segunda-feira, 22 de julho de 2019

Pare de se preocupar com o que os outros pensam

Preocupar-se com o que as pessoas pensam a nosso respeito é uma forma segura de desenvolver, em algum momento da vida, um problema de ordem psicológica. Tudo nessa vida tem limites e, para o nosso bem, a preocupação com o que se passa na mente alheia também deve ter.

Todos, absolutamente todos os pacientes que já atendi tinham algo em comum – se preocupavam com o que as outras pessoas iriam pensar. E eu acredito que a maior parte das pessoas que estão lendo essas palavras agora se identificam com isso também. E, em função do que pensavam que os outros poderiam pensar, eles acabavam por comprometer sua paz, sua felicidade e até mesmo sua saúde.

Pensar sobre o que o outro pensa é uma capacidade que desenvolvemos ainda na infância. A isso chamamos de Teoria da Mente, Leitura Mental, Metacognição, entre outros nomes. Uma pessoa tem essa capacidade desenvolvida se ela é capaz de inferir sobre o que ocorre em sua mente e na dos outros (em termos de pensamento, sentimentos, crenças, etc). E claro, uma vez que o que ocorre na mente do outro não é observável, então essas inferências devem ficar no campo da teoria.

No entanto, a ocorrência frequente de pensamentos sobre o que se passa na mente do outro pode gerar muita ansiedade e também estresse nas relações, uma vez que se atribua muita importância a isso. Especialmente porque, normalmente, ao fazermos essas inferências, as tomamos como fatos ao invés de reconhecê-las como teoria. Dessa forma, o pensamento vai além de dúvidas (como “será que ele me acha isso?”, “e se eles pensarem que eu sou aquilo?”, etc), que está geralmente relacionada com transtornos de ansiedade, e admite a forma de conclusões (“eles pensam que eu sou…”, “eles me acham…”, etc) que são muito presentes em casos de problemas na autoestima e depressão.

Esse tipo de pensamento, de se preocupar com o que os outros pensam, pode ocorrer em relação a qualquer área da vida. Algumas pessoas são muito seguras como profissionais, mas sofrem com pensamentos desse tipo nas relações. Outros vivem exatamente o contrário. O fato de alguém ser seguro ou até mesmo bem-sucedido em alguma área da vida, não significa que ele está blindado de sofrer com esse tipo de preocupação.

Leitura mental
A leitura mental, uma vez que deixa de ser entendida como teoria e passa a ser compreendida como fato, é uma distorção cognitiva, uma forma equivocada de ler a realidade, que gera preocupação, sofrimento e dor. Nenhum de nós tem a habilidade de ler o que se passa na mente de outras pessoas. E a menos que as pessoas verbalizem aquilo que elas pensam, não deveríamos empregar tempo em alimentar suspeitas, e nem mesmo chegar a conclusões sobre o que elas possam pensar sobre nós em muitos casos. É claro que uma experiência passada de conflito com alguém, por ter nos interpretado mal, nos deixa em estado de alerta contra um segundo possível conflito. Mas se essa preocupação se torna o foco do nosso pensamento, isso nos faz mais mal do que bem.

Algo que não me canso de repetir é que não há nada que possamos fazer para que as pessoas pensem bem a nosso respeito todo tempo. Existem coisas que você fará e agradará dezenas de pessoas. Mas essas mesmas coisas desagradarão outras dezenas de pessoas. As pessoas gostam de nós e não gostam de nós exatamente pelos mesmos motivos. Desejar ser alvo dos melhores pensamentos de cada ser humano com quem entramos em contato é matar-se aos poucos.

Mas e quando as pessoas não apenas pensam mal sobre nós, mas também falam mal de nós. Uma vez que elas verbalizaram o que pensam, não devemos nos preocupar? Eu costumo dizer que só devemos nos preocupar com aquilo com o qual podemos nos ocupar em resolver. É possível resolver algo desse tipo? É possível impedir que alguém saia por aí falando mal sobre nós? A resposta é NÃO.

Se você der motivo, as pessoas falarão. Se você não der, elas falarão também. Quando alguém tem o mau hábito de fazer fofoca, espalhar boatos, ou inventar mentiras a respeito de outras pessoas, não há nada que se possa fazer para impedi-la. Apenas quando ela se arrepender e se converter desse mau hábito é que ela deixará de praticá-lo. Então, preocupar-se com o que as pessoas pensam e dizem, não resolve o problema, só gera novos problemas.

A esta altura, algum leitor pode estar se perguntando: mas e a minha reputação? Eu demorei a conseguir responder a essa pergunta. Há dez anos eu ajudo pessoas a se libertarem de diferentes distorções cognitivas, inclusive desta que estou comentando aqui – a leitura mental. Mas quando o paciente me confrontava com realidades como fofoca, calúnia, difamação, eu confesso que esse questionamento sempre vinha a minha mente: e como ficará a sua reputação? Este era o mesmo questionamento que eu me fazia quando eu era o alvo das más línguas também.

Então, Deus me guiou à leitura de um texto, escrito por Ellen White, que mudou a minha vida e por consequência tem mudado a vida de pacientes que eu atendo e que sofrem com situações como as que estou comentando aqui.

“Podemos esperar que circulem relatos falsos a nosso respeito; mas se seguirmos um procedimento reto, se nos mantivermos indiferentes a essas coisas, outros também assim ficarão. Deixemos com Deus o cuidado de nossa reputação. A calúnia pode arrefecer pela nossa maneira de viver; não arrefece mediante palavras indignadas. Que nossa grande ansiedade seja no sentido de agir no temor de Deus e mostrar por nossa conduta que essas acusações são falsas” (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, p. 548).

Quero apenas ressaltar um ponto: nossa preocupação (ou ansiedade) não deve ser sobre quem as pessoas pensam/ou dizem que somos, mas sobre quem realmente nós somos. Você não tem e nunca terá controle sobre o que as outras pessoas pensam sobre você. Mas você pode exercer a cada instante o poder de decisão e com isso cuidar de quem você de fato é.

“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” (Filipenses 4:8).

Karyne Correia (via Mente Saudável)

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Os riscos da preocupação exagerada com o corpo

Selfie perfeita, corpo perfeito, a busca por likes nas redes sociais. A insatisfação com o corpo, por exemplo, é algo comum entre os jovens e a obsessão pela beleza faz com que a pessoa dê à sua imagem uma importância maior do que ela realmente deve ter. A imagem torna-se algo mais importante que a própria saúde. Mas quais os limites seguros da vaidade?

A nossa sociedade líquida exerce pressão sobre o corpo humano, onde surgem os sintomas do corpo que se expressa em uma fala “velada”. Nessa fala oculta, o inconsciente mostra que habita no corpo: o discurso hipocondríaco, a linguagem histérica e o distúrbio psicossomático, que se revelam em anorexia, bulimia, vigorexia e outras patologias. Todas oriundas de cobranças absurdas sobre o corpo, que em alguns casos têm levado a morte ou o suicídio de mulheres e garotas.

Em Dublin, Irlanda, uma menina de 11 anos, foi encontrada em estado crítico no quarto depois de tentar suicídio. Ao ser levada para o hospital, ela não resistiu e morreu. Antes se cortou e escreveu com o sangue: “Garotas bonitas não comem”. Outro caso é o da bancária, de 46 anos, que morreu após sofrer uma cirurgia estética na casa de um médico, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Hoje as estratégias de manipulação sobre o corpo que fala, mas que também “grita,” está na mira de uma força mediática e narcísica que produz um quadro psicopatológico, que debilita os sujeitos em relação ao seu corpo.

As pessoas que se orientam pelo culto ao corpo buscam nas “ofertas” da medicina estética e da indústria de cosméticos uma incessante repaginação corporal. Essa concepção do corpo escultural é recriada a todo o momento pela mídia, como ideal de uma vida feliz.

Isso cria no imaginário coletivo de homens e mulheres, sobretudo, de jovens, que um corpo “sarado” será mais aceitável em novos relacionamentos, uma vez que pessoas obsessivas pelo corpo perfeito exigem do outro também um corpo perfeito.

Essas relações terão problemas para estabelecer uma conexão saudável, porque tudo gira ao redor do corpo, colocando os princípios morais, espirituais e psicológicos em último plano. Porém, é só através do corpo, mente e espírito livres de disfunções de qualquer natureza, emancipados pela inteligência emocional, que não aceita que o corpo se curve diante das bizarras dietas, das invasivas cirurgias estéticas, da erotização perversa, da opressão econômica e dos apelos para o consumo de drogas e álcool.

A resposta para isso é cuidar do corpo com gentileza por meio da higiene adequada, da alimentação saudável, do uso certo dos medicamentos, da prática orientada de exercícios físicos, como o caminho para evolução da nossa saúde psíquica e espiritual. O que nos permitirá interagir com o mundo material e sensorial de modo equilibrado.

Assim, a nossa maior tarefa psicoespiritual é dizer não a “coisificação” do corpo, cuidando dele com respeito, para que possamos vencer os desafios do cotidiano, sem entrar na neurose do corpo perfeito, mas esgotado na sua subjetividade e alienado pelas doenças da alma. [1]

Vejamos o que diz Ellen G. White à respeito do sagrado templo do corpo:

Aquela perfeição de caráter que o Senhor requer é o ajustamento de todo o ser como um templo para a habitação do Espírito Santo. Deus não aceitará nada menos que o serviço de todo o organismo humano. Não basta pôr em ação certas partes do mecanismo vivo. Todas as partes precisam trabalhar em perfeita harmonia, do contrário o serviço será deficiente. É assim que o homem se habilita a cooperar com Deus no apresentar Cristo ao mundo. Assim Deus deseja preparar um povo para estar diante dEle puro e santo, para que os possa introduzir na sociedade dos anjos celestes.

Foi-nos confiada a mais solene mensagem que já foi dada ao nosso mundo, e o objetivo a ser mantido clara e distintamente diante de nosso espírito, é a glória de Deus. Cuidemos em que não façamos coisa alguma que enfraqueça a saúde física, mental e espiritual, pois Deus não aceitará um sacrifício manchado, enfermo, corrupto. Importa exercer cuidado no comer, beber, vestir e trabalhar, não seja que diminuamos nossa eficiência.

É nosso dever exercitar e disciplinar o corpo a fim de prestarmos ao Mestre o mais elevado serviço possível. Não devemos ser dominados pela inclinação. Não devemos satisfazer o apetite e condescender com o uso daquilo que não nos faz bem, simplesmente porque nos agrada ao paladar; tampouco devemos procurar viver no plano da fome, com a ideia de que nos tornaremos espirituais, e que Deus será glorificado. Cumpre-nos usar a inteligência que Deus nos concedeu a fim de sermos perfeitos no corpo, na alma, e no espírito, para possuirmos caráter simétrico, mente equilibrada, e fazermos obra perfeita para o Mestre.

O sagrado templo do corpo deve ser conservado puro e incontaminado, para que o Santo Espírito de Deus nele possa habitar. [2]

Nosso corpo pertence a Deus. Ele pagou o preço da redenção pelo corpo tanto quanto pela alma. "Acaso, não sabeis... que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço. Agora, pois, glorificai a Deus no vosso corpo" (1Co 6:19 e 20). "O corpo não é para a impureza, mas, para o Senhor, e o Senhor, para o corpo" (1Co 6:13). 

Deus é o grande operador e vela sobre a maquinaria humana, mantendo-a em movimento. Não fosse o Seu constante cuidado, o pulso não bateria, a ação do coração cessaria, o cérebro não mais desempenharia a sua parte. 

No cuidado de nosso corpo precisamos cooperar com Ele. Amor a Deus é essencial para a vida e saúde. Para termos perfeita saúde nosso coração precisa estar cheio de amor, esperança e felicidade. [3]

Referências
[1] Jackson César Buonocore (via Conti Outra)
[2] Ellen G. White, Cuidado de Deus, p. 110
[3] Ellen G. White, Medicina e Salvação, p. 291

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Todos merecem uma segunda chance?

“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade.” (Lamentações 3:22, 23)

Quantas vezes erramos, ferimos alguém que amamos, não cumprimos um compromisso, traímos a confiança de alguém, mentimos, roubamos, cometemos graves crimes? Quantas vezes tentamos fazer alguma coisa em casa, no trabalho, na escola e fracassamos, e queremos ardentemente ter uma segunda chance? Muitas vezes lamentamos dizendo: “Ah! Se eu tivesse mais uma chance, faria tudo diferente”. Nesta vida, nós estamos sujeitos a cair. Mas às vezes ela não nos dá uma segunda chance. 

Em 1929, num campeonato de futebol americano, o Georgia Tech enfrentava o time da Universidade da Califórnia. Durante a partida, um dos jogadores tomou a bola, mas, confuso, correu na direção errada, marcando um gol contra o próprio time. No intervalo, os jogadores dirigiram-se para o vestiário, antecipando o que o técnico iria dizer. O moço que cometera o engano colocou uma toalha ao redor da face. Chorava em soluços, envergonhado. 

Quando o time se preparava para voltar ao campo, para o segundo tempo, o técnico surpreendeu a todos, anunciando que a mesma formação seria mantida. Os mesmos jogadores voltariam para o fim da partida. Todos deixaram o vestiário, exceto o autor do vexame. Ele não se atreveria. O técnico olhou para trás, viu que o rapaz continuava em lágrimas e o chamou. “Técnico”, disse o jovem com a voz embargada, “não posso mais jogar. Eu o envergonhei e trouxe desgraça para o time. Não posso enfrentar os torcedores novamente.” Então o técnico colocou o braço no ombro do rapaz e disse: “Levante-se e entre em campo. O jogo está apenas na metade.” 

Ao ler esse relato, pensei: “Que líder extraordinário!” Ao refletir na história de Adão, Abraão, Jacó, Moisés, Elias, Sansão, Jonas, Davi, Marcos, Pedro e um incontável número de outros fracassados, lembro-me dos braços divinos que os envolveram em suas crises e derrotas, animando-os e reabilitando-os. Por isso, há esperança para todos nós. Deus sempre nos dá uma nova oportunidade. “Porque sete vezes cairá o justo e se levantará” (Pv 24:16). O nosso Deus é especialista em dar segunda chance às pessoas! Ele é especialista em trabalhar com pessoas imperfeitas.

Segunda chance para Satanás
Depois que Satanás foi expulso do céu (como lemos em Ap 12:7-9), ele já havia recebido todas as oportunidades possíveis. Por isso, quando foi jogado para a Terra (Ap 12:12; Lc 10:18), o destino dele já estava selado, pois ele escolheu assim. Oportunidades não faltaram a Lúcifer. Podemos ter certeza disso. Afinal, a Bíblia ensina que “Deus é amor” (1Jo 4:8, 16), que Ele tem “prazer na misericórdia” (Mq 7:19) e que o Criador é “[…] Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade”. Além disso, Ele se alegra em ver que o indivíduo, por mais perverso que seja, se converta e viva (Ez 18:23, 32). Ellen White esclarece:

“Deus, em Sua grande misericórdia, suportou longamente a Satanás. Este não foi imediatamente degradado de sua posição elevada, quando a princípio condescendeu com o espírito de descontentamento, nem mesmo quando começou a apresentar suas falsas pretensões diante dos anjos fiéis. Muito tempo foi ele conservado no Céu. Reiteradas vezes lhe foi oferecido o perdão, sob a condição de que se arrependesse e submetesse” (O Grande Conflito, pp. 495-496).

Havendo perdido sua posição nas cortes celestiais, Satanás ainda solicitou para ser readmitido no Céu, mas Cristo lhe disse que isto seria impossível.

"Satanás agora observava os terríveis resultados de sua rebelião. Satanás estava espantado ante sua nova condição. Sua felicidade acabara. Olhava para os anjos que, com ele, outrora foram tão felizes, mas que tinham sido expulsos do Céu em sua companhia. (...) Ele está sozinho, meditando sobre o passado, o presente e o futuro de seus planos. Sua poderosa estrutura vacila como numa tempestade. (...) Um anjo do Céu está passando. Ele o chama e suplica uma entrevista com Cristo. Isto lhe é concedido. Então, relata ao Filho de Deus que está arrependido de sua rebelião e deseja voltar ao favor divino. Está disposto a tomar o lugar que previamente Deus lhe designara e sujeitar-se a Seu sábio comando. Cristo chorou ante o infortúnio de Satanás, mas disse-lhe, como pensamento de Deus, que ele jamais poderia ser recebido no Céu. O Céu não devia ser colocado em perigo. Se fosse recebido de volta, todo o Céu seria manchado pelo pecado e rebelião originados com ele. As sementes da rebelião ainda estavam nele. Não tivera, em sua rebelião, nenhum motivo para seu procedimento, e arruinara irremediavelmente não só a si mesmo, mas a multidão de anjos, que teria sido feliz no Céu, tivesse ele permanecido firme. A lei de Deus podia condenar mas não podia perdoar. Ele não se arrependeu de sua rebelião porque visse a bondade de Deus, da qual havia abusado” (História da Redenção, pp. 24-27).

Pecado contra o Espírito Santo
“Em verdade vos digo que tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e as blasfêmias que proferirem. Mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo não tem perdão para sempre, visto que é réu de pecado eterno” (Mc 3:28-29).

Ellen White assim comenta esta passagem:

“Seja qual for o pecado, se a alma se arrepende e crê, a culpa é lavada no sangue de Cristo; mas aquele que rejeita a obra do Espírito Santo, assume uma posição que impede o acesso ao arrependimento e à fé. É pelo Espírito que Deus opera no coração; quando o homem rejeita voluntariamente o mesmo, e declara que é de Satanás, corta o conduto por onde Deus Se pode comunicar com ele. Quando o Espírito é afinal rejeitado, nada mais pode Deus fazer pela alma” (Maravilhosa Graça de Deus, p. 213).

Deus nos dá as mesmas oportunidades para arrependimento e mudança de nossos conceitos religiosos equivocados, que podem nos levar à perdição eterna. Iremos aproveitar as oportunidades que o Espírito Santo nos oferece todos os dias?

“[…] Como diz o Espírito Santo: “Se hoje vocês ouvirem a voz de Deus, não sejam teimosos […]” (Hb 3:7, 8, NTLH).

"O arrependimento compreende tristeza pelo pecado e afastamento do mesmo. Não renunciaremos ao pecado enquanto não reconhecermos a sua malignidade; enquanto dele não nos afastarmos sinceramente, não haverá em nós uma mudança real da vida" (Caminho a Cristo, p. 23).

"Quem está desejoso de se tornar verdadeiramente arrependido? Que deve ele fazer? - Deve ir ter com Jesus, tal qual está, sem demora. Deve crer que a palavra de Cristo é verdadeira e, crendo na promessa, pedir, para que possa receber” (Reavivamento e seus Resultados, p. 24).

Talvez você esteja passando por um terrível peso de fracassos e falhas, sob olhares acusadores e críticos. Você tem chorado amargamente? Deus tem visto suas lágrimas e ouvido sua oração de arrependimento. Ele vai renovar o seu chamado. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1:9).

Lembre-se de que a pior derrota não é aquela em que o inimigo nos vence e nos lança no chão, mas quando ele consegue nos convencer de que para nosso caso não há esperança. Ouça agora mesmo a voz de Cristo falando ao seu coração: “Levante-se, entre novamente em campo. A partida ainda não está terminada.”

quarta-feira, 17 de julho de 2019

O suicídio da influenciadora Alinne Araújo

O suicídio da youtuber Alinne Araújo, que casou sozinha depois da desistência do noivo Orlando Costa, repercutiu nas redes sociais. Após uma série de ataques virtuais, a jovem de 24 anos saltou do nono andar do prédio em que morava no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro. Alinne sofria de ansiedade e depressão e já havia tentado o suicídio em outra ocasião. 

A psicanalista Jucimária Mendes, que atende muitos adolescentes em seu consultório, explicou que a ação dos chamados haters – pessoas que odeiam e destilam veneno de graça – podem servir de gatilho para atitudes intempestivas de pacientes depressivos. "As redes sociais potencializam a perversão e o perverso tem prazer em ferir. Para as ciências da psiquê, a perversão vive no limite com a psicopatia e ambos encontram terreno nas redes sociais. Elas se tornaram a porta de banheiro ou o muro de pichação das décadas de 70, 80 e 90", comentou.

O jornalista adventista Felipe Lemos, que gerencia a Assessoria de Comunicação da sede sul-americana adventista, também comentou o ocorrido via facebook: "O muito provável suicídio desta moça, apresentada publicamente como uma influenciadora, fala um pouco dos tempos em que vivemos. Doenças de fundo mental cada vez mais evidentes e presentes na realidade de adolescentes e jovens, incluindo os cristãos. Gente adoecendo de uma maneira que, há quem sabe 20 ou 30 anos, nem se percebia ou se documentava. Uma realidade hoje de muita gente expondo via mundo digital tudo o que faz, o que sente e o que deseja. E milhões reagindo a isso, em tempo real, de forma superficial, imediatista, preconceituosa, sem qualquer traço de empatia. Tempos de comportamentos complexos e alta visibilidade, para o bem e para o mal. Temos de começar a discutir essa realidade de forma mais madura e menos deslumbrada. Algo muito significativo ocorre perto de nós."

DepressãoTristeza extrema e abatimento fora de proporção quanto a qualquer causa alegada. A depressão pode ser o estágio final de um longo processo ansioso, gerado pelo sentimento de culpa, pelo medo e por uma estranha sensação de vazio interior.

Ainda que a depressão nos assedie, “o Sol da justiça se levantará trazendo cura em suas asas” (Ml 4:2, NVI). O poder divino disponível para superar a depressão, a visão bíblica integral do ser humano e o auxílio de profissionais e de recursos adequados para combater a doença são elementos fundamentais no processo de restauração.

Ellen G. White não era alheia aos assuntos de saúde mental. Ainda jovem, lutou contra a depressão em seu processo de conversão. Em seu trabalho de assistência espiritual, ela abordou com frequência questões sobre a mente. Ela sempre levou esperança e apontou para um amoroso Pai Celestial e Salvador que pode curar e livrar aqueles que estão feridos e quebrados pelo pecado e pelas adversidades da vida. Através de seus escritos, ela nos deixou vários conselhos para superarmos a depressão. Vejamos alguns deles extraídos do livro Como Lidar com as Emoções, pp. 41-54:

1. Mente satisfeita, espírito animoso, é saúde para o corpo e força para a alma. Coisa alguma é tão frutuosa causa de doença como a depressão, a melancolia e a tristeza. Muitas das doenças sofridas pelos homens são resultado de depressão mental.

2. Por ser o amor de Deus tão grande e inalterável, o doente deve ser estimulado a confiar nEle e ficar esperançoso. Estar ansioso quanto a si mesmo tende a causar fraqueza e doença. Se eles se erguerem acima da depressão e da tristeza, será melhor sua perspectiva de restabelecimento; pois “os olhos do Senhor estão... sobre os que esperam na Sua misericórdia” (Salmo 33:18).

3. Lembre-se de que, em sua vida, a religião não deve ser uma simples influência entre outras. Deve ser a influência dominadora sobre todas as outras. Seja estritamente temperante. Resista a toda tentação. Não faça concessão ao astuto inimigo. Não dê ouvido às sugestões que ele põe nos lábios de homens e mulheres. Você tem uma vitória a alcançar. Tem nobreza de caráter para conseguir; mas isso não se consegue enquanto estiver deprimido e desanimado pelo fracasso. Quebre os laços com que Satanás o tem prendido. Não há necessidade de ser escravo dele. “Vós sereis Meus amigos”, disse Cristo, “se fizerdes o que Eu vos mando” (João 15:14).

4. Vendo a iniquidade ao nosso redor, nos alegramos pelo fato de Cristo ser o nosso Salvador, e nós os Seus filhos. Deveríamos então contemplar a iniquidade, demorando-nos no lado escuro? Se não podemos acabar com ela, pelo menos falemos de algo que seja mais elevado, melhor e mais nobre.

5. O nosso corpo é composto do alimento que assimila. Ora, dá-se o mesmo com nossa mente. Se fizermos a mente demorar-se nas coisas desagradáveis da vida, não teremos esperança alguma. Precisamos demorar-nos nas cenas prazenteiras do Céu. Diz Paulo: “Nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória” (2 Coríntios 4:17).

6. Não ceda à depressão, mas deixe que a confortadora influência do Espírito Santo seja bem-vinda em seu coração, para lhe dar conforto e paz. Se quiser obter preciosas vitórias, encare a luz que procede do Sol da justiça. Fale em esperança e fé, e ações de graças a Deus. Seja animada, esperançosa em Cristo. Aprenda a louvá- Lo. Esse é o grande remédio para as doenças da mente e do corpo. 

7. Quando falamos de desânimo e tristeza, Satanás escuta com perversa alegria; pois agrada-lhe saber que colocou mais uma pessoa em sua escravidão. Satanás não pode ler nossos pensamentos, mas pode ver nossos atos, ouvir nossas palavras; e graças ao seu longo conhecimento da família humana, ele pode adaptar suas tentações de modo a prevalecer-se de nossos pontos fracos de caráter. E quantas vezes lhe permitimos penetrar no segredo de como pode alcançar vitória sobre nós! Oh, se controlássemos melhor nossas palavras e ações! Como nos tornaríamos fortes se nossas palavras fossem de tal espécie que não nos tivéssemos que envergonhar ao defrontar com o registro delas no dia do juízo! No dia de Deus, quão diferentes elas se mostrarão do que pareciam quando as pronunciamos!

8. Quando a depressão nos envolve, isso não é evidência de que Deus tenha mudado. Ele é o mesmo “ontem, e hoje, e eternamente” (Hebreus 13:8). Estamos seguros do favor de Deus quando somos sensíveis aos raios do Sol da justiça; mas se nuvens pairarem sobre nós, não nos devemos sentir abandonados. Nossa fé tem de atravessar as sombras, os olhos devem ser simples e todo o corpo estará pleno de luz. As riquezas das graças de Cristo têm de ser conservadas na mente. Entesouremos as lições que Seu amor oferece. Seja nossa fé semelhante à de Jó, para que possamos declarar: “Ainda que Ele me mate, nEle esperarei” (Jó 13:15). Apeguemos às promessas de nosso Pai celestial, e lembremo-nos de Seu antigo trato conosco e com os Seus servos; pois “todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus” (Romanos 8:28).

9. O verdadeiro cristão não permite que consideração alguma terrena se interponha entre sua vida e Deus. Os mandamentos de Deus exercem uma saudável influência sobre suas afeições e atos. Se cada um dos que buscam o reino de Deus e Sua justiça estivesse sempre pronto para fazer as obras de Cristo, quanto mais fácil seria o caminho para o Céu! As bênçãos de Deus fluiriam e os louvores ao Senhor estariam continuamente em nossos lábios. Serviríamos então ao Senhor por princípio. Nossos sentimentos poderiam nem sempre ser de natureza alegre; as nuvens por vezes ensombrariam o horizonte de nossa vida; mas a esperança do cristão não repousa sobre a base arenosa dos sentimentos. Os que agem movidos por princípios contemplarão a glória de Deus para além das sombras, e descansarão na segura palavra da promessa. Não se deixarão deter de honrar a Deus, por mais escura que a estrada possa parecer. A adversidade e as tribulações tão-somente lhes oferecerão oportunidade para mostrar a sinceridade de sua fé e amor.

10. Se eu olhasse às negras nuvens — as perturbações e perplexidades que aparecem em meu trabalho — eu não teria tempo para fazer qualquer outra coisa. Sei, porém, que há luz e glória para além das nuvens. Pela fé, atravesso as trevas, rumo à glória.

O prof. Leandro Quadros fala abaixo sobre suicídio e salvação:

terça-feira, 16 de julho de 2019

Há 104 anos, morria Ellen G. White

Foi há 104 anos, no dia 16 de julho de 1915, que chegava ao fim o ministério profético de Ellen G. White, escritora e cofundadora da Igreja Adventista do Sétimo Dia que dedicou sua vida integralmente a transmitir as mensagens que recebera de Deus. A morte, no entanto, não sepultou seu exemplo de vida e os conselhos inspirados que foram impressos desde a segunda metade do século XIX, os quais atravessaram gerações e romperam barreiras geográficas para alcançar o propósito para os quais foram designados.

Sobre os últimos dias da sua vida, diz o Centro de Pesquisas Ellen G. White:

“Suas palavras a amigos e parentes durante as últimas semanas de vida indicam um sentimento de alegria, e o senso de ter realizado fielmente a obra que o Senhor lhe confiara, confiança de que a obra de Deus avançaria até seu triunfo final, mas a preocupação de que os membros individuais da igreja, especialmente nossos jovens, reconhecessem o tempo em que estávamos e o sério preparo necessário para encontrar o Senhor em Sua vinda.

Os trabalhos da vida de Ellen White terminaram a 16 de julho de 1915, na idade madura de oitenta e sete anos bem passados, e foi posta a descansar ao lado do esposo no cemitério de Oak Hill, em Batlle Creek, Michigan. Embora a voz esteja silente e a pena infatigável descansando, contudo, as preciosas palavras de instrução, conselho, admoestação e encorajamento sobrevivem, para guiar a igreja remanescente até o fim do conflito e o dia da vitória final.”

Assistam agora este vídeo contando sobre os últimos momentos e palavras de Ellen White:

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O empurrão no padre Marcelo

Empurraram o padre. E não teve graça. A cena foi inesperada (assista o vídeo no final do texto). Mãos espalmadas no rosto traduziam o espanto da multidão. Gritos, preces. Tudo muito rápido. Instantes depois, ele assegurou estar bem e não prestaria queixa. Foi vítima da desorientação mental de uma agressora perdoada. ⠀

Além dos meus sinceros sentimentos pelo constrangimento que ele passou, confesso que um alerta disparou minha consciência. Por eu não ser católico, importou menos? Por não ir a missas, deveria ser empático? Olha só, de batina ou terno, o respeito à religiosidade está acima da obrigatoriedade do Estado Laico - é GRANDEZA HUMANA. E a figura serena projetada em nossa mente de quem recebeu uma vocação espiritual, ultrapassa fachadas e liturgias. Demanda consideração, deferência e cortesia. ⠀

Vivemos tempos cuja fragmentação ideológica, apimentada por partidarismos de extremos, deslustra a sacralidade do que importa. Explico: se me escandalizei na adolescência vendo um bispo evangélico chutando uma santa, não reduzirei meu incômodo ao presenciar qualquer tipo de ataque à fé do meu próximo. Inclusive, com credos bem diferentes dos meus. Se foi um padre arremessado do palco, ou se fosse o meu pastor preferido, o que caiu lá de cima é parte de todos nós - adoradores e devotos ao que cremos. 
Militemos pelo que a Bíblia agrega, e não desintegra: suportando uns aos outros (Cl 3:13) com intenso amor por todos (1Pd 4:8) sem se comportar indecentemente (1Co 13:5). Respeito é atitude antes do conceito. É colocar-se no lugar de quem também procura seu lugar. Isso jamais me torna displicente, ou omisso, com o que acredito na Revelação dos princípios bíblicos. Apenas, me disponho fazer a alguém o que gostaria que fizessem a mim (Mt 7:12). ⠀

Enfim, aceitar não é concordar. Nem tolerar, um ecumenismo doutrinário. Mas, a Liberdade Religiosa pode ultrapassar um mero arquipélago de indiferença alcançando a solidariedade humana na prática. Pois, importar-se é mais que só aturar - é fruto do Espírito. 
Que minha fé seja palpável ao ponto de, no aconchego do meu abraço, o próximo querer ouvir o “Assim diz o Senhor”. Só, então, minhas palavras ecoarão a Palavra. ⠀

E você? Pode melhorar? ⠀

Odailson Fonseca (via facebook)

domingo, 14 de julho de 2019

A Revolução Francesa e a formação do adventismo

No dia 14 de julho de 1789, Bastilha, a prisão-fortaleza de Paris, símbolo dominante da autoridade real francesa, foi tomada por um levante popular e as pedras do grande muro de 24 metros de altura por três metros de espessura que a cercavam foram arrancadas, peça por peça (James Maxwell Anderson, Daily Life During the French Revolution, 2007. p. 11; Max Gallo, Revolução Francesa, v1, 2012. p. 148). A queda da Bastilha é um retrato falado do fim de uma das monarquias mais poderosas do mundo, o evento inaugural que separa a Idade Moderna da Idade Contemporânea, e é também uma imagem permanente da Revolução Francesa (Mark Almond, Uprising! Mitchell Beazley, 2002, p. 32).
Em seu contexto cronológico imediato, a Revolução Francesa teve efeito direto sobre o Haiti, que iniciou em 1791 uma insurreição antiescravista, que culminou na independência daquele país em 1804. Ainda na década 1790, abalos sismoideológicos posteriores, vindos do epicentro de desdobramentos radicais na França, repercutiram através do Atlântico. As ideias francesas de soberania popular e o efeito das guerras revolucionárias fizeram com que aspirações por independência alcançassem voo a partir do México, ao norte, e viajassem até a Argentina e o Chile, na América do Sul (p. 38).
A ideologia revolucionária francesa também influenciou as nações emergentes da Europa do século 19, a ponto de estas adotarem, à semelhança da França, uma bandeira tricolor. Entre 1789 e 1917, a política europeia gravitou em torno de movimentos contra ou em favor dos princípios revolucionários de 1789, ou, na versão mais radical, de 1793 (E. J. Hobsbawm, The Age of Revolution: Europe 1789-1848, 1996. p. 53).
Passados 230 anos, ainda é possível detectar os desdobramentos daquela que é conhecida como a “mãe de todas as revoluções” no crescimento global das repúblicas e das democracias liberais, na difusão do secularismo e no desenvolvimento das ideologias modernas. Em suma, as reproduções ideológicas posteriores, projetadas a partir da Revolução Francesa, fazem com que esse seja considerado um dos eventos mais importantes da história.
Entretanto, as aparentemente universais ondas de choque da Revolução atingiram ainda uma área inesperada. As conflagrações sociais, políticas e religiosas que aconteceram na década de 1790 despertaram o interesse de muitos estudiosos para as descrições bíblicas do fim do mundo (George. R. Knight, William Miller and the Rise of Adventism, 2010. p.13). De forma específica, o violento ano de 1793, que começou com a decapitação do rei e terminou com o pleno andamento do Período do Terror, despertou o interesse pelo estudo do livro do Apocalipse nos Estados Unidos e na Inglaterra.
O pregador americano Elhanan Winchester (1751-1797) publicou, em fevereiro de 1793, o livro The Three Woe-trumpets, associando os acontecimentos da Revolução ao capítulo 11 de Apocalipse. Ele defendia que a Revolução Francesa cumpria precisamente as profecias daquele capítulo e que a sétima trombeta estaria prestes a soar (v. 15) para trazer o cataclismo final e anunciar o segundo advento de Cristo (Elhanan Winchester, The Three Woe Trumpets, 1793, p. 37, 38).
Ainda nesse sentido, o teólogo britânico Joseph Priestley (1733-1804), em um sermão publicado em fevereiro de 1794, correlacionou o terremoto de Apocalipse 11:3 com o fracionamento da Babilônia mística, que seria composta pelos países europeus. A décima parte seria a França, que foi separada do domínio papal através da Revolução (Joseph Priestley, Present State of Europe Compared with Antient Prophecies, J. Johnson, 1794, p. 25, 26).  O sermão enfatiza ainda a segunda vinda de Jesus, coincidindo com o começo do milênio (p. 19). Semelhantemente, Samuel Taylor Coleridge (1772-1834), poeta, filósofo e teólogo inglês, escreveu um poema em 1796, no qual estão interligados o livro de Apocalipse, a Revolução Francesa, o milênio e a redenção universal (S. T. Coleridge, & E. H. Coleridge (ed.), The Complete Poetical Works of Samuel Taylor Coleridge, v. 1, 1912, p. 108-123).
No final do século 18, como substrato da Revolução, um elemento-chave surge para delinear incisivamente as profecias do tempo do fim. De forma geral, a violência e a magnitude da catástrofe francesa fizeram os olhos dos eruditos das duas margens do Atlântico se voltarem para as profecias bíblicas de Daniel e Apocalipse. Em particular, muitos estudiosos da Bíblia desenvolveram um súbito interesse pelas profecias de tempo referentes ao ano de 1798. Em fevereiro daquele ano, o general de Napoleão, Berthier, havia marchado até Roma e destronado o papa Pio VI. Por isso, para muitos eruditos bíblicos, 1798 transformou-se num ponto de referência para relacionar a história secular com as profecias bíblicas (William Miller and the Rise of Adventism, p.13, 14).
Usando o princípio de que, ao se tratar de profecias bíblicas, um dia equivale a um ano, os pesquisadores das Escrituras interpretaram o aprisionamento do papa como a “ferida mortal” de Apocalipse 13:3 e o cumprimento das profecias dos 1.260 dias/anos de Daniel 7:25 e Apocalipse 12:6, 14 e 13:5 (p. 14). A justaposição dos eventos da década de 1790 com os versos supracitados forneceu a “Pedra de Roseta” para os comentaristas bíblicos.
O ano de 1798 foi estabelecido como um ponto de intersecção entre a profecia e a história (Ernest Robert Sandeen, The Roots of Fundamentalism, 1970, p. 7) e, a partir dessa data, um volume considerável de publicações que apontavam para os 1.260 dias proféticos foi posto em circulação (L. E. Froom, The Prophetic Faith of our Fathers, v. 2, 1948, p. 765-780). Entre os documentos publicados, destaca-se Remarks on the Signs of the Times, de Edward King (1735-1807), impresso em 1798, pouco tempo após o aprisionamento de Pio VI. (E. King, Remarks on the Signs of the Times, 1798, p. 16).
Com a interpretação padronizada dos 1.260 dias, houve um relativo consenso de que a profecia de Daniel 12:4 havia se cumprido, e de que havia chegado o tempo do fim. Essa foi a ponte escatológica para os 2.300 dias de Daniel 8:14 (William Miller and the Rise of Adventism, p. 14). LeRoy Froom documentou cinquenta e oito expositores, em quatro continentes, que entre 1800 e 1844 previram que a profecia de 2.300 dias proféticos seria cumprida entre 1843 e 1847. Na tabela, a interpretação do evento que ocorreria na data é variável (L. E. Froom, The Prophetic Faith of our Fathers, v. 4, 1954, p. 403-405).
Em resumo, devido a fatores interligados, como o Iluminismo (século 18), a Revolução Americana (1766-1783), a Revolução Francesa (1789-1799) e o Segundo Grande Reavivamento (1790- 1830), as décadas intermediárias, entre os séculos 18 e 19, convergiram para um reavivamento mundial sem precedentes no nível de interesse em estudos bíblicos sobre a segunda vinda de Cristo. Muitos intérpretes protestantes foram convencidos pelo estudo da profecia bíblica, que Cristo retornaria em seus dias.
No entanto, foi Guilherme Miller (1782-1849), membro de uma igreja batista de Low Hampton, Nova York (EUA), que delineou um dos mais precisos cálculos cronológicos de profecia bíblica em sua época, mostrando, dentro de sua interpretação, o que ele acreditava ser a iminência da volta de Jesus (Alberto R. Timm, “The Sanctuary and the Three Angels’ Messages” [tese de doutorado], 1995, p. 1-4). Em seus primeiros anos de estudo (1816-1818), Guilherme Miller buscou compreender e harmonizar períodos proféticos, como os 2.300 dias de Daniel 8:14; os 1.290 dias e os 1.335 dias de Daniel 12:11, 12, bem como os 1.260 dias de Apocalipse 11:3 e 12:6 (cf. Daniel 7:25; Apocalipse 11:2; 12:14; 13:5). Isso levou-o à conclusão de que Cristo poderia retornar por volta de 1843.
Os adventistas do sétimo dia são a ramificação sobrevivente mais importante do movimento milerita na América do Norte que surgiu entre as décadas de 1830 e 1840, período marcado pela forte onda do Segundo Grande Revivamento (1790-1830). A partir de então o milerismo começou a desenvolver um sistema único de interpretação profética, que foi posteriormente expandido pelos adventistas sabatistas (Timm, “The Sanctuary and the Three Angels’ Messages”, p. xii). Imediatamente após o desapontamento de 22 de outubro de 1844, os adventistas sabatistas começaram um estudo intensivo das Escrituras que culminou na formação de seu sistema doutrinal básico, em 21 de maio de 1863 (p. xxi).
No fim do século 18, a Revolução Francesa surgiu como a sólida metáfora de uma força arrebatadora que contorna todos os obstáculos. Como um turbilhão, arrastou tudo o que a força humana conseguia opor-lhe: e ninguém podia contrariar impunemente sua marcha. A Revolução Francesa guiou muitos homens para o abismo, enquanto esses pensavam que a guiavam (Joseph de Maistre, Considérations sur la France, 1844, p. 15, 16).
No entanto, em contraposição a esse movimento arrebatador, carregado de violência e destruição, Apocalipse 18:1 apresenta outra revolução para o futuro: um grande movimento mundial, simbolizado por um anjo que tem grande autoridade e ilumina toda a Terra. Esse anjo é uma metáfora que representa todo aquele que espera a vinda do Senhor, mas, ao mesmo tempo, apressa o evento através do preparo diário que só pode ser adquirido no campo de batalha da missão. E, quando chegar o momento de a derradeira mensagem ser proclamada em todo o planeta, a força dessa palavra será maior do que a de qualquer revolução.
Flávio Pereira da Silva Filho (via Revista Adventista)