segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

A MEGADECIBELIZAÇÃO DO LOUVOR

Em algumas igrejas mais, em outras menos, nossos cultos estão se tornando cada vez mais barulhentos. Isso sem falar nos mega-eventos e congressos, onde toneladas de som sacodem os ouvintes. Os ruídos aumentaram na congregação: os adoradores conversam cada vez mais e os cantores exigem som cada vez mais amplificado. Não sei o que está acontecendo, mas gostaria de manifestar a minha preocupação sonora.

Nosso país é barulhento: motos sem escapamento, motores de ônibus desregulados, automóveis com caixas de som pesadíssimas e até a cachorrada da vizinhança. E as igrejas então, confundem decibéis com fé.

Joêzer Mendonça, professor, músico, pesquisador, doutor em Musicologia pela UNESP e autor do livro Música e Religião na Era do Pop diz: "Quando no livro de Amós (capítulo 5) se lê que Deus pede para que 'se afaste dEle o barulho dos instrumentos de louvor' deve-se entender que Ele não está dizendo que se pare de tocar qualquer instrumento musical que seja. O problema, na verdade, é o falso espírito de louvor de um povo que O louva com seus lábios, mas O desonra em seus corações, fazendo da música apenas um ruído desagradável. Vê-se um Deus menos preocupado com o estilo musical e mais atento ao estilo de vida do adorador. Porém, se alguém disser que os versos de Amós se referem ao atual volume das bandas de louvor estará exegeticamente errado, mas auditivamente correto. A intensidade exagerada das vozes e instrumentos se deve primordialmente à má direção musical - onde está o equilíbrio entre os instrumentos e as vozes dos cantores do grupo e da congregação? Submersa pelos decibéis empolgados da banda, a congregação acaba assistindo a um concerto. Essa megadecibelização do louvor contribui para uma inversão de papéis."

Quando vou ao templo, vou ao encontro do Criador e de meus irmãos. Sempre imagino um ambiente silencioso, aconchegante, que contribua para acalmar os achaques de minha alma. Em algumas ocasiões, entretanto, me senti obrigado a sair, ou no mínimo, a me afastar dos primeiros bancos, onde, na maioria das vezes, ficamos expostos a quilos de decibéis nada crentes.

Não é possível adorar a Deus num ambiente tumultuado, com vaivém constante de pessoas, gente falando todo o tempo, cantores embalados por bandas retumbantes e caixas de sons tonitruantes. Pode ser que eu esteja fora de moda, mas acho que precisamos nos lembrar do “aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus”. Como se acalmar num ambiente com tantas interferências?

Também não quero admitir que o templo, um lugar onde Deus Se encontra com as pessoas, seja insalubre para o nosso corpo. E não deveria ser. O livro de Ellen White, Conselhos Sobre Saúde, à página 28, diz que “a influência do Espírito de Deus é o melhor remédio para as doenças. O Céu é todo saúde”. Mas a Organização Mundial de Saúde afirma que, dependendo do tempo de exposição, o limite de decibéis que faz mal à saúde é 65. Um liquidificador produz 85 decibéis.

Ruído excessivo aumenta a adrenalina e a pressão arterial, estimula o estresse e a insônia. O excesso de ruído já levou cerca de 10 milhões de cidadãos americanos à perda da audição ou parte dela. Aqui no Brasil não temos estatísticas, mas o barulho e o ouvido deles não devem ser diferentes dos nossos. Gente surda e com zumbido no ouvido, eu conheço muita.

Em relação aos frequentadores dos cultos, os efeitos psicológicos do excesso de ruído são preocupantes. Os especialistas falam em perda de concentração (imprescindível num culto racional), irritação permanente, perda da inteligibilidade das palavras, dor de cabeça, fadiga, zumbido no ouvido e loucura. O excesso de ruído provoca interferências no metabolismo de todo o organismo, com risco de perda auditiva irreversível. A partir de 85 decibéis, não importa se o som é agradável ou não, se é produzido por música rock ou sacra, ele é, de qualquer modo, prejudicial ao corpo e em especial à audição. Devemos também nos lembrar dos vizinhos de nossas igrejas. Por que os imóveis próximos aos templos, em geral, têm baixa cotação no mercado imobiliário?

Um aspecto importante a destacar: aumentar o volume dos instrumentos musicais não vai aumentar o espírito de louvor da congregação. Como já sabemos, a igreja não vai tentar cantar mais forte que o som da banda (ou do playback), não importa quantas vezes o líder de louvor repita: “Cantem com todo entusiasmo!” Então, tudo o que teremos é música tocada em volume alto.

Nós, músicos e cantores, queremos que a igreja participe do louvor, que se envolva no canto. No entanto, pegamos cinco instrumentistas e dez cantores, por exemplo, todos com microfone, todos amplificados nas caixas de som, e depois reclamamos que a igreja continua sem cantar. Um problema pode estar no espírito de louvor que o indivíduo traz para o culto. Mas você já parou para pensar que uma boa razão para a igreja não cantar conosco pode estar no volume das vozes e da banda? Ellen White diz: “Pensam alguns que, quanto mais alto cantarem, tanto mais música fazem; barulho, porém, não é música. O bom canto é como a música dos pássaros – suave e melodioso” (Manuscrito 91, 1903).

A participação de um grupo de pessoas no louvor congregacional não é indesejável. O problema está no alto volume dos microfones, o que faz com que seja difícil escutar a voz da congregação. Às vezes, a pessoa não consegue escutar a própria voz. Isso inibe a participação da igreja que, em vez de participar, passa a assistir ao louvor. Ellen White adverte: “A música forma uma parte do culto de Deus nas cortes do alto. Devemos esforçar-nos em nossos cânticos de louvor, por aproximar-nos o mais possível da harmonia dos coros celeste. Tenho ficado muitas vezes penalizada ao ouvir vozes não educadas, elevadas ao máximo diapasão, guinchando positivamente as palavras sagradas de algum hino de louvor. Quão impróprias essas vozes agudas, estridentes, para o solene e jubiloso culto de Deus! Desejo tapar os ouvidos, ou fugir do lugar, e regozijo-me ao findar o penoso exercício. Os que fazem do canto uma parte do culto divino, devem escolher hinos com música apropriada para a ocasião, não notas de funeral, porém melodias alegres, e todavia solenes. A voz pode e deve ser modulada, suavizada e dominada” (Evangelismo, pp. 507 e 508)

Como podemos equalizar a participação de músicos, cantores e membros da congregação? Seguem algumas dicas:

1. Não intensifique demais o volume dos instrumentos. Cada instrumento musical possui sua identidade sonora e é preciso equilibrar as bases rítmica e harmônica de modo a não sufocar as vozes nem os instrumentos que dão o “chão” da tonalidade e da harmonia, como o violão e o piano. Ellen White diz que "uma balbúrdia de barulho choca os sentidos e perverte aquilo que, se devidamente dirigido, seria uma bênção” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 36).

2. Evite solos durante as frases cantadas pela congregação. Não importa se você está tocando piano, guitarra ou saxofone. Estude a música que você vai acompanhar e selecione alguns trechos para reforçar a melodia e outros em que você possa fazer um contracanto à melodia, como as partes entre as frases cantadas. Ellen White conta: “Tenho ouvido em algumas de nossas igrejas solos que eram de todo inadequados ao culto da casa do Senhor. As notas longamente puxadas e os sons peculiares não agradam aos anjos” (Evangelismo, p. 510).

3. Nossa equipe de louvor não está à frente da igreja para cantar mais alto que todos, nem para mostrar como se deve louvar, mas para apoiar, orientar e conduzir as vozes da congregação. No final da Carta 170, de 1902, Ellen White diz: “Nem sempre o canto deve ser feito apenas por alguns. Permita-se o quanto possível que toda a congregação dele participe”.

Somos chamados a cantar e tocar de todo o coração e de todo o entendimento, e não de todo volume. Vamos organizar, apoiar e orientar os momentos de louvor para que a igreja se sinta confortável e estimulada a participar também de todo coração e entendimento. Não nos esqueçamos de que o louvor é congregacional. Giovanni da Palestrina, compositor da Renascença, diz que "o culto na igreja não é um concerto no qual o público canta com os cantores principais. Musicistas – cada um deles, incluindo os cantores - acompanham o louvor da congregação. Eles deveriam estar misturados ao som o suficiente apenas para fazer a sua parte, conduzindo e apoiando a congregação."

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

IGREJA E ESCOLA DE SAMBA

Seria lícito tomar o desfile do Carnaval como analogia de nossa caminhada cristã? Certamente, a maioria dirá que não. Afinal de contas, o Carnaval é a festa pagã por excelência, onde, além de toda promiscuidade, entidades pagãs são homenageadas. Eu poderia gastar muitas linhas tecendo críticas justas a esta festa em que tantas famílias são desfeitas, e inúmeras vidas destruídas. Porém hoje, quero pegar a contramão.

Por que será que os cristãos sempre enfatizam os aspectos ruins de qualquer manifestação cultural? Se vivêssemos nos tempos primitivos da igreja cristã, como reagiríamos ao fato de Paulo tomar as Olimpíadas como analogia da trajetória cristã neste mundo? Ora, os jogos olímpicos celebravam os deuses do Olimpo. Portanto, era uma festa idólatra. Os atletas competiam nus. Sem contar as orgias e os sacrifícios que se seguiam às competições. Sinceramente, não saberia dizer qual seria pior, as Olimpíadas ou o Carnaval. Porém, Paulo soube enxergar alguma beleza por trás daquela manifestação cultural. A disposição dos atletas, além do seu preparo e empenho, foram destacados pelo apóstolo como virtudes a serem cultivadas pelos seguidores de Cristo.

E quanto ao Carnaval? Haveria nele alguma beleza, alguma virtude que pudesse ser destacada do meio de tanta licenciosidade? Podemos enxergar alguma ordem no meio do caos carnavalesco? O que a igreja poderia aprender com os desfiles das escolas de samba?

Concentração
O desfile começa com a concentração. É ali que é dado o grito de guerra da Escola, seguido pelo aquecimento dos tamborins. A concentração equivale à congregação. Nosso lugar de culto (comumente chamado de “templo” ou “igreja”) é onde nos concentramos e aquecemos nosso espírito. Porém, a obra acontece lá fora, “na avenida” do mundo.

Gosto quando Paulo fala que somos conduzidos por Cristo em Seu desfile triunfal. O apóstolo compara a marcha cristã pelo mundo às paradas triunfais promovidas pelo império romano. Era um espetáculo cruento, no qual os presos eram expostos publicamente, acorrentados e arrastados pelas ruas da cidade. Era assim que Roma exibia sua supremacia, e impunha seu poder. Paulo toma emprestada a figura deste majestoso e horroroso evento para afirmar que Cristo está nos exibindo ao Mundo como aqueles que foram conquistados por Seu amor. Muitos cristãos acreditam ingenuamente que a guerra se dá na concentração. Por isso, a igreja atual é tão ensimesmada, isto é, voltada para dentro de si. Ela passou a ver-se como um fim em si mesmo. A avenida nos espera!
"Devemos sentir agora a nossa responsabilidade de trabalhar com intenso ardor, a fim de comunicar a outros as verdades que Deus nos tem revelado para o tempo atual. Não podemos ser demasiado diligentes. A obra evangelística, de abrir as Escrituras aos outros, advertindo homens e mulheres daquilo que está para vir ao mundo, deve ocupar, mais e mais, o tempo dos servos de Deus" (Evangelismo, p. 172).
Comissão de Frente
Encabeçando o desfile vai a comissão de frente, seguida pelo carro abre-alas. Compete aos componentes dessa comissão a primeira impressão. A comissão de frente da igreja de Cristo é formada pelos que nos precederam, que abriram caminho para as novas gerações. Não podemos permitir que caiam no esquecimento. Também são os missionários, que deixam sua pátria para abrir caminho em outros rincões. Grande é sua responsabilidade, e alto é o preço que se dispõem a pagar para que o Evangelho de Cristo chegue às populações ainda não alcançadas. Paulo fazia parte da comissão de frente da igreja primitiva. Escrevendo aos Coríntios, ele diz que sua missão era “anunciar o evangelho nos lugares que estão além de vós, e não em campo de outrem” (2Co 10:16). Em bom português, o apóstolo dos gentios preferia pescar em alto mar, e não no aquário dos outros.
"Os que desejam avivar a memória e ser instruídos na verdade, precisam estudar a história da Igreja primitiva durante e imediatamente após o dia de Pentecostes. Estudai atentamente, no livro de Atos, as experiências de Paulo e dos outros apóstolos, pois o povo de Deus, em nosso tempo, terá de passar por experiências similares" (Eventos Finais, p. 148).
Fantasias, Carros alegóricos, Samba-enredo
Destaco também a criatividade dos foliões, principalmente dos carnavalescos na composição das fantasias, dos carros alegóricos e do samba-enredo. É notória sua busca pela perfeição. Diz-se que o desfile do ano seguinte começa a ser preparado quando termina o Carnaval. É, de fato, um trabalho árduo que demanda muito empenho.

Se houvesse por parte de muitos cristãos uma parcela da dedicação encontrada nos barracões de Escolas de Samba, faríamos um trabalho muito mais elaborado para Deus. Buscaríamos a excelência, em vez de nos contentar com tanta mediocridade. Tomemos por exemplo as composições musicais. Basta ouvir algumas estrofes para perceber o trabalho de pesquisa que envolve a composição de um samba-enredo. Sem contar as rimas ricas, as melodias marcantes, e a ousadia criativa das baterias. Enquanto isso, composições que visam louvar a Deus estão cada vez mais pobres, tanto do ponto de vista melódico, quanto do ponto de vista lírico.
"O Senhor não está satisfeito com a atual falta de ordem e exatidão entre os que trabalham na Sua obra. Tudo quanto tenha qualquer relação com a obra de Deus deve ser tão perfeito quanto seja possível ao cérebro e às mãos humanos. É um pecado ser descuidado, sem ideal e indiferente em qualquer trabalho em que nos empenhemos, mas especialmente na obra de Deus. Cada empreendimento relacionado com Sua causa deve ser realizado com ordem, previsão e fervorosa oração. Cada um deve prostrar-se em seu grupo e em seu lugar, fazendo seu trabalho. Cada indivíduo entre vocês deve, perante Deus, realizar um trabalho para estes últimos dias que é importante, sagrado e majestoso" (Evangelismo, p. 94).
Harmonia e Evolução
A Escola de Samba é dividida em alas, cada uma com fantasias e carro alegórico próprios. Porém, o samba-enredo é o mesmo. O que é cantado lá na frente, é sincronicamente cantado na última ala da Escola. A voz do puxador do samba, bem como a batida harmoniosa da bateria, ecoando por toda a avenida, garantem esta sincronia. Não pode haver espaços vazios entre as alas. Há harmonia até nas cores das fantasias. Ninguém entra na avenida vestido como quiser. Imagine se as variadas denominações que compõem o Corpo Místico de Cristo se relacionassem da mesma maneira, respeitando cada uma o espaço da outra, porém dentro de uma evolução harmoniosa.
“'Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos' (1Co 14:33). Cristão deve estar em união com cristão, igreja com igreja, cooperando o instrumento humano com o divino, achando-se cada agência subordinada ao Espírito Santo, e tudo em combinação para dar ao mundo as boas-novas da graça de Deus" (Atos dos Apóstolos, p. 53).
Mestre-sala e Porta-bandeira
No meio do desfile encontramos o casal formado pelo mestre-sala e pela porta-bandeira. Eles exibem orgulhosamente o pavilhão da Escola. Seus gestos e passos são cuidadosamente combinados, para que a bandeira receba as honras devidas. É triste verificar como a bandeira do Evangelho tem sido chacoalhada, pois os que a deveriam ostentar, são os primeiros a desonrá-la com seu mal testemunho. Entretanto, os cristãos primitivos se dispunham a pagar com a própria vida para que seu testemunho de fé fosse validado e o nome de Cristo fosse honrado.
"Os cristãos primitivos foram chamados muitas vezes a enfrentar face a face os poderes das trevas. Mediante a perseguição e o sofisma, o inimigo se esforçava por fazê-los desviarem-se da verdadeira fé. Eles sentiram que Deus os chamara para dar a luz do evangelho ao mundo e, ao fazê-lo, estavam prontos a sacrificar suas posses, liberdade e a própria vida. Somos nós, nesta última batalha do grande conflito, igualmente fiéis ao nosso encargo?" (Cristo Triunfante, p. 357).
Momento da Dispersão
Ao término do desfile chega o momento da dispersão. É hora de partir, levando a certeza de que todos deram o melhor de si. Alguns saem machucados, com os pés sangrando, com as forças exauridas. Mas todos saem alegres, esperançosos. Aprenderam a sublimar a dor enquanto desfilam. Ignoram o cansaço. Vencem os limites do seu corpo. Tudo pela alegria de ver sua Escola se sagrando campeã. Mas no fim, chega a hora de tirar a fantasia, descer dos carros alegóricos, cuidar das feridas. Mesmo assim, ninguém reclama. Todos exibem no rosto um sorriso de contentamento.

Semelhantemente, todos estamos a caminho do fim do desfile. O momento da dispersão está chegando, quando deixaremos este corpo, nossa fantasia, e seremos saudados pela Eternidade. Que diremos nesta hora? Não haverá novos desfiles. Terá chegado o fim de nossa trajetória? Não! Será apenas o começo de uma nova fase existencial. Deixaremos nossas fantasias, para nos revestirmos de novas vestes celestiais. Falaremos como Paulo em sua carta de despedida a Timóteo: "...o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a Sua vinda” (2 Timóteo 4:6b-8).

Aproveitemos os instantes em que estamos na avenida desta vida, celebremos a verdadeira alegria, infelizmente ainda desconhecida por muitos foliões, e que não terminará em cinzas.
"O inimigo busca por muitas maneiras levar-nos a buscar satisfação em divertimentos e prazeres que parecem desejáveis ao coração carnal. Mas os verdadeiros filhos de Deus não procuram sua felicidade neste mundo; buscam as perduráveis alegrias de um lar na cidade eterna, onde Cristo habita, e onde os remidos receberão as recompensas da obediência aos mandamentos de Deus. Estes não desejam as diversões transitórias, baratas, desta vida, mas a duradoura bem-aventurança do Céu" (Mente, Caráter e Personalidade 1, p. 314).

* Os textos em destaque são de autoria de Ellen G. White. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O ERRO DE DARWIN

O Dia de Darwin é celebrado em 12 de fevereiro, data de nascimento de Charles Darwin (1809), homenageando o naturalista e sua teoria da evolução por seleção natural. A data destaca o legado de suas observações, especialmente a biodiversidade das Ilhas Galápagos e os tentilhões, fundamentais para a biologia moderna.

Charles Darwin é um ícone para a maioria dos evolucionistas. Falando dele, Will Durant escreveu que seu nome poderia passar para a posteridade “como o ponto de inflexão no desenvolvimento de nossa civilização ocidental”, e completou que, “se ele estiver certo, os homens terão que datar 1859 como o começo do pensamento moderno”. Darwin morreu em 1882, teve um funeral de estado e foi sepultado na Abadia de Westminster ao lado de grandes nomes. Embora Julian Huxley tenha mencionado o “eclipse do darwinismo” na década de 1940, hoje inúmeros cientistas acham que nada faz sentido sem a teoria da evolução.

Por outro lado, os criacionistas veem Darwin como um pensador atormentado que defendeu ideias infundadas e nocivas. No julgamento de John Scopes, William Jennings Bryan descreveu a cosmovisão darwinista como “um dogma de escuridão e morte”. Tendo estudado para ser um clérigo, Darwin deveria crer firmemente no Criador. No entanto, ele perdeu todo vestígio de fé em um Deus bondoso quando morreu sua adorada filha Annie. Ao tentar tirar Deus da equação da vida e a Bíblia do repertório de explicações do mundo, ele não percebeu a ação do inimigo na natureza.

A partir das ideias darwinistas, a disputa entre criacionismo e evolucionismo se intensificaram, com implicações culturais, políticas e teológicas. Porém, como deve o adventista se portar diante dessa batalha intelectual? Confiar plenamente na Palavra de Deus. A narrativa da criação em Gênesis estabelece várias verdades que são reafirmadas ao longo da Bíblia e oferece respostas para as perguntas mais intrigantes da vida.

Primeiro, o texto indica quem criou: Deus. O destaque em Gênesis é o Criador. Ele planejou, criou e organizou tudo. Kenneth Mathews afirma em seu comentário Genesis 1–11:26 (Broadman & Holman, 1996): “‘Deus’ é o sujeito gramatical da primeira sentença (1:1) e continua como o sujeito temático ao longo do relato.” Sem Deus, o caos seria a máxima possibilidade do mundo. Com Deus, o cosmos é a realidade.

Em segundo lugar, o relato apresenta o quando: no princípio. A Bíblia não revela a data da criação do Universo, mas assegura que foi no começo. Embora não haja consenso sobre o significado da expressão “no princípio”, há boas razões para acreditar que ela se refira a um tempo muito distante. Ao que tudo indica, Deus criou o Universo e a Terra há milhões de anos e a vida no planeta num período recente.

Em terceiro lugar, o registro descreve o como: criação pela palavra. O evolucionismo ensina que tudo surgiu por meio de uma trindade formada por tempo, acaso e seleção natural. Mas a Escritura revela que Deus falou e tudo apareceu. A expressão “E disse Deus: Haja…” aparece em vários versos (3, 6, 9, 11, 14, 20, 24, 26). Esse fato é reafirmado poeticamente pelo salmista (Sl 33:6, 9). Longe de a vida surgir por meios lentos, caóticos e randômicos, Deus criou por um método rápido, pessoal e dirigido.

Em quarto lugar, Gênesis revela o que: o Universo. A expressão “os céus e a Terra” é uma figura de linguagem para indicar o cosmos. Ela é diferente da expressão encontrada em Gênesis 2:1 (“os céus e a Terra e todo o seu exército”), que se refere à biosfera terrestre e seus três habitats descritos em Gênesis 1:3-31, como explica Richard Davidson em seu capítulo no livro He Spoke and It Was (Pacific Press, 2015). De acordo com o teólogo, essa expressão de Gênesis 1:1 está em paralelo com a que aparece em 2:4, formando uma estrutura quiástica, muito comum na Bíblia.

Por fim, o relato sugere o porquê: um ambiente proposital para o ser humano. O termo “bom” (hebraico tov), repetido seis vezes em Gênesis 1, foi usado para toda a criação, e, quando o homem foi criado, o mundo ficou completo e passou a ser “muito bom”. O selo de aprovação e qualidade foi conferido pelo próprio Deus.

O relato de Gênesis foi escrito com o objetivo claro de desconstruir as cosmogonias (teorias das origens) e mitologias da época. Trata-se de uma narrativa artisticamente construída, mas seus paralelismos seguem as ações esteticamente planejadas de Deus, o maior Artista do Universo. Confiar nessa narrativa situada no Jardim do Éden ainda é o melhor antídoto contra as ideias elaboradas em Galápagos.

[Com informações de Revista Adventista]

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A INVOLUÇÃO HUMANA

Nossa perspectiva sobre a involução humana é fundamentada na crença de que, após a queda de Adão e Eva no Éden, a raça humana não evoluiu para melhor, mas sim degenerou progressiva e cumulativamente em termos físicos, mentais e morais. Essa visão contrasta com a teoria da evolução biológica e foca na deterioração causada pelo pecado e pela violação das leis da natureza.

Aqui estão os pontos principais dessa perspectiva: 

Criação especial
O livro de Gênesis apresenta um relato bem definido da vida social e individual, e, todavia, não temos notícia de alguma criança que nascesse com alguma deficiência física ou mental. Não é mencionado um só caso de morte natural na infância, meninice ou juventude. Não há relato algum de homens e mulheres vitimados por doenças. Os obituários no livro de Gênesis declaram o seguinte: “E foram todos os dias que Adão viveu novecentos e trinta anos; e morreu” (Gênesis 5:5). “E foram todos os dias de Sete novecentos e doze anos; e morreu” (Gênesis 5:8). Com referência a outros, diz o relato: “Morreu em boa velhice, velho e farto de dias” (Gênesis 25:8). Era tão raro morrer um filho antes de seu pai que tal acontecimento foi considerado digno de menção: “E morreu Harã, estando seu pai Terá ainda vivo” (Gênesis 11:28). Harã já era pai ao tempo de sua morte. 

Força vital
Deus dotou o homem de tão grande força vital que ele tem resistido ao acúmulo de doenças lançadas sobre a humanidade em consequência de hábitos pervertidos, e tem sobrevivido por seis mil anos. Este fato, por si mesmo, é suficiente para nos mostrar a força e a energia que Deus conferiu ao ser humano na criação. Foram necessários mais de dois mil anos de delitos e de condescendência com as paixões inferiores para trazer sobre os seres humanos enfermidades físicas em grande escala. Se Adão, ao ser criado, não houvesse sido dotado de vinte vezes maior vitalidade do que os homens possuem agora, a humanidade, com seus atuais métodos de vida que constituem uma violação da lei natural, já estaria extinta. Por ocasião do primeiro advento de Cristo, o ser humano degenerara tão rapidamente que um acúmulo de doenças pesava sobre aquela geração, suscitando uma torrente de aflição e uma carga de sofrimento indescritível. 

Degeneração do ser humano
Como se encontra deplorável a condição do mundo no tempo atual. Desde a queda de Adão, a humanidade tem estado degenerando. A decadência física, mental e moral faz com que nossos corações fiquem pesarosos e abatidos. Deus não criou o gênero humano em sua presente condição debilitada. Este estado de coisas não é obra da Providência, mas do homem; e tem sido ocasionado por maus hábitos e abusos, pela violação das leis que Deus estabeleceu para governar a existência humana. A violação da lei física e sua consequência — o sofrimento humano — têm prevalecido por tanto tempo que homens e mulheres consideram o presente estado de doença, sofrimento, debilidade e morte prematura como a sorte destinada aos seres humanos. O homem saiu das mãos do Criador perfeito e belo na forma, e de tal modo dotado de força vital que levou mais de mil anos para que os corruptos apetites e paixões, bem como a geral violação da lei física, fossem sensivelmente notados na humanidade. As gerações mais recentes têm experimentado a pressão da debilidade e da doença mais rápida e rigorosamente a cada geração. As forças vitais têm sido grandemente enfraquecidas pela condescendência com o apetite e as paixões da concupiscência. 

Comparação com o passado
Os patriarcas desde Adão até Noé, com poucas exceções, viveram quase mil anos. Depois do tempo de Noé, a duração da vida tem diminuído gradualmente. Os que sofriam de enfermidades eram levados a Cristo de toda cidade, vila e aldeia para serem curados por Ele; pois eram afligidos por toda sorte de doenças. E a doença tem aumentado constantemente através das gerações sucessivas desde aquele período. Em virtude da continuada violação das leis da vida, a mortalidade tem aumentado de modo alarmante. Os anos de vida dos homens têm diminuído a tal ponto que a geração atual desce à sepultura antes mesmo da idade em que as gerações que viveram durante os dois primeiros mil anos, após a criação, se lançavam ao campo de ação. 

A devastação do pecado
A doença tem sido transmitida de pais a filhos, de geração a geração. Crianças de berço são severamente afligidas por causa dos pecados de seus pais, que reduziram sua força vital. Seus maus hábitos de comer e vestir, e sua dissipação geral, são transmitidos como herança aos filhos. Muitos nascem com deficiências físicas, e uma classe muito numerosa é deficiente no intelecto. A estranha ausência de princípios que caracteriza esta geração, e que se manifesta no desprezo mostrado às leis da vida e da saúde, é espantosa. Prevalece a ignorância sobre este assunto, embora a luz esteja brilhando por toda parte ao redor deles. A preocupação da maioria é: Que comerei? Que beberei? e com que me vestirei? (Mateus 6:31). 

Escravidão do apetite
Cedendo à tentação de satisfazer o apetite, Adão e Eva caíram originalmente de sua condição elevada, santa e feliz. E é por meio da mesma tentação que os homens têm se debilitado. Eles têm permitido que o apetite e a paixão ocupem o trono, mantendo em sujeição a razão e o intelecto. A despeito de tudo o que é declarado e escrito acerca do modo como devemos tratar o corpo, o apetite é a grande lei que governa homens e mulheres em geral. As faculdade morais estão enfraquecidas porque homens e mulheres não querem viver em obediência às leis da saúde nem fazem deste grande assunto um dever pessoal. Os pais transmitem a seus descendentes os próprios hábitos pervertidos, e doenças repulsivas corrompem o sangue e debilitam o cérebro. A maioria dos homens e das mulheres satisfazem o pervertido apetite ao usar venenos lentos, que corrompem o sangue e minam as forças nervosas, trazendo, consequentemente, doença e morte sobre si. Rebelaram-se contra as leis da natureza, e sofreram a punição deste abuso. Sofrimento e mortalidade prevalecem agora em toda a parte, principalmente entre crianças. Quão grande é o contraste entre esta geração e as que viveram durante os dois primeiros mil anos!

Esperança e restauração
Enquanto Jesus não retornar, haverá maior fragilidade física resultante do pecado e das transgressões das leis da saúde. Mas após a segunda vinda de Cristo a este mundo, todos os salvos ressuscitarão e sairão do túmulo com a mesma estatura que tinham quando ali entraram. Adão, que está em pé entre a multidão dos ressuscitados, é de grande altura e formas majestosas, de estatura pouco menor que o Filho de Deus. Apresenta assinalado contraste com o povo das gerações posteriores; sob este único ponto de vista se revela a grande degeneração da raça. Todos, porém, surgem com a louçania e vigor de eterna mocidade. Restabelecidos à árvore da vida, no Éden há tanto tempo perdido, os remidos crescerão até à estatura completa da raça em sua glória primitiva. Então, os últimos traços da maldição do pecado serão removidos, e os fiéis de Cristo aparecerão na beleza do Senhor nosso Deus, refletindo no espírito, alma e corpo, a imagem perfeita de seu Senhor. A verdadeira "evolução" ou restauração da perfeição original só ocorrerá com a segunda vinda de Jesus, que porá fim à dor, à morte e à degeneração humana.

[Baseado nos livros Testemunhos para a Igreja vol. 3, Mensagens Escolhidas vol. 2, Conselhos sobre Saúde, Conselhos sobre Regime Alimentar e O Grande Conflito de Ellen G. White]

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

CRISTIANISMO NÃO EXISTE

“Cristianismo simplesmente não existe” (Søren Kierkegaard).

E quem seria capaz de contestar esta afirmação de Kierkegaard? Há, de fato, um Cristianismo que não existe. Mas antes de afirmar a não-existência de um Cristianismo aparentemente existente, faz-se necessário explorar o que a própria Bíblia diz a respeito desta palavra.

Em que lugar da Bíblia algum autor inspirado cita a palavra Cristianismo? Em nenhum lugar.

Peter Leithart nota que na Bíblia ninguém é convidado a proclamar o Cristianismo, a ensinar o Cristianismo, ou sequer a aceitar o Cristianismo. Ainda assim, a palavra existe no nosso vocabulário. Os Evangelhos falam de Cristo e de seus seguidores que eventualmente passaram a ser chamados de Cristãos. Mas a base, a visão, o fundamento da palavra “Cristão” se centrava em Cristo, Suas palavras, Sua vida, e a missão por Ele deixada.

Na Bíblia não encontramos a palavra nem o conceito de Cristianismo. Mas após inúmeras expansões territoriais e evangelísticas, o “Cristianismo” invadiu o mundo. No entanto, em algum momento desta milenar jornada, o Cristianismo parece ter perdido sua ligação com os Evangelhos. Se tornou um corpo de doutrinas professado por Cristãos, ou uma maneira de adorar o Cristo ressurreto. Tudo muito objetivo e cognitivo. Cristianismo é “isso” e se você aceitar “isso” você se torna um Cristão. Mortes e guerras encontraram suas justificativas no palavra (e no conceito) Cristianismo, riquezas foram acumuladas em nome do Cristianismo e povos foram oprimidos em nome da cruz. Ao se distanciar dos Evangelhos, o Cristianismo –que já não é um conceito Bíblico per se– se tornou algo que, quando muito, remotamente se assemelha à religião bíblica descrita nos Evangelhos.

Dostoiévski no capítulo “O Grande Inquisidor” de seu livro Irmãos Karamazov descreve o problema da seguinte maneira: a tentação que o homem Jesus divinamente rejeitou –de poder, honras e glória– foram aceitos pela Igreja Cristã através de seus líderes falhos e humanos. Desta maneira, ao longo de séculos e milênios, a religião Cristã se tornou uma antítese dos ensinamento e da vida de Cristo. Por isto a afirmativa de Kierkegaard: afinal, os atos, a postura e a religião de Jesus nos Evangelhos, era irreconhecível no Cristianismo de sua época.

Hoje em dia a situação não é diferente. Por mais que muitas pessoas ainda de fato vivam um novo tipo de existência ao se decidirem por seguir a Cristo, ainda existe muito charlatão, muito líder religioso corrupto, muito fiel egoísta em busca apenas de riquezas, bênçãos e realizações pessoais, além da evidente ausência de ética tanto na esfera pública como religiosa; e isto debaixo da bandeira do Cristianismo e em países que se denominam Cristãos. E se “Cristianismo” é tudo isto, ele não é nada; porque uma palavra que pode significar tantas coisas diferentes –e até opostas– perde seu significado.

As palavras de Cristo, o texto Bíblico através do qual Ele ainda hoje se quer fazer entender, nos interessam de forma parcial nos dias de reuniões de nossas comunidades religiosas, quando muito. Nos púlpitos ao redor do mundo somos dificilmente confrontados com a realidade do texto. São poucos os pregadores que estão dispostos a deixar suas agendas particulares (ou de suas instituições religiosas) de lado para, em contrição, simplesmente buscar transmitir o que o texto disse e ainda diz. Há poucos profetas.

Para preencher o tempo e desviar a atenção da nossa indisposição de estudar o texto a fundo, costumamos dar ênfase a discussões menores, menos relevantes e paralelas. Define-se um comportamento padrão e discute-se uma infinidade de variações ou “desvios” deste comportamento denominado “padrão”. Discute-se a relação entre fé e evidências (no caso, evidências extra-bíblicas). Discute-se a relação entre fé e ciência. Como o texto não é interessante, fazemos apologética. Procuramos –às vezes até inventamos– um inimigo em comum do qual precisamos nos defender, ou melhor: defender a fé. Aliás, preferimos defender a fé do que viver a fé, debater a fé do que entender que fé é esta. E esta busca incessante por discussões paralelas e menores apenas confirma uma triste realidade: o texto bíblico não é interessante o suficiente. Damos prioridade a discussões de “fatos” externos (científicos/arqueológicos/metafísicos) sem perceber que tais discussões são no máximo secundárias. O desafio deixado por Kierkegaard continua até hoje: desenvolver a honestidade e a coragem de dizer que o “Cristianismo” nos nossos dias (junto com suas discussões, ética, e prioridades estranhas) não existe.

Que esta confissão nos conduza de volta ao texto Bíblico, aos Evangelhos de Gênesis, Êxodo e João. Precisamos redescobrir o que significa Cristianismo, pois, atualmente, ele simplesmente não existe.

Assista também o vídeo abaixo "Cristianismo não Existe", por Tiago Arrais, ministrado como palestra dividida em 5 noites.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

CASO EPSTEIN

Jeffrey Epstein era um rico financista americano e criminoso sexual condenado que começou sua carreira profissional como professor e depois migrou para o setor bancário. Tendo desenvolvido um círculo social de elite, ele conseguiu causar danos incalculáveis ​​a inúmeras mulheres e sair impune por anos. Em 6 de julho de 2019, ele foi preso sob acusações federais de tráfico sexual de menores na Flórida e em Nova York. Ele inevitavelmente enfrentaria o resto da vida na prisão, mas em 10 de agosto foi encontrado morto aos 66 anos em sua cela. O legista considerou a morte um suicídio, deixando muitas de suas vítimas revoltadas com a sensação de que a justiça não foi feita.

Essa história já é perturbadora o suficiente, mas piora. Em 2005, a polícia de Palm Beach, na Flórida, começou a investigar Epstein depois que uma mãe denunciou que ele havia abusado sexualmente de sua filha de 14 anos. Em 2007, apesar das provas contundentes e de múltiplas testemunhas corroborando os relatos das vítimas de abuso sexual, os promotores federais e os advogados de Jeffrey Epstein fecharam discretamente um acordo extraordinário para Epstein, que o livrou de uma sentença mais severa e do cumprimento de pena em uma prisão estadual, onde a maioria dos condenados por crimes sexuais cumpre suas penas. Seus supostos cúmplices, que o ajudavam a agendar os encontros sexuais, nunca foram processados.

Epstein concordou em se declarar culpado de duas acusações de prostituição em um tribunal estadual e, em troca, ele e seus cúmplices receberam imunidade contra acusações federais de tráfico sexual que poderiam tê-lo levado à prisão perpétua. Ele cumpriu 13 meses em uma ala privada da prisão do Condado de Palm Beach. Durante esse período, ele teve permissão para entrar e sair da prisão e para usar um serviço de limusine para voltar para casa.

Recentemente, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou mais de três milhões de páginas de arquivos do caso de Jeffrey Epstein, incluindo fotos e vídeos, alguns tirados pelo próprio bilionário condenado por crimes sexuais. Cerca de 2.000 vídeos e 180 mil imagens estão nos arquivos liberados. Foram deixados de fora imagens sensíveis, como as que remetem a abuso sexual infantil ou violência, e documentos que identificassem as vítimas de Epstein.

Trechos de documentos do caso Epstein foram divulgados na imprensa e revelaram que famosos, bilionários e políticos participaram das polêmicas festas do empresário. Personalidades como Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, Cate Blanchett, Bruce Willis, Kevin Spacey, George Lucas, Michael Jackson, Mick Jagger, Jay-Z e Naomi Campbell foram citados, os bilionários poderosos Elon Musk, Bill Gates, Sarah Ferguson, Richard Branson e Ehud Barak, além de Trump, Bill Clinton e o príncipe Andrew, mas nenhum deles recebeu acusações formais por crimes.

Que escândalo! Como isso pôde acontecer em um país que se orgulha de leis justas e processos legais? Não sei quanto a vocês, mas essa história desperta meu senso de justiça. Agora consigo compreender melhor a oração do Salmista pelo rei de sua nação:

"Dá ao rei a tua justiça, ó Deus, e a tua retidão ao filho do rei! Que ele julgue o teu povo com justiça e os teus pobres com equidade! Que ele defenda a causa dos pobres do povo, dê livramento aos filhos dos necessitados e esmague o opressor!" (Salmo 72:1-4)

Sou grato pela promessa de que um dia Deus se levantará “para estabelecer a justiça e salvar todos os oprimidos da terra” (Salmo 76:9). Sinto alívio em saber que Deus instruiu aqueles que detêm o poder a julgarem sem parcialidade (Levítico 19:15). É claro que a história de Israel mostra que, na maioria das vezes, aqueles que ocupavam posições de poder abusaram de seus privilégios e julgaram de forma egoísta.

A Bíblia tem muito a dizer sobre o amor, a graça e a misericórdia de Deus. É por causa da Sua bondade que somos levados ao arrependimento (Romanos 2:4). Devemos nos consolar ao saber que o Deus a quem servimos ama a justiça e odeia a opressão. Isso deve ser uma boa notícia para os oprimidos da Terra, embora não seja tão boa notícia para os opressores (Tiago 5:1-9). Embora a justiça não seja plenamente alcançada em nosso mundo corrupto, Deus agirá para corrigir todo o mal e restaurar o nosso mundo de uma vez por todas.

Ellen White diz: "O Senhor virá em breve. Impiedade e rebelião, violência e crime espalham-se por todo o mundo. Os clamores dos que sofrem e dos oprimidos sobem a Deus, pedindo justiça. Aquele que comanda as estrelas na sua órbita nos céus, e cuja palavra controla as águas do grande abismo — o mesmo Criador infinito atuará em favor do Seu povo. Há um Deus em Israel, com quem está o livramento para todos os que se acham oprimidos. Justiça é a base do Seu trono" (Nos Lugares Celestiais, p. 362).

Homens podem ser comprados. Provas podem ser ocultadas. Julgamentos podem ser manipulados. A verdade pode ser amarrada e silenciada por um tempo, mas diante do trono do Altíssimo, ninguém esconde nada. O Senhor vê o que foi feito no escuro. Ele conhece o coração do inocente e desmascara o culpado que se esconde atrás da aparência de justiça. O tempo de Deus não atrasa. A colheita é inevitável. Pode parecer que o mal venceu, mas só parece. A justiça do Senhor virá, e quando vier, ninguém poderá impedir.

Ellen White conclui: "O Juiz de toda a Terra tomará decisão justa. Não poderá ser subornado; não Se pode enganar. Aquele que criou o homem, e a quem pertencem os mundos e todos os tesouros que contêm — Ele é que pesa o caráter nas balanças da justiça eterna" (The Review and Herald, 19 de Janeiro de 1886).

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A PSICOLOGIA DO MARTÍRIO

Ao longo da história, poucas figuras e a consciência do mundo cristão como os mártires – aqueles que escolheram morrer em vez de negar sua fé. Suas histórias não são apenas registros trágicos de crueldade e perda. São testemunhos poderosos de convicção, coragem e devoção inabalável a Deus. A palavra mártir vem do grego martys, que significa “testemunha”, e no passado se referia especificamente a alguém que deu testemunho de Cristo através da morte. Com o tempo, no entanto, o termo foi aplicado de forma mais ampla àqueles que morrem por causas políticas, patrióticas ou ideológicas.

No entanto, o martírio cristão continua sendo singular. O que possibilita uma pessoa a enfrentar a tortura e a morte com serenidade – e até alegria? Como um ser humano pode suportar chamas, feras e lâminas sem renunciar às suas crenças? Neste artigo, exploramos não apenas as dimensões históricas e físicas do martírio, mas também o mundo interior dos mártires – seus pensamentos, motivações, visão de mundo e foco espiritual. Ao examinar o que as Escrituras e a história revelam sobre esses indivíduos, podemos entender melhor a profunda dinâmica psicológica e teológica que os levou a abraçar o sofrimento por causa de Cristo.

INSTRUMENTOS DE TORTURA
Para compreender a profundidade do compromisso demonstrado pelos mártires cristãos, é preciso primeiro entender a realidade brutal que eles enfrentaram ao longo da história. O martírio não é um ideal poético ou um conceito abstrato – é um horror físico e tangível. Desde os primeiros séculos da era cristã – particularmente durante o Império Romano e as Inquisições do período medieval – até nossos dias, os crentes foram submetidos a métodos cruéis de perseguição e execução além da imaginação, cuidadosamente projetados para infligir o máximo de dor e humilhação.

Tragicamente, mesmo no século 21, cristãos em várias partes do mundo continuam a sofrer prisão, tortura e morte simplesmente por permanecerem fiéis às suas crenças. Esses atos de violência, antigos ou modernos, têm sido frequentemente usados como espetáculos deliberados destinados a silenciar a fé por meio do medo. E, no entanto, de forma notável, os próprios instrumentos de tortura destinados a extinguir o testemunho dos mártires muitas vezes se tornaram plataformas para isso. Os exemplos a seguir – compilados a partir de registros históricos que descrevem as provações dos primeiros mártires cristãos[1] – embora difíceis de ler, oferecem um vislumbre do sofrimento suportado por aqueles que escolheram a fé em lugar da própria vida.

Cruzes, estacas e suspensão. Assim como Cristo, a pessoa seria pregada ou amarrada a uma cruz ou estaca de madeira. Para intensificar a dor, as posições variavam: em pé ou de cabeça para baixo; pendurado pelos braços ou pernas, às vezes com pedras pesadas amarradas a eles. No caso das mulheres, eram até mesmo suspensas pelos cabelos. Às vezes, o mártir era untado com mel e deixado pendurado em um poste ao sol para ser torturado por moscas e abelhas – ou colocado no chão, na mesma condição, para ser mordido por formigas.

Rodas. Estas surgem em diversas variações. Em alguns casos, os mártires eram amarrados a uma grande roda cilíndrica e rolavam por uma encosta rochosa. Em outros casos, eram amarrados a uma roda estreita que girava sobre uma plataforma cravejada de pontas de ferro, rasgando sua carne ao girar.

Alongamento e esmagamento. As vítimas seriam amarradas pelos braços a um poste e pelos pés a um sistema de polias. À medida que a polia era apertada, seus corpos eram esticados a ponto de deslocar as articulações. Em outros casos, pedras ou pesos enormes eram usados para esmagá-los lentamente.

Fogo. Os torturadores eram particularmente criativos com o uso do fogo. Um método envolvia jogar o mártir de cabeça em um caldeirão cheio de óleo fervente ou chumbo derretido. Outros foram literalmente fritos em pratos de metal aquecidos ou em panelas feitas sob medida para o tamanho do corpo. Havia também o chamado “touro de bronze”, uma escultura oca de metal em forma de touro, na qual a pessoa condenada era colocada. Fogueiras foram acesas embaixo, transformando o interior em um forno. Segundo a tradição, Antipas – a figura mencionada em Apocalipse 2:13 – foi martirizado dessa maneira.

Esfolamento. Esta foi, sem dúvida, uma das formas mais brutais de tortura. Os mártires eram amarrados e tinham a pele removida enquanto ainda estavam conscientes. A tradição afirma que o apóstolo Bartolomeu sofreu esse tipo de tormento.

Outras formas de tortura. Não há espaço suficiente para descrever todos os métodos, técnicas ou ferramentas inventados com o propósito de atormentar os cristãos na antiguidade e ao longo da Idade Média. É horripilante testemunhar como a inteligência e a criatividade humanas foram canalizadas para o mal, mesmo em uma época de profunda escuridão intelectual. Outras formas de martírio incluíam: afogamento (onde o mártir era selado em uma caixa de chumbo e jogado em um rio), perfuração (as vítimas eram perfuradas com lanças, espadas, estacas afiadas, punhais, etc.), amputação (os membros eram cortados um a um usando machados, lâminas ou serras), espancamentos, apedrejamento, decapitação, uso de espinhos ou lascas cravadas sob as unhas, entre outros.

COMPREENDENDO A MENTE DE UM MÁRTIR
As histórias dos mártires cristãos revelam algo extraordinário. Muitos dos que foram torturados e mortos por sua fé em Cristo passaram seus momentos finais cantando, louvando a Deus ou orando. Alguns, mesmo quando estavam morrendo, dedicaram seu último suspiro para encorajar os espectadores a permanecerem fiéis a Deus – transformando o local de execução em algo como um púlpito.

Como podemos começar a entender a mente de tais indivíduos? O que permite que os seres humanos, diante das formas mais cruéis de tortura, permaneçam inabaláveis em suas crenças? Que força secreta permitiu que homens e mulheres frágeis – muitas vezes idosos, pobres ou considerados insignificantes pela sociedade – enfrentassem imperadores, juízes e carrascos com tanta ousadia e paz? Que tipo de poder os capacitou, enquanto seus corpos estavam sendo consumidos pelo fogo ou dilacerados por animais, a cantar hinos de louvor? Que força interior poderia tê-los sustentado na escolha da morte em vez de negar seu Salvador?

Embora outras religiões ou ideologias tenham produzido indivíduos que morreram por suas crenças – às vezes com a mesma determinação – o foco deste artigo não está no martírio em geral, mas na psicologia distinta e no fundamento espiritual dos mártires cristãos. Suas motivações, identidade e convicções internas foram moldadas por seu relacionamento com Cristo e sua confiança nas Escrituras. Como será discutido posteriormente, a diferença de cosmovisão entre os mártires cristãos e os outros não é uma questão de intensidade, mas de verdade e propósito espiritual.

Dada uma escolha, a maioria dos seres vivos instintivamente evita a dor. Desde a infância, aprendemos por experiência que o fogo queima e os objetos pontiagudos machucam. Uma criança que toca em um fogão quente ou na grelha do forno entende rapidamente o perigo do calor. O impulso de recuar do sofrimento não é um sinal de covardia – é um instinto de autopreservação dado por Deus, necessário para a sobrevivência em um mundo caído e perigoso.

E, no entanto, o que nos surpreende sobre os mártires cristãos é como eles escolhem desafiar esse instinto básico. Em vez de recuar diante do perigo, eles caminham para ele. Em vez de escapar, eles se rendem – totalmente conscientes do que os espera. Muitos têm a oportunidade de salvar suas vidas por meio de uma única palavra de negação, mas se recusam.

Como esse comportamento pode ser explicado? Ao analisarmos os relatos dos mártires cristãos – tanto da história quanto de nosso tempo – suas palavras finais e os depoimentos de testemunhas oculares, fica claro que eles têm uma compreensão firme de certas verdades existenciais, convicções que moldam suas escolhas mesmo diante de um sofrimento extremo.

Senso de identidade — “Quem sou eu?” Aqueles que morrem por sua fé não têm dúvidas a respeito de quem são. Estão totalmente convencidos de sua identidade – são filhos de Deus (João 1:12) e sabem que sua verdadeira cidadania está no céu (Filipenses 3:20).

Senso de Origem – “De onde eu vim?” Os mártires acreditam que são criados por Deus (Gênesis 1:27; Salmos 100:3). Eles entendem que, ao desistir de suas vidas, estão devolvendo ao Criador o próprio fôlego que Ele lhes deu (Eclesiastes 12:7 (NVI); Jó 27:3). Sua existência não pertence a seus cruéis executores – pertence ao próprio Criador (Romanos 14:8; 1 Coríntios 6:19, 20).

Senso de propósito — “Por que estou neste mundo?” Os cristãos sabem – ou pelo menos deveriam saber – que não estão neste mundo por acaso (Jeremias 1:5; Efésios 2:10). Há um propósito, uma missão: ser testemunhas de Deus e levar outros a Ele (Atos 1:8; Mateus 28:19, 20). Esse senso de missão dá aos mártires um profundo senso de dever, a ponto de, se necessário, estarem dispostos a dar suas vidas para cumpri-lo (Apocalipse 12:11; João 15:13).

Senso de Destino — “Para onde vou?” Ao contrário de outras visões de mundo, que muitas vezes veem a história se movendo em ciclos intermináveis como uma roda gigante, judeus e cristãos sempre entenderam que o tempo é linear (Daniel 2).[2] Isso significa que viemos de um ponto específico no tempo e estamos nos movendo em direção a outro. Na cosmovisão judaico-cristã, a história também é culminante – está caminhando para uma culminância final (Isaías 46:10; Daniel 2:44). De acordo com as Escrituras, esse clímax é o retorno de Cristo, quando Ele encerrará o reinado do mal e estabelecerá Seu reino eterno (Mateus 24:30, 31; Apocalipse 21:1–4). Nesse paraíso, todos aqueles que permanecerem fiéis terão uma parte (2 Timóteo 4:7, 8; Apocalipse 2:10). Saber disso dá aos mártires a força para deixar de lado o que é temporal para se apegar ao que é eterno (2 Coríntios 4:17, 18; Romanos 8:18).

Além de saber que os mártires têm respostas claras para as questões existenciais mais essenciais da vida, entender os temas em que eles se concentram – o centro de seus pensamentos – também nos ajuda a entender o que passa em suas mentes.

Foco na eternidade. Os mártires cristãos vivem com a consciência constante de que sua vida nesta terra nunca pode ser comparada à eternidade (2 Coríntios 4:17, 18; Romanos 8:18). Ao morrer por sua fé, eles sabem que estão trocando o finito pelo infinito, o escasso pelo imensurável (Filipenses 1:21–23; Apocalipse 2:10)/

Foco na recompensa. Embora os cristãos sinceros não sirvam a Deus pelo ganho pessoal, Ele promete recompensas aos fiéis (Hebreus 11:6; Mateus 5:12). A maior delas, sem dúvida, é a vida eterna em um mundo perfeito (João 3:16; Apocalipse 21:4). Manter os olhos nessa recompensa ajuda os mártires a olhar além das chamas que os consomem e das feras que os separam, para a glória e alegria do mundo vindouro (Romanos 8:18; 2 Timóteo 4:8).

Foco em Deus. A intimidade com Deus é o segredo supremo por trás da resistência e perseverança dos mártires. Aqueles que morrem por Cristo conhecem-No profundamente, pois nutrem um relacionamento pessoal e consistente com Ele (João 17:3; Filipenses 3:7–10). Orar, memorizar as Escrituras e cantar hinos de louvor a Deus fazem parte da rotina diária dos crentes fiéis (Salmo 119:11; Colossenses 3:16). Jesus prometeu: “Mas, quando vier Aquele, o Espírito de verdade, Ele vos guiará em toda a verdade” (João 16:13, ACF).[3] Os cristãos sinceros abrem seus corações para a direção do Espírito e, assim, são capazes de discernir a verdade do erro, mesmo quando cercados de confusão, medo e falsidade. Essa proximidade com o Eterno lança fora o medo de desistir de suas vidas. “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos” (Romanos 14:8). Viver ou morrer para a glória de Deus – esse é o seu verdadeiro desejo.

O FATOR RESSURREIÇÃO E O PAPEL DO SOBRENATURAL
Além desses elementos subjetivos, a coragem dos mártires também está fundamentada em uma realidade histórica: a ressurreição de Jesus. Por que as pessoas suportariam voluntariamente torturas indescritíveis quando poderiam facilmente escapar dela negando sua fé? A única explicação razoável – especialmente no caso dos apóstolos e dos primeiros cristãos – é que estavam absolutamente convencidos de que Cristo realmente morreu e ressuscitou dos mortos, provando que Ele era o Filho de Deus.[4]

Essa evidência se torna ainda mais convincente quando consideramos que os discípulos não tinham nada a ganhar – pelo menos do ponto de vista secular – per- manecendo fiéis ao seu testemunho. Pelo contrário, seu compromisso inabalável em proclamar a ressurreição de Cristo levava à perseguição e até à morte. A certeza de que Jesus realmente ressuscitou é – se não a principal razão – uma das motivações mais poderosas por trás do martírio cristão.

No entanto, sem a obra do Espírito Santo, nenhuma convicção seria forte o suficiente para levar alguém a atravessar tamanho sofrimento até o final em face de uma possível negação. Em última análise, é Deus – através do Espírito Santo – que fortalece o mártir. De acordo com Jesus, é o Espírito que dá as palavras certas para aqueles trazidos perante os governantes (Mateus 10:19, 20). Esse mesmo Deus veste Seus fiéis com a força de que precisam para suportar provações, torturas e até a morte (2 Timóteo 4:17). Assim, a maior fonte de força e coragem dos mártires veio diretamente do céu.

POR QUE DEUS PERMITIU ISSO?
Ao ler as histórias dos mártires cristãos, você pode se perguntar por que Deus permite tanto sofrimento. Para dar uma resposta completa, precisaríamos explorar a origem do mal, o grande conflito cósmico e a razão do sofrimento – e isso está além do escopo deste artigo. O que podemos dizer aqui é que o martírio desses heróis da fé foi parte de uma história muito maior – muito maior do que nossas mentes podem compreender completamente. Questões como a soberania de Deus e o caráter e fidelidade dos próprios mártires estavam em jogo. Além disso, é inegável que seu testemunho de fé desempenhou um papel decisivo na salvação e no encorajamento de milhares de outras pessoas ao longo da história – bem como daqueles que, em seu próprio tempo, enfrentariam provações semelhantes em defesa da verdade.

O QUE FAZ A DIFERENÇA?
Como já foi mencionado, o termo mártir não se aplica exclusivamente aos cristãos que dão a vida pela fé. Também é usado para aqueles que morrem por causas patrióticas, políticas ou sociais. Alguns até estendem o rótulo a indivíduos que perecem nas chamadas “guerras santas” – extremistas religiosos que muitas vezes empregam o suicídio como tática de violência.

Então, o que torna um mártir cristão diferente de alguém que morre por uma revolução política, independência nacional ou causa ideológica – como aqueles aclamados como heróis em vários países – ou de um homem-bomba movido pelo extremismo religioso?

A diferença fundamental está em sua visão de mundo. Visão de mundo é um termo usado em filosofia para descrever a estrutura de crenças e ideias através da qual uma pessoa interpreta o mundo e interage com ele. Simplificando, sua visão de mundo é a lente em que você enxerga a vida e a realidade.[5]

A visão de mundo de um verdadeiro mártir cristão é radicalmente diferente da de outros chamados “mártires”, inclusive extremistas religiosos. Embora muitos grupos ao longo da história – e até hoje – afirmem ter respostas para as perguntas mais fundamentais da vida – “Quem sou eu?” “De onde eu vim?” “Por que estou aqui?” e “Para onde irei?” —a compreensão cristã está firmemente enraizada na Escritura e em um relacionamento pessoal com Cristo ressuscitado. Essa clareza baseada na Bíblia fornece não apenas coerência intelectual, mas também significado existencial, moldado pela revelação divina e não pela ideologia humana.

A decisão de entregar suas vidas em vez de renunciar à sua fé não é motivada por paixão ou fanatismo (como no caso de terroristas suicidas). É uma escolha racional. Suas mentes são claras, seu raciocínio sólido. Em vez de exibir religiosidade desequilibrada ou extrema, eles demonstram plena consciência mental do peso de sua escolha.

Enquanto os extremistas religiosos defendem a violência e a guerra, os mártires cristãos estão comprometidos com a paz e a não retaliação. Enquanto os primeiros promovem o assassinato em massa, os últimos defendem o valor da vida humana. Os cristãos não buscam a morte – mas também não fogem dela.

Além disso, os extremistas costumam ser obcecados por recompensas (como um paraíso cheio de prazeres sensuais), enquanto a força motriz no coração do mártir cristão é o amor – amor por Deus e por Sua Palavra.

Aqueles que morrem por causas nobres – políticas, patrióticas ou sociais – podem de fato ser movidos por boas intenções e objetivos dignos. Seus sacrifícios merecem respeito, e a sociedade muitas vezes deve muito aos seus esforços. Mas sua visão de mundo tende a ser limitada, focada apenas nesta vida. Sua visão não alcança o horizonte da eternidade.

Os mártires cristãos, no entanto, estão profundamente conscientes de que sua luta transcende o tempo e o espaço. Ela carrega implicações eternas e cósmicas. Seu martírio é testemunhado não apenas por pessoas, mas também por anjos, demônios e todo o Universo. E as decisões que eles tomam nesses momentos podem ecoar por toda a eternidade.

O LEGADO DOS MÁRTIRES
De todas as coisas que eles podem deixar para trás, o maior legado dos mártires é o exemplo – um exemplo de fé, coragem, amor e lealdade a Deus. São um espetáculo ao mundo enquanto se apegam à sua confissão, derramam seu sangue pela Causa e se tornam heróis. Heróis que, sem espadas, conquistam reinos. Eles superam o medo, superam a si mesmos, vencem o mundo e, acima de tudo, apropriam-se da eternidade. A maioria de seus nomes permanece desconhecida entre os homens, mas no céu, eles certamente estão escritos na galeria dos maiores vencedores de todos os tempos (Hebreus 11).

NOSSA PARTE
Depois de contemplar a fé, a coragem e a devoção inabalável dos mártires, ficamos com algumas perguntas profundamente pessoais e urgentes: e nós? Temos a mesma coragem? Se estivéssemos diante do cano de uma arma – ou em um tribunal, uma cela de prisão ou qualquer outro lugar onde nossa lealdade a Cristo fosse testada – permaneceríamos fiéis ou negaríamos a Ele preservar nossas vidas?

Se essa pergunta nos perturba, talvez seja hora de examinar nossa caminhada com Cristo. Por que O seguimos? O que alimenta nossa devoção? Quão profundo é o nosso relacionamento com Aquele que chamamos de Senhor? Onde está nosso foco – no temporal ou no eterno?

Temos clareza sobre as quatro grandes questões da vida: “Quem sou eu?”, “De onde vim?”, “Por que estou aqui?” e “Para onde vou?” Essas não são apenas reflexões filosóficas – são os pilares que moldam a visão de mundo das verdadeiras testemunhas de Jesus. Essa clareza lhes dá força. O que nos dá força?

Em última análise, é nosso desejo sincero glorificar a Deus – seja pela vida ou pela morte (Filipenses 1:20, 21)? Que o testemunho daqueles que dão suas vidas por Cristo acenda em nós um compromisso mais profundo de viver para Ele diariamente. Seu sangue fala em arenas, prisões, selvas, desertos, tribunais e cantos escuros do mundo; que nossas vidas falem na sala de aula, no local de trabalho, em nossas casas e em todos os espaços que ocupamos. E se chegar o dia em que nossa fé for posta à prova final, que sejamos achados fiéis.

Eduardo Rueda Neto (via Revista Diálogo)

NOTAS E REFERÊNCIAS
1. A lista apresentada resume as descrições detalhadas encontradas nos registros clássicos da história dos mártires cristãos. As fontes usadas para esta compilação foram: John Foxe, Foxe’s Book of Martyrs [Livro dos Mártires de Foxe] (Uhrichsville, Ohio: Bottom of the Hill Publishing, 2012); David Noel Freedman, ed., The Anchor Yale Bible Dictionary (Nova York: Doubleday, 1992), vol. 4, s.v. "mártir, martírio"; A. J. O'Reilly, The Martyrs of the Coliseum: Or, Historical Records of the Great Amphitheatre of Ancient Rome [Os Mártires do Coliseu: Ou, Registros Históricos do Grande Anfiteatro da Roma Antiga (Gastonia, N.C.: TAN Books, 2009); Thieleman J. van Bragt, Martyrs Mirror: The Story of Seventeen Centuries of Christian Martyrdom, From the Time of Christ to A.D. 1660 [Espelho dos Mártires: A História de Dezessete Séculos de Martírio Cristão, desde o Tempo de Cristo até 1660 d.C.] (Harrisonburg, Vs.: Herald Press, 1938): https://www.ccel. org/ccel/v/vanbraght/mirror/cache/mirror.pdf; Ellen G. White, O Grande Conflito (Mountain View, Califórnia: Pacific Press, 1911).

2. Roberto Ouro, “The Apotelesmatic Principle: Origin and Application” [“O Princípio Apotelesmático: Origem e Aplicação”], Revista da Sociedade Teológica Adventista 9:1–2 (1998): 326–342: https://digitalcommons.andrews.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1359&context=jats.

3. Todas as citações bíblicas neste artigo são citadas da Versão Almeida Corrigida Fiel em Português (ACF) da Bíblia. A Bíblia ACF® (A Bíblia Sagrada, Versão Almeida Corrigida Fiel®), © 2020 pela Sociedade Bíblia Trinitariana do Brasil.

4. Ralph O. Muncaster, Examine the Evidence®: Exploring the Case for Christianity [Examine as Evidências®: Explorando o Caso do Cristianismo] (Eugene, Oregon: Harvest House Publishers, 2004), 395–406.

5. David K. Naugle, Worldview: The History of a Concept [Visão de mundo: a história de um conceito] (Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 2002).