Recentemente, um conhecido teólogo brasileiro gravou um vídeo falando sobre o que ele considera serem as maiores “heresias adventistas”. Entre os pontos citados por ele está a alegação de que os adventistas creem que o Arcanjo Miguel é o próprio Senhor Jesus. O que, na compreensão deste, seria um grande erro. Mas quando vamos para a Bíblia, o que é que ela diz a respeito disso?
Primeiramente vale a pena citar que a Igreja Adventista do Sétimo Dia não acredita que Jesus Cristo seja um anjo, ou que seja um ser criado. Ela acredita na divindade de Cristo, de que Ele é Deus, uma das três pessoas da trindade, não criado por ninguém, mas Criador de todas as coisas e que se tornou um ser humano unindo sua divindade à humanidade e morrendo na cruz para salvar os seres humanos1.
Identidade de Miguel
A identidade do Arcanjo Miguel tem sido debatida ao longo da história cristã. Algumas tradições o consideram um anjo criado, enquanto outras o identificam como um título de Cristo antes de Sua encarnação2. A Igreja Adventista do Sétimo Dia defende que Miguel é uma designação de Cristo em sua função de comandante celestial. Mas quais são as evidências para essa compreensão? Este artigo explora a origem do nome Miguel, do título Arcanjo, a relação deles com Cristo e as evidências bíblicas que sustentam essa interpretação.
Desde os primeiros séculos do cristianismo, Miguel tem sido interpretado de formas variadas. Algumas vertentes o consideram um anjo distinto, líder dos exércitos celestiais, enquanto outros protestantes veem Miguel como um ser angelical poderoso, mas inferior a Cristo3. No entanto, os adventistas, por meio do estudo das Escrituras, reconhecem que Miguel não é um anjo criado, mas um título dado a Cristo como comandante dos exércitos celestiais4.
O título arcanjo
Alguns podem pensar ser incoerente o fato de acreditar que Jesus receba o título de arcanjo, visto ser Ele o Criador e não um ser criado, mas isso se deve, em grande medida, por falta de compreensão acerca do significado da palavra Arcanjo.
A palavra arcanjo aparece apenas duas vezes na Bíblia (Judas 9; 1 Tessalonicenses 4:16). É a transliteração da palavra grega ἀρχάγγελος (archángelos), que significa “anjo chefe” ou "chefe dos anjos"5. O texto de Judas 9 afirma que o arcanjo é Miguel. Já no texto de 1 Tessalonicenses 4:16, a voz do Arcanjo é associada à volta de Jesus e à ressurreição dos mortos: ao ser ouvida a voz, os mortos ressuscitam. No entanto, quando se compara essa declaração com a fala de Jesus em João 5:26-29, onde Jesus diz que todos os mortos ouvirão a Sua voz e sairão dos túmulos na ressurreição, fica evidente que há um paralelo entre a voz de Jesus e a voz do Arcanjo, indicando que a voz do Arcanjo (chefe dos anjos) é a própria voz do Senhor Jesus. É Ele quem vai à frente dos anjos, liderando-os em Sua volta (Apocalipse 19:14). É Ele quem ordenará os anjos para que saiam pelos quatro cantos da Terra recolhendo os escolhidos de Deus que ressuscitaram (Mateus 24:31).
Para aqueles que pensam ser difícil que uma das três pessoas da Trindade recebesse o um título associado a anjo, vale ressaltar o fato de que no Antigo Testamento, Cristo, em sua forma pré-encarnada, frequentemente aparece como o "Anjo do Senhor" com atributos divinos (Êxodo 3:2-6; 23:21-23; Juízes 6:11-22; 13:18-22; Gênesis 32:24-30)6.
O título Miguel
O nome Miguel vem do hebraico Mîkā’ēl (מִיכָאֵל), que significa "Quem é como Deus?"7. Esse nome, em forma de pergunta, enfatiza a supremacia de Deus e pode ser compreendido como um título messiânico que reforça a identidade divina de Cristo. Cristo inclusive é a resposta para a pergunta do nome: quem é como Deus? Cristo, pois Ele é Deus!
No livro de Daniel, o Messias (ungido) é chamado de “Príncipe” (9:25-26), e no capítulo 12 Miguel é chamado de “Grande Príncipe” (v1). Em Daniel 8:11, 25, Cristo também é chamado de “Príncipe do exército” e “Príncipe dos príncipes”. Corroborando com essa ideia, Lucas 4:17-18 afirma que Jesus é o Ungido (Messias), e Atos 5:30-31 diz que “Deus, porém, com a Sua destra o exaltou a Príncipe e Salvador”. Há uma clara associação entre o Miguel e Cristo. Além disso, “o título ‘príncipe’ é usado exclusivamente para Cristo ou para Satanás, mas nunca para qualquer outro ser angelical (ver Josué 5:14 e 15; Isaías 9:6; Daniel 8:11 e 25; Daniel 9:25; Atos 5:31; João 12:31 João 14:30; 16:11 Efésios 2:2)”8. Em Daniel 10:20-21, Miguel é apresentado como o Príncipe de Israel, uma clara referência a Cristo.
Em Apocalipse 12:7, Miguel e Seus anjos pelejam contra o Dragão (Satanás) e seus anjos. Quando se analisa o contexto bíblico global, fica evidente desde Gênesis 3:15 que o conflito seria entre o descendente da mulher (Cristo) e a serpente (Satanás). No Novo Testamento, o conflito entre Cristo e Satanás também é evidenciado (Ver: Mateus 4:1-11; João 12:31-32; 14:30; Colossenses 1:9, 16; Efésios 6:10-20).
Contraponto
Alguns argumentam que Miguel não poderia ser Cristo, visto que quando é citado em Judas 9, ele apenas repreende a Satanás e não o expulsa diretamente como Cristo fazia frequentemente em Sua encarnação. No entanto, em uma passagem paralela a essa em Zacarias 3:2, é o próprio YHWH (traduzido como Senhor) quem repreende Satanás exatamente como no texto de Judas 9.
Outro argumento contrário se baseia em Daniel 10:13, onde diz que Miguel é “um dos primeiros príncipes”. O termo aramaico para um é אֶחָד (echad) que significa um, único, mas também pode ser “primeiro”, conforme é traduzido em outras passagens de do mesmo livro de Daniel (ver: 1:21; 9:1-2; 11:1; 6:2; 7:1). Conforme a própria tradução dos demais textos citados, portanto, uma outra possível tradução seria: “o primeiro dos primeiros príncipes” ou “o número um dos primeiros príncipes”.
Os que defendem a ideia de que se trata de uma heresia, muitas vezes são os mesmos seguidores de Calvino, chamados de “calvinistas”. Eles se esquecem que o próprio Calvino defendeu a ideia de que o Arcanjo Miguel fosse um título de Cristo9.
Conclusão
Miguel aparece na Bíblia em contextos nos quais a intervenção divina é crucial: Ele luta pelo povo de Deus (Daniel 10:13, 21; 12:1), expulsa Satanás do céu (Apocalipse 12:7-9) e tem autoridade sobre a ressurreição dos mortos (Judas 9; 1 Tessalonicenses 4:16). Esses papéis apontam diretamente para Cristo, pois apenas Ele exerce essas funções na teologia bíblica10.
As Escrituras demonstram que Miguel não é um anjo criado, mas um título de Cristo antes de Sua encarnação. Seu nome expressa a supremacia de Deus, e suas funções indicam seu papel como líder dos exércitos celestiais, defensor do povo de Deus e aquele que tem poder sobre a vida e a morte11.
A compreensão de Miguel como um título de Cristo fortalece nossa fé na atuação contínua de Jesus em favor da humanidade, desde a eternidade passada até o momento em que retornará em glória para buscar Seus filhos12.
Lucas Hígor (via Notícias Adventistas)
Referências
1 IGREJA ADVENTISTA DO SÉTIMO DIA. Nisto Cremos: As Crenças Fundamentais da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2013.
2 SEVENTH-DAY ADVENTIST BIBLE COMMENTARY. 2. ed. Washington, D.C.: Review and Herald, 1980, p. 998.
3 DANIÉLOU, Jean. The Angels and Their Mission. Westminster: Newman Press, 1957, p. 74.
4 DEDEREN, Raoul. Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2011, p. 157.
5 TYNDALL, Walter. Dicionário Bíblico Tyndale. Tradução e edição pela Editora Geográfica, 2015, p. 87, 143.
6 WHITE, Ellen G. Patriarcas e Profetas. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2013, p. 367.
7 GULLEY, Norman R. Systematic Theology: Prolegomena. Berrien Springs: Andrews University Press, 2003, p. 254.
8 TIMM, Alberto R. Revista Sinais dos Tempos. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, agosto de 1998, p. 29.
9 CALVINO, João. Comentário sobre o Livro de Daniel. Tradução e publicação pela Editora Parakletus, 2000, p. 436.
10 PECKHAM, John C. The Doctrine of God: Introducing the Big Questions. London: T&T Clark, 2020, p. 142.
11 PECKHAM, John. God With Us: An Introduction to Adventist Theology. Berrien Springs: Andrews University Press, 2017, p. 289.
12 GULLEY, Norman R. Systematic Theology: God as Trinity. Berrien Springs: Andrews University Press, 2012, p. 412.