quinta-feira, 20 de março de 2025

ADOLESCÊNCIA

Recém lançada na Netflix, a minissérie "Adolescência" lidera a lista de séries mais vistas da plataforma no Brasil com uma história perturbadora. Em uma noite tranquila, a polícia invade a casa da família de Jamie Miller (Owen Cooper) e prende o garoto de 13 anos pelo assassinato de uma colega de classe. Dividida em quatro episódio gravados em plano sequência (quando não há cortes entre as cenas), a produção revela como o crime vira de ponta cabeça a vida da família. 

Com uma narrativa densa e provocativa, a obra convida o público a refletir sobre as dinâmicas familiares, a vulnerabilidade dos jovens e os desafios da comunicação entre pais e filhos. A série não apenas expõe as dificuldades enfrentadas pelos adolescentes, mas também escancara o impacto das escolhas, ou da falta delas, dos adultos ao seu redor.

“PAI, VOCÊ NÃO ESTÁ ENTENDENDO. VOCÊ ESTÁ PERDIDO.”
Essa frase dita pelo adolescente Adam, filho do policial Luke Bascombe, é um dos momentos mais impactantes da minissérie. Ela traduz a desconexão entre adultos e adolescentes, tema central da obra. O que acontece quando os adultos acreditam que estão no controle, mas, na realidade, estão perdidos em relação ao que seus filhos sentem, pensam e vivenciam? Adolescência não busca oferecer respostas prontas, mas sim levantar questionamentos profundos sobre essa fase da vida. 

UMA NARRATIVA QUE PROVOCA E DESAFIA EXPECTATIVAS
A minissérie conta a história de Jamie, um garoto de 13 anos acusado de cometer um crime chocante. Desde o início, a narrativa conduz o público a um jogo de percepção: Jamie é franzino, branco, aparentemente um “bom moço”. Sua fragilidade é enfatizada em cenas impactantes, como quando urina nas calças no início da série, evidenciando o medo e a vulnerabilidade. Esse conjunto de elementos desperta no espectador uma inclinação à empatia, gerando a esperança de que ele seja inocente.

Ao longo dos episódios, no entanto, a série vai desconstruindo essa visão inicial. Não existem respostas simples, e os personagens são apresentados de maneira complexa e multifacetada. Jamie representa muito mais do que um adolescente específico: ele é um símbolo da adolescência negligenciada, das dores silenciadas, da dificuldade em se expressar e da falta de espaço seguro para que os jovens sejam ouvidos.

O PAPEL DA ESCOLA E A SOCIEDADE QUE JULGA
O ambiente escolar é um dos cenários centrais de "Adolescência", e a série faz questão de mostrar como a escola falha em proteger seus alunos. O bullying está presente em toda parte, e não apenas Jamie sofre com isso. Katie Leonard, a própria vítima do crime, também era alvo de ataques constantes e, além disso, sofreu sexting, tendo uma foto íntima exposta e ridicularizada, um retrato cruel da misoginia na sociedade.

Ao mesmo tempo, os professores se mostram completamente despreparados para lidar com essas questões. A falta de intervenção eficaz transforma a escola em um espaço onde o sofrimento é normalizado e os problemas dos alunos são ignorados até que se tornem graves demais para serem contornados.

E então surge a sociedade que julga. Os pais de Jamie passam a ser condenados e rotulados. A irmã também carrega o peso de um sobrenome que agora se tornou um estigma. Mas a grande ironia é que as mesmas pessoas que apedrejam essa família, que se perguntam “como não viram?”, são aquelas que também fecham os olhos para o que acontece dentro de seus próprios lares.

A REFLEXÃO BRUTAL DOS PAIS: ATÉ ONDE PODERIAM TER EVITADO?
Um dos momentos mais emocionantes da série é a reflexão dos pais de Jamie. O pai admite que sofreu violência doméstica na infância e quis criar o filho de uma maneira diferente. A mãe lembra que sempre tentaram oferecer o melhor: um quarto bem montado, um videogame, conforto. Mas, ao mesmo tempo, confessa que notava que o filho passava cada vez mais tempo isolado no quarto. E ela não viu problema nisso.

O pai se lembra da cena em que não conseguiu olhar para o filho, quando ele não atendeu às expectativas por não ser bom nos esportes. Ele também admite que, mesmo vendo o vídeo, não quis acreditar, não soube lidar.

E quantos pais não fazem o mesmo? Acreditamos que o perigo está nos grandes sinais: nas explosões de raiva, nas agressões físicas, nos comportamentos que fogem completamente da normalidade. Mas e as pequenas coisas? Os silências prolongados, os afastamentos sutis, as mudanças imperceptíveis no comportamento?

A grande lição de "Adolescência" é que é preciso equilibrar responsabilidade e auto-perdão. Sim, os pais concluem que poderiam ter feito mais. Mas também precisam aceitar que não existe uma fórmula perfeita para criar um filho e que, muitas vezes, os sinais de alerta são quase invisíveis.

O IMPACTO DA PSICÓLOGA E A IMPORTÂNCIA DO TRABALHO PROFISSIONAL
Outro ponto forte da série é a relação entre Jamie e a psicóloga, Dra. Briony Ariston. Essa cena é fundamental porque mostra como um profissional bem preparado pode acessar as verdades que estão escondidas sob camadas de silêncio e autodefesa.

Jamie chega a comparar o trabalho da psicóloga com o de outro profissional que o atendeu anteriormente, mencionando que “ele não fazia perguntas difíceis”. Essa diferença é crucial: enquanto um apenas tocava na superfície, o outro realmente conseguiu penetrar nas camadas emocionais do adolescente, criando um espaço onde ele, finalmente, se abriu.

E isso levanta uma questão importante: quantos profissionais estão realmente preparados para lidar com adolescentes? Quantos conseguem sair da trivialidade e mergulhar nos dilemas dessa fase da vida?

A VIDA SEGUE, MAS O QUE MUDAMOS COM ISSO?
A série termina sem um desfecho fechado porque a vida continua. Os policiais seguirão fazendo seu trabalho. Os pais precisarão encontrar um jeito de seguir em frente e reconstruir sua família. A irmã de Jamie precisará lidar com o peso do que aconteceu. A sociedade seguirá julgando, e a maioria das pessoas continuará não enxergando o que acontece dentro de suas próprias casas. E fica o questionamento final: será que vamos aprender algo com essa reflexão? Ou apenas assistiremos à série "Adolescência" e deixaremos tudo seguir como sempre foi?

Deixo aqui algumas advertências de Ellen G. White para refletirmos sobre esse tema tão desafiador:

"É impossível descrever os males que resultam de deixar a criança entregue à sua própria vontade. Alguns que se extraviam porque são negligenciados na infância, mais tarde, incutindo-se-lhes lições práticas, voltarão a si, mas muitos se perdem para sempre porque na infância e juventude receberam apenas uma cultura parcial, unilateral" (Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, p. 112).

"A má influência em torno de nossos filhos é quase avassaladora; ela lhes está corrompendo a mente e arrastando-os à perdição. Pais e mães muitas vezes deixam os filhos escolher seus próprios entretenimentos. Se se deseja formar hábitos corretos e estabelecer retos princípios, há uma fervente obra a ser feita. Se se deseja corrigir hábitos errôneos, requer-se na realização da tarefa diligência e perseverança" (O Lar Adventista, p. 466).

"Os filhos não devem ser deixados a vagar pelos caminhos a que estão acostumados, a penetrar nas avenidas que se abrem por todos os lados, afastando-se do caminho reto. Ninguém está em tão grande perigo como os que não reconhecem qualquer perigo e não têm a paciência da cautela e do conselho" (Testemunhos para a Igreja 5, p. 545).

"É obra especial de Satanás nestes últimos dias, tomar posse da mente dos jovens, corromper os pensamentos e inflamar as paixões, pois sabe que assim fazendo, pode levar a ações impuras, e assim se tornarão vis todas as nobres faculdades da mente, e ele poderá dirigi-las para satisfazer aos seus próprios propósitos" (Orientação da Criança, p. 287).

"Pais que têm negligenciado as responsabilidades que Deus lhes deu, terão de enfrentar essa negligência no juízo. O Senhor inquirirá: 'Onde estão os filhos que vos entreguei para os educardes para Mim? Por que não estão a Minha mão direita?' Muitos pais verão então que o amor irrazoável cegou-lhes os olhos para as faltas de seus filhos e deixou que estes adquirissem caráter deformado, inadequado para o Céu. Outros verão que não deram a seus filhos tempo e atenção, amor e bondade; sua própria negligência do dever fez dos seus filhos o que são" (Conselhos sobre Educação, p. 38).

"A juventude de hoje é um indicativo certo do futuro da sociedade e, ao vê-la, que podemos esperar desse futuro? Os jovens, em geral, não são educados a formarem hábitos de diligência. As cidades e até as povoações rurais estão tornando-se como Sodoma e Gomorra, e como o mundo nos dias de Noé. A disciplina dos jovens naqueles dias era semelhante à forma em que as crianças estão sendo educadas e disciplinadas nesta época, a saber: amar a excitação, glorificar a si mesmas e seguir após a imaginação de seu perverso coração. Agora, como naquele tempo, a depravação, a crueldade, a violência e o crime são os resultados. Que se deve fazer para salvar a nossos jovens? Nós podemos fazer pouco, mas Deus vive e reina, e Ele pode fazer muito" (Fundamentos da Educação Cristã, p. 317).

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