quinta-feira, 26 de março de 2026

MILHARES DE CORVOS SOBREVOAM ISRAEL

O céu de Tel Aviv, em Israel, foi tomado por milhares de corvos nesta terça-feira (24). O fenômeno chamou a atenção de moradores e gerou vídeos impressionantes que rapidamente viralizaram nas redes sociais. As imagens mostram os pássaros circulando em massa por grandes arranha-céus, como as famosas Torres Azrieli. O cenário, considerado sinistro por muitos espectadores, intensificou o clima de apreensão em meio às crescentes tensões geopolíticas com o Irã.

Nas plataformas digitais, usuários descreveram o evento como um "presságio de desgraça" e um sinal de desastre iminente na região. Diversos internautas associaram as nuvens escuras formadas pelas aves a profecias bíblicas, citando a passagem de Apocalipse 19:17. Outros relembraram tradições da Roma Antiga, onde os voos de pássaros eram interpretados como mensagens divinas que antecediam guerras, além da lenda secular que envolve a segurança da monarquia britânica e os corvos da Torre de Londres.

Mas apesar do pânico na internet, ornitólogos e cientistas esclarecem que o espetáculo não tem qualquer relação sobrenatural ou com o conflito armado. O evento faz parte de uma migração sazonal de rotina ao longo de uma das rotas de aves mais movimentadas do mundo. Especialistas destacam que cerca de 500 milhões de pássaros passam pelo território israelense anualmente durante a primavera. No mês de março, é comum que a espécie corvo-cinzento se reúna em massa em áreas urbanas na época de nidificação.

O CORVO NA BÍBLIA
A Bíblia não fala somente de Deus e do ser humano, mas dirige sua atenção também aos seres não humanos, acolhendo espaços celestes e terrestres, água, ar, solo e temperatura, vegetais e animais. 

À procura de um exemplo disso, o presente artigo propõe-se focar em um pássaro que a Bíblia menciona onze vezes. Na Bíblia hebraica, lida por cristãos e cristãs como Antigo Testamento, o “corvo” ( בֵרֹע ) aparece dez vezes (Gn 8:7; Lv 11:15; Dt 14:14; 1Rs 17:4.6; Is 34:11; Sl 147:9; Jó 38:41; Pr 30:17; Ct 5:11). Além disso, o nome da ave ainda se torna topônimo, ou seja, nome de lugar – “o rochedo de Oreb” (Jz 7:25; Is 10:26) –, e antropônimo, ou seja, nome de pessoa: “Oreb, príncipe de Madiã” (Jz 7:25 – três vezes; Jz 8:3; Sl 83:12). No Novo Testamento, por sua vez, Jesus apresenta esse pássaro a seus discípulos como paradigma de comportamento: “Olhai os corvos!” (κόραξ: Lc 12:24). Portanto... o que o corvo, um dos animais selvagens talvez menos imponentes, biblicamente traz de mensagem em relação a Deus e ao ser humano?

1. O PRIMEIRO A SAIR
Na história sobre o dilúvio (Gn 6:9-9,17), “quarenta dias e quarenta noites de chuva sobre a terra” (Gn 7:4, 12, 17), com “o rompimento de todas as fontes do grande abismo e a abertura das comportas do céu” (Gn 7:11), provocam uma inundação total da terra durante “cento e cinquenta dias” (Gn 7:24; 8:3). Em seguida, as águas do dilúvio diminuem, e “a arca atracou sobre os montes de Ararate” (Gn 8:4). Outros 74 dias depois, “apareceram os cumes dos montes” (Gn 8:5). Noé, no entanto, ainda não vislumbra espaços maiores de terras não inundadas, tanto que, somente ao fim de outros quarenta dias, “abre uma janela da arca” (Gn 8:6). Com isso nasce a esperança de que, em algum momento, a saída da arca seja possível.

Não obstante, a abrangência da catástrofe ambiental exige paciência e cautela. As águas recuam lentamente. Prova disso é que, da “abertura da janela” (Gn 6:8) até a saída de todos os seres vivos da arca, vão se passar outros 107 dias (cf. Gn 8:10, 12, 13, 14). Nesse tempo, por sua vez, Noé usa duas espécies de aves para, constantemente, obter informações sobre o nível dos alagamentos. Afinal, nos tempos antigos, antes da invenção da bússola e de outros instrumentos de navegação, era comum entre os navegantes soltar pássaros a fim de constatar se e em qual direção existia terra firme nas proximidades.

O primeiro pássaro enviado por Noé é um corvo: este, de fato, saiu, quer dizer, “saía e voltava, enquanto as águas sobre a terra secavam” (Gn 8:7). Sete dias depois, com o mesmo propósito de querer saber se a terra já havia secado, Noé envia uma pomba (Gn 8:8), mas a ave logo lhe volta, justamente por “não encontrar lugar de pouso para suas patas” (Gn 8:9). Enviada uma segunda vez após outros sete dias, “a pomba lhe voltou com um ramo fresco de oliveira em seu bico” (Gn 8:11). Tendo esperado outros sete dias, a terceira pomba já “não lhe voltou mais” (Gn 8:12). A terra, portanto, estava seca.

Todavia, o corvo, talvez por ser mais robusto, cumpre na narrativa o papel de pioneiro. É o primeiro a sair da arca. Com isso, faz Noé chegar a um primeiro conhecimento sobre o estado das inundações. Ellen White assim narra: "Noé e sua família ansiosamente esperaram o recuo das águas; pois almejavam sair de novo à terra. Quarenta dias depois que os altos das montanhas se tornaram visíveis, enviaram um corvo, ave de fino olfato, para revelar se a terra se tornara enxuta. Esta ave, nada encontrando senão água, continuou a voar da arca para fora e de fora para a arca" (Patriarcas e Profetas, p. 65)Ademais, com as suas repetidas “saídas” (Gn 8:7), o corvo traz a dinâmica exodal à memória do ouvinte-leitor, prefigurando as posteriores “saídas” de todos os seres vivos, humanos e não humanos, da arca (Gn 8:15-19), a fim de que, após a catástrofe provocada pela “maldade do ser humano” (Gn 6:5), retomem a vida sobre a terra. 

2. ABENÇOADO E PROTEGIDO
Duas leis no Pentateuco incluem “todo corvo segundo sua espécie” (Lv 11:15; Dt 14:14) entre as aves a não serem comidas pelo ser humano (Lv 11:13; Dt 14:12). Pelo contrário, estas devem ser consideradas uma “abominação” (Lv 11:13) ou “coisa detestável” (Dt 14:3). 

Não obstante, ao prescrever essa restrição alimentícia, Deus não condena o corvo por não ser uma “ave pura comestível” (Dt 14:20). Pelo contrário, considerando todo o Pentateuco como direito, narra-se logo em seu início que, ao criar as “aves aladas”, Deus as avalia como “boas” (Gn 1:21). Mais ainda, junto com os “seres vivos na água”, os “seres vivos que voam” são merecedores da primeira bênção do Criador (Gn 1:20-22).

3. O SABER ALIMENTAR(-SE)
O contraste não poderia ser maior quando se descobre a presença do corvo na vida de Elias. É no século IX a.C. que esse profeta anuncia uma seca a Acabe (1Rs 17:1), rei de Israel, que tinha aderido ao deus Baal (1Rs 16:29-33). Para escapar dessa catástrofe ambiental, Elias, por ordem divina, “escondeu-se junto à torrente de Querite, a leste do Jordão”: não só para encontrar água para beber, mas também para comer, uma vez que “os corvos lhe levavam pão e carne pela manhã, e pão e carne à tarde” (1Rs 17:2-6). Isto é, os corvos (1Rs 17:4.6), cuja carne não pode ser comida, alimentam de modo milagroso o profeta refugiado.

Deus carinhosamente cuida da sobrevivência de Elias em uma região sem ser humano, quando põe os corvos a serviço de seu profeta. Veja que lindo este pensamento de Ellen White: "Aquele Deus que mandou os corvos alimentarem Elias junto à fonte de Querite, não passará por alto um de Seus filhos fiéis, pronto a se sacrificar" (O Maior Discurso de Cristo, p. 110).

4. PROMOVEDOR DA JUSTIÇA
Em dois momentos, também de forma surpreendente, o corvo ganha uma função quando, de forma compensatória, se visa à promoção da justiça. Num deles, isso ocorre quando a terra de uma nação, em vista de seu comportamento, chega à desolação. Com os seres humanos e o gado mortos, com as construções transformadas em ruínas, os animais selvagens novamente tomam posse daqueles espaços dos quais, no passado, foram expulsos e/ou afastados. Eis o anúncio profético em relação a Edom: “Nunca mais haverá quem passe por lá” (Is 34:10), mas as aves selvagens, entre as quais o corvo, “tomarão posse” dessas terras e nelas “morarão” (Is 34:11). 

Outro momento dramático de promoção da justiça surge quando os filhos não sabem respeitar os pais e cuidar deles. Eis a atroz punição que a sabedoria proverbial anuncia para o caso, envolvendo outra vez a ave aqui estudada: “O olho que escarnece o pai e menospreza a obediência à mãe, os corvos da torrente o arrancarão e os filhotes do abutre o devorarão” (Pv 30:17). Ou seja, cabe a essas aves necrófagas a tarefa de tirar a bicadas e consumir o órgão de visão de quem não enxerga as necessidades nem dos próprios pais.

5. SÍMBOLO DA BELEZA
Porventura o corvo é bonito? Decerto, a cor de sua plumagem se destaca. Nesse sentido, ao descrever, da cabeça aos pés, a beleza de seu amado (Ct 5:10-16), também os “cachos dele” chamam a atenção da amada no Cântico dos Cânticos: são como “panículas de tâmaras”, isto é, um conjunto de racemos que formam um cacho, e “pretos como um corvo” (Ct 5:11). Isto é, ou essas palavras de admiração parecem investir no contraste atraente entre o cabelo profundamente preto e a pele branca e brilhante do rosto, ou o cabelo preto talvez queira indicar saúde, juventude e vitalidade, em contraste com os cabelos brancos do idoso. Em todo caso, um grau elevado de pretidão e, com isso, a profundidade, a beleza e/ou a presença da cor em questão se fazem presentes, de forma extraordinária, nas penas de um corvo.

6. ALVO DA PROVIDÊNCIA DIVINA
Em seus discursos dirigidos ao sofredor Jó (Jó 38-41), o Senhor pergunta: “Quem prepara a provisão para o corvo, quando os filhotes dele gritam por socorro a Deus e vagueiam sem comida?” (Jó 38:41). A pergunta pressupõe que o corvo seja o mais fraco entre os catadores necrófagos, pois apenas se banqueteia no final com o que os outros deixam para trás. Não obstante, também essa ave se alimenta pela graça divina e não fica sem comer.

De forma semelhante, a oração poética acolhe o Senhor, Deus de Israel, como quem “oferece alimento aos filhotes do corvo, quando clamam” (Sl 147:9). No caso, os animais em questão representam as criaturas pequenas e indefesas, dependentes dos cuidados de outros. Contudo, essa situação singular deixa clara a dependência existencial de todos os seres em relação à assistência e solicitude de Deus.

Fazendo parte do mundo pensado no Antigo Testamento, também Jesus dirige sua atenção aos pássaros dez vezes contemplados na Sagrada Escritura, dando a seguinte ordem a seus discípulos: “Olhai os corvos: não semeiam, nem colhem, não têm despensa nem celeiro e, no entanto, Deus os alimenta! Quanto mais valeis vós do que as aves!” (Lc 12:24). Ellen White comenta: "Como podem aqueles que esperam estar ao redor do trono de Cristo, e ser revestidos com Sua justiça, desconfiar de Deus e temer que os deixe chegar à penúria? Onde está a fé dessas pessoas? Nosso Pai celeste alimenta os corvos, e não alimentará muito mais a nós?" (Filhos e Filhas de Deus, p. 234).

CONCLUSÃO
A natureza, de forma semelhante à Sagrada Escritura, torna-se Palavra de Deus para quem a medita. A própria Bíblia, constantemente, celebra esse saber. Isto é, os mais diversos seres não humanos – fenômenos celestes e espaços terrestres, ar, água, solo e temperatura, vegetais e animais – aproximam o ser humano do mistério da vida e de Deus.

O exercício ecoespiritual aqui realizado, insistindo em um simples e místico olhar bíblico para o corvo – coabitante, com o ser humano, na terra, a casa comum de ambos –, permite buscar o sentido da própria existência e, com isso, um encontro autêntico com Deus. No caso, o corvo representa bem algumas dinâmicas fundamentais: a) após a catástrofe ambiental, é preciso sair dos abrigos, visando ao movimento exodal em busca de novas e mais justas convivências sobre a terra; b) diante da grande bênção divina que é a natureza, é preciso respeitar os recursos naturais, especialmente as fontes de alimentação; c) no entanto, deve prevalecer a preocupação com o que o necessitado precisa para alimentar-se; d) é preciso resistir aos que insistem em domínios, políticas opressivas e comportamentos desrespeitosos e humilhantes; e) deve-se olhar para o que é bonito; f) não há alternativa à confiança na Providência divina. 

Para a perspectiva bíblica, o corvo é um animal que evoca a necessidade de confiança em Deus acima dos temores naturais ou superstições. Portanto, em vez de olhar de forma negativa e/ou indiferente para o corvo, a Bíblia convida seu leitor(a) a aprender tudo isso com ele. 

[Com referências de O Tempo / Vida Pastoral]

quarta-feira, 25 de março de 2026

REVERÊNCIA

O que Ellen White ensina sobre reverência?

A reverência está diretamente relacionada ao nosso conceito de Deus e do que é sagrado. Os escritos de Ellen White acerca desse tema refletem o mesmo paradoxo presente nas Escrituras. Por um lado, ela enfatizou a transcendência e a soberania divinas, convidando as pessoas a um culto solene, organizado e reverente. Por outro, destacou a presença amorosa de Deus entre nós, conduzindo-nos a um culto marcado pela naturalidade, pela espontaneidade e pela alegria.1

Suas orientações práticas sobre o assunto abrangem diversas questões. A seguir, apresentarei quatro aspectos:

1. Reverência à Palavra de Deus. As Escrituras devem ser manejadas com profundo respeito.2 Ellen White nos aconselha a estudá-las com “reverência e temor a Deus”,3 conscientes de que estamos em Sua presença. Assim, “toda leviandade e futilidade devem ser colocadas de lado”.4

2. Reverência ao nome de Deus. Devemos ser cuidadosos no uso do nome de Deus, inclusive quando oramos. Nunca se deve mencioná-lo com indiferença; na oração, deve-se evitar sua repetição excessiva ou desnecessária. Ellen White afirmou: “Vi que o santo nome de Deus devia ser usado com reverência e temor. As palavras Deus todo-poderoso são juntadas e usadas por alguns em oração de maneira irrefletida e descuidada, o que Lhe é desagradável.”5

3. Reverência à lei de Deus. Ao falar sobre o tabernáculo, Ellen White observou: “A posição dos querubins, com o rosto voltado um para o outro e olhando reverentemente para baixo, para a arca, representava a reverência com que a hoste celestial considera a lei de Deus e seu interesse no plano da redenção.”6 Do mesmo modo, os filhos de Deus devem demonstrar reverência para com Sua lei.

4. Reverência à casa de Deus. Ao tratar da maneira como devemos nos comportar na igreja, a pioneira enfatizou: “Da santidade atribuída ao santuário terrestre, os cristãos devem aprender como considerar o lugar em que o Senhor Se propõe a encontrar-Se com Seu povo.”7 A autora mostra que um conceito adequado da grandeza, da santidade e do poder de Deus conduz à atitude correta. Assim, a humildade e a reverência devem caracterizar o comportamento de todos os que estão na presença do Senhor. Além de orientar sobre o vestuário apropriado,8 ela recomenda evitar conversas e outras atitudes que desviem a atenção das pessoas da adoração e da mensagem do sermão.9

Como Ellen White aconselhou: “Em nome de Jesus podemos ir perante Ele com confiança; contudo, não devemos nos aproximar Dele com ousadia presunçosa, como se Ele estivesse no mesmo nível em que estamos.”10

DANIEL PLENC [via Revista Adventista]

Referências
1 C. Raymond Holmes, Sing a New Song!: Worship Renewal for Adventists Today (Andrews University Press, 1984), p. 163, 164.
2 Ellen G. White, Olhando Para o Alto (Ellen G. White Estate, 1983), p. 744.
3 Ellen G. White, Conselhos Sobre Saúde (CPB, 2025), p. 250.
4 Ellen G. White, Mensagens aos Jovens (CPB, 2021), p. 197.
5 Ellen G. White, Primeiros Escritos (CPB, 2022), p. 129.
6 Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (CPB, 2022), p. 294.
7 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (CPB, 2021), v. 5, p. 419-426.
8 Ellen G. White, Mensagens Escolhidas (CPB, 2023), v. 2, p. 407.
9 Ellen G. White, Mensagens aos Jovens, p. 201.
10 Ellen G. White, Patriarcas e Profetas, p. 209.

terça-feira, 24 de março de 2026

ELISEU, AS URSAS E AS CRIANÇAS

"Então, Eliseu subiu dali a Betel; e, indo ele pelo caminho, uns rapazinhos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo! Sobe, calvo! Virando-se ele para trás, viu-os e os amaldiçoou em nome do Senhor; então, duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois deles" (2 Reis 2:23, 24).

Esta passagem biblica é um desafio pra muitos. Em 2 Reis 2, um grupo zomba do profeta Eliseu. Logo depois, duas ursas saem do bosque e atacam quarenta e dois deles. Durante muito tempo essa história gerou duas reações opostas: Alguns tentam defendê-la a qualquer custo. Outros simplesmente usam o texto para atacar a Bíblia. Mas quase sempre acontece a mesma coisa: pouca gente lê o texto com atenção ao hebraico, ao contexto cultural e à lógica narrativa da própria Bíblia. E quando esses elementos entram na conversa… a história começa a parecer bem diferente do que imaginamos.

A leitura literal é um problema. Nós fomos educados dentro de um modelo chamado binarismo da linguagem. Ou algo é literal ou é ficção. Mas essa armadilha empobrece a leitura da Bíblia.

A Bíblia não é um livro. São 66 livros com gêneros diferentes: poesia, narrativa, mito, sabedoria, parábola. Nem todo texto precisa ser historicamente literal para ser teologicamente verdadeiro.

Em 2 Reis 2, a narrativa parece brutal: um grupo zomba do profeta Eliseu. Ele os amaldiçoa. Duas ursas saem do bosque e atacam quarenta e dois deles. Mas o problema começa na forma como traduzimos essa história.

Crianças? O hebraico não diz exatamente crianças. A palavra usada é ne'arim. Que pode significar jovens homens, rapazes, até guerreiros. Ou seja, o cenário pode ser bem diferente do que imaginamos.

O episódio se passa em Betel. Naquele momento, Betel era: um centro de culto idólatra; um sistema religioso rival; um espaço marcado por injustiças. Quem confronta Eliseu não são apenas meninos malcriados. São seguidores de um sistema que rejeitava o Deus de Israel.

Houve um insulto quando eles gritam: “Sobe, calvo!". Não estão zombando da aparência. Estão zombando da missão profética. É como dizer: Se você é profeta como Elias, porque não sobe ao Céu também?"

Naquele contexto cultural, ser chamado de calvo era uma forma de humilhação pública. Um insulto ligado à desonra. Ou seja, o ataque era contra o profeta e contra o Deus que ele representava.

E as ursas? Na Bíblia a ursa aparece como símbolo de: fúria protetora; defesa dos filhos; reação diante da ameaça (2Sm 17:8; Pv 17:12; Os 13:8). A imagem pode ser simbólica da proteção de Deus. Não necessariamente um relato literal.

No livro Profetas e Reis (p. 120), Ellen G. White coloca Eliseu como um profeta de paz, mas que também precisava ser respeitado para que sua mensagem fosse ouvida. A história ilustra o perigo de zombar de Deus e o julgamento que pode vir sobre a impiedade.

"Eliseu era um homem de espírito brando e bondoso. A caminho de Betel, foi escarnecido por rapazes ímpios que haviam saído da cidade. Esses rapazes tinham ouvido da ascensão de Elias, e fizeram deste solene acontecimento o assunto de seus motejos. Ao som de suas zombeteiras palavras o profeta voltou-se, e sob a inspiração do Todo-poderoso pronunciou uma maldição sobre eles. O terrível juízo que se seguiu foi de Deus. Tivesse Eliseu permitido que a zombaria passasse despercebida, e teria continuado a ser ridicularizado e insultado pela turba, e sua missão para instruir e salvar em um tempo de grave perigo nacional poderia ter sido derrotada. Este único exemplo de terrível severidade foi suficiente para exigir respeito pelo resto de sua vida. Durante cinquenta anos ele entrou e saiu pelas portas de Betel, e andou de um para outro lado em sua terra, de cidade em cidade, passando pelo meio de multidões indolentes, rudes e dissolutas de jovens; mas nenhum o injuriou ou fez caso omisso de suas qualificações como profeta do Altíssimo".

Talvez o texto das ursas não seja sobre um Deus cruel que mata crianças. Talvez seja sobre um povo aprendendo a compreender o sagrado e sobre o perigo de ridicularizar aquilo que ainda não entendemos.

[via instagram]

quarta-feira, 18 de março de 2026

INVEJA: UMA ARMA PODEROSA

A inveja é a arma que me atordoa quando sou ferido pelo sucesso, posses ou qualidades de outra pessoa: “Invejamos o que é de outrem...; a inveja dói ao ver o outro possuir aquilo que [nós] desejamos para nós mesmos.”1 Essa arma é usada por meio da comparação odiosa, e sua dor provém da impotência, da incapacidade de obter o bem que o outro possui. A dor é mais aguda quando desejo a própria essência ou o ser do outro. “Nosso ódio mais forte e vital”, escreveu Paul Valéry, “é dirigido àqueles que são o que gostaríamos de ser;”2 cuja “própria existência... é uma eterna e silenciosa reprovação.”3 Ou, como disse Lord Chesterfield, as pessoas odeiam aqueles que as fazem sentir-se inferiores.4

De fato, segundo Ellen White, “invejar alguém é admitir que essa pessoa é superior”. Mas ela acrescentou: “O orgulho não permite nenhuma concessão”.5 O dilema de admitir e negar a superioridade simultaneamente cria uma turbulência interior. Causa “não apenas uma perversidade de temperamento, mas um mal-estar que desordena todas as faculdades”.6 A pessoa passa a ser dominada pelo ressentimento, um sentimento persistente de ódio, descrito por Max Scheler como “um autoenvenenamento da mente”.7

Aqui existe uma progressão: a inveja gera ressentimento; o ressentimento gera ódio; e o ódio é assassinato (1 João 3:15).

Essa progressão da inveja ao assassinato é evidente em diversas narrativas bíblicas: Caim e Abel, José e seus irmãos, Saul e Davi, Daniel e seus rivais na corte de Dario, Jesus e os fariseus, Paulo e os judeus da diáspora.

No caso de Jesus, Marcos observa explicitamente que Pilatos “sabia que os principais sacerdotes o haviam entregado por inveja” (Marcos 15:10).

A inveja é apontada como a origem dos diversos acessos de fúria dos judeus da Diáspora contra Paulo em Antioquia: “Quando os judeus viram as multidões, ficaram cheios de inveja” (Atos 13:45); em Icônio: “A mesma coisa aconteceu em Icônio” (Atos 14:1); e em Tessalônica: “Os judeus que não se deixaram persuadir, movidos por inveja, tomaram alguns dos homens maus da praça e, reunindo uma turba, causaram tumulto em toda a cidade” (Atos 17:5). As acusações contra Jesus e Paulo eram máscaras para uma inveja profundamente enraizada.

A inveja é uma arma secreta: ela nos ataca por dentro. É tão oculta que muitos não se dão conta do que os fere e atrapalha seus esforços para serem gentis. Considere a observação pessimista do sábio: “Todo trabalho e toda habilidade vêm da inveja que um tem do outro” (Eclesiastes 4:4). Mas, “sendo a inveja um sentimento feio demais para admitir, o cuidado que se tem para com ela geralmente acaba por disfarçá-la de si mesmo”.10 Em resumo, a inveja está sempre ligada a uma forte autoilusão. O efeito não é apenas negar o bem do outro invejado, mas também vilipendiá-lo e deturpá-lo, mascarando a malícia sob um manto de retidão.

Um exemplo clássico dessa difamação é a acusação de que Jesus expulsava demônios por meio de Belzebu, o príncipe dos demônios (Lucas 11:15). Significativamente, muita magia, superstição e fofoca derivam sua dinâmica da inveja. Demonizar aqueles que são inocentes, mas invejados, permite o ódio, a calúnia — e até mesmo o assassinato — sem que se tenha consciência pesada.

A malícia invejosa é uma arma de destruição em massa: por meio da fofoca, “o homem invejoso”, escreveu Ellen White, “espalha veneno por onde passa, alienando amigos e incitando ódio e rebelião”.11 A abundância material da modernidade, a multiplicidade de carreiras e as diversas vias de ascensão social nos permitem agora invejar e imitar os outros sem recorrer à violência física.

Não era assim nas sociedades antigas. Elas, incluindo os gregos, temiam a inveja com suas propensões violentas. Também estavam cientes de sua estreita ligação com o orgulho. “Aqueles que amam a honra”, escreveu Aristóteles, “são mais invejosos”.12 E Platão deplorou o sentimento de orgulho unido à inveja que “reduz... os rivais ao desespero por meio de... calúnias injustas”.13 Significativamente, “segundo os gregos, a inveja era inerente à natureza humana e não simplesmente o resultado do ambiente”.14

Verdade. Nossa natureza pecaminosa está enraizada na Queda, no desejo invejoso de ser Deus (Gênesis 3:5). Curiosamente, extrapolando de textos mitológicos e antropológicos, René Girard argumentou que “a origem... de toda a cultura humana é, em última análise, o diabo”. Se, por meio da rivalidade invejosa ou “mimética”, o diabo fomenta a violência, ele restaura a paz fazendo com que os antagonistas projetem seu ódio e violência em vítimas inocentes ou substitutas.15

O ódio ao “outro” revela-se um poderoso meio de unir grupos humanos; eles mantêm sua coesão unindo-se contra algum inimigo externo. Essa busca por bodes expiatórios é sempre acompanhada de ilusões, afirma Girard. Mitos e contos de fadas de aparência inocente são, por vezes, racionalizações ou relatos distorcidos de eventos reais, contados a partir da perspectiva de perseguidores iludidos.16

A interpretação de Girard sobre as origens demoníacas da cultura humana e o papel fundamental da busca por bodes expiatórios espelha o relato de Ellen White sobre a origem do mal. “A inveja”, escreveu ela, “começou com Satanás. Ele desejava ser o primeiro no céu.”17 Para despojar Deus, ele O deturpou, “atribuindo-Lhe o desejo de autoexaltação. Com suas próprias características malignas, ele procurou revestir o Criador amoroso. Assim, ele enganou os anjos. Assim, ele enganou os homens.”18 A projeção psicológica que nega o mal em si mesmo, atribuindo-o a outro, “originou-se no pai da mentira e foi exibida por todos os filhos e filhas de Adão.”19

O ponto crucial aqui é compreender nossa cegueira, nossa relutância em encarar nossa inveja: “Se vocês abrigam em seus corações amarga inveja e ambição egoísta, não neguem a verdade. Essa ‘sabedoria’ não vem do céu, mas é terrena, não espiritual e demoníaca. Pois onde há inveja e ambição egoísta, aí há desordem e toda espécie de males” (Tiago 3:14-16). Observe como Tiago associa a inveja à violência: “De onde vêm as guerras e as contendas entre vocês? Não vêm das paixões que guerreiam dentro de vocês?” (Tiago 4:1). Se você deseja algo, mas não o consegue, então “você mata, cobiça, briga e luta” (versículo 2).

Tiago nos adverte para não negarmos a inveja e o orgulho em nossos corações. Seu conselho expõe a presunção moderna de um eu racional e objetivo. Simultaneamente, ele revela como a inveja e o orgulho se insinuam em nossas brigas e discussões, tornando-as insolúveis. Desentendimentos enraizados em diferenças de opinião e percepção podem ser mediados e resolvidos. Mas a inveja nega a verdade que vê e é impermeável à razão. No fim, somente o amor pode realizar o feito, de outra forma impossível, de infiltrar-se no reino obscuro da inveja. Somente o amor pode revelar o autoengano da inveja e nossa malícia injustificada. Mas a inveja também pode rejeitar os apelos do amor, responder com ódio e se expor como ódio “sem razão” (João 15:25).

Davi sentiu profundamente esse ódio sem motivo e lamentou a perda daqueles que o odiavam sem causa.20

Jesus morreu recitando o Salmo 22. Na cruz, “os fogos reprimidos da inveja e da malícia, do ódio e da vingança, irromperam [...] contra o Filho de Deus”.21 Contudo, Cristo “não revidou; [...] não fez ameaças” (1 Pedro 2:23). Sua mansidão expôs o diabo como um inimigo sem causa, um odiador irracional. O mal foi visto como “um intruso cuja presença não se justifica”.22 A cruz subverteu o sistema de controle do diabo, a violência, “a maneira pagã de organizar o mundo”.

A brutalidade não era novidade. Mas até a cruz, “ela permaneceu oculta na infraestrutura da mitologia”.23 Por meio de Seu amor eterno, que expôs o funcionamento assassino do pecado, Deus, na e por meio da cruz, libertou os humanos da inveja e do ódio, da reciprocidade violenta e das rixas de sangue, e iniciou uma onda que submergiu a Roma pagã. A cruz continua a libertar as pessoas à medida que elas conhecem o Filho (João 8:36). Seu amor nos liberta para reconhecermos os golpes da inveja que o diabo nos desferiu (Jeremias 17:9). Seu amor nos resgata do poder dessa arma maligna. Em troca, Ele nos dá Seu próprio instrumento maravilhoso, Seu espírito de amor abnegado. 


Referências:
1. Peter Walcot, Inveja e os Gregos: Um Estudo do Comportamento Humano (Warminster, Inglaterra: Aris & Phillips, Ltd, 1978), p. 1.
2. Citado em Joseph Epstein, Inveja: Os Sete Pecados Capitais (Nova Iorque: Oxford University Press, 2003), p. 65.
3. Max Scheler, Ressentimento, trad. Lewis B. Coser e William W. Holdheim (Milwaukee: Marquette University Press, 1994), p. 47.
4. Citado em ibid., p. xxii.
5. Ellen G. White, Testemunhos para a Igreja, vol. 5, p. 56.
6. Ibid.
7. Scheler, p. 25.
8. Os textos bíblicos atribuídos à NKJV são da Nova Versão do King James. Copyright © 1979, 1980, 1982 por Thomas Nelson, Inc. Usado com permissão. Todos os direitos reservados.
9. Os textos bíblicos atribuídos à NRSV são da Nova Versão Padrão Revisada da Bíblia, direitos autorais (c) 1989 pela Divisão de Educação Cristã do Conselho Nacional das Igrejas de Cristo nos EUA. Usado com permissão.
10. Epstein, ibid., p. 21.
11. Branco, ibid.
14. Walcot, ibid., pp. 18-21.
15. René Girard, Vejo Satanás Cair Como um Relâmpago, trad. James G. Williams (Nova York: Orbis Books, 2002), p. 87.
16. Rene Girard, “Generative Scapegoating,” em Violent Origins: Ritual Killing and Cultural Formation, ed. Robert G. Hamerton-Kelly (Stanford, Calif.: Stanford University Press, California, 1987), pp. 73-104.
17. Ellen G. White, Ibid.
18. Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p. 22.
19. Ellen G. White, Caminho a Cristo, p. 40.
20. Salmo 69:4; veja também Salmos 35:7-20; 38:19, 20; 41:9; 55:9-21; 59:3-7; 64:2-6.
21. Ellen G. White, O Grande Conflito, p. 501.
22. Ibid., p. 493.
23. Girard, Eu Vejo Satanás, p. 144

terça-feira, 17 de março de 2026

ADULTIZAÇÃO INFANTIL

Já ouvir sobre adultização infantil? Esse termo descreve situações em que crianças passam a adotar comportamentos, responsabilidades ou hábitos típicos da vida adulta antes do tempo.

Isso pode aparecer de várias formas no cotidiano. Algumas crianças passam a frequentar salões de beleza, vestir roupas pensadas para adultos, acompanhar tendências de moda ou manter agendas cheias de compromissos, com aulas, atividades e responsabilidades que ocupam praticamente todo o dia.

A questão surge quando as expectativas sobre a criança começam a se aproximar demais do mundo adulto, exigindo maturidade emocional que ela ainda não tem.

Por que brincar é tão importante?
Cada fase da infância possui necessidades próprias. O que uma criança precisa aos quatro anos é diferente do que precisa aos oito ou aos dez. Apesar dessas diferenças, existe um ponto em comum amplamente reconhecido por especialistas: brincar é uma atividade fundamental para o desenvolvimento infantil.

É por meio das brincadeiras que as crianças aprendem a conviver com outras pessoas, desenvolvem autonomia, exercitam a criatividade e exploram o mundo ao seu redor. O brincar também contribui para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, motoras e de linguagem.

Quando a adultização acontece, parte dessas experiências pode ser reduzida. Crianças com rotinas muito estruturadas, excesso de compromissos ou forte exposição a comportamentos adultos podem acabar tendo menos espaço para atividades lúdicas.

Esse processo pode gerar diferentes consequências ao longo do tempo, como:

* Dificuldades de socialização;

* Aumento do estresse familiar;

* Hábitos de consumo precoces;

* Sedentarismo;

* Erotização precoce;

* Baixa autoestima.

Além disso, a exposição a temas e informações complexas do universo adulto pode gerar confusão emocional. Sem maturidade suficiente para compreender o que acontece ao seu redor, a criança pode interpretar essas experiências de forma distorcida, algo que pode impactar sua forma de ver o mundo no futuro.

Papel dos pais em preservar a infância
Grande parte do comportamento das crianças é influenciada pelas relações que elas constroem dentro da família. Por isso, pais e responsáveis têm um papel importante em garantir que a infância seja respeitada.

* O equilíbrio costuma ser a melhor estratégia. Por exemplo, não há problema em uma criança experimentar roupas ou acessórios dos pais durante uma brincadeira. O cuidado está em evitar que ela passe a se comportar constantemente como um adulto ou a buscar parecer adulta o tempo todo;

* Outro ponto importante é observar a rotina da criança. Agendas muito cheias podem reduzir o tempo dedicado a atividades essenciais para o desenvolvimento, como brincar livremente ou conviver com outras crianças;

* Também é importante prestar atenção ao conteúdo consumido na internet e nas redes sociais. Definir horários e limites para esse consumo pode ajudar a evitar uma exposição excessiva;

* Especialistas também destacam o valor do diálogo dentro da família. Reservar alguns minutos do dia para conversar com os filhos sobre escola, amigos e sentimentos ajuda a construir confiança e compreensão;

* É importante lembrar que cada criança tem sua própria individualidade. Evitar projetar nos filhos expectativas ou desejos que pertencem aos adultos é uma forma de permitir que eles vivam plenamente aquilo que essa fase da vida tem de mais importante: o direito de ser criança.

A infância como presente de Deus
Na Bíblia, Jesus ensina que devemos aprender com as crianças a simplicidade e a pureza da fé (Mateus 18:3). Assim, quando protegemos os pequenos da adultização infantil, estamos cuidando de um presente divino.

Deixar que vivam a infância no tempo certo é um ato de amor, confiança e fé em Deus, que sustenta cada fase da vida.

[Com informações de UOL]

sexta-feira, 13 de março de 2026

DEUS SANGRENTO?

Por que há tanta violência na Bíblia?

Essa pergunta surge com frequência, especialmente em relação às guerras de extermínio no Antigo Testamento (veja, por exemplo, Deuteronômio 20:16-18 e 1 Samuel 15:2 e 3) e à ideia de um inferno de fogo eterno (como alguns interpretam Apocalipse 14:9-11). Para muitos observadores honestos, passagens como essas parecem retratar Deus como pouco mais que um Hitler onipotente e um monstro moral. Quem poderia adorar um deus assim?

Como, então, devemos entender passagens difíceis como essas? Inegavelmente, a Bíblia conta algumas histórias bastante chocantes, a maioria das quais são as consequências trágicas do mal no mundo. Mas o que podemos chamar de passagens “genocidas” parecem atribuir a responsabilidade diretamente a Deus. Como podemos conciliar essas imagens com a afirmação bíblica de que “Deus é amor” (1 João 4:8) e que “a justiça e o juízo são o fundamento” do Seu trono (Salmo 89:14)?

Em relação à ordem de Deus para exterminar os cananeus, precisamos observar o que mais a Bíblia diz sobre essa situação. Os versículos anteriores mostram que os israelitas deveriam evitar a guerra sempre que possível e, caso ela surgisse, poupar mulheres e crianças (Deuteronômio 20:10-15). Além disso, as nações de Canaã poderiam ter sido incorporadas a Israel se, como Raabe, tivessem se arrependido de suas maldades. Algumas das práticas hediondas dos cananeus incluíam queimar crianças vivas como sacrifícios a seus deuses, prostituição nos templos, incesto e bestialidade. Infelizmente, embora lhes tenham sido dados 400 anos para abandonar a adoração de seus deuses do sexo e da violência e se voltarem para o Deus de Israel (Gênesis 15:16), eles se recusaram e lutaram contra Israel. Se tivessem permanecido na terra, teriam impedido o plano de Deus para que Israel fosse uma luz para as nações. Tanto a história quanto a arqueologia revelam como o povo que permaneceu em Canaã constituiu uma fonte constante de tentação e apostasia.

Em 1 Samuel 15:2 e 3, Deus ordenou ao rei Saul destruir totalmente os amalequitas, incluindo mulheres, criancinhas de peito e animais. A aniquilação deles se deveu ao fato de serem destacados inimigos de Israel (Números 14:45; Jz 3:13; 6:3) e não terem se arrependido (1 Samuel 14:48). Ela não se fundamentou apenas em algo que seus antepassados haviam feito, mas em sua própria perversidade.

Acerca de Agague, rei dos amalequitas, Samuel disse: “Assim como a tua espada desfilhou as mulheres, assim ficará desfilhada a tua mãe entre as mulheres” (1 Samuel 15:33). Deus havia lidado com misericórdia com esse povo, apesar de sua pecaminosidade (Gênesis 15:16; 1 Samuel 15:18). Como lembra Warren Wiersbe em seu Comentário Bíblico Expositivo, “povos como os amalequitas que desejavam exterminar os israelitas não estavam apenas declarando guerra contra Israel, mas também se opondo ao Deus Todo-poderoso e a seu grande plano de redenção para o mundo inteiro”.

Deus diz: “Não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim em que ele se converta do seu caminho e viva” (Ezequiel 33:11). Ele “não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3:9). “Todos” significa todos. Isso inclui não apenas os cananeus e os amalequitas, mas todas as pessoas que já viveram ou viverão. Nos dias de Noé, o Espírito de Deus apelou aos habitantes da Terra durante 120 anos para que se arrependessem e não perecessem no Dilúvio vindouro.

Se lida corretamente, a Bíblia indica que os ímpios serão totalmente destruídos, que a alternativa à vida eterna não é uma eternidade em tormento ardente, mas a “morte” como “o salário do pecado” (Romanos 6:23) — o que em outros lugares é chamado de “a segunda morte” no lago de fogo (Apocalipse 21:8). Mais surpreendente ainda, a Bíblia descreve Deus disposto a se entregar no altar do sacrifício, morrendo na cruz para nos salvar, pecadores (João 3:16). É somente para expurgar o mal do universo para sempre que Deus consente em extinguir no fogo do inferno aqueles que continuam a se apegar ao pecado. 

Há muitas vozes hoje tentando nos dizer o que é justo, bom e correto. Mas, apesar do que os críticos possam alegar, somente o Deus da Bíblia reflete perfeitamente esses ideais.


"A crise aproxima-se rapidamente. Quase é vindo o tempo da visitação de Deus. Conquanto Lhe repugne castigar, não obstante castigará, e isto presto. Agora é o tempo de nos prepararmos! Os raios da ira de Deus estão prestes a cair, e quando Ele começar a punir os transgressores, não haverá um período de pausa até o fim. A tempestade da ira de Deus está se acumulando, e só permanecerão os que são santificados pela verdade no amor de Deus. Pesquisai as Escrituras por vós mesmos, para que possais compreender a terrível solenidade do tempo presente" (Ellen G. White, Maranata - O Senhor Vem!, p. 271).

quarta-feira, 11 de março de 2026

A ÚLTIMA CRISE DA TERRA

O tempo presente é de dominante interesse para todo o vivente. Governadores e estadistas, homens que ocupam posições de confiança e autoridade, homens e mulheres pensantes de todas as classes, têm sua atenção posta nos acontecimentos que tomam lugar ao nosso redor. Estão observando as relações que existem entre as nações. Eles examinam a intensidade que está tomando posse de cada elemento terreno, e reconhecem que algo grande e decisivo está para acontecer — que o mundo está no limiar de uma crise estupenda.

O mundo está-se tornando cada vez mais iníquo. Em breve surgirá grande perturbação entre as nações — perturbação que não cessará até que Jesus venha. Estamos no limiar da crise dos séculos. Em rápida sucessão os juízos de Deus se seguirão uns aos outros — fogo, inundações e terremotos, com guerras e derramamento de sangue. Há perante nós tempos tempestuosos, mas não pronunciemos uma só palavra de incredulidade ou desânimo.

As calamidades em terra e mar, as condições sociais agitadas, os rumores de guerra, são portentosos. Prenunciam a proximidade de acontecimentos da maior importância. As forças do mal estão-se arregimentando e consolidando-se. Elas se estão robustecendo para a última grande crise. Grandes mudanças estão prestes a operar-se no mundo, e os acontecimentos finais serão rápidos.

O tempo de angústia, que há de aumentar até o fim, está muito próximo. Não temos tempo a perder. O mundo está agitado com o espírito de guerra. O tempo de angústia — angústia qual nunca houve, desde que houve nação (Daniel 12:1) — está precisamente sobre nós, e somos semelhantes às virgens adormecidas. Acham-se diante de nós perplexidades com que dificilmente sonhamos. Devemos acordar e pedir que o Senhor Jesus ponha debaixo de nós os Seus braços eternos e nos conduza durante o tempo de provação à nossa frente.

Deus sempre tem dado aos homens advertência dos juízos por vir. Aqueles que tiveram fé na mensagem por Ele enviada para seu tempo, e agiram segundo sua fé, em obediência aos Seus mandamentos, escaparam aos juízos que caíram sobre os desobedientes e incrédulos.

A Noé veio a palavra: “Entra tu e toda a tua casa na arca, porque te hei visto justo diante de Mim” (Gênesis 7:1). Noé obedeceu, e foi salvo. A Ló foi enviada a mensagem: “Levantai-vos, saí deste lugar, porque o Senhor há de destruir a cidade” (Gênesis 19:14). Ló colocou-se sob a guarda dos mensageiros celestes, e foi salvo. Assim os discípulos de Cristo tiveram aviso da destruição de Jerusalém. Os que estavam alerta quanto ao sinal da próxima ruína, e fugiram da cidade, escaparam à destruição. Assim agora estamos dando aviso da segunda vinda de Cristo e da destruição impendente sobre o mundo. Os que ouvirem a advertência, serão salvos.

Antes de Sua crucifixão o Salvador explicou a Seus discípulos que Ele deveria ser morto, e do túmulo ressuscitar; anjos estavam presentes para gravar-lhes Suas palavras na mente e no coração (Marcos 8:31-32; Marcos 9:31; Marcos 10:32-34). Mas os discípulos aguardavam livramento temporal do jugo romano, e não podiam tolerar a idéia de que Aquele em quem se centralizavam todas as suas esperanças devesse sofrer uma morte ignominiosa. As palavras de que necessitavam lembrar-se, fugiram-lhes do espírito; e, ao chegar o tempo da prova, esta os encontrou desprevenidos. A morte de Cristo destruiu-lhes tão completamente as esperanças, como se Ele não os houvesse advertido previamente.

Assim, nas profecias, o futuro se patenteia diante de nós tão claramente como se revelou aos discípulos pelas palavras de Cristo. Os acontecimentos ligados ao final do tempo da graça e obra de preparo para o período de angústia, acham-se claramente apresentados. Multidões, porém, não possuem maior compreensão destas importantes verdades do que teriam se nunca houvessem sido reveladas.

Devemos estudar os grandes sinais que indicam os tempos em que estamos vivendo. Os que se colocam sob a direção de Deus, para ser por Ele guiados, compreenderão a constante corrente dos acontecimentos que Ele ordenou. Precisamos ver na História o cumprimento da profecia, estudar as atuações da Providência nos grandes movimentos reformatórios e compreender a progressão dos acontecimentos na arregimentação das nações para o conflito final da grande controvérsia.

Deus estabeleceu, porém, um dia para o término da história deste mundo: “Será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim.” A profecia se cumpre rapidamente. Mas, muito mais deve ser dito acerca destes assuntos tremendamente importantes. Perto está o dia em que será decidido para sempre o destino de toda alma.

Deve-se fazer um grande esforço para manter este assunto perante o povo. O solene fato de que o dia do Senhor virá repentina e inesperadamente deve ser mantido não só perante as pessoas do mundo, mas também diante de nossas próprias igrejas. A terrível advertência da profecia é dirigida a toda alma. Ninguém julgue estar isento do perigo de ser apanhado de surpresa. Não permitais que a interpretação profética de pessoa alguma arrebate a convicção do conhecimento de ocorrências que revelam que este grande acontecimento está bem próximo.

Não somos agora capazes de descrever acuradamente as cenas a serem representadas em nosso mundo no futuro; isto, porém, sabemos: que este é um tempo em que precisamos velar em oração; pois o grande dia do Senhor está às portas.

[Ellen G. White - Eventos Finais, pp. 11-17]