"Então, Eliseu subiu dali a Betel; e, indo ele pelo caminho, uns rapazinhos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo! Sobe, calvo! Virando-se ele para trás, viu-os e os amaldiçoou em nome do Senhor; então, duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois deles" (2 Reis 2:23, 24).
Esta passagem biblica é um desafio pra muitos. Em 2 Reis 2, um grupo zomba do profeta Eliseu. Logo depois, duas ursas saem do bosque e atacam quarenta e dois deles. Durante muito tempo essa história gerou duas reações opostas: Alguns tentam defendê-la a qualquer custo. Outros simplesmente usam o texto para atacar a Bíblia. Mas quase sempre acontece a mesma coisa: pouca gente lê o texto com atenção ao hebraico, ao contexto cultural e à lógica narrativa da própria Bíblia. E quando esses elementos entram na conversa… a história começa a parecer bem diferente do que imaginamos.
A leitura literal é um problema. Nós fomos educados dentro de um modelo chamado binarismo da linguagem. Ou algo é literal ou é ficção. Mas essa armadilha empobrece a leitura da Bíblia.
A Bíblia não é um livro. São 66 livros com gêneros diferentes: poesia, narrativa, mito, sabedoria, parábola. Nem todo texto precisa ser historicamente literal para ser teologicamente verdadeiro.
Em 2 Reis 2, a narrativa parece brutal: um grupo zomba do profeta Eliseu. Ele os amaldiçoa. Duas ursas saem do bosque e atacam quarenta e dois deles. Mas o problema começa na forma como traduzimos essa história.
Crianças? O hebraico não diz exatamente crianças. A palavra usada é ne'arim. Que pode significar jovens homens, rapazes, até guerreiros. Ou seja, o cenário pode ser bem diferente do que imaginamos.
O episódio se passa em Betel. Naquele momento, Betel era: um centro de culto idólatra; um sistema religioso rival; um espaço marcado por injustiças. Quem confronta Eliseu não são apenas meninos malcriados. São seguidores de um sistema que rejeitava o Deus de Israel.
Houve um insulto quando eles gritam: “Sobe, calvo!". Não estão zombando da aparência. Estão zombando da missão profética. É como dizer: Se você é profeta como Elias, porque não sobe ao Céu também?"
Naquele contexto cultural, ser chamado de calvo era uma forma de humilhação pública. Um insulto ligado à desonra. Ou seja, o ataque era contra o profeta e contra o Deus que ele representava.
E as ursas? Na Bíblia a ursa aparece como símbolo de: fúria protetora; defesa dos filhos; reação diante da ameaça (2Sm 17:8; Pv 17:12; Os 13:8). A imagem pode ser simbólica da proteção de Deus. Não necessariamente um relato literal.
No livro Profetas e Reis (p. 120), Ellen G. White coloca Eliseu como um profeta de paz, mas que também precisava ser respeitado para que sua mensagem fosse ouvida. A história ilustra o perigo de zombar de Deus e o julgamento que pode vir sobre a impiedade.
"Eliseu era um homem de espírito brando e bondoso. A caminho de Betel, foi escarnecido por rapazes ímpios que haviam saído da cidade. Esses rapazes tinham ouvido da ascensão de Elias, e fizeram deste solene acontecimento o assunto de seus motejos. Ao som de suas zombeteiras palavras o profeta voltou-se, e sob a inspiração do Todo-poderoso pronunciou uma maldição sobre eles. O terrível juízo que se seguiu foi de Deus. Tivesse Eliseu permitido que a zombaria passasse despercebida, e teria continuado a ser ridicularizado e insultado pela turba, e sua missão para instruir e salvar em um tempo de grave perigo nacional poderia ter sido derrotada. Este único exemplo de terrível severidade foi suficiente para exigir respeito pelo resto de sua vida. Durante cinquenta anos ele entrou e saiu pelas portas de Betel, e andou de um para outro lado em sua terra, de cidade em cidade, passando pelo meio de multidões indolentes, rudes e dissolutas de jovens; mas nenhum o injuriou ou fez caso omisso de suas qualificações como profeta do Altíssimo".
Talvez o texto das ursas não seja sobre um Deus cruel que mata crianças. Talvez seja sobre um povo aprendendo a compreender o sagrado e sobre o perigo de ridicularizar aquilo que ainda não entendemos.
[via instagram]

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