sexta-feira, 30 de maio de 2025

AMOR NA ERA DO GELO

Vivemos numa verdadeira era do gelo nas relações humanas, uma crise de indiferença mortal. O individualismo extremo se revela numa profunda falta de amor ao semelhante, reflexo da ausência do amor de Deus no coração. Esse frio humano, oposto ao calor humano, se manifesta todos os dias nos assustadores índices de violência no lar, nas ruas, no choque entre culturas, religiões e países.

Quando Cristo olhou para nosso tempo, não poderia dar um diagnóstico mais preciso: “E, por se multiplicar a iniquidade [anomian], o amor [agapē] se esfriará de quase todos [pollōn, “muitos”] (Mateus 24:12). O Salvador não só antecipou nossa era do gelo, mas explicou sua causa. O amor-princípio, de origem divina (agapē) se esfriaria quanto mais se multiplicasse a iniquidade (anomia). Mas o que é anomia? O termo ocorre 14 vezes no Novo Testamento e, em 11 delas, é traduzido como “iniquidade”, e nas três restantes, como “maldade” (duas vezes em Romanos 6:19,) e como “transgressão da lei” (1 João 3:4). A passagem de 1 João é esclarecedora, pois a tradução é determinada pela etimologia da palavra grega anomia (a = “não”, “contra”; nomos = “lei”). Se a essência da lei está no amor a Deus e ao semelhante (Marcos 12:28-31), a essência da iniquidade se revela na rejeição à lei do amor.

Na primeira mensagem às sete igrejas do Apocalipse, lemos um forte chamado de retorno ao “primeiro amor”. “Tenho, porém, contra ti que abandonaste [afekas] o teu primeiro amor [agapen… proten]” (Apocalipse 2:4). Apesar de serem elogiados por Cristo por suas obras, labor, perseverança, zelo doutrinário e resistência diante das maiores provações, os efésios tinham perdido seu “primeiro amor”. Note que eles não estavam no processo de perder, ou quase perdendo, mas já o haviam perdido, como indicam os tempos verbais de “abandonar”, tanto no grego (aoristo) quanto na tradução (pretérito perfeito), que expressam uma ação acabada. É possível que, na luta contra “lobos vorazes”, com seus falsos ensinos, os efésios tinham perdido de vista o mais importante. O problema não era tanto uma corrosão teológica, mas uma perda de essência.

Os cristãos da capital da Ásia Menor haviam recebido a mensagem do evangelho de braços abertos, mas após algumas décadas sua religião estava se tornando “legalista e sem amor”[1]. Talvez, a pressão dos falsos ensinadores tenha desviado o coração de alguns membros e gerado um clima faccioso na Igreja.[2] Na luta contra os falsos ensinos, a Igreja se esqueceu de viver os verdadeiros. Perdeu de vista o agapē, o amor-princípio que vem de Deus – o mesmo tipo de amor mencionado por Jesus e por João, como vimos. Os efésios não tinham perdido apenas o amor que vem de Deus, mas estavam perdendo o amor a Ele e, sem dúvida, o amor tanto pelos de dentro quanto pelos de fora.

A situação particular daquela igreja representava o quadro maior do fim da primeira e mais pura fase do cristianismo: uma igreja fervorosa, doutrinariamente saudável, mas que, ao fim do primeiro século, dava mostras de fadiga. Tinha algum amor, mas não como o “primeiro”. Seu amor a Deus e a Cristo estava se arrefecendo. Em relação aos últimos contemporâneos de Jesus, João entre eles, as novas gerações de cristãos deixavam a desejar.

Cristo, então, vai direto ao ponto: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Apocalipse 2:5). Três verbos marcam o conselho de Jesus, que serve muito bem para nós, hoje: (1) A igreja precisa se lembrar em que ponto de sua jornada espiritual perdeu seu primeiro amor; (2) também deve se arrepender de seu desvio; e (3) tem que voltar “à prática das primeiras obras”. O amor tem que ver com ação, com a prática de boas obras (Efésios 2:10; Tito 2:7, 14; 3:8; Hebreus 10:24; 1 Pedro 2:12) e não só com teorias ou belos discursos vazios de atitude.

Dias atrás visitei parentes que não pertencem à nossa fé, de uma forma especial: pregando numa igreja próxima da casa deles. Vários foram ao culto e apreciaram a mensagem de exortação e consolo. À tarde, pude visitar alguns desses parentes e conversar com eles. José, um primo que tem paixão pela natureza e pela fé cristã, tinha acabado de chegar de um trabalho em favor de moradores de rua do centro de São Paulo. Ele e um grupo de sua igreja cortam os cabelos e fazem a barba dos moradores de rua, levam-lhes alimentos, limpam suas feridas e aplicam curativos, entre outros serviços.

Naquele dia frio, José me contou que haviam sido pegos de surpresa por uma chuva. Porém, ele compartilhou algo marcante: “Diogo, não sou muito da liturgia; gosto mais de ajudar as pessoas”. José estava onde muitos de nós deveríamos estar. Nossa profissão de fé e adoração se tornam genuínas quando são o clímax da celebração de uma vivência cristã em amor ao longo da semana.

Se a igreja do primeiro século precisava voltar ao primeiro amor, a igreja da era do gelo moral, muito mais. Embora muitas pregações e iniciativas sejam louváveis, precisamos da rara combinação entre uma doutrina sadia, fundamentada na Bíblia, associada a uma fé genuína e impulsionada ao amor prático. As características do povo de Deus nos últimos não se resumem na pregação dos verdadeiros mandamentos de Deus e a fé em Jesus, mas na prática da lei (Apocalipse 12:17; 14:12). Só o amor divino em corações humanos pode aquecer pessoas em meio ao individualismo congelante deste mundo. A iniquidade esfria o amor de muitos, mas não de todos.

Diogo Cavalcanti (via Apocalipses)

[1] Stefanovic, Ranko, Revelation of Jesus Christ. 2 ed. Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2009, p. 118.

[2] Nichol (ed.), Francis D. Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, vol. 7, p. 823.

quinta-feira, 29 de maio de 2025

HATERS

O prego não nasceu pra cooperar. Nem trabalhar em grupo. Basta um pra furar, rasgar e estragar qualquer boa noite de sono. Mas se você colocar milhares de pregos lado a lado numa cama, ninguém se fere. O peso se distribui. A perfuração perde força. E o veneno do prego isolado evapora quando ele está cercado. Moral da história? O crítico feroz e ferino só perfura quando está sozinho. Quando ganha palco. Quando é o único prego da narrativa. Quando é exaltado por quem só ouve marteladas.

Haters, perseguidores, invejosos e linguarudos se alimentam do microfone que você entrega. Da resposta que você dá. Da importância que você confere. Mas coloque-os juntos na aglomeração da irrelevância e verá que viram espuma no oceano de quem sabe seu destino. Gosto disso: quem sabe pra onde vai, nem pisca. Nem para. Nem abaixa. Nem cutuca onça com vara de likes.

Neemias ouviu zombarias, insinuações, ciladas, fake news, mas não saiu do muro (Ne 6:3). Elias enfrentou sozinho 450 críticos no Carmelo (1Rs 18:22), e ainda assim ficou em pé, enquanto o fogo caiu do céu. Jesus foi cuspido, caluniado, açoitado e mesmo assim não respondeu uma palavra (Is 53:7). Porque quem tem missão, não tem tempo pra picuinha.

E sabe por quê? Porque um leão não responde miado de gato. Um obreiro não se distrai com sombra. Um crente não vive à base de comentários alheios. Deus é o teu juiz, e não os júris populares das redes sociais. Pois a verdade sempre é mais paciente que a mentira.

Ignore o prego isolado que tenta furar seu ânimo. Ele só machuca se você deitar nele. E mais: nunca se esqueça que quanto mais alto o avião, menor o barulho que se ouve lá de baixo. Continue voando. Os latidos vêm do chão. Você, não. Você já aprendeu a resistir. Persistir. Construir. E deixar os vira-latas latindo no acostamento, enquanto segue firme na direção do Céu.

Odailson Fonseca (via instagram)

Fiquemos também com estes dois conselhos inspirados de Ellen G. White:

"Enquanto estivermos no mundo, encontraremos influências adversas. Haverá provocações para ser provada a nossa têmpera; e é enfrentando-as com espírito reto que as virtudes cristãs são desenvolvidas. Se Cristo habitar em nós, seremos pacientes, bondosos e indulgentes, alegres no meio das contrariedades e irritações. Dia após dia, e ano após ano, vencer-nos-emos a nós próprios e cresceremos num nobre heroísmo. Tal é a tarefa que sobre nós impende; mas não pode ser cumprida sem o auxílio de Jesus, firme decisão, um alvo bem determinado, contínua vigilância e oração incessante" (A Ciência do Bom Viver, p. 487).

"Se o inimigo nos perturba de manhã, ou durante o dia, lembremo-nos dessas preciosas promessas, e não permitamos que nos sobrevenha a irritação. Lembremo-nos de que somos representantes de Cristo e que não devemos, por palavra ou ato, ofendermos uns aos outros. Mas tereis tentações até o fim do tempo. Portanto, necessitais manter-vos em íntima companhia com Cristo. Se deixardes de revidar quando fordes provocados por outros, vós os surpreendereis. E se repetidamente preservardes vossa dignidade sob provocação, eles reconhecerão que estais em ligação com um Poder mais elevado. Isso honra a Deus que deu Seu Filho Unigênito para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (Manuscrito 55, 1909).

quarta-feira, 28 de maio de 2025

600 DIAS DA GUERRA NA FAIXA DE GAZA

O conflito entre Israel e Palestina, uma das questões mais complexas e persistentes da geopolítica contemporânea, atravessa décadas de tensões e confrontos. Desde o fim do Mandato Britânico na Palestina e a subsequente criação do Estado de Israel em 1948, essa região tem sido palco de conflitos intermináveis e mudanças significativas. 

Portanto, é crucial refletir sobre os eventos que continuam a influenciar o presente e o futuro de Israel e da Palestina. A guerra de Israel contra o Hamas em Gaza completa 600 dias nesta quarta-feira (28). Também referido como conflito Israel-Gaza ou conflito israelo-palestino de 2023, começou em 7 de outubro após um ataque terrorista coordenado por vários grupos militantes palestinos contra cidades israelenses, passagens de fronteira, instalações militares adjacentes e colonatos civis nas proximidades da Faixa de Gaza, no sul de Israel.

Descrito como uma Terceira Intifada por alguns observadores, as hostilidades foram iniciadas por um bombardeio de mísseis contra Israel e incursões transportadas em veículos para o território israelense, tendo sido realizados vários ataques contra os militares israelenses, bem como contra as comunidades civis israelenses. A retaliação israelense com bombardeios e incursões militares contra Gaza foi chamada de Operação Espadas de Ferro.

O ataque foi liderado por grupos militantes palestinos, incluindo o Hamas, a Jihad Islâmica e a Frente Popular para a Libertação da Palestina, com o apoio do Irã. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, apoiou verbalmente o levante, afirmando que os palestinos tinham o direito de se defenderem contra a ocupação israelense. 

O Coordenador Especial das Nações Unidas para o Processo de Paz no Oriente Médio, a União Europeia e muitos países membros expressaram condenação dos ataques e disseram que Israel tinha o direito à autodefesa. Pelo menos 2.200 mísseis foram disparados da Faixa de Gaza nas primeiras horas enquanto militantes do Hamas violavam a barreira Israel-Gaza, matando pelo menos 200 israelenses e levando o governo de Israel a declarar estado de emergência; o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que Israel "está em guerra" em um discurso nacional após o início dos ataques. Militantes palestinos que se infiltraram em Israel invadiram vários kibutz ao redor da Faixa de Gaza e da cidade israelense de Sderot, com fontes da mídia palestina e israelense relatando que soldados e civis israelenses haviam sido feitos reféns.

Após expulsar os guerrilheiros palestinos de seu território, Israel lançou uma intensa campanha de bombardeios e invadiu a Faixa de Gaza em 27 de outubro (vinte dias após o início dos ataques palestinos) com o objetivo declarado de destruir o Hamas e libertar os reféns. As forças israelenses lançaram inúmeras campanhas durante a invasão, incluindo a ofensiva de Rafah em maio de 2024, três batalhas travadas ao redor de Khan Yunis e o cerco ao norte de Gaza em outubro de 2024, e assassinaram líderes do Hamas dentro e fora de Gaza. A intensidade dos bombardeios israelenses chocou a opinião pública internacional, enquanto o mundo se dividia entre os que apoiavam o direito do Estado Israelense de se defender e aqueles que afirmavam que a matança era desproporcional e desnecessária. Um cessar-fogo temporário em novembro de 2023 foi rompido e um segundo cessar-fogo em janeiro de 2025 também não perdurou, sendo interrompido por um ataque surpresa de Israel em março de 2025.

Vários países do mundo ocidental e seus aliados condenaram o Hamas pela violência e chamaram as táticas utilizadas pela organização de "terrorismo"; enquanto vários países do mundo muçulmano culparam a ocupação israelense dos territórios palestinos e a negação da autodeterminação palestina como a causa da escalada da violência. A Anistia Internacional condenou tanto o Hamas quanto Israel pela conduta da guerra. 

O conflito produziu uma grave crise humanitária no território de Gaza, causando entre 60 mil e 70 mil mortos e mais de cem mil feridos palestinos, incluindo milhares de mulheres e crianças, destruição maciça de infraestrutura e habitações, quase dois milhões de pessoas desalojadas de suas casas, desabastecimento generalizado de energia, combustível e medicamentos, destruição de hospitais e serviços sanitários, 95% da população perdeu o acesso à água de boa qualidade e a fome atingiu virtualmente 100% da população. Segundo oficiais das Nações Unidas, "a crise humanitária em Gaza é mais do que catastrófica, e piora a cada dia. Nos três meses desde o início do conflito, Gaza tornou-se um lugar de morte e desespero". No lado israelense cerca de 1195 pessoas morreram e 500 mil foram desalojadas.

Conflito de origem bíblica
O conflito que se abate entre Israel e Palestina tem origem bíblica. Desde que Ismael nasceu, houve desconforto na casa de Abraão. Desde que Isaque nasceu, depois de Ismael, há conflito entre eles e os povos que deles descenderam.

Reza o Velho Testamento que Abraão recebeu de Deus, por volta dos 75 anos de idade, o chamado para se mudar de mala e cuia para os rincões de Canaã, com a promessa de que seus descendentes dariam origem ali a uma grande nação (Gn 12:1-5). Dez anos depois, porém, já estabelecido na nova terra, o longevo migrante ainda não havia conseguido gerar a tão esperada prole (Gn 15:1-6). Sara, a esposa, o instigou a desposar sua serva, a egípcia Hagar, para fazer valer o desígnio divino – união que produziu o menino Ismael (Gn 16). Ellen G. White diz: "A poligamia se tornara tão espalhada que deixara de ser considerada como pecado; mas nem por isso deixava de ser uma violação da lei de Deus, e era de resultado fatal à santidade e paz na relação da família" (Patriarcas e Profetas, p. 145).

Quando o rapagote completava seu 13º aniversário, Abraão, já com 99 anos, teve outro encontro com Deus, que reiterou a promessa feita anteriormente e garantiu que a posteridade de Abraão sairia das entranhas de Sara (Gn 17:15-19). Dito e feito: no ano seguinte veio ao mundo Isaque, filho do centenário porém fecundo patriarca (Gn 21:1-3).

Na festa de apresentação de Isaac, contudo, Sara viu o primogênito zombando do caçula, e ordenou ao marido que expulsasse Agar e Ismael de seus domínios. A ideia de desterrar o sangue do seu sangue não agradou a Abraão, que apenas levou a cabo a ação por ter a garantia de Deus que seu filho com a escrava também teria um destino fabuloso, iniciando outra grande nação. Assim, fornecendo um pão e um odre de água a Hagar e Ismael, o patriarca mostrou-lhes o caminho da rua logo na manhã seguinte (Gn 21:8-21). Ambos erraram por algum tempo pelo deserto da Bersabéia, até que Ismael se fixou no deserto da Arábia, produzindo doze filhos – as doze tribos ismaelitas, ancestrais do povo árabe (Gn 25:12-18). Ellen G. White comenta: "Em seus últimos dias, Ismael arrependeu-se de seus maus caminhos, e voltou ao Deus de seu pai; mas permaneceu o cunho de caráter dado à sua posteridade. A poderosa nação que dele descendera foi um povo turbulento, gentio, que sempre foi um incômodo e aflição aos descendentes de Isaque" (Patriarcas e Profetas, p. 174).

Do outro lado da família, em Canaã, seu irmão Isaque teve como prole Esaú e Jacó (Gn 25:19-26). Os doze herdeiros deste último (rebatizado mais tarde de Israel) compuseram as doze tribos que deram origem ao povo hebreu (Gn 29, 30 e 35:16-22).

Talvez não se tenha na história humana um conflito de origem familiar tão intenso e extenso quanto esse. Um conflito em que os protagonistas são os filhos de um mesmo homem, temente e fiel a Deus, que escolheram dar as costas aos ensinos ético-morais e espirituais do pai, ao decidirem patrocinar uma vida de ódio cujos resultados insistem em chamar de preço da “guerra santa”.

Finalizo com trecho de uma postagem do pastor Odailson Fonseca sobre o tema: "Isaque e Ismael. Israel e Palestina. Shalom e Salamaleico. Jerusalém e Meca. Tel Aviv e Faixa de Gaza. Quipá e Jihab. Torá e Alcorão. Yom Kippur e Ramadã. Sara e Hagar. Shabat e sexta-feira. Judaísmo e Islamismo. Gênesis 21:12 e 13. Ambas grandes nações. Grandes religiões. Onde tudo começou? Na promessa. Absurdo pensar assim? Nada é simples no tabuleiro mortal destes descendentes das páginas sagradas. ⁣[...] Choro, ódio, saudade, desespero, desrespeito. Tudo está desorientado há séculos por lá. Na verdade, milênios. ⁣[...] Será uma dor sem fim? Não. Errado. Haverá paz na Terra Santa quando a Cidade Santa “preparada como uma noiva adornada para o seu marido” (Ap 21:2) finalmente descer pondo fim em absolutamente tudo o que o pecado machucou. Ali a eterna promessa a Abraão se cumprirá. Filhos serão irmãos.⁣ E Genesis 1 e 2 finalmente reencontrará Apocalipse 21 e 22."

terça-feira, 27 de maio de 2025

LOUVOR NA IGREJA: QUEM É O PROTAGONISTA?

Cada vez mais, as igrejas têm utilizado equipes de louvor numerosas e bem ensaiadas, músicos tocando ao vivo e equipamentos mais sofisticados. A busca por maior qualidade na liturgia é muito bem-vinda. Porém, tendo em vista esse cenário, é preciso que todos os envolvidos reflitam sobre sua atuação musical e espiritual a fim de evitar que seja retirado o protagonismo do louvor das mãos da igreja. A equipe de música não deve ser a protagonista, pois esse papel cabe à congregação.

Vale lembrar a todos, especialmente ao líder de louvor ou regente congregacional, que a boa liderança musical não tem que ver com frases emocionadas, melhores cantores, alta tecnologia, nem com você. Liderar ou ministrar o louvor congregacional tem que ver com uma única pergunta: “Como posso servir musical e espiritualmente à igreja?”

Reforço dois termos que usei: serviço, e não prestígio pessoal; e “à igreja”, e não a um ou outro grupo específico. Os mais idosos, os mais jovens, o coral ou a equipe de louvor são apenas partes de um corpo cuja cabeça não é você. É claro que há situações em que o líder de música precisa apoiar programas com foco específico numa faixa etária e grupo, ou mesmo programas que integrem diversos segmentos da igreja, como as celebrações da Páscoa e Natal.

No entanto, o líder de música deve estar atento ao momento em que toda a congregação é convidada semanalmente a participar da música: o momento do louvor congregacional. Inclusive, deve estar atento para não menosprezar nem superestimar essa seção do culto. Como se subestima o valor do louvor congregacional? Quando não há preparação adequada, quando se usa o louvor para preencher as lacunas da falta de organização, quando não se permite à igreja ouvir a própria voz, quando não se dá atenção a uma criteriosa seleção de repertório. Por outro lado, como se superestima o louvor congregacional? Quando é muito longo, quando é o centro das atenções, quando se acredita que determinado estilo musical vai reavivar a igreja, quando há mais foco nos resultados musicais do que nos frutos espirituais.

Se ninguém gosta quando o momento do ofertório demora em longos discursos ou orações, então porque achamos que alguém gosta de um serviço de louvor longo e cheio de falas? Não seria por que estamos inclinados a transformar o louvor musical no centro das atenções do culto?

Note que, às vezes, ao iniciar o louvor, alguns dizem: “Agora chegou a hora de todos participarem”. Mas o ofertório também é um momento para todos participarmos, assim como as demais seções do culto. Por outro lado, se vamos todos participar do momento do louvor, então é hora de deixar a igreja cantar: “Nem sempre o canto deve ser feito apenas por alguns. Permita-se o quanto possível que toda a congregação participe” (Testemunhos para a Igreja, v. 9, p.143, 144).

Vou sugerir cinco ações para que isso ocorra:

1. Escolha um repertório que a maioria das pessoas conheça. Nem sempre é hora de ensinar um hino pouco cantado. Pode parecer repetitivo para os cantores e músicos, mas para a congregação é a oportunidade de externar sua voz em uma melodia acessível e preferida. Saiba usar essa predileção em favor de uma adoração coletiva.

2. Estude a acessibilidade da melodia que deseja usar. Hinos desconhecidos e/ou com letras difíceis causam estranhamento e não estimulam as pessoas a cantar. Se for usar canções de solistas ou quartetos, confira antes a extensão das notas da melodia (se tem notas muito agudas ou muito graves), pois, às vezes, essas canções têm melodia complicada para uma congregação inteira cantar, o que acaba inibindo a voz da igreja.

3. Permita que a congregação ouça suas vozes. Subestimamos tanto as vozes da congregação que até deixamos alto o volume dos microfones, abafando o louvor coletivo. Talvez estamos tendo maior preocupação com o som que vai na transmissão do culto pela internet e menor preocupação com o som que a igreja vai fazer no culto presencial. Não deixe que a igreja apenas ouça a própria voz no último refrão, momento em que o líder de louvor diz: “Agora vamos ouvir só a voz da igreja cantando!” Experimentemos ouvir mais nossa voz misturada à dos nossos irmãos e irmãs cantando.

4. Não confie no poder motivador dos estilos musicais tanto quanto no poder inspirador da comunhão pessoal. Em Adoração ou Show? (2006, p.127), Harold Best pergunta: “O estilo [musical] conduz as pessoas à verdadeira experiência da presença de Deus, ou é a experiência com Deus impulsionada pela fé, pela esperança e pelo amor que confere poder ao estilo que escolhemos?”

5. Incentive a igreja a cantar após os sermões. Depois da Palavra falada por um, a Palavra cantada por todos. Na Bíblia, a adoração com música se dá imediatamente após os atos de Deus por Seu povo. Nesse sentido, a lembrança dos atos redentores de Deus no passado e de Sua bendita promessa para o futuro têm como resposta o louvor musical da congregação. Não estou dizendo que não haja mais mensagens musicais feitas por solistas ou grupos vocais, mas sim que haja mais momentos em que a igreja seja a protagonista do louvor.

Joêzer Mendonça (via Revista Adventista)

segunda-feira, 26 de maio de 2025

SEXO NO SÁBADO

Esse tema é frequentemente citado no contexto de Isaías 58:13: “Se desviares o teu pé do sábado, de fazer a tua vontade no meu santo dia... .” Uma vez que o sexo é prazeroso, o texto é usado para proibir a relação sexual durante as horas sabáticas. No entanto, uma investigação mais profunda revela que a passagem de Isaías está falando sobre o Dia da Expiação, um dia dedicado ao autoexame, julgamento e purificação. Cada indivíduo deveria participar do cerimonial para que não fosse “cortado” (Levítico 23:29). Não há nenhuma evidência textual indicando que o sexo era proibido no sábado ou no Dia da Expiação. Não há também nenhuma evidência bíblica de que a relação sexual contamina a pessoa. Na verdade, todas as referências ao prazer sexual no Antigo Testamento são positivas! 

Então, a que se refere a palavra “prazer”, citada em Isaías 58:13? A palavra hebraica é a mesma encontrada no verso 3, que adverte contra a exploração. Essa mesma palavra (na Bíblia judaica NIPS) é traduzida também como “o prazer nos negócios” (ou “interesse comercial” da pessoa). Isaías 58:14 ordena “chamar delícia o sábado” (NVI). A palavra “prazer”, em hebraico, é ‘oneg, que significa deleitoso. 

O significado de Isaías 58:13 é de que Deus quer que deixemos de lado os nossos próprios compromissos e os substituamos por algo muito mais excelente. Deus nos chama para vivermos uma vida de prazer altruísta, focados em nosso relacionamento com Ele. A noção de que o sábado proíbe o prazer e as alegrias concedidas por Deus durante as horas sagradas é basicamente uma leitura equivocada do texto original. O significado desse texto é de que devemos evitar “o prazer nos negócios” ou irmos em busca dos nossos próprios “interesses comerciais”. Caso contrário, qualquer coisa prazerosa, incluindo a ingestão de alimentos, o estudo da Bíblia ou o cântico devem ser proibidos também.

O que entra em questão é a compreensão bíblica da sexualidade. Os judeus antigos, conhecidos pelos seus códigos de leis rigorosas sobre a observância do sábado, não proibiram a atividade sexual no sábado, conquanto que fosse dentro dos limites do casamento. Essa “bênção sabática” era considerada um momento de consumação matrimonial. O sábado e o casamento foram as duas santas instituições originadas no Jardim do Éden. No plano original de Deus, o sexo tinha por objetivo tornar-se a melhor maneira pela qual marido e mulher experimentariam os níveis mais profundos de intimidade dentro dos sagrados laços do matrimônio – os dois se tornariam uma só carne. 

Tragicamente, a sexualidade tem sido distorcida e pervertida pelo pecado. Os antigos códigos hebraicos eram necessários porque Deus queria evitar as perversões sexuais praticadas pelas nações pagãs circunvizinhas. A sexualidade devia ser cuidadosamente guardada. Outra perversão veio do pensamento grego que considerava o homem um ser composto de corpo e alma – o corpo como sendo matéria e mau, portanto, temporário e perecível; a alma como sendo o espírito e bom, por eles definido como eterno e imperecível. Alguns pensadores cristãos abraçaram esse dualismo entre corpo e alma, que tinha implicações no que diz respeito à sexualidade humana (bem como ao sábado e outras doutrinas).

O impacto duradouro do platonismo pode ser visto na repressão da sexualidade apresentada nos escritos dos primeiros pais da igreja, como Orígenes e Agostinho. Todos os impulsos sexuais deveriam ser reprimidos. Essa visão da sexualidade cristã teve uma correlação direta com a eclesiologia, como no caso dos monges que se retiraram para lugares afastados e cavernas. Aqueles que se negaram ao prazer sexual e se tornaram celibatários foram considerados mais espirituais e, portanto, mais merecedores de cargos na igreja. Tudo isso contribuiu para uma teologia que, à semelhança do sábado do sétimo dia, afastou-se da visão bíblica da sexualidade. A beleza com que o sábado e o sexo foram agraciados no Éden acabou se perdendo durante a Idade das Trevas. 

O tema do sexo no sábado, de qualquer forma, é uma decisão profundamente pessoal e deve ser discutido com espírito de oração entre marido e esposa. Alguns casais escolhem, “por mútuo consentimento” (1 Coríntios 7:5, NVI), se renunciarem um ao outro durante as horas do sábado, a fim de manterem o seu foco espiritual. Isso é admirável, mas, para outros, pode ser algo perturbador.

Para os casais que mantêm relações sexuais no sábado, tal visão tem raízes profundas na criação original. Uma visão da sexualidade que envolva todo o ser conecta o sexo à criação como um belo dom de Deus para a humanidade. Satanás distorceu esse dom. Quer a distorção venha pela opinião de que o sexo é um prazer egoísta e, portanto, precisa ser reprimido, quer pelo ponto de vista dos meios de comunicação de hoje, de que sexo não tem nada a ver com moralidade e de que está na vontade e no desejo pessoal indulgente, Satanás está por trás dessas tentativas de roubar este dom precioso do projeto original de Deus.

Quanto à nossa questão sobre o sábado, o princípio que o apóstolo Paulo usou em outro contexto pode ser aplicado aqui também: “O que come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu” (Romanos 14:3, ARC). Deus criou o sexo como uma maneira de os seres humanos se conectarem mutuamente no nível mais profundo. Tal visão abarca toda a pessoa e vê o sexo como um belo presente de Deus.

Michael W. Campbell (via Diálogo)

sexta-feira, 23 de maio de 2025

SIGNIFICADO DOS NÚMEROS NA BÍBLIA

Muitos dos números na Bíblia têm um profundo significado profético ou espiritual. Tanto no Antigo como no Novo Testamento, os números revelam conceitos e significados ocultos que normalmente escapam ao leitor casual. Ao longo da história, homens com grandes mentes, como Agostinho, Isaac Newton e Leonardo da Vinci, mostraram mais do que apenas uma curiosidade passageira sobre a importância dos números na Bíblia. Certa vez, Jesus disse: “Até os cabelos da cabeça de vocês estão todos contados” (Mateus 10:30, NVI). Logo, obviamente, os números da Bíblia devem ser cuidadosamente considerados.

Pelo menos 12 números na Bíblia destacam-se: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 10, 12, 40, 50 e 70. Para expressar essa verdade, um ou dois exemplos bíblicos foram dados abaixo. No entanto, muito mais pode ser dito sobre este assunto, assim estes exemplos servem apenas como uma introdução.

1 – Representa absoluta unicidade e unidade (Efésios 4:4-6, João 17:21, 22).

2 – Representa a verdade da Palavra de Deus, por exemplo, a lei e os profetas (João 1:45), duas ou três testemunhas (2 Coríntios 13:1), e uma espada de dois gumes (Hebreus 4:12). Ver Marcos 6:7 e Apocalipse 11:3. Também é usado 21 vezes nos livros de Daniel e Apocalipse.

3 – Representa a Divindade/Trindade. Os anjos proclamaram “Santo” três vezes ao Deus Trino (Isaías 6:3). Veja também Mateus 28:19 e 1 João 5:7-8.

3 ½ – Representa a rejeição e a apostasia. É a dissecção do sete, o número perfeito. Por 3 ½ anos, Elias fugiu da perseguição. Jesus foi crucificado no final do período de 3 ½ anos. Estevão foi o primeiro mártir cristão, apedrejado no final dos 3 ½ anos de pregação dos apóstolos em meio a perseguições. Havia 3 ½ anos proféticos quando a igreja entrou na clandestinidade durante a Idade das Trevas, de 538 a 1798.

4 – Representa a verdade universal, como nas quatro direções (norte, sul, leste, oeste) e os quatro ventos (Mateus 24:31, Apocalipse 7:1, Apocalipse 20:8). Em atos 10:11, um lençol com quatro pontas simboliza o evangelho indo a todos os gentios.

5 – Representa o ensino. Primeiro, há os cinco livros de Moisés. Em segundo lugar, Jesus ensinou sobre as cinco virgens prudentes e foram utilizados cinco pães de cevada para alimentar os 5 mil.

6 – Representa o culto do homem, e é o número do homem, significando sua rebelião, imperfeição, obras e desobediência. Ele é usado 273 vezes na Bíblia, incluindo os seus derivados (por exemplo, sexto) e outras 91 vezes como “sessenta” ou “60”. O homem foi criado no sexto dia (Gênesis 1:26, 31). Veja também Êxodo 31:15 e Daniel 3:1. O número é especialmente significativo no livro de Apocalipse, como o “666”, que identifica a besta. “Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Seu número é seiscentos e sessenta e seis” (Apocalipse 13:18).

7 – Representa a perfeição, e é o sinal de Deus, o culto divino, obediência e descanso. O “príncipe” dos números da Bíblia, é usado 562 vezes, incluindo os seus derivados (ex. sétimo). (Veja Gênesis 2:1-4, Salmo 119:164 e Êxodo 20:8-11, apenas como alguns dos exemplos). O número sete também é o mais comum na profecia bíblica, ocorrendo 42 vezes em Daniel. Em Apocalipse, há sete igrejas, sete espíritos, sete candelabros de ouro, sete estrelas, sete lâmpadas, sete selos, sete chifres, sete olhos, sete anjos, sete trombetas, sete trovões, sete mil mortos em um grande terremoto, sete cabeças, sete coroas, sete últimas pragas, sete frascos de ouro, sete montanhas, sete reis.

10 – Representa lei e restauração. Naturalmente, isso inclui os Dez Mandamentos em Êxodo 20. Veja Mateus 25:1 (dez virgens), Lucas 17:17 (dez leprosos), Lucas 15:8 (cura, dez moedas de prata).

12 – Representa a igreja e a autoridade de Deus. Jesus tinha 12 discípulos, e haviam as 12 tribos de Israel. Em Apocalipse 12:1, os 24 anciãos e os 144.000 são múltiplos de 12. Na cidade de Nova Jerusalém há 12 fundações, 12 portas, 12 mil estádios, uma árvore com 12 tipos de frutos 12 vezes por ano, consumidos por 12 vezes 12.000 ou pelos 144.000 (Ver Apocalipse 21).

40 – Representa uma geração e tempos de prova. Choveu durante 40 dias durante o dilúvio. Moisés passou 40 anos no deserto, assim como os filhos de Israel. Jesus jejuou por 40 dias.

50 – Representa poder e celebração. O Jubileu veio após 49 anos (Levítico 25:10), e o Pentecostes ocorreu 50 dias após a ressurreição de Cristo (Atos 2).

70 – Representa a liderança e julgamento humanos. Moisés designou 70 anciãos (Êxodo 24:1); O Sinédrio era composto por 70 homens. Jesus escolheu 70 discípulos (Lc 10:1). Jesus disse a Pedro para perdoar 70 vezes 7.

666 – Como mencionado, seis representa o número do homem; 666 representa o reino do homem em oposição a Deus. 666 é um número poligonal, mais precisamente o número triangular de 36 pois é representado geometricamente por um triângulo equilátero com 36 unidades de lado, começando por uma na primeira, duas na segunda, três na terceira, continuando esta progressão até à 36ª fila. Assim, o 666 também simboliza uma trindade de contrafação. Alguns são muito supersticiosos sobre o número 666 e se recusam a ter números de telefone, placas de automóveis, cartões de crédito que o contenham. Esta fobia é conhecida como hexacosioihexecontahexafobia. Mas não temos que ter medo do número 666 em si. É simplesmente um número natural seguinte ao 665 e que antecede o 667. No entanto, o Apocalipse diz: “Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Seu número é seiscentos e sessenta e seis” (Ap 13:18).

144.000 – Povo remanescente de Deus, também chamado de Israel espiritual (Ap 14). Representam os apóstolos dos últimos dias. Como Jesus tinha 12 líderes que partilhavam o evangelho, no momento da Sua primeira vinda, um exército de 12 vezes 12.000 será batizado no Espírito Santo para preparar o mundo para a segunda vinda de Cristo. Outra pista interessante relacionada com os 144.000 é encontrada em 1 Crônicas 27: O exército de Davi era composto por 12 conjuntos de 24.000, totalizando 288.000, o que significava dois exércitos de 144.000, que alternava o seu serviço durante todo o ano. Em 1 Crônicas 25, um grupo literal de “24 vezes 12” (288) Levitas conduziam a música de louvor do templo (um para o dia, um para a noite), metade de 288 = 144.

Doug Batchelor | Traduzido pelo blog Sétimo Dia | Original: Keys to Bible Numbers

quinta-feira, 22 de maio de 2025

UNÇÃO DE ENFERMOS

Com a entrada do pecado no mundo, provações, doenças e morte passaram a fazer parte da experiência humana (Gn 3:18 e 19). Ao comentar sobre a queda de Adão e Eva, Ellen White declarou: “O pecado deles abriu as portas a uma enxurrada de desgraças sobre o mundo”.1

No exercício de seu ministério, o pastor realiza diversas cerimônias, incluindo a unção de enfermos, um ato de intercessão e cuidado espiritual que pode ser realizado não apenas por ele, mas também pelos anciãos da igreja.

Aspectos linguísticos
Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, a Bíblia fala sobre a unção. O verbo hebraico mashah significa “ungir”, “untar”, “consagrar”. A palavra é encontrada pela primeira vez no Antigo Testamento em Gênesis 31:13. Esse uso ilustra a ideia de ungir algo ou alguém como um ato de consagração.

O teólogo Gerard Groningen acrescentou: “A ideia de ungir relaciona-se ao conceito de alisar com a mão […] também [dá] a ideia de esfregar o corpo. Fricção com gordura ou óleo é indubitavelmente o conceito expresso em algumas passagens bíblicas, onde se diz que objetos como bolos ou escudos são ungidos (Is 21:5). O uso mais comum de mashah é expressar a ideia de unção que é feita pelo derramamento ou aspersão de óleo sobre objetos ou pessoas. Esse ato de derramar óleo tem profunda significação no Antigo Testamento.”2

O Novo Testamento usa o verbo grego aleiphō, que significa “untar”, “esfregar”, “revestir”, “friccionar”. Outro verbo grego utilizado é chriō, que significa “ungir com óleo”. Dessa palavra deriva o termo christós, que significa “ungido” e é aplicado a Cristo.3 Ele foi ungido para desempenhar Seu tríplice ministério: ensinar, pregar e curar (Mt 4:23; Lc 4:18 e 19; Dn 9:25).

Com base nesses aspectos linguísticos, o ato da unção era profundamente significativo. O Comentário Bíblico Adventista afirma: “Em harmonia com a lei mosaica, o azeite era usado para introduzir profetas, sacerdotes e reis em seu ministério.”4 O óleo, que já tinha um uso secular, principalmente na cozinha (Lv 2:7; Lv 9:4; Nm 11:8; 1Rs 17:12) e como combustível (Êx 35:8, 14 e 28), passou, então, à dimensão do uso religioso, servindo para coroar reis (1Sm 10:1; 1Rs 1:39; SI 89:20), consagrar sacerdotes (Êx 40:15; Lv 7:35) e profetas (Is 61:1), dedicar locais para a adoração (Gn 28:18; Lv 8:10; Dn 9:24), oficiar matrimônios (Ez 16:9), ungir os enfermos antes da morte e os cativos prestes a ser libertos (2Cr 28:15), e preparar o corpo para o sepultamento (2Cr 16:14).5

Unção de enfermos
O apóstolo Tiago escreveu: “Alguém de vocês está doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o [aleíphantes] com óleo, em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará. E, se houver cometido pecados, estes lhe serão perdoados” (Tg 5:14 e 15). Com base nesse texto, Ellen Cavanaugh comentou que a unção “deve compreender três elementos fundamentais: a visitação, a cura e a reconciliação”.6

Uma lição importante nesses versículos bíblicos é que a visita, especificamente para a realização de uma cerimônia de unção, deve ser solicitada. “O ato da unção é um evento intensamente pessoal, dirigido às necessidades específicas e pedidos de uma pessoa”.7

Além disso, essa cerimônia é um momento de profunda reflexão, tanto para o paciente (se estiver lúcido) quanto para todos os presentes. A solenidade da ocasião é revestida da certeza de que uma pessoa está sendo colocada nas mãos de Deus, e de que Ele agirá de acordo com Sua soberana vontade. Ellen White escreveu: “Todos nós desejamos respostas imediatas e diretas às nossas orações, e somos tentados a ficar desanimados quando a resposta demora ou vem de uma forma que não esperávamos. Mas Deus é demasiado sábio e bom para atender às nossas petições sempre do modo e no tempo exatos em que dese­jamos. Ele fará mais e melhor por nós do que realizar sempre os nossos desejos.”8

Embora a cerimônia da unção tenha como foco específico o enfer­mo, ela também deve impressionar positivamente as pessoas ao re­dor, principalmente se houver alguém sem vínculo religioso ou de outra confissão religiosa.

Outro ponto importante a ser mencionado é que “a unção não se aplica apenas a doen­ças, mas também ao perdão. […] Não está reservada como o último rito para os moribundos, nem há poder místico no óleo em si”.9

Experiência
Joe (nome fictício) era um jovem pastor de uma cidade no interior. Preocupado com o bem-estar espiritual de suas ovelhas, ele sempre as visitava com o objetivo de fortalecê-las na fé.

Certa manhã, Joe recebeu uma ligação. Do outro lado da linha, alguém muito angustiado disse: “Pastor, meu pai está nas últimas. Você poderia fazer a unção dele?” Por um instante, Joe parou e pensou: Unção? Ele se lembrou do ensinamento que diz: “O doente é instruído a chamar ‘os anciãos da igreja’. Conquanto a prática seja de que o próprio indivíduo enfermo solicite a unção, pode ser que a doença impeça a pessoa de fazer o pedido. Em tais casos é aceitável que a família ou os amigos façam a solicitação.”10

A verdade é que o pastor Joe não tinha muita experiência com essa cerimônia. Até então, ele havia realizado basicamente duas: o batismo e a Ceia do Senhor. Mas agora, fazer a unção de uma pessoa prestes a morrer? Não era algo comum para o jovem pastor.

Enquanto pensava, a pessoa do outro lado da linha aguardava a resposta. Finalmente, Joe respondeu: “Sim, irmão, eu vou, ainda hoje.” Após desligar o telefone, ele imediatamente começou a planejar os detalhes daquela cerimônia com a qual não estava familiarizado.

O pai da pessoa que havia ligado estava acamado em casa. Conforme o combinado, Joe realizou a unção naquele mesmo dia. Ele se preocupou com todos os detalhes da cerimônia, mas não imaginava o impacto que esse ato teria sobre ele. Foi algo verdadeiramente impressionante!

Naquele dia, o pastor Joe aprendeu lições que marcariam profundamente seu ministério. Ele compreendeu que, durante a cerimônia, é importante perguntar à pessoa sobre sua vida espiritual, seu relacionamento com os outros, se existe alguma mágoa e a necessidade de perdoar alguém. Essas são questões cruciais para o momento da unção. “O enfermo precisa ser encorajado a fazer um autoexame, antes da unção, sendo-lhe garantidos o amor, a graça e o perdão de Deus.”11

O pastor Joe também entendeu, naquela ocasião, que a unção é um momento de submissão, um ato de aceitar a vontade de Deus, seja ela qual for. Ellen White escreveu: “Deus conhece o fim desde o princípio. Conhece de perto o coração de todos os seres humanos. Lê todo segredo da alma. Sabe se aqueles por quem se fazem as orações haveriam ou não de resistir às provações que lhes sobreviriam se continuassem a viver. Sabe se sua vida seria uma bênção ou uma maldição para si mesmos e para o mundo.”12

Outro ponto importante que Joe aprendeu é que, embora seja um momento de muita ansiedade e expectativa, também pode ser um momento de esperança. Ellen White declarou: “Ao termos orado pela restauração de um enfermo, seja qual for o desfecho do caso, não percamos a fé em Deus. Se formos chamados a sofrer a perda, aceitemos o amargo cálice, lembrando-nos de que é a mão de um Pai que o traz aos nossos lábios.”13

De fato, aquela cerimônia impactou profundamente o coração do pastor Joe. Além de tudo isso, ele aprendeu que, ao ministrar esse tipo de cerimônia, é essencial estar em comunhão com Deus. O sacerdote desempenha um papel fundamental nesse momento em que uma pessoa, na maioria dos casos, se encontra entre a vida e a morte.

Ellen White e sua família foram ungidos diversas vezes devido a problemas de saúde. Em 21 de maio de 1892, por exemplo, o ato foi ministrado pelos pastores A. G. Daniels e G. C. Tenney, acompanhados de suas esposas.

Planejamento
A organização é um fator imprescindível no ministério de todo pastor. Obviamente, existem circunstâncias que surgem de repente ou de forma imprevista, e muitas vezes nos pegam de surpresa. Um exemplo disso são os funerais. Talvez seja por isso que muitos dizem que “ninguém se prepara para um funeral”.

Para uma cerimônia de unção, é possível realizar um planejamento mínimo a partir do momento em que se recebe o convite ou chamado. Isso envolve, principalmente, a definição do local em que a cerimônia será realizada. Por exemplo, se for em uma casa, tudo será mais fácil. Porém, se for em um hospital, o planejamento requerá alguns detalhes a mais.

Se o enfermo estiver em um hospital adventista, a realização da cerimônia será mais adequada, pois a instituição, sendo da igreja, está familiarizada com o ritual. Mesmo assim, é necessário fazer arranjos com a equipe médica e os enfermeiros. Afinal, “tudo deve ser feito com decência e ordem” (1Co 14:40, NVI). Se for em outro hospital, o planejamento exigirá maior adequação. Por exemplo, se o enfermo dividir o quarto com outro paciente, é necessário um diálogo com os enfermeiros para avaliar a possibilidade de isolar o enfermo a ser ungido. Outro aspecto importante é a equipe que acompanhará a cerimônia, composta por parentes do enfermo, anciãos e diáconos. Em geral, o número de pessoas em uma ocasião como essa é limitado. Todo esse planejamento deve ser ajustado às normas do hospital. Isso é imprescindível, não apenas para garantir um bom testemunho em uma instituição médica não confessional, mas também para facilitar futuras cerimônias de unção que possam ser realizadas ali.

Aspectos práticos
A cerimônia da unção tem seu aspecto prático. O Guia Para Ministros recomenda os seguintes itens:14

1. O oficiante deve começar com uma explicação do propósito da unção. Isso requer prudência e tato em tudo o que será dito ao enfermo.

2. Antes do ato da unção, devem ser lidos textos bíblicos, como Tiago 5:14 a 16; Salmo 103:1 a 5; Salmo 107:19 e 20; Marcos 16:15 a 20. A leitura bíblica deve reafirmar que Deus tem poder para curar, perdoar e salvar. A oração pela cura é sempre respondida afirmativamente àqueles que creem, seja de forma imediata ou na volta de Jesus.

3. O ajoelhar-se para a oração deve ser a postura preferida, mas ao redor de um leito hospitalar isso pode ser impraticável.

4. Caso o enfermo deseje orar, deve ser-lhe permitido, mas que ele ore primeiro.

5. Se alguém do grupo presente deseja orar, deve ser-lhe permitido, mas que seja na sequência da oração do enfermo.

6. A última oração deve ser de quem está ministrando a cerimônia (pastor ou ancião). “Temos na Palavra de Deus instruções relativas à oração especial pelo restabelecimento de um doente. Mas tal oração é um ato soleníssimo, e não devemos realizar sem atenta consideração.”15

7. O pastor ou ancião, ao concluir a oração, deve colocar o óleo sobre a testa do enfermo, simbolizando o toque do Espírito Santo de um modo específico e especial.

Se quem está ministrando a cerimônia é o pastor, e ele está acompanhado por anciãos ou outros oficiais da igreja, ele deve aproveitar esse momento para torná-lo extremamente pedagógico para esses líderes. Trata-se de um momento prático do ministério pastoral.

Conclusão
A Bíblia diz: “Então, na sua angústia, clamaram ao Senhor, e Ele os livrou das suas tribulações. Enviou-lhes a Sua palavra, e os sarou, e os livrou do que lhes era mortal” (Sl 107:19, 20). Ellen White comentou: “Deus está hoje tão desejoso de restabelecer os doentes como quando o Espírito Santo proferiu essas palavras por intermédio do salmista. E Cristo é agora o mesmo compassivo médico que era durante Seu ministério terrestre. Nele há bálsamo curativo para toda doença, poder restaurador para toda enfermidade. Seus discípulos de nossos dias devem orar pelos doentes tão verdadeiramente como os de antigamente.”16

Nerivan Silva (via Revista Ministério)

Referências

1 Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2022), p. 37.

2 Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento (Campinas, SP: Luz Para o Caminho, 1995), p. 17, 19.

3 Ver Spiros Zodhiates, The Complete Word Study Dictionary – New Testament (Chattanoga, TN, AMG Publishers, 1992), p. 1483, 1485.

4 Francis D. Nichol (ed.), Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010), v. 1, p. 704.

5 Tânia M. L. Torres, “O Rito da Unção: Sucessos e Fracassos de uma Modalidade de Cura Religiosa na Igreja Adventista do Sétimo Dia” (tese de doutorado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2017), p. 42.

6 Ellen P. Canavaugh, ”Anointing as the Iconic Interruption of the Loving God” (tese de doutorado, Universidade Duquesne, 2009), citado por Torres, “O Rito da Unção”, p. 42.

7 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2010), p. 189.

8 Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2021), p. 139.

9 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia, p. 188.

10 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia, p. 189.

11 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia, p. 190.

12 White, A Ciência do Bom Viver, p. 138.

13 White, A Ciência do Bom Viver, p. 140.

14 Guia Para Ministros Adventistas do Sétimo Dia, p. 190, 191.

15 White, A Ciência do Bom Viver, p. 136, 137.

16 White, A Ciência do Bom Viver, p. 135, 136.

quarta-feira, 21 de maio de 2025

ALGUNS QUE NÃO ESTARÃO LÁ

Caim
Apesar de Caim haver merecido a sentença de morte pelos seus crimes, um Criador misericordioso ainda lhe poupou a vida, e concedeu-lhe oportunidade para o arrependimento. Mas Caim viveu apenas para endurecer o coração, para incentivar a rebelião contra a autoridade divina, e tornar-se o chefe de uma linhagem de pecadores ousados e perdidos. Esse único apóstata, dirigido por Satanás, tornou-se o tentador para outros; e seu exemplo e influência exerceram uma força desmoralizadora, até que a Terra se corrompeu e se encheu de violência a ponto de reclamar a sua destruição.

A mulher de Ló
Se o próprio Ló não houvesse manifestado hesitação em obedecer à advertência do anjo, antes tivesse ansiosamente fugido para as montanhas, sem uma palavra de insistência ou súplica, sua esposa teria também podido escapar. A influência de seu exemplo a teria salvo do pecado que selou a sua perdição. Mas a hesitação e demora dele fizeram com que ela considerasse levianamente a advertência divina. Ao mesmo tempo em que seu corpo estava sobre a planície, o coração apegava-se a Sodoma, e ela pereceu com Sodoma. Rebelara-se contra Deus porque Seus juízos envolviam na ruína as posses e os filhos. Posto que tão grandemente favorecida ao ser chamada da ímpia cidade, entendeu que era tratada severamente, porque a riqueza que tinha levado anos para acumular devia ser deixada para a destruição. Em vez de aceitar com gratidão o livramento, presunçosamente olhou para trás, desejando a vida daqueles que haviam rejeitado a advertência divina. Seu pecado mostrou ser ela indigna da vida, por cuja preservação tão pouca gratidão sentira.

O Rei Saul
Saul sabia que nessa última ação, de consultar a médium de Endor, estava rompendo o único fio que ainda o ligava a Deus. O que não conseguira antes, com toda a sua obstinação, era agora final e definitivo: esse ato selou a sua separação de Deus. E chegou a fazer um concerto com a morte, um acordo com o inferno. O cálice da sua iniquidade transbordou.

Judas
Deus determinou meios, para que, se nós os usarmos diligentemente e com oração, nenhuma nau sofra naufrágio, mas subsista à tempestade e à tormenta, e ancore num Céu de bem-aventuranças afinal. Mas se desprezarmos e negligenciarmos esses decretos e privilégios, Deus não realizará um milagre para salvar a qualquer um de nós, e estaremos perdidos como Judas e Satanás.

Herodes, Herodias e Pilatos
E agora, perante a multidão agitada, revelam-se as cenas finais — o paciente Sofredor trilhando o caminho do Calvário, o Príncipe do Céu suspenso na cruz; os altivos sacerdotes e a plebe zombeteira a escarnecer de Sua agonia mortal, as trevas sobrenaturais; a Terra a palpitar, as pedras despedaçadas, as sepulturas abertas, assinalando o momento em que o Redentor do mundo rendeu a vida. O terrível espetáculo aparece exatamente como foi. Satanás, seus anjos e súditos não têm poder para se desviarem do quadro que é a sua própria obra. Cada ator relembra a parte que desempenhou. Herodes, matando as inocentes crianças de Belém, a fim de que pudesse destruir o Rei de Israel; a vil Herodias, sobre cuja alma criminosa repousa o sangue de João Batista; o fraco Pilatos, subserviente às circunstâncias; os soldados zombadores; os sacerdotes e príncipes, e a multidão furiosa que clamou: “O Seu sangue caia sobre nós e sobre nossos filhos!” — todos contemplam a enormidade de seu crime. Em vão procuram ocultar-se da majestade divina de Seu rosto, mais resplandecente que o Sol, enquanto os remidos lançam suas coroas aos pés do Salvador, exclamando: “Ele morreu por mim!”

Nero e sua mãe
Entre a multidão resgatada acham-se os apóstolos de Cristo, o heroico Paulo, o ardoroso Pedro, o amado e amante João, e seus fiéis irmãos, e com estes o vasto exército dos mártires, ao passo que, fora dos muros, com tudo o que é vil e abominável, estão aqueles pelos quais foram perseguidos, presos e mortos. Ali está Nero, aquele monstro de crueldade e vício, contemplando a alegria e exaltação daqueles que torturava, e em cujas aflições extremas encontrara deleite satânico. Sua mãe ali está para testemunhar o resultado de sua própria obra; para ver como os maus traços de caráter transmitidos a seu filho, as paixões incentivadas e desenvolvidas por sua influência e exemplo, produziram frutos nos crimes que fizeram o mundo estremecer.

Sacerdotes e pontífices
Ali estão sacerdotes e prelados católicos, que pretendiam ser embaixadores de Cristo e, no entanto, empregaram a tortura, a masmorra, a fogueira para dominar a consciência de Seu povo. Ali estão os orgulhosos pontífices que se exaltaram acima de Deus e pretenderam mudar a lei do Altíssimo. Aqueles pretensos pais da igreja tem uma conta a prestar a Deus, da qual muitos desejariam livrar-se. Demasiado tarde chegam a ver que o Onisciente é zeloso de Sua lei, e que de nenhuma maneira terá por inocente o culpado. Aprendem agora que Cristo identifica Seu interesse com o de Seu povo sofredor; e sentem a força de Suas palavras: “Quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes” (Mateus 25:40).

Os egoístas
Ninguém suponha que possa viver vida de egoísmo, e então, tendo servido aos próprios interesses, entrar no gozo do Senhor. Não puderam participar da alegria de um amor desinteressado. Não se adaptariam às cortes celestes. Não poderiam apreciar a pura atmosfera de amor que impregna o Céu. As vozes dos anjos e a música de suas harpas não lhes agradariam. Para sua mente a ciência do Céu seria um enigma.

Os espiritualmente adormecidos
Vi um anjo com balanças na mão, pesando os pensamentos e interesses do povo de Deus, especialmente dos jovens. Num prato estavam os pensamentos e interesses que tendiam para o Céu; no outro achavam-se os que se inclinavam para a Terra. E nessa balança era lançada toda leitura de romances, pensamentos acerca do vestuário e exibição, vaidade, orgulho, etc. Oh! que momento solene! Os anjos de Deus em pé com balanças, pesando os pensamentos de Seus professos filhos — aqueles que pretendem estar mortos para o mundo e vivos para Deus! O prato cheio dos pensamentos da Terra, vaidade e orgulho, desceu rapidamente, e não obstante peso após peso rolou do prato. O que continha os pensamentos e interesses que se voltavam para o Céu subiu ligeiro enquanto o outro descia e, oh! quão leve estava ele! Posso relatar isso pelo que vi, mas nunca poderei dar a impressão solene e vívida gravada em minha mente, ao ver o anjo com a balança pesando os pensamentos e interesse do povo de Deus. Disse o anjo: “Podem esses entrar no Céu? Não, não, nunca. Diga-lhes que a esperança que agora possuem é vã, e a menos que se arrependam depressa e obtenham a salvação, hão de perecer.”

Os que condescendem com o pecado
Devido ao pecado, Satanás foi expulso do Céu; e ninguém que condescenda com o pecado e o acaricie poderá ir para o Céu, pois nesse caso Satanás outra vez conseguiria firmar-se ali.

Os rebeldes
Poderiam aqueles cuja vida foi empregada em rebelião contra Deus ser subitamente transportados para o Céu, e testemunhar o estado elevado e santo de perfeição que ali sempre existe, estando toda alma cheia de amor, todo rosto irradiado de alegria, ecoando em honra de Deus e do Cordeiro uma arrebatadora música em acordes melodiosos, e fluindo da face dAquele que Se assenta sobre o trono uma incessante torrente de luz sobre os remidos; poderiam aqueles cujo coração está cheio de ódio à Deus, à verdade e santidade, unir-se a multidão celestial e participar de seus cânticos de louvor? Poderiam suportar a glória de Deus e do Cordeiro? Não, absolutamente; anos de graça lhes foram concedidos, a fim de que pudessem formar caráter para o Céu; eles, porém, nunca exercitaram a mente no amor à pureza; nunca aprenderam a linguagem do Céu, e agora é demasiado tarde. Uma vida inteira de rebeldia contra Deus os incapacitou para o Céu. A pureza, santidade e paz dali lhes seriam uma tortura; a glória de Deus seria um fogo consumidor. Almejariam fugir daquele santo lugar. Receberiam alegremente a destruição, para que pudessem esconder-se da face dAquele que morreu para os remir. O destino dos ímpios se fixa por sua própria escolha. Sua exclusão do Céu é espontânea, da sua parte, e justa e misericordiosa da parte de Deus.

Os ímpios de todas as gerações
Com assustadora majestade, Ele (Cristo) chama os ímpios mortos. Eles se levantam de seu longo sono. Que terrível despertar! Eles contemplam o filho de Deus em Sua austera majestade e resplendente glória. Todos, assim que O contemplam, percebem que Ele é o crucificado que morreu para os salvar, Aquele a quem desprezaram e rejeitaram. São tão numerosos quanto a areia do mar. Na primeira ressurreição, todos saíram radiantes de imortalidade, mas na segunda o que se destaca em todos são as visíveis marcas da culpa. Todos saem assim como foram para a sepultura.

Ellen G. White (via Visões do Céu, capítulo 12)

terça-feira, 20 de maio de 2025

O LIVRO DA VIDA

A Bíblia menciona diversas obras que registram patrimônio intelectual, conhecidas como rolos ou livros. Merrill Tenney afirma que há mais de 500 ocorrências das palavras “livros”, “escrita” e “leitura” na Bíblia, desde Gênesis até Apocalipse.1 Uma menção de destaque é o Livro da Vida do Cordeiro (cf. Ap 21:27), um registro importante no julgamento final, pois apresenta os nomes dos salvos. Este artigo busca destacar as referências ao Livro da Vida na Bíblia, focando o que essas ocorrências revelam sobre sua natureza, significado e funções teológicas.2

Livro da Vida no AT

O Antigo Testamento, com seus 39 livros divididos na Bíblia Hebraica em “Lei”, “Profetas” e “Escritos”, apresenta menos referências ao Livro da Vida do que o Novo Testamento. Contudo, há oito possíveis menções a esse tema: Êxodo 32:32, Salmos 40:7, Salmos 56:8, Salmos 69:28, Salmos 139:16, Isaías 4:3, Daniel 12:1 e Malaquias 3:16.3

No Antigo Testamento, a seção da Lei (tôrâ) contém várias referências ao termo hebraico sefer, que pode ser traduzido como “livro” ou “documento escrito” (Gn 5:1; Êx 32:32, 33; Nm 5:23; Dt 28:58).4 Entre essas menções, Êxodo 32:32 e 33 é a única que alude diretamente ao Livro da Vida, sendo possivelmente a primeira referência a ele no uso do termo sefer. Willem Vangemerem observa que, das 181 ocorrências desse termo no AT, ele geralmente se refere a registros de patrimônio intelectual, como livros, cartas, escrituras, leitura, cultura, termos e história.5 O verso subsequente (Êx 32:33) esclarece o significado: “Então o Senhor disse a Moisés: ‘Riscarei do Meu livro todo aquele que pecar contra Mim.’”6 Isso sugere que o Livro da Vida registra nomes de pessoas às quais Deus aplicou Sua misericórdia e justiça, e que pecadores são “riscados” dele, implicando sua destruição.

Na seção dos Profetas (nevi’im), o termo hebraico kattaab, que é a forma comum do verbo “escrever”, é frequentemente utilizado para se referir a registros administrativos e até às palavras ditas por Deus aos profetas (cf. 1Rs 11:41; Jr 36:4; Êx 24:4; Dt 17:18).7 Em relação ao Livro da Vida, os textos de Isaías 4:3 e Malaquias 3:16 parecem fazer referências específicas. Isaías 4:3 diz: “Os restantes de Sião e os que ficarem em Jerusalém serão chamados santos, isto é, todos os que estão inscritos [katub] em Jerusalém, para a vida.” O termo katub é semelhante ao encontrado no Salmo 69:28, referindo-se à “lista dos justos”. Há um debate sobre esse texto ter ou não uma conotação escatológica. De qualquer forma, o livro mencionado em Isaías 4:3 parece ter a função de registrar aqueles que serão separados “para a vida”, em um contexto de idolatria e pecado.

Malaquias 3:16 diz: “Então os que temiam o Senhor falavam uns aos outros. O Senhor escutou com atenção o que diziam. Havia um memorial escrito [yikkateb sefer zikkarôn] diante Dele para os que temem o Senhor e para os que se lembram do Seu nome.” Esse “escrito” (yikkateb)8 é um documento que assume o papel de um memorial ou recordatório de direitos de herança ou recompensa, enfatizado pelo termo “lembrança” ou “memorial” (zikkarôn).9 Aqueles inscritos nesse memorial receberão um título valioso e distintivo diante de Deus (Ml 3:17, 18).

Na seção dos Escritos (ketuvim), encontramos vários termos hebraicos relacionados à escrita, dentre eles sefersiprah e katab. O termo siprah é uma forma feminina de sefer,10 ambos significando livro ou documento escrito contendo registros (cf. Jó 19:23; Sl 40:7; 69:28, 139:16; Ec 12:12; Dn 1:4, 12:1). No entanto, entre esses exemplos, os textos dos Salmos 40:7, 56:8, 69:28, 139:16 e Daniel 12:1 parecem sugerir referências ao tema do Livro da Vida. O texto do Salmo 40:7 menciona o “rolo do livro” (sefer bimgillat), que aparenta se referir a um registro das ações do autor. Esse trecho é citado em Hebreus 10:7, relacionado ao pacto davídico.11

O Salmo 69:28 menciona o Livro da Vida (sefer hayyim), com interpretações variadas sobre quem é registrado nesse livro e o seu significado celestial. Allen Ross,12 Susan Gilingham13 e Longman III14 sugerem que esse não é apenas uma lista dos salvos, mas dos vivos. No Salmo 139:16, o termo “livro” (sefer) é usado figurativamente para descrever como Deus conhece os dias de uma pessoa.

Em Daniel 12:1, a palavra usada para “livro” também é sefer, associada à ação de “salvar” aqueles que estão “inscritos” (katub) no livro. Essa passagem não parece estar relacionada ao “Livro da Verdade” de Daniel 10:21, nem aos livros específicos mencionados em 7:10, mas deve ser uma lista dos nomes daqueles que pertencem ao povo de Deus, possivelmente relacionados a uma realidade celestial.

Livro da Vida no NT

O Novo Testamento aborda o tema do Livro da Vida em diversas passagens (cf. Lc 10:20; Fp 4:3; Hb 10:7; Ap 3:5, 13:8, 17:8, 20:12,15 e 21:27), cada uma delas fornecendo uma perspectiva sobre sua importância e significado.15

Na seção dos Evangelhos, o termo grego engraphō, que significa “registrar” ou “escrever em algo”, é encontrado apenas em Lucas 10:20. Nesse versículo, a expressão “arrolado nos céus” (engegraptai en tois ouranois) sugere uma alusão ao Livro da Vida. Essa expressão estabelece uma conexão com Êxodo 32:32 e Isaías 4:3, em que o termo hebraico katab também significa “escrever, registrar, decretar”, indicando uma semelhança semântica entre ambos.

Na seção das Cartas Paulinas, encontramos a expressão biblō zōēs em Filipenses 4:3. A palavra “livro”, traduzida a partir de biblō, pode significar um documento em forma de rolo, livro ou registro. Paulo parece indicar que os nomes de seus companheiros estão no Livro da Vida, apontando que o modo de vida do indivíduo impacta a inscrição ou não do seu nome no livro. Os inscritos eram cooperadores no evangelho. Na mesma linha, em Hebreus 12:23, o termo “arrolados” (apogegrammenon), derivado de apographō, carrega a noção de uma lista de censo. Esse termo é semelhante ao encontrado em Lucas 10:20, embora tenham raízes diferentes. A ampla realidade aludida nesse texto aponta para a “Jerusalém celestial”.

Na seção apocalíptica do Novo Testamento, as expressões biblō zōēsbiblou tēs zōēs e biblion tēs zōēs referem-se ao Livro da Vida. Em Apocalipse 3:5, o Livro da Vida é mencionado como biblō tēs zōēs, registrando os nomes daqueles que serão vestidos com vestiduras brancas. O termo “apagar” sugere uma conexão com Êxodo 32:32. Em Apocalipse 13:8, o Livro da Vida (biblō tēs zōēs) aparece no contexto do conflito de adoração. Aqueles cujos nomes não estão escritos no Livro da Vida são os que adoram a besta. Novamente, em Apocalipse 17:8, o Livro da Vida reaparece no mesmo contexto. Aqueles cujos nomes não estão no Livro da Vida são descritos como os habitantes da Terra que se maravilharão com a besta. Para Herbert Kiesler,16 a terminologia usada indica que os fiéis adoradores vêm sendo registrados no Livro da Vida desde a fundação do mundo.

Em Apocalipse 20:12, diante de uma cena de julgamento, diversos livros são abertos, incluindo o Livro da Vida. Osborne, Kistemaker e Rollof17 apontam que são abertos dois tipos distintos de livros celestiais para base das sentenças: um com os feitos e erros dos seres humanos e outro, o Livro da Vida, com os nomes dos salvos. Apocalipse 21:27 afirma que nada impuro entrará na Nova Jerusalém, exceto os inscritos no Livro da Vida do Cordeiro. Assim, no Novo Testamento, o Livro da Vida é um registro celestial que serve para distinguir entre ímpios e justos, ao incluir apenas os nomes daqueles que se opõem à falsa adoração e permanecem fiéis a Deus.

Conclusão

Em síntese, o Livro da Vida é descrito na Bíblia como sendo de natureza celestial, ou seja, seus registros são feitos diante do trono de Deus e sob a supervisão divina. Sua menção nas Escrituras e sua relevância no contexto do plano da redenção ressaltam sua importância para o crente e a igreja. No que diz respeito à sua função, o Livro da Vida tem um importante papel soteriológico, pois registra o direito de herança dado por Deus, incluindo o acesso à Cidade Santa, diferenciando-se de outros livros relacionados ao julgamento divino. Ter o nome inscrito no Livro da Vida significa salvação; sua ausência, condenação.

No contexto escatológico, o Livro da Vida exerce um papel crucial, pois aqueles cujos nomes estão nele registrados são reconhecidos como santos e pertencentes a Deus. Esses indivíduos são considerados justos e cooperadores de Deus, demonstrando fidelidade ao recusarem adorar a besta, mesmo sob intensa perseguição. O Livro da Vida registra os nomes dos justos que entrarão na Cidade Santa e documenta episódios significativos de sua vida, testemunhando sua lealdade a Deus. Assim, ele é fundamental no julgamento final, auxiliando os salvos a compreender melhor o caráter de Deus ao lidar com eles desde a fundação do mundo. 

[via Revista Ministério]

Carlos Flávio, professor de Teologia no Unasp, campus Engenheiro Coelho

Kevin Oliveira, pastor em Imperatriz, MA

Referências

Merril Tenney (org.), Enciclopédia da Bíblia Cultura Cristã (São Paulo: Cultura Cristã, 2008), v. 2, p. 995.

A versão completa deste artigo pode ser lida em: Carlos Flávio Teixeira e Kevin Vinicius Felix, “As Menções ao ‘Livro da Vida’ na Bíblia: Um Estudo Teológico e Introdutório”, Revista de Cultura Teológica 32 (2023), p. 277-301.

3 William Klein, Graig Blomberg e Robert Hubbard, Introduction to Biblical Interpretation (Nashville, TN: Thomas Nelson, 2004), p. 103-109.

Francis Brown, Enhanced BrownDriver-Briggs Hebrew and English Lexicon (Oxford: Clarendon, 1977), p. 706.

Willem A. Vangemerem, Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento (São Paulo: Cultura Cristã, 2011), p. 286, 287.

James Swanson, Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains: Hebrew (Oak Harbor: Logos Research Systems, 1997), p. 2627. A palavra para pecado no texto em questão é hata, que tem que ver com praticar um erro e ser culpado pelo ato.

Douglas Mangum, Derek Brown, Rachel Klippenstein e Rebekah Hurst (eds.), Lexham Theological Wordbook (Bellingham: Lexham, 2014), p. 507.

Swanson, Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains: Hebrew, p. 4180.

Swanson, Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains: Hebrew, p. 2355.

10 Daniel Carver, em Lexham Theological Wordbook.

11 Thomas Schreiner, Hebrews (Bellingham: Lexham, 2021), p. 299.

12 Allen Ross, A Commentary on the Psalms 42-89 (Grand Rapids, MI: Kregel Academic & Professional, 2013), p. 488.

13 Susan Gilincham, Psalms Through the Centuries (Chichester: Wiley-Blackwell, 2018), p. 375.

14 Tremper Longman III, Psalms: An Introduction and Commentary (Westmont: InterVarsity, 2014), p. 220.

15 Delbert Burkett, An Introduction to the New Testament and Origins of Christianity (Cambridge: Cambridge University, 2002), p. 19-21.

16 Herbert Kiesler, Christ: Son of Man: Lamb, em Frank Holbrook (ed.), Symposium on Revelation: Exegetical and General Studies (Silver Spring, MD: Biblical Research Institute, 1992). v. 7, p. 426.

17 Grant Osborne, Apocalipse: Comentário Exegético (São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 564); Simon Kistemaker, Apocalipse (São Paulo: Cultura Cristã, 2014), p. 498; Jürgen Rollof, Revelation (Minneapolis: Fortress, 1993), p. 158.