sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

ENTRE COM ESSES DOIS PÉS EM 2026

Meu sincero desejo é que você comece o ano com esses dois pés. Com tudo, com total entrega e intensidade, sem reservas.

1º - O pé da proclamação 
Ele representa a missão de espalhar a mensagem da volta de Jesus focando nas três mensagens angélicas do Apocalipse (Ap 14:6-12), que chamam o mundo ao arrependimento e à adoração a Deus, culminando no convite para um relacionamento transformador com Cristo antes de Seu retorno glorioso.

Ellen White diz: “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. A eles foi confiada a última mensagem de advertência a um mundo a perecer. Sobre eles incidiu a maravilhosa luz da Palavra de Deus. Foram incumbidos de uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem eles permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção” (Testemunhos Para a Igreja, v. 9, p. 19).

Apocalipse 18:1 revela um movimento incomum de pregadores do evangelho que, como nos dias do Pentecostes (Atos 2:1-11), irá acelerar drasticamente a proclamação da mensagem dos três anjos, o que, sob o contexto bíblico-escatológico, converge para um poder de persuasão sobrenatural concedido pelo Espírito de Deus para aqueles que mantiveram até o fim uma aliança sólida com Ele; e “a terra toda sendo iluminada” significa que todos receberão a mensagem de advertência. Todo o período entre o Pentecostes e a segunda vinda de Cristo (seja longo ou curto) deve ser preenchido com a missão mundial da igreja.

Hoje, você e eu fazemos parte da proclamação final do amor de Deus ao mundo. Seremos ignorados, rejeitados e até ameaçados, mas a força para vencer essas barreiras está no mesmo Espírito que os discípulos e os pioneiros buscaram. Temos uma promessa especial para este momento específico: Deus enviará a chuva serôdia, não apenas como gotas, mas como torrentes de água sobre nós.

Por mais que o mundo pareça estar muito distante de Deus, precisamos interceder pelas pessoas sinceras que ouvirão a Palavra e se unirão ao povo de Deus. Precisamos olhar para frente confiantes na promessa de Deus e também buscar a santificação que Ele nos oferece para sermos luzes no mundo escuro.

2º - O pé do serviço
Ele simboliza o compromisso com ações práticas de ajuda ao próximo, seguindo o exemplo de humildade e serviço de Jesus.

O serviço de amor ao próximo é responsabilidade primária de todos os cristãos, pois nosso Mestre nos ordenou: “Ama teu próximo como a ti mesmo”, e a maior demonstração de amor está no serviço desinteressado pelos menos favorecidos. Ellen G. White alerta: "Muitos dos que professam o nome de Jesus têm esquecido que os cristãos devem representar Cristo. A menos que mostremos sacrifício prático para o bem dos outros onde quer que estejamos, não somos cristãos, não importa o que declaremos ser" (O Libertador, p. 293).

Quando pensamos em nossa condição de cristão entendemos, inevitavelmente, que nossa responsabilidade social vai além de um simples serviço ao próximo. É, na verdade, prova do cristianismo diz a palavra de Deus: “Se alguém tiver recursos materiais e, vendo seu irmão em necessidade, não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus?” (1 João 3:17). O amor de Deus permanece em nós quando repartimos nossos recursos, tempo e cuidado com os menos favorecidos, na realidade, isso é chamado de verdadeira religião. “A religião que Deus, o nosso Pai, aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.” (Tiago 1:27).

Ellen G. White complementa: "Qualquer ser humano que necessite de nossa simpatia e de nossos préstimos é nosso próximo. Os sofredores e desvalidos de toda classe são nosso próximo; e quando suas necessidades são trazidas ao nosso conhecimento, é nosso dever aliviá-los tanto quanto nos seja possível. Devemos cuidar de todo caso de sofrimento e considerar-nos a nós mesmos como instrumentos de Deus para aliviar os necessitados até o máximo de nossas possibilidades. Devemos amar a Deus sobre todas as coisas, e ao nosso próximo como a nós mesmos. Sem o exercício desse amor, a mais alta profissão de fé não passa de hipocrisia" (Beneficência Social, p. 45-46).

Se nos ligarmos a Deus, a fonte da paz, da luz e da verdade, Seu Espírito fluirá por nosso intermédio como por um conduto, de modo a refrigerar e beneficiar a todos ao redor de nós. Este pode ser o último ano de vida para nós. Não o iniciaremos com refletida consideração? Não hão de a sinceridade, o respeito, a benevolência assinalar nossa conduta para com todos?

Comecemos o ano com a total renúncia do próprio eu; oremos por claro discernimento, para que, em todas as ocasiões e em todos os lugares, sejamos testemunhas de Cristo. E que o Espírito Santo de Deus abençoe e ilumine nossas vidas para transmitir e colocar em prática essas importantes missões que o Senhor nos confiou.

O Hino Nos Passos de Jesus diz:

Sigo a perigosa estrada deste meu viver
Onde cada passo em falso pode ser meu fim
Mas eu sigo em frente, pondo sempre os meus pés
Sobre as pegadas que Jesus deixou pra mim

Eu vou para onde este trilho me levar
Quero no final dele encontrar o meu Jesus
E se alguém vier atrás de mim por onde vou
Vai ver que Cristo e eu deixamos uma pegada só

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

"RAGE BAIT" E A INDÚSTRIA DA INDIGNAÇÃO

Há anos, a psicologia social e estudos em mídia mostram: emoções fortes como raiva, moralismo e medo geram mais reações do que fatos moderados ou argumentos ponderados. Postagens com carga moral tendem a viralizar, independentemente da veracidade ou profundidade. Essa dinâmica foi anteriormente chamada de “outrage porn” ou “engagement farming”.

Hoje, devido aos algoritmos sofisticados, essa tendência se tornou sistêmica e automática. As plataformas não precisam “decidir” por nós. Os sistemas avaliam o engajamento e impulsionam o conteúdo com melhor desempenho, que, frequentemente, é aquele capaz de gerar maior indignação.

“Rage bait” (traduzido como “isca da raiva”) é o nome que se dá ao conteúdo projetado para despertar indignação instantânea. Não para informar ou inspirar, mas para fisgar emocionalmente. Em 2025, a Oxford University Press escolheu esse termo como a Palavra do Ano, reconhecendo que essa estratégia se tornou o motor central das redes sociais.

Isso exige pausa e reflexão. Pois, quando uma palavra que descreve manipulação emocional em massa se torna o marco do ano, significa que o problema já saiu do controle. “Rage bait” tornou-se a palavra do ano porque grita uma realidade: a internet se transformou de uma ferramenta de curiosidade e descobertas para um tipo de consumo emocional. 

O funcionamento é simples e brutal: quanto mais irritado você fica, mais tempo passa na tela e, consequentemente, mais dinheiro as plataformas ganham. Não importa o seu posicionamento, importa o quanto você reage.

A forma de funcionamento das redes sociais transformou a raiva em um ativo econômico. Cliques motivados pela indignação geram receita publicitária, produzem mais dados e ampliam o alcance dos conteúdos. Sem nenhum compromisso ideológico, o sistema é movido pela atenção, e descobriu-se na indignação a forma mais eficaz de mantê-la.

Estejamos atentos!
Quando a raiva é transformada em argumento, acontece uma mutação espiritual grave: impaciência torna-se “zelo”, a humilhação do outro vira “defesa da fé”, o tribalismo se apresenta como “convicção” e o ódio passar a ser “coragem moral”.

Nesse processo, a essência do Evangelho se perde, enquanto o algoritmo assume o papel de um falso profeta, premiando quem grita mais alto. A pergunta central já não é “isso é verdade?”, mas “isso viraliza?”.

Estrutura de manipulação
Esse fenômeno não é casual, e três observações revelam o cenário: 

1. A Oxford ter escolhido o termo como Palavra do Ano indica que a prática é global e dominante. 

2. O próprio conceito nasceu porque as plataformas estão otimizadas para estimular a indignação, e isso molda o que vemos e o que somos atraídos a consumir. 

3. A polarização crescente, que destrói famílias, igrejas e democracias, não surge dos argumentos, mas da estrutura que os amplifica. É um subproduto da nossa natureza impulsiva sendo alimentado de volta a nós. O desejo por consumo e vingança se uniram de forma marcante.

Quando o design de plataformas privilegia o conflito, o mundo inteiro passa a interpretar o próximo como inimigo.

Engajamento pré-programado
Enquanto as pessoas acham que estão “lutando pela verdade”, “defendendo valores” e “salvando o país”, na realidade estão frequentemente cumprindo o script de engajamento programado por alguém. 

Se você se identifica como “politicamente ativo”, mas se alimenta de indignações fabricadas, é válido questionar: a quem você realmente serve? Se cada vez que você se revolta, a plataforma sorri, é sinal de que você está sendo instrumentalizado.

Não é sobre posicionamento político, mas sobre quem controla o seu gatilho emocional. O que é chamado de “engajamento cívico” pode ser, na verdade, apenas dopamina a serviço de uma estratégia de negócios.

Comportamento ético
Para quem acredita que fé, comunidade e ética devem construir pontes, e não muros, essa mudança é profunda e perigosa. O desafio agora não é sair da internet, mas recuperar o comando das próprias emoções e decisões.

Por isso, aqui vão algumas dicas:  

- Antes de postar, respire.  

- Antes de indignar-se, discirna.  

- Antes de compartilhar, filtre.  

- Antes de reagir, ore.

A “fé como bandeira política”, quando mobilizada não por convicção, mas por marketing espiritual, deixa de ser ministério e se torna um produto. A convergência entre Estado, identidade nacional e discurso religioso cria um terreno fértil para manipulação coletiva, tanto emocional, quanto espiritual. A polarização, nesse contexto, não é um acidente.

A fé infantiliza o pensamento quando se mistura à polarização induzida. Emoções turbulentas assumem o lugar do argumento, e a indignação vira rótulo de “espiritualidade comprometida”.

Quando Cristo esteve na Terra, Ele não viralizou. Mas, sim, transformou. Nosso papel não é ganhar discussões, mas recuperar consciências.

Se “rage bait” define 2025, que a nossa resposta defina a eternidade em nós. Pois a fé não prospera na raiva, mas na lucidez.

O conceito agora tem nome oficial. O desafio é não morder a isca.  

Diego Barreto (via Notícias Adventistas)

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A ÚLTIMA IGREJA

Nós nos identificamos como o remanescente de Deus no tempo do fim, mas será que existe um remanescente dentro do remanescente, composto por aqueles que são verdadeiramente fiéis a Deus? Essa questão tem sido levantada por alguns que acreditam que, de maneira geral, a igreja não é tão espiritual quanto deveria ser e, por isso, consideram que Deus tem dentro dela um grupo de fiéis que constitui o verdadeiro remanescente. Em resposta a essa visão, apresentarei três argumentos que demonstram como essa ideia se baseia em um mal-entendido sobre a natureza e o papel do remanescente no tempo do fim.

1. O remanescente do tempo do fim é definitivo. Na Bíblia, Deus sempre preservou um remanescente por meio do qual Ele cumpre Seus planos para a humanidade. No entanto, também encontramos o que pode ser chamado de um padrão de crescimento e rebelião. O pequeno número se multiplica e se torna um grande grupo que persiste na desobediência. Por Sua graça, o Senhor preserva um pequeno remanescente, e todo o processo começa novamente. As profecias apocalípticas quebram esse círculo vicioso, anunciando o triunfo final do remanescente no tempo do fim. Em Apocalipse, o povo remanescente é atacado por agentes externos e ameaçado de extinção, mas Deus e o Cordeiro o preserva (Ap 13:16–14:1). O mundo inteiro é enganado e levado à rebelião e apostasia, mas não o remanescente (Ap 13:8). Sim, o remanescente crescerá ao chamar o povo de Deus que ainda está em Babilônia para sair dela, e um grande número permanecerá fiel a Cristo e será vitorioso (Ap 17:14).

2. O remanescente é histórico e visível. A ideia de que há um remanescente dentro do remanescente implica que o verdadeiro remanescente seja invisível. Isso contradiz a imagem apocalíptica, que apresenta esse grupo como uma entidade visível, ou seja, que pode ser vista e identificada por outros. O remanescente é histórico no sentido de que surgiu após o cumprimento dos 1.260 dias proféticos, em 1798 (Ap 12:14, 17). Sua visibilidade é garantida pelo fato de que a Bíblia apresenta uma série de características que o tornam reconhecível. Por exemplo, o remanescente: (1) guarda os mandamentos de Deus (Ap 12:17); (2) coloca sua fé em Jesus como Salvador (Ap 14:12); (3) tem entre si a manifestação do espírito de profecia (Ap 12:17; cf. 19:10); (4) possui o selo de Deus e do Cordeiro (Ap 14:1); e (5) persevera em seu compromisso com Cristo até o fim (Ap 14:12). A visibilidade do remanescente é indispensável, pois ele tem uma missão a cumprir. Para que aqueles que saem de Babilônia possam se unir a ele, o povo remanescente nos últimos tempos deve ser um grupo específico de crentes.

3. O remanescente tem a verdade. Uma das características mais importantes do remanescente é que ele possui uma mensagem divina que deve ser claramente proclamada a toda a humanidade (Ap 14:6-10). O livro do Apocalipse não sugere que o remanescente se desvie dessa mensagem por meio de rebelião e apostasia. Pelo contrário, ele a proclamará ao mundo inteiro em preparação para a vinda de Cristo (Ap 14:6-20). Embora o principal desafio enfrentado pelo remanescente venha de fora, existe a possibilidade de que alguns de seus membros não vivam de acordo com a verdade que lhes foi confiada. Esses indivíduos não rejeitam a verdade que receberam, mas podem esfriar espiritualmente, levando o Senhor a removê-los do meio do Seu remanescente do tempo do fim (Ap 3:15, 16). Isso demonstra que o remanescente como um todo nunca será vencido por uma apostasia que exija que o Senhor levante um novo remanescente de dentro dele.

Ángel Manuel Rodríguez (via Revista Adventista)

"Ao aproximar-se o fim de todas as coisas terrestres, haveria fiéis capazes de discernir os sinais dos tempos. Conquanto um grande número de professos crentes negasse a sua fé por suas obras, haveria um remanescente que perseveraria até o fim" (Ellen G. White - Ato dos Apóstolos, p. 278).

DETOX EMOCIONAL 2026

A palavra que melhor traduz os tempos atuais talvez seja esta: esgotamento. Estar na vida não é missão fácil. Não é exagero comparar os estragos provocados pelos sentimentos envenenados aos prejuízos causados à saúde pela alimentação cheia de açúcares, carboidratos e gorduras. A analogia também pode ser empregada no detox. Assim como precisamos cortar o cardápio inadequado para limpar o organismo, devemos fazer um reset no comportamento, afastando as emoções negativas.

A vida não nos poupa de momentos que mexam com nossas emoções, e muitas vezes podemos experimentar tristeza, ansiedade, raiva, culpa, medo, decepção ou desesperança. Por isso, aprender a lidar com elas é uma estratégia que previne o surgimento e a intensificação de transtornos psicológicos.

O aumento global da incidência de doenças emocionais nos últimos anos indica nossa crescente falta de habilidade em lidar com as emoções e situações de conflito. Transtornos de ansiedade ou de humor, dificuldade em administrar a raiva e a impulsividade, assim como sentimento profundo de angústia têm sido cada vez mais comuns entre adultos, adolescentes e crianças. Em alguns casos, as pessoas chegam a se mutilar como expressão de sofrimentos que não conseguem demonstrar de outras formas.

E o que fazer se algum desses sintomas ou doenças emocionais já faz parte de sua vida? Além de tudo o que a medicina, a psicologia e a psiquiatria podem realizar, estão o poder de Deus e o Seu desejo de que sejamos felizes. Ele não somente tem dado conhecimento a muitos profissionais da saúde como, de forma especial, tem instruções importantes para nós, as Suas criaturas.

Para você que quer começar 2026 fazendo um detox emocional, siga abaixo algumas dicas que o ajudarão a eliminar seu sobrepeso emocional, fazendo você se sentir mais ágil – psicológica e socialmente – para correr alegremente a grande carreira de sua vida. Caso não consiga, procure um profissional, pois pode tratar-se de um transtorno que necessitará tratamento especializado.

Reduza seus desejos de bens materiais
Se não está agradecido e alegre com o que tem, se sentirá descontente, ainda que tenha dinheiro em abundância, pois quanto mais tiver, mais desejará ter. Desse modo, à medida que aumentarem os bens, poderá aumentar também as preocupações. Não esqueça... Deus promete que nada nos faltará (Salmo 23). Ellen White alerta: “Hoje o inimigo compra indivíduos a preço bem baixo. ‘Por nada fostes vendidos’ (Isaías 52:3) é a linguagem das Escrituras. Um se vende pelos aplausos do mundo, outro por dinheiro; um para satisfazer a paixões baixas, outro por diversões mundanas. Essas transações são efetuadas diariamente. Satanás faz ofertas por aqueles que são aquisição do sangue de Cristo, e compra-os a baixo preço, apesar do preço infinito pago por seu resgate” (Testemunhos Para a Igreja 5, p. 133).

Reduza suas exigências
Não seja perfeccionista, nem espere encontrar perfeição nos demais. Com isso, evitará muitas dores de cabeça. Suas exigências excessivas podem indicar que padece da enfermidade de querer dominar os demais. Pratique a delicada arte de esquecer e perdoar, inclusive a si mesmo. Ellen G. White diz: "Veremos erros na vida dos outros, e defeitos em seu caráter. A humanidade está circundada de fraquezas. Em Cristo, porém, acharemos perfeição. Olhando para Ele seremos transformados" (O Desejado de Todas as Nações, p. 576).

Reduza suas fantasias
Saia de seu mundo ilusório. Tenha alvos e aspirações realistas e evitará fracassos e desilusões. A verdadeira felicidade tem uma base sólida. Fixe alvos de acordo com seus talentos e possibilidades, e trabalhe para tornar realidade seus sonhos. Ellen G. White observa: “Para fazer da vida um êxito, os pensamentos têm de fixar-se firmemente no objetivo da vida, e não serem deixados a vagar e ocupar-se com coisas de pouca importância, ou satisfazer-se com ociosas fantasias, que são fruto da fuga da responsabilidade. Construir castelos corrompe a mente” (Testemunhos para a Igreja 2, p. 429).

Reduza suas dívidas
Afaste-se do perigo das dívidas: perigo financeiro, mental e emocional. Você conhece alguém que deve e é feliz? Reduza suas dívidas e aumentará seu senso de segurança. Ellen G. White adverte: Não vos deveis permitir ficar embaraçado financeiramente, pois o fato de estardes com dívida enfraquece a vossa fé e vos leva ao desânimo, e até mesmo pensar nela vos deixa quase desatinado. Deveis reduzir vossas despesas e esforçar-vos por vencer essa deficiência de vosso caráter" (Conselhos sobre Mordomia, p. 153).

Reduza sua vida digital
Às vezes passamos mais de dez horas conectados e ainda ficamos com a sensação de que estamos por fora de tudo o que acontece, muito pelo excesso de exposição. Experimente fazer períodos sem checar suas redes sociais, como Instagram e Facebook, além de delimitar um tempo para ver o WhatsApp. Com o excesso de informação, regras e tendências que elas trazem, essa frustração pode se tornar muito maior, gerando muito estresse, ansiedade e a sensação de que a vida é vazia. Ellen G. White alerta: "O mundo está de contínuo sedento de alguma novidade; quão pouco tempo e pensamento, no entanto, se dedicam ao Criador dos céus e da Terra!" (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 456).

Reduza suas diferenças
Não brigue por causa do costume dos demais. Todos – inclusive você – têm diferentes valores e atuam em níveis distintos. Mas todos desejam autorrealização. E lembre-se: nos assuntos realmente importantes há pouca ou nenhuma diferença entre as pessoas. O conflito ocorre quando a ênfase está nas diferenças. Reduzindo as diferenças, é possível transformar o conflito em cooperação. Ellen G. White aconselha: "Devemos neste mundo enfrentar pessoas de espíritos diversos e diferentes temperamentos, e deveis considerar que elas não diferem de vós mais do que vós delas diferis. Cumpre-nos cultivar o domínio próprio, a longanimidade, a brandura, a bondade e o amor, ligando-nos todos pelos laços da fraternidade humana" (Nossa Alta Vocação, p. 235).

Reduza suas antipatias
Elas representam uma liberação emocional equivocada. Suas antipatias fazem com que certas pessoas ou coisas reflitam seus temores, inveja ou incompreensão. Enriqueça a vida emocional com grandes doses de amor, paciência, tolerância e compreensão, e desfrutará felicidade. Ellen G. White reflete: "Não devemos tornar-nos insensíveis, antipáticos e insociáveis. O Espírito do Senhor deve repousar sobre vós até que sejais como uma fragrante flor do jardim de Deus" (E Recebereis Poder, p. 67).

Reduza as influências negativas
Tendemos a assimilar comportamentos negativos dos que nos rodeiam. Isso desencadeia um ciclo de repetições destrutivas, do qual temos dificuldade de nos livrar. As reações químicas são afetadas pelos estímulos enviados ao cérebro. Ellen White afirma: "A influência dos pensamentos e ações de todo homem circunda-o qual uma atmosfera invisível, que é inconscientemente absorvida por todos aqueles que entram em contato com ele. Essa atmosfera é frequentemente carregada de influências tóxicas, e inaladas estas, a degeneração moral é o seguro resultado" (Mente, Caráter e Personalidade 2, p. 733).

Reduza as notícias ruins
A realidade alarmante, mesmo que longe, aumenta a percepção de ameaça, o que gera maior secreção de cortisol e adrenalina, hormônios do stress. Informe-se em boas fontes; evite as sensacionalistas, que só amplificam o mal-estar. Ellen White diz: "Sabes que nosso corpo é composto do alimento que assimila. Ora dá-se o mesmo com a nossa mente. Se fazemos a mente demorar-se nas coisas desagradáveis da vida, não teremos nenhuma esperança. Não temos ânsia de excitação, de sensacionalismo; quanto menos disso tivermos, tanto melhor" (Manuscrito 7, 1888).

Reduza seu comportamento sedentário
Cuidar da mente é importante, mas cuidar do corpo também faz toda a diferença no dia a dia e na rotina de quem está em processo de detox emocional. Basicamente, uma rotina saudável consiste em ter uma alimentação equilibrada e incluir alguma atividade física no dia a dia. Ellen White declara: "A intemperança no comer tem uma influência prostradora sobre o organismo e embota as emoções mais agudas e santas. Hábitos estritamente temperantes, combinados com o exercício dos músculos assim como da mente, preservarão tanto o vigor mental como o físico, proporcionando poder de resistência a todos de hábitos sedentários" (Mente, Caráter e Personalidade 2, p. 389).

De fato, enfrentar as aflições da vida não é uma tarefa simples. Às vezes elas não desaparecem ou se resolvem tão rapidamente quanto desejamos. No entanto, com o tempo e o esforço, podemos encontrar alívio genuíno ao aprender a enfrentá-las e a lidar com nós mesmos. Que Deus nos ajude a adotar atitudes que contribuam para o crescimento e a preservação de nossa saúde emocional.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

A MORTE DA VIDA PRIVADA

A ideia de privacidade surgiu na Inglaterra no século XIX, como afirma o historiador Georges Duby em sua obra A história da vida privada (A history of private life, em inglês). A palavra “privacidade” tem sua origem no termo francês priver, que significa “domar”, “domesticar”. O termo similar em latim, privatum, também se refere ao que acontece dentro de casa ou dentro do círculo familiar.

A morte da vida privada ainda vai matar nossa vida social
Os limites do que precisa ser exposto não existem mais. Basta andar pelas ruas para perceber que o celular se tornou quase uma extensão do corpo. O hábito de estar conectado o tempo todo tem relação direta com o uso intenso das redes sociais, que passaram a ocupar um espaço central na rotina das pessoas. Em poucos segundos, é possível descobrir a rotina, os hábitos e até os problemas pessoais de muita gente. Fotos, vídeos, desabafos e reclamações formam uma avalanche de informações compartilhadas diariamente. Mas até que ponto essa relação com o mundo digital é saudável?

Para a psicóloga Monica Braz, a exposição exagerada pode ser um sinal de alerta. “Todo excesso mostra uma falta. É preciso pensar como estão as emoções e o equilíbrio de quem se expõe demais. Muitas vezes, isso também impede a criação de limites em relação às questões pessoais”, afirma. Não nos preocupamos em preservar nossos queridos que estão acamados, nem nos atentamos que as crianças também precisam ser preservadas, e nem todos os olhos precisam vê-las. Precisamos tanto compartilhar nossas passagens pelo céu e pelo inferno que nem paramos para notar que se apenas Deus e o Diabo soubessem já estaria suficiente.

Conquistas que poderiam ficar no privado pra não deixar nossa carência por auto-afirmação tão evidente acabam sendo alardearas desnecessariamente. Transformamos internações, luto, algumas horas tomando soro, um acidente automobilístico em eventos similares a um martírio. Se não podemos ser protagonistas heróis que sejamos protagonistas vitimizados.

Parece que estamos todo tempo em busca de um recorte extraordinário, de ser manchete, mesmo que isso tire de nós o direito de sofrer ou rir apenas com as pessoas que amamos, e que de fato se importam. Quando que o amor dos que temos por perto se tornou tão insuficiente? Quando foi que passamos a precisar tanto de que quase desconhecidos comentem com e nos acolham por 5 segundos?

Expomos tudo, e os mais cristãos ainda o fazem como se fosse um pedido de oração; e talvez seja mesmo. Talvez seja um clamor desesperado por livramento, mas em certa medida há um clamor desesperado por ser notado, para que minha dor seja vista. Afinal, cada vez mais, em um mundo caótico, somos apenas mais um sangrando. O problema ainda se torna maior porque ao deixar de ter vida privada perdemos o direto a limitar a intromissão, pois não existe mais intromissão, tudo da minha vida é de todos.

E há ainda aqueles que entendem que ninguém pode ter vida privada, que nada pode ficar vetado a necessidade humana de saber por saber; entram, stalkeiam, vasculham a vida alheia, pegam alguns sinais e criam notícias da vida alheia pra que nada fique encoberto; somos ratos entrando em espaços proibidos querendo estragar o pouco que alguém deixou guardado pra si na dispensa da alma.

Cada manhã o circo é montado. A platéia de hoje ficará indignada por ser o palhaço amanhã. O que se coloca no centro do picadeiro falará de tudo, se humilhará, não deixará nada guardado em busca de alguns poucos aplausos esquecendo que as luzes se apagam, e a plateia se esquece do palhaço, do mágico e de todo o espetáculo, porque eles querem apenas entretenimento.

Vamos assim matando a vida privada achando que isso é rede social, sem notar que se matarmos a vida privada, mataremos a vida social; pois ninguém saberá lidar com tudo sendo acessível a todos, sem nenhum espaço para ser meu.

Não somos artigos públicos e de livre acesso, então por que tantas vezes nos colocamos nessa condição? A Bíblia diz que “o mexeriqueiro espalha segredos, mas a pessoa séria é discreta” (Provérbios‬ ‭11:13‬). O texto se refere às pessoas que gastam tempo falando da vida dos outros, mas esse princípio nos leva também a refletir sobre guardar os nossos próprios segredos, atentar pela nossa própria segurança e preservar a nossa própria identidade.

Por favor, encarecidamente, preserve as pessoas que você ame, entre na vida apenas das pessoas que te convidarem; controle sua curiosidade e sua capacidade demoníaca de suprir com a sua criatividade, lacunas não contadas das histórias; recolha-se vez ou outra; leve suas dores aos que você sabe que as sentirão contigo.

Valorize sua vida social recolocando sua vida privada no devido lugar!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O "COMPLEXO DE DEUS"

Milênios se passaram desde o Éden e ainda estamos chafurdando no mesmo problema. Entretanto, a distância do evento originário do pecado já é tamanha que nos esquecemos completamente dos porquês e estamos cada vez mais afundando em nosso próprio mal. Quero te mostrar nesse texto que estamos aumentando nossa aposta no pecado original nos tempos atuais. E isso nos mostra que o fim está próximo.

Como foi no começo, será o fim. Recapitule comigo a história humana até aqui. Fomos iniciados no pecado. Em seguida, foi-nos revelado o mal que isso significa, sofremos a consequência, prometemos nunca mais repetir e iniciou-se um processo de luta constante para correção do problema. Descobrimos que não poderíamos resolvê-lo, então Deus veio e proveu uma solução que não dependeria de nós: Sua morte e a distribuição da graça a todo aquele que crê.

Isso, porém, criou um ponto de bifurcação. Como a solução é facultativa, só aceita quem quer, e há sempre os que não querem. Esses optaram por continuar a jornada humana na Terra por seus próprios meios e caminhos. A maioria de nós, diga-se de passagem.

Como a história até aqui nos demonstrou, somos incapazes de nos consertar. E o efeito de buscar a solução por nossos próprios meios e caminhos, apenas nos afunda mais em complexidades e maldades, como quem gira em círculos. Na verdade, descemos em espiral. Retornando lentamente ao ponto máximo do desgaste dessa tentativa inútil: o ponto onde começamos.

Entretanto, agora convencidos (nem todos) dessa incapacidade e tendo rejeitado por decisão própria a solução divina, só nos resta o orgulho de insistir no primeiro erro: queremos ser como Deus.

O pecado original traz luz aos dias de hoje
Muito se discutiu na história e na teologia sobre qual era o pecado original. Achamos por muitos séculos que o sexo foi a origem de todo o problema. Mas se olharmos o relato de Gênesis 3, veremos que ele claramente nos revela o problema. Quando Eva passou próximo demais da árvore proibida, foi convencida pela astúcia de uma serpente que o fruto contrariava as afirmações divinas: “Certamente não morrereis” (Gênesis 3:4).

Você consegue imaginar alguém que não conhecia o pecado ouvindo a sua primeira mentira? Foi o mesmo sentimento estranho e curioso de quando ouvimos histórias maldosas ou cruéis, uma espécie de interesse e medo misturados, que faz parecer que o clima mudou em nosso redor.

Eva também sentiu esse estranho interesse por aquela serpente que havia afirmado algo incorreto (o primeiro contato com o mal): “É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gênesis 3:1). No afã de corrigir o erro, ela engajou com a serpente, para seu próprio infortúnio. Aliás, nosso infortúnio.

A serpente então afirmou o contrário do que Deus tinha dito. “Não morrereis” é mais do que uma informação errada, é uma afronta contra o Criador de todas as coisas. A criatura afirmou que o Ele não dizia a verdade. Mas a mentira nunca vem sem argumentos. A serpente, aproveitando a exibição de vida que dava a Eva ao falar com ela, afirmou que “no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal” (Gênesis 3:5).

Note que “abrir os olhos” é uma afirmação de empoderamento, o estado que aquela serpente exibia. Ela falava com astúcia, superando os outros animais. Ser conhecedor do bem e do mal é apenas uma característica de quem Deus era. O ponto central no pensamento hebraico é sempre mais importante. No sanduíche de palavras que a serpente usou, no centro está “sereis como Deus”. Perceba que essa mentira veio cercada por duas verdades. De fato, os olhos deles se abriram (Gênesis 3:7) e tornaram-se conhecedores do bem e do mal (Gênesis 3:22).

Naquele momento, surge o “eu” quando só havia um “nós”. Tínhamos sido criados à imagem e semelhança de um “nós”. Pensando somente em si, Eva decide que quer ser como Deus. O que isso significa na prática e como isso se manifestará no fim?

O problema persiste
Ser como Deus é desejar que todas os nossos desejos sejam atendidos. Uma expectativa de controle sobre a vida para obtenção de todos os nossos desejos. Quando a gente tenta ser como Deus, se coloca numa esperança, cria um desejo que é impossível de ser atendido. Impossível de ser manifestado.

Começamos a almejar por uma impossibilidade. Tanto somos assim que muitos de nós imaginam que o Céu será um lugar onde todos os nossos desejos serão realizados, enquanto essa nunca foi a promessa. Alguns, ao ler essa última frase que escrevi, estão estranhando. “E não vai ser?”, é a pergunta. Tomamos por certo que lá teremos tudo o que quisermos.

Todo desejo só é apaziguado quando é atendido ou resolvido. Sede só se resolve com água, fome com comida e sono com uma cama. Quando decidimos que queríamos ser como Deus, desejamos algo que determinou imediatamente nossa infelicidade. Porque uma expectativa não realizada é exatamente a definição de infelicidade. É querer ter uma coisa e nunca obter. E quando a gente decide querer ser como Deus, estamos perdidos, nunca seremos atendidos!

E querer ter os poderes divinos é o que todo mundo quer, mesmo que chamemos de outras coisas. Todo mundo quer realizar a sua própria vontade. Esse é o motivo dos conflitos e das guerras (Tiago 4:1). É claro que tanto Eva como qualquer ser humano normal não pensa em se sentar no trono do Universo e ser um novo Deus governando sobre tudo. Não é isso. Mas todos queremos ser como Ele. É sobre domínio, privilégios e realizações.

Veja o que isso faz: ninguém na história humana teve ou terá uma vida facilitada ou sem frustrações, exatamente porque ninguém consegue tudo. O fato de nós só conseguirmos pensar em felicidade se pudermos tudo, demonstra que a gente se conformou, moldou a ser a alguém que precisa ser Deus. Temos que ter tudo, conseguir tudo ou seremos frustrados e infelizes.

Logo, qual foi o problema da humanidade? Foi desejar aquilo que ela não é, desejar aquilo que ela não pode ter, querer mais do que nos foi dado. Eva se rebelou contra o Criador quando decidiu por si mesma não apenas romper e desafiar a Deus, como a comparar-se à Ele.

Por que isso demonstra o fim?
Essa é exatamente a entronização do homem comentada em Apocalipse 14 ao se referir ao infame número 666. O homem no centro da sua própria governança. O homem fazendo suas vontades, o seu querer. O que, em última instância, é querer ser Deus. Então, quando decidimos que queríamos ser Deus, nos “auto amaldiçoamos” para sempre com um sonho inalcançável. Todas as nossas histórias e vidas são difíceis porque nós estamos amaldiçoados pelo desejo de ter tudo e ser tudo. Sem romper com isso por meio de Cristo, estamos condenados a uma vida infeliz.

As vezes queremos coisas que só Deus pode querer, como, por exemplo, quando plantamos uma jabuticabeira e desejamos que ela desse seu fruto imediatamente. Esse impulso de impaciência humana exibe nossa capacidade por sentir falta de algo que jamais poderíamos obter. Anseios que existem fora de um sentido natural, desejos ilimitados.

Só faria sentido você ser impaciente com coisas que levam tempo se você tivesse a menor expectativa de conseguir agora algo que leva tempo. Mas isso nunca existiu, e ainda assim você sente. Ou seja, nossa carne pede para ser todo-poderosa. A impaciência é uma prova de que está escrito em nossa carne o desejo de ser como Deus.

Esquecemos que já fomos criados à “imagem e semelhança” de Deus. Já éramos como Ele antes do pecado. Por isso, não vivíamos para nós mesmos. Quando decidimos nos comportar como usurpadores, nos distanciamos de quem Ele é. Nunca fomos tão egoístas (palavra humana para definir quem vive para satisfazer a si mesmo), nunca fomos tão 1 Timóteo 4! Nunca fomos tão 666! E por isso lhes digo que estamos caminhando para os momentos finais da história, a experiência humana como a conhecemos está para acabar porque já estamos muito perto do exato ponto que partimos. O círculo terá feito a volta completa, chegaremos às consequências finais da decisão de Eva. E é nesse ponto que a Bíblia nos informa que Deus há de interferir.

Quando o ser humano assumir para si mesmo, em definitivo, a sua própria soberania, a voz do Espírito Santo será calada, e então virá o fim.

Diego Barreto (via O Reino)

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O NATAL SOB A ÓTICA SUBVERSIVA DE MARIA

É claro que a figura central do Natal é Cristo. José, Maria, os Magos, os pastores de Belém, e até os anjos, são apenas coadjuvantes nesta história de esperança para a humanidade. Cada um deles reagiu de maneira diferente à chegada do Redentor ao Mundo. Os pastores anunciaram a todos. Os anjos cantaram nas alturas. Os Magos O presentearam. E Maria, o que fez? Qual teria sido a reação daquela que hospedou em seu ventre o Filho de Deus?

Somente Lucas preocupou-se em relatar o cântico com que Maria expressou sua felicidade e expectativa com a chegada do Messias prometido. Seu cântico ficou conhecido como Magnificat:

"A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador; porque atentou na condição humilde de sua serva; desde agora, pois, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas; e santo é o seu nome. E a sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem. Com o seu braço agiu valorosamente; dissipou os soberbos no pensamento de seus corações. Depôs dos tronos os poderosos, e elevou os humildes. Encheu de bens os famintos, e despediu vazios os ricos. Auxiliou a Israel seu servo, recordando-se da sua misericórdia; como falou a nossos pais, para com Abraão e a sua descendência, para sempre" (Lucas 1:46-55).

Embora tivesse "sangue azul", pois pertencia à dinastia de Davi, Maria viveu na simplicidade e no anonimato, casada com um operário braçal. O trono antes ocupado por seus ancestrais, agora era ocupado por um rei marionete do império romano, cujo nome era Herodes. Seu povo vivia sob a tirania imperial. Maria era virgem, mas não ingênua. Humilde, mas não idiota. Santa, mas não alienada.

A imagem que construiu-se de Maria não faz jus à sua postura subversiva expressada neste cântico. A jovem desposada com José era uma adolescente questionadora, com um espírito rebelde e revolucionário. Sua alma anelava por mudanças. Ao receber o anúncio trazido por Gabriel, ela soube que o ente gerado em seu ventre era a resposta aos seus anelos.
"Desde o dia em que ouvira o anúncio do anjo, no lar de Nazaré, entesourara Maria todo sinal de que Jesus era o Messias. Sua doce e abnegada existência assegurava-lhe que Ele não podia ser outro senão o Enviado de Deus" (Ellen G. White - Filhas de Deus, p. 38).
Como que vislumbrando o futuro, Maria declarou profeticamente que Deus havia deposto os poderosos do trono, e elevado os humildes. Ela fala como alguém que vivia além do seu próprio tempo. Era como se fosse uma visitante proveniente do futuro. Pra ela, tais fatos não aconteceriam um dia, mas já teriam acontecido. Deus já teria enchido de bens os famintos, e despedido vazios os ricos. Se isso não é uma revolução social, o que é, então? Os defensores do status quo preferem espiritualizar passagens como esta, para que se encaixem em sua agenda ideológica e política. Porém, a jovem Maria não está falando de coisas estritamente espirituais, mas concretas, abrangendo a realidade socioeconômica, política e cultural.

O nascimento de Jesus anunciava que o tempo havia sido subvertido, e o futuro invadira o presente. Aquele que Se apresenta como o Princípio e o Fim, agora vive em nosso meio. A ordem predominante teria que ser colapsada para dar vazão ao Reino de Deus. A revolução há muito esperada fora deflagrada, e aquele seria, definitivamente, um caminho sem volta. Nunca mais o mundo seria como antes.

Como todo subversivo que ameaça o establishment, Maria teve que exilar-se com seu filho e esposo no Egito, onde viveram na clandestinidade até o momento designado por Deus. Pelo cântico que compôs, dá para inferir que valores Maria teria transmitido para seu Filho.
"O menino Jesus não Se instruía nas escolas das sinagogas. Sua mãe foi Seu primeiro mestre humano. Dos lábios dela e dos rolos dos profetas, aprendeu as coisas celestiais. As próprias palavras por Ele ditas a Moisés para Israel, eram-Lhe agora ensinadas aos joelhos de Sua mãe" (Idem, p. 36).
Com o tempo, o cristianismo deixou sua marginalidade essencial, para tornar-se em religião oficial. Maria deixou de ser vista como subversiva, para tornar-se numa espécia de padroeira do status quo. Domesticaram a mãe do Salvador. Desproveram-na de sua rebeldia. Tornaram-na inofensiva. O mesmo fizeram com a igreja cristã, que deu as costas aos pobres, humildes e oprimidos, para aliar-se aos poderosos.

Se quisermos ver as profecias de Maria cumpridas, temos que dar meia-volta, trair nossos laços com os interesses econômicos e políticos, e abraçar nossa vocação subversiva. Se Maria estava certa, e de fato, anteviu o futuro, isso eventualmente acontecerá. E quando ocorrer, o Natal passará a ser celebrado como uma data revolucionária, como é a celebração da revolução francesa ou da inconfidência mineira.