“E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2 Coríntios 12:7-10).
Para que servem os espinhos? Talvez você pense: “Ué, servem para machucar! Eles são consequência do pecado e provocam dor.” A resposta está certa, porém parcialmente. Os espinhos também têm um propósito “invertido”: servem de proteção. Quando olhamos as belas rosas, por exemplo, não paramos para pensar que existem predadores que podem feri-las. Talvez o maior predador seja o jovem apaixonado que arranca as flores sem piedade para fazer um buquê e, com ele, conquistar a sua “presa”! Os espinhos, portanto, defendem as flores contra os ataques externos.
No texto acima, o apóstolo Paulo apresentou a dramática experiência de ter um espinho na carne. Dificilmente encontraremos em seus escritos uma declaração tão carregada emocionalmente, no qual ele derrama o coração. Era uma dor secreta, alguma coisa da qual ele não falava aos demais. Ele mesmo desabafa depois: “Por causa da extravagância daquelas revelações e para que eu não me orgulhasse, recebi de presente uma debilidade para me manter em contato com minhas limitações. O anjo de Satanás fez o que pôde para me manter lá embaixo, mas o que ele fez de fato foi que eu caísse sobre meus joelhos” (Romanos 12:7, 8, A Mensagem).
Espinho - Do grego skolops, “uma peça de madeira indicada”, “um piquete”. Os papiros também utilizam a palavra para se referir ao estilhaço ou lasca deixada sob a pele e impossível de ser removido (Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, vol. 6, p. 1017).
No texto não podemos descobrir qual foi o “espinho na carne” do qual Paulo falou. Assim, vamos pesquisar outras referências bíblicas que possam nos ajudar. A primeira delas é Gálatas 4:13-15: “E vós sabeis que vos preguei o evangelho a primeira vez por causa de uma enfermidade física. E, posto que a minha enfermidade na carne vos foi uma tentação, contudo, não me revelastes desprezo nem desgosto; antes, me recebestes como anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus. Que é feito, pois, da vossa exultação? Pois vos dou testemunho de que, se possível fora, teríeis arrancado os próprios olhos para mos dar”.
Na carne - A enfermidade era física, não era mental nem espiritual. Era algo evidente, e lhe causava considerável constrangimento bem como desconforto e inconveniência" (CBASD, vol. 6, p. 1017).
O verso de Gálatas 6:11 também é esclarecedor: “Vede com que letras grandes vos escrevi de meu próprio punho”. Nestes versos podemos ver que: 1) Como vimos, Paulo tinha uma enfermidade física; 2) Os Gálatas receberam tão bem o apóstolo a ponto de ele afirmar que, se possível, eles arrancariam os próprios olhos para lhe dar; 3) Paulo assinava suas cartas com letras grandes.
Com base nestas informações podemos ver que é muito grande a probabilidade de o “espinho na carne” de Paulo ser um problema de visão. Talvez esta deficiência tivesse surgido com a experiência que ele teve na estrada de Damasco (Atos 9:1-9 e 10-19). Devido à grande luz que veio sobre seus olhos, e, consequentemente, uma espécie de “escamas” (Atos 9:18), ficaram sequelas (mesmo tendo sua visão restabelecida). Ellen G. White nos diz: "Paulo devia levar sempre em seu corpo as marcas da glória de Cristo, em seus olhos, que tinham sido cegados pela luz celestial, e desejava também levar consigo constantemente a segurança da mantenedora graça de Cristo" (História da Redenção, p. 275).
Quatorze anos antes de escrever esse verso, Paulo havia tido uma visão extraordinária, na qual fora arrebatado até o terceiro céu, o lugar da morada de Deus. Para evitar que o apóstolo ficasse orgulhoso de sua notável experiência, o Senhor permitiu que esse “espinho” fosse infligido ao Seu servo a fim de equilibrar sua autoestima espiritual. A provação foi uma forma de proteção, e a dor veio como uma graça disfarçada.
Deus não é o causador das tragédias nem dos espinhos nas flores de nossa vida. Porém, Ele permite que o sofrimento bata à porta para nos ensinar quão mau é o pecado. Além disso, o Senhor usa “espinhos” para nos livrar das tentações. De fato, “há ocasiões em que o Criador nos disciplina a fim de prevenir um pecado futuro” (Warren W. Wiersbe, A Verdade de Cabeça Para Baixo, p. 10).
Mensageiro de Satanás - A aflição vinha de Satanás, com permissão de Deus. Do mesmo modo ocorreu com Jó. É da natureza e obra de Satanás infligir sofrimento físico e doença" (CBASD, vol. 6, p. 1017).
Esta experiência de Paulo nos ensina que apesar de Deus curar os Seus filhos, pode haver ocasiões em que Ele prefira não o fazer, aqui neste mundo. O ensino de que todas as doenças vêm diretamente do diabo não é bíblico, mas sim fruto do fanatismo de alguns religiosos. Há enfermidades que surgem por acidentes, falta de exercícios, maus hábitos alimentares, por exemplo. O fato de Deus não curar Paulo não indica que o apóstolo “tivesse pouca fé”.
Basta - O servo de Deus teve fé, a ponto de “orar três vezes” (2 Coríntios 12:8) pela cura. Ellen G. White afirma: "Quando Paulo orou para que fosse removido de sua carne o espinho, o Senhor atendeu a sua oração, não mediante o remover o espinho, mas dando-lhe graça para suportar a prova. 'A Minha graça te basta', disse Ele. Paulo alegrou-se com essa resposta à oração, dizendo: 'De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo' (2 Coríntios 12:9). Quando os doentes pedem a restauração da saúde, o Senhor nem sempre atende a sua oração exatamente do modo que desejam. Mas mesmo que não sejam imediatamente curados, Ele lhes dará aquilo que é de muito mais valor: graça para suportar sua doença" (Nos Lugares Celestiais, p. 81).
Mesmo que Deus não tenha respondido como Paulo esperava, assegurou-lhe que a Sua graça bastaria. "No grego, a palavra basta está na forma enfática. A prece não libertou o apóstolo da aflição, mas lhe proporcionou graça para suportá-la. Paulo apelou para a libertação da enfermidade, pois cria que ela era um obstáculo a seu ministério. Cristo mais que supriu sua necessidade com uma provisão abundante de graça. Deus nunca prometeu alterar as circunstâncias ou livrar as pessoas dos problemas. Para Ele, enfermidades físicas e circunstâncias desfavoráveis são questões de preocupação secundária. A força interior para suportar é, de longe, mais manifestação da graça divina do que dominar as dificuldades internas da vida. Externamente, uma pessoa pode estar despedaçada, exausta, esgotada e quase enfraquecida; no entanto, internamente, tem o privilégio de desfrutar perfeita paz, em Cristo" (CBASD, vol. 6, p. 1017).
Paulo, sabendo que Deus sempre quer o melhor e que o sofrimento pode ser um instrumento de Deus para o aperfeiçoamento do caráter (Deus não traz o sofrimento. Pode sim usá-lo), “de boa vontade” aceitou a decisão do Senhor. Isto só é possível pela fé.
Então, é que sou forte - O paradoxo cristão é que ocasiões de fraqueza podem ser transformadas em situações de força. A derrota sempre pode ser transformada em vitória. A verdadeira força de caráter surge da fraqueza, que, desconfiando do eu, é entregue à vontade de Deus" (CBASD, vol. 6, p. 1017).
Refletindo sobre esse texto, penso que meu espinho na carne me faz entender que sou extremamente dependente de Deus. Sem o seu amor e a sua misericórdia, não passo de alguém que não consegue sequer lutar contra sua natureza corrompida pelo pecado. O meu espinho na carne me faz desejar, cada dia mais, que nosso Salvador e Senhor, Jesus Cristo, volte o quanto antes, pois como disse Paulo, “considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada” (Romanos 8:18, NVI).
Devemos ter a esperança de que quando Jesus voltar em glória (Mateus 24:30-31; Apocalipse 1:7) Deus terminará com toda a dor e sofrimento. E o contentamento de poder ser feliz por toda a eternidade fará com que os problemas que enfrentamos hoje pareçam minúsculos.
Oremos: “Senhor, dá-me a serenidade de aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para mudar aquelas que eu posso mudar, e sabedoria para distinguir umas das outras. Por favor. Em nome de Jesus, amém!”

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