmeras oportunidades para fazer aquilo que haveria trazido bênçãos aos outros e a ele próprio. É o dever do servo de Cristo, em toda circunstância, perguntar-se a si mesmo: 'Que posso fazer para ajudar a outros?' Havendo feito tudo a seu alcance, deve deixar as consequências com Deus" (Mensagens Escolhidas 1, p. 86).

Esse fato é ressaltado também pelos muitos “uns aos outros” que lemos no Novo Testamento. Somos ordenados: a amar “uns aos outros” (Jo 13:34-35; 15:12, 17); a não julgar “uns aos outros” (Rm 14:13); a seguir “as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros” (Rm 14:19); a ter “o mesmo sentir de uns para com os outros” e acolher “uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus” (Rm 15:5, 7). Somos instruídos a levar “as cargas uns dos outros” (Gl 6:2); a sermos benignos uns para com os outros, “perdoando… uns aos outros” (Ef 4:32); e a sujeitar-nos “uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5:21). Em resumo, “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2:3).

No Novo Testamento, há muitos mandamentos semelhantes que governam nossos relacionamentos mútuos na igreja. Todos eles exigem altruísmo, sacrifício e serviço aos outros. Combinados, eles excluem definitivamente toda expressão de egocentrismo na comunhão de crentes.

Ellen White também afirma que "a vontade de Deus, nosso Criador, deve ser feita evidente em nós, não apenas no nome que trazemos, mas em nossa vida de abnegação. Devemos dar provas de que somos influenciados e controlados por princípios altruístas. Todos os nossos propósitos e atividades devem permanecer em distinto contraste com o egocentrismo do mundo" (Beneficência Social, p. 296).

No entanto, isso não é tudo. O apóstolo Paulo comparou a igreja com um corpo que tem muitas partes, mas uma só cabeça: Cristo. Cristãos individuais são como partes do corpo, existem não para si mesmos, mas para o bem de todo o corpo. Além disso, cada parte é dependente de todas as outras, e todas estão sujeitas à Cabeça. Somente a Cabeça é preeminente. Ellen White nos alerta que "somos naturalmente egocêntricos e opiniosos. Mas, ao aprendermos as lições que Cristo nos deseja ensinar, tornamo-nos participantes de Sua natureza; daí em diante, vivemos a Sua vida" (A Ciência do Bom Viver, p. 157).

Não posso terminar sem ressaltar que este princípio tem uma aplicação específica para aqueles que estão em posições de liderança na igreja. É um lembrete especialmente vital nesta era de líderes religiosos que são superestrelas e pastores jovens que agem como estrelas de rock. Se Deus chamou você para ser um presbítero ou mestre na igreja, ele o chamou não para sua própria celebridade ou engrandecimento. Deus o chamou a fazer isso para a glória dele mesmo. Nossa comissão é pregar não “a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus” (2Co 4:5).

Portanto, não há lugar para egocentrismo na igreja. Tudo no evangelho, tudo que igreja tem de ser e tudo que aprendemos do exemplo de Cristo golpeia a raiz do orgulho e do egocentrismo humano.

MEDITAÇÃO #104 - SOLITÁRIOS

O rosto é sorridente. O aperto de mão, amigável. Quando lhe perguntam como está, a resposta é sempre “tudo bem”. Da hora em que chega à igreja até o momento em que se despede, todos acreditam que sua vida é repleta de felicidade. Mas, por trás de toda essa aparência, esconde-se uma pessoa extremamente solitária. Não deveria ser assim, mas a dura realidade é que nossas igrejas estão cheias de irmãos e irmãs que se encaixam nessa descrição, e que, embora escondam e não demonstrem, são muitos solitários. São cristãos, vivem em comunidade, vão aos cultos e cantam louvores, mas, na verdade, sentem-se sozinhos. Os laços com os demais são superficiais e frágeis e eles percebem que, na hora em que precisam de um ombro sincero, não o encontram.

E qual deve ser nosso papel junto a quem se vê nessa situação? Será que há algo que você possa fazer pelos milhares de solitários que transitam entre nós, mas não demonstram, tocando a vida em meio à multidão, mas tendo a solidão como companheira mais fiel? Qual é o remédio para a solidão?

Como cristãos, é importante prestarmos atenção a quem sofre, pois, sendo nós membros do Corpo de Cristo, temos o dever fraterno de zelar uns pelos outros, de acolher, amar, cuidar. O solitário geralmente tem a percepção de que, se partisse desta vida, não faria muita falta. O solitário se sente desimportante na vida dos irmãos e vive uma real necessidade de ser amado e querido. Algo que ele não quer impor, pois precisa que ocorra espontaneamente. Correr atrás das pessoas não é o remédio para a solidão.

Como igreja, precisamos estar constantemente atentos para os solitários que nos cercam. Devemos identificá-los e amá-los sem hipocrisia. A única forma de fazermos isso é saindo de nossa zona de conforto e indo até eles para buscar conhecê-los em profundidade, descobrir quem eles são e, a partir daí, criar vínculos verdadeiros. Não devemos amar os solitários como um gesto de caridade, “com pena” ou por “obrigação cristã”: precisamos buscar conhecê-los para criar laços verdadeiros de afeto mútuo e passar a amá-los de verdade. Amizades não são apenas aquelas que a vida nos joga no colo, são também as que nos mexemos para construir. 

Em sua glória celestial, o Deus que é amor jamais sentiu solidão. Acompanhado, de eternidade a eternidade, pela Trindade santa, o Criador se basta a si mesmo e se complementa, vivendo numa unidade plural e singular que faz de si um ser pleno e absolutamente destituído de carência. No entanto, dos altos céus, Ele olhou para a humanidade solitária, despida da plenitude de Deus, e desceu à terra, fazendo-se solitário como os solitários, para nos devolver a capacidade de comungar para sempre com Aquele que nunca nos deixará sós. E, ao fazer-se como um se nós, o Filho experimentou o gosto da solidão: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27:46), gemeu o Senhor agonizante. Por que Jesus decidiu vivenciar a dor dos solitários? Amor. Puro amor.

Meu irmão, minha irmã, qual é o remédio para a solidão do seu irmão? Peço a Deus que encha o seu coração do amor que é fruto do Espírito, para que você sinta em si a dor dos solitários e faça algo para cuidar de quem precisa urgentemente de calor humano. É aproximando-se de Deus que você terá discernimento para identificar as vítimas da solidão, frutificará em amor pelos tais e partirá em seu socorro com interesse genuíno. Ao fazê-lo, você estará permitindo que Deus o use para transformar a vida de tantos que precisam desse amor.

Afinal, já entendeu qual é o remédio para a solidão do seu irmão? Se você disse “Deus”… lamento, errou. Deus é o médico que aplica o remédio. O remédio… é você.
“Palavras bondosas, olhares de simpatia, expressões de apreciação, seriam para muitas almas lutadoras e solitárias como um copo de água fria a uma alma sedenta. Uma palavra compassiva, um ato de bondade, ergueriam fardos que pesam duramente sobre fatigados ombros. E toda palavra ou ato de abnegada bondade é uma expressão do amor de Cristo pela humanidade perdida” (Ellen White - O Maior Discurso de Cristo, p. 23).

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

MEDITAÇÃO #103 - MARIA

"O anjo veio e disse: 'Você é muito abençoada. O Senhor está com você!'" (Lucas 1:28 NTLH).

Deus escolheu Maria para uma missão especial. Ele chamou-a para carregar o Messias em seu ventre. Deus enviou o anjo Gabriel para lhe dar a maravilhosa notícia. A princípio, ela ficou confusa. Como podia tudo isto ser possível? Embora estivesse noiva de José, ela ainda era virgem – como poderia ter um filho? “Descerá sobre ti o Espírito Santo”, disse Gabriel, “e o poder do Altíssimo te envolverá com a Sua sombra” (Lc 1:35).

A resposta sincera de Maria foi genuína. “Que se cumpra em mim conforme a tua palavra” (v. 38). Embora a narrativa do Evangelho não fale muito acerca de Maria, ela nos conta o suficiente para revelar sua incrível força de caráter. Ela era sincera, honesta, meiga, pura, obediente e cheia de compaixão. Embora ainda fosse provavelmente uma adolescente, ela entendeu a magnitude do chamado de Deus. Maria reconheceu a sua “humildade” e foi enaltecida pelas bênçãos que todas as gerações viriam a reconhecer.

Picos e vales marcaram a vida de Maria. Eles começaram com José ameaçando deixá-la quando soube que ela estava grávida, e continuaram com uma cansativa viagem de Nazaré até Belém. Incluíram o uso de uma manjedoura como berço para o bebê. Suas emoções viraram medo das ameaças de Herodes de matar todos os meninos com menos de dois anos. Com José e o menino recém-nascido, ela fugiu, apressada, para o Egito.

Foi nos joelhos de Maria que Jesus aprendeu os cânticos de Sião e as promessas dos profetas. Com ela, Ele aprendeu submissão e confiança, oração e obediência. Ellen White apresenta-a como uma fonte de sabedoria e instrução para Jesus: “Sua mãe foi-lhe a primeira professora humana” (Orientação da Criança, p. 19). Para ela, “as próprias palavras por Jesus ditas a Moisés para Israel, eram-lhe agora ensinadas aos joelhos de Sua mãe” (O Desejado de Todas as Nações, p. 70). Maria sorriu quando Jesus deu Seus primeiros passos, e chorou quando pregaram Seus pés ao madeiro. Durante toda a vida de Jesus, ela creu nEle, e nunca se afastou.

As missões dadas por Deus nem sempre são fáceis e populares. Existem altos e baixos, alegrias e tristezas. Assim como Ele chamou Maria, Deus nos chama para sermos fiéis também. Ele nos chama para ficarmos ao lado de Jesus, agora e para sempre, por toda a eternidade.

Reflita sobre isso no dia de hoje e ore comigo agora: Senhor Deus: dá-nos forças e poder para cumprirmos as missões que colocas diante de cada um de nós. Dirija tudo e todas as coisas, por favor! Em nome de Jesus, amém!

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

MEDITAÇÃO #102 - FUZILAMENTO

O secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou nesta quinta-feira (8) que o público poderá assistir em transmissão ao vivo a execução, autorizada por Donald Trump, do ex-militar Nidal Hasan (foto), condenado por matar 13 pessoas em um ataque a tiros na base militar de Fort Hood, no Texas, em 2009. A aplicação da pena capital está marcada para 3 de dezembro e será realizada por um pelotão de fuzilamento. O caso marcaria o primeiro fuzilamento militar nos Estados Unidos desde 1945. (
G1)

Vamos refletir um pouco sobre a aplicação da pena de morte por autoridades governamentais e como o assunto é analisado sob o ponto de vista bíblico. Em uma análise rápida, é possível perceber que o tema causa muita polêmica em várias áreas do conhecimento humano: direito, política, sociologia e religião. O uso da pena capital para punição de crimes é uma realidade com viés de crescimento. As execuções globais por pena de morte atingiram 2.707 casos registrados em 2025 (excluindo a China), o maior patamar em mais de 40 anos, segundo dados da Anistia Internacional. Pessoas foram condenadas à morte em 54 países por decapitação, eletrocução, enforcamento, injeção letal e fuzilamento (caso do ex-militar).

Se o olhar agora for voltado à Bíblia, é bem interessante perceber a necessidade de compreensão dos textos do livro sagrado do cristianismo dentro de um contexto. É verdade que há citações em que Deus ordenou mortes diretas e outras por meio do povo de Israel. Em todas elas, é necessário, no entanto, compreender três aspectos. O primeiro, de que Israel, nesse período, era um regime teocrático que se valia de líderes que funcionavam como mediadores (patriarcas, gente como Moisés, Josué, juízes, etc) em relação ao povo em geral. E Deus não pode ser avaliado tal como se faz com os seres humanos, pois Ele é criador e não um homem. 

O mandamento de Êxodo 20:16 proíbe matar. O teólogo renomado Ángel Manuel Rodríguez, em artigo publicado no site do Biblical Institute Research, assinala que “o uso do verbo ratsach (matar, assassinar), no sexto mandamento, parece estar restrito ao homicídio ilegal. Nunca é utilizado para se referir à pena de morte ou ao ato de matar na guerra. Com respeito à pena de morte, encontramos o verbo hebreu môt (condenar à morte). No contexto de guerra, se utiliza comumente o verbo hebreu harag (matar, tirar a vida). Portanto, o mandamento não deveria ser utilizado exclusivamente para determinar se a guerra ou a pena capital são justas ou equivocadas”.

Além disso, fica claro que a medida da pena de morte adotada por Deus em alguns casos específicos nunca foi uma regra ideal. Trataram-se de medidas extremas com finalidades bem claras para povos que dependiam muito desse tipo de ação didática para aprender lições espirituais de obediência em diferentes aspectos (rebeliões, transgressões dos mandamentos como se lê em Números 15:32-36; Números 16, entre outros). E tinha a ver, também, com a capacidade de Deus de perceber quando determinados povos ultrapassavam os limites da misericórdia e se tornavam claros opositores dos propósitos divinos de ocupações de territórios e avanço da obra no mundo (exemplos em Deuteronômio 20:16-18 e I Samuel 15:1-35).

Importantíssimo saber que, no caso dos povos denominados cananitas e que foram grandes obstáculos no plano de Deus com o povo israelita antigo, diversos esforços de conscientização com intervenção direta divina já ocorriam há tempos (veja, por exemplo, Gênesis 15:16).

E hoje? A Bíblia declara, em textos como Romanos 13:4 e I Pedro 2:13,14, que as autoridades humanas constituídas têm a responsabilidade e direito de executar penalidades aos cidadãos. Não é uma atribuição das igrejas. Não encontro, no entanto, razões para aceitação da pena de morte como medida espiritualmente viável hoje da mesma forma como antes ocorria e nem a praticada pelos governos embora tenham o direito de fazer isso. Não vivemos mais em uma sociedade teocrática e há, conforme a Bíblia (especialmente a partir dos ensinos de Cristo e Seus discípulos), uma forma diferenciada de Deus cumprir com Seu plano de evangelização nos tempos atuais. É o mesmo Deus agindo de maneira diferenciada de acordo com diferentes contextos.

Mas não se pode esquecer que a Bíblia também prevê a morte dos que não se arrependerem (a chamada segunda morte mencionada em Apocalipse) no final da vida ou dos tempos. Esse é o juízo final que colocará fim a um mundo de pecado. Além disso, quem conhece profundamente pensamentos e intenções de cada ser humano é somente Deus e apenas Ele pode dizer por que alguns passam por esse tipo de situação e que lição podem tirar de uma circunstância tão adversa como essa.

Uma coisa é certa. Deus nunca teve prazer na morte dos seres criados, mas usou métodos diferentes para distintas realidades e percepções. A pena capital aplicada pelos homens hoje é uma questão bastante complexa para a mente humana. Mas não para a mente divina que a tudo sabe julgar…

"Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do ímpio, mas em que o ímpio se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; por que morrereis, ó casa de Israel?” (Ezequiel 33:11).

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

MEDITAÇÃO #101 - CONVERSÃO

Mudança súbita, como ocorreu com o apóstolo Paulo, ou transformação gradual, como aconteceu com o discípulo Pedro, a conversão é um fenômeno marcante. Experiência de deslocamento, Céu e Terra atuando juntos, psicologia e teologia interagindo, individualidade e comunidade marcando presença, trata-se de um evento que divide a vida em antes e depois.

Lewis Rambo, autor do livro Understanding Religious Conversion (Yale University Press, 1993), escreve: “A conversão é paradoxal. É elusiva. É inclusiva. Ela destrói e salva. É súbita e gradual. É originada totalmente pela ação de Deus e criada totalmente pela ação dos humanos. É pessoal e comunal, particular e pública. É passiva e ativa. É um afastamento do mundo. É uma resolução de conflito e uma capacitação para ir ao mundo e enfrentar, ou criar, conflito. É um evento e um processo. É o fim e o começo. É definitiva e aberta. A conversão nos deixa devastados – e transformados.”

Apesar desses tons sociológicos e psicológicos, a conversão tem um caráter essencialmente religioso e sobrenatural. Ela envolve a mudança de cosmovisão (modo de pensar) e a transformação real da vida, o que afeta a identidade, as afeições, as atitudes, os costumes, os relacionamentos, os motivos, os interesses, as prioridades e o destino da pessoa.

Exatamente por ser uma mudança tão radical que a conversão não é simplesmente o que a maioria de nós acredita ser. Alguns acham que conversão é fazer parte de uma igreja, assumir um novo credo ou mesmo adotar novos comportamentos. Acontece que “conversão” é algo que acontece na mente e que afeta a vida inteira. Ellen White diz que "a ligação a uma igreja não substitui a conversão. A aceitação do credo de uma igreja não tem valor algum para quem quer que seja se o coração não estiver verdadeiramente transformado" (Evangelismo, p. 290).

Os motivos para a conversão podem ser muitos, como retomar a herança religiosa familiar, aderir a novas verdades, resolver uma crise, mudar o roteiro pessoal e encontrar um novo propósito. Porém, o mais legítimo é o reconhecimento do estado de pecado e a necessidade de salvação. Finalizo com este maravilhoso texto de Ellen White:

"A conversão é uma obra que a maioria das pessoas não aprecia. Não é coisa pequena transformar um espírito terreno, amante do pecado, e levá-lo a compreender o inexprimível amor de Cristo, os encantos de Sua graça, e a excelência de Deus, de maneira que a alma seja possuída de amor divino, e fique cativa dos mistérios celestes. Quando a pessoa compreende estas coisas, sua vida anterior parece desagradável e odiosa. Aborrece o pecado; e, quebrantando o coração diante de Deus, abraça a Cristo como a vida e alegria da alma. Renuncia a seus antigos prazeres. Tem mente nova, novas afeições, interesses novos e nova vontade; suas dores e desejos e amor, são todos novos. A concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida até então preferidas a Cristo, são agora desviadas, e Cristo é o encanto de sua vida, a coroa de seu regozijo. O Céu, que dantes não possuía nenhum atrativo, é agora considerado em sua riqueza e glória; e ele o contempla como sua futura pátria, onde ele verá, amará e louvará Aquele que o redimiu por Seu precioso sangue. As obras da santidade, que se lhe afiguravam enfadonhas, são agora seu deleite. A Palavra de Deus, anteriormente pesada e desinteressante, é agora escolhida como estudo, como o homem do seu conselho. É como uma carta a ele escrita por Deus, trazendo a assinatura do Eterno. Seus pensamentos, palavras e atos, são comparados com esta regra e provados. Treme aos mandamentos e ameaças que ela contém, ao passo que se apega firmemente às suas promessas, e fortalece a alma aplicando-as a si mesmo. Prefere agora o convívio dos mais piedosos, e os ímpios, cuja companhia antes apreciava, já não lhe causam mais deleite. Lamenta-lhes os pecados que dantes o faziam rir. O amor-próprio e a vaidade, ele renuncia, e vive para Deus, e é rico em boas obras. Eis a santificação exigida por Deus. Nada menos que isto aceitará Ele" (Testemunhos Seletos, vol. 1, pp. 253-255).

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

MEDITAÇÃO #100 - BARRABÁS

"Quem é que vocês querem que eu solte: Barrabás ou Jesus, chamado Cristo?" (Mateus 27:17).

Os quatro evangelhos fazem referência a Barrabás, uma figura misteriosa que surge em conexão com o julgamento de Cristo. A tradição a seu respeito é reticente. Prisioneiro, ele aguardava a execução. Desejando libertar Jesus, talvez influenciado pela mensagem de sua esposa, Pilatos sugere uma escolha entre os dois: Jesus ou Barrabás?

“Esse homem [Barrabás] havia afirmado ser o Messias. Pretendia autoridade para estabelecer uma nova ordem de coisas, para emendar o mundo. Sob uma ilusão satânica, pretendia que tudo quanto pudesse obter por furtos e assaltos era dele. Por meios diabólicos havia realizado coisas admiráveis, atraído seguidores e despertado sedição contra o governo romano. Sob a capa de entusiasmo religioso, era um endurecido e consumado vilão, dado à rebelião e à crueldade. Oferecendo ao povo escolha entre esse homem e o inocente Salvador, Pilatos julgava despertar-lhes o sentimento da justiça. Esperava conquistar-lhes a simpatia para Jesus, em oposição aos sacerdotes e príncipes” (Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 733).

Mas Pilatos é colhido por uma estarrecedora surpresa: "Solte-nos Barrabás", grita a multidão.

Qual é a razão para uma escolha como essa? Os líderes religiosos daquele tempo sabiam que poderiam prender Barrabás novamente, quando necessário. Mas como poderiam silenciar alguém como Jesus Cristo? Como parar um Homem que, sem qualquer arma, representava um perigo revolucionário capaz de subverter o judaísmo e todo o Império Romano? O que fariam com Alguém cujas armas eram Suas novas ideias sobre Deus e as pessoas, capazes de explodir as velhas categorias religiosas? Barrabás poderia explorar seus conterrâneos, mas ele não ameaçava governar a vida de ninguém. Por outro lado, Jesus apresentou um reino que governa de dentro para fora. Sem imposição, conduz a uma lealdade superior à vida e à morte.

Naquela tarde da Páscoa, três ladrões, talvez do mesmo grupo, deveriam ser crucificados: Dimas, Gestas e Barrabás. Barrabás é liberto no último instante, e Jesus é crucificado em seu lugar.

Aqui nós temos a mais perfeita ilustração do princípio da substituição. A história de Barrabás é a história da salvação por meio da morte de Jesus Cristo. Seu nome, "Bar Abba", significa "filho do pai". Como ele, todos nós, filhos do pai Adão, somos culpados de rebelião e sedição contra Deus, ladrões de Sua glória, assassinos de nós próprios e de outros, prisioneiros do pecado. Barrabás, no corredor da morte, apenas aguardava a execução. Ele deve ter olhado para as palmas de suas mãos, imaginando como seria a dor dos cravos rasgando a carne, dilacerando a cartilagem e os ossos. Ouviu então o sinistro barulho da chave abrindo a pesada porta de ferro. Ouviu os passos dos guardas. "Chegou minha hora", pensou. Sua cabeça estava pesada e confusa.

Parecia até ouvir seu nome gritado por enorme multidão. Ainda não sabia exatamente o que estava acontecendo. Abismado, ouviu que estava livre: "Pode ir para casa."

Isso é substituição: Jesus tomou nosso lugar. Ele foi feito pecado para que sejamos feitos justiça de Deus. Jesus representa a verdadeira libertação por meio do amor, justiça e sacrifício; Barrabás representa a falsa e ilícita libertação, por meio do ódio, violência, injustiça e vício. O povo preferiu libertar as trevas e a mentira, e crucificar a verdade e a luz. Jesus não fez nenhum mal, e foi condenado. Barrabás não fez nenhum bem, e foi inocentado, num julgamento injusto. A menos que estejam sob a convicção do Espírito Santo, inevitavelmente as pessoas fazem a escolha espiritual errada, como fez aquela multidão. No fim, todos temos a escolha entre Cristo e Barrabás, entre Cristo e o mundo corrompido e caído, entre a vida e a morte.

Querido amigo e amiga, agradeça a Deus por esse tão grande sacrifício, aceite essa salvação gratuita que Ele oferece e não esqueça: Jesus deu a vida, morreu a morte eterna em seu e meu lugar. A cruz não era dEle. Era de Barrabás, era sua, era minha…