Diversos pensadores estão voltando ao mito de Narciso como um emblema dos valores e atitudes que dominam a sociedade contemporânea. Christopher Pasch, em seu best-seller The Culture of Narcissism (A Cultura do Narcisismo), considera esta atitude para com a vida “um dos temas principais da cultura norte-americana”. Gilles Lipovetsky, um sociólogo francês, define a época presente como “a era do narcisismo”.
Na mitologia grega, Narciso era um jovem bonito e vaidoso que rejeitou os avanços das ninfas Eco e Aminia. Aminia, ferida em seu orgulho, amaldiçoou o jovem, desejando que nunca possuísse o objeto de seu amor. Um dia, Narciso curvou-se para beber água de uma fonte. Vendo sua própria face refletida na água, enamorou-se dela. Narciso foi tão atraído por sua própria imagem que frequentemente voltava à fonte para se contemplar. Assim foi ele enlanguecendo até que morreu. Outra versão da lenda conta que, vendo-se na água, procurou abraçar sua própria imagem e afogou-se na tentativa. Naquele lugar, segundo a lenda, brotou uma nova flor que toma o nome de seu criador infeliz — narciso.
Guardei essa história na minha gaveta mental das mitologias, e retirei quando, para definir as loucuras de Donald Trump, os psiquiatras sugeriram personalidade narcisista. De lá para cá, ouço cada vez mais pessoas sendo definidas assim. Narcisistas são sedutores e donos da razão, só pensam em si e têm zero de empatia pelo próximo. Ellen White aconselha: "Aprendam acerca das necessidades dos outros! Esse conhecimento desperta empatia, que é a base para um ministério eficaz. Ao tentarem aprender acerca das tremendas necessidades das pessoas, vocês tornar-se-ão menos egocêntricos e mais capazes de simpatizar com a situação desesperada de milhões" (Um Convite a Diferança, p. 91).
Narcisistas patológicos não são pessoas que se amam demais. São, ao invés disso, pessoas com baixíssima autoestima, uma autoimagem deturpada e um mau caráter brutal, mais comum na sociedade moderna do que se imagina. Há quem diga que esse transtorno é epidêmico, tamanha sua incidência na população mundial.
Segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual de Estatística e Diagnóstico de Desordens Mentais), da Associação Psiquiátrica Americana, narcisistas são indivíduos arrogantes e convencidos, que têm fantasias magníficas sobre si mesmos. Eles superestimam seu sucesso, precisam ser constantemente admirados e sempre esperam tratamento preferencial.
Os narcisistas estão convencidos de que merecem mais do que recebem. Preocupam-se em ter boa aparência e em manter a juventude. Não são sensíveis às necessidades e aos problemas de outras pessoas. Com pouca tolerância para a crítica, frequentemente reagem com fúria a ofensas reais ou imaginárias.
Os narcisistas estão andando nas ruas, vestidos sedutoramente segundo a moda, provocando admiração e inveja. Podemos vê-los nas praias exibindo seus corpos maravilhosamente bronzeados. Seguem a última moda, gastam muito dinheiro com perfumes e maquiagem, e adotam várias dietas e terapias a fim de se tornarem mais atraentes.
Esse individualismo centrado em si procura apenas gratificação própria e prazer. O desejo de bem-estar e de divertir-se eclipsa tudo o mais. Insensibilidade e indiferença dominam a atitude do narcisista para com o resto do mundo e os interesses ou necessidades dos outros. Importantes questões filosóficas, religiosas, econômicas ou políticas despertam uma curiosidade apenas superficial. Deus torna-Se um estranho. O sentido de transcendência desaparece. O que importa é conforto e uma bela aparência: preservar o nível de vida e gratificar o eu. Assim o narcisista vive apenas no presente e não se preocupa com o passado ou o futuro. A filosofia de “faça o que lhe apraz”, “não se preocupe”, “seja feliz” e “divirta-se” torna-se o princípio que lhe governa a vida.
Um narcisista é uma pessoa que exibe um alto nível de egoísmo, vaidade e orgulho. Ele vê tudo de uma perspectiva de “como isso me afeta?”. Ellen White diz que "o orgulho só conduz para a vaidade, levando o ser humano a fazer um deus de si mesmo" (Testemunhos para a Igreja 9, p. 211).
A Bíblia diz que nascemos pecadores desde a queda (Romanos 5:12). Isso significa que nascemos apenas com tendências pecaminosas e sem a capacidade de sermos “bons” ou justos por conta própria. O que chamamos de “natureza humana” a Bíblia chama de “carne” (Gálatas 5:19-21). Parte da nossa natureza pecaminosa é um foco total no eu. Esse foco, também chamado de “egocentrismo”, é como os bebês veem e experimentam o mundo. O narcisismo é como o egocentrismo, pois o adulto ainda se relaciona com o mundo como uma criança, uma perspectiva que impede o crescimento pessoal e os relacionamentos.
Ellen White diz que "somos por natureza egocêntricos e opiniosos. Mas, ao aprendermos as lições que Cristo nos deseja ensinar, tornamo-nos participantes de Sua natureza; daí em diante, vivemos a Sua vida. O maravilhoso exemplo de Cristo, a incomparável ternura com que compreendia os sentimentos dos outros, chorando com os que choravam e Se regozijando com os que se regozijavam, deve exercer profunda influência sobre o caráter de todos quantos O seguem em sinceridade" (Mente, Caráter e Personalidade 1, p. 271).
As teorias psicológicas sobre o narcisismo sugerem que a pessoa narcisista usa mecanismos de defesa para se idealizar a fim de que não tenha que enfrentar seus próprios erros (pecado) ou falhas (estado decaído). O diagnóstico de transtorno de personalidade narcisista descreve os padrões de comportamento de uma pessoa narcisista como sendo arrogante, não empático, manipulador e invejoso; ele também possui um senso de direito e grandiosidade.
De uma perspectiva bíblica, é claro que essas condições do coração são devidas ao orgulho, que é pecado (Provérbios 16:18). A Bíblia nos diz: “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros” (Filipenses 2:4). O narcisista rotineiramente desobedece a esse comando. Ellen White afirma que "aquele que é egocêntrico perde inúmeras oportunidades para fazer aquilo que haveria trazido bênçãos aos outros e a ele próprio. É o dever do servo de Cristo, em toda circunstância, perguntar-se a si mesmo: 'Que posso fazer para ajudar a outros?' Havendo feito tudo a seu alcance, deve deixar as consequências com Deus" (Mensagens Escolhidas 1, p. 86).
O orgulho é uma razão pela qual as pessoas não sentem que precisam de um salvador ou perdão. O orgulho lhes diz que são pessoas “boas” ou têm um coração “bom”. O orgulho também cega as pessoas para sua própria responsabilidade pessoal e responsabilidade pelo pecado. Ellen White adverte: "A pessoa que cai em algum pecado grosseiro sente, talvez, sua vergonha e miséria, e sua necessidade da graça de Cristo; mas o orgulho não sente necessidade alguma, e assim fecha o coração a Cristo e às infinitas bênçãos que veio dar" (Caminho à Cristo, p. 30).
O narcisismo (orgulho) mascara o pecado, enquanto o evangelho revela a verdade que leva ao remorso pelo pecado. Traços narcisistas podem ser perigosos porque, na pior das hipóteses, levarão uma pessoa a destruir outros para satisfazer a concupiscência da carne (2 Timóteo 3:2-8). Ellen White diz que "nada é tão ofensivo a Deus nem tão perigoso para o espírito humano como o orgulho e a presunção. De todos os pecados é o que menos esperança incute, e o mais irremediável” (Parábolas de Jesus, p. 154).
A Bíblia aborda as questões relacionadas ao narcisismo como parte do nosso eu natural pecaminoso (Romanos 7:5). Somos escravos da carne até colocarmos nossa fé em Jesus, que liberta os cativos (Romanos 7:14-25; João 8:34-36). Os crentes são então escravos da justiça quando o Espírito Santo começa a obra transformadora de santificação em suas vidas. No entanto, os crentes devem se render ao Senhor e se humilhar para ter a perspectiva de Deus em vez de uma perspectiva egoísta (Marcos 8:34).
O processo de santificação se trata de afastar-se do eu (narcisismo) e voltar-se para Jesus. Ellen White afirma que "a verdadeira santificação é uma inteira conformidade com a vontade de Deus. Pensamentos e sentimentos de rebelião são vencidos, e a voz de Jesus suscita uma nova vida, que penetra todo o ser. Aqueles que são verdadeiramente santificados não ostentarão sua própria opinião como uma norma do bem ou do mal" (Santificação, p. 9).
Todas as pessoas são narcisistas até que aprendam a encobri-lo e se dar bem no mundo ou até que reconheçam sua própria carne e se arrependam de seus pecados. O Senhor ajuda as pessoas a sair do narcisismo quando recebem Jesus como o seu Salvador (Romanos 3:19-26). O crente tem o poder de começar a amar os outros como a si mesmo (Marcos 12:31). Ellen White conclui: "Jesus é nosso exemplo em todas as coisas; não nos deu, porém, qualquer exemplo de semelhante egoísmo manifestado por muitos que professam ser Seus seguidores. Se permanecemos em Cristo e Seu amor permanece em nós, amaremos aqueles por quem Cristo morreu; pois Ele ordenou que Seus seguidores amassem uns aos outros, assim como Ele os amou" (Fundamentos da Educação Cristã, p. 50).
Num mundo saturado com o culto do narcisismo, a narrativa bíblica e o Espírito de Profecia consistentemente realçam que o significado da vida pode ser achado em Deus e nEle somente. Longe do eu e ancorado em fé, esperança e amor.

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