terça-feira, 16 de outubro de 2018

3 dicas para praticar a mansidão na era digital

Precisamos falar sobre a mansidão. Talvez nenhum outro assunto seja tão relevante hoje em dia. A impressão que tenho é que o ódio prevaleceu. É irônico perceber isso agora, quando nunca tivemos tanta oportunidade de aproximação entre as pessoas em qualquer época anterior. A web surgiu como uma chance de confraternização de fato. Barreiras seriam quebradas, preconceitos seriam superados, o respeito e a tolerância ditariam uma nova era. O discurso era incrível. Mas a realidade provou que era apenas uma utopia, uma miragem no deserto de ódio e ressentimento que nos envolveu a todos. E no qual corremos o perigo de achar que esse estado de indelicadeza é normal.

Sinto um certo espanto quando vejo o perfil de amigos antigos em uma ou outra rede social. O trato doce e educado de alguns, que tanto admirava, cedeu espaço ao cinismo. A defesa de ideais, que antes era marcada pela paixão, hoje se manifesta nas redes sociais com a arrogância de quem se imagina ter uma espécie de opinião suprema. Se antes a defesa da fé ocorria na esteira da cordialidade, hoje prevalece um evangelismo autoritário, repressivo, teclado em computadores ou smartphones tendo como combustível uma ironia depreciativa.

A mesma plataforma que definiu a liberdade plena para expressar a minha opinião é a que uso para reprimir uma opinião contrária à minha. Os limites não ficam claros entre a liberdade de expressão e a liberdade de repressão. Em meio a isso, todos parecem ter uma opinião sobre tudo. Todos falam. Pouquíssimos escutam. E os que falam usam as palavras não como argumentos, mas como instrumentos de violência gratuita. 

Lembro de Walden, livro do escritor Henry David Thoureau. Walden é ensaio biográfico e relato de uma experiência social. Transtornado pela corrosão das relações na sociedade norte-americana, sob imensa influência da industrialização e crescente urbanização, Thoureau, então com 28 anos, decide viver no bosque. Isolado do mundo. Redescobrindo a vida e o sentido de humanidade. “Temos de aprender a redespertar e nos manter despertos, por uma infinita expectativa da aurora”, afirmou. Eu também busco uma aurora. E é no desejo por ela que muitas vezes também prefiro o silêncio.

Acredito que não é preciso uma experiência tão radical para superar esse estado de intolerância. Mas para que a superação aconteça, é preciso viver a mansidão, como fruto do Espírito. O apóstolo Paulo definiu a mansidão como uma vocação cristã, que precisa ser exercida com humildade, delicadeza e compreensão mútua (Efésios 4:2). Como chegar a este modelo de conduta em um mundo dominado pela provocação? A escritora e educadora Ellen White escreveu algo formidável a esse respeito: “O espírito que se conserva manso em face da provocação, dirá mais em favor da verdade, do que o fará qualquer argumento, por mais vigoroso que seja” (O Desejado de Todas as Nações, p. 353).

Como praticar a mansidão em plena era digital? Como dito acima, a mansidão é fruto do Espírito, e como tal precisa ser cultivado. Eu tento seguir três atitudes. Mentiria se dissesse que é uma composição fácil. É algo difícil e que precisa ser praticado, até mesmo incluído em momentos de meditação e devoção. Mas quero compartilhar com você, e espero sinceramente, se você também busca viver a mansidão, que o ajude. São eles:

1. Você não precisa ter opinião sobre tudo, muito menos expressá-la na velocidade preconizada pelas redes
As possibilidades da comunicação digital permitiram que todos nós, repentinamente, tivéssemos opinião formada sobre qualquer coisa. De um momento para outro, viramos todos especialistas. Política, religião, comportamento, ciência, economia, geopolítica, teologia, sexualidade, medicina, direito, criminalidade, justiça, punição, vida, morte. Qualquer que seja o assunto, todos têm uma opinião a respeito. E essa opinião é resultado não de profunda análise, muito menos do estudo, mas do desejo de pertencer, de ser aceito, ou de superar inseguranças com um posicionamento. E também porque a informação é fácil e abundante. E essa é também uma ironia: o excesso de informação leva ao excesso de opinião, e esse é o caminho largo para a desorientação. Não se sentir obrigado a participar de uma conversa pode ajudá-lo a colaborar de forma mais íntegra com esta mesma conversa. Você pode explorar o silêncio para ouvir mais. E pode expor sua opinião com calma, sem o apelo do comentário em “tempo real”.

2 – Você não precisa ter sempre razão
A base da intolerância é a necessidade de ter razão sempre, de não dar o braço a torcer. Este é um sintoma bem específico desses tempos digitais. As discussões não se cruzam, porque estão em linhas paralelas. Mais do que ajudar o outro, o interesse é superar um embate. Mágoas, remorsos e até mesmo ódio se multiplicam quando o que está em jogo é apenas defender o seu ponto de vista, por melhor que ele seja. O pastor Donald Miller, autor de Como os pinguins me ajudaram a entender Deus, tomou uma decisão a esse respeito que considero inspirada. Falando acerca de discussões sobre crença, ele escreveu: “Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe – e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.”

3 – Desenvolva uma comunicação compassiva
Marshall Rosenberg, doutor em psicologia clínica da Universidade de Wisconsin e estudioso da comunicação não-violenta, afirma que grande parte dos desentendimentos entre as pessoas pode ser amenizada ou mesmo evitada com o emprego da “linguagem da compaixão”. Segundo ele, esse é um processo de comunicação que promove o respeito, a atenção, a empatia e gera o mútuo desejo de entrega a uma vida em favor do outro.

Um grande desafio que temos hoje em dia é negligenciar uma cultura que celebra resultados individuais acima da saúde das relações coletivas. A cultura digital é alimentada pela cultura do indivíduo, aquele que consegue mais cliques, mais flashes, mais compartilhamentos, mais capacidade viral. Penso que esse egocentrismo é o alimento para um estado de distorção muito comum hoje em dia, que é a incapacidade de auto-crítica. Uma cultura que apenas aplaude nos deixa tão despreparados para observar nossos erros que censuramos qualquer avaliação de nossas opiniões que não seja a aceitação. A agressão resultante é apenas uma consequência.

Um espírito manso é capaz de progredir em pessoas capazes de negar sua própria importância. Lembro de Paulo, mais uma vez: “Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24).

Heron Santana (via Igreja Relevante)

Ilustração: Fotografia de Marc Riboud tirada em Washington (EUA), no dia 21 de outubro de 1967, em que a jovem Jane Rose Kasmir pede paz entre o país e o Vietnã, que estavam em guerra. Jane traz uma flor e tenta colocá-la na arma de um soldado.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Fascistas, esquerdopatas e o evangelho

“Vocês ouviram o que foi dito a seus antepassados: ‘Não mate. Se cometer homicídio, estará sujeito a julgamento’. Eu, porém, lhes digo que basta irar-se contra alguém para estar sujeito a julgamento. Quem xingar alguém de estúpido, corre o risco de ser levado ao tribunal. Quem chamar alguém de louco, corre o risco de ir para o inferno de fogo.” (Mt 5:21-22) 

Muitos cristãos parece que se esqueceram dessas palavras de Jesus. Ignoram-nas solenemente. Nos embates político-eleitorais que têm ocorrido no Brasil, o que mais temos feito é xingar quem discorda de nós de coisas como “estúpido”, “louco”, “fascista”, “esquerdopata”, “coxinha”, “mortadela” e coisas assim. Estamos errados.

Devemos discutir ideias, não desqualificar pessoas. Devemos lidar com quem se opõe com instrução e não com briga, e isso com mansidão e paciência. Não fui eu quem disse isso, é mandamento da Palavra de Deus, que ordena: 

“O servo do Senhor não deve viver brigando, mas ser amável com todos, apto a ensinar e paciente. Instrua com mansidão aqueles que se opõem, na esperança de que Deus os leve ao arrependimento e, assim, conheçam a verdade. Então voltarão ao perfeito juízo e escaparão da armadilha do diabo, que os prendeu para fazerem o que ele quer.” (2Tm 2:24-26, grifos meus)

A ideia de agirmos como profetas barbudos e com sangue nos olhos xingando e assassinando os inimigos de Deus não cabe a nós na proposta da nova aliança de Cristo. Isso é teologia básica.

A ira pertence a Deus. Jesus vira as mesas dos cambistas e achamos que isso nos dá direito de chibatar quem pensa diferente de nós. Não dá. Não somos Deus. Esquecemos de que a retribuição pertence exclusivamente a Deus (Rm 12:19-21) e que a ira humana é obra da carne cuja prática sistemática sem arrependimento nos torna indignos de herdar o reino dos céus (Gl 5:19-21). Não fui eu quem inventou isso, está na Bíblia, em afirmações feitas por pessoas como Jesus e Paulo. Se não fosse assim, o fato de Deus tirar a vida das pessoas me daria o direito de assassinar pessoas. O que é um pensamento absurdo. A ira de Deus é justificável, a ira humana é condenável.

A nós resta agir como Jesus nos ensinou no Sermão do Monte (Mt 5–7), em Romanos 12:17-19, em 1 Tessalonicenses 5:14-15. Não tenha preguiça, vá à Palavra e leia esses trechos da Escritura. Leia e compare com o seu comportamento com quem discorda de você nessas eleições. Mas temos preferido fechar os olhos e os ouvidos a essas realidades e a reproduzir uma forma agressiva e bruta de agir, que está a anos-luz daquilo que chamamos de ética cristã. Estamos errados. E estamos perdendo uma oportunidade ímpar de salgar e iluminar o mundo.

Há quem defenda que estamos vivendo uma batalha espiritual contra as forças da maldade que querem implementar abominações como aborto e ideologia de gênero no Brasil. Concordo plenamente com isso: estamos em guerra! Porém, o erro está em achar que essa batalha é contra pessoas. Não é. Paulo foi claríssimo: 

“Pois nós não lutamos contra inimigos de carne e sangue, mas contra governantes e autoridades do mundo invisível, contra grandes poderes neste mundo de trevas e contra espíritos malignos nas esferas celestiais.” (Ef 6:12)

Agora responda: desde quando ser agressivo, ofensivo, xingador e bruto tem qualquer milímetro de resultado na luta contra forças espirituais? Ofender as pessoas que são influenciadas por esses espíritos, não adianta de ab-so-lu-ta-men-te nada! Quer vencer uma batalha espiritual? Joelho no chão! Estamos errando tanto nisso…

Você tem duas semanas de campanha eleitoral pela frente. Uma oportunidade magnífica de cair em si, arrepender-se de quando chamou quem pensa diferente de você de “racá”, isto é, estúpido, louco, fascista, esquerdopata e gentilezas semelhantes. Uma oportunidade única de ser sal da terra e luz do mundo. Como você se comportará só cabe a você e à opção que fizer: ser um cristão agindo como cristão ou ser um cristão que defende o cristianismo de modo nada cristão.

Não imite os maus exemplos, mesmo que eles venham de pastores, teólogos e líderes religiosos de quem você é tiete. Celebridades do mundo cristão também pecam e erram. Dê você o exemplo a eles. Aproveite estas duas semanas para reler o Novo Testamento, com ênfase nas passagens que falam como devemos lidar com o mal. Acalme a cabeça e volte ao seu juízo perfeito. Vença o mal com o bem e não com o mal. Lutar o bom combate com as armas do inimigo é o mais perfeito absurdo. Não vá ao sabor da massa, não imite maus exemplos (mesmo de pastores destemperados e mal-educados), finque os pés no chão, reencontre seu prumo e cuide daquilo que sai de sua boca e da ponta de seus dedos.

Numa democracia, você pode votar em quem quiser, sem que eu tenha o direito de ofendê-lo. Posso discordar de você, mas não ofendê-lo por discordar de mim. Porém, defenda você quem defender, creio que Deus espera que você o faça como Jesus nos ensinou a fazer e não como o Maligno faria.

Amor não é um conceito bobinho de donzelas suspirantes e apaixonadas. Amor é algo que você vive quando tem a chance de chamar quem discorda de você de “fascista”, “esquerdopata” e coisas parecidas e opta por não fazê-lo. Amor é uma postura em que você vê um estado do país que votou majoritariamente em quem você não votou e continua querendo o bem das pessoas desse estado. Amor é assassinar o seu ego e ajudar o adversário que está caído e ferido à beira do caminho. Amor é ser o bom samaritano, quando poderia ser o fariseu desumano que quer o mal do adversário.

Use as próximas semanas para reler o Novo Testamento e repensar suas palavras, atitudes e reações. Você verá a diferença que isso fará. Deus abençoe o Brasil.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari (via Apenas)

O melhor professor de todos os tempos

Muitos estudiosos da didática e da metodologia do ensino consideram Jesus Cristo o professor mais marcante de todos os tempos. Há dezenas de livros a esse respeito. O fato é que Seu ensino criativo e transformador alcançou e alcança milhões de pessoas.

O mestre Jesus Cristo, um carpinteiro, sem jamais ter deixado registrada uma palavra sequer, sem jamais ter produzido um artigo, pesquisa, monografia ou livro, impactou a humanidade de um jeito impressionante. Como nos lembra o Dr. James Kenedy, com 12 discípulos Jesus Cristo exerceu influência civilizatória que dura até hoje![1]

É irrefutável que a vida do jovem galileu causou grande impacto em Sua época e em nossa época. E o mais espetacular: fez tudo isso até os 33 anos de idade apenas. Isso é extraordinário! Como diz o respeitado J. M. Price, em seu clássico A Pedagogia de Jesus, “ninguém esteve melhor preparado, e ninguém se mostrou mais idôneo para ensinar do que Jesus. No que toca às qualificações, bem como noutros mais respeitos, Jesus foi o mestre ideal. Isto é verdade tanto visto do ângulo divino como do humano. No sentido mais profundo, Jesus foi um mestre vindo da parte de Deus”.[2]

Características de Jesus como professor
O mestre Jesus é surpreendente. E, se olharmos para algumas de Suas características de personalidade, temos que admitir que Ele é um padrão de absoluto equilíbrio, bom senso e profissionalismo. Seguindo as percepções de Roy Zuck,[3] pensemos um pouco em algumas de Suas características enquanto mestre.

Jesus Cristo é referencial de maturidade. Lucas 2:40 nos diz que “o menino [Jesus] crescia e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre Ele”. Da perspectiva humana, Jesus era uma pessoa madura; como Filho de Deus e como membro da Trindade, obviamente era espiritualmente maduro. Devemos seguir Seu exemplo, procurando crescer mentalmente, espiritualmente, fisicamente e socialmente.

Jesus veio à Terra para revelar o Pai (João 17:26). Desta maneira, podemos entender que Ele possuía todo conhecimento e era capaz de discorrer sobre qualquer tema com maestria. Certamente isso fazia com que o povo ficasse fascinado “pelas Suas palavras” (Lucas 19:48). Os professores são responsáveis pelo que afirmam e, portanto, ao abordarem algum tópico, precisam fazê-lo com autoridade, a qual é resultado de tempo gasto em oração, pesquisa e reflexão.

Sendo autoridade em qualquer assunto, Jesus sempre falava com convicção, jamais deixando alguma dúvida do que Ele ensinava. Era com plena certeza que Ele fazia afirmações como “Eu Sou o caminho, a verdade e a vida” (João 14:6); ou: “Vocês ouviram o que foi dito… Mas Eu lhes digo que…” (Mateus 5:21, 22). O educador cristão precisa se expressar com convicção, transmitindo segurança aos seus ouvintes; isto é resultado, claro, de estudo profundo numa área específica do conhecimento, mas também resultado de uma vida conduzida pelo Espírito Santo.

O apóstolo Paulo afirma que Jesus “humilhou-se a si mesmo” (Filipenses 2:8). Uma clara demonstração da humildade do Mestre pode ser vista em Sua atitude de servir e não ser servido (Mateus 20:28). Os professores cristãos não obtém respeito dos colegas e dos alunos pela auto-exaltação, senão pela humilde postura de servo. Afinal, o orgulho causa repulsa, enquanto que a humildade atrai.

Diferentemente de nossa educação conteudista, orientada pelo assunto a ser transmitido, o mestre Jesus não tinha um conteúdo curricular fechado, e nem mesmo parecia preocupar-se com o que deveria ensinar a cada dia. Obviamente Ele queria ensinar algumas coisas, mas o fazia com espontaneidade, esperando o momento certo, quando o coração e a mente de Seus ouvintes estavam dispostos. Foi assim, por exemplo, na ocasião em que acalmou a tempestade (Mateus 8:23-27); esse foi o momento oportuno para ensinar sobre a fé e o medo do ser humano, bem como sobre o ilimitado poder de Deus. Nas ocasiões informais as pessoas podem ter maior disposição para ouvir e captar ensinos que modificarão para sempre sua vida.

De vez em quando escutamos alguns alunos reclamando que ficam confusos na hora da aula, pois, às vezes, alguns professores falam de muitas coisas ao mesmo tempo. Outros dizem que não entendem o que é dito, pois alguns docentes usam palavras e expressões desconhecidas. Em relação ao mestre Jesus, podemos dizer que havia tal clareza em Seus ensinos e discursos, “que as crianças, os idosos e o povo comum o ouviam com prazer e ficavam encantados com as suas palavras”.[4] Se quiserem ensinar com clareza, os professores precisam escolher adequadamente as palavras e expressões que usam; e sempre que houver necessidade de usar uma palavra técnica, incomum aos alunos, precisam explicá-la de modo claro, exemplificando-a se possível.

Em Seu ministério, Jesus ensinava com senso de urgência, pois sabia que não tinha todo o tempo do mundo. Em pouco mais de três anos deveria transmitir à humanidade os ensinos que se demonstrariam capazes de transformar a rotina da vida humana. Portanto, não havia tempo a perder. Em João 7:33 Ele afirma: “Estou com vocês apenas por pouco tempo”. O Mestre tinha senso de urgência. Todavia, Ele não se deixou dominar pela agenda: Ele nunca estava apressado e nunca cancelou um encontro. Sempre tinha tempo para ministrar as necessidades das pessoas. Os professores cristãos precisam aprender a administrar melhor o tempo, “aproveitando ao máximo cada oportunidade” (Efésios 5:16), não desperdiçando o precioso tempo da sala de aula. O tempo é ouro, e deve ser administrado de tal modo que o professor nunca venha a se arrepender por ter usado o tempo de modo irresponsável.

No ministério de Cristo são evidentes sua simpatia e empatia, manifestas em seu amor e cuidado pelas pessoas. O evangelho de Lucas diz que “todos falavam bem dele e estavam admirados com as palavras de graça que saíam de seus lábios (4:22). O educador Antônio Tadeu Ayres nos lembra que “nenhum professor é considerado bom simplesmente por acaso. Os alunos sabem perceber muito bem o mestre que conhece o que ensina, tem prazer de instruir e sabe como fazer isso. Percebem também a personalidade, o temperamento, os valores éticos e a capacidade de compreensão. Nesta questão particular, será bem-sucedido o professor que de fato pratica a empatia”.[5] De uma perspectiva cristã, os alunos não são meramente clientes, e sim, acima de tudo, candidatos ao reino de Deus. Portanto, os professores precisam exercer paciência, simpatia e empatia. Afinal, o ensino cristão é muito mais do que conteúdo. É também a demonstração de um genuíno interesse pelas pessoas.

Finalmente, o Mestre Jesus jamais ensinou algo que não fosse pertinente ou necessário aos Seus ouvintes. Tudo o que Ele falou tinha relevância e aplicabilidade à vida das pessoas. É também o desafio de cada professor não meramente falar bonito, mas tornar a aula relevante à vida dos alunos, fazendo com que os ensinamentos sejam pertinentes para cada estudante que ouve e participa das aulas. Agindo dessa forma, o professor e a professora terão como resultado um ensino que transforma.

Adolfo Suárez (via Muito Além do Ensino)

[1] James KENEDY e Jerry Newcombe. E Se Jesus não Tivesse Nascido? São Paulo: Vida, 2003, p. 21.
[2] J. M. Price. A Pedagogia de Jesus. 3ª edição. São Paulo: JUERP, 1983, p. 5.
[3] Roy B. Zuck. Teaching as Jesus Taught. Grand Rapids: Baker, 1995, p. 63 a 89.
[4] Ellen G. White. Fundamentos da Educação Cristã. 2ª edição. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996, p. 242.
[5] AYRES, Antônio Tadeu. Prática Pedagógica Competente: Ampliando os Saberes do Professor. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004, p. 55.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Dia das Crianças - Qual é o melhor presente?

Roupas, calçados ou brinquedos podem até ser boas opções para presentear os filhos neste Dia das Crianças, mas, em geral, esses mimos, por mais úteis e interessantes que sejam, não impactam de forma profunda a vida deles. Repartir a fé é o melhor presente que podemos dar a nossos filhos.

Estudos indicam que a espiritualidade tem uma relação direta com o desenvolvimento humano. Pesquisas feitas por estudiosos como James W. Fowler, Donna Habenicht, Anne Bell e Alice Lowe, por exemplo, ajudam a compreender como os pequenos lidam com a fé e a encaram, e como é possível, em cada faixa etária, ajudar a criança a desenvolver a vida espiritual. No entanto, é importante considerar que alguns aspectos de cada fase podem se manifestar antes ou depois na vida da criança, dependendo dos estímulos que ela tem.

0-3 anos
Este é um período muito importante para o desenvolvimento da fé. Segundo Ellen White:
“As impressões feitas no coração, no princípio da vida, são vistas em anos posteriores. Podem estar sepultadas, mas raras vezes serão removidas” (Manuscrito 57, 1897).
É nesse estágio que a criança tem pré-imagens de Deus, a partir de uma relação de confiança com seu cuidador. Ela entende o amor por meio do cuidado que recebe e desenvolve confiança em Deus ao confiar nos pais.

Nessa etapa, o desenvolvimento físico da criança está a pleno vapor. Como ela está aprendendo a controlar o corpo, suas necessidades físicas interferem no humor e no comportamento. Por isso, um ambiente calmo e uma rotina bem estabelecida contribuem para que a criança aprenda e se desenvolva, inclusive espiritualmente.

Nessa fase, o uso de materiais concretos para ilustrar o ensino é muito importante para a assimilação do conteúdo. Em termos práticos, uma criança de dois anos, por exemplo, terá um aproveitamento mais significativo se o pai utilizar objetos ou imagens para ilustrar a história. Quanto mais os sentidos forem explorados, mais a criança se sentirá motivada a prestar atenção, interagir e aprender.

Nesse estágio, a criança tem um período de atenção curto. Por isso, os momentos de ensino das verdades bíblicas devem ser breves e planejados. As orientações devem ser simples e sem abstrações. Pais que desejam ensinar os filhos a orar, por exemplo, devem mostrar como é a posição de oração (e não apenas explicar como orar), usar ilustrações variadas, sem se cansarem de reforçar o ensino com repetições.

Em geral, as crianças têm certa dificuldade de controlar as emoções nessa fase. Então, é preciso que a educação seja pautada pela busca da obediência e pelo controle emocional. Ellen White escreveu: 
“Uma das primeiras lições que a criança precisa aprender é a lição da obediência. Antes que fique bastante idosa para raciocinar pode ser ensinada a obedecer” (Educação, p. 287).
Crianças que não obedecem aos pais terão dificuldades para obedecer a Deus.

Entre zero e três anos, a criança tem uma forte tendência a ser egocêntrica. É por isso que os pais não podem perder a oportunidade de estimular a solidariedade e o amor ao próximo. Isso é básico para um bom desenvolvimento cristão. O encorajamento de atitudes de simpatia pelos menos favorecidos e a vivência do evangelho prático são muito importantes.

Nesse período, a criança está desenvolvendo o senso do sagrado, que é base para a futura reverência com as coisas de Deus. Por isso, os pais devem mostrar que a Bíblia é importante e deve ser cuidada e respeitada. O nome de Deus não pode ser pronunciado em vão pela criança ou por seus cuidadores. Os locais de culto, principalmente a igreja, são especiais. Levar a criança com uma roupa adequada para a igreja, não permitir que ela coma dentro do templo ou que brinque com brinquedos da rotina semanal, ajudam-na a adquirir o senso de reverência. A presença nos cultos também é extremamente importante. A criança só vai saber como se comportar na igreja se ela vivenciar essa realidade sempre. Além disso, é importante que a família faça o culto em casa e que as coisas de Deus sejam vistas como sagradas.

4-6 anos
Nessa fase, ocorre uma ampliação entre a comunicação da criança e o adulto, e isso também é sentido no relacionamento com Deus. É nesse estágio que a criança começa a ter suas próprias experiências espirituais, passa a entender por ela mesma que Deus existe e aprende a desenvolver uma comunicação mais direta com Deus por meio da oração. Por isso, um ambiente familiar espiritual é fundamental.

Apesar de gostar de movimento, ela já consegue permanecer sentada por mais tempo na igreja. Porém, ainda precisa de recursos que possam ajudá-la no processo de reverência. Levar uma bolsa para o culto com materiais bíblicos, como livros, revistas e desenhos para colorir, pode ajudar nesse sentido.

Entre quatro e seis anos, em geral, a criança é falante e gosta de aprender novas palavras. Contudo, pode confundir termos e conceitos. Então, os pais devem ficar atentos e corrigir os usos incorretos de expressões que envolvam o vocabulário bíblico. Elas necessitam aprender as verdades dentro do seu próprio nível de ensino e não meias-verdades.

Além disso, nesse período as crianças são curiosas e fazem muitas perguntas. Dessa forma, aproveitar os questionamentos infantis para ter conversas espirituais, fazer comparações entre a vida dos filhos e dos profetas, mostrar como Deus trabalha na vida de outras pessoas e contar pequenas histórias sobre o cuidado de Deus na vida dos pais pode contribuir para que a criança entenda melhor o plano divino para a humanidade.

Em geral, a criança é ciumenta, geniosa e medrosa nessa etapa do desenvolvimento. É preciso ter cuidado para não potencializar medos que são comuns nessa fase. Salientar o cuidado de Deus e não enfatizar o poder do mal é muito importante.

7-10 anos
Este estágio é caracterizado pela avaliação constante entre as palavras e as atitudes dos adultos. Coerência é a palavra-chave. A criança precisa ver atitudes coerentes dos pais em relação ao discurso e prática da fé. É a partir dessa fase que a criança começa a desenvolver uma fé mais abstrata.

Os pais precisam aproveitar todas as oportunidades para estimular o estabelecimento de compromissos com as coisas espirituais. Entretanto, isso só ocorrerá se houver um envolvimento e motivação da família. Esse é o período de estimulação do desenvolvimento dos dons e habilidades a serviço de Deus e do próximo.

Nessa fase, a criança é ainda um pouco literalista. Contudo, consegue, com ajuda, fazer associações mais abstratas, distinguindo o fato da fantasia. Esse é o momento de introduzir ensinamentos doutrinários mais sólidos. Porém, o ensino deve sempre estar adequado à realidade do pensamento infantil. As palavras também devem ser de fácil compreensão.

Nesse período, a criança entende que as histórias da Bíblia são reais e que é possível aplicar os ensinamentos cristãos na vida prática. Esse é o momento de incentivar a leitura de bons livros. A autonomia em relação à devoção pessoal também precisa ser trabalhada.

11-16 anos
Nessa fase, o indivíduo duvida de si, dos pais, da religião e de tudo o que já lhe foi transmitido. Passa por muitas transformações no corpo que evidenciam a chegada da puberdade. Precisa sentir-se amado e acolhido, pois, nesse estágio, vivencia muitos problemas, como baixa autoestima e insegurança.

É fundamental uma religião realista e prática nesse estágio. A atmosfera do lar precisa estar envolvida em assuntos religiosos. Os adultos precisam ajudar os juvenis e adolescentes a encontrar respostas bíblicas para os dilemas da vida. Estudos proféticos ligados aos acontecimentos atuais despertam o interesse desse grupo.

Às vezes, faltam-lhe vocabulário para expressar seus sentimentos. O diálogo e amizade com os pais são fundamentais para amenizar essa dificuldade. Porém, eles não gostam de receber ordens e são sensíveis a críticas. Por isso, precisam ser liderados com amor e firmeza.

Deus entregou a atual geração de crianças e adolescentes em nossas mãos. Seremos capazes de fazer nossa parte? A tarefa dos pais, da comunidade e da igreja não é fácil. Porém, Ellen White escreveu: 
“Ao procurardes tornar claras as verdades concernentes à salvação, e encaminhar as crianças a Cristo como Salvador pessoal, os anjos estarão ao vosso lado” (O Desejado de Todas as Nações, p. 385).
Que Deus nos capacite a ajudar as crianças a desenvolver os hábitos que nortearão toda a sua experiência religiosa! Um legado de fé é o melhor presente que podemos dar a nossos filhos.

Ariane M. Oliveira (via Revista Adventista)

O professor Leandro Quadros também tem uma mensagem especial para este dia:

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

10 razões para não ter saudades dos tempos da ditadura militar

Em 31 de março de 1964, os militares deram um golpe de estado depondo o então presidente João Goulart. De 1964 a 1985, o Brasil viveu um dos períodos mais negros de sua história. A democracia foi abolida, o estado de direito deixou de existir. Segue abaixo, dez razões para não ter saudades dos tempos da ditadura: 

1. Tortura e ausência de direitos humanos
As torturas e assassinatos foram a marca mais violenta do período da ditadura. Pensar em direitos humanos era apenas um sonho. Havia até um manual de como os militares deveriam torturar para extrair confissões, com práticas como choques, afogamentos e sufocamentos.

Os direitos humanos não prosperavam, já que tudo ocorria nos porões das unidades do Exército.

"As restrições às liberdades e à participação política reduziram a capacidade cidadã de atuar na esfera pública e empobreceram a circulação de ideias no país", diz o diretor-executivo da Anistia Internacional Brasil, Atila Roque. 

Sem os direitos humanos, as torturas contra os opositores ao regime prosperaram. Até hoje a Comissão Nacional de Verdade busca dados e números exatos de vítimas do regime. 

"Os agentes da ditadura perpetraram crimes contra a humanidade --tortura, estupro, assassinato, desaparecimento-- que vitimaram opositores do regime e implantaram um clima de terror que marcou profundamente a geração que viveu o período mais duro do regime militar", afirma. 

Para Roque, o Brasil ainda convive com um legado de "violência e impunidade" deixado pela militarização. "Isso persiste em algumas esferas do Estado, muito especialmente nos campos da justiça e da segurança pública, onde tortura e execuções ainda fazem parte dos problemas graves que enfrentamos", complementa. 

2. Censura e ataque à imprensa 
Uma das marcas mais conhecidas da ditadura foi a censura. Ela atingiu a produção artística e controlou com pulso firme a imprensa. 

Os militares criaram o "Conselho Superior de Censura", que fiscalizava e enviava ao Tribunal da Censura os jornalistas e meios de comunicação que burlassem as regras. Os que não seguissem as regras e ousassem fazer críticas ao país, sofriam retaliação --cunhou-se até o slogan "Brasil, ame-o ou deixe-o." 

Não são raras histórias de jornalistas que viveram problemas no período. "Numa visita do presidente (Ernesto) Geisel a Alagoas, achamos de colocar as manchetes no jornalismo da TV: 'Geisel chega a Maceió; Ratos invadem a Pajuçara'. Telefonaram da polícia para o Pedro Collor [então diretor do grupo] e ele nos chamou na sala dele e tivemos que engolir o afastamento do jornalista Joaquim Alves, que havia feito a matéria dos ratos", conta o jornalista Iremar Marinho, citando que as redações eram visitadas quase que diariamente por policiais federais. 

Para cercear o direito dos jornalistas, foi criada, em 1967, a Lei de Imprensa. Ela previa multas pesadas e até fechamento de veículos e prisão para os profissionais. A lei só foi revogada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2009. 

Muitos jornalistas sofreram processos com base na lei mesmo após a redemocratização. "Fui processado em 1999 porque publiquei declaração de Fulano contra Beltrano. A Lei de Imprensa da Ditadura permitia isso: punir o mensageiro, que é o jornalista", conta o jornalista e blogueiro do UOL, Mário Magalhães. 

3. Amazônia e índios sob risco 
No governo militar, teve início um processo amplo de devastação da Amazônia. O general Castelo Branco disse, certa vez, que era preciso "integrar para não entregar" a Amazônia. A partir dali, começou o desmatamento e muitos dos que se opuseram morreram. 

"Ribeirinhos, índios e quilombolas foram duramente reprimidos tanto ou mais que os moradores das grandes cidades", diz a jornalista paraense e pesquisadora do tema, Helena Palmquist. 

A ideia dos militares era que Amazônia era "terra sem homens", e deveria ser ocupada por "homens sem terra do Nordeste." Obras como as usinas hidrelétricas de Tucuruí e Balbina também não tiveram impactos ambientais ou sociais previamente analisados, nem houve compensação aos moradores que deixaram as áreas alagadas. Até hoje, milhares que saíram para dar lugar às usinas não foram indenizados. 

A luta pela terra foi sangrenta. "Os Panarás, conhecidos como índios gigantes, perderam dois terços de sua população com a construção da BR-163 --que liga Cuiabá a Santarém (PA). Dois mil Waimiri-Atroaris, do Amazonas, foram assassinados e desaparecidos pelo regime militar para as obras da BR-174. Nove aldeias desse povo desapareceram e há relatos de que pelo menos uma foi bombardeada com gás letal por homens do Exército", afirma. 

4. Baixa representação política e sindical 
Um dos primeiros direitos outorgados aos militares na ditadura foi a possibilidade do governo suspender os direitos políticos do cidadão. Em outubro de 1965, o Ato Institucional número 2 acabou com o multipartidarismo e autorizou a existência de apenas dois: a Arena, dos governistas, e o MDB, da oposição. 

O problema é que existiam diversas siglas, que tiveram de ser aglutinadas em um único bloco, o que fragilizou a oposição. "Foi uma camisa-de-força que inibiu, proibiu e dificultou a expressão político-partidária. A oposição ficou muito mal acomodada, e as forças tiveram que conviver com grandes contradições", diz o cientista político da Universidade Federal de Pernambuco, Michael Zaidan. 

As representações sindicais também foram duramente atingidas por serem controladas com pulso forte pelo Ministério do Trabalho. Isso gerou um enfraquecimento dos sindicatos, especialmente na primeira metade do período de repressão. 

"Existiam as leis trabalhistas, mas para que elas sejam cumpridas, com os reajustes, é absolutamente necessário que os sindicatos judicializem, intervenham para que os patrões respeitem. Essas liberdades foram reprimidas à época. Os sindicatos eram compostos mais por agentes do governo que trabalhadores", lembra Zaidan. 

5. Saúde pública fragilizada 
Se a saúde pública hoje está longe do ideal, ela ainda era mais restrita no regime militar. O Inamps (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) era responsável pelo atendimento, com seus hospitais, mas era exclusivo aos trabalhadores formais. 

"A imensa maioria da população não tinha acesso", conta o cardiologista e sindicalista Mário Fernando Lins, que atuou na época da ditadura. Surgiu então a prestação de serviço pago, com hospitais e clínicas privadas. 

"Somente após 1988 é que foi adotado o SUS (Sistema Único de Saúde), que hoje atende a uma parcela de 80% da população", diz Lins. 

Em 1976, quase 98% das internações eram feitas em hospitais privados. Além disso, o modelo hospitalar adotado fez com a que a assistência primária fosse relegada a um segundo plano. Não existiam planos de saúde, e o saneamento básico chegava a poucas localidades. "As doenças infectocontagiosas, como tuberculose, eram fonte de constante preocupação dos médicos", afirma Lins. 

Segundo estudo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), "entre 1965/1970 reduz-se significativamente a velocidade da queda [da mortalidade infantil], refletindo, por certo, a crise social econômica vivenciada pelo país". 

6. Linha dura na educação 
A educação brasileira passou por mudanças intensas na ditadura. "O grande problema foi o controle sobre informações e ideologia, com o engessamento do currículo e da pressão sobre o cotidiano da sala de aula", sintetiza o historiador e professor da Universidade Federal de Alagoas, Luiz Sávio Almeida. 

As disciplinas de filosofia e sociologia foram substituídas pela de OSPB (Organização Social e Política Brasileira, caracterizada pela transmissão da ideologia do regime autoritário, exaltando o nacionalismo e o civismo dos alunos e, segundo especialistas, privilegiando o ensino de informações factuais em detrimento da reflexão e da análise) e Educação, Moral e Cívica. Ao mesmo tempo, com o baixo índice de investimento na escola pública, as unidades privadas prosperaram. 

Na área de alfabetização, a grande aposta era o Mobral (Movimento Brasileiro para Alfabetização), uma resposta do regime militar ao método elaborado pelo educador Paulo Freire, que ajudou a erradicar o analfabetismo no mundo na mesma época em que foi considerado "subversivo" pelo governo e exilado. Segundo o estudo "Mapa do Analfabetismo no Brasil", do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), do Ministério da Educação, o Mobral foi um "retumbante fracasso." 

Os problemas também chegaram às universidades, com o afastamento delas dos centros urbanos e a introdução do sistema de crédito. "A intenção do regime era evitar aglomeração perto do centro, enquanto o sistema de crédito foi criado para dispersar os alunos e não criar grupos", diz o historiador e vice-reitor do Fejal (Fundação Educacional Jayme de Altavila), Douglas Apratto. 

7. Corrupção e falta de transparência 
No período da ditadura, era praticamente impossível imaginar a sociedade civil organizada atuando para controlar gastos ou denunciando corrupção. Não havia conselhos fiscalizatórios e, com a dissolução do Congresso Nacional, as contas públicas não eram analisadas, nem havia publicidade dos gastos públicos, como é hoje obrigatório. 

"O maior antídoto da corrupção é a transparência. Durante a ditadura, tivemos o oposto disso. Os desvios foram muitos, mas acobertados pela força das baionetas", afirma o juiz e um dos autores da Lei da Ficha Limpa, Márlon Reis. 

Reis afirma que, ao contrário dos anos de chumbo, hoje existem órgãos fiscalizatórios, imprensa e oposição livres e maior publicidade dos casos. "Estamos muito melhor agora, pois podemos reagir", diz. 

Outro ponto sempre questionado no período de ditadura foram os recursos investidos em obras de grande porte, cujos gastos eram mantidos em sigilo. 

"Obras faraônicas como Itaipu, Transamazônica e Ferrovia do Aço, por exemplo, foram realizadas sem qualquer possibilidade de controle. Nunca saberemos o montante desviado", disse Reis. "Durante a ditadura, a corrupção não foi uma política de governo, mas de Estado, uma vez que seu principal escopo foi a defesa de interesses econômicos de grupos particulares." 

8. Nordeste mais pobre e migração 
A consolidação do Nordeste como região mais pobre do país teve grande participação do governo do militares. "Nenhuma região mudou tanto a economia como o Nordeste", diz o doutor em economia regional Cícero Péricles Carvalho, professor da Universidade Federal de Alagoas. 

Com as políticas adotadas, a região teve um crescimento da pobreza. "Terminada a ditadura, o Nordeste mantinha os piores indicadores nacionais de índices de esperança de vida ao nascer, mortalidade infantil e alfabetização. Entre 1970 e 1990, o número de pobres no Nordeste aumentou de 19,4 milhões para 23,7 milhões, e sua participação no total de pobres do país subiu de 43% para 53%", afirma Péricles 

O crescimento urbano registrado teve como efeito colateral a migração desregulada. "O modelo urbano-industrial reduziu as atividades agropecuárias, que eram determinantes na riqueza regional, com 41% do PIB, para apenas 14% do total em 1990", diz Péricles. 

Enquanto o campo era relegado, as atividades urbanas saltaram, na área industrial, de 12% para 28% e, na área do comércio e serviços, de 47% para 58%. 

"A migração gerou mais pobreza nas cidades, sem diminuir a miséria no campo. A população do campo reduziu-se a um terço entre 1960 e 1990", acrescenta Péricles. 

9. Desigualdade: "milagre brasileiro" 
"É preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo". A frase do então ministro da Fazenda Delfim Netto é, até hoje, uma das mais lembradas do regime militar. Mas o tempo mostrou que o bolo cresceu, sim, ficou conhecido como "milagre brasileiro", mas poucos comeram fatias dele. 

A distribuição de renda entre os estratos sociais ficou mais polarizada durante o regime: os 10% dos mais ricos que tinham 38% da renda em 1960 e chegaram a 51% da renda em 1980. Já os mais pobres, que tinham 17% da renda nacional em 1960, decaíram para 12% duas décadas depois. 

Assim, na ditadura houve um aumento das desigualdades sociais. "Isso levou o país ao topo desse ranking mundial", diz o professor de Economia da Universidade Federal de Alagoas, Cícero Péricles. 

Entre 1968 e 1973, o Brasil cresceu acima de 10% ao ano. Mas, em contrapartida, o salário mínimo --que vinha recuperando o poder de compra nos anos 1960-- perdeu com o golpe. "Em 1974, em pleno 'milagre', o poder de compra dele representava a metade do que era em 1960", acrescenta Péricles. 

"As altas taxas de crescimento significavam mais oportunidades de lucros altos, renda e crédito para consumo de bens duráveis; para os mais pobres, assalariados ou informais, restava a manutenção de sua pobreza anterior", explica o economista. 

10. Precarização do trabalho 
Apesar de viver o "milagre brasileiro", a ditadura trouxe defasagem aos salários dos trabalhadores. "Nossa última ditadura cívico-militar foi, em certo ponto, economicamente exitosa porque permitiu a asfixia ao trabalho e, por consequência, a taxa salarial média", diz o doutor em ciências sociais e blogueiro do UOL, Leonardo Sakamoto. 

Na época da ditadura, a lei de greve, criada em 1964, sujeitava as paralisações de trabalhadores à intervenção do Poder Executivo e do Ministério Público. "Ir à Justiça do Trabalho para reclamar direitos era possível, mas pouco usual e os pedidos eram minguados", explica Sakamoto. 

"Nada é tão atrativo ao capital do que a possibilidade de exercício de um poder monolítico, sem questionamentos", diz Sakamoto, que cita a asfixia dos sindicatos, a falta de liberdade de imprensa e política foram "tão atraentes a investidores que isso transformou a ditadura brasileira e o atual regime político e econômico chinês em registros históricos de como crescimento econômico acelerado e a violência institucional podem caminhar lado a lado". 

Carlos Madeiro (via UOL)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

8 dicas da Bíblia e de Ellen White para evitar conflitos

Conflitos existem porque ninguém quer perder a razão. Todos querem ter a palavra final. Você precisa mesmo estar certo sempre? Será que existe um vencedor no final de uma discussão? Será que depois de uma guerra alguém sai ileso? Tenham como objetivo amar os que discordam de vocês. Lutem pelo amor e não pela vitória. Jesus disse que o amor sempre vencerá. Para andarmos juntos, nem sempre temos de concordar em tudo. Quando você se pegar iniciando uma discussão com outra pessoa, use estas orientações bíblicas: 

1. Deixem a misericórdia guiar suas respostas (Pv 3:3-6)
Num conflito, a maioria quer apenas o que é justo, mas a abordagem de Deus não se refere à justiça e sim à graça e misericórdia (Rm 5:8).

2. Permita que Deus determine qual é a verdade (2Co 13:8) 
A verdade não é determinada por sua maneira de pensar ou sentir, nem pela opinião dos outros. É aquilo que Deus diz, Ele é a única autoridade para interpretar toda e qualquer situação (2Co 10:5).

3. Busque a presença de Deus (Mt 28:20)
Satanás quer que acreditemos que estamos sozinhos nessa batalha. Devemos seguir o exemplo de Davi, que acreditou pertencer ao Senhor da batalha (1Sm 17:47)

4. Apoie-se na mente de Cristo (1Co 2:15,16)
A Bíblia diz que não devemos nos apoiar em nosso próprio entendimento, pois o que parece ser certo aos nosso olhos, pode estar completamente errado (Pv 14:12).

5. Procure a verdadeira fonte do conflito (Ef 6:12)
De acordo com a Palavra de Deus, não estamos lutando contra pessoas. Nosso inimigo verdadeiro é Satanás e suas “forças espirituais do mal nas regiões celestiais”.

6. Largue as armas humanas (2Co 10:4, 5)
Quando tentamos suprir nossas necessidades trabalhando independente de Deus, temos tendência a usar o que Paulo chamou de armas da carne. Manipulação, fofoca, difamação, ridicularização, ameaças, vergonha, murmuração… Quando as usamos, acabamos num círculo vicioso de retribuir “mal com mal”.

7. Aprenda a usar as armas espirituais (2Co 10:4)
A Bíblia diz que a oração é uma forte arma. Depois que vestimos toda a armadura de Deus, devemos orar “… no Espírito em todas as ocasiões, com toda oração e súplica…” (Ef 6:18). A oração leva qualquer discussão a uma perspectiva divina.

8. O perdão é outra arma espiritual
Seu poder é maior do que qualquer coisa que o inimigo possa usar contra você. Deus ordena que perdoemos os outros da mesma forma que fomos perdoados (Mt 6:12).

Dicas de Ellen G. White
Agora, vejamos 8 orientações, extraídas do livro Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, pp. 497-505, que Ellen G. White nos deixou para evitarmos contendas e conflitos:

1. Unidade com Deus resulta em união
Deus é a personificação da benevolência, misericórdia e amor. Os que se acham verdadeiramente ligados a Ele não podem estar em divergência, uns com os outros. Seu Espírito reinando no coração, criará harmonia, amor e união. O contrário disto se vê entre os filhos de Satanás. É sua obra provocar inveja, discórdia e ciúme. Em nome de meu Senhor eu pergunto aos professos seguidores de Cristo: Que frutos produzis? 

2. Semeando e colhendo dissensões
Quem espalha as sementes da dissensão e discórdia, colhe em sua própria alma os frutos mortíferos. O próprio ato de olhar para o mal nos outros, desenvolve o mal em quem olha. 

3. Satanás deleita-se com a contenda
Contendas, lutas e processos judiciais entre irmãos são uma desgraça para a causa da verdade. Os que seguem esse procedimento expõem a igreja ao ridículo de seus inimigos e levam a triunfar os poderes das trevas. Eles traspassam de novo as feridas de Cristo e O expõem ao opróbrio público.

4. Polêmicas levam à combatividade
A obra especial, enganosa de Satanás tem sido a provocação de debates, para que haja contendas em torno de palavras, que nenhum proveito trazem. Bem sabe ele que isto ocupará a mente e o tempo. Desperta a combatividade e sufoca, na mente de muitas pessoas, o ardor da convicção, levando-as à diversidade de opiniões, acusação e preconceito, o que cerra a porta para a verdade. 

5. Contendas entre irmãos retardam o segundo advento
Por quarenta anos a incredulidade, a murmuração e a rebelião excluíram o antigo Israel da terra de Canaã. ... É a incredulidade, a mundanidade, a falta de consagração e a contenda entre o professo povo de Deus que nos têm detido neste mundo de pecado e dor por tantos anos. 

6. Não há tempo para contenda e controvérsia
Homens e mulheres que professam servir ao Senhor, contentam-se com ocupar tempo e atenção com assuntos de somenos importância. Satisfazem-se com estar em divergência uns com os outros. Se fossem dedicados à obra do Senhor, não estariam porfiando e contendendo qual família de meninos indisciplinados. 

7. A atitude positiva tem mais poder
Não cultiveis um espírito de controvérsia ou polêmica. Pouco bem é realizado pelos discursos acusatórios. O mais seguro meio de destruir falsas doutrinas, é pregar a verdade. Apegai-vos à afirmativa. Fazei com que as preciosas verdades do evangelho matem a força do mal. Manifestai um espírito brando, compassivo para com os que erram. Ponde-vos em contato com os corações. 

8. No Céu não haverá contenda
Que ninguém pense, ainda que teoricamente possa estar firme na verdade presente, que não comete erros. Se, porém, forem cometidas faltas, que haja presteza em corrigi-las. E evitemos tudo o que possa criar dissensão e contenda, pois há um Céu diante de nós, e entre os seus habitantes não haverá contenda.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Falta de leitura cria preguiçosos mentais e cristãos superficiais

Um relatório do Banco Mundial, divulgado recentemente, traz um dado curioso. Aliás, preocupante. Diz o relatório World Development Report que o Brasil vai demorar 260 anos para alcançar o nível educacional de países desenvolvidos em leitura. Em Matemática, a estimativa é que demoremos (os brasileiros) até 75 anos. A avaliação aqui foi feita com dados relacionados ao Brasil, mas serve tranquilamente para qualquer outro país que tenha índices tão ruins quanto.

Bem, o relatório obviamente não trata apenas de leitura, mas dos rumos da educação em geral. Os dados que compõem esse cálculo foram apresentados com base no desempenho dos estudantes brasileiros nas edições do Pisa, uma avaliação internacional de nível educacional.

Mas e o que isso tem a ver com a vida religiosa das pessoas? Bem, pode ter muita relação. Se olharmos por um determinado ângulo a questão, poderemos compreender que a falta de leitura ou leitura de má qualidade (típica do analfabetismo funcional) é um fator altamente prejudicial à religiosidade individual em certos aspectos. Cria, na minha concepção, preguiçosos mentais e cristãos superficiais. Vamos a alguns problemas, ao diagnóstico:

Pouca leitura em geral pode significar pouca leitura da Bíblia
A baixa leitura dos brasileiros é um indicativo de que possa haver, também, pouca leitura da Bíblia, um livro com dezenas de autores diferentes, centenas de temas e uma linguagem por vezes difícil para alguns. Além disso, a Bíblia, que é uma verdadeira coleção de livros inspirados, exige uma leitura mais cuidadosa, minuciosa, detalhada, de onde seja possível extrair aplicações espirituais práticas para a vida. Se não há leitura do livro, ou se ocorre a leitura superficial, as conclusões e as aplicações, ou não vão acontecer, ou serão igualmente superficiais. Para refletir sobre a mensagem da Bíblia, Deus indica a leitura do livro, a assimilação dos conceitos, não apenas o hábito de ouvir outros falando acerca da Bíblia. Há pessoas que, por um hábito preguiçoso, optam por tentar aprender apenas ouvindo o que outros falam acerca de um tema bíblico. Seria muito mais proveitoso se fizessem elas mesmas a leitura e a meditação no texto (Josué 1:8).

Pouca leitura, em média, pode significar pouca compreensão do texto lido
A falta de hábito de leitura, ou a falta de estímulo à leitura, em países como o Brasil (segundo essa e outras pesquisas), pode levar, também, a um comportamento em que as pessoas passam a ler e não compreender o pouco que leem. E isso tem reflexos na leitura da Bíblia. Profecias dos livros como Apocalipse e Daniel, por exemplo, são interpretadas especialmente, também, a partir do entendimento de textos de outros livros da Bíblia, sobretudo no Antigo Testamento. É preciso fazer comparação, análise dos textos lidos, relação entre um contexto e outro, enfim, estudo, para se compreender melhor o que a Bíblia quer ensinar. E isso definitivamente não vai acontecer com leitura rasa, superficial, onde as pessoas pouco conseguem explicar o que acabaram de ler (ou passar os olhos). Essa prática de se ler muito mal a Bíblia ocasiona esdrúxulas interpretações totalmente descontextualizadas e que dão margem a opiniões pessoais, especulações ou mera reprodução do que sempre ouviram e nunca checaram.

O que fazer?
Desenvolva o hábito da leitura de um trecho curto da Bíblia por dia. Evite ler vários capítulos se você não está acostumado a sequer ler um livro de 80 a 100 páginas regularmente. Comece com um capítulo de um livro que lhe chame mais a atenção na Palavra de Deus. E gaste tempo para refletir sobre o que acabou de ler.

Experimente escrever um pequeno resumo sobre o que você acabou de ler. Faça uma aplicação prática para sua vida. Isso fortalece a ideia de leitura um pouco mais profunda. E conecta a leitura com o seu cotidiano.

Adquira bons comentários e livros de apoio ao estudo da Bíblia. Isso sempre contribui para aumentar o nível de informação acerca do tema estudado.

E o mais importante: ore enquanto lê e estuda. A Bíblia declara que as palavras de Cristo “são a verdade” (João 17:17) e que, portanto, quem dá o entendimento não é o homem, mas o Espírito Santo que sempre nos conduz pela verdade (João 16:13).

Que Deus nos permita ser bons leitores, ávidos e humildes estudantes da Bíblia e menos preguiçosos mentais.

Felipe Lemos (via Realidade em Foco)

Assista também o vídeo abaixo do prof. Leandro Quadros: