terça-feira, 25 de julho de 2017

A grandiosidade da futura capital do Reino de Deus

"Ali está a Nova Jerusalém, a metrópole da nova Terra glorificada." (Ellen G. White)
A belíssima canção “Jerusalém de Ouro” (Yerushalayim Shel Zahav), composta por Naomi Shemer em 1967, transformou-se num segundo hino nacional para o povo de Israel. Ela foi interpretada por grandes nomes da música, incluindo-se Ofra Haza, Roberto Carlos e o adventista Leonardo Gonçalves. Sua poesia traduz dois milênios do anseio de um povo pelo retorno à sua capital espiritual. Inicia com o “ar das montanhas” em uma cidade “aprisionada em seu sonho”. Fala de uma Jerusalém solitária, recolhida em si, como que tendo “um muro em seu coração”. “Choram os ventos nas cavernas das rochas”, lamentando ausências no “mercado vazio”, enquanto Sião anela rever seu povo no “templo da montanha” e os que descem “para o Mar Morto via Jericó”.

A nostalgia dá lugar a uma declaração de amor a Jerusalém, descrita em tons reluzentes, refletindo o imenso valor que seus filhos exilados lhe atribuem. No refrão irrompe um cântico de incomparável sonoridade na língua original: “Jerusalém de ouro, de bronze e de luz [veshel or]. Para todas as suas canções serei o violino [ani kinor]”.

Aos que estão familiarizados com as profecias bíblicas é impossível não relacionar essa poesia à Nova Jerusalém – uma cidade cujo brilho dourado não é apenas poético, mas incrivelmente literal. Uma cidade que concentra em si a realização de todas as promessas de Deus aos fiéis de todos os tempos.

Contudo, apesar de muito se falar e se cantar a respeito da Jerusalém futura, é preciso ir além para entender e, por que não, sonhar com o que foi revelado sobre ela. Há certas distorções a respeito da Nova Jerusalém. Isso se reflete, por exemplo, nas concepções artísticas da cidade, geralmente desenhadas como uma tímida Nova York de ouro, cheia de torres. Porém, não foi isso o que o apóstolo viu.

A visão
Assim como o idoso Moisés subiu a um monte e avistou milagrosamente toda a terra de Canaã (Deuteronômio 34:1-5), o velho ­apóstolo foi transportado a uma “grande e elevada montanha” para contemplar a cidade santa, cuja extensão é incomparavelmente maior (Apocalipse 21:2, 10).

Nas descrições da Nova Jerusalém, predomina um literalismo singular no Apocalipse. A cidade é uma cidade, o muro é um muro, as portas são portas, a árvore da vida é uma árvore, o rio é um rio, o trono é um trono, etc. Não há nenhuma indicação de um sentido subjacente a esses elementos. No entanto, cada componente literal da Nova Jerusalém tem uma representatividade, um significado especial para o povo de Deus.

Comecemos pelo formato da cidade, que João descreve como um cubo gigantesco – “seu comprimento, largura e altura são iguais” (Apocalipse 21:16). Isso remete o leitor ao único recinto cúbico do Antigo Testamento: o lugar santíssimo do santuário terrestre, onde se manifestava a presença visível de Deus (1 Reis 6:20; Êxodo 25:21, 22). A Nova Jerusalém será, toda ela, o lugar santíssimo, no qual toda criação adorará a Deus (Isaías 66:23; Apocalipse 21:22). Por isso, não haverá sentido em se construir ali um santuário, assim como não faria sentido colocar um aquário no fundo do mar.

As dimensões inimagináveis da cidade – “12 mil estádios” ou 2.200 km – também falam. Alguns eruditos, talvez assustados com o número, supõem que ele se refira à soma dos quatro lados. Porém, ainda que fosse assim (com lados de 550 km), a cidade superaria a extensão das maiores metrópoles mundiais somadas, e suas estruturas se projetariam para o espaço. No entanto, se as medidas da cidade forem de 2.200 km, também podemos acreditar, pois nela habitará aquele que não pode ser contido nem pelos “céus dos céus” (2 Crônicas 6:18).

Por outro lado, as dimensões exageradas da cidade nos falam sobre a “extravagância” da graça. A cidade reflete todo o “exagero” do amor de Cristo que foi “até o fim” (João 13:1), superlativo “em toda a sua largura, comprimento, altura e profundidade” (Efésios 3:18, NTLH). João descreve uma estrutura tão vasta que seus zeros não cabem numa calculadora: a grosso modo, equivalente a um prédio de 733 mil andares, cada um com uma área de 4,84 trilhões de metros quadrados, que ofereceriam 17 trilhões de apartamentos de 200 metros quadrados. Tanto a cidade quanto o amor divino refletem um conceito que, em física, se chama de singularidade – algo tão diferente quanto inexplicável.

Lugar para todos
A Nova Jerusalém não será um clube de poucos. O sangue de Cristo não foi derramado para salvar apenas um punhado de pessoas, mas uma “grande multidão que ninguém podia enumerar” (Apocalipse 7:9). O amor de Deus, embora resistível, é todo-inclusivo em suas intenções, “não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3:9).

Pouco antes de dar sua vida, Jesus afirmou que na “casa” de seu Pai “há muitos aposentos” (João 14:2, NVI; do grego monai), como se Deus quisesse receber todos os filhos em sua casa, cada um em seu lugar reservado. O que parece uma simples afirmação poética de Cristo se mostra real na Nova Jerusalém. A tradição cristã, talvez influenciada pelo sonho americano, alterou a linguagem da promessa, ensinando que Cristo está construindo mansões. Porém, tanto Cristo como João nos falam de um novo lar, no singular, embora isso não impeça empreendimentos futuros na nova Terra. O Pai nos quer mais perto dele do que imaginamos. “Deus mesmo estará com eles [os seres humanos]. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima” (Apocalipse 21:3, 4). Não há linguagem mais forte que essa!

Há profundas lições eclesiológicas sobre os nomes das tribos de Israel acima das portas, e dos apóstolos sobre os fundamentos da muralha, entre outros belíssimos aspectos. Todo esse “eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2 Coríntios 4:17), só nos faz sonhar e cantar sobre nossa formidável Jerusalém de ouro. Por outro lado, imaginamos que o Céu também anseia pela nossa presença. Talvez os lugares vazios “sintam” a ausência dos filhos de Deus. Numa época tão solene como esta, ainda há tempo para repensarmos nossas prioridades e a que lugar pertencemos. Neste mundo escuro “não temos cidade permanente, mas buscamos a que há de vir” (Hebreus 13:14). Nenhum atrativo daqui pode ser mais compensador do que entrar “na cidade pelas portas” (Apocalipse 22:14). Não é por acaso que o Apocalipse termina com o maior e mais direto apelo da Bíblia: Vem!

Diogo Cavalcanti (via Revista Adventista) (Título original: Cidade de Ouro)
“Nuvens negras e densas subiam e chocavam-se entre si. A atmosfera abriu-se e recuou; pudemos então olhar através do espaço aberto em Órion, donde vinha a voz de Deus. A santa cidade descerá por aquele espaço aberto." (Ellen White - O Grande Conflito, p. 672)

Quem eram os serafins?

O significado do termo hebreu “śãrãph” (serafins, no plural) é incerto. A sugestão mais frequente é que seja uma derivação do verbo “śaraph”, que significa “queimar completamente”. O substantivo “śãrãph” significaria, então, “abrasador/ardente”. Muitos creem que o termo designa uma criatura semelhante à serpente, mas isso está longe de ser exato. Precisamos examinar a evidência bíblica e os diferentes usos do mesmo termo.

1. Śeraphîm e Serpentes
Várias passagens associam “śeraphîm” a serpentes. Como resultado da rebelião dos israelitas no deserto, “o Senhor enviou serpentes (śeraphîm) venenosas” para o meio deles (Números 21:6). Depois que o povo confessou seu pecado, o Senhor ordenou a Moisés: “Faça uma serpente (śeraphîm) e coloque-a no alto de um poste” (Números 21:8). Nesse último verso, o termo “śãrãph” refere-se, outra vez, à frase completa: “serpente (śeraphîm) venenosa”. Em Deuteronômio 8:15 o deserto é descrito como “terra seca e sem água, de serpentes (“nachas śãrãph”, literalmente “serpente serafim”) e escorpiões venenosos”.

A pergunta é: Qual é o significado do termo “śãrãph” nessas passagens? Ele é usado como um adjetivo que designa um tipo específico de serpente. Com base no significado da forma verbal, “śãrãph” pode designar uma serpente cuja picada causa sensação de queimadura, inflamação severa da pele que mata a pessoa, isto é, uma serpente venenosa.

2. Śeraphîm como Seres Celestiais
Em Isaías 6, o termo “śãrãph” é aplicado a seres celestiais. Devemos manter em mente alguns detalhes. Primeiro, o termo “serpente” não é usado nesse capítulo. Segundo, o termo é usado como substantivo. Terceiro, a forma desse ser é fundamentalmente humana. Os dois serafins tinham rosto, mãos, pés, cantavam e se comunicavam por meio de linguagem, isto é, eram seres racionais (Isaías 6:2, 6 e 7). Tinham seis asas e podiam voar; eles estavam “acima” do trono de Deus, talvez pairando sobre ele ou em pé ao seu redor, como guardas reais, prontos para servir ao Senhor. Mais especificamente, sua função era proclamar a santidade do Senhor e ministrar em favor dos pecadores no templo celestial (Isaías 6:3 e 7). Sua conduta expressa um espírito de humildade e reverência diante da presença do Senhor.

Por que eles são chamados de “śeraphîm”? O verbo “queimar” (śãraph) pode expressar a ideia de brilho, sugerindo que os serafins eram seres angelicais de extraordinário brilho ou de aparência flamejante. Talvez o seu esplendor, as seis asas e sua posição de respeito para com o trono de Deus os distinguisse dos querubins que, muitas vezes, estão associados ao trono de Deus.

3. Śeraphîm e Seres Demoníacos
Em Isaías, duas passagens associam serafim com o mal. Possivelmente, por causa da experiência de Israel no deserto. Deserto na Bíblia é símbolo de morte e de resistência dos demônios. Os israelitas, que durante o tempo de Isaías estavam pedindo o apoio do Egito, eram descritos como passando pelo deserto, “atravessando uma terra hostil e severa, de leões e leoas, de víboras e serpentes velozes (“śãraph mopheph”, literalmente serpentes voadoras)” (Isaías 30:6).

Os animais podiam ser usados como símbolo de demônios (Salmos 7:2; 1 Pedro 5:8), e o profeta poderia estar sugerindo que a estrada para o Egito é o lugar em que residem os poderes demoníacos. Nesse caso, os “serafins voadores” poderiam representar os poderes dos anjos maus (Comparar Isaías 30:7 com Salmos 89:10, onde o Egito é identificado com Raabe, um monstro demoníaco derrotado pelo Senhor). Em Isaías 14:29, os filisteus não deviam se alegrar, pois um rei, pior que os outros, viria; ele será como um “serafim voador”. Em nenhuma das duas passagens, Isaías 30:7 e 14:29, serafim é identificado como uma serpente. Em ambos os casos ele voa e é o símbolo do pecado que poderia defender os poderes demoníacos operando através da história. Isso pode sugerir que Lúcifer era apoiado por serafins.

Pelo lado positivo, pense na reverência e humildade demonstrada pelos serafins que, a despeito de sua aparência gloriosa, escolhem cobrir o corpo para proclamar que somente O que está assentado no trono é digno de toda glória.

Angel Manuel Rodríguez (via Revista Adventist World)

Vejamos alguns trechos dos escritos de Ellen G. White onde ela cita a presença de serafins:
"Tais eram os pensamentos que fervilhavam na mente de Isaías ao estar sob o pórtico do templo. Subitamente, pareceu-lhe que o portal e o véu interior do templo eram levantados ou afastados, e foi-lhe permitido olhar para dentro, sobre o santo dos santos, onde nem mesmo os pés do profeta podiam entrar. Ali surgiu ante ele a visão de Jeová assentado em Seu trono alto e sublime, enquanto o séquito de Sua glória enchia o templo. De cada lado do trono pairavam serafins, a face encoberta em adoração, enquanto ministravam perante seu Criador, e se uniam em solene invocação: 'Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a Terra está cheia da Sua glória' (Isaías 6:3)." (Profetas e Reis, p. 306)
"Do templo celestial, morada do Rei dos reis, onde milhares de milhares O servem, e milhões de milhões estão diante dEle (Daniel 7:10), templo repleto da glória do trono eterno, onde serafins, seus guardas resplandecentes, velam o rosto em adoração." (Conselhos para a Igreja, p. 356)

"Os serafins habitam na presença de Jesus, mas ainda assim cobrem com as asas a face e os pés. Ao olharem para o Rei em Sua beleza, cobrem-se a si próprios." (A Verdade sobre os Anjos, p. 136)
"Desde os séculos eternos era o desígnio de Deus que todos os seres criados, desde os luminosos e santos serafins até ao homem, fossem um templo para morada do Criador." (O Desejado de Todas as Nações, p. 103)

"Os principados e os poderes das trevas estavam congregados em torno da cruz, lançando no coração dos homens a diabólica sombra de incredulidade. Quando Deus criou esses seres para estar diante de seu trono, eram belos e gloriosos. Sua formosura e santidade estavam em harmonia com a exaltada posição que ocupavam. Enriquecidos com a sabedoria de Deus, cingiam-se com a armadura celestial. Eram os ministros de Jeová. Quem poderia, no entanto, reconhecer nos anjos caídos os gloriosos serafins que outrora ministravam nas cortes celestiais?" (O Desejado de Todas as Nações, p. 539)

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Dez chaves para interpretar o Apocalipse

O Apocalipse é, ao mesmo tempo, um dos livros mais importantes da Bíblia e um dos mais difíceis de ser compreendido. Ele ocupa um lugar singular na interpretação bíblica e, assim, precisamos de alguns critérios para desvendar sua mensagem. Este artigo se concentra em dez chaves que ajudam o intérprete dessa obra apocalíptica a entender sua natureza singular.

1. Gênero 
O Apocalipse reivindica ser uma profecia. No prólogo do livro, é proferida uma bênção sobre aqueles que leem, ouvem e guardam as palavras “da profecia” (1:3). Novamente, no epílogo, encontramos declaração semelhante, pronunciada pelo próprio Jesus (22:7). E o anjo diz a João: “Não seles as palavras da profecia deste livro” (v. 10). O mesmo anjo, ao que parece, considerava João um dos profetas, porque ele se referiu a “teus irmãos, os profetas” (v. 9). Em 22:18 e 19, o Apocalipse é denominado profecia outras duas vezes.

No entanto, dizer que o Apocalipse é uma profecia é contar apenas parte da história. O Apocalipse é um tipo muito especial de profecia. Não é apenas o único livro do Novo Testamento que lida quase que exclusivamente com o futuro, mas é também o melhor exemplo de profecia apocalíptica bíblica. Mais do que isso, é o livro do qual o gênero apocalíptico deriva seu nome. Embora não tenha sido a primeira obra apocalíptica, ele é o mais característico e mais bem conhecido de todos os apocalipses.

O Apocalipse também tem elementos de epístola. Após o preâmbulo (1:1-3), há uma típica introdução epistolar (v. 4, 5), que segue um estilo semelhante ao das epístolas paulinas. Primeiro, é apresentado o nome do autor, seguido por uma identificação dos destinatários. Finalmente, há uma saudação, que deseja graça e paz da parte da Divindade triúna. Na visão subsequente (1:9-3:22), sete cartas são ditadas a João pelo Cristo glorificado e enviadas às sete igrejas mencionadas em 1:11. Cada uma dessas cartas, por sua vez, segue uma forma epistolar levemente modificada, na qual os destinatários são referidos antes que o autor se identifique. O livro em si também é concluído com um estilo epistolar formado por apelos, promessas e bênção final (Ap 22:21).

2. Propósito
O Apocalipse tem um propósito explícito e um implícito. O propósito explícito é declarado no primeiro versículo do livro: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus lhe deu para mostrar aos seus servos as coisas que em breve devem acontecer.” Ele mostra a orientação futura do conteúdo da profecia do livro. Ao mesmo tempo, transmite um senso da iminência dos eventos vindouros, porque afirma que esses eventos “em breve devem acontecer”. O versículo 3 acrescenta que são abençoados aqueles que leem, ouvem ou guardam as palavras da profecia, “pois o tempo está próximo”. Essa sentença é repetida em 22:10.

Além desse propósito explícito de revelar o futuro como expectação iminente, parece haver um propósito implícito que coincide com o primeiro. Ele é encontrado nos repetidos chamados à perseverança e fidelidade da parte dos leitores e ouvintes. A profecia apocalíptica é dada para atender às necessidades daqueles que estão enfrentando adversidade. Jesus apela aos crentes que se mantenham firmes até que Ele venha, se necessário passando pela morte, de modo que recebam a coroa da vida (2:10, 25; 3:11). São feitas muitas promessas àqueles que vencerem por meio do sangue do Cordeiro, apesar dos obstáculos.

3. Estrutura
Quase não há consenso entre os acadêmicos sobre a estrutura geral do Apocalipse. Contudo, existem alguns elementos estruturais-chaves sobre os quais a maioria está de acordo. Provavelmente o elemento estrutural mais importante seja a divisão do livro em duas partes principais, uma enfatizando eventos históricos da salvação e a outra enfatizando eventos escatológicos. A maioria dos acadêmicos divide o livro entre os capítulos 11 e 13, o ponto que H. B. Swete, na obra The Apocalypse of St John, denomina o “grande corte” do Apocalipse.

No entanto, muitos acadêmicos adventistas seguem a estrutura quiástica de Kenneth Strand, que localiza a divisão entre os capítulos 14 e 15. Em The Lamb Among the Beasts, Roy Naden propõe um quiasma que divide o livro entre 12:10 e 12:11. Contudo, os capítulos 12–14 constituem a unidade que contém eventos históricos mesclados com eventos escatológicos, tornando difícil atribuí-los exclusivamente a uma seção. Os capítulos 12–14 podem ser denominados a “visão do grande conflito”, que retrocede ao início da rebelião no Céu e avança para a vitória dos redimidos glorificados com o Cordeiro no monte Sião. Em todo caso, os capítulos 1–11 formam a seção histórica do livro, e os capítulos 15–22, sua seção escatológica. É arriscado para o intérprete fugir dessa diretriz estrutural.Outro elemento estrutural importante é o uso explícito de “setenários” ao longo do livro. Há quatro: sete cartas, sete selos, sete trombetas e sete taças. Visto que os sete trovões não são desenvolvidos, eles não constituem um setenário estrutural. Alguns autores tentam estruturar todo o livro em setenários, mas isso vai além do que é autoevidente. Os setenários explícitos formam as unidades literárias que devem ser mantidas.

4. Relação com o Antigo Testamento
Nenhum outro livro é tão fortemente fundamentado no Antigo Testamento como o Apocalipse. João deve grande parte de sua teologia, vocabulário e simbolismo ao Antigo Testamento, embora sempre seja profundamente cristocêntrico. Isso implica aceitar a realidade de que contemplou coisas notavelmente semelhantes às reveladas aos profetas do Antigo Testamento e considerou conveniente descrever o que viu usando a linguagem e as formas de pensamento dessa parte da Bíblia.

Tentar compreender o Apocalipse sem reconhecer as raízes do Antigo Testamento significa impedir toda a interpretação do livro. Porém, João não meramente transferiu conceitos do Antigo Testamento para o Apocalipse; ele os transformou de acordo com seus propósitos. É interessante notar que não há citações do Antigo Testamento no Apocalipse, mas apenas antecedentes aos quais João parece apontar mediante referência indireta ou alusão.

5. Unidade
No início do século 20, houve algumas propostas a respeito da origem do Apocalipse que contestaram sua unidade. Atualmente, essa não mais é a realidade. A maioria dos acadêmicos concorda sobre a unidade do livro. A complexidade da estrutura, interconectada como é, representa um dos argumentos convincentes em favor de sua unidade.

Em The New Testament in its Literary Environment, David Aune declara: “O Apocalipse de João é estruturalmente mais complexo que qualquer outro apocalipse judaico ou cristão, e ainda está por ser analisado de modo satisfatório. Como outros apocalipses, ele é construído por uma sequência de episódios assinalados por vários marcadores literários, como a repetição de frases estereotipadas (‘Vi’, ‘Ouvi’, etc.) e por artifícios literários como quiasmas, intercalações (embora jamais interrompam a sequência narrativa), técnica de interconexão (uso de textos transicionais que concluem uma seção e introduzem outra) e várias técnicas estruturais (uso de septetos e digressões).”

6. Dualismo ético
Uma das características da literatura joanina, incluindo o evangelho e as epístolas, é seu dualismo ético. Esse dualismo, que se refere ao contraste entre o bem e o mal, e pode ser expresso e caracterizado de várias formas, é apresentado no Apocalipse, especialmente no tema do grande conflito, centrado no capítulo 12. Ele tem início com a guerra no Céu entre Miguel e o dragão e continua com a batalha na Terra entre o dragão e a besta, incluindo suas cabeças e chifres (poderes civis terrestres que cumprem os propósitos do dragão), e a mulher pura com sua semente, primeiramente o Filho varão (o próprio Cordeiro messiânico) e depois o restante de sua descendência. Esse dualismo ético tem vasto alcance no Apocalipse. Não há espaço para uma posição neutra. O ouvinte ou leitor do livro deve identificar o lado correto, associar-se a ele e permanecer fiel a essa decisão.

7. Temas teológicos centrais
No Apocalipse se destacam algumas questões teológicas. Uma delas, muito importante, é a soberania de Deus. Outra é a justiça divina. Um terceiro aspecto é o processo da salvação. O quarto é o papel de Cristo na história da salvação. O quinto tema é o papel da igreja no plano de Deus. O sexto é o papel da revelação e da profecia em comunicar o que é essencial à salvação. O sétimo é a função da decisão pessoal no preparo para o juízo. O povo de Deus, ou igreja, também desempenha uma parte significativa. Essas questões estão intimamente relacionadas.

Todo o livro é chamado de revelação profética, bem como a palavra de Deus e o testemunho de Jesus (1:1-3). Essa não é meramente uma designação de gênero, mas uma declaração teológica. A expressão “a palavra de Deus e o testemunho de Jesus”, que aparece ao longo do livro, está enraizada no conceito legal das duas testemunhas necessárias para se estabelecer a verdade. Esse conceito se transforma em imagem no relato das duas testemunhas no capítulo 11, que profetizam durante 1.260 dias/anos e são martirizadas por causa de seu testemunho. As duas testemunhas representam a palavra de Deus e o testemunho de Jesus, ou o testemunho dos profetas, de Jesus e dos apóstolos. À medida que os leitores e ouvintes do livro respondem ao testemunho profético que os chama à salvação e a permanecer fiéis, eles se preparam para o juízo vindouro. Tudo no Apocalipse deve ser compreendido à luz desse juízo iminente.

8. Santuário
Outra importante chave para a compreensão do livro de Apocalipse é a percepção da abrangência com a qual o santuário funciona como pano de fundo da obra de Cristo em favor de nossa salvação. Isso ocorre em vários níveis. No primeiro nível, João menciona repetidamente o templo (3:12; 7:15; 11:1, 19; 14:15, 17; 15:5-6, 8; 16:1, 17; 21:22) e vários itens da mobília do santuário, como as sete tochas que ardem diante do trono (4:5), as taças de ouro cheias de incenso (5:8) e os incensários de ouro cheios de incenso (8:3-5), o altar de ouro diante do trono (8:3, 5; 9:13) e a arca da aliança (11:19). Também há indivíduos que parecem se vestir e atuar como sacerdotes (4:4; 5:8; 7:13-15; 8:2-6; 14:18; 15:6-7). No segundo nível, João se refere à ­execução de alguns dos rituais do santuário (5:6, 9; 8:3-6). A referência frequente ao Cordeiro e ao sangue do Cordeiro é em si mesma uma explícita imagem do santuário. No terceiro nível, o Apocalipse parece seguir o ciclo das festas anuais associadas ao culto hebraico, que estava centrado no santuário.

9. Simbolismo e numerologia
O livro de Apocalipse está repleto de simbolismo e numerologia. O uso extenso de simbolismo é uma das características da literatura apocalíptica. Alguns números são apenas simbólicos, ao passo que outros parecem ter valor literal, embora provavelmente contenham também algum valor simbólico. A chave é saber quando algo deve ser tomado literalmente e quando deve ser tomado simbolicamente.

Richard Davidson apresenta uma sugestão para solucionar esse problema. O conceito tem que ver com a subestrutura escatológica da tipologia do Novo Testamento. Num capítulo sobre a tipologia do santuário publicado no livro Symposium on Revelation, Davidson nota que, “na era da igreja, os antítipos terrestres encontram, no reino espiritual da graça, um cumprimento espiritual (não literal), parcial (não final) e universal (não geográfico/étnico), visto que estão relacionados espiritualmente (mas não literalmente) a Cristo nos lugares celestiais. Assim, devemos esperar que, no Apocalipse, quando uma imagem relacionada ao santuário/templo é aplicada a um cenário terrestre na era da igreja, haja uma interpretação espiritual, e não literal, visto que o templo, na Terra, é espiritual”.

Por outro lado, ele observa que, “durante a era da igreja, o reino espiritual terrestre é superado pelo domínio literal de Cristo nos lugares celestiais. De maneira consistente com essa perspectiva neotestamentária, a tipologia do santuário do Apocalipse, quando focalizada no santuário celestial, ­compartilha da mesma modalidade que a presença de Cristo, ou seja, um cumprimento antitípico literal”.

Se esse princípio hermenêutico for seguido, muitos problemas podem ser evitados. Apesar disso, os números ainda podem ter valor simbólico, até nas cenas celestiais. Determinar o que os diversos números significam exige meticulosa pesquisa bíblica. A base primária para se interpretar tanto o simbolismo como a numerologia no Apocalipse deve vir de dentro das Escrituras.

10. Mensagem de Cristo
Ao interpretar o Apocalipse, devemos começar com as premissas corretas. O que o livro tenta comunicar? Alguns acreditam que João estivesse escrevendo sobre eventos que ocorreriam em sua própria época. Esses intérpretes, denominados preteristas, ignoram as próprias reivindicações de João sobre o que ele registrou e por quê. Não aceitam que João tenha recebido revelações visionárias vindas de Deus sobre o futuro, especialmente em relação ao tempo do juízo escatológico e ao estabelecimento do reino eterno de Cristo. Eles veem apenas o início da história cristã, mas não seu meio ou fim. Tampouco veem a mensagem de Cristo a seu povo em todas as épocas.

Outros leitores creem que João estivesse escrevendo apenas sobre escatologia, os eventos finais da história e o estabelecimento do reino de Deus na Terra. Não compreendem que João incluiu muita atividade histórica relacionada ao período anterior ao fim: seis selos e seis trombetas, durante os quais os eventos continuam a ocorrer na Terra. Somente nos dias em que a sétima trombeta soar, o mistério de Deus será concluído (10:7). Esses intérpretes, denominados futuristas, veem o fim da história da salvação cristã, mas não seu início e suas lutas durante as longas eras que antecedem o fim. Tampouco veem a mensagem de Cristo a seu povo de todas as épocas.

Somente uma abordagem equilibrada, que mantenha em mente o verdadeiro objeto da revelação, trará resultados satisfatórios. A revelação não foi dada apenas a João ou às sete igrejas da província romana da Ásia, mas aos servos de Deus (1:1) que viveriam antes do juízo final, a fim de prepará-los para os eventos vindouros. A menos que leiamos o livro com a intenção de discernir essa mensagem dada por Cristo, deixaremos de compreender o conteúdo mais importante do livro.

A parte mais significativa do livro para nossa experiência pessoal são as cartas de Cristo às sete igrejas. Nessa seção Cristo fala pessoalmente a cada indivíduo de cada época. As sete igrejas representam a realidade da igreja em todas as épocas, bem como as variadas experiências que cada cristão pode ter em qualquer tempo. Esse fato é comprovado pela declaração repetida várias vezes: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (2:7, 11, 17, 29; 3:6, 12, 22). O apelo é individual e a mensagem a cada igreja é aplicada a todas as igrejas. Se seguirmos uma abordagem semelhante no estudo de cada visão do Apocalipse, buscando a mensagem pessoal de Cristo ao leitor, receberemos a bênção de 1:3 e 22:7. Esse deve ser o objetivo do estudo do livro do Apocalipse.

Edwin Reynolds (via Revista Adventista)

Jim Carrey fala sobre Jesus Cristo em centro de recuperação

O famoso ator Jim Carrey fez um discurso recente sobre sua fé em Jesus Cristo em um ministério cristão que se dedica a ajudar na recuperação de usuários de drogas e ex-presidiários. Após ser apresentado pelo líder cristão que dirige o local, ele declarou: “Esta sala está cheia de Deus”.

Em seguida, afirmou que tem passado por momentos difíceis em sua vida nos últimos anos e que “o sofrimento leva à salvação.” Disse ainda que Jesus sofreu mais que todos na cruz, mas escolheu o caminho da submissão a Deus e o perdão e que todos deveriam fazer o mesmo.

Com o nome de Homeboy Industries, a organização visitada por Carrey fica em Los Angeles e seu foco é auxiliar pessoas que estiveram envolvidas em gangues. Além de oferecer ajuda com advogados, eles também pagam pela remoção de tatuagens com os nomes das gangues e auxiliam as pessoas a procurarem emprego e “começar de novo”.

“Vocês estão aqui e isso indica que estão tomando uma decisão: trilhar o caminho do perdão e graça. Assim como Cristo fez na cruz. Ele sofreu terrivelmente e deu tudo por nós, a ponto de morrer”, assegurou o ator em uma mistura de testemunho e pregação. “Usar o sofrimento e transformá-lo em compaixão e perdão é o que abre as portas do céu para todos nós. Isto é o que eu desejo para todos vocês e eu quero isso para mim também”, assegurou, sendo bastante aplaudido.

Carrey tem um histórico de envolvimento com drogas e deve ir a julgamento nos Estados Unidos pela morte de uma ex-namorada. Embora ele não tenha vindo a público anunciar sua conversão a Cristo, o vídeo onde ele aparece pregando sobre Jesus tem chamado a atenção da mídia como um indício de que o ator teve uma mudança de vida recentemente. 

[Com informações de Hello Christian e Gospel Prime]

Comic-Con: A cultura Pop e a pregação do evangelho

A cultura Pop é o espelho da nova geração e precisamos aprender com ela

Mês de julho e a cidade americana de San Diego se transforma em Meca. Não pela peregrinação de islâmicos ante sua cidade sagrada, mas, sim, na movimentação de milhões de aficcionados (para não dizer até fanáticos) da cultura pop (ou nerd, ou geek… você escolhe). Neste mês ocorre a Comic-Con, convenção de entretenimento que é considerado o maior evento do gênero no mundo.

Andar na Comic-Con é como se você fosse transportado para um universo paralelo, onde personagens de histórias ganham vida, super-heróis andam lado a lado e atores que interpretam estes personagens são tratados como a encarnação real dos mesmos. A Comic-Con é uma celebração em uma semana do que aconteceu e acontecerá no cenário da cultura pop.

Essa tal cultura pop é arrebatadora para a geração atual. É a demonstração máxima de tudo o que é interessante para este público. E toda a indústria que está por trás do fomento a esta cultura a faz girar de forma primorosa. Como eles conseguem isso?

Gosto de fazer considerações sobre como poderíamos aprender com estes movimentos. Temos uma mensagem vibrante e importante, com membros preparados. Como atingir melhor ainda os membros dessa nova geração? Talvez a cultura pop nos mostre, em seus acertos, algumas possibilidades. Listei algumas características abaixo para que possamos refletir um pouco sobre o tema:

1) Identidade – palavra de ordem: membros da atual geração de jovens gostam de demonstrar a sua identidade a partir de grupos na qual participam. Nada mais visível que a identidade da cultura pop. Ela é demonstrada (orgulhosamente) pelo seu membro onde quer que ele esteja. Como alcançar isso com os jovens da igreja, para que este demonstre de forma altiva sua identidade?

2) A cultura pop valoriza fortemente o senso de pertencimento – eventos como a Comic-Con mostram como essa geração se apega fácil a grupos específicos e gosta de demonstrar seu pertencimento a estes grupos. Há um orgulho em pertencer a um grupo, para eles, tão especial. Como esta vontade de pertencer a grupos é intrínseca a esta geração, não poderíamos criar cada vez mais movimentos que valorizassem o senso de pertencimento a estes grupos especiais?

3) A vontade de “consumir” tudo o que tem a ver com cultura é enorme – o grupo geek/nerd é um dos que mais consomem e gastam dinheiro com tudo o que promove a sua identidade. Consomem e se sentem felizes com isso. Por que as vezes é tão difícil fazer com que se “compre” a ideia de um projeto ou programa na igreja?

4) Os movimentos são sagrados – tudo o que é criado dentro da perspectiva de eventos e programações da cultura pop ganha adesão rapidamente. No exemplo da Comic-Con, os ingressos se esgotam rapidamente, numa tendência que acontece em praticamente todos os movimentos. Outros exemplos não faltam e que poderiam nos ajudar a buscar adesão cada vez maior do nosso público em movimentos da igreja.

A cultura pop atual não é um modelo positivo em sua essência e conteúdo. Mas a forma com que ela é gerida, acompanhada e apresentada nos ensina muito. Como disse anteriormente, a cultura pop é o espelho da geração. Geração que está, inclusive, dentro da igreja, com opiniões fortes e posições se consolidando. Chegou o momento de entender melhor como a cabeça desta geração funciona e construirmos formas de fortalecer sua identidade espiritual, aumentar seu senso de pertencimento e, consequentemente, firmar seus propósitos.

Fábio Bérgamo (via Marcas & Marcas) (Título original: Pop cada vez mais pop)

PARA LER, OUVIR E VER MAIS

Site oficial da Comic-Con de San Diego – https://www.comic-con.org

Mundo dos Nerds: imagens, consumo e interação – Dissertação de Mestrado de Guilherme Kazuo Lopes Yokote, da Faculdade de Filosofia da USP – http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8134/tde-19052015-133604/publico/2014_GuilhermeKazuoLopesYokote_VOrig.pdf

A habitual batalha contra a amargura

É inevitável. As pessoas vão nos machucar. Até mesmo aquelas próximas a você. Na verdade, talvez especialmente aquelas próximas a você.

Com cada ferida, há o potencial para despertar o monstro da amargura. Ele tem um sono leve. E ele é mais inteligente do que pensamos. Até uma pequena briga no relacionamento é suficiente para despertá-lo para a ação. Não devemos subestimá-lo.
Amargura: ferida causada tanto por ofensa real ou apenas aparente, que passa sem ser checada, e é permitida a continuar devido à falha de aplicação dos princípios bíblicos e meditação sobre a ofensa, resultando em ódio e ressentimento.
Amargura é a cura rápida da carne. Lidar biblicamente com o conflito e com as feridas se torna muito trabalhoso. Então, como um traficante espiritual, amargura oferece uma rápida sensação de “estar alto”. Mas, apesar de ela oferecer isso por um momento, ela te destrói com o tempo.

Com certeza, feridas reais ocorrem muito mais do que frequentemente por meio de atrocidades como abuso e atos criminosos. Nesses casos, a luta contra a amargura pode ser torturante. Até mesmo e especialmente nesses casos, Deus estende sua confortante e transformadora graça para a maior ferida da vida. (Gn 50:20)

Mas frequentemente, amargura se desliza e é semeada em milhares de momentos menores e em lutas na nossa vida habitual. Por essa razão, devemos estar em guarda. Cristão, temos que resistir a isso. E nos arrepender. A amargura é uma assassina. Aqui estão algumas poucas maneiras que me ajudaram em minhas próprias batalhas contra a amargura:

1. Não subestime o poder da amargura
Me assusta quão facilmente a amargura invade o meu coração. E igualmente assustador é a quantidade de pessoas que em suas lutas da vida diária dizem: “Ah, eu não estou amargurado, eu só estou tendo um pouco de dificuldade”. Nenhum de nós está acima disso. No entanto, “um pouco de dificuldade” no surgimento de um conflito relacional é geralmente amargura residual. E, mesmo se tivermos aceitado um pedido de desculpas ou tivéssemos prometido perdão, é possível que a amargura ainda esteja em nosso meio.

Sinais óbvios da amargura incluem odiar alguém em nossos corações, difamações, vingança, e injustamente cortar alguém de seus relacionamentos. Considere diagnosticar a possibilidade de menos amargura. Você continua insistindo com a pessoa/incidente de um jeito desfavorável? Você usou a pessoa ou incidente contra ela? Você levantou o assunto sobre a pessoa/incidente para outros que não precisavam saber dos detalhes? Você, de forma quieta, teve prazer em como as pessoas tomaram o seu lado da questão contra o outro? Você está permitindo desnecessariamente que esse incidente continue entre o seu relacionamento com a pessoa? Você está considerando abandonar essa pessoa? Se sim, a amargura deve ter começado a infiltrar seu coração.

E fique atento àqueles ringues mentais que gostamos de criar. Apesar do prazer rápido e fácil que eles podem fornecer, a prática de corajosamente vencer discussões com as pessoas em nossas próprias mentes alimenta o nosso fariseu interior e o monstro da auto-justiça. Por que estamos fazendo isso? Essa é uma maneira pela qual nós podemos, verbalmente, colocar o pescoço do nosso inimigo sob os nossos pés. Estamos com amargura.

Nós fazemos bem em orar como Davi, “Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração, prova-me e conhece os meus pensamentos; vê se há em mim algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno.” (Salmo 139.23-24)

2. Mantenha aquela hora silenciosa da manhã
Eu digo “da manhã” porque quando estamos em batalha contra a amargura, a luta pelo pensamento bíblico pode começar mesmo antes do nosso pé tocar o chão.

E, já que a amargura é largamente uma batalha para o coração, bombardeá-lo com bondade, graça e glória de Deus no começar de cada dia ser mostrará uma técnica efetiva na batalha. “Grande paz têm os que amam a tua lei; para eles não há tropeço” (Salmo 119:165)

E nessa hora silenciosa, nós podemos substituir a amargura contra uma pessoa por amor em oração bíblica por ela.

3. Lute por uma visão precisa e elevada de Deus
Nossa amargura pessoal está muito mais relacionada a Deus do que às pessoas. Certamente, pecados cometidos contra nós são reais e incômodos. No entanto, Deus nos equipou com todas as coisas necessárias para vida e piedade, inclusive aquelas necessárias contra o pecado da amargura. A maior destas coisas é, com certeza, Ele mesmo.

Confiando na soberania de Deus quando tentado pela amargura, temos esperança nEle. Relembrando da bondade de Deus, nós descansamos nEle. Abraçando a disciplina de Deus, nós crescemos nEle. Lembrando da santidade de Deus, nos conformamos a Ele. Visando a glória de Deus, nos alinhamos com Ele. Especialmente na batalha contra a amargura, quando nós lutamos para ter uma visão mais correta e exaltada de Deus, teremos menos espaço para ficar ofendidos com o que “fulaninho” fez ou disse.

4. Negue-se a se separar do corpo de Cristo
É sempre muito mais fácil apertar o botão de ejetar nas discussões sobre relacionamento. Você não tem que lidar com isso. Sem mais preocupações sobre “O que eu vou falar quando eu encontrar com eles?”. O fator de “bizarrice” se foi. “Vou achar uma igreja diferente ou grupo familiar ou cidade”. Isso tudo é simplesmente tão fácil. E esse é o problema.

Porém, separar-se desses irmãos e irmãs em Cristo é provavelmente o que Satanás e sua carne estão tentando fazer. Dividir e conquistar.

Mas é por isso que existem não menos do que 40 “uns aos outros”. Deus deseja que nós fiquemos juntos, encaremos o sentimento de estranheza e verdadeiramente conversemos com as pessoas diretamente, provavelmente quebrando os nossos egos mais algumas vezes e lidando com isso. E Ele deseja isso porque Ele nos ama. A amargura irá nos matar. Ela tira glória de Deus e abre a porta para milhares de outros pecados e miséria. “O solitário busca o seu próprio interesse e insurge-se contra a verdadeira sabedoria.” (Pv 18:1)

Ir pelo caminho de continuar na igreja local como Deus ordena é a coisa mais difícil. É por isso que é a melhor coisa. Se nós formos obedientes e continuarmos conectados de forma sincera, isso será tanto o hospital para curar nosso ensimesmamento quanto para provarmos a base para o amor real.

Eric Davis (Traduzido por Fernanda Vilela | Reforma21.org | Original aqui 

Nota: Segue mais duas dicas de Ellen White para nos ajudar com nossas batalhas contra a amargura:
"O amor é uma tenra planta, e precisa ser cultivada e nutrida, e terão de ser arrancadas todas as raízes de amargura que lhe estão em volta, de modo que ela tenha espaço para circular; e então ela atrairá para junto de sua influência todas as faculdades da mente, todo o coração, de modo que amaremos supremamente a Deus, e a nosso próximo como a nós mesmos." (Nossa Alta Vocação - Meditações Matinais, 1962, p. 171)
"Deus proveu um bálsamo para toda ferida. Há um bálsamo em Gileade, há ali um Médico. Não querereis agora, como nunca antes, estudar as Escrituras? Buscai do Senhor sabedoria em toda emergência. Em cada prova, suplicai a Jesus que vos mostre um meio de saída de vossas dificuldades, e então vossos olhos se abrirão para verdes o remédio e aplicardes ao vosso caso as curadoras promessas que foram registradas em Sua Palavra. Deste modo o inimigo não encontrará lugar para vos levar a lamentações e descrença, mas ao contrário, tereis fé, e esperança e ânimo no Senhor. O Espírito Santo dar-vos-á claro discernimento, para que possais ver cada bênção e apropriar-vos delas, as quais agirão como antídoto à tristeza, como um ramo de cura a todo trago amargo que vos seja levado aos lábios. Cada trago de amargura será misturado com o amor de Jesus, e em vez de vos queixardes da amargura, vereis que o amor e a graça de Jesus por tal forma se combinam com a tristeza, que esta se transformará em alegria suave, santa e santificada." (Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 274)

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Será que podemos acreditar nos relatos bíblicos sobre milagres?

“Você pode viver como se nada fosse um milagre ou como se tudo fosse um milagre”, disse Albert Einstein. Confirmando a afirmação do gênio da física, vemos hoje duas posturas opostas diante dos milagres: de um lado, os deístas, naturalistas e ateus os negam; de outro, os carismáticos, esotéricos e místicos os defendem.

No Ocidente, no ambiente racionalista, vários intelectuais tentaram desacreditar os milagres. Por exemplo, Baruch Espinosa (1632-1677) argumentou que os milagres são violações das leis naturais e, portanto, impossíveis. David Hume (1711-1776) defendeu que eles são inacreditáveis. Rudolf Bultmann (1884-1976) sugeriu que são mitológicos, no sentido de apenas expressarem uma realidade transcendente (para ele, os milagres acontecem no mundo espiritual, e não na dimensão do espaço-tempo).

No entanto, esses críticos não ficaram com a última palavra. Hoje, o milagroso é novamente uma categoria aceita, valorizada e explorada. Aparece como fator real da espiritualidade ou simples estratégia de marketing no mercado religioso. Se os milagres sempre fizeram parte de virtualmente todas as tradições religiosas, na atualidade ganharam novo espaço na paisagem da fé.

O teólogo Craig Keener percebeu isso muito bem. Com suas análises profundas, escreveu dois volumes sobre o assunto, totalizando 1.172 páginas. Na obra, intitulada Miracles: The Credibility of the New Testament Accounts, ele defende a tese de que “as testemunhas oculares realmente apresentam reivindicações de milagres”, o que nem sempre é levado em conta, e de que “as explicações sobrenaturais, embora não se apliquem a cada caso, deveriam ser bem-vindas no debate acadêmico”.

Que os milagres falsos ou verdadeiros estão por aí, quase ninguém duvida. Mas como interpretar esses fenômenos tão comentados nos meios cristãos?

Conceito
Na visão bíblica, o milagre é uma intervenção graciosa, visível e intencional de Deus no mundo, com múltiplos propósitos. Não é o sagrado em si mesmo, mas um sinal que aponta para ele. Entre os teólogos mais recentes, a tendência é acentuar o aspecto do sinal. Milagre, nesse sentido, não deve ser visto como uma prova, algo a ser detectado cientificamente, mas como uma atuação divina, a ser captada pela fé. Na antiguidade, a ênfase não estava na excepcionalidade do fato, mas na sua significação espiritual, no elemento divino.

Em suma, como diz o teólogo Norman Geisler, milagre é um ato especial de Deus no mundo natural, algo que a natureza por si mesma não faria. Da perspectiva humana, “é um evento incomum (‘maravilha’) que transmite e confirma uma mensagem incomum (‘sinal’) por meio de um poder incomum (‘poder’)”; da “perspectiva divina, é um ato de Deus (‘poder’) que atrai a atenção do povo de Deus (‘maravilha’) para a Palavra de Deus (por um ‘sinal’)”. Podemos ver os milagres por diferentes ângulos.

Na perspectiva naturalista, o milagre é apenas um prodígio condicionado à natureza e à percepção do espectador. Santo Agostinho, a grande autoridade de sua época no assunto dos milagres, era simpatizante dessa posição, embora não a adotasse. Colin Humphreys, físico de Cambridge, defende que os milagres do êxodo aconteceram, mas têm explicações científicas/naturais. Por exemplo, bem na hora da passagem dos hebreus pelo Jordão, teria ocorrido um terremoto, que bloqueou a água. Na verdade, Deus criou ou causou os mecanismos naturais. Enquanto Humphreys enfatiza primariamente o fator natureza e secundariamente a intervenção divina, deveríamos inverter essa ordem.

Na perspectiva antinaturalista, o milagre é uma anulação ou suspensão das leis da natureza por iniciativa divina. Esse pensamento era muito difundido nos séculos 17 e 18, chegando até mesmo a entrar em obras teológicas de referência. O francês Voltaire (1694-1778) escreveu que, como seria um contrassenso violar leis divinas, eternas e imutáveis,“é absurdo crer em milagres, é desonrar de certo modo a Divindade”.

Na perspectiva intervencionista, o milagre é uma ação especial de Deus no mundo, sem romper a ordem natural. Ele não é contrário à natureza, mas sim às nossas expectativas em relação ao seu funcionamento. Para o escritor irlandês C. S. Lewis (1898-1963), as leis da natureza não fazem acontecer as coisas; elas apenas reagem ao fator/poder externo (Deus), no sentido de acomodar a ação divina.

Esse último enfoque é o que mais se aproxima da visão bíblica. No milagre, uma força superior (Deus) incorpora, ultrapassa ou neutraliza uma lei inferior, sem romper a ordem natural. O mesmo princípio se aplica quando um avião voa com centenas de passageiros e um navio flutua com toneladas de carga, devido a uma força maior do que a força da gravidade.

Os naturalistas têm dificuldade em admitir o milagre porque ele não se acha ligado retroativamente a um fenômeno natural anterior. Para muitas pessoas, isso parece intolerável. O problema é que veem pouco; tomam a natureza como sendo toda a realidade. Porém, ela é só uma parte do quadro.

Num enredo literário, os personagens têm que agir de acordo com o tipo de história. O mesmo ocorre com a narrativa de milagres. No paradigma bíblico, a ocorrência de milagres está prevista e, portanto, eles fazem parte da regra do jogo.

Lógica
A lógica do milagre é a lógica do amor, do poder e da inteligência – a lógica de Deus. A cosmovisão dos autores bíblicos é teísta. Existe um Deus pessoal que está acima de tudo e toma a iniciativa de agir. Os milagres existem porque existe um Deus milagroso.

Pode-se dizer que a criação do mundo e a ressurreição de Jesus são os dois milagres-âncoras. A Bíblia estabelece o fato de que um Deus poderoso criou todas as coisas. Estabelece também que Jesus, o Deus encarnado, inverteu a experiência humana, morrendo e tornando a viver. Isso valida todos os outros milagres anteriores e posteriores à sua passagem pelo planeta. Esses dois milagres são selos autenticadores de todas as maravilhas operadas por Deus na história.

Você talvez se pergunte por que, afinal, Deus opera milagres. Bem, o milagre não é um evento casual, gratuito, sem finalidade objetiva; ele tem uma mensagem teológica. Na verdade, possui várias significações. O milagre tanto pode revelar o interesse gracioso de Deus pela humanidade sofredora quanto servir de credencial de uma missão divina.

Entre outros propósitos, os milagres servem para glorificar a Deus, extravasar o amor divino, autenticar um mensageiro ou uma missão divina, atestar a supremacia de Deus sobre deuses rivais, ensinar ou ressaltar uma verdade, fortalecer a igreja e ampliar o alcance do seu ministério, anunciar os tempos messiânicos e indicar uma realidade espiritual mais profunda (sinais).

Durante as pragas do êxodo, por exemplo, os milagres serviram para mostrar a superioridade de Deus em relação aos inúmeros deuses egípcios. O confronto não era entre Moisés e o faraó, mas entre Deus e os deuses do Egito (Êx 12:12). Assim, cada tipo de praga visava desmoralizar uma divindade falsa.

Será que Deus ainda faz milagres por meio de pessoas com dons especiais? Os defensores da abordagem cessacionista dizem que não. Os adeptos da abordagem carismática garantem que sim. Adotando uma abordagem cíclica contínua, podemos dizer que Deus faz milagres, mas não com a intensidade dos momentos de picos, como na época do Pentecostes e no superderramamento do Espírito Santo antes da volta de Jesus.

Sem dúvida, Deus pode fazer milagres hoje. Porém, o fato de poder fazer não significa que irá fazer. Isso depende da vontade e dos propósitos dele. Na consideração dos milagres, o problema com frequência aparece porque os cristãos confundem possibilidade com probabilidade, algo típico da mentalidade imatura.

A Bíblia condensa em poucas páginas eventos com centenas de anos de intervalo entre si. Deus não faz milagres (no sentido técnico) toda hora, mas está em constante atividade. No judaísmo há uma diferenciação entre os milagres “explícitos”, em que Deus irrompe sobrenaturalmente no mundo, alterando o esquema normal da natureza, e os milagres “ocultos”, em que Deus renova constantemente o milagre da criação, através de atos corriqueiros e despercebidos pela maioria.

Os milagres são uma expressão de graça e um toque de amor. A lei da causa e efeito num mundo imperfeito diz que as consequências de um erro, presente ou passado, são doença, dor e morte. Mas, de repente, a graça entra em ação e reverte esse caminho, trazendo cura, prazer e vida.

Descubra Deus e você perceberá os milagres que Ele pode fazer em sua vida. Você é o maior milagre.

Marcos de Benedicto (via Revista Adventista)

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O arrependimento de Deus

A mesma palavra “arrependimento” (derivada do latim repoenitere) é usada nas traduções da Bíblia para designar tanto comportamentos humanos como atitudes divinas que são distintos em natureza, e que foram expressos por palavras diferentes nas línguas originais das Escrituras. O genuíno arrependimento humano para a salvação é descrito pelos termos hebraico shubh e gregos metanoeo (verbo) e metanoia (substantivo), que denotam uma mudança de mente, envolvendo tristeza, completo abandono do pecado e um sincero retorno a Deus.

Já o arrependimento divino é expresso através das palavras hebraica naham e grega metamelomai, que não sugerem qualquer mudança intrínseca na mente de Deus, “em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1:17), mas apenas uma alteração em Sua atitude para as criaturas. Essa alteração é decorrente de uma mudança radical no comportamento humano, que acaba impedindo o recebimento por parte dos seres humanos de uma bênção divina que lhes fora prometida ou de um castigo divino que lhes deveria sobrevir.

O próprio Deus advertiu o Seu povo da condicionalidade de Suas bênçãos e de Seus castigos em Jeremias 18:7-10: “No momento em que Eu falar acerca de uma nação ou de um reino para o arrancar, derribar e destruir, se tal nação se converter da maldade contra a qual Eu falei, também Eu me arrependerei do mal que pensava em fazer-lhe. E, no momento em que um falar acerca de uma nação ou de um reino para o edificar e plantar, se ele fizer o que é mal perante Mim e não der ouvidos à Minha voz, então, Me arrependerei do bem que houvera dito lhe faria.”

Esse princípio é claramente ilustrado na experiência dos antediluvianos e dos ninivitas. Em Gênesis 6:6 e 7 é dito que Deus “Se arrependeu” de ter criado a raça humana, não porque Ele houvesse mudado, mas porque os antediluvianos se haviam degenerado a tal ponto que a única solução para eles seria a sua destruição (ver Gn 6:5). Por semelhante modo, Jonas 3:10 diz que “Deus Se arrependeu do mal que tinha dito” trazer aos ninivitas, não porque Ele houvesse mudado, mas porque estes se converteram completamente de seus maus caminhos (ver Jn 3:5-9).

Por outro lado, quando a Bíblia diz que Deus não é homem para que Se arrependa (ver Nm 23:19; I Sm 15:29; Sl 110:4; Hb 6:17), ela está descartando a possibilidade de haver qualquer mudança intrínseca na pessoa de Deus, que O levasse a ser injusto e desleal em Seu relacionamento com os seres humanos (ver Dt 7:9 e 10). Em outras palavras, Deus é fiel e justo, e jamais deixará de recompensar as boas ações e de punir os maus atos, bem como de reconhecer todas as possíveis mudanças no comportamento humano.

Alberto R. Timm (via Centro White)

Nota: O professor Leandro Quadros também aborda este assunto nos vídeos abaixo:

 

Ame bem mais, poste bem menos

Ame. Este é o segredo.

Aposto que você já se perguntou porque somos tão felizes nas redes sociais, mas ao mesmo tempo não conseguimos nos alegrar na vida real. Eu já me cansei de ver pessoas que são completamente bem resolvidas nas suas capas de Facebook, mas que não conseguem passar um dia sem arrumar uma confusão com alguém por uma bobeira qualquer.

Talvez nunca tenhamos nos relacionado tanto com outras pessoas como nestes dias. Conhecemos mais gente, vamos a mais happy hours, viajamos com mais facilidade e mais frequentemente, fazemos tantas coisas ao mesmo tempo que até nós mesmos ficamos assustados e sempre andamos escancarando esta felicidade plástica pelos corredores das redes sociais.

A verdade é que sempre fomos quem fomos, mas, recentemente, compartilhamos mais a vida íntima. Cada um tem uma espécie de reality show pessoal. Com mais gente olhando nossos passos, fomos obrigados a fazer cara de lucidez, tirar uma foto em nossos celulares-câmeras e publicar em tempo real para toda nossa rede de contatos. O mais interessante é que ao mesmo tempo que transformamos nossos logins em uma vitrine de caça-likes, caímos também em um universo indiferente e ausente de pessoas confiáveis. Democratizamos o ego. Nunca foi tão fácil encontrar alguém e tão difícil achar pessoas que podemos contar a toda hora.

Isto, claro, também respingou nos relacionamentos amorosos que temos vivido. Inauguramos um novo modelo de amor, mais descartável, mais veloz, mais intenso, mais insatisfatório, mas consumível, mais frio e mais aproveitador. É bem neste ponto que tornamos a coisa um saco! É gente pra todo lado reclamando de como o outro o tratou mal, de como idealizou e não foi correspondido, são uma grande quantidade de indiretas endereçadas aos amores passados, um inexplicável ódio gratuito e sem objetivo, um desamor para lá, outro para cá, gente tirando conclusões sobre tudo e todos, comentários desinformados e repugnantes. Até o português mal falado do outro é motivo para irritação.

As redes sociais se tornaram um espelho de nós. Ame mais.

Das lojas gourmet até a o outlet retrô, dos produtos da China aos handmades customizados. Tudo é a imagem e semelhança do que nos tornaram. Os cortes de cabelos são reproduzidos em série, todo mundo está em busca de um objetivo comum, mas abstrato. Ao mesmo tempo, todo mundo agora é preocupado com a causa dos cães, com a situação das árvores da mata atlântica, em estar em boa forma, comprometido com uma alimentação mais regulada, com frequentar uma academia (e, às vezes até fazendo dela o seu diário pessoal no Instagram). Gente que mostra o carro que comprou, o empregou que conquistou, o camarote que conseguiu porque é bem relacionado, o final de semana no iate/carro/casa/lounge do amigo rico.

Como jornalista, sou um duro defensor deste novo modelo de interação social e da comunicação integrada, globalizada e rápida, mas tenho notado que a gente não está sabendo lidar com isso em nossa relações. O que era para nos ajudar, acaba sendo o nosso peso. Estamos nos falando mais, mas não estamos nos comunicando mais. Disparamos mais palavras, mas temos cada dia menos misericórdia, menos pudor, falta de paciência, de empatia… 

Aliás, muito provavelmente, boa parte das conversas que você e seu parceiro terão vão acontecer por texto. Isso não é estranho para vocês? Só eu acho incomum a forma que escolhemos para nos comunicar com quem amamos ser a mais impessoal, indireta e pobre que existe? A triste constatação é que temos mais intimidades com o emoticons do que com os sentimentos reais, mais intimidade com os comandos do teclado do que com as palavras.

Precisamos urgentemente repensar o volume de presença que temos tido na vida das pessoas que são importantes para nós. Use o Facebook para adicionar o velho amigo da primeira série, use o Instagram para rever pessoas distantes, monte um grupo no Whatsapp com os amigos mais chegados, use o Pinterest para se inspirar no trabalho, mas não se esqueça de que postar nunca será igual estar. Não se esqueça: A gente não vive para postar e a gente posta o que vive! Viver, depois postar. E não o inverso. Ame, ame, ame, ame, até que tudo seja mais real e menos virtual.

Murillo Leal (via Minha Vida Cristã)

Dia do Amigo: O que dizem a Bíblia e Ellen White sobre amizade?

O Dia do Amigo, celebrado a 20 de julho, foi primeiramente adotado em Buenos Aires, na Argentina, com o Decreto nº 235/79, sendo que foi gradualmente adotado em outras partes do mundo. A data foi criada pelo argentino Enrique Ernesto Febbraro. Com a chegada do homem à lua, em 20 de julho de 1969, ele enviou cerca de quatro mil cartas para diversos países e idiomas com o intuito de instituir o Dia do Amigo. Febbraro considerava a chegada do homem a lua “um feito que demonstra que se o homem se unir com seus semelhantes, não há objetivos impossíveis”. 

O que diz a Bíblia
O Senhor Jesus Cristo nos deu a definição de um verdadeiro amigo: "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer" (João 15:13-15). Jesus é o exemplo puro de um verdadeiro amigo, pois Ele deu a sua vida por seus "amigos". Além disso, qualquer um pode tornar-se Seu amigo por confiar nEle como o seu salvador pessoal, nascendo de novo e recebendo nova vida nEle.

Há um exemplo de verdadeira amizade entre Davi e Jônatas, filho de Saul, que, apesar do seu pai perseguir e tentar matar Davi, permaneceu ao lado do seu amigo. Você pode achar essa história em 1 Samuel, do capítulo 18 até o capítulo 20. Algumas passagens pertinentes são 1 Samuel 18:1-4; 19: 4-7; 20:11-17, 41-42.

Provérbios é uma outra boa fonte de sabedoria a respeito de amigos. "Em todo tempo ama o amigo, e na angústia se faz o irmão" (Provérbios 17:17). "O homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão" (Provérbios 18:24). A questão aqui é que, para ter um amigo, é preciso ser um amigo. "Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos" (Provérbios 27:6). "Como o ferro com o ferro se afia, assim, o homem, ao seu amigo" (Provérbios 27:17).

O princípio da amizade também é encontrado em Amós. "Andarão dois juntos, se não houver entre eles acordo?" (Amós 3:3). Os amigos compartilham os mesmos interesses. Um amigo é alguém em quem se pode ter total confiança. Um amigo é alguém com quem se compartilha respeito mútuo, não com base em mérito, mas com base em uma semelhança de espírito.

Finalmente, a verdadeira definição de um amigo de verdade vem do apóstolo Paulo: "Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores" (Romanos 5:7-8). "Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos" (João 15:13). Essa sim é a verdadeira amizade!

O que diz Ellen G. White
Os mais notáveis sábios e filósofos da antiguidade glorificaram a amizade, chegando Cícero a equipará-la à sabedoria. Mas vejamos o que Ellen G. White sabiamente nos diz sobre a verdadeira amizade:

“O calor da verdadeira amizade, o amor que liga coração a coração, é um antegozo das alegrias do Céu”. (A Ciência do Bom Viver, p. 360)

“É natural buscar companheirismo. Todos encontrarão companheiros ou os farão. E exatamente na medida da força da amizade, será o grau de influência exercida pelos amigos uns nos outros, para bem ou para mal. Todos terão amigos, e influenciarão e serão influenciados”. (Conselhos Sobre Saúde, p. 414)

“Sob a educação e disciplina do Espírito Santo, os filhos de Deus amam uns aos outros verdadeira e sinceramente, sem afetação - 'sem parcialidade e sem hipocrisia' (Tg 3:17). E isto porque o coração se acha ligado pelo amor a Jesus. Nossa afeição um pelo outro brota de nossa relação comum com Deus. Somos uma família, amamo-nos uns aos outros como Ele nos amou. Quando comparada com essa afeição genuína, santificada, disciplinada, a superficial cortesia do mundo, a inexpressiva manifestação de efusiva amizade, são como a palha em comparação com o trigo”. (O Cuidado de Deus, p. 24)

“Podem as circunstâncias separar-nos de nossos amigos; o vasto e turbulento oceano pode rolar entre nós e eles. Embora prevaleça ainda sua sincera amizade, talvez sejam incapazes de demonstrá-la fazendo por nós aquilo que com gratidão haveríamos de receber. Mas circunstância alguma, nenhuma distância pode separar-nos do Consolador celestial”. (O Cuidado de Deus, p. 148)

“Cristo nunca fez paz mediante qualquer coisa como a transigência. O coração dos servos de Deus transbordará de amor e simpatia pelos errantes, como nos é apresentado na parábola da ovelha perdida; não terá, porém, palavras suaves para o pecado. Mostram a mais verdadeira amizade os que reprovam o erro e o pecado sem parcialidade e sem hipocrisia”. (Evangelismo, p. 368)

“Podemos mostrar mil pequenas atenções em palavras de amizade e olhares de bondade, o que se refletirá de novo sobre nós. Cristãos indiferentes manifestam por sua negligência de outros que não estão em união com Cristo. É impossível estar em união com Cristo e ainda ser desconsiderados para com outros e negligentes de seus direitos”. (Lar Adventista, p. 428)

“Pois bem, recusarão os cristãos professos associar-se aos não-convertidos, procurando não ter qualquer comunicação com eles? Não; devem estar com eles, no mundo e não do mundo, mas não participar de seus caminhos, nem ser impressionados por eles, e não ter o coração aberto para seus costumes e práticas. Suas relações de amizade devem ter o propósito de atrair outros para Cristo”. (Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 231)

“Sentimentos de desassossego e de saudade ou solidão podem ser-vos benéficos. Vosso Pai celeste pretende ensinar-vos a encontrar nEle a amizade e o amor e consolação que satisfarão vossas mais ferventes esperanças e desejos. Vossa única segurança e felicidade está em fazer de Cristo vosso constante Conselheiro. Podeis ser felizes nEle ainda que não tenhais nenhum outro amigo no vasto mundo”. (Nossa Alta Vocação - Meditações Matinais, 1962, p. 257)