terça-feira, 31 de março de 2026

FUNDAMENTALISMOS

O termo “fundamentalismo” nasceu entre cristãos protestantes nos Estados Unidos no início do século 20 e ganhou novos sentidos, compreensões e significações de acordo com contextos históricos distintos. O movimento que ganhou este nome é originado no final do século 19, entre teólogos protestantes conservadores, calvinistas, no Seminário Teológico de Princeton (EUA), e ampliou-se, nos primórdios do século 20, entre outros grupos protestantes dos Estados Unidos.

Na passagem do século 19 para o 20, tempo de fortes mudanças socioculturais e econômicas, com o avanço da ciência, processos de modernização, urbanização e industrialização, o evangelicalismo se dividiu em duas alas: a liberal, que assumiu o humanismo que embasava as mudanças, estabeleceu o diálogo da teologia com as ciências humanas e sociais, e o surgimento das ciências bíblicas e da teologia liberal. A outra ala é a conservadora, que reagiu fortemente às transformações e à releitura da tradição.

O marco desse movimento conservador foi a publicação da coletânea de 12 volumes intitulada The fundamentals: a testimony to the truth (1910-1915) [“Os fundamentos: um testemunho da verdade”], que teve como editor o Rev. Reuben Ancher Torrey. A coletânea apresentava textos sobre a Bíblia, com defesa de sua inerrância, além de conteúdos de crítica à modernidade, à teologia liberal, à filosofia moderna e ao catolicismo romano. Nestas bases, o cristianismo evangélico é apresentado como a religião verdadeira e é oferecida uma lista de dogmas e doutrinas que sustentam esta afirmação. Outros temas tratados foram a arqueologia e a ciência, com destaque para o fato de a abordagem não ser negacionista, introduziam críticas quando afetavam negativamente “os fundamentos”, mas as valorizava a ciência como meio de validação dos fatos históricos da Bíblia.

Estes “fundamentos” se colocam, portanto, como uma reação contra os valores da modernidade iluminista e humanista, que colocariam em xeque a centralidade do Cristianismo na cultura ocidental, provocando o processo de secularização.

Característica comum deste posicionamento religioso é a revelação divina como princípio estruturante da organização da sociedade em todas as suas dimensões. Tendo como âncora a defesa do mito da civilização cristã ocidental, corporificada na cultura dos países protestantes dominantes, o fundamentalismo nascido entre evangélicos pleiteia para si o cristianismo verdadeiro recusando o diálogo ecumênico, o qual é avaliado como “relativização da fé”.

O movimento fundamentalista manteve-se ativo até os anos 1930, com militantes conservadores presentes em todas as denominações evangélicas. A radicalização fez com que muitos destes se desvinculassem das igrejas evangélicas históricas por conta da adesão delas ao movimento ecumênico (em torno do princípio da unidade na diversidade) e suas organizações. Nos anos 1960, “fundamentalistas” significava “separatistas” e não estavam mais relacionados a conservadores das igrejas históricas e mesmo das pentecostais.

Após a Segunda Guerra Mundial, o fundamentalismo é ressignificado, se internacionaliza e se expande pelo globo acompanhando a expansão do capitalismo estadunidense. O american way of life é exportado para o mundo. Nesse momento, fundamentalistas veem-se como personagens contraculturais, numa batalha pela reconquista da América pelos valores familiares e cristãos, supostamente sequestrados pelo humanismo secular, pela ameaça comunista, pelo feminismo e pelos homossexuais.

Isto se contrapõe, no período, às lutas pelos direitos civis e aos protestos contra a Guerra do Vietnã, abraçadas por amplas parcelas de evangélicos estadunidenses, e gera um certo mal-estar com as relações entre fundamentalismo e extrema-direita, que atingia certos teólogos alinhados com o movimento. Até o final da década de 1960, o segmento fundamentalista nos EUA se mantinha politicamente desarticulado, estabelecendo vínculos com a política quando se imbuía de discursos de anticomunismo e de patriotismo.

A noção de “fundamentalismo” popularizou-se durante a revolução (islâmica) iraniana no final anos 70, a qual foi classificada como tal por analistas e mídias noticiosas, na forma de “religião tradicional militante”. Anos depois, no alvorecer do século 21, é retomado o sentido popularizado, quando passou a ser usado intensamente pelas mídias noticiosas, em todo o mundo, após os atentados de 11 setembro de 2001, nos EUA, como classificação das ações violentas extremistas assumidas por grupos radicais islâmicos.

Com isso foi estabelecida uma imagem negativa do Islã, como, praticamente, sinônimo de fundamentalismo. A popularização do termo, tornou-o equivalente a radicalismo, extremismo, a partir de posturas de autoritarismo, intolerância, intransigência, fanatismo, recusa ao diálogo, negação da pluralidade, reconstrução da ordem moral e idealização do que existiu no passado.

Foi nestes mesmos anos 1970 que se iniciou um processo de recuperação do “evangelicalismo”, como fator de unidade e transição, e o termo “fundamentalismo” ganha nova significação. Herdeiras do fundamentalismo do início do século 20, figuras de destaque inauguram a era dos televangelistas que têm ampla atuação na América Latina.

É um tempo de maior ativismo político com aproximação ao Partido Republicano, formação de grupos de pressão, lobbies, articulações como a Moral Majority [“Maioria Moral”], a nova direita cristã, liderada por Jerry Falwell, em torno das pautas pró-vida e pró-família – isto é, contra o aborto (legalizado nos Estados Unidos em 1973), pela regulação das mídias, com indicações classificativas por faixa etária, contra as conquistas dos direitos civis de mulheres e LGBTI+.

Rapidamente a Direita Cristã, da qual a Maioria Moral seria a principal organização, se tornou uma grande força política nos Estados Unidos e tinha como principais bandeiras: a defesa dos “valores da família” (o que incluía a oposição ao aborto em qualquer caso, o combate à expansão dos direitos dos homossexuais e, também, a restrição à pornografia); a volta da prática das orações e o ensino do criacionismo nas escolas públicas; o combate à disseminação do comunismo juntamente com uma defesa de cunho patriótico ferrenha do capitalismo e do “modo de vida” americano; uma posição extremamente crítica às políticas de bem-estar social; a defesa de uma postura pró-Israel por parte do governo norte-americano; entre outras.

Nestes tempos, o conceito começa a ser utilizado, também, de forma análoga, a outras religiões, para além do Islã, como o Judaísmo. Uma das características comuns desta ampliação da utilização do termo a outras religiões é o antimodernismo, o que se amplia com outras análises para a reação a uma percepção de ameaça ou crise, a dramatização e a mitologização de inimigos da fé, o idealismo religioso, a infalibilidade das escrituras, o extremismo, o proselitismo.

A Maioria Moral entrou fortalecida nos anos 1980, mas foi nos 90 que ganhou mais espaço com a Presidência dos Republicanos Ronald Reagan e George Bush, com força fundamentalista amplificada nos anos 2000, com os governos de Bush filho e de Donald Trump, avaliado como extrema-direita.

Deste processo dos anos pós-Segunda Guerra aos 1990, emergiram teologias como: (i) a do Domínio – a busca do governo do Deus cristão sobre as nações, levando seus seguidores a ocuparem postos de comando no mundo (presidências, ministérios, parlamentos, lideranças de estados, províncias, municípios, supremas cortes) para incidirem na vida pública; (ii) a da Prosperidade – as bênçãos de Deus se manifestam de forma material na vida os fiéis (patrimônio, realizações profissionais, saúde, felicidade na família tradicional); (iii) a da Guerra Cultural – uma atualização das clássicas teologias de guerra espiritual para destruir o mal que busque impedir as ações de Deus no mundo, passando-se a nomear os inimigos do governo de Deus: comunistas, humanistas, feministas, ativistas por direitos civis, e todos que impeçam a realização da prosperidade.

Neste processo, a perspectiva fundamentalista foi se transformando e ultrapassou as fronteiras da religião. Torna-se uma matriz de pensamento, uma postura, ancorada defesa de uma verdade e na imposição dela à sociedade.

É fato que, nas últimas décadas, grupos religiosos e não religiosos surgiram no espaço público, em diferentes contextos do mundo, com ações que podem ser classificadas como “fundamentalistas”, caracterizadas como reativas e reacionárias às mudanças sociais. Nesse sentido, observa-se que o fundamentalismo se torna um fenômeno social que ultrapassa a dimensão religiosa, ganha um perfil mais diversificado e adquire caráter político, econômico, ambiental e cultural.

Nessas atuações, certos “fundamentos” são escolhidos para persuadir a sociedade, a fim de estabelecer fronteiras e lutar contra “inimigos”, o que frequentemente resulta em um movimento polarizador e separatista, que nega o diálogo, a democracia e estabelece um pensamento único que visa direcionar as ações no espaço público.

Por isso, é importante tratar o termo “fundamentalismo” a partir de uma reconstituição histórica de suas diferentes expressões e rechaçar abordagens que o utilizam para denotar acusação e rótulo de contrários. Esta visão amplificada a partir das raízes e das transformações que o sentido de “fundamentalismo” experimentou, leva à compreensão do conceito no plural – “fundamentalismos” – consistindo em formas muito concretas, primeiro de interpretar a realidade (visões de mundo) e depois, de atuar em função desta interpretação.

Portanto, fundamentalismos podem ser entendidos como uma visão de mundo, uma interpretação da realidade, com matriz religiosa. Esta é combinada com ações políticas decorrentes dela, para o enfraquecimento dos processos democráticos, negação de abordagens científicas classificadas como nocivas à fé ou ao status quo, negação do valor da pluralidade cultural, da diversidade étnica, e dos direitos sexuais, reprodutivos. Matriz religiosa e ações políticas são mutuamente condicionadas nos fundamentalismos. Por isso é possível classificar certas posturas sociopolíticas e econômicas como “fundamentalismos político-religiosos”. São identificados como inimigos a serem combatidos em “defesa” da fé ou do status quo, movimentos sociais, ativistas de direitos humanos, cientistas, intelectuais, educadores, sindicatos, partidos políticos, lideranças sociais que atuam na direção oposta. As ações públicas de permanente embate contra estes “inimigos da verdade” são ancoradas no pânico moral (frequentemente com o uso de desinformação e fake news), como alimento do reacionarismo.

Magali Cunha [via Religião e Poder]

CUNHA, Magali do Nascimento. Fundamentalismos, crise da democracia e ameaça aos direitos humanos na América do Sul: tendências e desafios à ação. Salvador: Koinonia, 2020. Disponível em: https://kn.org.br/wp-content/uploads/2020/10/FundamentalismosPT-1.pdf

PIERUCCI, Antônio Flávio. Fundamentalismo e integrismo: os nomes e a coisa. Revista USP, n. 13, p. 144-156, 30 maio 1992. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/25620

RAMIREZ, Gabriela Arguedas. Políticas Antigénero en América Latina – “Ideología De Género”, Lo “Postsecular”, el Fundamentalismo Neopentecostal y el Neointegrismo Católico: La Vocación Anti-Democrática. Rio de Janeiro: Observatorio de Sexualidad y Política (SPW)/ABIA, 2020. Disponível em: https://sxpolitics.org/GPAL/

Nota do blog: "O adventismo pode ser considerado fundamentalista? A resposta pode ser sim ou não, dependendo dos parâmetros adotados. Se tomarmos o fundamentalismo em seu sentido histórico, então teremos um conteúdo doutrinário definido e características bem destacadas para uma avaliação objetiva. Mas se tomarmos fundamentalismo no sentido metafórico atual, como um fenômeno sociológico e não como um fenômeno doutrinal, a avaliação torna-se mais subjetiva e mais sujeita a equívocos. Atualmente, o termo fundamentalismo tem uma carga quase exclusivamente negativa e pejorativa. Fundamentalista é o fanático, o sectário, o intolerante, o conservador, o autoritário, o totalitário e sempre são os ‘outros’" (Trecho do artigo de Isaac Malheiros "Os Adventistas do Sétimo Dia e o fundamentalismo cristão: Uma avaliação histórica e teológica").

Com base nesse artigo, é possível concluir que, apesar de ter algumas afinidades com o conservadorismo teológico do fundamentalismo, o adventismo não sustenta algumas crenças centrais do fundamentalismo, como a inspiração verbal e a inerrância bíblica. Apesar disso, por causa da polarização entre fundamentalistas e liberais no início do século XX, os adventistas por vezes se identificaram como fundamentalistas, e tal identificação produziu efeitos que se fazem sentir até hoje dentro do adventismo.

A VERDADEIRA CONVERSÃO

Mudança súbita, como ocorreu com o apóstolo Paulo, ou transformação gradual, como aconteceu com o discípulo Pedro, a conversão é um fenômeno marcante. Experiência de deslocamento, Céu e Terra atuando juntos, psicologia e teologia interagindo, individualidade e comunidade marcando presença, trata-se de um evento que divide a vida em antes e depois.

Lewis Rambo, autor do livro Understanding Religious Conversion (Yale University Press, 1993), escreve: “A conversão é paradoxal. É elusiva. É inclusiva. Ela destrói e salva. É súbita e gradual. É originada totalmente pela ação de Deus e criada totalmente pela ação dos humanos. É pessoal e comunal, particular e pública. É passiva e ativa. É um afastamento do mundo. É uma resolução de conflito e uma capacitação para ir ao mundo e enfrentar, ou criar, conflito. É um evento e um processo. É o fim e o começo. É definitiva e aberta. A conversão nos deixa devastados – e transformados.”

Apesar desses tons sociológicos e psicológicos, a conversão tem um caráter essencialmente religioso e sobrenatural. Ela envolve a mudança de cosmovisão (modo de pensar) e a transformação real da vida, o que afeta a identidade, as afeições, as atitudes, os costumes, os relacionamentos, os motivos, os interesses, as prioridades e o destino da pessoa.

Para Ellen White, a verdadeira conversão é mais do que mero sentimento ou um turbilhão emocional (Mensagens aos Jovens, p. 71). O primeiro passo é a convicção da real condição de pecado e da transgressão da lei (1888 Materials, p. 130). Não é apenas um evento e, portanto, precisamos de uma nova conversão cada dia (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p. 699). Essa “mudança só pode ser feita pelo Espírito Santo” (Nos Lugares Celestiais, p. 20) e envolve a pessoa toda. É uma “transformação do coração, um volver-se da injustiça para a justiça” (Nos Lugares Celestiais, p. 20), uma “mudança radical” (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p. 17), uma “transformação do caráter” (Testimonies to Southern Africa, p. 30)

Exatamente por ser uma mudança tão radical que a conversão não é simplesmente o que a maioria de nós acredita ser. Alguns acham que conversão é fazer parte de uma igreja, assumir um novo credo ou mesmo adotar novos comportamentos. Acontece que “conversão” é algo que acontece na mente e que afeta a vida inteira. Ellen White diz que "a ligação a uma igreja não substitui a conversão. A aceitação do credo de uma igreja não tem valor algum para quem quer que seja se o coração não estiver verdadeiramente transformado" (Evangelismo, p. 290).

É uma mudança desequilibrante de nossa visão de mundo. Adotar novos comportamentos, regras, ou uma nova fé mantendo a mesma leitura e visão do mundo não é e nem nunca foi conversão. A conversão questiona tudo e reverte muita coisa. Nossas crenças mais fundamentais, aprendidas na escola e ensinadas por nossos pais ou o ambiente em que crescemos são totalmente questionadas e sofrem escrutínios profundo dessa nova visão de mundo. Ellen White diz que "a conversão de almas a Deus é a obra mais grandiosa, a obra mais elevada em que os seres humanos podem empenhar-se" (Carta 121, 1902).

Não são à toa as palavras de Romanos 12:2 nos solicitando uma transformação que só ocorre com a renovação de nossa mente. Renovação da mente. Portanto, uma mudança de cosmovisão como essa que estamos falando não pode ocorrer de maneira formal, ela não ocorre em uma simples classe de estudos, nem em um estudo sistemático das doutrinas um certo número de vezes na semana ou no mês. Veja como Cristo fez com Seus discípulos. “Chamou os doze para estarem com Ele” (Mc 3:14). Você não vai encontrar Jesus dando aulas de teologia, você vai encontrar Jesus ensinando com Sua própria vida à medida que convive com eles.

É claro que isso é muito mais trabalhoso, é claro que toma mais tempo e exige muito mais envolvimento. Mas só a amizade e o contexto podem ajudar alguém a verdadeiramente mudar sua maneira de enxergar a vida. É vendo a visão de mundo de outro que transformamos a nossa.

Compreender isso pode mudar completamente a maneira como entendemos a nossa conversão e a dos outros. Para mim isso indica que me conformar exteriormente com a fé não resolve nada. Indica que Cristo é a transformação completa e absoluta dos meus conceitos mais primitivos, pessoais e que muitas vezes, são conceitos que carrego como certezas. Entender isso me diz que preciso ser outro, completamente outro, depois de começar a seguir a Cristo.

Há uma outra coisa que pode mudar alguém de uma cosmovisão para a outra, um acontecimento drástico e profundo, normalmente envolvendo muito sofrimento. A amizade cristã e o envolvimento dedicado, amoroso e real pode substituir com muito mais eficiência a capacidade didática do sofrimento. Ellen White diz que "nem todos estão constituídos da mesma maneira. Nem todas as conversões são iguais. Jesus impressiona o coração, e o pecador renasce para viver vida nova. Amiúde as almas são atraídas para Cristo sem que ocorra uma manifestação violenta, nem dilaceramento de alma, nem terrores de remorsos" (Carta 15a, 1890).

Os motivos para a conversão podem ser muitos, como retomar a herança religiosa familiar, aderir a novas verdades, resolver uma crise, mudar o roteiro pessoal e encontrar um novo propósito. Porém, o mais legítimo é o reconhecimento do estado de pecado e a necessidade de salvação. 

Finalizo com este maravilhoso texto de Ellen White: 

"A conversão é uma obra que a maioria das pessoas não aprecia. Não é coisa pequena transformar um espírito terreno, amante do pecado, e levá-lo a compreender o inexprimível amor de Cristo, os encantos de Sua graça, e a excelência de Deus, de maneira que a alma seja possuída de amor divino, e fique cativa dos mistérios celestes. Quando a pessoa compreende estas coisas, sua vida anterior parece desagradável e odiosa. Aborrece o pecado; e, quebrantando o coração diante de Deus, abraça a Cristo como a vida e alegria da alma. Renuncia a seus antigos prazeres. Tem mente nova, novas afeições, interesses novos e nova vontade; suas dores e desejos e amor, são todos novos. A concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida até então preferidas a Cristo, são agora desviadas, e Cristo é o encanto de sua vida, a coroa de seu regozijo. O Céu, que dantes não possuía nenhum atrativo, é agora considerado em sua riqueza e glória; e ele o contempla como sua futura pátria, onde ele verá, amará e louvará Aquele que o redimiu por Seu precioso sangue.

As obras da santidade, que se lhe afiguravam enfadonhas, são agora seu deleite. A Palavra de Deus, anteriormente pesada e desinteressante, é agora escolhida como estudo, como o homem do seu conselho. É como uma carta a ele escrita por Deus, trazendo a assinatura do Eterno. Seus pensamentos, palavras e atos, são comparados com esta regra e provados. Treme aos mandamentos e ameaças que ela contém, ao passo que se apega firmemente às suas promessas, e fortalece a alma aplicando-as a si mesmo. Prefere agora o convívio dos mais piedosos, e os ímpios, cuja companhia antes apreciava, já não lhe causam mais deleite. Lamenta-lhes os pecados que dantes o faziam rir. O amor-próprio e a vaidade, ele renuncia, e vive para Deus, e é rico em boas obras. Eis a santificação exigida por Deus. Nada menos que isto aceitará Ele" (Testemunhos Seletos, vol. 1, pp. 253-255).

segunda-feira, 30 de março de 2026

MORNIDÃO

"Assim, porque você é morno, não é frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da Minha boca" (Apocalipse 3:16).

Só há duas opções quando o assunto é vida espiritual e destino eterno. Na Bíblia encontramos muitos exemplos: caminho estreito ou caminho largo, joio ou trigo, ovelhas ou bodes, justos ou injustos, salvos ou perdidos. Não há como pertencer aos dois times ao mesmo tempo. No entanto, no Apocalipse surge uma imagem nova. Na sétima carta escrita por João e enviada à igreja de Laodiceia, a mensagem de Jesus é que os crentes ali pertencem a um inédito terceiro grupo. Não são frios nem quentes. São mornos.

Esta é também a descrição da igreja cristã no final da história. Laodiceia simboliza o povo de Deus nos últimos dias, antes da volta de Jesus. Ellen White adverte: "A mensagem à igreja de Laodicéia é uma impressionante acusação, e é aplicável ao povo de Deus no tempo presente" (Testemunhos Seletos 1, p. 327). Sendo assim, é um recado do Céu para nós. 

Mornidão é o retrato de quem não possui o fogo do primeiro amor, mas também não está completamente entregue à apostasia. Morno é o cristão que vive uma experiência medíocre. Vive de aparências. É superficial. Ellen White afirma: "O cristão ‘superficial’ pode não se distinguir agora com facilidade dos verdadeiros cristãos, mas está às portas o momento em que a diferença será evidente" (Um Convite à Diferença, p. 102).

Mornidão tem a ver com dubiedade. Quando comparado ao frio, o morno parece quente. Mas, se a referência for o quente de verdade, o morno parece frio. O crente morno é quase indecifrável. Na igreja parece quente. Em casa parece frio. No pequeno grupo, certeza que é quente. No trabalho, só pode ser frio. É uma constante mentira. São pessoas que vivem posando de piedosas, mas são hipócritas. Têm vida dupla. São indecisas. Vivem um “me engana que eu gosto”, um teatro gospel. Mas a Bíblia deixa claro o que Jesus faz com gente assim: Ele vomita. Ellen White diz: "A figura de vomitar de Sua boca significa que Ele não pode oferecer suas orações ou expressões de amor a Deus. Não pode aprovar de modo algum sua forma de ensinar a Palavra de Deus ou o seu trabalho espiritual" (Testemunhos para a Igreja 6, p. 408).

Deus não suporta essa farsa porque mornidão é a pior propaganda da religião. Há mais esperança para quem é frio e reconhece este fato do que para quem é morno e pensa que está tudo bem. Ellen White declara: "A única esperança para os laodiceanos é uma clara visão de sua condição diante de Deus, o conhecimento da natureza de sua enfermidade. Nem são frios nem quentes; ocupam uma posição neutra e, ao mesmo tempo, lisonjeiam-se de não necessitar de coisa alguma. A Testemunha Verdadeira aborrece essa mornidão. Causa-Lhe desgosto a indiferença dessa classe de pessoas. Como água morna, são nauseantes a Seu paladar. Nem são desinteressados nem egoistamente obstinados. Não se empenham inteiramente e de coração na obra de Deus, identificando-se com seus interesses; mas se mantêm afastados, e estão prontos a deixar seus postos quando os interesses mundanos, pessoais o exijam. Carecem da obra interior da graça no coração" (Testemunhos Seletos 1, p. 476).

O que o termômetro da vida cristã aponta sobre sua situação atual? Você vai à igreja, ora, lê a Bíblia e até jejua algumas vezes, mas sente que falta fervor? Alguma vez chegou a pensar que a caminhada com Jesus deveria ser mais do que tem sido até aqui? Talvez seja o Espírito Santo convidando você a sair da mornidão. Ellen White exorta: "Vivemos num importante, soleníssimo tempo da história terrestre. Achamo-nos entre os perigos dos últimos dias. Importantes e tremendos acontecimentos se acham diante de nós. Quão necessário é que todos os que temem a Deus e amam Sua lei, se humilhem diante dEle, e se aflijam e pranteiem, e confessem os pecados que têm separado Deus de Seu povo! O que deve suscitar o maior alarme, é que não sentimos nem compreendemos nossa condição, nosso baixo estado, e satisfazemo-nos de permanecer como estamos. Devemos refugiar-nos na Palavra de Deus e na oração, buscando individual e fervorosamente ao Senhor, para que O possamos achar. Cumpre-nos fazer disto nossa primeira ocupação" (Testemunhos Seletos 1, p. 333).

Lembre-se de que você só tem uma vida para viver nesta Terra. Só tem uma história para escrever com Jesus neste mundo. Ellen White alerta: Devemos sair do estado de mornidão e experimentar conversão real, ou perderemos o Céu" (Testemunhas para a Igreja 4, p. 89).

Então escolha o extraordinário e viva intensamente o que Jesus planejou para você.

sexta-feira, 27 de março de 2026

HOSANA

HOSANA - Interjeição de origem hebraica (hoshi'ah-nna) e aramaica utilizada no judaísmo e cristianismo como um clamor que significa "salva-nos, te pedimos", "salva-nos agora" ou "te peço, salva".

Hosana é uma expressão de profundo significado espiritual. Mais do que uma palavra de louvor, ela carrega em si um clamor sincero: “salva-nos, Senhor”. Ao proclamá-la, reconhecemos que a nossa esperança não está em nós mesmos, mas naquele que tem poder para salvar, restaurar e reinar sobre todas as coisas.

Nas Escrituras, vemos essa declaração sendo dirigida a Cristo em Sua entrada em Jerusalém: Mateus 21:9. Ali, a multidão não apenas O exaltava, mas também reconhecia nEle o cumprimento da promessa e a resposta de Deus para a necessidade humana.

Ellen White assim narra: “O brado ecoa da montanha e do vale: 'Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas maiores alturas!'. Nunca antes vira o mundo um cortejo triunfal como esse. Não se assemelhava ao dos famosos conquistadores da Terra. Não fazia parte daquela cena nenhuma comitiva de lamentosos cativos, como troféus da bravura real. Achavam-se em torno do Salvador os gloriosos troféus de Seus serviços de amor pelo homem caído. Estavam os cativos a quem resgatara do poder de Satanás, louvando a Deus por sua libertação. Os cegos a quem restituíra a vista, abriam a marcha. Os mudos cuja língua soltara, entoavam os mais altos hosanas. Saltavam de alegria os coxos por Ele curados, sendo os mais ativos em quebrar os ramos de palmeira e agitá-los diante do Salvador. As viúvas e os órfãos exaltavam o nome de Jesus pelos atos de misericórdia que lhes dispensara. Os leprosos a quem purificara, estendiam na estrada as vestes incontaminadas, ao mesmo tempo que O saudavam como Rei da glória. Aqueles a quem Sua voz despertara do sono da morte, tomavam parte no cortejo. Lázaro, cujo corpo provara a corrupção no sepulcro, mas que então se regozijava na força da varonilidade gloriosa, conduzia o animal que Jesus montava" (O Desejado de Todas as Nações, p. 401).

Ainda hoje, dizer Hosana é elevar ao Senhor uma oração reverente e cheia de fé. É adorá-Lo, mas também depender dEle. É glorificá-Lo, mas também suplicar por Sua intervenção.

Hosana é o louvor de quem reconhece que somente em Jesus há salvação.

Ellen White conclui: "Jesus está para vir, porém não como Ele entrou em Jerusalém cavalgando um jumento, ocasião em que os discípulos louvavam a Deus com grande voz, exclamando: Hosana; mas na glória do Pai, e com toda a comitiva de santos anjos com Ele, escoltando-O em Seu caminho para a Terra. Todo o Céu ficará vazio de anjos. Enquanto isso os expectantes santos O estarão a olhar, olhos fixos no Céu, como estavam os “varões galileus” (Atos dos Apóstolos 1:11) quando Ele subiu do monte das Oliveiras. Então, unicamente os que estiverem santos, os que seguiram plenamente o manso Modelo, hão de, com enlevado júbilo, exclamar ao vê-Lo: “Eis que este é o nosso Deus, em quem esperávamos, e Ele nos salvará” (Isaías 25:9). E serão transformados “num momento, num abrir e fechar d’olhos, ao ressoar da última trombeta” (1 Coríntios 15:52), que desperta os santos mortos, e os chama dos leitos poeirentos, revestidos de gloriosa imortalidade, bradando: Vitória! Vitória! sobre a morte e o sepulcro. Os santos transformados são arrebatados todos juntamente com eles a encontrar o Senhor nos ares, para nunca mais se separarem do objeto de seu amor" (Filhos e Filhas de Deus, p. 360).

quinta-feira, 26 de março de 2026

MILHARES DE CORVOS SOBREVOAM ISRAEL

O céu de Tel Aviv, em Israel, foi tomado por milhares de corvos nesta terça-feira (24). O fenômeno chamou a atenção de moradores e gerou vídeos impressionantes que rapidamente viralizaram nas redes sociais. As imagens mostram os pássaros circulando em massa por grandes arranha-céus, como as famosas Torres Azrieli. O cenário, considerado sinistro por muitos espectadores, intensificou o clima de apreensão em meio às crescentes tensões geopolíticas com o Irã.

Nas plataformas digitais, usuários descreveram o evento como um "presságio de desgraça" e um sinal de desastre iminente na região. Diversos internautas associaram as nuvens escuras formadas pelas aves a profecias bíblicas, citando a passagem de Apocalipse 19:17. Outros relembraram tradições da Roma Antiga, onde os voos de pássaros eram interpretados como mensagens divinas que antecediam guerras, além da lenda secular que envolve a segurança da monarquia britânica e os corvos da Torre de Londres.

Mas apesar do pânico na internet, ornitólogos e cientistas esclarecem que o espetáculo não tem qualquer relação sobrenatural ou com o conflito armado. O evento faz parte de uma migração sazonal de rotina ao longo de uma das rotas de aves mais movimentadas do mundo. Especialistas destacam que cerca de 500 milhões de pássaros passam pelo território israelense anualmente durante a primavera. No mês de março, é comum que a espécie corvo-cinzento se reúna em massa em áreas urbanas na época de nidificação.

O CORVO NA BÍBLIA
A Bíblia não fala somente de Deus e do ser humano, mas dirige sua atenção também aos seres não humanos, acolhendo espaços celestes e terrestres, água, ar, solo e temperatura, vegetais e animais. 

À procura de um exemplo disso, o presente artigo propõe-se focar em um pássaro que a Bíblia menciona onze vezes. Na Bíblia hebraica, lida por cristãos e cristãs como Antigo Testamento, o “corvo” ( בֵרֹע ) aparece dez vezes (Gn 8:7; Lv 11:15; Dt 14:14; 1Rs 17:4.6; Is 34:11; Sl 147:9; Jó 38:41; Pr 30:17; Ct 5:11). Além disso, o nome da ave ainda se torna topônimo, ou seja, nome de lugar – “o rochedo de Oreb” (Jz 7:25; Is 10:26) –, e antropônimo, ou seja, nome de pessoa: “Oreb, príncipe de Madiã” (Jz 7:25 – três vezes; Jz 8:3; Sl 83:12). No Novo Testamento, por sua vez, Jesus apresenta esse pássaro a seus discípulos como paradigma de comportamento: “Olhai os corvos!” (κόραξ: Lc 12:24). Portanto... o que o corvo, um dos animais selvagens talvez menos imponentes, biblicamente traz de mensagem em relação a Deus e ao ser humano?

1. O PRIMEIRO A SAIR
Na história sobre o dilúvio (Gn 6:9-9,17), “quarenta dias e quarenta noites de chuva sobre a terra” (Gn 7:4, 12, 17), com “o rompimento de todas as fontes do grande abismo e a abertura das comportas do céu” (Gn 7:11), provocam uma inundação total da terra durante “cento e cinquenta dias” (Gn 7:24; 8:3). Em seguida, as águas do dilúvio diminuem, e “a arca atracou sobre os montes de Ararate” (Gn 8:4). Outros 74 dias depois, “apareceram os cumes dos montes” (Gn 8:5). Noé, no entanto, ainda não vislumbra espaços maiores de terras não inundadas, tanto que, somente ao fim de outros quarenta dias, “abre uma janela da arca” (Gn 8:6). Com isso nasce a esperança de que, em algum momento, a saída da arca seja possível.

Não obstante, a abrangência da catástrofe ambiental exige paciência e cautela. As águas recuam lentamente. Prova disso é que, da “abertura da janela” (Gn 6:8) até a saída de todos os seres vivos da arca, vão se passar outros 107 dias (cf. Gn 8:10, 12, 13, 14). Nesse tempo, por sua vez, Noé usa duas espécies de aves para, constantemente, obter informações sobre o nível dos alagamentos. Afinal, nos tempos antigos, antes da invenção da bússola e de outros instrumentos de navegação, era comum entre os navegantes soltar pássaros a fim de constatar se e em qual direção existia terra firme nas proximidades.

O primeiro pássaro enviado por Noé é um corvo: este, de fato, saiu, quer dizer, “saía e voltava, enquanto as águas sobre a terra secavam” (Gn 8:7). Sete dias depois, com o mesmo propósito de querer saber se a terra já havia secado, Noé envia uma pomba (Gn 8:8), mas a ave logo lhe volta, justamente por “não encontrar lugar de pouso para suas patas” (Gn 8:9). Enviada uma segunda vez após outros sete dias, “a pomba lhe voltou com um ramo fresco de oliveira em seu bico” (Gn 8:11). Tendo esperado outros sete dias, a terceira pomba já “não lhe voltou mais” (Gn 8:12). A terra, portanto, estava seca.

Todavia, o corvo, talvez por ser mais robusto, cumpre na narrativa o papel de pioneiro. É o primeiro a sair da arca. Com isso, faz Noé chegar a um primeiro conhecimento sobre o estado das inundações. Ellen White assim narra: "Noé e sua família ansiosamente esperaram o recuo das águas; pois almejavam sair de novo à terra. Quarenta dias depois que os altos das montanhas se tornaram visíveis, enviaram um corvo, ave de fino olfato, para revelar se a terra se tornara enxuta. Esta ave, nada encontrando senão água, continuou a voar da arca para fora e de fora para a arca" (Patriarcas e Profetas, p. 65)Ademais, com as suas repetidas “saídas” (Gn 8:7), o corvo traz a dinâmica exodal à memória do ouvinte-leitor, prefigurando as posteriores “saídas” de todos os seres vivos, humanos e não humanos, da arca (Gn 8:15-19), a fim de que, após a catástrofe provocada pela “maldade do ser humano” (Gn 6:5), retomem a vida sobre a terra. 

2. ABENÇOADO E PROTEGIDO
Duas leis no Pentateuco incluem “todo corvo segundo sua espécie” (Lv 11:15; Dt 14:14) entre as aves a não serem comidas pelo ser humano (Lv 11:13; Dt 14:12). Pelo contrário, estas devem ser consideradas uma “abominação” (Lv 11:13) ou “coisa detestável” (Dt 14:3). 

Não obstante, ao prescrever essa restrição alimentícia, Deus não condena o corvo por não ser uma “ave pura comestível” (Dt 14:20). Pelo contrário, considerando todo o Pentateuco como direito, narra-se logo em seu início que, ao criar as “aves aladas”, Deus as avalia como “boas” (Gn 1:21). Mais ainda, junto com os “seres vivos na água”, os “seres vivos que voam” são merecedores da primeira bênção do Criador (Gn 1:20-22).

3. O SABER ALIMENTAR(-SE)
O contraste não poderia ser maior quando se descobre a presença do corvo na vida de Elias. É no século IX a.C. que esse profeta anuncia uma seca a Acabe (1Rs 17:1), rei de Israel, que tinha aderido ao deus Baal (1Rs 16:29-33). Para escapar dessa catástrofe ambiental, Elias, por ordem divina, “escondeu-se junto à torrente de Querite, a leste do Jordão”: não só para encontrar água para beber, mas também para comer, uma vez que “os corvos lhe levavam pão e carne pela manhã, e pão e carne à tarde” (1Rs 17:2-6). Isto é, os corvos (1Rs 17:4.6), cuja carne não pode ser comida, alimentam de modo milagroso o profeta refugiado.

Deus carinhosamente cuida da sobrevivência de Elias em uma região sem ser humano, quando põe os corvos a serviço de seu profeta. Veja que lindo este pensamento de Ellen White: "Aquele Deus que mandou os corvos alimentarem Elias junto à fonte de Querite, não passará por alto um de Seus filhos fiéis, pronto a se sacrificar" (O Maior Discurso de Cristo, p. 110).

4. PROMOVEDOR DA JUSTIÇA
Em dois momentos, também de forma surpreendente, o corvo ganha uma função quando, de forma compensatória, se visa à promoção da justiça. Num deles, isso ocorre quando a terra de uma nação, em vista de seu comportamento, chega à desolação. Com os seres humanos e o gado mortos, com as construções transformadas em ruínas, os animais selvagens novamente tomam posse daqueles espaços dos quais, no passado, foram expulsos e/ou afastados. Eis o anúncio profético em relação a Edom: “Nunca mais haverá quem passe por lá” (Is 34:10), mas as aves selvagens, entre as quais o corvo, “tomarão posse” dessas terras e nelas “morarão” (Is 34:11). 

Outro momento dramático de promoção da justiça surge quando os filhos não sabem respeitar os pais e cuidar deles. Eis a atroz punição que a sabedoria proverbial anuncia para o caso, envolvendo outra vez a ave aqui estudada: “O olho que escarnece o pai e menospreza a obediência à mãe, os corvos da torrente o arrancarão e os filhotes do abutre o devorarão” (Pv 30:17). Ou seja, cabe a essas aves necrófagas a tarefa de tirar a bicadas e consumir o órgão de visão de quem não enxerga as necessidades nem dos próprios pais.

5. SÍMBOLO DA BELEZA
Porventura o corvo é bonito? Decerto, a cor de sua plumagem se destaca. Nesse sentido, ao descrever, da cabeça aos pés, a beleza de seu amado (Ct 5:10-16), também os “cachos dele” chamam a atenção da amada no Cântico dos Cânticos: são como “panículas de tâmaras”, isto é, um conjunto de racemos que formam um cacho, e “pretos como um corvo” (Ct 5:11). Isto é, ou essas palavras de admiração parecem investir no contraste atraente entre o cabelo profundamente preto e a pele branca e brilhante do rosto, ou o cabelo preto talvez queira indicar saúde, juventude e vitalidade, em contraste com os cabelos brancos do idoso. Em todo caso, um grau elevado de pretidão e, com isso, a profundidade, a beleza e/ou a presença da cor em questão se fazem presentes, de forma extraordinária, nas penas de um corvo.

6. ALVO DA PROVIDÊNCIA DIVINA
Em seus discursos dirigidos ao sofredor Jó (Jó 38-41), o Senhor pergunta: “Quem prepara a provisão para o corvo, quando os filhotes dele gritam por socorro a Deus e vagueiam sem comida?” (Jó 38:41). A pergunta pressupõe que o corvo seja o mais fraco entre os catadores necrófagos, pois apenas se banqueteia no final com o que os outros deixam para trás. Não obstante, também essa ave se alimenta pela graça divina e não fica sem comer.

De forma semelhante, a oração poética acolhe o Senhor, Deus de Israel, como quem “oferece alimento aos filhotes do corvo, quando clamam” (Sl 147:9). No caso, os animais em questão representam as criaturas pequenas e indefesas, dependentes dos cuidados de outros. Contudo, essa situação singular deixa clara a dependência existencial de todos os seres em relação à assistência e solicitude de Deus.

Fazendo parte do mundo pensado no Antigo Testamento, também Jesus dirige sua atenção aos pássaros dez vezes contemplados na Sagrada Escritura, dando a seguinte ordem a seus discípulos: “Olhai os corvos: não semeiam, nem colhem, não têm despensa nem celeiro e, no entanto, Deus os alimenta! Quanto mais valeis vós do que as aves!” (Lc 12:24). Ellen White comenta: "Como podem aqueles que esperam estar ao redor do trono de Cristo, e ser revestidos com Sua justiça, desconfiar de Deus e temer que os deixe chegar à penúria? Onde está a fé dessas pessoas? Nosso Pai celeste alimenta os corvos, e não alimentará muito mais a nós?" (Filhos e Filhas de Deus, p. 234).

CONCLUSÃO
A natureza, de forma semelhante à Sagrada Escritura, torna-se Palavra de Deus para quem a medita. A própria Bíblia, constantemente, celebra esse saber. Isto é, os mais diversos seres não humanos – fenômenos celestes e espaços terrestres, ar, água, solo e temperatura, vegetais e animais – aproximam o ser humano do mistério da vida e de Deus.

O exercício ecoespiritual aqui realizado, insistindo em um simples e místico olhar bíblico para o corvo – coabitante, com o ser humano, na terra, a casa comum de ambos –, permite buscar o sentido da própria existência e, com isso, um encontro autêntico com Deus. No caso, o corvo representa bem algumas dinâmicas fundamentais: a) após a catástrofe ambiental, é preciso sair dos abrigos, visando ao movimento exodal em busca de novas e mais justas convivências sobre a terra; b) diante da grande bênção divina que é a natureza, é preciso respeitar os recursos naturais, especialmente as fontes de alimentação; c) no entanto, deve prevalecer a preocupação com o que o necessitado precisa para alimentar-se; d) é preciso resistir aos que insistem em domínios, políticas opressivas e comportamentos desrespeitosos e humilhantes; e) deve-se olhar para o que é bonito; f) não há alternativa à confiança na Providência divina. 

Para a perspectiva bíblica, o corvo é um animal que evoca a necessidade de confiança em Deus acima dos temores naturais ou superstições. Portanto, em vez de olhar de forma negativa e/ou indiferente para o corvo, a Bíblia convida seu leitor(a) a aprender tudo isso com ele. 

[Com referências de O Tempo / Vida Pastoral]

quarta-feira, 25 de março de 2026

REVERÊNCIA

O que Ellen White ensina sobre reverência?

A reverência está diretamente relacionada ao nosso conceito de Deus e do que é sagrado. Os escritos de Ellen White acerca desse tema refletem o mesmo paradoxo presente nas Escrituras. Por um lado, ela enfatizou a transcendência e a soberania divinas, convidando as pessoas a um culto solene, organizado e reverente. Por outro, destacou a presença amorosa de Deus entre nós, conduzindo-nos a um culto marcado pela naturalidade, pela espontaneidade e pela alegria.1

Suas orientações práticas sobre o assunto abrangem diversas questões. A seguir, apresentarei quatro aspectos:

1. Reverência à Palavra de Deus. As Escrituras devem ser manejadas com profundo respeito.2 Ellen White nos aconselha a estudá-las com “reverência e temor a Deus”,3 conscientes de que estamos em Sua presença. Assim, “toda leviandade e futilidade devem ser colocadas de lado”.4

2. Reverência ao nome de Deus. Devemos ser cuidadosos no uso do nome de Deus, inclusive quando oramos. Nunca se deve mencioná-lo com indiferença; na oração, deve-se evitar sua repetição excessiva ou desnecessária. Ellen White afirmou: “Vi que o santo nome de Deus devia ser usado com reverência e temor. As palavras Deus todo-poderoso são juntadas e usadas por alguns em oração de maneira irrefletida e descuidada, o que Lhe é desagradável.”5

3. Reverência à lei de Deus. Ao falar sobre o tabernáculo, Ellen White observou: “A posição dos querubins, com o rosto voltado um para o outro e olhando reverentemente para baixo, para a arca, representava a reverência com que a hoste celestial considera a lei de Deus e seu interesse no plano da redenção.”6 Do mesmo modo, os filhos de Deus devem demonstrar reverência para com Sua lei.

4. Reverência à casa de Deus. Ao tratar da maneira como devemos nos comportar na igreja, a pioneira enfatizou: “Da santidade atribuída ao santuário terrestre, os cristãos devem aprender como considerar o lugar em que o Senhor Se propõe a encontrar-Se com Seu povo.”7 A autora mostra que um conceito adequado da grandeza, da santidade e do poder de Deus conduz à atitude correta. Assim, a humildade e a reverência devem caracterizar o comportamento de todos os que estão na presença do Senhor. Além de orientar sobre o vestuário apropriado,8 ela recomenda evitar conversas e outras atitudes que desviem a atenção das pessoas da adoração e da mensagem do sermão.9

Como Ellen White aconselhou: “Em nome de Jesus podemos ir perante Ele com confiança; contudo, não devemos nos aproximar Dele com ousadia presunçosa, como se Ele estivesse no mesmo nível em que estamos.”10

DANIEL PLENC [via Revista Adventista]

Referências
1 C. Raymond Holmes, Sing a New Song!: Worship Renewal for Adventists Today (Andrews University Press, 1984), p. 163, 164.
2 Ellen G. White, Olhando Para o Alto (Ellen G. White Estate, 1983), p. 744.
3 Ellen G. White, Conselhos Sobre Saúde (CPB, 2025), p. 250.
4 Ellen G. White, Mensagens aos Jovens (CPB, 2021), p. 197.
5 Ellen G. White, Primeiros Escritos (CPB, 2022), p. 129.
6 Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (CPB, 2022), p. 294.
7 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (CPB, 2021), v. 5, p. 419-426.
8 Ellen G. White, Mensagens Escolhidas (CPB, 2023), v. 2, p. 407.
9 Ellen G. White, Mensagens aos Jovens, p. 201.
10 Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, p. 209.

terça-feira, 24 de março de 2026

ELISEU, AS URSAS E AS CRIANÇAS

"Então, Eliseu subiu dali a Betel; e, indo ele pelo caminho, uns rapazinhos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo! Sobe, calvo! Virando-se ele para trás, viu-os e os amaldiçoou em nome do Senhor; então, duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois deles" (2 Reis 2:23, 24).

Esta passagem biblica é um desafio pra muitos. Em 2 Reis 2, um grupo zomba do profeta Eliseu. Logo depois, duas ursas saem do bosque e atacam quarenta e dois deles. Durante muito tempo essa história gerou duas reações opostas: Alguns tentam defendê-la a qualquer custo. Outros simplesmente usam o texto para atacar a Bíblia. Mas quase sempre acontece a mesma coisa: pouca gente lê o texto com atenção ao hebraico, ao contexto cultural e à lógica narrativa da própria Bíblia. E quando esses elementos entram na conversa… a história começa a parecer bem diferente do que imaginamos.

A leitura literal é um problema. Nós fomos educados dentro de um modelo chamado binarismo da linguagem. Ou algo é literal ou é ficção. Mas essa armadilha empobrece a leitura da Bíblia.

A Bíblia não é um livro. São 66 livros com gêneros diferentes: poesia, narrativa, mito, sabedoria, parábola. Nem todo texto precisa ser historicamente literal para ser teologicamente verdadeiro.

Em 2 Reis 2, a narrativa parece brutal: um grupo zomba do profeta Eliseu. Ele os amaldiçoa. Duas ursas saem do bosque e atacam quarenta e dois deles. Mas o problema começa na forma como traduzimos essa história.

Crianças? O hebraico não diz exatamente crianças. A palavra usada é ne'arim. Que pode significar jovens homens, rapazes, até guerreiros. Ou seja, o cenário pode ser bem diferente do que imaginamos.

O episódio se passa em Betel. Naquele momento, Betel era: um centro de culto idólatra; um sistema religioso rival; um espaço marcado por injustiças. Quem confronta Eliseu não são apenas meninos malcriados. São seguidores de um sistema que rejeitava o Deus de Israel.

Houve um insulto quando eles gritam: “Sobe, calvo!". Não estão zombando da aparência. Estão zombando da missão profética. É como dizer: Se você é profeta como Elias, porque não sobe ao Céu também?"

Naquele contexto cultural, ser chamado de calvo era uma forma de humilhação pública. Um insulto ligado à desonra. Ou seja, o ataque era contra o profeta e contra o Deus que ele representava.

E as ursas? Na Bíblia a ursa aparece como símbolo de: fúria protetora; defesa dos filhos; reação diante da ameaça (2Sm 17:8; Pv 17:12; Os 13:8). A imagem pode ser simbólica da proteção de Deus. Não necessariamente um relato literal.

No livro Profetas e Reis (p. 120), Ellen G. White coloca Eliseu como um profeta de paz, mas que também precisava ser respeitado para que sua mensagem fosse ouvida. A história ilustra o perigo de zombar de Deus e o julgamento que pode vir sobre a impiedade.

"Eliseu era um homem de espírito brando e bondoso. A caminho de Betel, foi escarnecido por rapazes ímpios que haviam saído da cidade. Esses rapazes tinham ouvido da ascensão de Elias, e fizeram deste solene acontecimento o assunto de seus motejos. Ao som de suas zombeteiras palavras o profeta voltou-se, e sob a inspiração do Todo-poderoso pronunciou uma maldição sobre eles. O terrível juízo que se seguiu foi de Deus. Tivesse Eliseu permitido que a zombaria passasse despercebida, e teria continuado a ser ridicularizado e insultado pela turba, e sua missão para instruir e salvar em um tempo de grave perigo nacional poderia ter sido derrotada. Este único exemplo de terrível severidade foi suficiente para exigir respeito pelo resto de sua vida. Durante cinquenta anos ele entrou e saiu pelas portas de Betel, e andou de um para outro lado em sua terra, de cidade em cidade, passando pelo meio de multidões indolentes, rudes e dissolutas de jovens; mas nenhum o injuriou ou fez caso omisso de suas qualificações como profeta do Altíssimo".

Talvez o texto das ursas não seja sobre um Deus cruel que mata crianças. Talvez seja sobre um povo aprendendo a compreender o sagrado e sobre o perigo de ridicularizar aquilo que ainda não entendemos.

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