"Pois muitos há, dos quais muitas vezes vos disse, e agora novamente digo, chorando, que são inimigos da cruz de Cristo” (Fp 3:18).
No terceiro capítulo de sua carta aos filipenses, Paulo oferece um contraste entre dois grupos de crentes: os cidadãos do Céu e os inimigos da cruz. Ao falar do último grupo, o apóstolo não faz referência a inimigos da fé cristã. Os inimigos mencionados aqui não são inimigos da igreja. São inimigos de Cristo. Eles são cristãos, frequentam os cultos, são aparentemente piedosos. Mas, quando se coloca uma lente de aumento sobre sua vida, é possível observar algumas diferenças em relação ao primeiro grupo. Eles têm um destino diferente, um deus diferente, uma glória diferente e interesses diferentes.
Segundo o Comentário Bíblico Adventista (vol. 7, p. 159) "se estas pessoas fossem inimigas declaradas da cruz ou se negassem que Cristo morreu para fazer expiação pelo pecado, não seriam perigosas para a igreja. No entanto, eles professavam ser seguidoras do Salvador, enquanto sua vida demonstrava que eram estranhas ao poder do evangelho. A mente estava nas coisas terrenas e a amizade do mundo é inimiga de Deus. Uma vida imoral é inimizade para com a cruz, porque Cristo morreu para nos fazer santos".
Quem seriam os tais “inimigos da cruz”? Se tivéssemos que aplicar esta palavra aos nossos dias, a quem caberia a alcunha? Quem são os atuais “inimigos da cruz”? Para sabermos quem são eles em nossos dias, temos que descobrir quem eram nos dias de Paulo.
Alguns versos antes, o apóstolo adverte a seus leitores sobre os que ele chama de “cães”, “maus obreiros”, “falsa circuncisão”. Ele não está apontando inimigos externos, mas internos. Os mesmos que em outra epístola ele chama de “falsos irmãos, que se entremeteram com o fim de espreitar a nossa liberdade que temos em Cristo Jesus, para reduzir-nos à escravidão” (Gl 2:4). É acerca dos tais que devemos redobrar o cuidado, para que não nos tornemos presas suas, “por meio de filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens” (Cl 2:8).
Os inimigos da cruz não estão lá fora. Eles estão entre nós! Fazem-se de cristãos, fiéis seguidores de Cristo, expoentes da sã doutrina, conservadores das tradições, porém, sua intenção é outra. Ellen White escreve: “Temos que temer muito mais o que vem de dentro do que de fora. Os obstáculos à força e ao sucesso são muito maiores dentro da própria igreja do que do mundo” (Review and Herald, 22 de março de 1887). Não é a Cristo que servem, mas a si mesmos, ou na linguagem bíblica, ao seu próprio ventre (Fp 3:19).
Pregam uma santidade de fachada, ostentando uma “aparência de sabedoria”, “humildade fingida”, “severidade para com o corpo”, coisas completamente desprovidas de valor real. Mas Ellen White adverte: "Deus não Se deixa enganar pela aparência de piedade. Não comete erros em Sua apreciação do caráter. Os homens podem ser enganados pelos que são de coração corrupto, mas Deus penetra todos os disfarces e lê a vida íntima" (Cristo em Seu Santuário, p. 115).
Por que Paulo os chama de inimigos da cruz?
Por se insurgirem contra os efeitos da cruz. Estes intentam reconstruir os muros separatistas derrubados na cruz (Ef 2:14-17). Em vez de promover harmonia entre os diferentes grupos humanos, preferem ver o circo pegar fogo. Insistem com uma mensagem discriminatória, onde as pessoas são julgadas por critérios étnicos, culturais, sexistas ou religiosos. A mensagem do amor, marca registrada do ministério de Jesus, é substituída por mensagem de ódio, de vingança, de intolerância. Em vez de boas novas, preferem espalhar calúnias, difamação, mentiras contra quem ouse pensar diferente deles. Ellen White diz: "Deus não reconhece distinção alguma de nacionalidade, etnia ou classe social. É o Criador de todo homem. Todos os homens são de uma família pela criação, e todos são um pela redenção. Cristo veio para demolir toda parede de separação e abrir todos os compartimentos do templo, a fim de que todos possam ter livre acesso a Deus. Os muros do sectarismo, casta e raça desabarão quando o verdadeiro espírito missionário penetrar no coração dos homens" (E Recebereis Poder, p. 337).
Além de reconstruírem “as paredes de separação” entre os humanos, seu maior atrevimento é tentar recosturar o véu do templo. Pra eles, ninguém pode chegar-se a Deus a não ser que rezem em sua cartilha ideológica/doutrinária. Os que ousam discordar, logo são tachados de hereges, anticristos, falsos profetas, etc. São os herdeiros diretos do legado deixado pelos fariseus contemporâneos de Jesus, que não entravam e ainda impediam que outros entrassem no reino de Deus (Mt 23:13).
Qualquer ideologia ou doutrina que não seja capaz de fazer de nós pessoas melhores, mais compassivas e generosas, deveria ser totalmente rechaçada, pois certamente não procede do Crucificado. O evangelho pregado por Jesus nunca teve o propósito de ser um discurso de ódio ou de incitação a qualquer forma de violência; ao contrário, é um convite para a vida. O mundo já está saturado de tanto ódio e preconceito. Ellen White ressalta: "Todos os atos de injustiça que tendem a abreviar a vida; o espírito de ódio e vingança, ou a condescendência de qualquer paixão que leve a atos ofensivos a outrem, ou nos faça mesmo desejar-lhes mal são, em maior ou menor grau, violação do sexto mandamento" (Patriarcas e Profetas, p. 308).
Os inimigos da cruz são retrógrados, querem reverter o processo deflagrado com o advento da mensagem cristã. Preferem voltar à idade das trevas. Acham que as mulheres são seres inferiores, que não podem exercer qualquer função que não seja subalterna. Alguns chegam a defender a instituição da escravidão, como sendo justa e necessária. Tudo isso travestido de linguagem bíblica e teológica. Dizem-se favoráveis à vida, mas defendem a pena de morte com unhas e dentes, bem como a utilização de tortura por parte do Estado, e a proliferação de armas entre os cidadãos comuns.
Se Paulo os chama de “cães”, vou um pouco adiante: São cães raivosos. Cães de guarda! Defendem seu perímetro com ferocidade, não se dispondo a ceder um centímetro sequer. Para eles, o importante não é a defesa da verdade (aquela que é seguida em amor, de acordo com Ef 4:15), mas a defesa de seu ponto de vista ou de seus interesses. Ellen White diz: "Ao passo que nos levantamos em defesa da verdade, entretanto, não o façamos pela defesa do próprio eu, fazendo grande arruído por ser chamados a suportar vitupério e ser falsamente apresentados" (Evangelismo, p. 625).
Eles bem que poderiam ser identificados facilmente, não fosse sua habilidade em camuflar-se. Paulo diz que os tais “obreiros fraudulentos” se transformam em ministros da justiça, tal como Satanás que se transfigura em anjo de luz (2Co 11:14). Ellen White alerta: "O estarem os homens na igreja não prova que são cristãos. Pecadores que pretendem ser piedosos confundem-se por algum tempo com os verdadeiros seguidores de Cristo, e a aparência de cristianismo tende a enganar a muitos; mas não haverá, na sega do mundo, semelhança entre os bons e os maus. Então, serão manifestos aqueles que se ligaram à igreja, mas não a Cristo" (Parábolas de Jesus, p. 74).
Se estivessem na cena em que Jesus impediu o apedrejamento de uma mulher adúltera, certamente seriam os primeiros a apedrejá-la. Se testemunhassem o diálogo de Jesus com o ladrão da cruz, achariam que Ele estava delirando ao franquear a entrada do reino àquele meliante.
Com o mesmo rigor com que julgam, serão julgados. Sua hipocrisia será exposta. “Porque o juízo será sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia” (Tg 2:13). Ellen White diz: "Muitos se têm na conta de cristãos simplesmente porque concordam com certos dogmas teológicos. No entanto, não introduziram a verdade na vida prática. Não creram nela nem a amaram; não receberam, portanto, o poder e a graça que advêm mediante a satisfação da verdade. As pessoas podem professar fé na verdade; mas, se ela não os tornar sinceros, bondosos, pacientes, dominados, tomando prazer nas coisas de cima, isso é uma maldição a seu possuidor e, por meio de sua influência, uma maldição ao mundo" (A Fé Pela Qual eu Vivo, p. 108).
A figueira sem fruto, do texto de Marcos, bem nos revela este cenário. Ela nada mais era do que um arquétipo que apontava para o que acontecia com o povo de Israel. Era a religião das folhagens, das aparências, dos ritos, dos mitos, mas onde não se encontravam frutos. Jesus discerniu naquela geração o embuste, a mentira, a falsidade, o culto a aparência, o disfarce tentando travestir-se de verdade. Por isso a árvore foi amaldiçoada, pois para Deus ou se é o que se é ou não se é coisa alguma.
A advertência é para todos os tempos. O ato de Cristo em amaldiçoar a árvore que Seu próprio poder criara, fica como aviso para todas as igrejas e todos os cristãos que, segundo Ellen White, "têm estado possuídos de rebelião, ingratidão e esquecimento de Deus, resistiram à Sua graça, abusaram de Seus privilégios, desprezaram Suas oportunidades, e têm-se satisfeito com descansar contentes, em lamentável ingratidão, vazio formalismo e hipócrita insinceridade” (Fé e Obras, p. 84).
Enquanto os cidadãos do Céu aguardam uma pátria superior, os inimigos da cruz têm como destino a perdição. Infelizmente, a caminhada cristã de muitos vai levá-los ao inferno. Se o negócio de Deus é salvar você, o do diabo é fazer você se perder, mesmo que isso aconteça dentro da igreja. Enquanto os cidadãos do Céu vivem para honrar a Deus, os inimigos da cruz vivem para a satisfação pessoal. O deus deles é o próprio ventre. Seus desejos e suas paixões determinam a agenda. Enquanto os cidadãos do Céu se gloriam na transformação realizada por Deus no caráter, os inimigos da cruz se gloriam do que envergonha o Senhor. Enquanto os cidadãos do Céu têm o coração nas coisas eternas, os inimigos da cruz só se preocupam com as coisas deste mundo.
Cidadão do Céu ou inimigo da cruz: Quem é você?



