sexta-feira, 2 de outubro de 2026

MEDITAÇÃO # 96 - ELEITOS

Em 1896, o pastor norte-americano Charles M. Sheldon, da Igreja Congregacional, publicou o livro Em seus passos o que faria Jesus? Nele, Sheldon inventa a história de uma congregação cristã cujos membros procuram, durante um ano, viver o desafio de tomar cada atitude como resposta à pergunta que intitula o livro. Na história criada por Sheldon, os cristãos votam, nas eleições municipais, a favor de candidatos que estampam princípios cristãos e defendem valores morais, que, no contexto da época, abrangia a defesa da proibição do comércio de bebidas alcoólicas e dos jogos de azar.

Na obra, Sheldon tentou responder a uma pergunta difícil. Os personagens de seu livro presumiram os critérios que Jesus teria usado para definir seu voto. Essa é uma preocupação válida para o cristão. No entanto, Jesus Cristo viveu em um momento histórico em que o sistema democrático não existia na forma como o conhecemos hoje. Nascido no auge do Império Romano (Lc 2:1), Jesus viveu sua vida terrena sem ter que votar como nós.

No entanto, em um aspecto Cristo votou. Ele elegeu pessoas, não para cargos públicos, mas para o Reino dos Céus! Ele escolheu doze homens para serem seus apóstolos (Lc 6:13) e para que se assentassem em tronos a fim de serem juízes celestiais (Mt 19:28). Designou mais setenta para que fossem de dois em dois e o precedessem nas cidades aonde ia (Lc 10:1). Mas, acima de tudo, deu o voto que é suficiente para eleger qualquer pecador indigno à condição de herdeiro do Reino de Deus (Ap 21:7).

Jesus votaria em candidatos corruptos? É exigida honestidade e integridade perfeitas para se candidatar ao Reino de Deus (1Co 6:9, 10). No entanto, até mesmo o mais corrompido pecador pode ter a “ficha limpa”, se for lavado, santificado e justificado por Jesus e pelo Espírito Santo (1Co 6:11).

Foi assim que pelo menos dois funcionários públicos com histórico de corrupção, Levi Mateus (Mt 9:9) e Zaqueu (Lc 19:1-10), foram eleitos por Jesus para o Reino. Semelhantemente, Paulo, o “principal dos pecadores” (1Tm 1:15), um homem que esteve envolvido com a prática de tortura, além de prisões e execuções claramente injustas (At 8:3; 26:10, 11), foi “constituído ministro” das coisas que Deus lhe revelou (At 26:16).

Cristo não hesita em confiar os mais importantes cargos de Seu Reino a pessoas com um passado sujo. Pelo contrário, Ele expressou sua preferência por pecadores (Mc 2:17). Discursando aos pretensiosos fariseus, que se julgavam dignos de se assentarem nas mais importantes posições do governo de Deus (Mt 23:2), Jesus revelou que pessoas de moral duvidosa precederiam muito candidato honesto no Reino dos Céus (Mt 21:31).

Com seu voto, Jesus quer eleger pessoas que, apesar de seu passado, defeitos e falhas, aceitam ser transformadas por Deus. Ele disse: “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome” (Jo 15:16, NVI).

Quando Cristo regressar, os eleitos pelo voto de Cristo assumirão um cargo mais elevado que o dos anjos (1Co 6:3): eles se assentarão ao lado de Cristo, em seu próprio trono (Ap 3:21), e “reinarão” com Cristo (Ap 20:6).

Em qual candidato Jesus vai votar nessas eleições?

Ele talvez não tenha muito o que manifestar sobre a política deste mundo, mas para o Reino dos Céus Ele deseja eleger pecadores como você e eu.
"Eleita é toda alma que opera a sua própria salvação com temor e tremor. É eleito aquele que cingir a armadura, e combater o bom combate da fé. É eleito quem vigiar e orar, quem examinar as Escrituras, e fugir da tentação. Eleito é aquele que continuamente tiver fé, e que for obediente a toda a palavra que sai da boca de Deus. As providências tomadas para a redenção, são franqueadas a todos; os resultados da redenção serão desfrutados por aqueles que satisfizeram as condições" (Ellen White - A Maravilhosa Graça de Deus, p. 354).

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

MEDITAÇÃO #95 - IDOSOS

“O cabelo grisalho é uma coroa de esplendor, e se obtém mediante uma vida justa” (Provérbios 16:31).

Há pessoas que carregam décadas de histórias dentro de uma igreja. Viram templos serem construídos, ministérios nascerem, famílias crescerem, crises serem atravessadas e orações serem respondidas. Algumas ensinaram crianças que hoje são líderes. Outras passaram anos evangelizando, visitando enfermos, preparando cultos, aconselhando casais ou simplesmente permanecendo firmes quando muitos já haviam desistido. Com o passar dos anos, porém, existe o risco de a igreja começar a olhar para essas pessoas apenas pelo que elas já fizeram, e não pelo que ainda podem fazer.

É justamente essa reflexão que o Dia Nacional do Idoso, celebrado nesta quinta-feira 1º de outubro, propõe às comunidades cristãs. Mais do que uma data para homenagens, a ocasião pode ser um convite para rever a maneira como a igreja trata quem envelheceu dentro dela. O idoso precisa de cuidado, certamente. Mas precisa também de espaço, voz, pertencimento e oportunidade para continuar servindo.

O Brasil já reúne 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo o IBGE. Elas representam 15,8% da população. E de acordo com dados da OMS, o número de pessoas com idade superior a 60 anos chegará a 2 bilhões até 2050, o que representará um quinto da população mundial. O número ajuda a dimensionar uma transformação que também chega às igrejas: cada vez mais comunidades terão entre seus membros pessoas que viverão muitas décadas depois da aposentadoria, da criação dos filhos e de outras etapas tradicionalmente associadas à vida adulta.

Mas talvez a pergunta mais importante não seja quantos idosos existem. É outra: o que a igreja está fazendo com toda a experiência que existe entre eles?

O ageísmo – preconceito e atitudes negativas contra certos grupos etários – contribui para que os indivíduos idosos tenham sentimentos de inutilidade e sensação de serem onerosos e sem valor. E a igreja, como ambiente social, pode ter um importante papel na socialização da pessoa idosa, pois proporciona atividades que integram o idoso numa comunidade amiga e de objetivos comuns, fazendo com que ele sinta-se mais adaptado e útil.

O idoso, regular e profundamente integrado a uma comunidade religiosa que o ajude em seus novos dilemas e dê-lhe atividades úteis e prazerosas, poderá passar pela velhice com a certeza de que não é um “objeto usado”, que não tem mais valor, mas como uma pessoa viva, que pode continuar colaborando para o crescimento da sociedade no qual está inserido.

Esta fase é bastante propícia a uma reflexão do sentido espiritual da vida, fazendo o idoso buscar em Deus o auxílio necessário para elevar sua auto-estima e manter-se como integrante de um mundo onde todos querem sentir-se “vivos”. Uma outra grande importância da religião na velhice é proporcionar ao idoso uma esperança de vida eterna. A morte é inevitável ao homem pecador. Porém, a igreja traz uma certeza de que a vida não acaba com a morte. 

A Bíblia apresenta os mais idosos como símbolo da pessoa repleta de sabedoria e do temor de Deus. Ela também revela que, em momentos decisivos, o conselho de anciãos se reunia para que o melhor caminho fosse procurado e indicado. Há amplo consenso no pensamento de que, quanto mais se vive, mais se acumula experiência. Velhice não é finalização das atividades, tampouco doença, mas uma fase de riqueza em sabedoria armazenada num arquivo vivo que, se for sensatamente “pesquisado”, mostrará como tomar decisões prudentes e como aprender sem dor desnecessária. Os mais idosos têm perdas no aspecto físico, mas, em contrapartida, ganham muito em espiritualidade e sensatez. 

Não podemos encarar o envelhecimento como algo ruim e incapacitante, pois, apesar das limitações que a idade traz, Deus tem um propósito para o homem em todas as épocas da sua vida. “Agora, quando estou velho e de cabelos brancos, não me desampares, ó Deus, até que eu tenha anunciado a Tua força a esta geração e o Teu poder a todos os vindouros” (Salmos 71:18).

Deus é poderoso para fazer o “velho” semear novos frutos. Para Ele, a idade jamais será um obstáculo de renovar sonhos, dar novos planos e proporcionar experiências mais profundas de relacionamento com Ele. Que nós possamos, como igreja, ser justos para honrar a melhor idade dos que estão ao nosso redor e, assim, por meio das nossas vidas, mostrar a importância deles para o Criador. 
"Todos os que têm o espírito de Cristo hão de considerar os idosos com especial respeito e ternura. Não obstante suas muitas enfermidades, esses obreiros possuem talentos que os qualificam para estar na sua sorte e lugar. Deus deseja que eles ocupem posições de liderança em Sua obra. Permaneceram fiéis em meio aos temporais e provas, e acham-se entre os mais valiosos conselheiros. Quão gratos deveríamos ser por poderem eles ainda usar seus dons no serviço do Senhor!... Não demorará, receberão vossa recompensa" (Ellen White - Testemunhos para a Igreja 7, pp. 287 e 288).

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

MEDITAÇÃO #94 - EXTREMISTAS

Você conhece bem esses dois tipos. O primeiro é marcado por zelo sem entendimento; o segundo, por opiniões avançadas e liberais. Eles promovem muito barulho, mas o resultado é como o metal que soa ou como o sino que tine" (1Co 13:1). Eles nunca se dão, mas conseguem o mesmo resultado: a destruição da vida espiritual da igreja. 

Antes de tentarmos esboçar o perfil destes extremistas, do fanático e do liberal, seria interessante registrar o que o Espírito de Profecia fala sobre Jesus, nosso modelo: "O Salvador nunca foi a extremos, nunca perdeu o domínio de Si mesmo, nunca violou as leis do bom gosto. Sabia quando convinha falar, e quando guardar silêncio. Estava sempre na posse de Si mesmo. Nunca errou no ajuizar os homens ou a verdade" (Obreiros Evangélicos, p. 317).

O fanático — O perfil desse personagem é um guarda-chuva que inclui fanatismo pela reforma de saúde, fanatismo pelos tratamentos naturais, fanatismo pela observância exterior das normas da igreja, fanatismo pela pontualidade, fanatismo pela "boa música", etc. Evidentemente, precisamos promover a reforma de saúde, usar os remédios da Natureza, observar as normas da igreja, pautar nossa vida pela ordem e pontualidade e ouvir ou cantar músicas que promovam nosso desenvolvimento espiritual. O fanático, no entanto, não vai ao cerne das coisas. Fica apenas na superfície, no aspecto mecânico. O importante para ele não é mudança de caráter, mas conformação com a letra do sistema que ele defende. Ao pregar, faz de sua "mensagem" um chicote. Enfim, o fanático não vê Cristo na mensagem, não enxerga o amor, não estende o braço de misericórdia, não sabe conjugar os verbos salvar e recuperar. Seu verbo favorito é expurgar. 

O liberal — Para o liberal, o campo é o mundo. Nada de restrições, normas e regras. Toda vez que ouve um sermão sobre santificação, parece dizer: "Já vem com religião comportamental". Tem alergia a princípios e normas. A marca de sua religião é "tolerância sem compromisso". O que importa, diz, é o que está no coração. O liberal, à semelhança do fanático, pensa sozinho. Só que está mais interessado em liberdade. Mas confunde liberdade com liberdades. Não entende que liberdade é fazer o que convém, e liberdades são caprichos fora da ordem. O liberal é, ao mesmo tempo, promotor e símbolo do mundanismo na igreja. Gosta da doutrina da justificação pela fé sem nenhuma relação com a santificação do caráter. Gosta de falar sobre o que Cristo faz por nós e odeia ouvir sobre o que Ele deseja fazer em nós. Gosta de saber que Cristo nos livra da culpa do pecado, mas abomina ouvir que Ele deseja nos livrar do domínio do pecado.

Através dos séculos, a Igreja tem sido fustigada por esses dois personagens: o fanático e o liberal. O primeiro, torna o caminho mais estreito do que na verdade é; o segundo, alarga-o generosamente. Eles estão em pólos opostos, mas têm um ponto em comum: pensam sozinhos, pois não admitem parceria com o Espírito Santo. 

O que nos interessa, acima de tudo, é o perfil do cristão genuíno. Ellen White nos indca o caminho: "Muitos são fanáticos. São consumidos por um ardente zelo, o qual é tomado por religião. Outros vão a outro extremo em sua conformidade com o mundo. Os que seguem o exemplo de Cristo não serão extremistas. Cultivarão a calma e a posse de si mesmos. A paz que se manifestava na vida de Cristo se patenteará na deles" (Testemunhos Seletos 1, p. 169).

Peçamos a Deus que nos ajude a desenvolver uma vida equilibrada, uma visão cristocêntrica da santificação do caráter. Submetamo-nos à influência modeladora do Espírito Santo, para que nossa conduta reflita os encantos da ética cristã. Agindo assim, expurgaremos de nosso coração todo extremismo, e a atmosfera de nossas igrejas se tornará doce e aprazível. Um ninho de amor e justiça.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

MEDITAÇÃO #93 - GRITO

"Aí Jesus deu um grito forte e morreu” (Marcos 15:37 NTLH).

Não há um jeito mais humano de morrer – um grito. Na cruz, os lábios que só conheciam benção, louvor e cura são de repente violados por um grito – expressão que ultrapassa as barreiras do tempo, do espaço, da linguagem, e comunica mais que as próprias palavras.

Sombras intrusas roubam as cores do espetáculo sinistro que toma lugar. Escuridão... Se em Seu nascimento houvera luz à meia-noite, em Sua morte há trevas ao meio-dia. Ausência de luz, denunciando a ausência do Pai. E um grito de dor. Nada poderia feri-Lo com maior intensidade do que a estranha sensação de abandono do céu.

O quadro romântico que os artistas pintaram ao longo da história não passa de uma fórmula adulterada da cena vexatória protagonizada por um homem nu. Na Bíblia, nudez é um símbolo de pecado. Onde há nudez, há pecado. Foi assim no Éden, na criação, quando o primeiro casal pecou. Foi assim depois do dilúvio, na recriação, quando Noé pecou. É assim na mensagem profética para a última igreja, nas cartas do Apocalipse. O mesmo aconteceu na cruz... Ali, sobre dois toscos pedaços de madeira, toda vergonha do mundo repousava num só homem. Deus estava nu. Em Cristo, Deus tomou nosso pecado. Carregou todas as vergonhas consigo, mas nem sequer uma delas era Sua. Era peso demais. Era estranho demais.

E um grito cortou o coração da mãe, sangrou o coração do pai, mas dividiu a história em duas. Um grito rasgou o diafragma do pecado e alcançou o céu, para dar sentido a todos os gritos de quem se sente perdido, mas não encontra em si meios de salvação.

As dores de Cristo são a cura para cada alma perdida. O grito da cruz é a melodia do céu, é a canção dos salvos. Que esse grito encontre eco em seu coração. Que você encontre vida em Cristo.
"Não foi o sofrimento físico que pôs tão rápido fim à vida de Cristo na cruz. Foi o peso esmagador dos pecados do mundo... arrancando-Lhe dos pálidos e trêmulos lábios um angustioso grito, e exclamado com Seu último suspiro: 'Está consumado'. Oh! que amor! Que assombroso amor. Cristo sofreu a morte que nos cabia, a fim de podermos receber a vida que Lhe pertencia" (Ellen White - Testemunhos Seletos 1, p. 231).

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

MEDITAÇÃO #92 - MAGNIFICAT

Logo após ter ouvido o anúncio do arcanjo Gabriel, de que ela fora escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus, Maria foi visitar sua prima Isabel. Na ocasião entoou uma canção de louvor e gratidão, registrada no Evangelho de Lucas. Seu cântico ficou conhecido como Magnificat:

"A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; porque atentou na condição humilde de sua serva; desde agora, pois, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas; e santo é o seu nome. E a sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem. Com o seu braço agiu valorosamente; dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos. Auxiliou a Israel seu servo, recordando-se da sua misericórdia; como falou a nossos pais, para com Abraão e a sua descendência, para sempre" (Lucas 1:46-55).

Embora tivesse "sangue azul", pois pertencia à dinastia de Davi, Maria viveu na simplicidade e no anonimato, casada com um operário braçal. O trono antes ocupado por seus ancestrais, agora era ocupado por um rei marionete do império romano, cujo nome era Herodes. Seu povo vivia sob a tirania imperial. Maria era virgem, mas não ingênua. Humilde, mas não idiota. Santa, mas não alienada.

A jovem desposada com José era uma adolescente questionadora, com um espírito rebelde e revolucionário. Sua alma anelava por mudanças. Ao receber o anúncio trazido por Gabriel, ela soube que o ente gerado em seu ventre era a resposta aos seus anelos. Ellen White diz que "desde o dia em que ouvira o anúncio do anjo, no lar de Nazaré, entesourara Maria todo sinal de que Jesus era o Messias. Sua doce e abnegada existência assegurava-lhe que Ele não podia ser outro senão o Enviado de Deus" (Filhas de Deus, p. 38).

Como que vislumbrando o futuro, Maria declarou profeticamente que Deus havia deposto os poderosos do trono, e elevado os humildes. Ela fala como alguém que vivia além do seu próprio tempo. Era como se fosse uma visitante proveniente do futuro. Pra ela, tais fatos não aconteceriam um dia, mas já teriam acontecido. Deus já teria enchido de bens os famintos, e despedido vazios os ricos. Se isso não é uma revolução social, o que é, então?

Os defensores do status quo preferem espiritualizar passagens como esta, para que se encaixem em sua agenda ideológica e política. Porém, a jovem Maria não está falando de coisas estritamente espirituais, mas concretas, abrangendo a realidade socioeconômica, política e cultural.

O nascimento de Jesus anunciava que o tempo havia sido subvertido, e o futuro invadira o presente. A ordem predominante teria que ser colapsada para dar vazão ao Reino de Deus. A revolução há muito esperada fora deflagrada, e aquele seria, definitivamente, um caminho sem volta. Nunca mais o mundo seria como antes.

O cântico de Maria nos chama a questionar os tronos, romper com a soberba, rejeitar a idolatria do dinheiro e do poder, e lembrar que nenhum poder é absoluto diante do Reino de Deus. E que lá, os últimos serão os primeiros. 
"Os que mais abundante recompensa vão receber serão os que unem à sua atividade o zelo, bondosa e terna piedade para com os pobres, os órfãos, os oprimidos e os aflitos. Mas os que passam de largo, que estão ocupados demais para dar atenção ao que foi adquirido com o sangue de Cristo, verificarão que são os menores e os últimos" (Ellen White - Conselhos sobre Mordomia, p. 201).

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

MEDITAÇÃO #91 - RANÇO

Já há algum tempo a gíria "ranço" foi incorporada ao nosso vocabulário para descrever o sentimento de repúdio, raiva, desprezo e até nojo que uma pessoa pode desenvolver por algo ou alguém. Em posts ou memes nas redes sociais, é fácil dizer que "pegou ranço". Afinal, há uma tela de computador ou celular para nos proteger.

Na vida real, porém, será que é possível lidar com tanto sentimento negativo quando precisamos conviver com aquele ou aquela que se tornou alvo do nosso ranço? A verdade é que dá, sim. Porém, é necessário colocar em prática o sentido real de duas outras palavrinhas: empatia e empenho.

É possível saber lidar com emoções como nojo, raiva, frustração, medo e angústia de forma mais funcional, ou seja, sem desrespeitar ou despejar a ira em cima dos outros. Precisamos pensar que é importante rever nossas atitudes em relação às situações. Afinal, temos a chance de aprender algo em cada situação de nossas vidas. 

Um ponto importante em qualquer circunstância (profissional, social ou familiar) é avaliar se a convivência com a pessoa que provoca "ranço" é mesmo necessária. Se for, vale ponderar os termos dessa convivência: ela se baseia em bate-papos aleatórios ou exige um relacionamento mais estreito? O que puder evitar, evite, mas, se não puder escapar, o segredo está em fugir de assuntos controversos e de conversas em que o objetivo nunca é a troca de ideias, e, sim, expressar opiniões fechadas. Ellen White nos aconselha: "Devemos escolher a convivência mais favorável ao nosso progresso espiritual, aproveitando-nos de todo auxílio ao nosso alcance, pois Satanás colocará muitos obstáculos para tornar nossa marcha em direção ao Céu o mais difícil possível" (Mensagens aos Jovens, p. 419).

Uma das maneiras de reverter o "ranço" é puxar da memória as boas lembranças. Liste os favores que essas pessoas já fizeram para você, as viagens felizes que tiveram, os momentos especiais que compartilharam. Esforce-se para realimentar essas relações. Se são pessoas boas, sempre vale a pena. Tente entendê-las e lembre-se que você, vista com outros olhos, também não deve ser muito fácil de lidar em alguns aspectos, não é mesmo? Ellen White observa: "Detende-vos sobre as boas qualidades daqueles com quem estais associados, e olhai o menos possível para seus erros e fraquezas. Quando sois tentados a queixar-vos do que alguém disse ou fez, louvai alguma coisa na vida ou caráter dessa pessoa. Cultivai a gratidão" (A Ciência do Bom Viver, p. 492). 

"Ranço" também tem a ver com a intolerância à diversidade e à liberdade de expressão. Cada um de nós percebe e lida com a realidade de modo único, com base em nossas características e experiências pessoais. Por conta disso, é natural volta e meia sentir dificuldade em compreender e resistência em aceitar o que difere do nosso modelo perceptivo. Ellen White afirma: "Todas as relações sociais exigem o exercício do domínio próprio, paciência e simpatia. Diferimos tanto uns dos outros em disposições, hábitos e educação, que variam entre si nossas maneiras de ver as coisas. Julgamos diferentemente" (Idem, p. 483).

Encerro com esta maravilhosa mensagem do apóstolo Paulo:

"Por isso eu, que estou preso porque sirvo o Senhor Jesus Cristo, peço a vocês que vivam de uma maneira que esteja de acordo com o que Deus quis quando chamou vocês. Sejam sempre humildes, bem-educados e pacientes, suportando uns aos outros com amor. Façam tudo para conservar, por meio da paz que une vocês, a união que o Espírito dá. Há um só corpo, e um só Espírito, e uma só esperança, para a qual Deus chamou vocês" (Efésios 4:1-4 NTLH).

MEDITAÇÃO #90 - CORAÇÃO

"Cria em mim um coração puro, ó Deus" (Salmo 51:10).

O coração é responsável por receber o sangue que vem de todo o corpo e depois bombeá-lo de volta purificado. Normalmente, tem o tamanho da mão fechada de seu dono. Por sua importância para a vida, nas Escrituras, ele é apresentado simbolicamente como a sede dos pensamentos e das emoções. Porém, o coração humano está doente. Somos todos “cardiopatas”. 

Das páginas da Bíblia, guardo com cuidado especial os capítulos protagonizados por Davi. Suas vitórias e quedas, sua coragem e suas fugas, seus amores e guerras, suas orações, suas canções - cada uma dá cor peculiar ao quadro mais amplo da vida daquele a quem o próprio Deus chama "homem segundo meu coração" (Atos 13:22).

Numa das cenas mais escuras, num dos dias mais vazios, sobe ao céu uma oração. Um pedido angustiado, de quem pecou e simplesmente quer uma nova vida - um novo coração. Mas há nestas palavras uma força escondida. Davi pede: "Cria em mim, Deus"... mas o verbo "criar" usado aqui não é um verbo qualquer. é o hebraico barah - que indica um ato exclusivo de Deus, uma criação a partir do nada. O rei Davi toma emprestada a mesma expressão do Gênesis para descrever a criação necessária em sua existência. 

Talvez hoje ao olhar para sua vida, tudo que veja seja um emaranhado de escolhas erradas e consequências traumáticas. Talvez relacionamentos errados, decisões impensadas tenham roubado a luz e a forma de alguns sonhos seus. Talvez esses últimos dias estejam passando meio lentos, sob o peso de uma culpa, sem forma e vazios. Lembre que uma única palavra de Deus pode transformar as coisas. A mesma palavra que trouxe todas as formas e cores, todos os sons e sabores à existência, pode criar uma nova experiência, pode dar um novo sentido ao nada que somos.

Oro para que hoje você experimente recriação em Cristo e sinta mais uma vez a alegria da salvação.
"Homens e mulheres precisam experimentar o poder criador do Espírito Santo. Devem receber o coração novo, que é mantido brando e tenro pela graça do Céu. Ter um coração novo é ter novo espírito, novos propósitos, motivos novos. Qual é o sinal de um coração novo? Uma vida transformada" (Ellen White - Nossa Alta Vocação, p. 154).