sexta-feira, 25 de abril de 2025

CONVERSÃO

Mudança súbita, como ocorreu com o apóstolo Paulo, ou transformação gradual, como aconteceu com o discípulo Pedro, a conversão é um fenômeno marcante. Experiência de deslocamento, Céu e Terra atuando juntos, psicologia e teologia interagindo, individualidade e comunidade marcando presença, trata-se de um evento que divide a vida em antes e depois.

Lewis Rambo, autor do livro Understanding Religious Conversion (Yale University Press, 1993), escreve: “A conversão é paradoxal. É elusiva. É inclusiva. Ela destrói e salva. É súbita e gradual. É originada totalmente pela ação de Deus e criada totalmente pela ação dos humanos. É pessoal e comunal, particular e pública. É passiva e ativa. É um afastamento do mundo. É uma resolução de conflito e uma capacitação para ir ao mundo e enfrentar, ou criar, conflito. É um evento e um processo. É o fim e o começo. É definitiva e aberta. A conversão nos deixa devastados – e transformados.”

Apesar desses tons sociológicos e psicológicos, a conversão tem um caráter essencialmente religioso e sobrenatural. Ela envolve a mudança de cosmovisão (modo de pensar) e a transformação real da vida, o que afeta a identidade, as afeições, as atitudes, os costumes, os relacionamentos, os motivos, os interesses, as prioridades e o destino da pessoa.

Para Ellen White, a verdadeira conversão é mais do que mero sentimento ou um turbilhão emocional (Mensagens aos Jovens, p. 71). O primeiro passo é a convicção da real condição de pecado e da transgressão da lei (1888 Materials, p. 130). Não é apenas um evento e, portanto, precisamos de uma nova conversão cada dia (Testemunhos Para a Igreja, v. 1, p. 699). Essa “mudança só pode ser feita pelo Espírito Santo” (Nos Lugares Celestiais, p. 20) e envolve a pessoa toda. É uma “transformação do coração, um volver-se da injustiça para a justiça” (Nos Lugares Celestiais, p. 20), uma “mudança radical” (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p. 17), uma “transformação do caráter” (Testimonies to Southern Africa, p. 30)

Exatamente por ser uma mudança tão radical que a conversão não é simplesmente o que a maioria de nós acredita ser. Alguns acham que conversão é fazer parte de uma igreja, assumir um novo credo ou mesmo adotar novos comportamentos. Acontece que “conversão” é algo que acontece na mente e que afeta a vida inteira. Ellen White diz que "a ligação a uma igreja não substitui a conversão. A aceitação do credo de uma igreja não tem valor algum para quem quer que seja se o coração não estiver verdadeiramente transformado" (Evangelismo, p. 290).

É uma mudança desequilibrante de nossa visão de mundo. Adotar novos comportamentos, regras, ou uma nova fé mantendo a mesma leitura e visão do mundo não é e nem nunca foi conversão. A conversão questiona tudo e reverte muita coisa. Nossas crenças mais fundamentais, aprendidas na escola e ensinadas por nossos pais ou o ambiente em que crescemos são totalmente questionadas e sofrem escrutínios profundo dessa nova visão de mundo. Ellen White diz que "a conversão de almas a Deus é a obra mais grandiosa, a obra mais elevada em que os seres humanos podem empenhar-se" (Carta 121, 1902).

Não são à toa as palavras de Romanos 12:2 nos solicitando uma transformação que só ocorre com a renovação de nossa mente. Renovação da mente. Portanto, uma mudança de cosmovisão como essa que estamos falando não pode ocorrer de maneira formal, ela não ocorre em uma simples classe de estudos, nem em um estudo sistemático das doutrinas um certo número de vezes na semana ou no mês. Veja como Cristo fez com Seus discípulos. “Chamou os doze para estarem com Ele” (Mc 3:14). Você não vai encontrar Jesus dando aulas de teologia, você vai encontrar Jesus ensinando com Sua própria vida à medida que convive com eles.

É claro que isso é muito mais trabalhoso, é claro que toma mais tempo e exige muito mais envolvimento. Mas só a amizade e o contexto podem ajudar alguém a verdadeiramente mudar sua maneira de enxergar a vida. É vendo a visão de mundo de outro que transformamos a nossa.

Compreender isso pode mudar completamente a maneira como entendemos a nossa conversão e a dos outros. Para mim isso indica que me conformar exteriormente com a fé não resolve nada. Indica que Cristo é a transformação completa e absoluta dos meus conceitos mais primitivos, pessoais e que muitas vezes, são conceitos que carrego como certezas. Entender isso me diz que preciso ser outro, completamente outro, depois de começar a seguir a Cristo.

Há uma outra coisa que pode mudar alguém de uma cosmovisão para a outra, um acontecimento drástico e profundo, normalmente envolvendo muito sofrimento. A amizade cristã e o envolvimento dedicado, amoroso e real pode substituir com muito mais eficiência a capacidade didática do sofrimento. Ellen White diz que "nem todos estão constituídos da mesma maneira. Nem todas as conversões são iguais. Jesus impressiona o coração, e o pecador renasce para viver vida nova. Amiúde as almas são atraídas para Cristo sem que ocorra uma manifestação violenta, nem dilaceramento de alma, nem terrores de remorsos" (Carta 15a, 1890).

Os motivos para a conversão podem ser muitos, como retomar a herança religiosa familiar, aderir a novas verdades, resolver uma crise, mudar o roteiro pessoal e encontrar um novo propósito. Porém, o mais legítimo é o reconhecimento do estado de pecado e a necessidade de salvação. 

Finalizo com este maravilhoso texto de Ellen White: 

"A conversão é uma obra que a maioria das pessoas não aprecia. Não é coisa pequena transformar um espírito terreno, amante do pecado, e levá-lo a compreender o inexprimível amor de Cristo, os encantos de Sua graça, e a excelência de Deus, de maneira que a alma seja possuída de amor divino, e fique cativa dos mistérios celestes. Quando a pessoa compreende estas coisas, sua vida anterior parece desagradável e odiosa. Aborrece o pecado; e, quebrantando o coração diante de Deus, abraça a Cristo como a vida e alegria da alma. Renuncia a seus antigos prazeres. Tem mente nova, novas afeições, interesses novos e nova vontade; suas dores e desejos e amor, são todos novos. A concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida até então preferidas a Cristo, são agora desviadas, e Cristo é o encanto de sua vida, a coroa de seu regozijo. O Céu, que dantes não possuía nenhum atrativo, é agora considerado em sua riqueza e glória; e ele o contempla como sua futura pátria, onde ele verá, amará e louvará Aquele que o redimiu por Seu precioso sangue.

As obras da santidade, que se lhe afiguravam enfadonhas, são agora seu deleite. A Palavra de Deus, anteriormente pesada e desinteressante, é agora escolhida como estudo, como o homem do seu conselho. É como uma carta a ele escrita por Deus, trazendo a assinatura do Eterno. Seus pensamentos, palavras e atos, são comparados com esta regra e provados. Treme aos mandamentos e ameaças que ela contém, ao passo que se apega firmemente às suas promessas, e fortalece a alma aplicando-as a si mesmo. Prefere agora o convívio dos mais piedosos, e os ímpios, cuja companhia antes apreciava, já não lhe causam mais deleite. Lamenta-lhes os pecados que dantes o faziam rir. O amor-próprio e a vaidade, ele renuncia, e vive para Deus, e é rico em boas obras. Eis a santificação exigida por Deus. Nada menos que isto aceitará Ele" (Testemunhos Seletos, vol. 1, pp. 253-255).

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