quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Psicólogos debatem hábito de beijar filhos na boca

Todos os dias, a imagem de uma mãe dando um "selinho" na boca da filha invade a casa de uma legião de brasileiros. No retrato que aparece na abertura da novela "Por amor", reprisada na faixa "Vale a pena ver de novo", ninguém menos do que Regina Duarte, a eterna namoradinha do Brasil, dá um afetuoso beijo em sua filha, Gabriela. Exibido pela primeira vez em 1998, o folhetim de Manoel Carlos já foi reprisado algumas vezes sem que a fotografia suscitasse debates. Mas muita coisa mudou nos últimos anos, e fotos em que pais aparecem beijando seus filhos na boca andam motivando discussões acaloradas nas redes sociais, enquanto psicólogos se dividem sobre o tema.

Um dos casos mais recentes envolveu a atriz Adriane Galisteu, que recebeu críticas nos comentários da foto de um selinho entre o marido, o empresário Alexandre Iódice, e o filho, Vittorio, de 9 anos. "Aqui a gente dá muito beijo mesmo, aqui a gente não se desgruda, aqui não temos preconceito, aqui só é bem-vindo quem ama", ela respondeu a um dos seguidores que criticaram a imagem.

Mais de duas décadas depois de "Por amor" estrear em horário nobre, Gabriela faz coro à colega de profissão. No seu caso, ela considera o uso da foto com a mãe na abertura da novela um momento marcante: "Adoro lembrar dele. Essa foto representa o puro afeto que eu e ela temos uma pela outra".

A troca de bitocas, aliás, foi transmitida entre as gerações, na família de Gabriela. "O selinho é e sempre foi liberado aqui em casa. Ele não é nada além de muito amor entre nós", diz a atriz, referindo-se aos filhos, Manuela, de 12 anos, e Frederico, de 8, frutos de seu casamento com o fotógrafo Jairo Goldfuss.

Na opinião dela, críticas como as que foram feitas à Adriane Galisteu não fazem o menor sentido. "É inacreditável sexualizar e criticar um gesto tão afetuoso entre mães, pais e filhos. Cada família tem o seu modo de ser. É apenas uma forma carinhosa de lidar. Será que essas pessoas se impressionam também com a quantidade de ódio e violência na TV aberta?", questiona.

A prática divide opiniões entre profissionais. Para o psicólogo clínico Ailton Amélio, professor aposentado da USP, o tal beijo pode causar problemas posteriores. "Na fase adulta ou na juventude, as pessoas podem vir a adquirir conceitos que as levem a condenar retroativamente o que aconteceu durante a infância. Podem se sentir violadas e ter raiva dos pais, por exemplo."

No cenário internacional, o debate também é quente. Em novembro do ano passado, o ex-jogador de futebol britânico David Beckham foi muito criticado na internet por dar um selinho na filha Harper, de 7 anos. Sem se importar com a repercussão, ele repetiu o gesto carinhoso em junho deste ano, durante um jogo da Copa do Mundo Feminina. Jogador de futebol americano e marido de Gisele Bündchen, Tom Brady também já foi clicado algumas vezes dando um selinho em seu filho Benjamin.

A discussão acontece, segundo Ailton, porque o beijo é um comportamento cultural, naturalizado de diferentes maneiras em cada sociedade. Como ele lembra, há países em que o beijo na boca entre dois homens como cumprimento é rotineiro e desprovido de carga sexual, diferente do que acontece no Brasil, por exemplo.

A psicóloga clínica infantil Maria Luiza Bustamante, professora aposentada do instituto de psicologia da Uerj, é ainda mais incisiva ao comentar o assunto: "É errado e não deve ser feito". Ela justifica a opinião com o fato de o beijo na boca ser uma prática muito sexualizada na cultura ocidental. "Não podemos prever as consequências desses beijos, já que tudo vai depender da relação entre pais e filhos. Mas há um alto risco de causar confusão na mente da criança. Na nossa cultura, o beijo na boca é erotizado. Na bochecha, não."

Já o psicólogo e pesquisador da comunicação humana da UFMG Cláudio Paixão, doutor em Psicologia Social, não considera o hábito condenável. "Tudo vai depender de como se dá a troca de afeto na família. Se o selinho é naturalizado, não o vejo como algo prejudicial. O problema, muitas vezes, está na interpretação de terceiros, que têm um olhar maldoso", discorre ele, acrescentando uma ponderação: "Devemos lembrar que uma pessoa pode pegar na mão de outra munida de uma conotação sexual muito maior do que a de um beijo na boca". 

Charlotte Reznick é professora da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, e autora do best-seller The power of your child’s imagination: how to transform stress and anxiety into joy and success. Ela disse ao site The Sun que beijar os filhos na boca deve ser evitado por ser “muito sexual”.

Ela diz que a boca é uma zona erógena e que deve-se evitar esse tipo de toque em crianças. Ela comenta que beijos podem ser “estimulantes e potencialmente confusos.” Ela acrescenta: “Se a mamãe beija o papai na boca e vice-versa, o que quer dizer quando eu, uma menina ou menino, beijo os meus pais na boca?”

Ela diz que pode ser confuso para os pais e filhos a hora de saber quando parar de beijar na boca. O site Daily Mail mostra exemplos de pais que beijam filhos adolescentes e também adultos e não veem problema nisso. O site comenta que mesmo que os filhos ou os pais não sintam que é estranho se beijar, pessoas de fora que estiverem olhando, com certeza, se sentirão constrangidas.

A psicóloga Reznick também comenta que aos 5 ou 6 anos a criança começa a ter consciência sexual e como a boca é uma zona erógena, o beijo pode ser estimulante para a criança. Ela diz que “crianças gostam de ser tocadas na testa, bochechas e mãos. Os lábios são diferentes porque há mais nervos e são mais sensíveis à estímulos.”

A psicóloga Margarida Antunes Chagas diz que beijar na boca da criança depende da idade e contexto familiar, mas ela diz que beijar na boca dos filhos é desnecessário já que há outros modos de mostrar afeição por eles, como carinhos, abraços e beijos no rosto.

Segundo a psicóloga Antunes Chagas, “(…) crianças muito pequenas talvez não percebam o selinho como algo sexualizado, mas a partir de determinada etapa do desenvolvimento, que acontece em idades diferentes entre as crianças, elas começam a perceber o beijo na boca como algo ligado ao amor romântico.”

A psicóloga Hilda Avoglia, especialista em desenvolvimento da criança e do adolescente na Universidade Metodista de São Paulo, diz que as crianças podem “associar o beijo na boca com as imagens que assistem na televisão.”

Há também os riscos de transmissão de doenças. A doutora em odontopediatria Erika Guimarães diz que “a boca é um dos locais do nosso corpo com maior número de bactérias, e algumas delas podem causar doenças, como a cárie.”

“Os adultos possuem muitas colônias de bactérias, algumas são benéficas, mas há as que provocam doenças. E quando o bebê nasce, sua boca tem pouquíssimas bactérias e seu sistema imunológico é imaturo. Ao beijar a boca do bebê, o adulto pode transmitir, além de bactérias, vírus e fungos”, afirma Érika. 

(Com informações de O Globo e Família)

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