quarta-feira, 2 de abril de 2025

PÁSCOA

A palavra Páscoa vem da palavra hebraica “pesach” e do grego “pascha” que significam “passagem”. Podem ter diversos significados tais como: passagem da morte para a vida – passagem de Deus para nos salvar – passagem da escravidão para a liberdade, enfim, a passagem pela qual o homem que se encontra neste mundo, passa para um novo céu e uma nova terra.

História e Instituição da Páscoa
Israel ainda era apenas um povo escravizado no Egito, quando Moisés foi enviado por Deus, para libertar Seu povo. O Faraó, obviamente não quis perder o braço escravo e não permitiu a saída dos israelitas. Ocorreu então o derramamento das pragas, mas, contudo Faraó não deixou que os israelitas se fossem.

O juízo de que o Egito fora em primeiro lugar advertido, deveria ser o último a ser mandado. Deus é longânimo e cheio de misericórdia. Tem terno cuidado pelos seres formados à Sua imagem. Se a perda das suas colheitas, rebanhos e gado, houvesse levado o Egito ao arrependimento, os filhos não teriam sido atingidos; mas a nação obstinadamente resistiu à ordem divina, e agora o golpe final estava prestes a ser desferido.

A Moisés tinha sido proibido, sob pena de morte, aparecer outra vez à presença de Faraó; mas uma última mensagem da parte de Deus deveria ser proferida ao rebelde rei, e novamente Moisés veio perante ele, com o terrível anúncio: “Assim o Senhor tem dito: À meia-noite Eu sairei pelo meio do Egito; e todo o primogênito na terra do Egito morrerá, desde o primogênito de Faraó, que se assenta com ele sobre o seu trono, até o primogênito da serva que está detrás da mó, e todo o primogênito dos animais” (Êxodo 11:4 e 5).

Antes da execução desta sentença, o Senhor por meio de Moisés deu instruções aos filhos de Israel relativas à partida do Egito, e especialmente para a sua preservação no juízo por vir. Cada família, sozinha ou ligada com outras, deveria matar um cordeiro ou cabrito “sem mácula”, e com um molho de hissopo espargir seu sangue “em ambas as ombreiras, e na verga da porta” da casa, para que o anjo destruidor, vindo à meia-noite, não entrasse naquela habitação. Deviam comer a carne, assada, com pão asmo e ervas amargosas, à noite, conforme disse Moisés, com “os vossos lombos cingidos, os vossos sapatos nos pés, e o vosso cajado na mão; e o comereis apressadamente; esta é a Páscoa do Senhor” (Êxodo 12:1-28).

O Senhor declarou: “Passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e sobre todos os deuses do Egito farei juízos. … E aquele sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; vendo Eu sangue, passarei por cima de vós, e não haverá entre vós praga de mortandade, quando Eu ferir a terra do Egito.”

Em comemoração a este grande livramento, uma festa devia ser observada anualmente pelo povo de Israel, em todas as gerações futuras. “Este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo”. Ao observarem esta festa nos anos futuros, deviam repetir aos filhos a história deste grande livramento, conforme lhes ordenou Moisés: “Direis: Este é o sacrifício da Páscoa do Senhor, que passou as casas dos filhos de Israel no Egito, quando feriu aos egípcios, e livrou as nossas casas.”

A páscoa cristã
A páscoa devia ser tanto comemorativa como típica, apontando não somente para o livramento do Egito, mas, no futuro, para o maior livramento que Cristo cumpriria libertando Seu povo do cativeiro do pecado. O cordeiro sacrifical representa o “Cordeiro de Deus”, em quem se acha nossa única esperança de salvação. Diz o apóstolo: “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1 Coríntios 5:7). Não bastava que o cordeiro pascal fosse morto, seu sangue devia ser aspergido nas ombreiras; assim os méritos do sangue de Cristo devem ser aplicados à alma. Devemos crer que Ele morreu não somente pelo mundo, mas que morreu por nós individualmente. Devemos tomar para o nosso proveito a virtude do sacrifício expiatório.

O hissopo empregado na aspersão do sangue era símbolo da purificação, assim sendo usado na purificação da lepra e dos que se achavam contaminados pelo contato com cadáveres. Na oração do salmista vê-se também a sua significação: “Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais alvo do que a neve” (Salmos 51:7).

O cordeiro devia ser preparado em seu todo, não lhe sendo quebrado nenhum osso; assim, osso algum seria quebrado do Cordeiro de Deus, que por nós devia morrer (Êxodo 12:46; João 19:36). Assim também representava-se a inteireza do sacrifício de Cristo.

A carne devia ser comida. Não basta mesmo que creiamos em Cristo para o perdão dos pecados; devemos pela fé estar recebendo constantemente força e nutrição espiritual dEle, mediante Sua Palavra. Disse Cristo: “Se não comerdes a carne do Filho do homem, e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos. Quem come a Minha carne e bebe o Meu sangue, tem a vida eterna”. E para explicar o que queria dizer, ajuntou: “As palavras que Eu vos disse são espírito e vida” (João 6:53, 54 e 63).

O cordeiro devia ser comido com ervas amargosas, indicando isto a amargura do cativeiro egípcio. Assim, quando nos alimentamos de Cristo, deve ser com contrição de coração, por causa de nossos pecados. O uso dos pães asmos (sem fermento) era também significativo. Era expressamente estipulado na lei da Páscoa, e de maneira igualmente estrita observado pelos judeus, em seu costume, que fermento algum se encontrasse em suas casas durante a festa. De modo semelhante, o fermento do pecado devia ser afastado de todos os que recebessem vida e nutrição de Cristo. Assim Paulo escreve à igreja dos coríntios: “Alimpai-vos, pois do fermento velho, para que sejais uma nova massa. … Porque Cristo, nossa Páscoa, foi sacrificado por nós. Pelo que façamos festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da malícia, mas com os asmos da sinceridade e da verdade” (1 Coríntios 5:7 e 8).

Ellen G. White escreve: "O sangue da Páscoa representava para os judeus o sangue de Cristo. No tempo determinado, Deus lhes daria Seu querido Filho como sacrifício, assim como o cordeiro havia sido sacrificado de modo que todo aquele que cresse nEle pudesse ser salvo da morte eterna. Cristo é chamado a 'nossa Páscoa'. Somos redimidos por Seu sangue, através da fé" (Vida de Jesus, p. 13).

Antes de obterem liberdade, os escravos deviam mostrar fé no grande livramento prestes a realizar-se. O sinal de sangue devia ser posto em suas casas, e deviam, com as famílias, separar-se dos egípcios e reunir-se dentro de suas próprias habitações. Houvessem os israelitas desrespeitado em qualquer particular as instruções a eles dadas, houvessem negligenciado separar seus filhos dos egípcios, houvessem morto o cordeiro mas deixado de aspergir o sangue nas ombreiras, ou tivesse alguém saído de casa, e não teriam estado livres de perigo. Poderiam honestamente ter crido haver feito tudo quanto era necessário, mas não os teria salvo a sua sinceridade. Todos os que deixassem de atender às instruções do Senhor, perderiam o primogênito pela mão do destruidor.

Pela obediência, o povo devia dar prova de fé. Assim, todos os que esperam ser salvos pelos méritos do sangue de Cristo, devem compenetrar-se de que eles próprios têm algo a fazer para conseguir a salvação. Conquanto seja apenas Cristo que nos pode remir da pena da transgressão, devemos desviar-nos do pecado para a obediência. O homem deve ser salvo pela fé, e não pelas obras; contudo, a fé deve mostrar-se pelas obras. Deus deu Seu Filho para morrer como propiciação pelo pecado, Ele manifestou a luz da verdade, o caminho da vida, Ele concedeu oportunidades, ordenanças e privilégios; e agora o homem deve cooperar com esses instrumentos de salvação; deve apreciar e usar os auxílios que Deus proveu – crer e obedecer a todas as reivindicações divinas. Como vemos Jesus foi identificado com o cordeiro da “páscoa judaica”, que a exemplo daquele, foi morto para que os que cressem nÊle, não morressem. Na verdade, Jesus é a nossa Páscoa.

A instituição da páscoa cristã
Em Mateus 26:17 em diante, é narrada a celebração da última páscoa em que Jesus participou com Seus discípulos e a partir do verso 26 está a instituição da páscoa pelo Senhor Jesus, oferecendo sua vida, simbolicamente representada pelo pão, sua carne, e pelo vinho, seu sangue, que Ele derramaria no calvário, por muitos, para remissão dos pecados.

Ellen G. White diz: "Na última páscoa que nosso Senhor observou com os Seus discípulos, Ele instituiu a Ceia do Senhor em lugar da páscoa, para que fosse observada em memória de Sua morte. Não tinham mais necessidade da páscoa, pois Ele, o grande Cordeiro antitípico, estava pronto para ser sacrificado pelos pecados do mundo. O tipo encontrou o antítipo na morte de Cristo" (Exaltai-O, p. 22).

A páscoa cristã, em verdade, é celebrada no coração de cada cristão, que oferece a Deus sua própria vida, salva pelo Cordeiro Divino, que tem em si mesmo, vida eterna, podendo assim, ser o cordeiro de toda família humana que o aceite como tal.

As “outras” páscoas
Até agora, embora aparentemente eu tenha me referido a duas páscoas, a páscoa cristã e judaica são a mesma, instituída pelo mesmo Deus, com a mesma finalidade. A diferença é que a judaica prefigura a cristã, onde o cordeiro é substituído pelo próprio “Cordeiro de Deus”, Seu Filho, Jesus.

Entretanto, o mundo tem criado suas próprias “páscoas”.

Assim, temos a “páscoa” dos coelhos, a “páscoa” dos ovos de chocolates, que nada lembram a salvação da qual Deus nos tem feito dignos. Desviam nossas crianças do verdadeiro sentido da páscoa, não os deixando ver que estão perdidos, necessitados de alguém que os substitua na morte. Há apenas a alegre festa dos chocolates, onde tudo parece estar muito bem, ninguém com pecados a resgatar, ninguém necessitado de um Salvador, mas apenas aguardando uma festa totalmente distanciada do verdadeiro cristianismo.

Na Páscoa Judaica, eles devem estar vestidos como quem está pronto para viajar, conscientes de que não estão em sua terra, mas partem em busca de uma nova pátria, a terra prometida.

Na Páscoa Cristã, quando temos recebido Jesus, como nosso cordeiro pascal, temos que estar conscientes de que também somos peregrinos, apenas de passagem por esta terra, e aguardamos novos céus e nova terra (Apocalipse 21:1; 2 Pedro 3:13).

terça-feira, 1 de abril de 2025

O GRANDE TERREMOTO

O mundo tem enfrentado diversos desastres naturais graves ao longo da história. Jesus advertiu que, quando se aproximasse o tempo do fim, ocorreriam abalos sísmicos “em vários lugares” (Mt 24:7, 8). Um desses, o terremoto de magnitude 7,7 que atingiu Mianmar na semana passada, já matou quase 3 mil pessoas e deixou outras milhares feridas. Estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos, que monitora a atividade sísmica, sugerem, porém, que o número de mortos pode ultrapassar os 10 mil à medida que os escombros são removidos. O abalo sísmico da última sexta-feira foi o mais forte a atingir o país do Sudeste Asiático em mais de um século, derrubando diversos edifícios.

Ellen G. White escreve: “Antes que o Filho do homem apareça nas nuvens do céu, tudo na Natureza estará em convulsão. Haverá fortes terremotos e grande destruição de vidas humanas” (Eventos Finais, p. 18). Esses cataclismas não são raros nesta região, mas o número de possíveis mortos surpreendem. O terremoto foi causado pelo movimento das placas tectônicas, já que Mianmar está em uma região de alta instabilidade geológica, onde convergem as placas Eurasiática, Indiana, de Sonda e de Birmânia. A Falha de Sagaing, que percorre o país por mais de 1.200 km, foi a principal responsável pelo abalo, provavelmente resultante de um deslizamento lateral, no qual blocos rochosos se movem horizontalmente, liberando grande quantidade de energia.

Ao longo da história, diversos terremotos de grande magnitude deixaram um rastro de destruição e perdas:

1. Chile – Valdivia (1960): O mais forte já registrado (magnitude 9,5), causou 1.655 mortes e destruiu Valdivia e Puerto Montt. O tsunami atingiu Puerto Saavedra, além do Havaí (61 mortos), Japão (138) e Filipinas (32).

2. EUA – Alasca (1964): Com magnitude 9,2, o terremoto e o tsunami resultaram em 131 mortes. Anchorage e Valdez foram destruídas, e as ondas atingiram o Canadá, a Costa Oeste dos EUA (15 mortos) e o Havaí.

3. Indonésia – Sumatra (2004): O tremor de 9,1 gerou o tsunami mais letal da história, com 283 mil mortos, 14 mil desaparecidos e 1,1 milhão de desabrigados. Seus impactos chegaram aos oceanos Índico, Pacífico e Atlântico.

4. Japão – Honshu (2011): Também de magnitude 9,1, causou mais de 15 mil mortes e afetou Fukushima, onde a usina nuclear de Okuma foi danificada. O tsunami atingiu EUA, Chile, Peru e Antártica.

5. Rússia – Kamchatka (1952): O terremoto de 9,0 gerou um tsunami com danos no Havaí, também registrado na Califórnia e no Alasca, mas sem mortes confirmadas.

Apocalipse 6:12 previu um “grande terremoto” no início do sexto selo. Para os adventistas do sétimo dia, essa predição se cumpriu por meio do terrível terremoto que atingiu Lisboa na manhã de sábado, 1º de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, um dos mais importantes feriados católicos. Ellen G. White assim descreve: "Em cumprimento dessa profecia, em 1755 ocorreu o mais terrível terremoto que já se registrou. Conhecido como terremoto de Lisboa, estendeu-se pela Europa, África e América. Foi sentido na Groenlândia, nas Antilhas, na Ilha da Madeira, na Noruega e na Suécia, na Grã-Bretanha e na Irlanda, numa extensão de mais de dez milhões de quilômetros quadrados. Na África o choque foi quase tão violento quanto na Europa. Grande parte da Argélia foi destruída. Uma vasta onda varreu a costa da Espanha e da África, submergindo cidades. Diz-se que em Cádiz a ressaca alcançou a altura de vinte metros" (O Grande Conflito, p. 304). A magnitude deste terremoto é estimada entre 8,7 e 9 na escala de Richter. Outros terremotos podem ter sido tão violentos em localidades particulares, mas nenhum outro reúne todas as condições apropriadas para assinalar a abertura do sexto selo.

De acordo com o jornalista Otto Friedrich, várias pessoas alegavam antecipadamente ter recebido revelações sobrenaturais de que Lisboa, a Rainha do Mar, logo seria punida por sua iniquidade. Na noite anterior à tragédia, o padre Manuel Portal, do Oratório, “havia sonhado que Lisboa estava sendo devastada por dois terremotos sucessivos” (O Fim do Mundo, p. 227).

Qualquer que tenha sido a origem dessas revelações, naquela fatídica manhã, pouco depois das 9h30, quando muitos fiéis estavam na igreja assistindo à missa, a cidade foi gravemente sacudida durante dez minutos por três abalos sísmicos sucessivos, seguidos de uma onda gigantesca e um incêndio devastador que durou uma semana. Ellen G. White continua descrevendo assim: "O terremoto ocorreu num dia santo, em que as igrejas e conventos estavam repletos de gente, muito pouca da qual escapou. O terror do povo foi indescritível. Ninguém chorava; estava além das lágrimas. Corriam para aqui e para acolá, em delírio, com horror e espanto, batendo no rosto e no peito, exclamando: ‘Misericórdia! é o fim do mundo!’ Mães esqueciam-se de seus filhos e corriam para qualquer parte, carregando crucifixos. Infelizmente, muitos corriam para as igrejas em busca de proteção; mas em vão foi exposto o sacramento; em vão as pobres criaturas abraçaram os altares; imagens, padres e povo foram sepultados na ruína comum. Calculou-se que noventa mil pessoas perderam a vida naquele dia fatal" (Idem, p. 305).

Nenhum outro terremoto causou um impacto filosófico, cultural e religioso tão profundo quanto esse. Até mesmo Voltaire se referiu a ele como “um terrível argumento contra o otimismo”. Harry Fielding Reid o caracterizou como “o terremoto mais notável da história”. T. H. Kendrick afirmou que o terremoto de Lisboa chocou “a civilização ocidental mais do que qualquer outro evento desde a queda de Roma no quinto século”. O título do excelente livro de Edward Paice, A Ira de Deus: A Incrível História do Terremoto Que Devastou Lisboa em 1755, expressa bem o profundo significado religioso dessa catástrofe.

O terremoto de Lisboa pode ser considerado o primeiro grande sinal na sequência de grande terremoto/Sol/Lua/estrelas de Apocalipse 6:12 e 13. Muitas pessoas tiveram a certeza de que havia chegado a hora do juízo divino. Estamos hoje muito mais próximo do fim do que eles naquela época. Senhor, abre nossos olhos para enxergar os sinais da Tua vinda e estar prontos para esse glorioso evento!

segunda-feira, 31 de março de 2025

NADA A COMEMORAR!

A Ditadura Militar iniciada há 61 anos em 31 de março do ano de 1964 e que durou até 1985, sacramentada pela derrubada do então presidente João Goulart, foi um regime marcado pela violência e repressão, a democracia foi abolida e o estado de direito deixou de existir. Segue abaixo, dez razões para não ter saudades dos tempos da ditadura:

1. Tortura e ausência de direitos humanos
As torturas e assassinatos foram a marca mais violenta do período da ditadura. Pensar em direitos humanos era apenas um sonho. Havia até um manual de como os militares deveriam torturar para extrair confissões, com práticas como choques, afogamentos e sufocamentos.

Os direitos humanos não prosperavam, já que tudo ocorria nos porões das unidades do Exército. "As restrições às liberdades e à participação política reduziram a capacidade cidadã de atuar na esfera pública e empobreceram a circulação de ideias no país", diz o diretor-executivo da Anistia Internacional Brasil, Atila Roque. 

Sem os direitos humanos, as torturas contra os opositores ao regime prosperaram. Segundo a Comissão Nacional da Verdade, instituída durante o governo Dilma Rousseff (PT), 434 brasileiros foram mortos ou “desaparecidos” durante a ditadura militar entre os anos de 1964 e 1985. A comissão também concluiu que mais de 8,3 mil indígenas perderam a vida naquele período em razão de ações praticadas ou toleradas pelo regime então em vigor. Estima-se que 50 mil pessoas tenham sido presas por razões políticas, tendo cerca de 20 mil delas submetidas a torturas.

"Os agentes da ditadura perpetraram crimes contra a humanidade --tortura, estupro, assassinato, desaparecimento-- que vitimaram opositores do regime e implantaram um clima de terror que marcou profundamente a geração que viveu o período mais duro do regime militar", afirma. 

Para Roque, o Brasil ainda convive com um legado de "violência e impunidade" deixado pela militarização. "Isso persiste em algumas esferas do Estado, muito especialmente nos campos da justiça e da segurança pública, onde tortura e execuções ainda fazem parte dos problemas graves que enfrentamos", complementa. 

2. Censura e ataque à imprensa 
Uma das marcas mais conhecidas da ditadura foi a censura. Ela atingiu a produção artística e controlou com pulso firme a imprensa. 

Os militares criaram o "Conselho Superior de Censura", que fiscalizava e enviava ao Tribunal da Censura os jornalistas e meios de comunicação que burlassem as regras. Os que não seguissem as regras e ousassem fazer críticas ao país, sofriam retaliação --cunhou-se até o slogan "Brasil, ame-o ou deixe-o." 

Não são raras histórias de jornalistas que viveram problemas no período. "Numa visita do presidente (Ernesto) Geisel a Alagoas, achamos de colocar as manchetes no jornalismo da TV: 'Geisel chega a Maceió; Ratos invadem a Pajuçara'. Telefonaram da polícia para o Pedro Collor [então diretor do grupo] e ele nos chamou na sala dele e tivemos que engolir o afastamento do jornalista Joaquim Alves, que havia feito a matéria dos ratos", conta o jornalista Iremar Marinho, citando que as redações eram visitadas quase que diariamente por policiais federais. 

Para cercear o direito dos jornalistas, foi criada, em 1967, a Lei de Imprensa. Ela previa multas pesadas e até fechamento de veículos e prisão para os profissionais. A lei só foi revogada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2009. 

Muitos jornalistas sofreram processos com base na lei mesmo após a redemocratização. "Fui processado em 1999 porque publiquei declaração de Fulano contra Beltrano. A Lei de Imprensa da Ditadura permitia isso: punir o mensageiro, que é o jornalista", conta o jornalista e blogueiro, Mário Magalhães. 

3. Amazônia e indígenas sob risco 
No governo militar, teve início um processo amplo de devastação da Amazônia. O general Castelo Branco disse, certa vez, que era preciso "integrar para não entregar" a Amazônia. A partir dali, começou o desmatamento e muitos dos que se opuseram morreram. "Ribeirinhos, indígenas e quilombolas foram duramente reprimidos tanto ou mais que os moradores das grandes cidades", diz a jornalista paraense e pesquisadora do tema, Helena Palmquist. 

A ideia dos militares era que Amazônia era "terra sem homens", e deveria ser ocupada por "homens sem terra do Nordeste." Obras como as usinas hidrelétricas de Tucuruí e Balbina também não tiveram impactos ambientais ou sociais previamente analisados, nem houve compensação aos moradores que deixaram as áreas alagadas. Até hoje, milhares que saíram para dar lugar às usinas não foram indenizados. 

A luta pela terra foi sangrenta. "Os Panarás, conhecidos como indígenas gigantes, perderam dois terços de sua população com a construção da BR-163 --que liga Cuiabá a Santarém (PA). Dois mil Waimiri-Atroaris, do Amazonas, foram assassinados e desaparecidos pelo regime militar para as obras da BR-174. Nove aldeias desse povo desapareceram e há relatos de que pelo menos uma foi bombardeada com gás letal por homens do Exército", afirma. 

4. Baixa representação política e sindical 
Um dos primeiros direitos outorgados aos militares na ditadura foi a possibilidade do governo suspender os direitos políticos do cidadão. Em outubro de 1965, o Ato Institucional número 2 acabou com o multipartidarismo e autorizou a existência de apenas dois: a Arena, dos governistas, e o MDB, da oposição. 

O problema é que existiam diversas siglas, que tiveram de ser aglutinadas em um único bloco, o que fragilizou a oposição. "Foi uma camisa-de-força que inibiu, proibiu e dificultou a expressão político-partidária. A oposição ficou muito mal acomodada, e as forças tiveram que conviver com grandes contradições", diz o cientista político da Universidade Federal de Pernambuco, Michael Zaidan. 

As representações sindicais também foram duramente atingidas por serem controladas com pulso forte pelo Ministério do Trabalho. Isso gerou um enfraquecimento dos sindicatos, especialmente na primeira metade do período de repressão. "Existiam as leis trabalhistas, mas para que elas sejam cumpridas, com os reajustes, é absolutamente necessário que os sindicatos judicializem, intervenham para que os patrões respeitem. Essas liberdades foram reprimidas à época. Os sindicatos eram compostos mais por agentes do governo que trabalhadores", lembra Zaidan. 

5. Saúde pública fragilizada 
Se a saúde pública hoje está longe do ideal, ela ainda era mais restrita no regime militar. O Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) era responsável pelo atendimento, com seus hospitais, mas era exclusivo aos trabalhadores formais. "A imensa maioria da população não tinha acesso", conta o cardiologista e sindicalista Mário Fernando Lins, que atuou na época da ditadura. Surgiu então a prestação de serviço pago, com hospitais e clínicas privadas. "Somente após 1988 é que foi adotado o SUS (Sistema Único de Saúde), que hoje atende a uma parcela de 80% da população", diz Lins. 

Em 1976, quase 98% das internações eram feitas em hospitais privados. Além disso, o modelo hospitalar adotado fez com a que a assistência primária fosse relegada a um segundo plano. Não existiam planos de saúde, e o saneamento básico chegava a poucas localidades. "As doenças infectocontagiosas, como tuberculose, eram fonte de constante preocupação dos médicos", afirma Lins. 

Segundo estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), "entre 1965/1970 reduz-se significativamente a velocidade da queda [da mortalidade infantil], refletindo, por certo, a crise social econômica vivenciada pelo país". 

6. Linha dura na educação 
A educação brasileira passou por mudanças intensas na ditadura. "O grande problema foi o controle sobre informações e ideologia, com o engessamento do currículo e da pressão sobre o cotidiano da sala de aula", sintetiza o historiador e professor da Universidade Federal de Alagoas, Luiz Sávio Almeida. 

As disciplinas de filosofia e sociologia foram substituídas pela de OSPB (Organização Social e Política Brasileira, caracterizada pela transmissão da ideologia do regime autoritário, exaltando o nacionalismo e o civismo dos alunos e, segundo especialistas, privilegiando o ensino de informações factuais em detrimento da reflexão e da análise) e Educação, Moral e Cívica. Ao mesmo tempo, com o baixo índice de investimento na escola pública, as unidades privadas prosperaram. 

Na área de alfabetização, a grande aposta era o Mobral (Movimento Brasileiro para Alfabetização), uma resposta do regime militar ao método elaborado pelo educador Paulo Freire, que ajudou a erradicar o analfabetismo no mundo na mesma época em que foi considerado "subversivo" pelo governo e exilado. Segundo o estudo "Mapa do Analfabetismo no Brasil", do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), do Ministério da Educação, o Mobral foi um "retumbante fracasso." 

Os problemas também chegaram às universidades, com o afastamento delas dos centros urbanos e a introdução do sistema de crédito. "A intenção do regime era evitar aglomeração perto do centro, enquanto o sistema de crédito foi criado para dispersar os alunos e não criar grupos", diz o historiador e vice-reitor do Fejal (Fundação Educacional Jayme de Altavila), Douglas Apratto. 

7. Corrupção e falta de transparência 
No período da ditadura, era praticamente impossível imaginar a sociedade civil organizada atuando para controlar gastos ou denunciando corrupção. Não havia conselhos fiscalizatórios e, com a dissolução do Congresso Nacional, as contas públicas não eram analisadas, nem havia publicidade dos gastos públicos, como é hoje obrigatório. 

"O maior antídoto da corrupção é a transparência. Durante a ditadura, tivemos o oposto disso. Os desvios foram muitos, mas acobertados pela força das baionetas", afirma o juiz e um dos autores da Lei da Ficha Limpa, Márlon Reis. 

Reis afirma que, ao contrário dos anos de chumbo, hoje existem órgãos fiscalizatórios, imprensa e oposição livres e maior publicidade dos casos. "Estamos muito melhor agora, pois podemos reagir", diz. 

Outro ponto sempre questionado no período de ditadura foram os recursos investidos em obras de grande porte, cujos gastos eram mantidos em sigilo. "Obras faraônicas como Itaipu, Transamazônica e Ferrovia do Aço, por exemplo, foram realizadas sem qualquer possibilidade de controle. Nunca saberemos o montante desviado", disse Reis. "Durante a ditadura, a corrupção não foi uma política de governo, mas de Estado, uma vez que seu principal escopo foi a defesa de interesses econômicos de grupos particulares." 

8. Nordeste mais pobre e migração 
A consolidação do Nordeste como região mais pobre do país teve grande participação do governo do militares. "Nenhuma região mudou tanto a economia como o Nordeste", diz o doutor em economia regional Cícero Péricles Carvalho, professor da Universidade Federal de Alagoas. 

Com as políticas adotadas, a região teve um crescimento da pobreza. "Terminada a ditadura, o Nordeste mantinha os piores indicadores nacionais de índices de esperança de vida ao nascer, mortalidade infantil e alfabetização. Entre 1970 e 1990, o número de pobres no Nordeste aumentou de 19,4 milhões para 23,7 milhões, e sua participação no total de pobres do país subiu de 43% para 53%", afirma Péricles 

O crescimento urbano registrado teve como efeito colateral a migração desregulada. "O modelo urbano-industrial reduziu as atividades agropecuárias, que eram determinantes na riqueza regional, com 41% do PIB, para apenas 14% do total em 1990", diz Péricles. Enquanto o campo era relegado, as atividades urbanas saltaram, na área industrial, de 12% para 28% e, na área do comércio e serviços, de 47% para 58%. "A migração gerou mais pobreza nas cidades, sem diminuir a miséria no campo. A população do campo reduziu-se a um terço entre 1960 e 1990", acrescenta Péricles. 

9. Desigualdade: "milagre brasileiro" 
"É preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo". A frase do então ministro da Fazenda Delfim Netto é, até hoje, uma das mais lembradas do regime militar. Mas o tempo mostrou que o bolo cresceu, sim, ficou conhecido como "milagre brasileiro", mas poucos comeram fatias dele. 

A distribuição de renda entre os estratos sociais ficou mais polarizada durante o regime: os 10% dos mais ricos que tinham 38% da renda em 1960 e chegaram a 51% da renda em 1980. Já os mais pobres, que tinham 17% da renda nacional em 1960, decaíram para 12% duas décadas depois. Assim, na ditadura houve um aumento das desigualdades sociais. "Isso levou o país ao topo desse ranking mundial", diz o professor de Economia da Universidade Federal de Alagoas, Cícero Péricles. 

Entre 1968 e 1973, o Brasil cresceu acima de 10% ao ano. Mas, em contrapartida, o salário mínimo --que vinha recuperando o poder de compra nos anos 1960-- perdeu com o golpe. "Em 1974, em pleno 'milagre', o poder de compra dele representava a metade do que era em 1960", acrescenta Péricles. "As altas taxas de crescimento significavam mais oportunidades de lucros altos, renda e crédito para consumo de bens duráveis; para os mais pobres, assalariados ou informais, restava a manutenção de sua pobreza anterior", explica o economista. 

10. Precarização do trabalho 
Apesar de viver o "milagre brasileiro", a ditadura trouxe defasagem aos salários dos trabalhadores. "Nossa última ditadura cívico-militar foi, em certo ponto, economicamente exitosa porque permitiu a asfixia ao trabalho e, por consequência, a taxa salarial média", diz o doutor em ciências sociais e blogueiro, Leonardo Sakamoto. 

Na época da ditadura, a lei de greve, criada em 1964, sujeitava as paralisações de trabalhadores à intervenção do Poder Executivo e do Ministério Público. "Ir à Justiça do Trabalho para reclamar direitos era possível, mas pouco usual e os pedidos eram minguados", explica Sakamoto. 

"Nada é tão atrativo ao capital do que a possibilidade de exercício de um poder monolítico, sem questionamentos", diz Sakamoto, que cita a asfixia dos sindicatos, a falta de liberdade de imprensa e política foram "tão atraentes a investidores que isso transformou a ditadura brasileira e o atual regime político e econômico chinês em registros históricos de como crescimento econômico acelerado e a violência institucional podem caminhar lado a lado". 

Carlos Madeiro (via UOL)

Nota do blog: A conversão a Cristo, a obra do Espírito Santo, é o golpe mais radical e profundo que se pode efetuar para conseguir um mundo melhor. Esta foi a única revolução que Cristo ensinou. Esta é a revolução da graça, silenciosa, pacífica, eficaz e profunda, que Deus pode operar hoje em teu coração. E que a esperança na volta de Cristo molde nossas ações em todas as esferas da vida. Inclusive na política.

sexta-feira, 28 de março de 2025

ELLEN WHITE CONTRA O CULTO CHATO

Sim, existem cultos chatos e até Ellen White, uma escritora do século 19, concorda com isso. Não, os cultos não devem ser chatos, e Ellen White fala sobre isso claramente. Nenhuma de nossas reuniões deve causar tédio pela falta de vida, de ânimo, pela desorganização ou pela impontualidade. Sim, existem pregadores monótonos e que falam demais, e até Ellen White concorda com isso. Não, os sermões não devem ser um teste de resistência para a Grande Tribulação por vir.

Notem que estou falando de uma antiga escritora que viveu num dos períodos de maior fervor do adventismo, onde os cultos eram vibrantes e marcados pela profunda busca da presença do Senhor.

Boa parte do tempo de nossas reuniões são dedicadas ao sermão. Um culto de uma hora e meia chega a ter uma hora dedicada apenas ao que, em teoria, deveria ser a exposição da Palavra. Ellen White dedicou muitos parágrafos a esse assunto, e deveríamos dar mais atenção a eles. De acordo com ela, muitas reuniões se tornam desinteressantes justamente por causa do modo como o sermão é apresentado. Em resumo: um culto pode se tornar chato, se o pregador não seguir algumas diretrizes.

Esses parágrafos anteriores se fazem necessários, pois é normal colocar a culpa do culto frio e monótono em cima dos adoradores, não dos que planejam e dirigem o culto. No entanto, quem fica no púlpito divagando por mais de uma hora num discurso sem vida, não pode simplesmente jogar a culpa nos membros e ir para casa com a consciência limpa de que “fiz a minha parte”. Na luta contra o culto-entretenimento, pode surgir a ideia implícita de que há virtude no culto desagradável e morto, mas Ellen White não endossa esse tipo de culto.

Ao contrário do que supõe algumas pessoas, Ellen White orienta que nossas reuniões sejam interessantes e cheias de vida. E para isso, ela frequentemente sugere o sair da rotina, usar novas idéias e abordagens, e especialmente cuidar com o horário.

Cultos devem ser interessantes
“Deve imperar ali a própria atmosfera do Céu. As orações e discursos não devem ser prolixos e enfadonhos, apenas para encher o tempo. Todos devem espontaneamente e com pontualidade contribuir com sua parte e, esgotada a hora, a reunião deve ser pontualmente encerrada. Deste modo será conservado vivo o interesse. Nisto está o culto agradável a Deus. Seu culto deve ser interessante e atraente, não se permitindo que degenere em formalidade insípida. Devemos dia a dia, hora a hora, minuto a minuto viver para Cristo; então Ele habitará em nosso coração e, ao nos reunirmos, seu amor em nós será como uma fonte no deserto, que a todos refrigera, incutindo nas almas esmorecidas um desejo ardente de sorver da água da vida” (Testemunhos Seletos, vol. 2, p. 252).

“Não canseis jamais os ouvintes com sermões longos. Isso não é sábio. Durante muitos anos estive empenhada nesse assunto, tratando de que nossos irmãos preguem menos e dediquem o seu tempo e energia para simplificar os pontos importantes da verdade, pois todo ponto será motivo de ataque de nossos oponentes. Todos quantos estejam relacionados com a obra devem manter idéias novas; … e com tato e previsão fazei todo o possível para interessar os vossos ouvintes” (Carta 48, 1886).

Pontualidade ajuda a evitar cultos e reuniões chatas
“As reuniões de conferências e oração não devem tornar-se tediosas. Todos devem estar prontos, se possível, na hora indicada; e se há retardatários, que estejam atrasados meia hora, ou mesmo quinze minutos, não se deve esperar por eles. Se houver apenas dois presentes, podem reivindicar a promessa. A reunião deve ser iniciada na hora marcada, se possível, estejam presentes muitos ou poucos” (Review and Herald, 3 de maio de 1871).

Sermões Longos e Tediosos
“Que a mensagem para este tempo não seja apresentada em discursos longos e elaborados, mas em prática breves e incisivas, isto é, que vão diretamente ao ponto. Sermões prolongados fatigam a resistência do orador e a paciência dos ouvintes. (…) Dai lições curtas, em linguagem clara e simples, e repeti-as muitas vezes. Os sermões curtos serão muito mais lembrados do que os longos. Aqueles que falam devem lembrar que os assuntos que estão apresentando talvez sejam novos para alguns dos ouvintes; portanto, os pontos principais devem ser repassados uma e outra vez” (Obreiros Evangélicos, pp. 167 e 168).

“Sejam os discursos curtos, espirituais e elevados” (Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 338).[1]

Muitos rodeios preliminares antes de ir ao ponto central
“Muitos oradores perdem o tempo e as energias em longos preliminares e desculpas. Alguns gastam cerca de meia hora em apresentar escusas; assim se perde o tempo e, quando chegam ao assunto e procuram firmar os pontos da verdade no espírito dos ouvintes, estes se acham fatigados e não lhes podem sentir a força” (Obreiros Evangélicos, p. 169).

Falem pouco
“Falai pouco. Vossos discursos geralmente têm o dobro do que deviam ter. É possível lidar com uma boa coisa de tal maneira que ela perca seu sabor. Quando um discurso é longo demais, a última parte da pregação diminui a força e o interesse do que a precedeu. Não divagueis, mas ide diretamente ao ponto. Dai ao povo o próprio maná do Céu e o Espírito testificará com vosso espírito que não sois vós que falais, mas que o Espírito Santo fala por vosso intermédio” (Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, p. 311).[2]

Se você trabalha com jovens: não fale demais
“Os que dão instruções à infância e à juventude, devem evitar observações enfadonhas. Falar com brevidade, indo direto ao ponto, terá uma feliz influência. Se há muita coisa para dizer, substituí pela freqüência aquilo de que a brevidade os privou. Algumas observações interessantes, feitas de quando em quando, serão mais eficazes do que comunicar todas as instruções de uma só vez. Longos discursos fatigam a mente dos jovens. Falar demasiado levá-los-á mesmo a aborrecer as instruções espirituais, da mesma maneira que o comer em excesso sobrecarrega o estômago e diminui o apetite, conduzindo ao enjoo da comida. Nossas instruções à igreja, e especialmente à juventude, devem ser dadas, mandamento sobre mandamento, regra sobre regra, um pouco aqui, um pouco ali. As crianças devem ser atraídas para o Céu, não asperamente, mas com muita brandura. Não imagineis que vos seja possível despertar o interesse dos jovens indo à reunião missionária e pregando longo sermão. Planejai meios pelos quais se possa despertar um vivo interesse” (Obreiros Evangélicos, pp. 208-210).

Alguns sermões podem se transformar em três
“Alguns de vossos discursos longos teriam muito melhor efeito sobre as pessoas se os dividísseis em três. As pessoas não podem digerir tanto; sua mente tampouco os pode apreender, e chegam a cansar-se e confundir-se ao ser-lhes apresentada tanta matéria em um único sermão. Duas terças partes dos sermões tão longos perdem-se, e o pregador esgota-se. Muitos de nossos pastores há que erram nesse sentido. O resultado sobre eles não é bom, porque se tornam cérebros cansados e sentem que estão carregando para o Senhor cargas pesadas e suportando durezas” (Evangelismo, pp. 176 e 177).

Duas razões para se fazer sermões mais curtos
“Duas razões existem, pelas quais deveis fazê-lo. Uma é que podeis conquistar a reputação de ser pregador interessante; a outra é que podeis preservar a vossa saúde” (Carta 112, 1902).

Ter muitos sermões num mesmo período não é bom
“E quando se amontoam tantos discursos, um após outro, o povo não tem tempo de assimilar o que ouve. A mente fica-lhes confusa, e os serviços se lhes tornam enfadonhos e fatigantes” (Obreiros Evangélicos, p. 407).[3]

Por vezes, o sermão deve ser reduzido
“Ocasiões há em que convém fazerem os nossos pastores, no sábado, em nossas igrejas, breves discursos, cheios de vida e do amor de Cristo. Os membros da igreja não devem, porém, esperar um sermão cada sábado” (Testemunhos Seletos, vol. 3, p. 82).

“Aquele que é designado para dirigir cultos aos sábados, deve estudar a maneira de interessar os ouvintes nas verdades da Palavra. Não convém que faça sempre tão longos discursos que não haja oportunidade para os presentes confessarem a Cristo. O sermão deve ser, frequentemente, breve, a fim de o povo exprimir seu reconhecimento para com Deus. Ofertas de gratidão glorificam o nome do Senhor. Em cada assembléia dos santos, anjos de Deus escutam o louvor rendido a Jeová em testemunhos, canto e oração. A reunião de oração e testemunhos, deve ser um período de especial auxílio e animação. Todos devem sentir que é um privilégio tomar parte nela. Que todos os que confessam a Cristo tenham alguma coisa para dizer na reunião de testemunhos. Estes devem ser curtos, e de molde a servir de auxílio aos outros. Não há nada que mate tão completamente o espírito de devoção, como seja uma pessoa levar vinte ou trinta minutos num testemunho. Isso significa morte para a espiritualidade da reunião” (Obreiros Evangélicos, p. 171).

Momentos de louvor estropiados
“O canto é uma parte do culto de Deus, porém na maneira estropiada por que é muitas vezes conduzido, não é nenhum crédito para a verdade, nenhuma honra para Deus. Deve haver sistema e ordem nisto, da mesma maneira que em qualquer outra parte da obra do Senhor. Organizai um grupo dos melhores cantores, cuja voz possa guiar a congregação, e depois todos quantos queiram se unam com eles. Os que cantam devem esforçar-se para cantar em harmonia; devem dedicar algum tempo a ensaiar, de modo a empregarem esse talento para glória de Deus” (Evangelismo, p. 506).

Não devemos fazer orações longas e tediosas publicamente
“A oração feita em público deve ser breve, e ir diretamente ao ponto. Deus não requer que tornemos fastidioso o período do culto, mediante longas petições. Cristo não impõe a Seus discípulos fatigantes cerimônias e longas orações. 'Quando orares,' disse Ele, 'não sejas como os hipócritas, pois se comprazem em orar em pé nas sinagogas e às esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens' (Mateus 6:5). (…) Há muitas orações enfadonhas, que parecem mais uma preleção feita ao Senhor, do que o apresentar-Lhe um pedido. Seria melhor se os que assim procedem se limitassem à prece ensinada por Cristo a Seus discípulos. Orações longas são fatigantes para os que as escutam, e não preparam o povo para escutar as instruções que se devem seguir. É muitas vezes devido à negligência da oração particular, que em público elas são longas e fastidiosas. Não ponham os pastores em suas petições uma semana de negligenciados deveres, esperando expiar essa falta e tranquilizar a consciência. Tais orações dão freqüentemente em resultado o enfraquecer a espiritualidade de outros” (Obreiros Evangélicos, pp. 175 e 176).

Fazer orações públicas simples e não com palavras difíceis
“A linguagem floreada é inadequada à oração, seja a petição feita no púlpito, no círculo da família, ou em particular. Especialmente o que ora em público deve servir-se de linguagem simples, para que os outros possam entender o que diz, e unir-se à petição” (Obreiros Evangélicos, p. 177).

Perceba o padrão de Ellen White: nada deve ser desagradável e inconveniente no culto. Nem o sermão, nem o testemunho, nem as orações, nem a música. “Não seja chato”, essa é a mensagem geral. No que depender de você, não permita que o “Alegrei-me quando me disseram: vamos à Casa do Senhor” (Sl 122:1) se transforme em “fiquei entediado quando me disseram: vamos à Casa do Senhor”.

Profundidade não é sinônimo de prolixidade. Brevidade e objetividade não são sinônimos de superficialidade. Alegria não é sinônimo de irreverência. Reverência não é sinônimo de monotonia e chatice.

Isaac Malheiros (via Música Sacra e Adoração)

[1] Alguém pode estar pensando: “Mas a própria Ellen White relata ocasiões em que ela pregou durante uma hora ou mais”. Sim, mas isso não era o rotineiro. Eram ocasiões especiais, onde muitas vezes ela era usada por Deus para fazer revelações proféticas ao povo. O ponto aqui é: o normal e rotineiro deve ser sermões curtos. Podem existir exceções, ocasiões especiais onde maior tempo será gasto, mas a regra da pontualidade e dos sermões curtos deve prevalecer em nossos cultos.

[2] Escrevendo a um pregador chamado Stephen Belden, ela aconselhou: “Não segure o povo mais que trinta minutos em seus discursos”. Ele estava se tornando prolixo em seus sermões. (Manuscript Releases, vol. 10, p. 130)

[3] O contexto dessa advertência eram as reuniões campais, onde enorme quantidade de sermões eram apresentados em sequência.

quarta-feira, 26 de março de 2025

JUSTIÇA NA BÍBLIA

O direito do Estado de decretar, interpretar e executar as leis desempenha papel importante na sociedade. É difícil definir em detalhes o sistema legal no Antigo Testamento, embora as linhas básicas sejam bem claras. Como qualquer sistema legal, Israel procurou restabelecer a justiça, harmonia social e a ordem perturbada pela afronta civil ou criminal. A princípio, o tribunal judicial estava interessado em encontrar e revelar a verdade no contexto do debate legal.

1. Moisés e os Juízes
Após o Êxodo, Moisés exercia a função de juiz de Israel (Êxodo 18:12 e 16). Essa prática era baseada na família ou na lei tribal, onde o pai era responsável por preservar ou restabelecer a justiça. No caso de Moisés, essa se tornou uma responsabilidade impossível, então foi implantado um novo sistema que influenciou o sistema legal em todo o Antigo Testamento (Êxodo 18:17-27). Ele era composto por três elementos: Primeiro, as pessoas deviam aprender as leis que regulariam a nova sociedade para que agissem com responsabilidade. Segundo, havia tribunais inferiores em todo o acampamento. A jurisdição desses tribunais era restrita às pequenas causas. Os juízes eram cuidadosamente selecionados, comprometidos com o Senhor – ética e moralmente confiáveis (Êxodo 18:11). Terceiro, havia um tribunal superior onde Moisés era o juiz. Esse não era um tribunal de apelação, mas aquele onde as questões legais mais importantes eram resolvidas (Êxodo 18:22). O sistema legal foi ligeiramente modificado antes de os israelitas entrarem em Canaã (Deuteronômio 17:8-13). Os tribunais inferiores estavam localizados nos bairros ou nos portões das cidades (Deuteronômio 17:2; conforme Rute 4:1-12). Os juízes provavelmente eram os idosos do lugar. Na época, o tribunal superior funcionava no local onde estava o santuário e julgava os casos de “crimes de sangue, litígios ou agressões” (Deuteronômio 17:8, NVI). Um juiz e um sacerdote deviam decidir a questão legal e final (Deuteronômio 17:9). Durante o período dos juízes, havia juízes como governantes em cada localidade (Josué 24:1), e alguns exerciam funções judiciais (Juízes 4:4-5; 1 Samuel 8:1-3).

2. O Rei como Juiz
Quando o povo pediu um rei para julgá-los, a monarquia foi instituída (1 Samuel 8:20; 1 Reis 3:9). Ele se tornou o juiz da terra (conforme 2 Samuel 15:4), mas não podia agir sozinho. Davi nomeou juízes (1 Crônicas 26:29), provavelmente para legislar em tribunais inferiores. Os tribunais dos reis eram para casos mais difíceis e, talvez, para apelação (2 Samuel 14:5-10). É difícil determinar como o tribunal do rei funcionava, mas as reformas legais instituídas por Josafá podem ser úteis para nossa compreensão. Ele nomeou “juízes em cada uma das cidades fortificadas de Judá” (2 Crônicas 19:5). O tribunal superior, em Jerusalém, era composto por sacerdotes, levitas e alguns dos “chefes das famílias de Israel” (2 Crônicas 19:8; os anciãos). Ali eram julgados os casos mais difíceis, talvez enviados pelos tribunais inferiores (2 Crônicas 19:10), que podiam ser casos religiosos, civis e criminais. O rei nomeava seus representantes para esse tribunal superior (2 Crônicas 19:11). Obviamente, ele tinha sua autoridade judicial, mas não temos dados específicos.

3. Significado Teológico
Em Israel, Deus era o supremo juiz, não apenas de Seu povo, mas de todos os povos da Terra. Ele era o único que podia restaurar a justiça, a harmonia e a integridade na sociedade terrestre. Os juízes eram nomeados “não para julgar para o homem, mas para o Senhor, que estará com vocês sempre que derem um veredicto” (2 Crônicas 19:6). No Novo Testamento, Jesus assume o papel de Deus como juiz universal. Ele é o juiz, o sacerdote e o rei que, por meio do Seu sacrifício revela a malignidade do mal e o amor de Deus, podendo, então, pronunciar o veredicto final na suprema corte do universo, no templo celestial, contra Seus inimigos e a favor do Seu povo.

Ángel Manuel Rodríguez (via Revista Adventist World)

terça-feira, 25 de março de 2025

CRISTÃOS EM BUSCA DO ÊXTASE

Num belo dia, Aristóteles resolveu inventar que o homem é dividido em três: corpo, alma e espírito (ou mente). A ideia se tornou popular, acabou ganhando os séculos, alcançou guarida na teologia católica e grassa absoluta ainda hoje. Corolário dessa ideia é a de que o mundo do corpo é baixo e ruim, ao passo que o mundo superior é o da mente e do espírito, o mundo das ideias e do êxtase.

Êxtase vem do grego ékstasis, que significa estar separado de si. Pessoas espiritualizadas de nossos dias fazem da corrida atrás dele o grande sentido de suas vidas. Experiências místicas, transes sobrenaturais, sensações de arrebatamento em que o corpo, aquela coisa baixa e vil, fica lá longe, e o espírito se desdobra para viver o gozo da plenitude espiritual.

Infelizmente, muitos cristãos pregam a necessidade de se experimentar algo assim, também. Infelizmente porque a Bíblia jamais afirma que somos seres divididos em corpo, alma e mente, como se nosso verdadeiro eu estivesse aprisionado numa casca imperfeita e Deus só Se comunicasse plenamente ao nos libertar dessa casca, e não descreve nenhuma experiência mística como essa.

Ao contrário, a Bíblia afirma que somos seres unos. Diz que nosso corpo, somado a fôlego de vida, forma um ser vivente (Gênesis 2:7), o que equivale dizer que corpo e fôlego de vida separados um do outro não são nada.

A experiência mística que Jesus prega é mais sutil. Acontece quando estamos dentro de nós mesmos, muitas vezes sentindo uma dorzinha nas pernas, uma coceira em algum canto ou frio na ponta do nariz. Passa pela razão, ao invés de subvertê-la, e o arrebatamento que provoca não torna a criatura uma espécie de bêbado ou catatônico, mas alguém que, com espírito e com entendimento, alça louvores a Deus.

Ellen G. White alerta: "Encontramo-nos em constante perigo de colocar-nos acima da simplicidade do evangelho. Há intenso desejo da parte de muitos, de causar sensação ao mundo com alguma coisa original, que exalte o povo a um estado de êxtase espiritual, e mude a presente ordem de conhecimento pessoal. Há, certamente, grande necessidade de uma mudança na presente ordem de experiência; pois a santidade da verdade presente não é apreciada como devia ser, mas a mudança de que necessitamos é uma mudança de coração, e só pode ser obtida buscando individualmente a Deus em procura de Sua bênção, pleiteando com Ele por Seu poder, orando fervorosamente para que Sua graça venha sobre nós, e para que nosso caráter seja transformado. Esta é a mudança de que necessitamos hoje, e para cuja consecução devemos exercer perseverante energia e manifestar sincera resolução" (The Review and Herald, 22 de Março de 1892).

Estamos sujeitos o dia todo a estímulos cujo intuito é não nos permitir olhar para dentro de nós mesmos, parar para pensar. São luzes, cheiros, sons e imagens que vendem experiências, baratos, êxtases. É a cerveja que resolve nossos problemas de desajustamento social, é a roupa ou a bolsa que impõe respeito, é a promessa de ver estrelas comendo um chocolate ou da realização plena num ato sexual libertário.

Cristo propõe um tipo de desafio diferente. Convida a fazermos uma auto-análise honesta e iluminada pela Sua lei. Sugere que passemos tempo com Ele em oração e refletindo em Sua Palavra. Pede que depositemos nEle nossos sentimentos e aspirações, e que esperemos. Esse negócio de esperar não tem muito que ver com êxtases, não é mesmo? É mais parecido com o sacrifício de começar um programa de exercícios físicos: as banhas acumuladas só vão desaparecer depois de um bom período de luta, lentamente, depois que cada exercício for repetido incontáveis vezes com o mesmo zelo, com persistência, e a nova forma alcançada vai demandar prática constante para ser mantida.

Esse é o tipo de arrebatamento que devemos buscar. Ellen White diz: "A vida em Cristo é uma vida de descanso. Pode não haver êxtase de sentimentos, mas deve existir uma constante, serena confiança. Vossa esperança não está em vós mesmos; está em Cristo. Vossa fraqueza se acha unida à Sua força, vossa ignorância à Sua sabedoria, vossa fragilidade ao Seu eterno poder. Não deveis, pois, olhar para vós mesmos, nem permitir que o pensamento demore no próprio eu, mas olhai para Cristo. Que o pensamento demore em Seu amor, na formosura e perfeição de Seu caráter. Cristo em Sua abnegação, Cristo em Sua humilhação, Cristo em Sua pureza e santidade, Cristo em Seu incomparável amor — este é o tema para a contemplação da alma. É amando-O, imitando-O, confiando inteiramente nEle, que haveis de ser transformados na Sua semelhança" (Caminho a Cristo, p. 70).

Infelizmente, o cristianismo de hoje é um cristianismo de êxtase. O problema é que o cristianismo não é uma religião de êxtase. Nunca foi. O cristianismo é uma religião racional. Não racionalista, me entenda. Racional por acreditar que Deus fala ao homem através da razão. Obviamente, há espaço para a fé, pois ela não é contrária à razão. Contudo, a fé cristã consiste em confiar em Deus além das circunstâncias, ou seja, além do êxtase. A fé não é o motor do êxtase, ela é seu carrasco. Os cristãos nunca precisaram do êxtase, pois sempre tiveram Cristo. O Desejado de Todas as Nações torna o êxtase indesejável. A fé não sente Deus. A fé transcende o sentir. E é por isso que ela se apega à Palavra, pois a Palavra transcende o Homem. 

Ellen White adverte: "Satanás leva o povo a pensar que, por terem sentido um êxtase de sentimento, estão convertidos. Sua vida, porém, não experimenta mudança. Seus atos são os mesmos de antes. Sua vida não mostra bons frutos. Eles oram frequente e longamente, e constantemente se referem aos sentimentos que tiveram em tal ou qual ocasião. Mas não vivem a nova vida. Estão enganados. Sua vivência não vai além dos sentimentos. Constroem sobre areia, e ao virem ventos adversos, sua casa é arrebatada" (Youth's Instructor, 26 de setembro de 1901).

O êxtase é o substituto satânico para aqueles que nunca conheceram a Cristo. É disto que a igreja tem que se lembrar: enquanto ela tiver êxtase, ela nunca terá Cristo.

P.S.: O título do artigo faz referência ao livro Cristãos em Busca do Êxtase de Vanderlei Dorneles, que discute o fenômeno religioso contemporâneo marcado por intensa busca pela espiritualidade. Esta obra é recomendada a todos aqueles que buscam uma análise abalizada da explosão mística e existencialista que está transformando o cristianismo do ponto de vista litúrgico e comportamental. A obra provê uma chave explanatória para se compreender as raízes, tendências e ênfases da cultura carismática atual, ao mesmo tempo em que oferece uma visão equilibrada do culto bíblico. Trata-se de uma obra esclarecedora, uma leitura recomendada para todos que desejam compreender o fenômeno da religiosidade pós-moderna, suas causas, consequências e implicações futuras.

sexta-feira, 21 de março de 2025

SACUDIDURA: OS 14 GRUPOS QUE DEIXARÃO A IGREJA

“Sacudidura” é uma palavra figurativa usada em nossa igreja que designa uma experiência especial de seleção entre o povo de Deus. A palavra vem do ambiente agrícola. Após a colheita, os grãos são peneirados e sacudidos, método que descarta os grãos quebrados e a palha é soprada para fora.

"Vou dar ordem e vou separar os bons dos maus em Israel, como quem separa o trigo da casca, sem perder um só grão" (Amós 9:9).

A sacudidura escatológica, conforme ensinam os adventistas, é um período que acontecerá antes da segunda vinda de Jesus Cristo, finalizando com o término do juízo investigativo no santuário celestial (fechamento da porta da graça), abrangendo tanto indivíduos como grupos.

Ellen G. White alerta: “A sacudidura deve em breve acontecer para purificar a igreja” (Carta 46, 1887, p. 6). "Haverá uma sacudidura da peneira. No devido tempo, a palha precisa ser separada do trigo. Por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos está esfriando. Este é precisamente o tempo em que o genuíno será o mais forte" (Eventos Finais, p. 173).

Quem são os que deixarão a Igreja, sob a ação da sacudidura, identificados de forma geral sob as figuras do “joio”, “palha” e “mornos”? Em diferentes fontes, nos escritos de Ellen G. White, encontramos pelo menos 14 grupos que, eventualmente, deixarão a igreja:

1. Os autoenganados (Testemunhos para a Igreja, v. 4, p. 89, 90; v. 5, p. 211, 212).

2. Os descuidados e indiferentes (Testemunhos para a Igreja, v. 1, p. 182).

3. Os ambiciosos e egoístas (Primeiros Escritos, p. 269).

4. Os que recusam sacrificar-se (Primeiros Escritos, p. 50).

5. Os orientados pelo mundanismo (Testemunhos para a Igreja, v. 1, p. 288).

6. Os que comprometem a verdade (Testemunhos para a Igreja, v. 5, p. 81).

7. Os desobedientes (Testemunhos para a Igreja, v. 1, p. 187).

8. Os invejosos e críticos (Testemunhos para a Igreja, v. 1, p. 251).

9. Os fuxiqueiros, que acusam e condenam (Olhando Para o Alto, p. 236).

10. A classe conservadora superficial (Testemunhos para a Igreja, v. 5, p. 463).

11. Os que não controlam o apetite (Testemunhos para a Igreja, v. 4, p. 31).

12. Os que promovem desunião (Review and Herald, 18 de junho de 1901).

13. Os estudantes superficiais das Escrituras (Testemunhos para Ministros, p. 112).

14. Os que perderam a fé no dom profético (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 84).

Dois fatos aqui são convergentes. Primeiramente, a ampla variedade desse catálogo. Em segundo lugar, todas essas categorias estão hoje representadas na igreja. 

Ellen White afirma: "Ao aproximar-se a tempestade, uma classe numerosa que tem professado fé na mensagem do terceiro anjo, mas não tem sido santificada pela obediência à verdade, abandona sua posição, passando para as fileiras do adversário" (O Grande Conflito, p. 608). Novamente, a ênfase é colocada no fato de que são os infiéis que abandonarão a igreja.

"Ele, porém, respondeu: Toda planta que meu Pai celestial não plantou será arrancada" (Mateus 15:13). Neste texto, Jesus nos adverte contra as heresias teológicas do rigorismo farisaico como plantas que Deus não plantou. As heresias, contudo, não se limitam às doutrinas. Há também as heresias do comportamento, que serão também eliminadas.

Confira estes outros dois textos de Ellen White: "Introduzir-se-ão divisões na igreja. Desenvolver-se-ão dois partidos. O trigo e o joio crescerão juntos para a ceifa" (Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 114). "É uma solene declaração que faço à igreja, de que nem um entre vinte dos nomes que se acham registrados nos livros da igreja, está preparado para finalizar sua história terrestre, e achar-se-ia tão verdadeiramente sem Deus e sem esperança no mundo, como o pecador comum" (Eventos Finais, p. 172).

O extraordinário a respeito desse processo é que ele ocorrerá naturalmente, como resultado da incompatibilidade fundamental entre a verdade e tudo aquilo que é contrário a ela. Nosso desafio é: "Quando a religião de Cristo for mais desprezada, quando Sua lei mais desprezada for, então deve nosso zelo ser mais ardoroso e nosso ânimo e firmeza mais inabaláveis. Permanecer em defesa da verdade e justiça quando a maioria nos abandona, ferir as batalhas do Senhor quando são poucos os campeões - essa será nossa prova. Naquele tempo devemos tirar calor da frieza dos outros, coragem de sua covardia, e lealdade de sua traição" (Testemunhos Seletos, vol. 2, p. 31).


A purificação da igreja virá, mas administrada pelo Senhor da igreja. "Mas quem suportará o dia da Sua vinda? E quem subsistirá, quando Ele aparecer? Porque Ele será como o fogo do ourives e como o sabão dos lavandeiros. E assentar-Se-á, refinando e purificando a prata; e purificará os filhos de Levi, e os refinará como ouro e como prata" (Malaquias 3:2 e 3).

Ellen White adverte: "Estamos no tempo da sacudidura, tempo em que cada coisa que pode ser sacudida, sacudir-se-á. O Senhor não desculpará os que conhecem a verdade, se não obedecem a Seus mandamentos por palavra e ação" (Eventos Finais, p. 173).

Contudo, a igreja não cairá, e por fim, novos conversos ocuparão os lugares dos que se retirarem: "A igreja talvez pareça como prestes a cair, mas não cairá. Ela permanece, ao passo que os pecadores de Sião serão lançados fora na sacudidura - a palha separada do trigo precioso. É esse um transe terrível, não obstante importa que tenha lugar" (Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 380).

"Os lugares vagos nas fileiras serão preenchidos pelos que foram representados por Cristo como tendo chegado na hora undécima. Há muitos com quem o Espírito de Deus está lutando. O tempo dos juízos destruidores da parte de Deus é o tempo de misericórdia para aqueles que [agora] não têm oportunidade de aprender o que é a verdade. O Senhor olhará para eles com ternura. Seu coração compassivo se enternece, e a mão do Senhor ainda está estendida para salvar, enquanto a porta é fechada para os que não querem entrar. Será admitido um grande número de pessoas que nestes últimos dias ouvirem a verdade pela primeira vez" (Eventos Finais, p. 182).