quarta-feira, 20 de outubro de 2021

DEUS E O DIA DO POETA

O Dia do Poeta é celebrado anualmente em 20 de outubro. Esta data celebra o profissional, que pode (e deve) ser reconhecido como um artista escritor, que usa de sua criatividade, imaginação e sensibilidade para escrever, em versos, as poesias que faz.

A poesia de Deus
Espanta-me muitas vezes a forma como certos cristãos falam sobre Deus e as coisas pertinentes a Ele. Usam de uma frieza e de uma dureza que me soam como se o Senhor fosse alguém destituído de sensibilidade, de afetos, de amor. Tratam do evangelho como um martelo de ferro batendo em rocha dura, passando a imagem de que o Criador é alguém frio e calculista, como um daqueles vilões de filmes de Chuck Norris, que matam impassíveis montes de pessoas sem mexer um músculo do rosto. Um Deus de pedra. Um Deus estátua-de-gelo, com peito oco e alheio a toda forma de sensibilidade.

Gosto de ver o Senhor como um poeta. Não por fazer poetismos melosos e sem função, mas por ter atributos típicos dos poetas: Sua grande veia artística, Seu enorme coração, Sua capacidade de ver beleza onde há aridez, Sua habilidade de transformar realidades difíceis em palavras expressivas, e Seu amor sem fim – expresso em Sua graça, em Sua misericórdia, em Sua compaixão.

Quando me lembro que Deus foi quem soprou cada uma das palavras dos Salmos no coração e na mente dos salmistas, me encanto com Seu espírito criativo. Quando me recordo que de Seu interior nasceu o Cântico dos Cânticos e aquelas porções da Bíblia que os teólogos gélidos preferem esquecer que existem, vejo um ser que pulsa em emoção. Quando leio que Jesus curava os enfermos “movido por íntima compaixão”, enxergo um Cristo mais amoroso do que os poetas mais parnasianos. O mesmo Jesus que chorou ao ter Sua sensibilidade entranhavelmente abalada pela dor dos amigos do Lázaro morto, incapaz de permanecer alheio ao sofrimento dos que amava, mesmo sabendo que traria o defunto de volta da morte. Poetas são assim: choram com muita frequência.

Aliás, por falar de amor, fico profundamente comovido ao ler que o Todo-poderoso nos enviou o Filho pelo fato de nos ter amado. E não amado de um modo qualquer. Amado… “de tal maneira”. Ou seja: amou de forma rasgada, desbragada, entregue e devotada. Meu irmão, minha irmã, nós, que fomos resgatados pela graça e o amor do Senhor, somos a Sua poesia. Ele nos compôs impulsionado pelo amor mais extraordinário já visto. Como as linhas de uma canção de amor, nascemos de sua inspiração, fomos idealizados em sua mente e acabamos concretizados como as palavras mais lindas do Verbo que se fez carne e que, de poeta, se faz poesia.

Deus sente. Deus sente, meu irmão, minha irmã. Que lamentável é vermos quem enxergue o Senhor de modo tão estático, frio e impassível como uma estátua. Em outras palavras, como um ídolo de barro.

Encanta-me saber que Jesus mandou que olhássemos para as flores quando quis falar do cuidado de Deus com nossas necessidades. Ele não teceu um tratado teológico cheio de notas se rodapé, paradigmas, cosmovisões, tabelas e gráficos explicativos. Simplesmente mandou que olhássemos para os lírios do campo. Que extraordinário! Profundas realidades espirituais em forma de poesia. “Você está preocupado? Olhe para as flores…”, disse o Mestre, com a simplicidade de um soneto.

Louvo a Deus por, ao nos fazer à sua imagem e semelhança, ter posto em nós lascas do gigantesco Espírito poético que Ele tem. Porque a poesia não é um atributo de origem humana e seria muita petulância achar isso. O que temos de sensibilidade e arte é uma tênue reprodução daquilo que pulsa no coração do Senhor. A Bíblia que eu leio me mostra um Deus poeta. Sensível. Criador. Criativo. Amante da beleza. Artístico. E que fez questão de inserir muita poesia na sua Palavra revelada, no livro que revela sua essência – acredito eu que para revelar que no Senhor há poesia. Caso contrário, qual seria a função de haver poesia na Bíblia?

Obrigado, Senhor, pelo dom de sentir. De me encantar. De ver beleza. De chorar ante uma flor, ante uma música, ante o sofrimento de um irmão. Obrigado, Senhor, por ter-se revelado esse poeta tão magnífico. E obrigado, acima de tudo, pela poesia da cruz: dois riscos que se cruzam e trazem na sua interseção um coração sangrando de tanto amar.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari (via Apenas)

Nota do blog: Confira também estes pensamentos de Ellen G. White:

"Como fator de educação, a Bíblia é de mais valor do que os escritos de todos os filósofos de todos os séculos. Há ali poesia que provocou o pasmo e admiração do mundo. Em resplendente beleza, em majestade sublime e solene, em comovente piedade, não se rivalizam com ela as mais brilhantes produções humanas" (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 428).

"A Bíblia contém a mais profunda filosofia, a poesia mais doce e sublime, mais apaixonada e patética" (Educação, p. 125).

"A poesia bíblica suscita o espanto e a admiração do mundo. Com beleza cintilante, em sublime e solene majestade, com sentimentos tocantes, é inigualada pelas mais brilhantes produções do gênio humano" (Um Convite à Diferença, p. 95).

terça-feira, 19 de outubro de 2021

ADÃO E EVA

Como eram Adão e Eva? Infelizmente, a Bíblia não fala muita coisa acerca disso. Sabemos que, no aspecto moral, Adão e Eva eram semelhantes a Deus, pois foram criados à Sua imagem e semelhança. Ellen G. White assim descreve Sua criação:

"Criados para serem a 'imagem e glória de Deus', Adão e Eva tinham obtido prerrogativas que os faziam bem dignos de seu alto destino. Dotados de formas graciosas e simétricas, de aspecto regular e belo, o rosto resplandecendo com o rubor da saúde e a luz da alegria e esperança, apresentavam eles em sua aparência exterior a semelhança dAquele que os criara. Esta semelhança não se manifestava apenas na natureza física. Todas as faculdades do espírito e da alma refletiam a glória do Criador. Favorecidos com elevados dotes espirituais e mentais, Adão e Eva foram feitos um pouco menores do que os anjos (Hebreus 2:7), para que não somente pudessem discernir as maravilhas do universo visível, mas também compreender as responsabilidades e obrigações morais" (Educação, p. 20).

"Depois que a Terra com sua abundante vida animal e vegetal fora suscitada à existência, o homem, a obra coroadora do Criador, e aquele para quem a linda Terra fora preparada, foi trazido em cena. A ele foi dado domínio sobre tudo que seus olhos poderiam contemplar. Deus criou o homem à Sua própria imagem. Não há aqui mistério. Não há lugar para a suposição de que o homem evoluiu, por meio de morosos graus de desenvolvimento, das formas inferiores da vida animal ou vegetal. Tal ensino rebaixa a grande obra do Criador ao nível das concepções estreitas e terrenas do homem. Os homens são tão persistentes em excluir a Deus da soberania do Universo, que degradam ao homem, e o despojam da dignidade de sua origem. Posto que formado do pó, Adão era filho "de Deus". Ele foi posto, como representante de Deus, sobre as ordens inferiores de seres" (Patriarcas e Profetas, pp. 44, 45).

No aspecto físico, somente podemos analisar e discorrer sobre poucas características:

1. Cor da pele – A origem do nome “Adão” dá uma boa pista sobre a cor da pele deles. A origem da palavra “humanidade” também. A palavra adam está relacionada a outra palavra hebraica, adamah, que significa “terra” ou “solo”. O conceito prevalecente entre os eruditos hebraicos é que ambas as palavras derivam da hebraica adom, que significa “vermelho”. O Dicionário Teológico do Velho Testamento (1974; em inglês) sugere um possível motivo da derivação de “solo” da palavra “vermelho”, ao mencionar que a terra pode ter contido ferro e, assim, ter parecido vermelha. De modo similar, algumas autoridades, que afirmam que adam (Adão, homem) vem de adom (vermelho), especulam que Adão pode ter tido pele de cor avermelhada.

“Humano” vem de húmus, igualmente “terra”. Assim, pesquisadores criacionistas acreditam que Adão tinha cor de terra, da qual foi feito. Não era negro, nem branco, talvez mais para o “apache”.

Ellen White diz: “Ao sair Adão das mãos do Criador... Sua cútis não era branca ou pálida, mas rosada, reluzindo com a rica coloração da saúde" (Exultai-O, p. 40).

2. Altura – A Terra “primitiva” (período pré e pós-diluviano) era muito diferente do que é hoje. Isso possivelmente forneceu muitas vantagens (estatura e sobrevida) para a vegetação (árvores imensas), grandes insetos, animais de grande porte (dinossauros) e para os seres humanos. Nesse sentido, as evidências científicas são claras em demonstrar que tanto o planeta Terra quanto o ser humano estão involuindo (degenerando), ao invés de estarem evoluindo em níveis ascendentes, como postulado pelo paradigma evolutivo. A Bíblia mais uma vez mostra a legitimidade de seu conteúdo científico à frente de seu tempo.

A entrada do pecado deu origem não só ao aparecimento de espinhos em plantas, mortes e/ou diminuição de espécies, mas, principalmente, à diminuição dos níveis de elementos químicos essenciais na atmosfera, como o oxigênio. A Bíblia afirma que a Terra sempre possuiu oxigênio (a partir do terceiro dia da semana da criação). Antes do dilúvio, o clima era temperado e possuía muito mais oxigênio do que hoje em dia. Isso contribuía para que as espécies de animais e os humanos fossem maiores em estatura do que são hoje. A altura estimada para Adão, segundo projeções, seria de 4 a 5 metros.

Veja estas duas afirmações de Ellen White: “Ao sair Adão das mãos do Criador, era de nobre estatura e perfeita simetria. Tinha mais de duas vezes o tamanho dos homens que hoje vivem sobre a Terra, e era bem proporcionado. Suas formas eram perfeitas e cheias de beleza. Eva não era tão alta quanto Adão. Sua cabeça alcançava pouco acima dos seus ombros. Ela, também, era nobre, perfeita em simetria e cheia de beleza. Esse casal, que não tinha pecados, não fazia uso de vestes artificiais. Estavam revestidos de uma cobertura de luz e glória, tal como a usam os anjos. Enquanto viveram em obediência a Deus, esta veste de luz continuou a envolvê-los” (História da Redenção, p. 21).

“Adão e Eva no Éden eram nobres em estatura e perfeitos em simetria e beleza. Estavam sem pecado e em perfeita saúde. Que contraste com a humanidade agora! A beleza perdeu-se. A saúde perfeita é desconhecida. Por toda parte vemos doenças, deformidade e imbecilidade” (Conselhos sobre o Regime Alimentar, p. 145).

3. Força – Em 2010, um livro publicado pelo antropólogo Peter McAllister apresentou pesquisas que sugeriram que os homens de hoje são mais fracos e não seriam páreo para seus antepassados em uma batalha de força ou velocidade. Além disso, sabe-se que o genoma humano está deteriorando (diminuindo de tamanho) devido ao acúmulo de mutações deletérias a cada geração.

Acompanhe estas duas declarações de Ellen White: "Deus dotou o homem de tão grande força vital que ele tem resistido ao acúmulo de doenças lançadas sobre a raça em consequência de hábitos pervertidos, e tem sobrevivido por seis mil anos. Este fato, por si mesmo, é suficiente para nos mostrar a força e a energia elétrica que Deus conferiu ao homem na criação. Foram necessários mais de dois mil anos de delitos e de condescendência com as paixões inferiores para trazer sobre a raça humana enfermidades físicas em grande escala. Se Adão, ao ser criado, não houvesse sido dotado de vinte vezes maior vitalidade do que os homens possuem agora, a humanidade, com seus presentes métodos de vida que constituem uma violação da lei natural, já estaria extinta. Por ocasião do primeiro advento de Cristo, o gênero humano degenerara tão rapidamente que um acúmulo de doenças pesava sobre aquela geração, suscitando uma torrente de aflição e uma carga de sofrimento indescritível" (Conselhos Sobre Educação, p. 8).

"Se Adão, ao ser criado, não houvesse sido dotado de vinte vezes maior força vital do que os homens possuem agora, a humanidade, com seus presentes métodos de vida que constituem uma violação da lei natural, já estaria extinta" (Eventos Finais, p. 289).

4. Longevidade – Gênesis 5:3 relata que Adão viveu 930 anos e que em seu tempo havia gigantes (Gênesis 6:4). Vários fatores poderiam ter contribuído para essa longevidade. O clima, a dieta, a ação do pecado e da morte no mundo ainda sem força, entre outras situações.

Ellen White diz: "Os patriarcas desde Adão até Noé, com poucas exceções, viveram quase mil anos. Depois do tempo de Noé, a duração da vida tem diminuído gradualmente. Os que sofriam de enfermidades eram levados a Cristo de toda cidade, vila e aldeia para serem curados por Ele; pois eram afligidos por toda sorte de doenças. E a doença tem aumentado constantemente através das gerações sucessivas desde aquele período. Em virtude da continuada violação das leis da vida, a mortalidade tem aumentado de modo alarmante. Os anos de vida dos homens têm diminuído a tal ponto, que a geração atual desce à sepultura, antes mesmo da idade em que as gerações que viveram durante os dois primeiros mil anos, após a criação, se lançavam ao campo de ação" (Fundamentos da Educação Cristã, p. 24).

5. Inteligência – Adão era perfeito e sabemos que a ele foram dadas instruções sobre o Éden e sobre como tudo deveria funcionar. Até foi dada a ele ordem para nomear os animais. Então, Adão deve ter sido capaz de falar. Ele deve ter tido linguagem complexa desde o início. Ele nem sequer teve que aprender a falar, como nós. Ele foi feito como um ser humano maduro.

Ellen White afirma: "Adão foi coroado rei no Éden. Foi-lhe dado domínio sobre todos os seres viventes que Deus tinha criado. O Senhor abençoou Adão e Eva com inteligência tal que Ele não tinha dado a nenhuma outra criatura. Conferiu a Adão o poder sobre todas as obras criadas, de Suas mãos. O homem, feito à imagem divina, poderia contemplar e apreciar as obras gloriosas de Deus na Natureza. Favorecidos com elevados dotes espirituais e mentais, Adão e Eva foram feitos um pouco menores do que os anjos" (A Maravilhosa Graça de Deus, p. 34).

6. Peso - Se Adão tinha, segundo Ellen White, “mais de duas vezes o tamanho dos homens que hoje vivem sobre a Terra”, podemos imaginar que tivesse entre quatro e cinco metros. Para facilitar, vamos ficar com quatro metros. Com base nessa medida, vamos calcular qual teria sido o provável peso de Adão e sua esposa, Eva. Acompanhe:

Tomando como referência valores médios de altura de homens e mulheres nos Estados Unidos, respectivamente, 1,77 m e 1,62 m, bem como um IMC ao redor de 25, podemos imaginar um homem com 78 kg e uma mulher com 66 kg. Se Eva tinha uma altura tal que o topo de sua cabeça ficava pouco acima dos ombros de Adão, e se Adão tinha 4 m de altura, então Eva deveria ter algo em torno de 3,5 m de altura. Vamos imaginar que a densidade e as proporções de Adão e Eva fossem as mesmas das pessoas hipotéticas descritas acima; então podemos calcular a massa corporal deles, lembrando que ela é proporcional ao volume do corpo, que é proporcional ao cubo da altura.

Chamando a massa de Adão de M e a massa de um homem atual de m, e de H a altura de Adão e h a altura de um homem atual, a fórmula para o cálculo da massa de Adão é: M = m(H/h)³ = 78(4/1,77)³. O que resulta em cerca de 900 kg.

Para a mulher, vale a mesma fórmula com os respectivos dados: M = 66(3,5/1,62)³. O que resulta em cerca de 660 kg. Ou seja, uma top model com quase 700 kg!

Só podemos imaginar as capacidades físicas, mentais e espirituais que nossos primeiros pais tiveram, e que um dia, quando a Terra for recriada por Deus, serão nossas novamente. Que venha logo esse dia a partir do qual a raça humana voltará ao plano original!

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

NAS GARRAS DO IMPOSSÍVEL

A vida é cheia de impossíveis. Amores impossíveis. Curas impossíveis. Sonhos impossíveis. Companhias impossíveis. Empregos impossíveis. Vidas impossíveis. A impossibilidade nos cerca, nos esmaga, nos devasta. Esticamos a mão, mas não alcançamos. Queremos mas não temos. Pois esse animal leproso chamado “o impossível” nos açoita com azogues diários. Só você e Deus sabem qual e como é o teu impossível, mas tenha ele a cara que tiver, certamente é horripilante, assustador. Todo impossível é venenoso e tem ferrões que furam a alma e abatem o espírito.

E o impossível, como uma fera que arrasta atrás de si sua longa cauda, traz consigo dor. A dor do impossível. É uma das dores mais insuportáveis que há, pois é uma dor que não depende de nós para ser superada. Nada podemos fazer. Somos impotentes, manietados, presos em nossas limitações. O impossível é um animal feroz que devora nossas entranhas e nos joga na cara quem nós somos: pó. Limitados. Impotentes. Meros humanos. O impossível dá lições de humildade, pois mostra ao autossuficiente que ele é dependente. Nós olhamos nos olhos do impossível e ele nos encara com seu olhar injetado, suas garras sujas e afiadas e seu hálito de morte.

E o que fazer quando o impossível surge em nossas vidas? Sinceramente? Nada. Não há nada a fazer. Perdoem-me os triunfalistas, os que falam que dizem que tendo fé se resolve qualquer parada, os que declaram, decretam e “tomam posse” da vitória. Pois por vezes isso não adianta nada. Somos encurralados pelo impossível e só nos resta chorar de horror e esperar um milagre para subverter o curso das coisas. Quando o impossível nos encurrala contra uma parede, não há para onde correr, não há! Senão o impossível não se chamaria im…possível.

A única esperança é um milagre. E o único que pode fazer esse milagre se chama Jesus de Nazaré.

Lucas 1:37 – “Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as Suas promessas.”

Lucas 18:27 – “Mas Ele respondeu: Os impossíveis dos homens são possíveis para Deus.”

Há uma única escapatória das presas sanguinolentas do impossível: o milagre de Deus. O grande problema é que não sabemos qual é a vontade absoluta dEle.

Nós ali, de costas contra a parede, encurralados pelo impossível, que como uma besta-fera sadicamente caminha de um lado ao outro esperando a hora da devora. E, de repente, pode acontecer que apenas ouviremos a voz distante do Nazareno dizer “a minha graça te basta”. E aí teremos de conviver com a realidade da fúria do impossível. Mas pode acontecer que, diante de nossas lágrimas e de nosso clamor, o Mestre chegue. E com apenas uma única palavra, o impossível caia fulminado e inerte no chão.

Como vencer a angústia dessa espera? O Mestre virá? Nunca sabemos. Pode ser que Ele queira que nos fortaleçamos ao encarar o impossível. Pois “o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Se alguém descobrir o segredo me avise. Não tenho respostas para tudo e vivo os meus impossíveis do meu modo: oro ao Senhor e, se o impossível dá botes, dentadas e unhadas, procuro esmurrá-lo com quaisquer tocos de madeira que haja ao alcance da minha mão, esperando retardar sua ação. Esforçando-me, enquanto isso, para acreditar que o socorro virá.

Encurralado. Com medo. O hálito fétido do impossível se entranha em minhas narinas. Nessa hora elevo os meus olhos para os montes, buscando desesperadamente ver de onde me virá o socorro. E então me lembro que o meu socorro vem do Senhor, que fez o céu e a terra… E que Ele não permitirá que os meus pés vacilem.

O impossível está aí, Pai. Espero de ti os teus possíveis. É tudo o que posso fazer.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Maurício Zágari (via Apenas

"Às vezes, deixamos de orar em certas circunstâncias porque, a nosso ver, a situação é sem esperança. Mas nada é impossível com Deus. Nada é tão emaranhado que não possa ser te mediado, nenhuma relação humana é tão tensa que Deus não possa trazê-la à reconciliação e à compreensão; nenhum hábito é tão profundamente enraizado que não possa ser vencido; ninguém é tão fraco que Ele não possa tornar forte. Ninguém é tão doente que Ele não possa curar. Nenhuma mente é tão obscura que Ele não possa tornar brilhante. Se alguma coisa nos causa preocupação ou ansiedade, paremos de propagá-la e confiemos em Deus por restauração, amor e poder" (Ellen White - Review and Herald, 7 de Outubro de 1865).

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

O MELHOR PROFESSOR DE TODOS OS TEMPOS

Muitos estudiosos da didática e da metodologia do ensino consideram Jesus Cristo o professor mais marcante de todos os tempos. Há dezenas de livros a esse respeito. O fato é que Seu ensino criativo e transformador alcançou e alcança milhões de pessoas.

O mestre Jesus Cristo, um carpinteiro, sem jamais ter deixado registrada uma palavra sequer, sem jamais ter produzido um artigo, pesquisa, monografia ou livro, impactou a humanidade de um jeito impressionante. Como nos lembra o Dr. James Kenedy, com 12 discípulos Jesus Cristo exerceu influência civilizatória que dura até hoje![1]

É irrefutável que a vida do jovem galileu causou grande impacto em Sua época e em nossa época. E o mais espetacular: fez tudo isso até os 33 anos de idade apenas. Isso é extraordinário! Como diz o respeitado J. M. Price, em seu clássico A Pedagogia de Jesus, “ninguém esteve melhor preparado, e ninguém se mostrou mais idôneo para ensinar do que Jesus. No que toca às qualificações, bem como noutros mais respeitos, Jesus foi o mestre ideal. Isto é verdade tanto visto do ângulo divino como do humano. No sentido mais profundo, Jesus foi um mestre vindo da parte de Deus”.[2]

Características de Jesus como professor
O mestre Jesus é surpreendente. E, se olharmos para algumas de Suas características de personalidade, temos que admitir que Ele é um padrão de absoluto equilíbrio, bom senso e profissionalismo. Seguindo as percepções de Roy Zuck,[3] pensemos um pouco em algumas de Suas características enquanto mestre.

Jesus Cristo é referencial de maturidade. Lucas 2:40 nos diz que “o menino [Jesus] crescia e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre Ele”. Da perspectiva humana, Jesus era uma pessoa madura; como Filho de Deus e como membro da Trindade, obviamente era espiritualmente maduro. Devemos seguir Seu exemplo, procurando crescer mentalmente, espiritualmente, fisicamente e socialmente.

Jesus veio à Terra para revelar o Pai (João 17:26). Desta maneira, podemos entender que Ele possuía todo conhecimento e era capaz de discorrer sobre qualquer tema com maestria. Certamente isso fazia com que o povo ficasse fascinado “pelas Suas palavras” (Lucas 19:48). Os professores são responsáveis pelo que afirmam e, portanto, ao abordarem algum tópico, precisam fazê-lo com autoridade, a qual é resultado de tempo gasto em oração, pesquisa e reflexão.

Sendo autoridade em qualquer assunto, Jesus sempre falava com convicção, jamais deixando alguma dúvida do que Ele ensinava. Era com plena certeza que Ele fazia afirmações como “Eu Sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6); ou: “Vocês ouviram o que foi dito… Mas Eu lhes digo que…” (Mateus 5:21, 22). O educador cristão precisa se expressar com convicção, transmitindo segurança aos seus ouvintes; isto é resultado, claro, de estudo profundo numa área específica do conhecimento, mas também resultado de uma vida conduzida pelo Espírito Santo.

O apóstolo Paulo afirma que Jesus “humilhou-se a si mesmo” (Filipenses 2:8). Uma clara demonstração da humildade do Mestre pode ser vista em Sua atitude de servir e não ser servido (Mateus 20:28). Os professores cristãos não obtém respeito dos colegas e dos alunos pela auto-exaltação, senão pela humilde postura de servo. Afinal, o orgulho causa repulsa, enquanto que a humildade atrai.

Diferentemente de nossa educação conteudista, orientada pelo assunto a ser transmitido, o mestre Jesus não tinha um conteúdo curricular fechado, e nem mesmo parecia preocupar-se com o que deveria ensinar a cada dia. Obviamente Ele queria ensinar algumas coisas, mas o fazia com espontaneidade, esperando o momento certo, quando o coração e a mente de Seus ouvintes estavam dispostos. Foi assim, por exemplo, na ocasião em que acalmou a tempestade (Mateus 8:23-27); esse foi o momento oportuno para ensinar sobre a fé e o medo do ser humano, bem como sobre o ilimitado poder de Deus. Nas ocasiões informais as pessoas podem ter maior disposição para ouvir e captar ensinos que modificarão para sempre sua vida.

De vez em quando escutamos alguns alunos reclamando que ficam confusos na hora da aula, pois, às vezes, alguns professores falam de muitas coisas ao mesmo tempo. Outros dizem que não entendem o que é dito, pois alguns docentes usam palavras e expressões desconhecidas. Em relação ao mestre Jesus, podemos dizer que havia tal clareza em Seus ensinos e discursos, “que as crianças, os idosos e o povo comum o ouviam com prazer e ficavam encantados com as suas palavras”.[4] Se quiserem ensinar com clareza, os professores precisam escolher adequadamente as palavras e expressões que usam; e sempre que houver necessidade de usar uma palavra técnica, incomum aos alunos, precisam explicá-la de modo claro, exemplificando-a se possível.

Em Seu ministério, Jesus ensinava com senso de urgência, pois sabia que não tinha todo o tempo do mundo. Em pouco mais de três anos deveria transmitir à humanidade os ensinos que se demonstrariam capazes de transformar a rotina da vida humana. Portanto, não havia tempo a perder. Em João 7:33 Ele afirma: “Estou com vocês apenas por pouco tempo”. O Mestre tinha senso de urgência. Todavia, Ele não se deixou dominar pela agenda: Ele nunca estava apressado e nunca cancelou um encontro. Sempre tinha tempo para ministrar as necessidades das pessoas. Os professores cristãos precisam aprender a administrar melhor o tempo, “aproveitando ao máximo cada oportunidade” (Efésios 5:16), não desperdiçando o precioso tempo da sala de aula. O tempo é ouro, e deve ser administrado de tal modo que o professor nunca venha a se arrepender por ter usado o tempo de modo irresponsável.

No ministério de Cristo são evidentes sua simpatia e empatia, manifestas em seu amor e cuidado pelas pessoas. O evangelho de Lucas diz que “todos falavam bem dele e estavam admirados com as palavras de graça que saíam de seus lábios (4:22). O educador Antônio Tadeu Ayres nos lembra que “nenhum professor é considerado bom simplesmente por acaso. Os alunos sabem perceber muito bem o mestre que conhece o que ensina, tem prazer de instruir e sabe como fazer isso. Percebem também a personalidade, o temperamento, os valores éticos e a capacidade de compreensão. Nesta questão particular, será bem-sucedido o professor que de fato pratica a empatia”.[5] De uma perspectiva cristã, os alunos não são meramente clientes, e sim, acima de tudo, candidatos ao reino de Deus. Portanto, os professores precisam exercer paciência, simpatia e empatia. Afinal, o ensino cristão é muito mais do que conteúdo. É também a demonstração de um genuíno interesse pelas pessoas.

Finalmente, o Mestre Jesus jamais ensinou algo que não fosse pertinente ou necessário aos Seus ouvintes. Tudo o que Ele falou tinha relevância e aplicabilidade à vida das pessoas. É também o desafio de cada professor não meramente falar bonito, mas tornar a aula relevante à vida dos alunos, fazendo com que os ensinamentos sejam pertinentes para cada estudante que ouve e participa das aulas. Agindo dessa forma, o professor e a professora terão como resultado um ensino que transforma.

* "Os professores devem estudar as lições de Cristo e o caráter de Seu ensino. Devem ver sua libertação do formalismo e da tradição, e apreciar a originalidade, a autoridade, a espiritualidade, a bondade, a benevolência e a praticabilidade do Seu ensino. Em lugar de introduzir em nossas escolas livros que contêm teorias dos grandes autores do mundo, eles dirão: Não se me induza a desconsiderar o maior Autor e o maior Mestre, por cujo intermédio obtenho a vida eterna. Ele jamais erra. É a grande Fonte de onde flui toda sabedoria. Semeie portanto todo professor a semente da verdade no espírito dos estudantes. Cristo é o Professor-Modelo" (Conselhos sobre Educação, p. 146).

Adolfo Suárez (via Ouvindo a Voz de Deus
 
[1] James KENEDY e Jerry Newcombe. E Se Jesus não Tivesse Nascido? São Paulo: Vida, 2003, p. 21.
[2] J. M. Price. A Pedagogia de Jesus. 3ª edição. São Paulo: JUERP, 1983, p. 5.
[3] Roy B. Zuck. Teaching as Jesus Taught. Grand Rapids: Baker, 1995, p. 63 a 89.
[4] Ellen G. White. Fundamentos da Educação Cristã. 2ª edição. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996, p. 242.
[5] AYRES, Antônio Tadeu. Prática Pedagógica Competente: Ampliando os Saberes do Professor. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004, p. 55.

* Comentário de Ellen G. White inserido pelo blog.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

DO QUE VOCÊ SE ARREPENDE?

É muito comum, quando se assiste a uma dessas entrevistas com celebridades em programas de auditório ou coisas assim, que o entrevistador faça aquelas perguntas “pá-pum”: “Prato preferido?”. “Um ídolo?”. “Um sonho?”. Sabe como é? Invariavelmente, entre as perguntas aparece: “Um arrependimento?”. E, via de regra, a resposta é: “Não tenho nenhum arrependimento, pois é melhor se arriscar e quebrar a cara do que não ter tentado”. Aplausos efusivos da plateia. Sempre que ouço isso, balanço a cabeça e penso quão irrefletida é essa resposta.

Eu me arrependo de um caminhão de coisas. Cada decisão equivocada, cada palavra mal colocada, cada ação impulsiva, cada pecado cometido… meu Deus, quantas coisas do que me arrepender! Talvez, se for honesto comigo mesmo, perceberei que tenho mais coisas do que me arrepender do que me orgulhar.

Arrependimento é uma das colunas que sustentam o evangelho de Jesus Cristo. Elimine da boa-nova a necessidade de se arrepender e você deixará de ter a Palavra eterna. O que sobrará será uma mera filosofia motivacional.

Arrepender-se é odiar a queda, rejeitar o diabo, repudiar a carne, lutar contra o pecado, viver Cristo. Sem arrependimentos diários, verdadeiros e eficazes, tornamo-nos uma sombra tênue e distante do que Jesus quer que sejamos. Arrependimento é a picareta que quebra a dureza de nosso coração empedernido e nos lapida à imagem do Salvador.

Eu me arrependo, sim, de muitas coisas e muito. Deus me livre de uma vida sem arrependimento, que seria como estar em areia movediça e me recusar a segurar a corda salvadora que me estendem. “Um arrependimento?”. “Não tenho, deixe-me afundar na areia movediça de meus erros e de minha estagnação”.

Meu irmão, minha irmã, do que você se arrepende? Se percebe que errou, fraquejou, caiu, se sujou… não tenha vergonha de dizer, em meio a muitas lágrimas: “Pai, eu me arrependo. Perdoa-me e ajude-me a não repetir o erro”.

E que fique o aprendizado. Pois, de todas as maravilhas do arrependimento, possivelmente a maior delas é a capacidade de aprender, a fim de não errar o mesmo erro novamente, e de instruir outros a não trilhar o mesmo caminho de dor, tristeza e sofrimento.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari (via Apenas)

Nota do blog: A palavra arrependimento na Bíblia é traduzida do termo hebraico nachum, que significa “sentir-se triste”, “contristar-se”, e da palavra shuwb que significa “mudar de direção”, “voltar-se”, “retornar”. O termo equivalente em grego é metaneo, e denota o conceito de “mudança da mente”. Ellen G. White define da seguinte maneira:

"O arrependimento compreende tristeza pelo pecado e afastamento do mesmo. Não renunciaremos ao pecado enquanto não reconhecermos a sua malignidade; enquanto dele não nos afastarmos sinceramente, não haverá em nós uma mudança real da vida" (Caminho a Cristo, p. 23).

E como se sente Jesus quando o pecador se arrepende? A Bíblia diz em Lucas 15:7: “Digo-vos que assim haverá maior alegria no céu por um pecador que se arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.” E o que devemos fazer se nos arrependemos verdadeiramente de algo? Ellen White nos diz:

"Quem está desejoso de se tornar verdadeiramente arrependido? Que deve ele fazer? - Deve ir ter com Jesus, tal qual está, sem demora. Deve crer que a palavra de Cristo é verdadeira e, crendo na promessa, pedir, para que possa receber. Quando o desejo sincero leva os homens a pedir, eles não orarão em vão. O Senhor cumprirá Sua palavra e dará o Espírito Santo para levar ao arrependimento para com Deus e fé para com nosso Senhor Jesus Cristo. O homem orará e vigiará, e abandonará seus pecados, tornando manifesta sua sinceridade pelo vigor de seu esforço para obedecer aos mandamentos de Deus. Com a oração ele misturará a fé, e não só crerá nos preceitos da lei, mas também lhes obedecerá. Ele se manifestará olhando a questão do lado de Cristo. Renunciará a todos os hábitos e associações que tendam a afastar de Deus o coração. Aquele que deseja tornar-se filho de Deus tem de receber a verdade de que o arrependimento e o perdão devem ser obtidos por meio de nada menos que a expiação de Cristo. Certo disto, o pecador tem de fazer um esforço em harmonia com a obra feita em seu favor, e com súplicas incansáveis recorrer ao trono da graça, para que possa receber o poder renovador de Deus. Cristo não perdoa a ninguém senão ao penitente, mas àquele a quem Ele perdoa, primeiro faz penitente. A providência tomada é completa, e a eterna justiça de Cristo é colocada ao crédito de todo crente. As vestes, preciosas e sem mácula, tecidas nos teares do Céu, foram providas para o pecador arrependido e crente, e ele poderá dizer: 'Regozijar-me-ei muito no Senhor, a minha alma se alegra no meu Deus, porque me vestiu de vestes de salvação, me cobriu com o manto de justiça.' (Isaías 61:10)." (Reavivamento e seus Resultados, p. 24)

“Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados” (At 3:19).

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1Jo 1:9).

“O que encobre as suas transgressões jamais prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia” (Pv 28:13).

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

ROUND 6

Lançada em setembro, a nova série coreana Round 6, da Netflix, já foi parar na lista de maiores sucesso da história do streaming. No entanto, paralelamente ao sucesso, vem causando polêmica — e uma das discussões gira em torno do fato de que crianças e adolescentes estão assistindo à surpreprodução, que tem classificação etária de 16 anos. "Não é nem questão de permitir, é estar de olho, pois sabemos que muitas crianças já tem acesso a telefones, mesmo sem a presença dos pais", alertou a pediatra Thais Chaves, do Rio de Janeiro, em seu perfil no Instagram.

Na série, brincadeiras infantis bastante conhecidas – como "batatinha frita 1, 2, 3", "bolinha de gude" e "cabo de guerra" – são utilizadas em uma espécie de jogo de sobrevivência, no qual os participantes que não atingem o objetivo final são assassinados. E tudo isso por um prêmio milionário. As cenas também contêm torturas psicológicas, violência explícita, suicídio, sexo e tráfico de órgãos.

Relatos de pais
Nas redes sociais, em reposta ao post da pediatra, diversos pais expressaram suas preocupações. "Minha filha disse que todos na sala dela estavam falando sobre a série e que ela era a única que não tinha visto", revelou uma mãe. "Meu esposo levou meu filho de 7 anos para jogar bola e, pasmem, várias crianças estavam brincando de 'batatinha frita 1, 2, 3'. Tinha uma menina que representava a boneca e as outras crianças fingiam que eram mortas. Fiquei abismada", admitiu outra.

"Ouvi de um pai que a filha de 8 anos assistiu sozinha. Não sei se fiquei mais chocada com o relato pela idade ou com a naturalidade com a qual ele disse isso", revelou mais uma. "Minhas filhas de 7 e 10 anos disseram que os amigos da escola e nossos vizinhos do prédio assistiram à temporada toda, inclusive com os pais", completou uma mãe.

No entanto, outros admitem ter assistido com as crianças. "Meus filhos, de 11 e 8 anos, queriam muito assistir, portanto assisti junto com eles. A cada episódio, debatemos sobre as mensagens subliminares", afirmou uma mãe. Mas muitas pessoas concordaram que não se trata de um conteúdo para crianças. "Deveria ser proibida. Assisti uma parte e já fiquei horrorizada. Não quero meus filhos assistindo de jeito nenhum", afirmou uma. "Essa série é maravilhosa, consegue mostrar realmente como as pessoas são por causa de dinheiro: capazes de tudo! Mas é uma série para adultos e não para crianças", afirmou outra, em seguida.

Alerta de escola
No Rio de Janeiro, uma carta aberta emitida por uma escola viralizou e está circulando nas redes sociais. Nela, a instituição afirma que a série tem sido "assunto" entre os alunos de 7 e 8 anos durante o recreio e horários livres. "O que nos causa preocupação é a facilidade com que as crianças acessam esse material. Lembramos, apenas para informação, que canais de streaming, como a Netflix e outros, possuem a 'restrição de visualização por classificação etária', uma ferramenta preciosa para que nossas crianças acessem somente o conteúdo apropriado à sua idade", orientou a escola Aladdin, no Pechincha, na Zona Oeste.

Palavra de especialista
Em relação aos impactos de um conteúdo impróprio em crianças e adolescentes, a neuropsicóloga Deborah Moss, mestre em Psicologia do Desenvolvimento pela Universidade de São Paulo (USP), explica que varia de uma pessoa para outra. "Alguns podem ficar impressionados, outros admirados. Mas falando especialmente de crianças pequenas, normalmente, elas podem ter pesadelos, medo de ficarem sozinhas, confundir realidade com ficção, ficarem ansiosas... Esses são alguns dos possíveis impactos", exemplificou.

Por isso, segundo a especialista, o ideal é sempre dialogar, antes mesmo da proibição. "Hoje, as crianças estão muito livres para fazerem escolhas em relação aos programas que vão assistir. Vimos que, muitas vezes, os pais estão trabalhando e não têm tempo para fiscalizar. É importante que eles tenham um canal de comunicação com os filhos e conversem sempre sobre o que é pertinente e saudável para a idade. É interessante estabelecerem, juntos, possibilidades de escolhas, isto é, dar opções que sejam do interessa da criança. Esse é o primeiro passo", orienta. "No entanto, o que não é permitido para a idade, não cabe aos filhos assistirem nesse momento. Esse limite deve ser estabelecido pelos pais e estar claro para as crianças. Mesmo assim, os responsáveis devem sempre manter um controle sobre o que os filhos estão assistindo", finalizou a neuropsicóloga.

Sabrina Ongaratto (via Revista Crescer)

Nota do blog: Ellen G. White deixa estes sábios conselhos aos pais:

"Devemos fazer todo o possível para nos colocarmos, e a nossos filhos, em posição onde não vejamos a iniquidade que é praticada no mundo. Devemos guardar cuidadosamente nossa habilidade de ver e ouvir, para que essas coisas más não entrem em nossa mente" (Fundamentos do Lar Cristão, p. 133).

"O que lerão nossos filhos? É uma questão séria e exige uma resposta séria. Estou preocupada em ver, em famílias cristãs, revistas e jornais contendo histórias seriadas, que não causam boa impressão à mente. Tenho observado aqueles cujo gosto pela ficção tem sido assim desenvolvido. Eles tiveram o privilégio de ouvir as verdades da Palavra de Deus, de tornar-se familiarizados com as razões de nossa fé; mas chegaram à maturidade destituídos de verdadeira piedade" (Mensagem aos Jovens, p. 279).

"Sabes que nosso corpo é composto do alimento que assimila. Ora dá-se o mesmo com a nossa mente. Se fazemos a mente demorar-se nas coisas desagradáveis da vida, não teremos nenhuma esperança. Precisamos demorar-nos nas cenas prazenteiras do Céu" (Manuscrito 7, 1888).

E a Palavra de Deus nos dá esta maravilhosa promessa: "O que tapa os seus ouvidos para não ouvir falar de derramamento de sangue, e fecha os seus olhos para não ver o mal. Este habitará nas alturas" (Isaías 33:15, 16).

sábado, 9 de outubro de 2021

VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

“Maid”, a nova minissérie dramática de 10 capítulos, estreou na Netflix no último dia 01 de outubro. Maid foi baseada no impactante best-seller autobiográfico intitulado ‘Maid: Hard Work, Low Pay, and a Mother’s Will to Survive’, no Brasil lançado como “Superação, Trabalho Duro, Salário Baixo e o Dever de Uma Mãe.”, de Stephanie Land.

Criada por Molly Smith Metzler e estrelada por Margaret Qualley, Maid conta a história de Alex, uma mãe de 25 anos que, após mais um episódio de violência do marido, sai de casa com a filha no meio da madrugada em busca de ajuda.

A minissérie é genial e muito sensível ao retratar algumas verdades avassaladoras sobre a violência doméstica:

1- Não é preciso que exista agressão física para que exista violência doméstica. Após sua fuga, Alex tem dificuldades para compreender que, por nunca ter apanhado, sofria violência psicológica desde que ficou grávida. Seu companheiro bebia e, além de ameaças e frases pejorativas, arremessava coisas e até chegou a dar um soco na parede, mas nunca nela. Aos poucos, depois de receber um panfleto e ser encaminhada para um abrigo que recebia mulheres vítimas desse tipo de violência, ela finalmente conseguiu compreender que essa era a sua realidade. As agressões psicológicas, além de serem um estágio inicial que pode ser seguido de violência física em momentos posteriores, é tão violenta e destrutiva quanto as agressões físicas.

2- Não existe meritocracia simplesmente porque os direitos não são iguais! A história de Alex tem como cenário os EUA, o país do sonho americano onde a ideia de que com esforço todos podem vencer é quase um pilar. Na realidade, entretanto, Alex, que se torna faxineira para sobreviver com a filha, não varre apenas a sujeira de cima do tapete, mas também revela a verdade escondida pelo sistema sob o tapete, pois ela é um exemplo de pessoa sem rede de apoio (ela não tem com quem contar). Ela tem uma filha, quase nenhum dinheiro, pois o único emprego para ela é do tipo exploratório (muito trabalho e salário baixíssimo). Assim, ela precisa de ajuda do governo para moradia, tickets alimentação e toda uma gama de assistência pública que é enfadonha, humilhante e burocrática. Alex é capaz, inteligente e trabalhadora. Ela, há 4 anos, passou na faculdade, mas não pode cursar. Ela é a prova de que não basta ter força de vontade para se dar bem quando tudo que ela tem ao seu redor é uma mãe bipolar com sintomas gravíssimos e sem tratamento, um pai ausente e ex-alcoolista, abusador e que não reconhece o abuso que Alex sofre- e o ex-marido, também abusador.

3- Dificuldades para provar a violência psicológica. Assim como o assédio moral, a violência psicológica é uma violência difícil de provar para porque, na ausência de testemunhas, é uma violência que não deixa marcas no corpo. Assim, é importante que quem esteja passando por ela cerque-se de pessoas que possam comprovam os seus relatos. Boletins de ocorrência registrando danos ao patrimônio, como no caso do ex-marido de Alex que quebrava coisas e a ameaçava também podem são úteis. E, o mais importante: hoje ele não bate, mas ela vai ter que esperar que ele bata ou faça coisa pior? Alex não tinha como provar que falava a verdade, pois, como dito no item um, ela não sabia que sofria violência doméstica. Mas você que lê esse texto, se antes não sabia, agora sabe!

4- Por que essas mulheres voltam? A série é magnífica ao ilustrar como muitas mulheres podem sair diversas vezes de casa (às vezes 5-7 vezes) até que sejam capazes de abandonar, definitivamente, o abusador.

Se, no cotidiano ouvimos de pessoas que não conhecem esse assunto a fundo que essas mulheres são “sem vergonhas”, “burras” ou mesmo que “gostam de apanhar”, na realidade encontramos pessoas que tiveram sua autoestima destruída ao longo dos anos (ao ponto de, como em um exemplo da minissérie, não conseguirem dizer qual é a sua cor preferida).

Vemos também mulheres que são totalmente dependentes financeiramente do agressor e que não possuem uma rede de apoio de amigos e familiares que as possam ajudar a “fugir” dessa situação. Vemos, ainda, o medo das ameaças constantes de que algo possa ser feito com elas, com seus filhos ou mesmo que o agressor possa atentar contra a própria vida.

Para além disso, muitas mulheres ainda sentem vergonha de se encontrarem em situações tão degradantes que tentam ocultar de familiares e amigos (às vezes até de si mesmas) o quanto aquela situação é grave. Como mostrado na minissérie, a cada vez que se sujeitam, sua energia viral fica mais fraca, assim como sua coragem de reagir. A cada fracasso, cresce uma ideia de que nunca serão capazes de sair daquele ciclo de abusos.

5- Codependência com o agressor. A codependência é um aspecto complementar ao tópico anterior, mas que merece um espaço só para si.

Maid explora os traumas de seus personagens. Ela tenta mostrar como determinadas coisas que acontecem na infância podem refletir na idade adulta. Ela retrata com clareza como nós tendemos a repetir essas histórias escolhendo, sem perceber, parceiros que são parecidos com aqueles que nos fizeram mal no começo de nossas vidas. Vejam, por exemplo, como o marido de Alex tinha inúmeras características similares ao de seu pai.

A série mostra como Alex foi negligenciada por seus pais ao ponto de inverter os papeis e se tornar responsável por sua mãe assim que teve idade mínima para isso. Durante toda a sua vida Alex não teve um minuto de paz com relação a sua mãe (codependência).

Pessoas que são sabem o que é amor podem confundir domínio com afeto. A pessoa que não se responsabiliza por seus próprios atos tende a responsabilizar o outro por suas escolhas ou não escolhas. Sean, o marido, culpava Alex por sua gravidez e a torturava por ter que se responsabilizar pela criança e mudar seus planos de vida. Depois a culpava por ter que trabalhar mais. Depois a culpava porque, se ela se separasse, ele não conseguiria deixar de beber. Também a culpou por não ter ereção com a outra namorada. Ou seja, enquanto ela se sujeitasse a esse discurso, ela seria refém da não responsabilização dele pela própria vida e a arrastaria para o abismo com ele.

Alex já tinha aprendido a ser codependente desde a infância, assim como sua mãe também o era com relação a homens abusivos. Esse era o único modelo que ela conhecia.

6- Sentimento de Impotência/paralisia. Quem sou eu quando tudo o que eu faço é definido pelo outro, seja porque o outro mandou, desejou ou porque eu o temo?

Impotência frente ao marido. Impotência frente ao sistema- receber benefício como favor. Impotência de ser humilhada no trabalho e não poder reagir porque não existe opção. Impotência ter que se sujeitar a um subemprego (salários muito baixos destinados a quem não tem opção de escolha: pessoas na miséria, na maioria negros e imigrantes ilegais). Impotência frente a falta de dinheiro. Impotência frente a um curso para mães ministrado por um homem. Impotência de não ter a quem recorrer e de não ter absolutamente nenhum exemplo a seguir
Impotência por não poder confiar em ninguém: mesmo um homem que parecia bom e a queria ajudar, queria algo em troca. Impotência pela invisibilidade social: a fala da dona da empresa de limpeza sobre as faxineiras que podem ser trocadas sem que os patrões deem falta, mesmo depois de anos de trabalho.

7- Compreender a própria história para poder reagir. Enquanto falamos sobre algo que nos acontece damos sentido aquele relato. As histórias possuem começo, meio e fim. Quando nos colocamos na pele de seus personagens nós tentamos entender os motivos de suas escolhas, sentimos a dor do que lhes aconteceu, tentamos encontrar explicações e justificativas para as coisas que acontecem. Alex começou a fazê-lo enquanto escrevia. A escrita lhe fazia sentir viva. Através dela ela ressignificava a realidade e encontrava novos sentidos e formas criativas e possíveis de ver a vida.

Já Paula, sua mãe, interpretada por Andie MacDowell, mostra uma outra forma de lidar com a vida e as histórias. Como ela não suportava a dureza de sua vida, a ponto de ter um rompimento psicótico com a realidade, ela cria realidades paralelas onde o que acontece parece bonito, onde ela é protagonista, onde ela é amada. Talvez Paula opte (se é que existe qualquer tipo de opção nisso!) por ser uma figura quase caricata por saber que o tratamento para sua bipolaridade a fará encarar uma dor que ela não sabe se será capaz de aguentar. Certamente ela já deve ter tentado em outros momentos de sua vida e ainda não se sente pronta. Quanta dor existe em cada nova mentira que é criada.

Cada personagem conta uma história. O que os difere, entretanto, é o momento em que eles deixam de ser vítimas das repetições de suas famílias e do que aprenderam na infância para assumir o protagonismo. É uma escolha que abala todo o sistema, que torna a pessoa se torne desconhecida às vezes até para si mesma, é um caminho ainda não trilhado.

Nos apaixonamos por Alex porque ela tem muito de nós e de nossos buracos internos. Talvez nem todos nós tenhamos nos sentido miseráveis por não ter como nos alimentar para trabalhar (mas muitos também o tiveram), mas existem muitas formas de miséria inclusive, como a minissérie também mostrou, a miséria que também pode morar na riqueza.

Maid não romantiza a pobreza, ela apenas abre a porta de serviços que muita gente ainda mantém: ora ignorando os pobres em um capitalismo que só visa o lucro, ora ignorando os próprios pedidos de socorro. [via Conti Outra]

Nota do blog: Para denunciar a violência doméstica, ligue para o número 180. Este serviço público e gratuito é uma Central de Atendimento à mulher em situação vulnerável e o seu registro é realizada de forma anônima/confidencial. Caso você esteja em outro país, consulte o número de telefone para denúncias clicando aqui: https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/politicas-para-mulheres/ligue-180.

E é possível realizar a denúncia também pelo 190 – Polícia Militar, serviço público e gratuito.

E para você que ainda não conhece sobre o assunto, deixamos como dica fundamental o site do Instituto Maria da Penha, organização sem fins lucrativos (ONG) lançada em 2009, que tem como um dos propósitos elevar a qualidade de vida física, emocional e intelectual das mulheres. Para conhecer, é só clicar aqui: https://www.institutomariadapenha.org.br/quem-somos.html.

Conheça também o projeto Quebrando o Silêncio, promovido desde 2002 pela Igreja Adventista do Sétimo Dia em oito países da América do Sul com o objetivo de prevenir a violência doméstica.

A ajuda a mulheres em situação de violência pode vir da sua rede de relacionamentos, como amigos, vizinhos, colegas de trabalho, entre outros. Pode ser que você conheça alguém que esteja passando por uma situação semelhante por perto, seja de violência física, verbal, psicológica ou sexual, ou quem sabe ser a própria vítima. O silêncio perpetua a ação do abusador ou agressor, portanto, o maior desafio de alguém que deseja ajudar, é vencer o medo e romper o silêncio.

"Devem os maridos ser cuidadosos, atentos, constantes, fiéis e compassivos. Devem manifestar amor e simpatia. Quando o marido tem a nobreza de caráter, a pureza de coração, a elevação de espírito que deve possuir todo verdadeiro cristão isso será manifesto na relação matrimonial" (Ellen G. White - O Lar Adventista, p. 227).