segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Morre Zygmunt Bauman: “Vivemos um tempo de secreta angústia”


Morreu nesta segunda-feira o educador, sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman. Conhecido como criador do conceito de modernidade líquida, Bauman, 91 anos, faleceu na cidade de Leeds, na Inglaterra, onde vivia. O padrão volátil dos relacionamentos e do consumo eram alguns dos temas caros ao sociólogo, que foram dissecados em livros como Vida para Consumo, Tempos Líquidos, A Sociedade Individualizada, Modernidade Líquida, O Mal-Estar da Pós-Modernidade, Amor Líquido e Capitalismo Parasitário são alguns de seus textos que fizeram sucesso pelo mundo. (Veja)

Zygmunt Bauman declarou que vivemos em um tempo que escorre pelas mãos, um tempo líquido em que nada é para persistir. Não há nada tão intenso que consiga permanecer e se tornar verdadeiramente necessário. Tudo é transitório. Não há a observação pausada daquilo que experimentamos, é preciso fotografar, filmar, comentar, curtir, mostrar, comprar e comparar. O desejo habita a ansiedade e se perde no consumismo imediato. 

A sociedade está marcada pela ansiedade, reina uma inabilidade de experimentar profundamente o que nos chega, o que importa é poder descrever aos demais o que se está fazendo. Em tempos de Facebook e Twitter não há desagrados; se não gosto de uma declaração ou um pensamento, deleto, desconecto, bloqueio. Perde-se a profundidade das relações; perde-se a conversa que possibilita a harmonia e também o destoar. Nas relações virtuais não existem discussões que terminem em abraços vivos, as discussões são mudas, distantes. As relações começam ou terminam sem contato algum. Analisamos o outro por suas fotos e frases de efeito. Não existe a troca vivida.

Ao mesmo tempo em que experimentamos um isolamento protetor, vivenciamos uma absoluta exposição. Não há o privado, tudo é desvendado: o que se come, o que se compra; o que nos atormenta e o que nos alegra. O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angústia. Filosoficamente a angústia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos. “Estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo.” (Zygmunt Bauman)

Texto de Luciana Chardelli (via Revista Pazes)

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