segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

PECADORES SEM INTERCESSOR?

Ellen White, cofundadora da Igreja Adventista, fez uma série de declarações teológicas importantes sobre o término da mediação de Cristo em favor dos pecadores no santuário celestial, pouco antes de Seu retorno em glória à Terra (Primeiros Escritos, p. 280; O Grande Conflito, p. 425; Patriarcas e Profetas, p. 201).

Na interpretação de alguns, isso significa que os crentes viverão durante o tempo de angústia sem acesso à graça. Essa interpretação provoca medo e até ansiedade, pois destrói a certeza da salvação. Além disso, coloca a ênfase nas realizações humanas, deixando de lado a justificação pela fé. Porém, um olhar mais detalhado para as declarações sobre o tema feitas pela pioneira adventista indica que, durante o tempo de angústia futuro, o povo de Deus poderá ainda confiar no poder expiatório da cruz de Jesus.

CORREÇÃO DE EQUÍVOCOS
É importante começar destacando que Ellen White não falou sobre o que irá acontecer depois de Cristo concluir Sua obra mediadora no Céu. Primeiro, ela não declarou em nenhum de seus escritos que o povo de Deus não terá mais que lutar contra sua natureza pecaminosa. Ao contrário, ninguém poderá dizer que está sem pecado até ser transformado por ocasião do retorno de Cristo (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 355).

Em segundo lugar, ela não disse que, quando Cristo completar Seu trabalho no Céu, o manto de Sua justiça imputada será removido do crente. Terceiro, ela não afirmou que Cristo e o Espírito Santo abandonarão o povo de Deus, nos deixando a sobreviver por conta própria no fim do tempo do fim. Em vez disso, Ellen White escreveu que Deus estenderia “uma cobertura sobre Seu povo, a fim de protegê-lo no tempo de angústia”, e que cada pessoa que se decidir pela verdade será “coberta com a proteção do Todo-poderoso” (Primeiros Escritos, p. 43). Ou seja, nesse período, Cristo ainda continuará a oferecer aos Seus seguidores fiéis perdão pleno e justificação completa (O Grande Conflito, p. 484).

A EXPERIÊNCIA DO POVO DE DEUS
Quando Cristo concluir Sua intercessão no santuário celestial, o Espírito Santo não trabalhará mais pela conversão dos ímpios. Eles serão abandonados nas mãos de Satanás, castigados pelas sete últimas pragas e Satanás tentará exterminar o povo de Deus (Primeiros Escritos, p. 279, 280).

Nesse período futuro, o povo remanescente de Deus passará por um período de angústia. Pelo fato de se sentirem abandonados por Deus, os fiéis estarão preocupados com sua indignidade espiritual e temerão ser exterminados (O Grande Conflito, p. 616-619). Contudo, Deus usará essa experiência para refiná-los. Depois de passarem por esse fogo da provação, a imagem de Cristo se refletirá perfeitamente no povo de Deus (p. 621).

Nesse contexto, os filhos de Deus clamarão dia e noite por livramento. Satanás se aproveitará dessa fragilidade para insinuar que eles não têm esperança, pois acumulam muitos pecados. E é isso que eles constatam ao revisar a própria consciência: pouco fizeram de bem e estão convictos de sua indignidade (p. 618, 619).

No entanto, eles escolhem confiar no sacrifício expiatório de Cristo. Assim como Jacó exercitou confiança no meio do desespero, nada poderemos fazer a não ser confiar “nos méritos do Salvador crucificado e ressuscitado. Ninguém jamais perecerá enquanto fizer isso”, garante a profetisa em Patriarcas e Profetas, p. 203.

Preste bastante atenção: embora “os únicos que serão encontrados fiéis” são “os que preferem antes morrer a praticar um ato errôneo” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 53), não é a perfeição de caráter deles que lhes garantirá a salvação e a vitória. Somente a morte substitutiva de Cristo – o evangelho eterno – pode fazer isso por eles.

Os salvos encontrarão refúgio no Cordeiro que foi morto por eles (Ap 14:1). O senso de indignidade permanecerá com eles até a segunda vinda de Cristo, quando exclamarão: “Quem poderá subsistir?” Porém, Jesus lhes responderá: “A Minha graça é o que basta para você” (O Grande Conflito, p. 641). A graça ainda estará disponível para o povo de Deus durante o tempo de angústia, o que significa que o sacrifício expiatório de Cristo por ele continuará válido nesse período.

PERFEIÇÃO CRISTÃ
Nos escritos de Ellen White encontramos também orientação de como nos preparar para o tempo de angústia. Sobre essa questão, ela se refere à perfeição cristã como a obra de “afastamento do pecado”, o que para ela era a obra “mais claramente apresentada nas mensagens do capítulo 14 de Apocalipse” (O Grande Conflito, p. 425).

Ellen White entendia afastamento do pecado como justificação pela fé e obediência aos mandamentos de Deus (Manuscript Releases, v. 12, p. 193). O objetivo de Deus com esse processo é preparar Seu povo e o mundo para a segunda vinda de Cristo (O Grande Conflito, p. 435).

Portanto, nesse contexto, a perfeição cristã consiste na submissão diária da nossa vontade à vontade de Deus, numa atitude de confiança constante na graça divina (1Jo 2:1, 2). Não é o objetivo da busca pela perfeição cristã capacitar-nos para sermos vitoriosos sem a mediação de Cristo no futuro, mas tornar-nos mais semelhantes a Jesus, pelo poder do Espírito, e mais útil ao próximo hoje. Definitivamente, nossa salvação não é uma obra nossa, mas o resultado do sacrifício substitutivo e suficiente de Cristo.

Ángel Manuel Rodríguez (via Revista Adventista)

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