terça-feira, 10 de maio de 2022

A IRA DE DEUS

De longe, a ira é a qualidade menos popular de Deus. Para alguns, só de ouvir sobre ela sentem um frio na espinha, imaginando que o Policial Cósmico está vigiando seus passos. Para outras pessoas, a ira não combina com o amor de Deus, Seu atributo mais enfatizado em livros, sermões e mensagens virais de hoje. Os que pensam assim, encaram a Deus mais como um Avô permissivo do que um Pai amoroso. O fato é que a ira de Deus é um dos temas mais repetidos na Bíblia. E entender isso, diz muito sobre quem Ele é, como nós somos e como podemos nos reconectar. 

Quem Ele é? 
Deus não Se preocupou em descrever Seu físico, mas não poupou explicações sobre Seu caráter. Sua ira só é corretamente compreendida à luz de Suas outras virtudes, como... 

- Justiça. Ele é coerente com as leis universais que criou (Sl 119:137). 

- Santidade. Ele é único, singular e isento de mal (Is 57:15Hc 1:12, 13). Tem aversão ao pecado. 

- Misericórdia. Ele tem compaixão pela humanidade miserável (Mc 1:40, 41). Por isso, aceitou um substituto para o homem e morreu como tal. 

- Amor. Seu amor não é impulsivo e instável, mas uma escolha racional, movida por um princípio. Por isso, Ele ama até Seus inimigos. 

- Graça. É o favor de Deus pelo pecador. Não é baseada no que o homem merece, mas no que ele precisa (Ef 2:7-9). É o poder que perdoa e liberta (Rm 1:16). 

- Tolerância. É a lentidão de Deus para derramar Sua ira. Ele demonstrou isso pelos israelitas (Nm 14:18) e pelos que morreram no Dilúvio (1Pe 3:20). Faz o mesmo hoje, enquanto Jesus não volta à Terra (2Pe 3:9). 

O que é a ira? 
- É a reação de Deus ao efeito destruidor do pecado. 

- Se Ele não Se irasse, seria injusto consigo (porque é santo) e com o pecador (porque ele merece). 

- A ira de Deus é previsível, coerente e constante. Deus não muda (Ml 3:6). 

- É diferente da ira dos homens, que é impulsiva, imparcial e vingativa (Pv 29:8). 

- E dos temperamentais deuses pagãos, cuja ira era saciada apenas com penitências (1Rs 18:24-29). 

- A demonstração da ira de Deus nos dá três recados: Ele é justo; precisamos corrigir nossa vida; e o mal não vale a pena. 

Por que Ele fica irado? 
- Por causa do pecado, em todas as suas formas. 

- O pecado sempre será a quebra de uma lei (1Jo 3:14). 

- Dos mandamentos registrados na Bíblia e conhecidos por Seu povo: pecados religiosos como a idolatria (Dt 29:24-28). 

- Ou da lei universal que Deus escreveu na consciência humana (Rm 2:14-16): as ofensas morais como a crueldade (Am 1:3-2:3). 

Como Ele mostra a ira? 
O Todo-poderoso têm todos os recursos disponíveis para expressar Sua ira. E Ele faz de tudo para alertar a humanidade. 

- Abandono. É quando Deus deixa o homem colher os frutos naturais de sua rebeldia. O resultado sempre é trágico (Rm 1:24-32). 

- Anjos. Os bons quando são portadores de juízos (At 12:20-23) e pragas (Ap 15:1; 16:1-21); e os maus quando, por livre escolha do homem, dominam e destroem a vida do indivíduo. 

- Homens. Os que o temem, como líderes (Nm 25:6-13), grupos (Êx 32:1-29) e Seu povo (Dt 7:1, 2); e os que O desconhecem, como reis (Jr 32:28) e povos pagãos (Is 10:5). 

- Natureza. Deus já usou e usará água (Gn 7), fogo (Gn 18, 19), terremoto (Nm 16:1-35), calor (Ap 16:8, 9), seca (1Rs 17:1) e ataques de animais (2Rs 2:23, 24) para expressar Sua ira. 

- Doenças. Pragas que mataram milhares de pessoas (Nm 16:41-50), lepra (Nm 12:1-10) e úlceras (Êx 9:10). 

- Acidentes. Podem acontecer por permissão de Deus ou ação direta dEle (2Rs 1:2-4, 17). 

Quando? 
- Todos os dias Ele manifesta Sua ira contra o pecado e pecadores (Sl 7:11), através do sentimento de culpa, do sofrimento mental e da degeneração. 

- Mas tudo isso é uma prévia e um aviso do juízo final (Rm 2:5). 

Como sobreviver? 
- Por ser racional, a ira de Deus pode ser desviada, desde que haja um substituto para pagar a dívida. Para espanto de todo o Universo, Cristo Se ofereceu como oferta. 

- Não foi a cruz que matou Jesus, mas a ira de Deus que caiu sobre Ele (Is 53:5, 10). 

- Graças a Ele, não existe mais condenação e castigo para os que decidem segui-Lo (Rm 8:1). 

- Quem rejeita o sangue de Cristo (Ap 7:13-17) terá que enfrentar sozinho a ira dEle (Ap 6:15-17). 

Fonte: A Ira de Deus: estudo bíblico-teológico e proposta homilética, de Emilson dos Reis (tese doutoral, Unasp, 2009). (via Conexão 2.0)

"O poder que infligiu justiça retributiva ao substituto e fiador do homem, foi o poder que susteve e encorajou o Sofredor sob o tremendo peso da ira que devia haver caído sobre um mundo de pecado. Cristo estava sofrendo a morte que havia sido sentenciada aos transgressores da lei de Deus. Coisa tremenda para o pecador impenitente é cair nas mãos do Deus vivo. Isto se prova pela destruição do mundo antigo por um dilúvio, pelo registro do fogo que caiu do céu e destruiu os habitantes de Sodoma. Mas isto nunca foi provado em tal extensão como na agonia de Cristo, ... quando Ele suportou a ira de Deus por um mundo pecador. A agonia sofrida por Cristo, amplia, aprofunda e dá mais larga concepção do caráter do pecado, e da retribuição que Deus trará sobre os que continuarem em pecado. O salário do pecado é a morte, mas o dom de Deus é a vida eterna por Jesus Cristo ao pecador arrependido e crente" (Ellen G. White - Para Conhecê-Lo, p. 59)

sexta-feira, 6 de maio de 2022

DEUS... NO LIMITE

O cristianismo passou séculos apresentando a graça de Cristo por meio do Seu sacrifício em nosso favor. Aprendemos que Deus está disposto a perdoar qualquer um, inclusive os piores de nós. Entendemos que no Reino de Deus o perdão é dez vezes infinito x infinito (70x7). E que “nada pode nos separar do amor de Deus” (Romanos 8:38-39). Portanto, não há quem possa me impedir de receber a salvação em Cristo e nada que eu possa fazer que seja maior que a graça de Jesus. Estas são verdades cristãs.

No entanto, há inúmeros momentos na Bíblia onde vemos Deus chegando a um limite. Acontece quando Ele destrói o mundo por um dilúvio, quando destrói Sodoma e Gomorra, quando devasta o Egito, quando devasta as terras canaanitas. Ou quando morrem Hofni e Finéias, os filhos de Eli, Coré, Datã e Abirão, o Espírito é retirado de Saul e quando morrem Ananias e Safira no Novo Testamento. Só para nomear alguns. Todos casos, em que tanto para nós quanto para Deus algum limite foi atingido, e o Senhor teve de pôr fim àquelas histórias. Sabemos, também, que um dia Deus dará um fim a todo o mal, indicando claramente que Ele tem sim um limite para o mal.

Vejamos abaixo essa questão sob a ótica de Ellen G. White:

"Com infalível precisão, o Ser infinito ainda mantém, por assim dizer, uma conta com todas as nações. Enquanto Sua misericórdia se oferece com convites ao arrependimento, esta conta permanecerá aberta; quando, porém, os algarismos atingem um certo total que Deus fixou, começa o ministério de Sua ira.

Quando chegar plenamente o tempo em que a iniquidade terá atingido o prescrito limite da misericórdia de Deus, cessará Sua clemência. Quando os números acumulados nos livros de registro do Céu indicarem que o total da transgressão está completo, virá a ira.

Ao mesmo tempo em que a misericórdia de Deus suporta longamente o transgressor, há um limite além do qual os homens não podem ir no pecado. Quando é atingido aquele limite, os oferecimentos de misericórdia são retirados, e inicia-se o ministério do juízo.

Tempo virá em que em suas fraudes e insolências os homens atingirão o ponto que o Senhor não permitirá que transponham, e aprenderão que há um limite para a longanimidade de Jeová.

Há um limite além do qual os juízos de Jeová não podem mais ser detidos.1

Hoje a voz da misericórdia está chamando, e Jesus está atraindo os homens com as cordas de Seu amor; chegará, porém, o dia em que Jesus porá as vestes de vingança. ... A iniquidade do mundo está aumentando diariamente, e quando for atingido certo limite, o registro será encerrado, e acertadas as contas. Não haverá mais sacrifício pelo pecado. O Senhor vem. Por muito tempo tem a misericórdia estendido a mão de amor, de paciência e tolerância a um mundo culpado. Foi feito o convite: “Que se apodere da Minha força e faça paz comigo” (Isaías 27:5) ..., mas os homens abusaram de Sua misericórdia e rejeitaram Sua graça.2

Os dias em que vivemos são solenes e importantes. O Espírito de Deus está, gradual, mas seguramente, sendo retirado da Terra. Pragas e juízos já estão caindo sobre os que desprezam a graça de Deus. As calamidades em terra e mar, as condições sociais agitadas, os rumores de guerra, são assombrosos. Prenunciam a proximidade de acontecimentos da maior importância.3

Desabrigados da graça divina, não têm proteção contra o maligno. Satanás mergulhará então os habitantes da Terra em uma grande angústia final. Ao cessarem os anjos de Deus de conter os ventos impetuosos das paixões humanas, ficarão às soltas todos os elementos de contenda. O mundo inteiro se envolverá em ruína mais terrível do que a que sobreveio a Jerusalém na antiguidade.4

O Senhor convida os que nEle creem a serem Seus cooperadores. Enquanto durar a vida, não devem achar que sua obra terminou. Deixaremos que os sinais do fim se cumpram sem advertir as pessoas do que sobrevirá à Terra? Consentiremos que elas pereçam nas trevas sem ter-lhes realçado a necessidade de se prepararem para o encontro com o Senhor? A menos que nós mesmos cumpramos o nosso dever para com os que nos rodeiam, o dia de Deus virá sobre nós como um ladrão. O mundo está cheio de confusão, e em breve apoderar-se-á dos seres humanos um grande terror. O fim está muito próximo. Nós, que conhecemos a verdade, nos devemos estar preparando para o que está prestes a irromper sobre o mundo como esmagadora surpresa.5

O fim está próximo. Que nossas igrejas se levantem! Seja o poder convertedor de Deus experimentado no coração dos membros individuais, e então veremos a profunda atuação do Espírito de Deus.6

Viva a vida de fé dia a dia. Não se torne ansioso e preocupado com o tempo da tribulação, sofrendo de antemão. Não fique pensando: "Estou com medo e não permanecerei no dia do grande teste". Você deve viver o presente, um dia de cada vez, pois o amanhã não lhe pertence. Hoje você vence o eu, hoje você deve ter uma vida de oração. Hoje você deve combater o bom combate da fé, hoje você deve crer que Deus o abençoa e, ao obter a vitória sobre as trevas e a descrença, você preencherá os requisitos do Mestre e se tornará uma bênção para aqueles ao seu redor."7

1. Eventos Finais, pp. 39-40
2. Maranata, o Senhor Vem, p. 50
3. Testemunhos Para a Igreja, v. 9, p. 11
4. O Grande Conflito, p. 614
5. E Recebereis Poder [Meditações Matinais, 1999], p. 159
6. Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 154
7. Signs of the Times, 20 de outubro, 1887, p. 10

quinta-feira, 5 de maio de 2022

O CRISTÃO E A DESOBEDIÊNCIA CIVIL

Ao longo dos anos, os cristãos têm enfrentado a questão do que fazer quando seguir convicções religiosas entra em conflito direto com a obediência à autoridade governamental. Há duas maneiras pelas quais esse conflito ocorre, e há exemplos bíblicos para ambas. A primeira acontece quando um governo ordena algo que está em conflito com as convicções religiosas. O livro de Daniel oferece um exemplo útil desta forma de conflito quando o rei Nabucodonosor emitiu o decreto de que todos deveriam se curvar à imagem de ouro, em violação direta do segundo mandamento (Dn 3; cf. Ex 20:4- 6). Outro exemplo disso pode ser encontrado no livro do Êxodo, onde Faraó ordenou às parteiras hebréias que matassem todos os meninos hebreus quando nascessem (Ex 1:15-20).

Esse conflito também ocorre quando um governo proíbe algo que Deus ordena. Novamente, podemos olhar para o livro de Daniel para o exemplo desse tipo de conflito, onde vemos o rei Dario proibindo todos de orarem a alguém que não seja ele por 30 dias (Dn 6). Em ambos os casos, o povo de Deus foi colocado na posição de se submeter à autoridade do governo ou a Deus. E em todos os três exemplos, o povo de Deus escolheu segui-Lo e desafiar as leis dos líderes da época.

No entanto, quando chegamos ao Novo Testamento, encontramos orientação de que nós, como seguidores de Cristo, devemos nos submeter à autoridade do governo porque os líderes são designados por Deus. Por exemplo, em Romanos, Paulo diz: “Todos estejam sujeitos às autoridades governamentais, pois não há autoridade exceto aquela que Deus estabeleceu. As autoridades que existem foram estabelecidas por Deus. Consequentemente, quem se rebela contra a autoridade está se rebelando contra o que Deus instituiu, e aqueles que o fizerem trarão julgamento sobre si mesmos” (Romanos 13:1, 2, NVI; cf. Tito 3:1). Pedro oferece conselho semelhante quando declara: “Sujeitem-se, por amor do Senhor, a toda autoridade humana: seja ao imperador, como autoridade suprema, ou aos governadores, que são enviados por ele para punir os que erram e elogiar os que fazer o que é certo” (1 Pedro 2:13, 14).

Jesus também ensinou que os crentes têm o dever para com o governo quando Ele respondeu à pergunta feita pelos fariseus para enganá-lo sobre se deveriam pagar impostos a César. Em resposta, Jesus deu a orientação de “tornar... a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21, NKJV; cf. Lucas 20:19-26 e Marcos 12:13-17).

Considerando os exemplos bíblicos e a orientação dada tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, duas questões vêm à mente. Primeiro, qual é o nosso dever de nos submetermos à autoridade governamental, especialmente quando essa autoridade proíbe os crentes de adorar livremente como bem entenderem? Em segundo lugar, que salvaguardas os governos colocaram em prática para proteger os direitos de um indivíduo de adorar livremente sem restrições do governo?

Noções básicas de proteção da liberdade religiosa
Desde 1948, a comunidade internacional reconheceu a liberdade de consciência e religião como um direito humano fundamental. O artigo 18 da Declaração Universal dos Direitos Humanos afirma que “toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião”, incluindo “liberdade de mudar de religião ou crença, e liberdade, sozinho ou em comunidade com outros e em público ou privado, para manifestar sua religião ou crença no ensino, na prática, no culto e na observância”. 

Esse direito, no entanto, não é absoluto e, ao longo dos anos, os tribunais vêm definindo o que significa exercer livremente a religião e quais são as limitações desse direito. Os tribunais reconheceram que existe uma diferença entre o direito de um indivíduo de ter uma crença religiosa e o direito de praticar livremente essa crença. Enquanto o direito de manter uma crença religiosa é absoluto, o direito de praticar essa crença não é. Por exemplo, o direito de exercer livremente sua religião não inclui o direito de prejudicar os outros ou interferir nos direitos dos outros.

Embora o conceito de liberdade de religião seja um princípio bem reconhecido, houve momentos, e continuarão havendo, em que os governos limitarão a liberdade de consciência e religião em nome do cumprimento de outros interesses governamentais. Vimos isso acontecer quando o discurso religioso é rotulado como discurso de ódio, quando estudantes e funcionários são forçados a decidir entre fazer exames escolares e trabalhar no sábado ou honrar o dia de Deus, quando os governos fazem leis proibindo o proselitismo ou exigindo o porte de armas contra a consciência de um indivíduo.

Subordinação e Desobediência Civil?
O que devemos, como crentes, fazer quando confrontados com uma lei que parece entrar em conflito com os princípios bíblicos que afetam nossa capacidade de praticar livremente nossas crenças religiosas?

Eu acredito que a Bíblia dá orientação sobre este assunto. Seguindo o conselho de Jesus, devemos “render... a César o que é de César”, reconhecendo e apoiando o direito do governo de legislar sobre assuntos seculares e cumprir essas leis quando possível. Mas também devemos lembrar nosso dever de render a Deus como nossa primeira prioridade. Isso significa que quando as leis estão em conflito com os mandamentos bíblicos, nossa fidelidade a Deus deve sempre vir em primeiro lugar.

Isso me leva a um termo que é frequentemente usado, mas tem muitas definições diferentes: desobediência civil. Usando a seguinte definição, acredito que nós, como cristãos, às vezes somos chamados à desobediência civil. A desobediência civil para os fins deste artigo pode ser definida como “ação intencional, não violenta, ou recusa em agir, por um cristão que acredita que tal ação ou inação é exigida dele para ser fiel a Deus, e que ele ou ela sabe que será tratado pelas autoridades governamentais como uma violação da lei”. A desobediência civil é garantida sempre que o governo ordenar o que Deus proibiu ou proibir o que Deus ordena.

Olhando para os dois relatos bíblicos dados no início deste artigo em Daniel 3 e 6, vemos os dois exemplos de quando a desobediência civil é justificada. Em ambos os casos, a decisão de agir ou a recusa de agir foi proposital – as decisões de não cumprir a lei não se baseavam meramente em preferências individuais, mas porque a obediência estaria em contradição direta com os ensinamentos e mandamentos de Deus. Além disso, e este é um ponto crucial, em ambos os casos as decisões foram tomadas sabendo que seria visto como uma violação da lei, e havia disposição para enfrentar a pena – a morte. Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego não tentaram argumentar que a lei não se aplicava ou não deveria se aplicar a eles. Em vez disso, eles estavam dispostos a se sujeitar à penalidade que a violação da lei acarretava, mesmo que as leis fossem injustas.

Então, envolver-se em desobediência civil significa não seguir o conselho do Novo Testamento de estar sujeito à autoridade? Não, é importante notar que a orientação dos apóstolos no Novo Testamento não diz que nós, como crentes, devemos sempre obedecer à autoridade do governo, mas que devemos estar sujeitos a ela. Como John Yoder, teólogo e eticista menonita, explicou: “O objetor de consciência que se recusa a fazer o que seu governo lhe pede, mas ainda permanece sob a soberania desse governo e aceita as penalidades que ele impõe... está sendo subordinado mesmo que não esteja obedecendo" (A Política de Jesus, p. 212).

Embora Pedro e Paulo pregassem a subordinação à autoridade governamental, eles desobedeceram seus líderes locais, continuando a pregar o evangelho quando lhes foi dito para parar, levando à sua prisão e prisão (cf. Atos 5; 12; 16). Além disso, Jesus antecipou que espalhar o evangelho poderia e às vezes resultaria em ser entregue às autoridades para serem espancados e punidos, e preparou Seus seguidores para isso (Marcos 13:9-11).

Os primeiros pioneiros adventistas também entenderam que às vezes a desobediência civil pode ser exigida, embora reconheçam que isso também significa estar sujeito à lei e suas penalidades. Ellen White aconselhou que às vezes a desobediência civil era necessária. “Quando as leis dos homens entram em conflito com a palavra e a lei de Deus, devemos obedecer a esta última, quaisquer que sejam as consequências. A lei de nossa terra que exige que entreguemos um escravo ao seu senhor, não devemos obedecer; e devemos cumprir as consequências de violar esta lei” (Testemunhos para a Igreja 1, pp. 201, 202). "O povo de Deus reconhecerá o governo humano como sistema estabelecido por determinação divina e, por preceito e exemplo, ensinará obediência a ele como dever sagrado enquanto sua autoridade for exercida em sua legítima esfera de ação. Mas quando as suas reivindicações estão em desacordo com as reivindicações de Deus, devemos escolher obedecer antes a Deus do que aos homens. A Palavra de Deus precisa ser reconhecida e obedecida como autoridade acima de toda legislação humana. O 'Assim diz o Senhor' não deve ser posto de lado por um 'Assim diz a Igreja ou o Estado'. A coroa de Cristo deve ser erguida acima de todos os diademas dos potentados terrestres" (Eventos Finais, p. 142).

Como crentes, nossa posição padrão deve ser submissão à autoridade e, quando possível, obediência às leis da terra, se elas não estiverem em conflito direto com nossa capacidade de seguir os mandamentos de Deus. Mas quando nos deparamos com um conflito que exige obediência ao governo ou submissão a Deus, nosso primeiro dever deve sempre ser para com Ele, independentemente do custo.

Jennifer Gray Woods (via Adventist Review)

"Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens" (Atos 5:29).

quarta-feira, 4 de maio de 2022

TIRE A MÁSCARA

A pandemia ainda não acabou. Mas diante da melhora do cenário epidemiológico da Covid-19 no Brasil, já estamos podendo abrir mão da proteção das máscaras em alguns ambientes quando saímos de casa. Mas existem outras “máscaras” que já deveriam ter sido arrancadas há muito tempo pelo povo de Deus. “Às vezes, escondemos nosso medo, nossa fraqueza e nossa dúvida até de nós mesmos”, escreveu David Kornfield. “Deus, em Sua misericórdia, permite [...] circunstâncias difíceis e provas que nos ajudem a reconhecer nossas máscaras” (Aprofundando a Restauração da Alma Através de Grupos de Apoio [Mundo Cristão, 2008], p. 46).

Representar diversos papéis sem ter a vida plenamente ancorada em nenhum deles faz parte da “modernidade líquida”, termo cunhado pelo falecido sociólogo Zygmunt Bauman. Assim como o pensador polonês, eruditos como o também falecido britânico-jamaicano Stuart Hazl e outros acadêmicos analisaram esses traços das relações humanas na contemporaniedade.

No entanto, uma mensagem solene e atualizadíssima, dirigida a nós pelo próprio Cristo há 2 mil anos, mostra que o autoengano das máscaras é perigoso (Ap 3:15). Por essa razão, é preciso que analisemos à luz da Bíblia algumas das máscaras que podemos estar usando, ainda que inconscientemente:

1. Máscara da autossuficiência. Na carta à igreja de Laodiceia, o Senhor advertiu: “Você diz: ‘Sou rico, estou bem de vida e não preciso de nada.’ Mas você não sabe que é infeliz, sim, miserável, pobre, cego” (Ap 3:17). Pessoas podem se enxergar como bem-sucedidas e autossuficientes; porém, essa autopercepção pode não corresponder à realidade.

2. Máscara da falsa piedade. Próximo à volta de Jesus, conforme advertiu o apóstolo Paulo, as pessoas teriam a aparência de piedade, mas negariam o poder da verdadeira santidade (2Tm 3:5). “Cristãos de fachada” são superficiais.

3. Máscara do negacionismo escatológico. Na pandemia, entre os milhões de mortos ao redor do mundo, muitos deles perderam a vida porque negaram a existência do novo coronavírus e o perigo que ele representava. Imprudência e loucura é também negar os incontáveis sinais que apontam para a proximidade da volta de Jesus (Lc 12:45 e 46).

4. Máscara da falsa fraternidade. A atual crise sanitária global despertou o que há de melhor e pior na humanidade. Vimos a solidariedade de empresários ricos e mesmo de pessoas pobres que doaram alimentos e dinheiro para socorrer os mais vulneráveis. Por outro lado, testemunhamos a ganância e insensibilidade de alguns líderes religiosos que pressionaram governos para que, no auge da propagação do vírus no Brasil, flexibilizassem as regras para a reabertura dos templos.

O fato é que Deus e o mundo esperam mais autenticidade da igreja. “Muita gente vem do mundo porque não aguenta mais viver com máscaras, mas se decepciona ao descobrir a realidade da igreja”, afirmou José Armando S. Cidaco (Um Grito Pela Vida da Igreja [CPAD, 1996], p. 51).

Em seu livro emblemático Vivendo Sem Máscaras (Betânia, 1987, p. 55), depois de citar o fato de um templo evangélico nos Estados Unidos ter virado um mero restaurante, Charles R. Swindoll faz uma análise acurada da condição atual da igreja de Cristo: “Aquela igreja, por exemplo, tinha sido implantada naquele bairro com um alvo claro – ser sal e irradiar luz para a comunidade. Mas agora [...] o sal que ela possui está num saleiro de vidro, no balcão. Sua luz é uma placa em gás neon.”

5. Máscara da indiferença e acomodação. Segundo Israel Belo de Azevedo, o cristão “morno” tem três marcas: indiferença, claudicância e acomodação (Tem Mensagem Para Você [Hagnos, 2011], p. 130). Comentando sobre essa última característica, ele escreveu que o “morno está satisfeito com a vida que leva”, não percebe sua pobreza espiritual, “chega a ter orgulho de sua vida” e “vive para o rito”. Em resumo, ele vive de aparências e mero ritualismo.

ENGANADOS ATÉ O FIM
Tudo isso que acabamos de analisar pode ser resumido em uma palavra: formalismo. Trata-se de um pecado sutil e perigosíssimo, pois entra na congregação de Deus com a aparência de espiritualidade e devoção. O formalismo é perigoso porque não se opõe aos ritos da religião; ao contrário, até enfatiza os cultos e as cerimônias. Tem cara de legalidade, mas é uma religiosidade vazia. É a troca da religião prática (Tg 1:27; Ez 16:49; Mt 25:34-46) pelas práticas da religião (Lc 18:10-12).

Portanto, o formalismo não é um inimigo visível, externo, que age de fora para dentro na comunidade. Seu perigo está na aparência de normalidade. É o autoengano (falsa avaliação de si mesmo) que leva à autoindulgência (tolerar as próprias faltas) e à lenta morte espiritual. Em outras palavras, é a apostasia travestida de religiosidade. Em seu sermão profético, Jesus disse que essa foi a condição dos antediluvianos e será a condição de milhares de pessoas, inclusive entre o professo povo do advento (Mt 24:37-39).

No livro A Igreja Desviada: Um Chamado Urgente Para Uma Nova Reforma (Mundo Cristão, 2012, p. 195), Charles Swindoll descreve uma visita que fez ao Museu do Holocausto em Israel: “O que mais me chamou a atenção foi uma declaração impressa em um dos documentos oficiais distribuídos aos guardas nazistas que cuidavam dos campos de concentração: ‘A lei dos campos de concentração é fazer com que aqueles que caminham para a morte sejam enganados até o fim.’”

DESMASCARADOS
Na mensagem apresentada por Jesus para João como uma prevenção aos enganos finais, faz sentido Ele Se apresentar como “a Fiel Testemunha” (Ap 1:5) e Aquele que tem “os olhos como chama de fogo” (Ap 1:14). Isso significa dizer que a avaliação que Cristo faz de Laodiceia é precisa, inquestionável e infalível. Podemos confiar Nele, pois não fala com base em conjecturas, falsas informações ou falácias humanas; mas, sim, em Seu próprio conhecimento (Ap 2:2, 9, 13; 3:1, 8).

Por fim, Cristo diz para nós, Laodiceia, membros da Sua última igreja: “Eu sei o que vocês têm feito. Sei que não são nem frios nem quentes. Como gostaria que fossem uma coisa ou outra! Mas, porque são apenas mornos, nem frios nem quentes, vou logo vomitá-los da Minha boca” (Ap 3:15 e 16, NTLH). Devemos nos ver representados nas exortações, advertências e repreensões que o Senhor fez em Suas cartas às sete igrejas do Apocalipse. Afinal, será que não abandonamos nosso primeiro amor (igreja de Éfeso), temos nome de que estamos vivos, quando na realidade estamos mortos (igreja de Sardes) e estamos cegos em relação à nossa condição espiritual deplorável?

Somos a sétima igreja. A mensagem é para cada um de nós e, portanto, precisamos aceitá-la com toda humildade, conforme fez Ellen White, cofundadora da Igreja Adventista: “A mensagem à igreja de Laodiceia é aplicável à nossa condição. Quão claramente é pintada a situação dos que julgam ter toda a verdade, que se orgulham no conhecimento da Palavra de Deus, ao passo que seu poder santificador não foi sentido em sua vida! Falta em seu coração o fervor do amor de Deus, mas é esse mesmo fervor de amor que torna o povo de Deus a luz do mundo” (Fé e Obras, p. 82 e 83).

A pioneira adventista completa a advertência divina: “Aqui estão representados aqueles que se orgulham na posse de conhecimento e vantagens espirituais. Não corresponderam, porém, às imerecidas bênçãos que Deus lhes tem concedido. Têm estado possuídos de rebelião, ingratidão e esquecimento de Deus, e todavia Ele os tem tratado como um pai amoroso e perdoador trata um filho ingrato e corrompido. Resistiram à Sua graça, abusaram de Seus privilégios, desprezaram Suas oportunidades, e têm-se satisfeito com descansar contentes, em lamentável ingratidão, vazio formalismo e hipócrita insinceridade” (Fé e Obras, p. 84).

Sim, é hora de tirar a máscara, Laodiceia! Porque uma coisa é certeira e inapelável: ou retiramos a(s) máscara(s) enquanto é tempo ou muito em breve seremos desmascarados. De todos os piores pecados cometidos pelo povo de Deus ao longo dos tempos, Laodiceia corre o risco de cometer mais um: deixar Jesus do lado de fora. Portanto, fica o apelo do Mestre: “Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele, Comigo” (Ap 3:20).

Adaptação de texto de Elizeu C. Lira (via Revista Adventista)

SANSÃO SE MATOU?

Essa pergunta sobre os últimos momentos da vida de Sansão é importante e relevante. A caracterização de Sansão encontrada em Juízes 13–16 é complexa. A avaliação da vida do “herói” por aqueles que leram sua história não é animadora. Seu comportamento tende a ser uma sequência de fracassos, resultado da autossatisfação. No entanto, ele é colocado entre os heróis da fé na lista encontrada no Novo Testamento (Hb 11:32). Ele está entre os que “da fraqueza tiraram força” (v. 34). Aí reside o paradoxo de Sansão que costumamos descrever como quem vai da força para a fraqueza.

1. De altas expectativas à desilusão. A história começou com um diálogo entre uma mulher e um anjo anunciando o nascimento de um menino que, por toda a vida, seria nazireu (Jz 13:2-7; cf. Nm 6:1-12). Por meio dele, o Senhor começaria a derrotar os filisteus. Foram dadas as instruções de como criar o menino. Por exemplo, ele não deveria beber vinho nem cortar o cabelo. Ele teria que ser um menino especial, pois Deus faria maravilhas por seu intermédio. Embora Sansão tivesse se tornado fisicamente forte, era espiritual e moralmente fraco. Controlado pelo lado emotivo de sua personalidade, tomou decisões e agiu em quase total independência de Deus. No entanto, nem tudo foi ruim. Uma das qualidades redentoras de Sansão foi que, apesar das alianças que fez com os filisteus, ele nunca adorava ídolos. Nesse aspecto, sempre foi leal ao Senhor. Além disso, apesar de seu espírito de independência, Deus usou seus problemas com os filisteus para derrotá-los constantemente. Se Sansão tivesse sido fiel, imagine o que o Senhor poderia ter realizado por meio dele!

2. Da força para a fraqueza. A história de Sansão alcança seu clímax quando ele viola o último elemento do seu voto de nazireu – não cortar o cabelo. Naquele momento, o Espírito do Senhor não pôde usá-lo e ele se tornou fisicamente fraco. Sansão foi vítima de seus inimigos, que o cegaram, prenderam e o trataram como escravo. Os filisteus consideravam a experiência de Sansão uma derrota tanto dele quanto do seu Deus. A prisão foi um local para refletir sobre a qualidade da sua vida e de como falhou contra Israel, sua família e seu Deus. Sansão estava pronto para mais uma chance.

3. Da fraqueza para a força. O Senhor transforma tragédias em vitórias. Os filisteus se reuniram para comemorar a vitória do seu deus Dagom sobre Sansão e o Deus dele (Jz 16:23, 24). Estavam presentes os príncipes de cinco reinos filisteus e uma multidão de mais de três mil pessoas. Então, decidiram convidar Sansão para diverti-los. Queriam se vangloriar de suas conquistas. Ele foi colocado entre os dois pilares que sustentavam a estrutura do prédio e apoiou-se neles como se estivesse cansado e fraco. Ali Sansão orou, pedindo ao Senhor que o fortalecesse para fazer o que já deveria ter feito, causando uma grande derrota aos filisteus (v. 30). Aquela foi uma oração de compromisso total com o Senhor. Ele estava entregando a vida a Deus, expressando sua vontade de morrer a serviço do Senhor. Sansão queria ser justificado, um pedido talvez manchado pelo egoísmo, mas seu desejo era que o nome de Deus fosse vindicado ao mostrar Seu poder sobre Dagom. Ele morreu como um soldado no campo de batalha de um conflito cósmico. Para Sansão, o fim da vida foi um momento de absoluta rendição ao Senhor, num ato de fé.

Ángel Manuel Rodríguez (via Revista Adventista)

Nota do blog: Confira este relato de Ellen G. White do livro Vidas que Falam (pp. 134-135) sobre a morte de Sansão:

No sofrimento e humilhação, como joguete dos filisteus, Sansão aprendeu mais acerca de sua fraqueza do que jamais soubera antes; e as aflições o levaram ao arrependimento. Crescendo-lhe o cabelo, a força lhe voltava gradualmente; seus inimigos, porém, considerando-o um prisioneiro algemado e indefeso, não tinham apreensões. 

Os filisteus atribuíram a vitória aos seus deuses; e, exultantes, desafiaram ao Deus de Israel. Foi marcada uma festa em honra a Dagom, o deus-peixe, “protetor do mar”. Das cidades e dos campos, por toda a planície dos filisteus, o povo e seus grandes se congregaram. Multidões de adoradores enchiam o vasto templo e as galerias próximas do teto. Era uma cena de festa e regozijo. Havia a pompa do serviço sacrifical, seguido de música e banquetes. 

Então, como o máximo troféu do poder de Dagom, foi trazido Sansão. Aclamações de triunfo saudaram o seu aparecimento. O povo e os príncipes zombaram de seu estado miserável, e adoraram o deus que subvertera o “destruidor de seu país”. Depois de algum tempo, Sansão, como se estivesse cansado, pediu permissão para recostar-se de encontro às duas colunas centrais em que se apoiava o teto do templo. Proferiu então silenciosamente a oração: “Senhor Jeová, peço-Te que Te lembres de mim, e esforça-me agora só esta vez, ó Deus, para que de uma vez me vingue dos filisteus.” Com estas palavras, cingiu com os poderosos braços as colunas; e clamando: “Morra eu com os filisteus”, curvou-se e o teto caiu, destruindo em um só fragor toda aquela vasta multidão. “E foram mais os mortos que matou na sua morte do que os que matara na sua vida.” 

O ídolo e seus adoradores, sacerdotes e camponeses, guerreiros e nobres, foram juntamente sepultados sob as ruínas do templo de Dagom. E entre eles estava o corpo gigantesco daquele que Deus escolhera para ser o libertador de Seu povo.

terça-feira, 3 de maio de 2022

NINGUÉM EXPLICA DEUS

Com mais de 656 milhões de visualizações no canal oficial da banda Preto no Branco no YouTube, a letra da canção “Ninguém explica Deus”, composição de Clóvis Pinho, fala sobre a impossibilidade humana em poder alcançar um entendimento último acerca de Deus. “Teologia para explicar ou big-bang para disfarçar”, diz certa parte da letra que também cita que “do crente ao ateu, ninguém explica Deus”.

As Escrituras Sagradas ressaltam que “as coisas encobertas pertencem ao Senhor, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei” (Deuteronômio 29:29). De igual modo, Ellen White recomendou ter cautela ao tratar de certos assuntos que não temos revelação. Os textos seguintes, extraídos do livro Olhando para o Alto (pp. 147 e 320), são bons exemplos da aplicação desse princípio sobre a natureza de Deus:

"Que ninguém se aventure a explicar a Deus. O ser humano não pode explicar-se a si mesmo, e como, então, ousa aventurar-se a explicar o Onisciente?

Os homens podem apresentar suas próprias interpretações acima de Deus, mas nenhuma mente humana pode compreendê-Lo. Este problema não nos foi dado para solucionar. Que o homem finito não tente interpretar a Jeová. Ninguém se ponha a especular quanto a Sua natureza. Aqui o silêncio é eloquência. O Onisciente está acima de discussão.

A personalidade e prerrogativas de Deus, onde Ele está e o que Ele é, são assuntos nos quais não devemos ousar tocar. Aqueles que não têm conhecimento prático de Deus são os que se aventuram a especular a Seu respeito. Se o conhecessem melhor, teriam menos a dizer sobre o que Ele é. Aquele que mantém uma comunhão mais próxima com Deus, em sua vida diária e que tem o mais profundo conhecimento dEle, reconhece perfeitamente a total incapacidade dos seres humanos explicarem o Criador.

Para os curiosos, apresento a mensagem de que Deus me instruiu a não formular respostas às perguntas daqueles que indagam sobre aquilo que não foi revelado. As verdades reveladas pertencem a nós e a nossos filhos. Os seres humanos não devem tentar avançar além. Não devemos procurar explicar aquilo que Deus não revelou. Devemos estudar a revelação que Cristo, o Grande Mestre, apresentou do caráter de Deus, para que em espírito, palavra e ação possamos representá-Lo àqueles que não O conhecem.

A palavra de Deus e Suas obras contêm o conhecimento de Si mesmo que Ele julgou próprio para nos ser revelado. Podemos assim compreender a revelação que Ele nos deu de Si mesmo. Mas é com temor e tremor e com um senso de nossa própria pecaminosidade que devemos empreender esse estudo, e não com o desejo de tentar explicar a Deus, mas visando obter esse conhecimento que nos capacitará a servi-Lo mais aceitavelmente."

Assista abaixo esta belíssima música interpretada pela cantora adventista Mariana Farinha:

segunda-feira, 2 de maio de 2022

A ESPÉCIE DE SERMÕES NECESSÁRIA

Há homens que ficam nos púlpitos como pastores, professando alimentar o rebanho, enquanto as ovelhas estão morrendo por falta do pão da vida. Há longos e arrastados discursos grandemente compostos de narrativas de anedotas; mas o coração dos ouvintes não é tocado. Pode ser que os sentimentos de alguns sejam tocados, podem derramar algumas lágrimas, mas seu coração não foi quebrantado. O Senhor Deus do Céu não pode aprovar muito do que é trazido ao púlpito pelos que professam estar falando a Palavra do Senhor. Não inculcam idéias que sejam uma bênção para os que o ouvem. Alimento barato, muito barato é colocado diante do povo. 

Quando o orador, de maneira descuidada se intromete em qualquer parte, tomado pela fantasia, quando fala de política ao povo, está misturando fogo comum com o sagrado. Ele desonra a Deus. Não tem verdadeira evidência de Deus de que esteja falando a verdade. Comete para com seus ouvintes um grave mal. Pode plantar sementes que poderão lançar bem fundo suas fibrosas raízes, e elas brotam dando um fruto venenoso. Como ousam os homens fazer isso? Como ousam adiantar ideias quando não sabem com certeza de onde vieram, ou se são a verdade?

Lembrar-se-ão os nossos irmãos de que vivemos em meio aos perigos dos últimos dias? Lede Apocalipse em relação com Daniel. Ensinai essas coisas. Sejam os discursos curtos, espirituais e elevados. Esteja o pregador cheio da Palavra do Senhor. Saiba cada homem que vai ao púlpito que tem anjos do Céu em seu auditório. E quando esses anjos esvaziam de si mesmos o óleo de ouro da verdade, no coração daquele que está ensinando a Palavra, então a aplicação da verdade será uma questão solene e séria. Os mensageiros angélicos expulsarão do coração o pecado, a menos que a porta do coração esteja trancada e se recuse admitir a Cristo. Cristo Se retirará daqueles que persistem em recusar as bênçãos celestiais que lhes são tão livremente oferecidas. 

O Espírito Santo está fazendo Sua obra nos corações. Mas se os ministros não tiverem recebido primeiro Sua mensagem do Céu, se não tiverem retirado sua própria provisão das correntes refrigeradoras e doadoras de vida, como poderão eles deixar fluir aquilo que eles não receberam? Que pensamento o de que almas famintas e sedentas são despedidas vazias! O homem pode dar em profusão todo o tesouro de seus conhecimentos, pode exaurir as energias morais de sua natureza e ainda assim nada realizar, porque ele mesmo não recebeu o óleo de ouro dos mensageiros celestes; portanto não pode este fluir dele comunicando vida espiritual ao necessitado. As boas novas de alegria e esperança devem vir dos Céus. Aprendei, oh, aprendei de Jesus o que significa estar em Cristo. 

Se o ministro cristão recebe o óleo de ouro, tem vida; e onde há vida, não há estagnação, nem mesquinha experiência. Há constante crescimento até à estatura completa de Cristo Jesus. Se tivermos uma experiência profunda e crescente nas coisas celestiais, andaremos com o Senhor, como Enoque andou. Em vez de consentir nas propostas de Satanás, há a mais fervorosa oração pela unção celestial, para que possamos distinguir do comum o que é direito, o que é nascido do Céu. 

Se estivermos lutando na força do Poderoso, estaremos do lado que finalmente ganhará. No fim, venceremos. O maior trabalho, as cenas mais perigosas estão diante de nós. Devemos enfrentar o conflito mortal. Estamos para ele preparados? Deus ainda fala aos filhos dos homens. Fala de muitas e diferentes maneiras. Ouvirão Sua voz? Colocaremos confiantemente nossa mão na Sua, dizendo: “Dirige-me, guia-me”? 

Há religião barata em abundância, mas não há uma coisa que se possa chamar cristianismo barato. O eu pode aparecer em grande parte na falsa religião, mas não pode aparecer na experiência cristã. Sois coobreiros de Deus. “Sem Mim”, disse Cristo, “nada podeis fazer.” Não podemos ser pastores do rebanho a menos que sejamos despojados dos nossos hábitos, maneiras e costumes peculiares, e alcancemos a semelhança de Cristo. Quando comemos Sua carne e bebemos o Seu sangue, então se encontrará no ministério o elemento da vida eterna. Não haverá uma reserva de idéias antiquadas, e frequentemente repetidas. Haverá uma nova percepção da verdade. 

Alguns dos que ficam no púlpito fazem com que os mensageiros celestiais que estão no auditório deles se envergonhem. O precioso evangelho que tanto tem custado para ser levado ao mundo, é injuriado. Há palestra comum e barata; atitudes grotescas, contorções das feições. Alguns são fluentes, outros de enunciação pesada, indistinta. Todo aquele que ministra diante do povo deve sentir ser seu solene dever controlar-se. Primeiro deve entregar-se completamente ao Senhor numa inteira renúncia própria, determinando não ter nada de si mesmo, mas tudo de Jesus. 

A Palavra é a luz do pregador, e conforme o óleo de ouro flui das oliveiras celestiais para o vaso, faz com que a lâmpada da vida brilhe com uma clareza e poder que todos discernirão. Aqueles que têm o privilégio de ficar sob tal ministério, se seu coração for susceptível à influência do Espírito Santo, sentirão vida interior. O fogo do amor de Deus dentro deles se acenderá. A Bíblia, a Palavra de Deus, é o pão da vida. Aquele que alimenta o rebanho de Deus deve ele próprio comer primeiro do pão que desceu do Céu. Verá a verdade a cada lado. Não se aventurará a chegar diante do povo enquanto não tiver primeiro comungado com Deus. Então é levado a trabalhar como Cristo trabalhou. Respeita as mentes variadas que lhe compõem o auditório. Tem uma palavra que toca o caso de todos, não idéias mundanas que confundem. Não tem ele direito de introduzir as perplexidades mundanas. O pão da vida satisfará toda fome da alma.

Ellen G. White - Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, pp. 336-339