quarta-feira, 7 de julho de 2021

AS DUAS COROAS

Esta visão foi concedida a Ellen G. White em Battle Creek, Michigan, a 25 de outubro de 1861:

Foi-me mostrada esta Terra, escura e triste. Disse o anjo: "Olha atentamente!" Então foi-me mostrado o povo sobre a Terra. Alguns estavam rodeados de anjos de Deus, outros se achavam em completas trevas, cercados de anjos maus. Vi um braço estendido do céu, segurando um cetro de ouro. Na extremidade superior do cetro havia uma coroa, cravejada de brilhantes. Cada brilhante emitia luz, fulgurante clara e bela. Inscritas na coroa havia estas palavras: "Todos os que me conquistam são felizes, e terão vida eterna."

Embaixo dessa coroa havia outro cetro, e sobre ele também outra coroa, em cujo centro havia jóias, ouro e prata refletindo alguma luz. A inscrição sobre a coroa era: "Tesouros terrestres. Riqueza é poder. Todos os que me conquistam têm honra e fama." Vi uma vasta multidão que porfiava por alcançar essa coroa. Faziam grande rumor. Alguns, em sua avidez, pareciam privados da razão. Empurravam-se uns aos outros, deixando para trás os mais fracos, pisando sobre os que, na pressa, caíam. Muitos avidamente se apoderavam dos tesouros que estavam na coroa, e os seguravam firmemente. A cabeça de alguns era branca como a prata, e seu rosto estava enrugado pelos cuidados e ansiedade. Não tomavam em consideração seus próprios parentes, ossos de seus ossos e carne da sua carne; mas, enquanto para eles eram lançados olhares súplices, mais firmemente seguravam seus tesouros, como se estivessem receosos de que num momento de descuido perdessem um pouco, ou fossem induzidos a reparti-los com eles. Seus olhares ávidos muitas vezes se fixavam na coroa terrestre, e contavam e recontavam seus tesouros.

Vultos que exprimiam necessidade e miséria, apareciam naquela multidão, olhavam cobiçosos os tesouros, e voltavam sem esperanças, visto que os mais fortes sobrepujavam e afastavam os mais fracos. Contudo não podiam assim desistir; mas, com uma multidão de deformados, doentes, idosos, procuravam avançar para a coroa terrestre. Alguns morriam ao tentar alcançá-la; outros sucumbiam precisamente no ato de se apoderarem dela. Muitos morriam, pouco depois que se haviam dela apossado. Cadáveres juncavam o solo; todavia a multidão avançava, pisando os que estavam caídos e o cadáver de seus companheiros. Cada um que atingia a coroa, adquiria parte nela, e era ruidosamente aplaudido pela multidão interessada que se achava em redor.

Uma grande multidão de anjos maus estava ocupadíssima. Satanás estava no meio deles, e todos olhavam com a maior satisfação para a multidão que lutava pela coroa. Ele parecia lançar um encanto particular sobre os que avidamente a buscavam.

Muitos que procuravam essa coroa terrestre eram cristãos professos. Alguns pareciam ter alguma luz. Olhavam interessados para a coroa celestial, e pareciam muitas vezes encantar-se com sua beleza, contudo não tinham o verdadeiro senso de seu valor e glória. Enquanto timidamente estendiam uma das mãos à coroa celeste, a outra estendiam-na avidamente à terrestre, decididos a possuí-la; e na sua diligência ansiosa por obter a terrestre, perdiam de vista a celeste. Ficavam em trevas, e mesmo assim andavam às apalpadelas, com ansiedade, buscando conseguir a coroa terrestre.

Alguns se desgostavam da multidão que a procurava tão veementemente; pareciam ter intuição de seu perigo, e dele se desviavam, e diligentemente buscavam a coroa celestial. O rosto desses logo mudava de escuro para claro, de triste para prazenteiro e cheio de santa alegria.

Vi então um grupo, comprimindo-se por entre a multidão, tendo os olhos atentamente fixos na coroa celestial. Enquanto com esforço procuravam caminho por entre a multidão desordenada, ajudavam-nos anjos, que abriam caminho para que avançassem. Aproximando-se eles da coroa celestial, a luz que dela provinha resplandecia sobre eles e em redor deles; afugentava as trevas, e tornava-se mais clara e brilhante, até que eles pareciam transformar-se e assemelhar-se aos anjos. Não se detinham em olhar para a coroa terrestre. Os que estavam se empenhando na conquista da coroa terrestre, escarneciam deles, e atiravam-lhes bolas pretas pelas costas. Essas não lhes faziam mal contanto que seus olhos se mantivessem fixos na coroa celestial; aqueles, porém, que volviam a atenção para as bolas negras, eram por elas manchados. Foi-me apresentado o seguinte texto:

"Não ajunteis tesouros na Terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam; mas ajuntai tesouros no Céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração. A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom" (Mt 6:19-24).

Então o que eu vira me foi explicado como segue: 

A multidão que tão avidamente se esforçava por alcançar a coroa terrestre, eram os que amam os tesouros deste mundo e se deixam enganar e lisonjear por suas efêmeras atrações. Alguns vi que, embora professem ser seguidores de Jesus, têm tanta ambição de obter os tesouros terrestres, que perdem o amor ao Céu, agem como o mundo, e por Deus são considerados mundanos. Professam buscar uma coroa imortal, um tesouro nos Céus; mas seu interesse e principal empenho é adquirir tesouros terrestres. Aqueles que têm seus tesouros neste mundo e amam suas riquezas, não podem amar a Jesus. Poderão supor que são justas e, ainda que com garras de avarento se apeguem a suas posses, não poderão ser levados a enxergar isso ou compreender que amam o dinheiro mais do que a causa da verdade ou o tesouro celeste.

"Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso" (Mt 6:23). Houve um momento na experiência de tais pessoas, em que a luz que lhes fora dada não foi mantida, e se tornou em trevas. Disse o anjo: "Não podeis amar e adorar os tesouros da Terra, e ter as verdadeiras riquezas."

Quando aquele jovem foi ter com Jesus e Lhe disse: "Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?" (Mc 10:17). Jesus lhe ofereceu esta escolha: Desfazer-se de suas posses e ter a vida eterna, ou reter aquelas e perder estas.

Suas riquezas lhe eram de maior valor do que o tesouro celeste. A condição de desfazer-se de seus tesouros e dá-los aos pobres a fim de se tornar seguidor de Cristo e ter a vida eterna, esfriou-lhe o desejo, e ele se retirou, triste.

Aqueles que me foram apresentados como estando sequiosos pela coroa terrestre, são os que recorrerão a todos os meios para adquirir propriedades. Tornam-se doidos neste sentido. Todos os seus pensamentos e energias se dirigem para a aquisição de riquezas terrestres. Pisam os direitos de outrem, oprimem os pobres, e o jornaleiro em seu salário. Se podem ter vantagem sobre os que são mais pobres e menos sagazes, e assim agir de maneira a aumentar suas riquezas, não hesitarão um momento em oprimi-los, e mesmo vê-los levados à mendicidade.

Os homens encanecidos pela idade, e de rosto enrugado pelos cuidados, e que no entanto avidamente agarravam os tesouros de dentro da coroa, eram homens idosos, que poucos anos tinham diante de si. Contudo eram inflexíveis na defesa de seus tesouros terrestres. Quanto mais se aproximavam do túmulo, tanto mais ansiosos ficavam em apegar-se a eles.

Seus próprios parentes não eram beneficiados. Para economizar um pouco de dinheiro, consentiam que os membros de sua própria família trabalhassem além de suas forças. Não o empregavam para o bem dos outros, nem para o seu próprio bem. Bastava-lhes saber que o possuíam. Ao ser-lhes apresentado o dever de suprir as necessidades dos pobres e de sustentar a causa de Deus, ficavam desgostosos. Alegremente aceitariam o dom da vida eterna, mas não quereriam que lhes custasse coisa alguma. As condições são muito penosas. Mas Abraão, para tal fim não recusou o seu único filho. Em obediência a Deus, sacrificaria esse filho da promessa, mais facilmente do que muitos sacrificariam algumas de suas possessões terrestres.

Era doloroso verem-se aqueles que deveriam estar a amadurecer para a glória e a habilitar-se diariamente para a imortalidade, aplicando todas as suas forças na retenção de tesouros terrestres. Vi que esses tais não poderiam dar valor ao tesouro celestial. Seu apego intenso às coisas terrenas, leva-os a mostrar pelas suas obras que não estimam a herança celestial o bastante para por ela fazer qualquer sacrifício. O "jovem" manifestou vontade de guardar os mandamentos, contudo nosso Senhor lhe disse faltar alguma coisa. Desejava a vida eterna, mas amava mais as suas possessões. Muitos se enganam a si mesmos. Não buscam a verdade como se fosse um tesouro escondido. Não tiram o melhor partido possível de suas faculdades. Sua mente, que poderia iluminar-se com a luz do Céu, fica perplexa e perturbada. "Os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas, e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera." "Tais pessoas", disse o anjo, "estão sem desculpa." Vi a luz desvanecendo-se delas. Não desejavam compreender as solenes e importantes verdades para este tempo, e achavam que estavam bem sem as compreender. A luz se foi deles, e ficaram às apalpadelas, em trevas.

A multidão dos deformados e doentes que se comprimia para alcançar a coroa terrestre são aqueles cujos interesses e tesouros estão neste mundo. Conquanto de todos os modos sofram desenganos, não colocarão suas afeições no Céu, nem assegurarão para si naquele lugar um tesouro e um lar. Fracassam na busca das coisas terrestres, e no entanto perdem as celestiais enquanto pelejam por aquelas. Apesar do desengano, vida infeliz e morte daqueles que puseram todo o seu empenho na obtenção de riquezas terrestres, outros seguem o mesmo caminho. Atiram-se doidamente, sem tomar em consideração o fim miserável daqueles cujo exemplo estão seguindo.

Os que alcançaram a coroa e nela obtiveram parte, tendo por isso sido aplaudidos, são aqueles que conseguem o que constitui o único objetivo de sua vida: riquezas. Recebem a honra que o mundo confere aos que são ricos. Têm influência no mundo. Satanás e seus anjos maus estão satisfeitos. Sabem que esses são certamente deles, e que enquanto viverem em rebelião contra Deus, são poderosos agentes de Satanás.

Os que se desgostaram com a multidão que clamava pela coroa terrestre, são aqueles que notaram a vida e o fim de todos os que se esforçam por conseguir riquezas terrestres. Vêem que esses tais nunca estão satisfeitos, mas são infelizes; assustam-se e se separam daquela classe infeliz, e procuram as riquezas verdadeiras e duráveis.

Quanto àqueles que forçam por passar através da multidão a fim de obter a coroa celeste, auxiliados pelos santos anjos, foi-me mostrado serem o fiel povo de Deus. Os anjos os conduzem, e eles são inspirados com zelo a fim de se esforçarem para prosseguir na aquisição do tesouro celeste.

As bolas pretas que eram atiradas às costas dos santos, eram as falsidades infamantes postas em circulação contra o povo de Deus, por aqueles que amam e praticam a mentira. Deveríamos ter o máximo cuidado em viver vida irrepreensível, e abster-nos de toda aparência do mal; e então é nosso dever avançar destemidamente, sem dar atenção às faculdades degradantes dos ímpios. Enquanto os justos mantiverem os olhares fixos no tesouro celeste e inapreciável, tornar-se-ão mais e mais semelhantes a Cristo, e assim estarão transformados e dispostos para a trasladação.

[Vidas e Ensinos, cap. 27, pp. 161-167]

terça-feira, 6 de julho de 2021

COMO SER FEIO

Que Deus ama a beleza, isto é fato. A Bíblia é cheia de conselhos de como termos uma boa imagem. Gosto de ver como o conceito de Deus sobre a beleza é mais profundo e verdadeiro que o nosso. Mas hoje vamos descobrir como ser feio(a), e não bonito(a). Que proposta estranha, não é?

Sejam escandalosos
“Como joia de ouro no focinho de uma porca é a mulher formosa sem discrição” (Pv 11:22).

Adoro esse verso, e acho até graça nele. Quando eu era adolescente e morava numa cidade bem pequena e pacata, nossa diversão do sábado à noite com os amigos era sentar num banquinho da praça pra bater papo (era muito bom). Lembro-me que quando a gente estava saindo de casa pra esse programinha, meu pai falava o seguinte pra mim e pra minha irmã:

— Meninas, não fiquem dando risada escandalosa lá, tá?

Pode parecer estranho pra você, mas a gente entendia o que ele queria dizer. Meu pai gostava que a gente tivesse postura de princesa. Imaginar que as filhas estavam na praça rindo alto, chamando a atenção de todo mundo, o deixava incomodado. Sim, vale ser elegante e discreta até mesmo no jeito de falar e gargalhar. Isto vale para os homens também.

Mantenham a cara fechada
“O coração alegre aformoseia o rosto” (Pv 15:13).

Então, podemos concluir que o coração amargurado “enfeiura” o rosto. Já vi tanta gente longe dos padrões modernos da beleza, mas muito bem resolvida no amor, tendo muitos amigos e sendo admirada por onde passa. Esse provérbio é bem literal, além de poético. Pessoas sorridentes e de bem com a vida transmitem autoconfiança e beleza da forma mais natural possível.

Meninas, nada como ser bonita até em acampamento de igreja, acordando com a camiseta do Quebrando o Silêncio, sem chapinha nem nada. O melhor adorno de todos é um sorriso sincero e contagiante, mesmo que seja com prótese dentária ou aparelho ortodôntico. Não importa! Quem fica de mau humor e de cara fechada carrega na testa uma placa que diz: “Eu escolhi espantar”.

Sejam entediantes e sem vontade de viver
“A beleza dos jovens está na sua força” (Pv 20:29).

Sabe aquele tipo de pessoa desanimada, sem força de vontade, sem garra nem determinação pra nada? Ela leva tédio e baixo astral por onde passa. É como se tivesse se “pintado de cinza” pra ser o mais sem graça possível. Quem convive com uma pessoa assim foge dela em cada oportunidade. Aposte na força que Deus lhe dá. Com Ele, você pode tudo! Grande parte da sua beleza está na sua força, disse Salomão.

Valorize e priorize sua “carcaça”, pois ela é tudo!
“A beleza é enganosa e a formosura é passageira, mas a mulher que teme o Senhor será elogiada” (Pv 31:30).

Já vimos que a felicidade está intimamente ligada à beleza, e a melhor forma de garantir a felicidade plena é sendo um com Cristo. Não importa quanta grana ou força de vontade você tenha. De qualquer forma, você vai enrugar, ficar com o cabelo sem viço e com o corpo menos esguio. Baseie sua autoestima e beleza em algo que o tempo não pode estragar nem tirar de você — assim será daqueles vovozinhos fofos que dá até vontade de guardar num potinho (com um furinho pra respirar, claro). Gracinhas à parte, que o tesouro da sua beleza esteja no Céu, guardado no coração de Deus, pois lá nada pode ser destruído.

Emanuelle Sales (via Imagem & Semelhança)

"A beleza natural consiste da simetria ou da harmoniosa proporção das partes, de uma para com outra; mas a beleza espiritual consiste na harmonia ou semelhança de nossa alma com Jesus. Isso tornará seu possuidor mais precioso que o ouro fino, mesmo o ouro de Ofir. A graça de Cristo é, de fato, adorno de incalculável preço. Eleva e enobrece seu possuidor, reflete raios de glória sobre outros, atraindo-os também para a fonte de luz e bênçãos" (Ellen G. White - Orientação da Criança, pp. 423 e 424)

segunda-feira, 5 de julho de 2021

O JOVEM NU

“Um jovem, vestindo apenas um lençol de linho, estava seguindo Jesus. Quando tentaram prendê-lo, ele fugiu nu, deixando o lençol para trás” (Marcos 14:51, 52).

A cidade de Jerusalém estava vivendo a noite mais dramática de sua história. Judas liderava a turba de sacerdotes e soldados que iam prender Jesus. Já era noite. Muitas pessoas apenas observaram a cena, mas um jovem não se conteve. Do jeito que estava, enrolado em um lençol, pulou de sua cama e infiltrou-se no meio da turba que estava levando Jesus preso. Ele não se deu conta de que estava indevidamente vestido e de que poderia ser exposto ao vexame.

Esse jovem é um símbolo daqueles que seguem a multidão, mas sem saber direito o que está acontecendo. Ele representa os seguidores ocasionais e os discípulos de plantão. O jovem estava seguindo a Jesus, mas sem medir as consequências. Estava vestido inconvenientemente e despreparado para enfrentar as dificuldades. Esse texto nos ensina algumas lições:

Primeira - os que se cobrem com um lençol representam os que seguem a Cristo sem compromisso. Aquele jovem tornou-se um discípulo casual, de improviso, que seguia a Jesus movido apenas pela curiosidade. Ainda hoje, muitos estão na igreja, mas não seguem a Jesus de verdade. Estão no meio da multidão, mas não têm qualquer aliança com Ele.

Segunda - os que se vestem com um lençol são um símbolo daqueles que vivem superficialmente. O lençol era a única cobertura que aquele jovem possuía; portanto, era uma proteção superficial. Quando lhe arrancaram o lençol, não havia mais nada para lhe proteger a vergonha. Hoje, ainda há muitas pessoas que vivem uma vida rasa, descomprometida, superficial. Têm apenas um verniz, uma aparência de piedade, mas nenhuma essência de santidade.

Terceira - aqueles que se cobrem com um lençol são adeptos do pragmatismo. Eles preferem o que dá certo em lugar do que é certo. Não era certo sair de lençol, mas naquele momento deu certo. Era noite, e ele pensou que poderia passar despercebido. O lençol enrolado no corpo, à noite, parecia uma vestimenta decente. Sua ética era a ética do momento, da conveniência. Muitos ainda hoje agem da mesma forma. Estão mais preocupados com resultados do que com a Verdade; buscam mais a conveniência pessoal do que fazer o que é certo diante de Deus.

Quarta - aqueles que se cobrem com um lençol são um símbolo daqueles que não podem se defender. Aparentemente favorecido pela escuridão, na verdade o jovem viu-se indefeso quando foi atacado. Ao precisar usar suas mãos, o lençol caiu e ele ficou nu. Eram suas mãos que faziam com que o lençol aderisse ao corpo. Ao liberar as mãos, o lençol caiu e ele ficou vulnerável, exposto, desprotegido. O inimigo agarrou o lençol, a única coisa que lhe protegia. Ficou nu. Fugiu nu.

As máscaras podem nos esconder por um tempo, mas ninguém consegue prendê-las com plena segurança. Uma hora a máscara cai e deixa a pessoa em maus lençóis, ou pior, sem lençol. Muitos se infiltram no meio da multidão despreparados para a luta. Na hora da crise, quem estiver trajando apenas um lençol ficará exposto ao opróbrio e à vergonha.

Você precisa trajar toda a armadura de Deus! Você precisa ser um discípulo de verdade, um seguidor de Cristo pronto a viver e morrer com Ele e por Ele, sem precisar fugir envergonhado.

"Portanto, aconselho que comprem de mim ouro puro para que sejam, de fato, ricos. E comprem roupas brancas para se vestir e cobrir a sua nudez vergonhosa. Comprem também colírio para os olhos a fim de que possam ver. Eu corrijo e castigo todos os que amo. Portanto, levem as coisas a sério e se arrependam. Escutem! Eu estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa, e nós jantaremos juntos. Aos que conseguirem a vitória eu darei o direito de se sentarem ao lado do meu trono, assim como eu consegui a vitória e agora estou sentado ao lado do trono do meu Pai" (Apocalipse 3:18-21 NTLH).

Ilustração: Arte de Antonio Allegri Correggio (1484-1534)

P.S.: A identidade do jovem mencionado no texto está envolvida em conjecturas. A tradição cristã e alguns eruditos têm identificado o rapaz como o próprio João Marcos, tido como autor desse evangelho. Um dos argumentos é o fato de que, em outra situação de perigo, ele abandonou Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária feita por eles (At 13:13). Há também a tradicional especulação de que a última ceia teria ocorrido em sua casa, razão pela qual os soldados se dirigiram para lá em busca de Jesus. Estando dormindo, ele teria acordado e, assustado, correu sem se vestir devidamente. De acordo com o costume antigo de se expressar, o jovem não estaria totalmente despido, mas envolvido por um lençol e vestido com roupas íntimas.

Contrariando a crença de que o jovem era Marcos, há o argumento de que, no momento da prisão de Cristo, todos os discípulos haviam fugido (Mc 14:50), o que torna inviável a presença dele. Além disso, embora a narrativa pareça ter sido feita por uma testemunha, esse não seria o caso desse evangelho. Marcos foi um narrador que relatou fatos que chegaram a seu conhecimento. Papias de Hierápolis, escritor do 2º século, afirmava que Marcos apenas reproduziu as lembranças de Pedro.

À parte dessas opiniões, tudo indica que Jesus era tão especial para aquele moço que pouca importância deu ele à sua condição, a fim de estar perto do Mestre. Embora tenha fugido, aparentemente depois de ter resistido ao ataque da turba, permanece o fato de que nenhuma barreira de constrangimento por não estar devidamente vestido foi tão forte para impedi-lo de se aproximar de Cristo. A veste material não lhe parecia mais importante que a veste espiritual do amor, da graça e aceitação de Jesus.

domingo, 4 de julho de 2021

INDEPENDENCE DAY

Os Estados Unidos da América (EUA) comemoram neste domingo, 4 de julho, o 245º aniversário da sua Independência. Nesta data, em 1776, treze colônias britânicas na América do Norte fizeram a Declaração de Independência, rejeitando a autoridade britânica, a favor da política de autodeterminação. A independência foi oficialmente reconhecida pela Grã-Bretanha no Tratado de Paris.

O mundo entende que a política, eleições, tendências e economia dos Estados Unidos influenciam todas as outras nações do planeta. É a única superpotência do mundo, sem rivais próximos. E uma interpretação bíblica que vem se confirmando, revela que esta nação participará no cumprimento de uma das últimas profecias da Bíblia. Essa profecia está em Apocalipse 13.

Neste capítulo há a descrição de duas potências que são inimigas dos adoradores fiéis de Deus. Nos recuados tempos quando o Império Romano governava o mundo, Deus revelou ao apóstolo João, autor do Apocalipse, o surgimento de dois poderes de influência mundial. O primeiro é representado por uma “besta que emerge do mar” (Ap 13:1). Os reformadores protestantes identificaram a “besta do mar”. Para Martinho Lutero, João Calvino e os grandes reformadores protestantes do século 16, todas as descrições proféticas de Apocalipse 13:1-10 aplicam-se perfeitamente ao Império Romano em sua fase papal, ou seja, à hierarquia religiosa mais poderosa do planeta. Seu histórico de intolerância para com as ideias discordantes, evidente em episódios como o da Inquisição, confirma que a Igreja Romana está representada na Bíblia como a primeira besta de Apocalipse 13.

A segunda potência descrita no mesmo capítulo está figurada como “outra besta que emerge da terra” (Ap 13:11). Segundo o relato bíblico, essa “besta” “possuía dois chifres”, parecia “um cordeiro, mas falava como um dragão”. Ela “exerce toda a autoridade da primeira besta na sua presença”. Segundo Vanderlei Dorneles, em seu livro O Último Império, o teólogo puritano Thomas Goodwin sugeriu em 1680 uma importante pista que levou à posterior identificação do símbolo profético. Ele concluiu que a segunda besta de Apocalipse 13 era a “imagem protestante do papado nas igrejas reformadas”.

Mais de um século depois, em 1798 e 1799, Jeremy Belknap e John Bacon, ambos da igreja congregacional, relacionaram os “chifres” da besta apocalíptica aos valores formativos dos Estados Unidos. Bacon defendeu que os dois chifres representavam a “liberdade civil e religiosa na América”. Os Estados Unidos eram independentes havia apenas 23 anos, e a Constituição americana vigorava há uma década.

Mas foi apenas em 1850 que essa interpretação se consolidou. George W. Holt, Hiram S. Case, Tiago White e Hiram Edson analisaram todos os elementos da profecia e concluíram que a segunda besta do Apocalipse é “a república protestante dos Estados Unidos”. No ano seguinte, um jovem de 22 anos chamado John Nevins Andrews destrinchou todas as evidências que apontam ser a nação americana a potência representada em Apocalipse 13:11-18. Com base nisso, ele previu que os Estados Unidos se tornariam um império mundial. Vale lembrar que, quando Andrews escreveu isso, a bandeira americana tinha apenas 31 das 50 estrelas que tem atualmente. Os 31 estados representados na flâmula compunham uma nação rural (apenas 15% da população vivia nas cidades). Ainda dependente da mão de obra escrava, o país com expressão econômica tímida no cenário internacional dava os primeiros passos de uma industrialização tardia em relação à Europa ocidental e tentava se erguer dos resultados da depressão econômica de 1837.

Ellen G. White assim descreve: "A profecia de Apocalipse 13 declara que a besta semelhante ao cordeiro fará com que 'a Terra e os que nela habitam' adorem o papado — simbolizado pela besta “semelhante a leopardo”. A besta de dois chifres também dirá a todos 'que habitam sobre a Terra, que façam uma imagem à besta, àquela que, ferida de espada, sobreviveu'. Além disso, ordenará a todos, 'os pequenos e os grandes, os ricos e os pobres, os livres e os escravos', que recebam a marca da besta (Apocalipse 13:11-16). Os Estados Unidos são o poder representado pela besta com chifres semelhantes aos de cordeiro. Esta profecia se cumprirá quando os Estados Unidos impuserem a observância do domingo, que Roma alega ser um reconhecimento de sua supremacia" (O Grande Conflito, p. 252).

Hoje, é indiscutível a liderança norte-americana no panorama internacional. Isso confirma a interpretação da profecia, que também revela que a “besta da terra” (EUA) levaria as pessoas a se sujeitarem à autoridade da “besta do mar” (Vaticano). Segundo a profecia, a nação americana “faz com que a terra e os seus habitantes adorem a primeira besta” e “seduz os que habitam sobre a terra por causa dos sinais que lhe foi dado executar diante da besta, dizendo aos que habitam sobre a terra que façam uma imagem à besta”.

A autora cristã Ellen G. White escreveu em 1888 que, “a fim de formarem os Estados Unidos uma imagem da besta, o poder religioso deve a tal ponto dirigir o governo civil que a autoridade do Estado também seja empregada pela Igreja para realizar os próprios fins” (O Grande Conflito, p. 443).

Em suma, “a imagem da besta” é uma nova versão do que vigorou na Idade Média: o papa mandava no rei, e o rei dava poder ao papa e executava a vontade deste.

Em seu livro Liberdade Americana e Poderio Católico, escrito em 1948, o jurista estadunidense Paul Blanshard previu, após minuciosa análise dos documentos históricos do catolicismo, que este pretendia conquistar poder político nos Estados Unidos. Blanshard alertou que a Igreja Católica, caso não mudasse sua postura, e caso os Estados Unidos não se precavessem contra ela, avançaria rumo ao controle do país e à supressão da liberdade religiosa.

Blanshard escreveu bem antes de 1984, quando os Estados Unidos estabeleceram relações diplomáticas com a Santa Sé. A aproximação entre a maior potência econômica e militar do planeta e a mais pujante hierarquia religiosa do globo deve ser encarada como a concretização de um perigoso cenário profético e apocalíptico. Segundo Ellen G. White, “quando as principais igrejas dos Estados Unidos, ligando-se em pontos de doutrinas que lhes são comuns, influenciarem o Estado para que imponha seus decretos e lhes apoie as instituições, a América do Norte protestante terá então formado uma imagem da hierarquia romana, e a aplicação de penas civis aos dissidentes será o resultado inevitável” (ibid., p. 445).

Três livros publicados pela Casa Publicadora Brasileira descrevem os pormenores das profecias referentes ao papel que os Estados Unidos desempenham no fim dos tempos. O livro Apocalipse 13: Isso Poderia Realmente Acontecer? apresenta a projeção do cenário social e religioso dos Estados Unidos, segundo as profecias bíblicas. Já a obra O Último Império: A Nova Ordem Mundial e a Contrafação do Reino de Deus revela como as pretensões imperialistas dos Estados Unidos podem levar a nação a impor leis religiosas em outros países. Além desses, o clássico O Grande Conflito reconta de uma perspectiva profética a história mundial e dá impressionantes previsões a respeito do futuro.

O cenário de união entre as potências religiosas e políticas do mundo é um dos últimos sinais que antecederão a segunda vinda de Cristo e o fim do mundo. Quando Cristo vier, as autoridades políticas e religiosas perderão seus poderes, e Deus salvará o seu povo e será o único governante do Universo, e “Ele reinará pelos séculos dos séculos” (Apocalipse 11:15).

Portanto, precisamos acompanhar com atenção o que vem acontecendo em nosso planeta – com um olho na Bíblia e outro nos sinais –, mas é preciso, também, evitar alarmismos que apenas criam sensacionalismo e que, no fim das contas, quando tudo passa, deixam um rastro de frustração. Lembremo-nos sempre de que, mais importante do que os sinais em si é a pessoa para a qual os sinais apontam: Jesus Cristo. Devemos amar a vinda dEle, mas sem descuidar da nossa comunhão com Ele agora e da missão de falar do amor e da salvação que Ele ainda oferece. Ele voltará em breve? Sim, eu creio nisso. Mas minha vida pode ser ainda mais breve do que esse grande evento, posto que tão frágil e incerta. Isso é um lembrete de que nosso preparo tem que ser diário; nossa ligação com Deus tem que ser constante, e não dependente de acontecimentos e circunstâncias.

sábado, 3 de julho de 2021

24 ANCIÃOS

A referência aos 24 anciãos é feita por João em Apocalipse 4:4:

“Ao redor do trono há também vinte e quatro tronos e assentados nele vinte e quatro anciãos vestidos de branco, em cujas cabeças estão coroas de ouro.”

Uriah Smith, grande expoente da escatologia nos anos iniciais da Igreja Adventista do Sétimo Dia, interpreta da seguinte forma os 24 anciãos. Em Biblioteca dos Pioneiros Adventistas - Considerações sobre Daniel e Apocalipse, p. 408-410, lemos:

Quem são estes seres que rodeiam o trono de glória? Observe-se que estão vestidos de branco e têm na cabeça coroas de ouro, que são sinais tanto de um conflito terminado como de uma vitória ganha. Daqui concluímos que participaram anteriormente na luta cristã, trilharam outrora, com todos os santos, esta peregrinação terrena, mas venceram, e, com antecipação à grande multidão dos remidos, estão com suas coroas de vitória no mundo celeste.

Com efeito, nos dizem isso claramente no cântico de louvor que tributam ao Cordeiro: “E entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, parque foste morto e com o Teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação” (Apocalipse 5:9). Este cântico é cantado antes de se realizar qualquer dos acontecimentos preditos na profecia dos sete selos, porque é cantado para estabelecer que o Cordeiro é digno de tomar o livro e de abrir os selos, visto Ele próprio já ter operado a redenção deles. Não é algo colocado aqui por antecipação, com aplicação apenas no futuro, mas expressa um fato absoluto e consumado na história dos que o cantam. Esta, pois, era uma classe de pessoas remidas desta Terra, como todos devem de ser remidos: pelo precioso sangue de Cristo.

Encontraremos alguma outra parte outra referência a esta classe de remidos? Cremos que Paulo se refira ao mesmo grupo, quando escreve assim aos efésios: “Pelo que diz: Subindo ao alto levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens.” O original diz: levou “uma multidão de cativos” (Efésios 4:8).

Retrocedendo aos acontecimentos relacionados com a crucifixão e ressurreição de Cristo, lemos: “Abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos” (Mateus 27:52, 53). A página sagrada dá, pois, a resposta à nossa pergunta. Estes são alguns dos que saíram dos sepulcros quando Cristo ressuscitou, e foram contados entre a ilustre multidão que Ele tirou do cativeiro do sombrio domínio da morte quando subiu em triunfo ao Céu. Mateus fala de Sua ressurreição, Paulo de Sua ascensão, e João os contempla no Céu, fazendo os sagrados deveres para o cumprimento dos quais foram ressuscitados.

Não estamos sozinhos nesta interpretação. João Wesley fala dos vinte e quatro anciãos nos seguintes termos: “‘Vestidos com vestes brancas’. Isto e as suas coroas de ouro mostram-nos que já terminaram a sua carreira e ocuparam seus lugares entre os cidadãos do Céu. Não são chamados almas, e por isso é provável que já tenham corpos glorificados. Compare-se com Mateus 27:52”. (John Wesley, Explanatory Notes Upon the New Testament, p. 695, Comment on Revelation 4:4).

A atenção do leitor é atraída particularmente para o fato de se dizer que os vinte e quatro anciãos estão sentados em tronos (grego: thronoi). Esta passagem derrama luz sobre a expressão que encontramos em Daniel 7:9: “Continuei olhando, até que foram postos uns tronos”. Esta figura é tomada do costume oriental de pôr esteiras ou divãs para os hóspedes distintos se sentarem. Estes vinte e quatro anciãos evidentemente são assistentes de Cristo em Sua obra de mediação no santuário celeste. Quando a cena do juízo descrita em Daniel 7:9 começou no lugar santíssimo, seus tronos foram postos ali, segundo o testemunho dessa passagem.

Na Lição da Escola Sabatina do 2º trimestre de 1989 lemos o seguinte:

Quando Cristo morreu na cruz, esses santos ressuscitados não foram deixados na Terra para morrerem pela segunda vez. Foram levados para o Céu com Jesus, como as primícias de Seu sacrifício, e são hoje os vinte e quatro anciãos no Céu que foram mártires para Deus, desde o tempo da criação até o tempo de Cristo. Pode ser que Abel e João Batista estejam incluídos entre eles.

Em Apocalipse 4 o número 24 é usado simbolicamente. A cena toda é uma representação simbólica da realidade. Não devemos deduzir que há um número literal de 24 anciãos no Céu. Esse número chama nossa atenção para as funções dos anciãos. Como havia 24 divisões ou classes de sacerdotes que labutavam no santuário antigo, assim a obra dos anciãos é auxiliar a Cristo, nosso Sumo Sacerdote, em Seu ministério celestial.

Além de seus deveres sacerdotais no santuário, os antigos sacerdotes israelitas eram juízes adjuntos. Assim também, os anciãos celestiais ajudam a Cristo em Sua obra de julgamento.

As vestes brancas usadas por eles simbolizam a justiça de Cristo concedida aos crentes. Cristo, introduzido em nosso coração pelo Espírito Santo, é nossa justiça. As vestes brancas representam a Cristo no interior das pessoas. Sentados diante do trono de Deus no Céu há seres humanos redimidos que alcançaram a suprema vitória por meio de Cristo, que é a sua justiça. As coroas usadas pelos vinte e quatro anciãos representam a vitória espiritual que eles já receberam.

Ellen G. White explica assim: 

"Quando Jesus, estando suspenso na cruz, clamou: 'Está consumado', as pedras se partiram, a terra tremeu e algumas das sepulturas se abriram. Quando Ele surgiu, vitorioso sobre a morte e o túmulo, enquanto a terra vacilava e a glória do Céu resplandecia em redor do local sagrado, muitos dos justos mortos, obedientes à Sua chamada, saíram como testemunhas de que Ele ressurgira. Aqueles favorecidos santos ressurgidos saíram glorificados. Eram escolhidos e santos de todos os tempos, desde a criação até os dias de Cristo. Assim, enquanto os chefes judeus procuravam esconder o fato da ressurreição de Cristo, Deus preferiu suscitar, do túmulo, um grupo a fim de que testificasse que Jesus ressuscitara e declarasse Sua glória" (Primeiros Escritos, p. 184).

"Ascenderam com Ele, como troféus de Sua vitória sobre a morte e o sepulcro" (O Desejado de Todas as Nações, p. 786).

Outros intérpretes afirmam que os 24 anciãos são anjos, não seres humanos. Eles destacam que os anciãos são retratados ministrando as orações dos santos (Ap 5:8), obra que, segundo acreditam, dificilmente seria confiada a homens. Achamos improvável que sejam seres angélicos, assim como alguns sugerem. O fato de que se sentam em tronos indica que reinam com Cristo. Em nenhum lugar nas Escrituras os anjos governam ou sentam-se em tronos. Além disso, a palavra grega traduzida aqui como “anciãos” nunca é usada para se referir a anjos, apenas a homens, particularmente a homens de uma certa idade que são maduros e capazes de governar a Igreja. A palavra ancião seria inadequada para se referir aos anjos, os quais não envelhecem. Seu modo de vestir também indica que são homens. Embora os anjos apareçam em branco, roupas brancas são mais comumente usadas pelos crentes, simbolizando a justiça de Cristo a nós imputada na salvação (Apocalipse 3:5,18; 19:8).

Algumas pessoas acreditam que estes vinte e quatro anciãos representam Israel, mas no momento dessa visão, Israel como uma nação inteira ainda não tinha sido resgatada. Os anciãos não podem representar santos da tribulação pelo mesmo motivo – nem todos tinham sido convertidos no momento da visão de João.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

CONSTRUINDO O DIÁLOGO

PONTOS EM COMUM
Os adventistas do sétimo dia ocupam uma posição privilegiada quanto ao relacionamento com pessoas de outras denominações cristãs e religiões. Existem intersecções de valores que podem funcionar como ponto de partida para diálogos e parcerias com o intuito de melhorar as condições de vida de toda a família humana.

Por exemplo, os adventistas adotaram a abstinência de bebidas alcoólicas, um ponto em comum com os muçulmanos. Muitos adventistas também se abstêm de comer carne, ponto em comum com o hinduísmo e o budismo. A maioria dos adventistas evita as bebidas cafeinadas, ponto em comum com os mórmons. Mesmo os adventistas que comem carne se abstêm das que são consideradas imundas (Lv 11; Dt 14), ponto em comum com os judeus.

Em nível mais profundo, embora as nuances de conteúdo devam ser levadas em consideração, a crença na criação e na segunda vinda de Jesus à Terra, sugerida no nome “adventista do sétimo dia”, é compartilhada por religiões que enfatizam a intervenção escatológica divina para restaurar a justiça e a paz no mundo. Portanto, o adventismo é uma ponte oportuna para a maioria das religiões, e sua mensagem pode ecoar positivamente em vários contextos e culturas.

Há premissas filosóficas que influenciam o compromisso dos adventistas de construir pontes com pessoas de outras denominações, ou com ateus e agnósticos. Todas convergem na convicção de que Jesus Cristo é o “Desejado de todas as nações” (Ag 2:7-9, ARC), isto é, Ele é o Deus que as pessoas desejam profundamente conhecer, ainda que não estejam conscientes disso. Portanto, nosso diálogo é motivado pelo sincero desejo de testemunhar de Cristo, conforme O compreendemos a partir das Escrituras.

Entendemos também que, para dialogar, é preciso compreender o outro e ser compreendido por ele. Por isso, os adventistas procuram genuinamente conhecer melhor as crenças, as concepções de mundo e os valores de pessoas de outras religiões ou convicções, em seus próprios termos, de acordo com sua própria visão de mundo.

Existem várias declarações oficiais facilmente acessíveis que fornecem diretrizes a respeito de como os adventistas devem se relacionar com outras organizações religiosas. O livro Declarações da Igreja (CPB, 2012), traz alguns posicionamentos sobre o tema nas páginas 19-26, 133-138, 141-153.

Essas orientações giram em torno de uma abordagem positiva para com outras religiões e a necessidade de se garantir a liberdade de crença e autonomia para que todos possam testemunhar em favor de suas convicções. Adota-se a mesma abordagem quando se trata de pessoas que não professam nenhuma religião, adeptas de filosofias puramente seculares.

EVITANDO CONFLITOS
Para evitar equívocos ou conflitos em nossos relacionamentos com outras igrejas cristãs e organizações religiosas, vejamos algumas diretrizes que foram estabelecidas por Ellen G. White:

1. Agir com cautela
Sejam cautelosos em seus trabalhos, irmãos, não ataquem com demasiado vigor os preconceitos das pessoas. Não se deve sair do caminho para investir contra outras denominações, pois isso só cria um espírito combativo e fecha ouvidos e corações à entrada da verdade. Temos uma obra a fazer, a qual não é derrubar, mas construir. – Evangelismo, p. 574

2. Evitar barreiras
Não devemos, ao entrar em um lugar, criar barreiras desnecessárias entre nós e outras denominações, especialmente os católicos, de maneira que eles pensem que somos declarados inimigos seus. Não devemos despertar desnecessariamente preconceito na mente deles, fazendo ataques contra eles. – Evangelismo, p. 573

3. Enfatizar pontos em comum
Ao trabalharem em campo novo, não pensem ser dever de vocês declarar imediatamente ao povo: “Somos adventistas do sétimo dia; cremos que o dia de repouso é o sábado; acreditamos que a alma não é imortal”. Isso levantaria enorme barreira entre vocês e aqueles a quem desejam alcançar. Quando houver oportunidade, falem sobre pontos de doutrina sobre as quais vocês estão em harmonia com eles. Enfatizem a necessidade da espiritualidade prática. Deixem claro que vocês são cristãos, que desejam a paz e que amam essas pessoas. Que elas vejam que vocês são conscientes. Assim vocês ganharão a confiança; e depois haverá tempo suficiente para as doutrinas. – Obreiros Evangélicos, p. 119-120

4. Não afugentar as pessoas
Temos a solene responsabilidade de apresentar a verdade aos incrédulos da maneira mais convincente. Que cuidado devemos ter em não apresentá-la de maneira que possa afugentar homens e mulheres! Os mestres religiosos ocupam uma posição em que tanto podem realizar grande bem como grande mal. Cumpre-nos apresentar a verdade pela maneira por que Cristo disse a Seus discípulos que o fizessem — em simplicidade e amor.– Evangelismo, p. 143

5. Não desafiar
É nosso trabalho retirar de todas as nossas apresentações qualquer coisa que tenha o sabor de retaliação ou desafio, aquilo que poderia causar ações contra igrejas ou indivíduos, pois esse não é o caminho nem o método de Cristo. — Testemunhos para a Igreja, v. 9, p. 244

6. Não publicar críticas e acusações
Todo artigo que escrevemos pode ser inteiramente verdadeiro, mas, se contiver uma gota de fel, será veneno para o […] leitor. Por causa dessa gota de veneno, alguém irá rejeitar todas as nossas boas e aceitáveis palavras. Não recebemos a tarefa de reprovar ou proferir ataques pessoais em nossos periódicos. Essa atitude é enganosa. Lembremo-nos de que através de nossa atitude espiritual demonstramos que estamos nos alimentando de Cristo, o Pão da vida. Por nossas palavras, nosso temperamento e nossas ações, testificamos àqueles com quem entramos em contato que o Espírito de Cristo habita em nós.– O Outro Poder: Conselhos aos Escritores e Editores, p. 44

7. Considerar os pastores de outras denominações
É necessário que seja sempre manifesto que somos reformadores, mas não fanáticos. Quando nossos obreiros entram em um novo campo, devem buscar se relacionar com os pastores das várias igrejas do lugar. Muito se tem perdido por negligenciar isso. Se nossos ministros se mostrarem amigáveis e sociáveis, […] isso terá excelente efeito, e podem dar a esses pastores e a suas congregações impressões favoráveis da verdade. – Evangelismo, p. 143

8. Falar em outras igrejas
Talvez vocês tenham a oportunidade de falar em outras igrejas. Aproveitando essas ocasiões, lembrem-se das palavras do Salvador: “Portanto sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. Não despertem a malignidade do inimigo com discursos denunciadores. Assim vocês fecharão as portas à verdade. […] Refreiem toda expressão áspera. Tanto na palavra como na ação, sejam prudentes para a salvação, representando Cristo a todos com quem entrarem em contato. – Evangelismo, p. 563

RELAÇÕES ENTRE IGREJAS
Apesar de não fazerem parte das organizações ecumênicas que exigem adesão, os adventistas desfrutam do status de convidados ou observadores nas reuniões. A cooperação com outras denominações cristãs está de acordo com a visão que a Igreja Adventista tem dos demais cristãos. Reconhecemos “todas as organizações que elevam Cristo perante os homens como parte do plano divino de evangelização do mundo, e [...] têm grande estima pelos homens e mulheres cristãos de outras denominações que estão empenhados em ganhar almas para Cristo” (Declarações da Igreja, p. 152, 153).

Ellen White escreveu também algumas vezes sobre a necessidade de cooperação entre as igrejas. A respeito do debate público de sua época em torno de questões da temperança, ela aconselhou que os adventistas se unissem às pessoas que defendiam a mesma causa que eles (Testemunhos Para a Igreja, v. 6, p. 110). Em outra citação, ela orientou os pastores adventistas a orar pelos líderes de outras denominações, pois sobre esses homens, como “mensageiros de Cristo”, pesava grande responsabilidade (p. 78).

quinta-feira, 1 de julho de 2021

A LEI DOMINICAL NA PROFECIA

A atual pandemia parece ter despertado a atenção de muitas pessoas para as profecias bíblicas. Algumas têm manifestado um interesse sincero em conhecer mais a respeito dos sinais que precederão a segunda vinda de Cristo. Ao mesmo tempo, percebe-se que outras têm feito releituras da escatologia bíblica a partir de perspectivas que tendem a suprimir/relativizar os elementos preditivos das profecias e a condicioná-las historicamente.

No contexto adventista, por exemplo, alguns têm enxergado a promulgação de um futuro “decreto dominical” em âmbito global como uma possibilidade remota ou algo impossível de acontecer. Assim, a tradicional interpretação adventista da imposição da observância do domingo não se encaixa nessa visão.

Foi para esclarecer essa e outras questões relacionadas ao cenário profético apresentado na Bíblia e nos escritos de Ellen White que o Instituto de Pesquisa Bíblica (BRI, na sigla em inglês), órgão ligado à sede mundial da denominação, preparou o documento intitulado “Answers to Questions on the Mark of the Beast and End Time Events”, publicado em 25 de junho. A seguir, disponibilizamos uma versão traduzida para o português.      

RESPOSTAS A PERGUNTAS SOBRE A MARCA DA BESTA E OS EVENTOS FINAIS

Têm chegado perguntas ao Instituto de Pesquisa Bíblica acerca da posição da Igreja Adventista do Sétimo Dia quanto à relação entre a marca da besta e a guarda do domingo, bem como a respeito da condicionalidade da profecia e dos escritos de Ellen G. White sobre o tempo do fim. As seguintes perguntas resumem as principais preocupações que foram trazidas à nossa atenção e respondidas aqui de maneira resumida.

1. Visto que nem o sábado nem o domingo são especificamente mencionados no livro do Apocalipse, como pode a marca da besta envolver um dia de adoração ou uma lei exigindo a guarda do domingo?

A marca da besta é mencionada sete vezes no Apocalipse (13:16, 17; 14:9, 11; 16:2; 19:20; 20:4). Quatro dessas menções aparecem no centro do livro (Ap 12-14), que é introduzida por uma visão da arca da aliança contendo os Dez Mandamentos (Ap 11:19). O povo remanescente de Deus é identificado como os que “guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12:17). Imediatamente depois isso, João descreve duas bestas que perseguem a igreja de Deus: (1) uma que “emerge do mar” (Ap 13:1) e (2) outra que “emerge da terra” (Ap 13:11). A primeira besta ordena uma falsa adoração e sua atividade de perseguição se assemelha à do “chifre pequeno” de Daniel 7, que cuidaria “em mudar os tempos e a lei” (v. 25) e perseguiria o povo de Deus por 1.260 dias/anos (Ap 13:4, 8).

A conexão com a profecia de Daniel mostra que a falsa adoração envolve uma tentativa de mudar os “tempos” de Deus e Sua lei dos Dez Mandamentos. O único mandamento dos dez que lida com tempo é o quarto — o mandamento para santificar o sábado do sétimo dia. Historicamente, a tentativa de mudar o dia de adoração foi perpetrada pela igreja romana, que reverencia o domingo como dia de descanso, em vez do sábado, o dia de descanso bíblico.

O fato de a segunda besta em Apocalipse 13, representando o protestantismo apostatado, exercer a mesma autoridade da primeira besta (Ap 13:12) e cooperar com ela para impor a falsa adoração mostra que o domingo será uma marca distintiva importante dos que adoram a besta e sua imagem, em contraste com o povo remanescente de Deus que guarda “os mandamentos de Deus e a fé de Jesus” (Ap 14:12). Sua obediência inclui a santificação do sétimo dia porque eles dão ouvidos ao chamado para “adorar aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas” (Ap 14:7; ver Êx 20:11). Eles recebem o selo de Deus (Ap 7:4; 14:1), enquanto os que rejeitam esse chamado e reverenciam o domingo, a marca da autoridade da besta, são descritos como parte de Babilônia e recebem a marca da besta (Ap 14:8-11). A prova final, portanto, tem a ver com a verdadeira ou a falsa adoração embasada na obediência à lei de Deus, o que inclui o sábado e o dia de adoração inventado pelo homem, o domingo.

2. Qual é o número da besta e como isso se relaciona à marca da besta?

Na Bíblia, o número da besta é mencionado em Apocalipse 13:17, 18: “Para que ninguém possa comprar nem vender, senão aquele que tem a marca, o nome da besta ou o número do seu nome. Aqui está a sabedoria. Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem [anthropou = de um ser humano]: Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis”.

A Igreja Adventista do Sétimo Dia não tem uma posição oficial sobre essa questão, mas há dois pontos de vista principais em nosso meio acerca do número da besta (666), em Apocalipse 13:17, 18. Alguns o interpretam como uma referência crítica ao título papal Vicarius Filii Dei, embora não nos seja dito que “666” seja o somatório do valor numérico das letras em tal designação.

Outros veem o “6” triplo como indicativo de uma trindade satânica. Eles ressaltam que a expressão “é número de homem” (Ap 13:18) pode ser traduzida como “é número da humanidade”, ou seja, de seres humanos separados de Deus. Esse número (seis usado três vezes) simbolizaria, portanto, uma rebelião intensa e independência total de Deus. No entanto, o texto grego é literalmente 600 + 60 + 6, e não três 6 ou um 6 triplo. Ao reconhecer isso, muitos adventistas do sétimo dia continuam a associar o número da besta com o título papal Vicarius Filii Dei, tendo pesquisas recentes proporcionado boas evidências históricas para vincular o “666” com esse título. Seja como for, há muitas evidências do texto e da história para identificar a primeira besta de Apocalipse 13 com o papado, independentemente de como o “666” seja compreendido.

3. Na Bíblia, há profecias condicionais e incondicionais. Como os escritos de Ellen G. White poderiam ser compreendidos à luz desse fazto? A interpretação pode ser condicional se a profecia apocalíptica é incondicional?

As profecias clássicas do Antigo Testamento se concentram primariamente no próprio tempo e contexto histórico do profeta, embora também possam incluir uma perspectiva cósmica, mais ampla, que atinge até o “dia do Senhor” no tempo do fim (ver, por exemplo, Is 2:12; 13:9; Jo 2:21). As profecias clássicas dadas no contexto da aliança de Deus com Israel continham elementos condicionais, cujo cumprimento dependia da resposta de Israel (ver Dt 28). Semelhantemente aos profetas canônicos, os testemunhos de Ellen G. White acerca de pessoas e instituições podem ter apenas uma aplicação local, condicional, visto que seu cumprimento geralmente dependia da resposta ou decisão dos envolvidos. No entanto, como nas Escrituras, os princípios subjacentes são de aplicação contínua.

Por outro lado, as descrições feitas por Ellen White sobre o tempo do fim devem ser compreendidas no contexto escatológico da profecia apocalíptica bíblica, bem como em visões que ela mesma recebeu de Deus. Essas mensagens proféticas interpretam a profecia apocalíptica, que é, por sua própria natureza, incondicional e se concentra na resolução do grande conflito. Considerando que as mensagens proféticas de Ellen G. White refletem o contexto do tempo do fim, e não o contexto local da época em que foram escritas, elas devem ser compreendidas como profecias incondicionais, ou seja, como as profecias apocalípticas de Daniel e Apocalipse que dão sustentação ao seu panorama profético.

4. Os pontos de vista de Ellen G. White sobre o papado e o protestantismo, em conexão com a marca da besta, mudaram com o passar dos anos?

Não há mudança real nos pontos de vista de Ellen G. White sobre o papado e o protestantismo, nem a respeito da imposição da marca da besta. A fim de compreender suas últimas declarações, é útil considerar seus primeiros escritos sobre o tema. A primeira declaração de Ellen G. White a respeito do catolicismo e do protestantismo como poderes perseguidores data de 1850 e se baseia em Apocalipse 13 e 17, capítulos nos quais o papado é descrito como “a mãe das meretrizes” e os protestantes, como “suas filhas”, assim como “a besta de dois chifres”.

Várias fases da perseguição são descritas: (1) o “dia” do papado refere-se aos 1.260 anos de supremacia papal e perseguição ao povo de Deus; (2) os protestantes, em harmonia com o que diz a segunda mensagem angélica (Ap 14:8), também começariam a persegui-los. O fato de Ellen G. White não considerar encerrada a obra de perseguição do papado está claro nos parágrafos subsequentes, que indicam fases adicionais de perseguição; (3) igrejas protestantes, juntamente com a Igreja Católica, viriam contra os que “guardam o sábado e desconsideram o domingo”; e (4) a Igreja Católica emprestaria sua influência aos protestantes nos Estados Unidos para destruir o povo de Deus (Ellen G. White, Ms 15, 1850, parágrafos 5-7). Assim, de acordo com Ellen White, católicos e protestantes farão uma aliança durante um período considerável de tempo para perseguir o povo de Deus.

A próxima declaração importante, publicada em 1884, discorre sobre essa fala inicial de 1850 e mostra que a mensagem do segundo anjo sobre a queda de Babilônia se refere especificamente ao protestantismo apóstata: “A palavra de Deus ensina que essas cenas [de perseguição durante o período de supremacia papal] devem se repetir à medida que católicos e protestantes se unirem para a exaltação do domingo” (Ellen G. White, The Spirit of Prophecy, v. 4, p. 233396).

Em suma, a posição de Ellen G. White sobre o papado e a promoção da santidade do domingo permanece consistente. Declarações posteriores, incluindo as que foram publicadas nas diversas edições de O Grande Conflito, são um aprimoramento de sua declaração inicial, não uma mudança de posicionamento. Por exemplo, em 1900, ela escreveu: “Quando vier a prova, será mostrado claramente o que é a marca da besta. Ela é a observância do domingo” (Ellen G. White, Eventos Finais, p. 224).

5. Os adventistas do Sétimo Dia continuam sustentando o cenário do tempo do fim encontrado nos escritos de Ellen G. White?

Em harmonia com a referência ao testemunho de Jesus em operação no final da história mundial (Ap 12:17), os adventistas reconhecem Ellen G. White como mensageira do Senhor e continuam sustentando que seus escritos foram dados à igreja remanescente como um guia inspirado para estes últimos dias, sendo especialmente úteis na compreensão das profecias da Bíblia acerca dos eventos finais. Conforme demonstram as respostas a essas perguntas, cremos que suas interpretações proféticas são sólidas e permanecem relevantes e instrutivas para a igreja.

6. A interpretação adventista de Apocalipse 13 é anticatólica?

Ellen G. White reconhece que os filhos de Deus estão presentes em todas as denominações, incluindo a Igreja Católica Romana. Ela declara: “Não devemos criar desnecessariamente um preconceito em seu espírito [isto é, na mente dos católicos] com o fazer-lhes um ataque. […] Pelo que Deus me tem mostrado, grande número será salvo dentre os católicos” (Manuscrito 14, 1887, parágrafo 4). Em outra de suas obras, a pioneira acrescenta: “Entre eles [os católicos] existem muitos que são cristãos conscienciosos, que vivem segundo a luz que lhes é proporcionada, e Deus atuará em seu favor” (Testemunhos Para a Igreja, v. 9, p. 243). Essas declarações deixam claro que Ellen G. White não era, de forma alguma, anticatólica. Dito isso, vale salientar que ela permanecia alinhada com a Reforma. A pioneira via o sistema doutrinário católico, incluindo a missa e os outros sacramentos, como inconsistentes com a fé em Cristo e com o princípio da Sola Scriptura. Além disso, ela entendia que a estrutura de autoridade da Igreja Católica Romana está em oposição direta à Bíblia e sua autoridade. Sua compreensão de Apocalipse 13 é consistente com a teologia adventista e com a interpretação historicista de outras profecias apocalípticas em Daniel e Apocalipse.

7. Alguns têm conjecturado que a Bíblia e Ellen G. White não proporcionam sustentação à compreensão de que a adoração no sábado versus domingo será uma questão importante no tempo do fim. Há evidências recentes que sustentem a interpretação tradicional adventista?

Em primeiro lugar, devemos ser muito cuidadosos ao lidar com profecias bíblicas não cumpridas e resistir à tentação de interpretar as Escrituras pelas lentes das últimas manchetes dos jornais. Devemos seguir princípios sólidos de interpretação bíblica e dar a devida atenção ao texto bíblico (ver Frank M. Hasel, ed., Biblical Hermeneutics: An Adventist Approach [Silver Spring, MD: Biblical Research Institute e Review and Herald Academic, 2020]). A ideia de que declarações de Ellen G. White sobre a Igreja Católica Romana não refletem a realidade pós-Concílio Vaticano II, que foram condicionadas pelas circunstâncias de seu tempo e não se aplicam à nossa situação presente demanda uma análise mais detalhada.

Embora o Concílio Vaticano II tenha levado a uma maior abertura por parte da Igreja Romana para com outros grupos religiosos, não houve mudança doutrinária substancial, inclusive acerca de sua posição sobre o domingo como dia de adoração. De fato, a interpretação adventista das profecias de Daniel e Apocalipse e as declarações de Ellen G. White a esse respeito parecem cada vez mais plausíveis. Por exemplo, na seção 67 de sua Carta Apostólica Dies Domini, o papa João Paulo II declarou que “é natural que os cristãos se esforcem para que, também nas circunstâncias específicas do nosso tempo, a legislação civil tenha em conta o seu dever de santificar o domingo” e enfatizou que eles “têm a obrigação de consciência de organizar o descanso dominical de forma que lhes seja possível participar na Eucaristia, abstendo-se dos trabalhos e negócios incompatíveis com a santificação do dia do Senhor”.

Mais recentemente, o papa Francisco fez o seguinte apelo em sua Encíclica Laudato Si (seção 13): “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar”. Esse desenvolvimento, de acordo com o papa Francisco, inclui a restauração da vida espiritual, tendo em seu cerne a Eucaristia e o domingo como dia universal para o descanso, bem como para experimentar essa restauração.

A importância da adoração no domingo e a obrigação de participar da missa aos domingos também são enfatizadas no catecismo católico mais recente: “Todo cristão deve evitar impor a outrem, sem necessidade, o que possa impedi-lo de guardar o Dia do Senhor. […] Não obstante as pressões de ordem econômica, os poderes públicos se preocuparão em assegurar aos cidadãos um tempo destinado ao repouso e ao culto divino. Os patrões têm obrigação análoga para com os seus empregados” (Catechism of the Catholic Church, 1994, seção 2187; ver também as seções 2176, 2177, 2182 e 2184; disponível em português aqui).

O papel unificador do domingo também é reconhecido por líderes ortodoxos. Numa edição de 2015 da Sunday Magazine, o teólogo e líder ortodoxo Demetrios Tonias considerou o “domingo como marca da unidade cristã”. Portanto, não é surpresa que alguns políticos impulsionem essas ideias e até mesmo preconizem uma frequência obrigatória na igreja aos domingos e leis dominicais mais estritas, não apenas dos Estados Unidos. A forte Aliança Europeia pelo Domingo (European Sunday Alliance) está exigindo leis dominicais mais rígidas nos países da União Europeia. Embora esses desdobramentos sejam sinais dos tempos e mereçam nossa devida atenção, podem não ser o cumprimento final do cenário do tempo do fim que é apresentado nas Escrituras e nos escritos de Ellen White. Contudo, certamente proporcionam uma estrutura na qual essas coisas podem plausivelmente ocorrer em um período de tempo relativamente curto.

Conclusão

Como adventistas do sétimo dia, nossa missão é pregar o evangelho eterno ao mundo, que está centrado no sacrifício de uma vez por todas de Cristo na cruz, o dom gratuito de Sua justiça e Seu ministério de intercessão e juízo no santuário celestial. Nossa tarefa especial no tempo do fim se concentra na proclamação das três mensagens angélicas, a fim de preparar um povo para Seu breve retorno. Nossa compreensão profética dos eventos finais é essencial a essas mensagens.

Embora não devamos nos envolver em especulações que nos distraiam dessa missão, os eventos finais realmente tendem a confirmar nossa compreensão. Estamos convencidos de que as mensagens proféticas de Deus, conforme reveladas na Bíblia e nos escritos de Ellen G. White, são corretas e proporcionam um cenário cada vez mais plausível à medida que nos aproximamos dos eventos finais que foram divinamente revelados, mesmo se não pudermos determinar precisamente quão breve esses eventos se darão.

Nosso foco deve permanecer na missão da igreja, fortalecendo a família, envolvendo-nos em evangelismo e refletindo Jesus em nossa vida. À medida que as condições do mundo avançam e continuamos a estudar as profecias da Bíblia em busca de orientação, especialmente os livros de Daniel e Apocalipse, nossa compreensão dos eventos finais se tornará mais clara. Os escritos de Ellen G. White também são um recurso importante que lançam luz sobre essas profecias.

INSTITUTO DE PESQUISA BÍBLICA, órgão vinculado à sede mundial da Igreja Adventista, nos Estados Unidos (com tradução de Hander Heim)

SAIBA +

  • Para um ponto de vista detalhado do significado do número “666”, incluindo uma visão geral criteriosa das diversas interpretações no decorrer da história, acesse o verbete intitulado “The Number of the Beast”, escrito por Edwin de Kock e publicado na Enciclopédia Adventista on-line.
  • Confira aqui uma explicação bíblica mais detalhada das declarações de Ellen White sobre a relação do papado e do protestantismo com as profecias bíblicas.
  • Para uma análise teológica e histórica cuidadosa e bem documentada dos desdobramentos recentes da Igreja Católica Romana, ver os artigos intitulados “Roman Catholicism: Continuity and Change” e “The Roman Catholic Church – Continuity and Change: The Pontificate of John Paul II, Benedict XVI, and Francis”, de autoria de Hans Heinz, publicados na Reflections, newsletter do BRI.
  • O site da Aliança Europeia pelo Domingo descreve o movimento como “uma rede de Alianças Dominicais nacionais, sindicatos, organizações da sociedade civil e comunidades religiosas comprometidas em despertar a conscientização do valor inigualável de um tempo livre sincronizado para nossas sociedades europeias. O domingo e horas de trabalho mais universais e decentes são o foco de nossas campanhas”. Atualmente, 83 organizações são membros da Aliança Europeia pelo Domingo, além de outras 25 que apoiam a causa.
  • Sobre a crescente influência do papado na Europa, veja Giuliana Chamedes, A Twentieth-Century Crusade: The Vatican’s Battle to Remake Christian Europe (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2019).