quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Reflexão sobre pecados, julgamentos prévios e condenações


Quando o assunto é pecado, sempre aparece, mesmo sem ser convidado, um intruso chamado julgamento prévio. Esse tal às vezes vem escondido – se nos bolsos de paletós bem cortados ou na mochila surrada, não importa -, mas sempre vem. Diz-se por aí que é fácil identificar pecados na conduta das pessoas. Alguns chegam a se apoiar nas palavras bíblicas "pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7:20) para explicar sua atitude covarde e desleal. O que não percebem é que o texto diz "pelos seus frutos os conhecereis" e não "pelos seus frutos os condenareis".

Condenar tem que ver com pecados, é verdade. Palavras ditas, roupas vestidas ou desvestidas, comidas e bebidas, presença em lugares "impróprios", ausências das mais diversas – isso, segundo a óptica vesga de quem ousa julgar, traduz o completo sentido do que seja pecado e essa é a munição de que precisam para seus ataques grosseiros e intempestivos.

Conhecer é algo totalmente diferente. Condenar é fácil, conhecer é difícil. Condenar só leva de nós um pouco de saliva e uma dúzia de palavras arrogantes. Conhecer exige mais. Exige atenção para observar o todo. Exige tempo para a maturação dos frutos (atos). Exige espaço para a dúvida. Exige humildade para perceber a ignorância. Exige ousadia para a repreensão. Exige consagração para a intercessão. Exige, sobretudo, um milagre: o perdão.

Quem simplesmente condena, desconhece a existência de algo errado na vida das pessoas erradas (e uma delas sou eu), algo além de seus muitos pecados: o pecado (em sua essência). Desconhecem a existência do vírus que percorre as veias dos atos e até dos pensamentos de todos nós, os azarados escolhidos para viver neste planeta errado.

Não faz muito tempo, ouvi a história de uma viagem num trem lotado. Era mais um daqueles dias que amanhecem frios e tristes do inverno europeu. Em um certo vagão iam pessoas normais, com destinos normais, para atividades normais, em um dia normal. Não queriam muita coisa, só o silêncio frio no vagão já lhes bastava. De repente, um choro de criança rouba-lhes o último privilégio. As pessoas acordaram, entreolharam-se, e como se o choro não fosse parar nunca mais, um homem se adiantou aos pensamentos da maioria e gritou: "Alguém aí dê um jeito nessa criatura!"... Silêncio por um momento. Mas a desculpa tímida veio do homem que tinha o bebê nos braços: "Desculpem-me, senhores. É que o meu bebê não dormiu a noite toda. Minha esposa morreu, seu corpo está no vagão de cargas. Vamos em direção à nossa cidade natal para enterrá-la, mas eu não sei muito bem como acalmar meu pequeno... desculpem-me". O primeiro homem se calou envergonhado, duas mulheres se aproximaram para ajudar, o nenê dormiu e a viagem seguiu.

O pecado é um grito desajeitado em meio ao silêncio harmonioso da criação de Deus. O pecado fez até o próprio Deus chorar. Há quem só perceba, e chegue mesmo a condenar, o choro das crianças no vagão dessa vida ingrata e desconheça a história do Pai que sofre.

Antes de usar os dedos para condenar, use os joelhos para orar.

Antes de condenar, conheça.

Pr. Cândido Gomes (via Para Ler, Reler e Treler) (Título original: Parêntesis)

“Aquele que é culpado de erro é o primeiro a suspeitar do erro. Condenando o outro, está ele procurando ocultar ou desculpar o mal do próprio coração. Foi por meio do pecado que os homens adquiriram o conhecimento do mal; tão depressa havia o primeiro casal pecado, começaram a se acusar um ao outro e é isto que a natureza humana inevitavelmente fará, quando não se ache controlada pela graça de Cristo." (Ellen G. White, O Maior Discurso de Cristo, p. 126)

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