terça-feira, 15 de junho de 2021

QUANDO DEUS PISCA O OLHO

Minha mãe foi internada. Apêndice supurado, infecção generalizada, cirurgia de emergência, coma induzido, intubamento. Estado grave. A cada dia, uma tensão; uma expectativa; uma dor; uma, duas, três, muitas lágrimas; incontáveis orações.

O quadro melhora. A esperança vem. Vamos tirar do coma para tentar remover o tubo, diz o médico. Drogas suspensas, tubo tirado, orações esperançosas de gratidão.

Vou visitá-la no CTI. O médico informa que está sedada e não ouvirá nada. Teimoso, por amor, chego ao lado do leito, a mãe inerte como uma boneca de pano. Olhos fechados. Boca aberta. Inconsciente. Mas é quando vem aquela coceira estranha chamada…

fé.

Fé que me faz conversar com aquele corpo imóvel e desacordado.

Acaricio seus cabelos e seu rosto. Digo palavras de amor. Ponho para ela ouvir o áudio da netinha que mandou beijos e do irmão que mora no exterior.

Nenhuma resposta ou movimento.

Imponho a mão sobre sua cabeça e digo que vou orar por ela. Oro. Assim que a oração termina, a boneca de pano abre os olhos com muito esforço e olha para o céu.

“Mãe, você está consciente? Me ouve? Se está entendendo o que estou falando, pisca uma vez”. Ela pisca. Quase choro. Me derramo em palavras de amor, perdão, conexão. Ela responde com piscadelas. Uma para “sim”. Duas para “não”.

Falo tudo o que tinha de falar. Chega o fim da visita. Digo: “Mamãe, te amo. Se você quer me dar um beijo, pisca uma vez os olhos”. Ela pisca uma. Duas. Três. Quatro. Cinco. Incontáveis. Rajada de piscadas de olhos. Sou coberto de beijos pelo olhar de amor da mãe paralisada. Saio do hospital com a fé renovada na recuperação.

Ontem, a má notícia. Mamãe tem piora brutal. Precisa ser reintubada. Falência renal. Pressão descontrolada. Infecção hospitalar. A médica pergunta se queremos deixá-la inconsciente até o desfecho ou lutar. Optamos pela luta. Hemodiálise. Traqueostomia, os últimos recursos. Estado gravíssimo.

Não sei se voltarei a falar com minha mãe nesta vida. Mas, se não falar, levarei para sempre na memória o gentil gesto de Deus, que me permitiu ser coberto de beijos por uma mãe que não precisou falar nada para dizer tudo.

Meu irmão, minha irmã, se você não está ouvindo mais a voz de Deus, permita-me lhe dizer, com toda fé do mundo: creia, Ele está piscando para você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari (via Apenas)

"Reconhecemos a proximidade a que Jesus chega de nós? Ele nos fala pessoalmente. Ele Se revelará a cada um que se disponha a revestir-se da Sua justiça" (Ellen G. White - Testemunhos para a Igreja 7, p, 71).

segunda-feira, 14 de junho de 2021

O JUÍZO FINAL

O ensino uniforme em toda a Escritura é de que o homem será julgado de acordo com aquilo que tiver feito (Jeremias 17:10; 2 Coríntios 5:10; Apocalipse 2:23; 20:12; 22:12; Romanos 2:6). Todos serão recompensados ou condenados de acordo com as decisões e atitudes de sua vida (Eclesiastes 12:14; Mateus 16:27). Isto não quer dizer que a salvação será pelas obras. A salvação somente ocorre pela fé em Cristo como nosso Salvador pessoal. Mas o que ocorre é que as obras de uma pessoa seguem a sua fé. Se a pessoa tem fé em Cristo, suas obras demonstram isso. Se uma pessoa não tem fé em Cristo, sua vida e obras evidenciam de que lado a pessoa escolheu estar no grande conflito entre e bem e o mal.

Vários textos bíblicos indicam que antes de Cristo vir a este mundo, pela segunda vez, haverá um juízo. O profeta Daniel menciona em uma de suas visões a presença de um tribunal com livros sendo abertos (Daniel 7:9, 10). Logicamente, todo julgamento envolve o que está nos relatos processuais. Por isso, a Palavra de Deus menciona a existência de vários livros usados pelo tribunal divino no Céu.

(1) As Escrituras Sagradas – norma do juízo - Ellen G. White diz: "A lei de Deus é a norma pela qual o caráter e vida dos homens serão aferidos no juízo” (O Grande Conflito, p. 482). Mas ninguém será condenado por não observar a luz e o conhecimento que eles nunca tiveram, e que não puderam obter. "Deus tem dado luz e vida a todos, e em harmonia com a medida luz concedida, será cada um julgado" (O Desejado de Todas as Nações, p. 189).

(2) O livro da vida - Por inspiração divina, João escreveu: "Abriu-se outro livro, que é o da vida, e os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas no livro, segundo as suas obras" (Apocalipse 20:12). De acordo com relatos de Ellen White: "Parecia haver chegado o grande dia da execução do juízo de Deus. Vários livros achavam-se diante dEle, e na capa de cada um estava escrito em letras de ouro, que pareciam como chama ardente: 'Contas-correntes do Céu'. Foi então aberto um desses livros, contendo os nomes dos que professam crer na verdade" (Testemunhos Seletos 1, p. 518).

(3) O livro de registro dos pecados dos homens - Ellen G. White diz: "A obra de cada homem passa em revista perante Deus, e é registrada pela sua fidelidade ou infidelidade. Ao lado de cada nome, nos livros do Céu, estão escritos, com terrível exatidão, toda palavra inconveniente, todo ato egoísta, todo dever não cumprido e todo pecado secreto, juntamente com toda hipocrisia dissimulada. Advertências ou admoestações enviadas pelo Céu, e que foram negligenciadas, momentos desperdiçados, oportunidades não aproveitadas, influência exercida para o bem ou para o mal, juntamente com seus resultados de vasto alcance, tudo é historiado pelo anjo relator" (O Grande Conflito, p. 480).

(4) O livro de memórias das boas obras do santos - Ellen G. White declara: "No livro memorial de Deus, toda ação de justiça se acha imortalizada. Ali, toda tentação resistida, todo o mal vencido, toda palavra de terna compaixão que se proferir, acham-se fielmente historiados. E todo ato de sacrifício, todo sofrimento e tristeza, suportado por amor de Cristo, encontra-se registrado" (O Grande Conflito, p. 481).

(5) E talvez... o livro da morte que registra os pecados dos impenitentes (Daniel 7:10; Malaquias 3:16; Neemias 13:14; 65: 6 e 7) - Ellen G. White afirma: "Em união com Cristo, os santos julgam os ímpios, decidindo cada caso de acordo com as ações praticadas no corpo. É determinada a parte que os ímpios devem sofrer, segundo as suas obras, e o registro é feito junto aos seus nomes, no livro da morte" (O Grande Conflito, p. 286).

Esses livros são usados por Deus para que o Universo saiba que Ele é justo ao condenar os ímpios e salvar aqueles que escolheram o plano divino através da morte substitutiva de Cristo. Após a abertura dos livros, o profeta Daniel nos apresenta a cena do juízo. Primeiro há o julgamento e depois a coroação de Cristo e a implantação do reino eterno (Daniel 7:13 e 14). Pedro nos diz que o julgamento do povo de Deus precede ao julgamento dos ímpios (1 Pedro 4:17).

E então virá o decreto de Apocalipse 22:11: “Quem é injusto, faça injustiça ainda; e quem está sujo, suje-se ainda; e quem é justo, faça justiça ainda; e quem é santo, seja santificado ainda.” Esse decreto virá no fim do juízo pré-advento, exatamente antes que Cristo venha pela segunda vez. Não haverá segundo tempo de graça. O julgamento divino é efetuado em três passos sucessivos:

a) O juízo pré-advento – justifica o caráter de Deus diante dos seres celestiais. É realizado antes que Cristo retorne à esta Terra. Antes de Cristo vir a este mundo, pela segunda vez, para levar os que O aceitaram como Salvador pessoal e viveram uma vida de entrega a Ele, nos tribunais celestes será analisado quem Cristo irá levar para o Céu. A grande preocupação dos seres celestiais é o Céu não ser colocado em perigo por algum suposto cristão que não teve a vida totalmente transformada.

Nesse julgamento, serão descartados os pretensos seguidores de Cristo, aqueles que têm o nome de cristãos, mas não O seguem de verdade. Os cristãos nominais serão julgados e condenados antes que Cristo venha para dar o galardão aos Seus filhos. Cristo, obviamente, não irá levá-los para o Céu.

b) O juízo de confirmação – justifica o caráter de Deus diante dos remidos. É realizado pelos santos durante o milênio. Quando chegarmos ao Céu, certamente vamos nos surpreender por não encontrarmos lá algumas pessoas que imaginávamos que lá estariam. Para benefício dos salvos, Cristo abrirá todos os registros do Céu para que possamos confirmar a justiça de Deus em ter concedido a salvação a alguns e em não ter levado outros para o Céu. Esse juízo ocorre entre a segunda e a terceira vinda de Cristo a este mundo no período conhecido como milênio.

O livro do Apocalipse (20:4) nos fala sobre os santos julgando durante os mil anos (milênio). Paulo declara que “o mundo” e os “anjos” serão julgados pelos santos (1 Coríntios 6:2 e 3; Judas 6). Essa será a principal obra dos santos durante o milênio – “reinarão e serão sacerdotes com Cristo durante mil anos” (Apocalipse 20:4 e 6). Por ocasião da segunda vinda de Cristo, eles serão levados ao Céu e, ali, farão o julgamento.

c) O juízo executivo final – justifica o caráter de Deus diante de todos os seres criados, bons e maus. É a proclamação da sentença condenatória contra os ímpios e sua destruição. Quando todas as dúvidas tiverem sido esclarecidas, no final do milênio, Jesus voltará novamente à Terra para ser reconhecido como justo por Satanás, seus anjos e todos os perdidos. Aqui se realizará o que está predito tanto no Antigo como no Novo Testamento:

Isaías 45:23 – “Por mim mesmo tenho jurado, já saiu da minha boca a palavra de justiça, e não tornará atrás; que diante de mim se dobrará todo o joelho, e por mim jurará toda a língua.”

Romanos 14:11 – “Porque está escrito: Como eu vivo, diz o Senhor, que todo o joelho se dobrará a mim, e toda a língua confessará a Deus.”

É importante notarmos que todo joelho se dobrará a Deus não numa obediência forçada, mas num tributo de sincero reconhecimento de que Deus foi amoroso e justo em todo o seu trato com os pecadores. A razão pela qual essas pessoas não podem receber a imortalidade é porque rejeitaram a graça de Cristo e se apegaram ao pecado de tal forma que o pecado passou a ser, para elas, uma segunda natureza. Não podem fazer parte do Céu porque colocariam em risco a existência pacífica de todos os seres do Universo.

Aquele que tem a Cristo como seu Salvador pessoal não precisa temer o juízo de Deus em nenhuma de suas fases. João 5:24 nos revela que aquele que ouve e pratica a Palavra de Jesus não entra em juízo, mas passa da morte para a vida, isto é, somente serão condenados aqueles que não fizeram uma entrega completa da vida a Deus. No final do milênio, todos os seres humanos estarão reunidos diante de Deus. Os salvos (que não serão mais julgados nesta ocasião) receberão a confirmação de sua salvação. Os ímpios estarão em pé diante dEle para receber a sentença final – o juízo executivo final. Fogo descerá do céu e destruirá, para todo sempre, todo e qualquer vestígio de maldade (Apocalipse 20:7-9). A Bíblia nos diz que o mal não se levantará pela segunda vez (Naum 1:9).

Malaquias 4:1 e 3 – “Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo. E pisareis os ímpios, porque se farão cinza debaixo das plantas de vossos pés, naquele dia que estou preparando, diz o SENHOR dos Exércitos." 

E assim descreve Ellen G. White no livro O Grande Conflito (pp. 674-678) o final e glorioso triunfo:

"Enquanto a Terra está envolta nos fogos da destruição, os justos habitam em segurança na Santa Cidade. Sobre os que tiveram parte na primeira ressurreição, a segunda morte não tem poder. Ao mesmo tempo em que Deus é, para os ímpios, um fogo consumidor, é, para o Seu povo, tanto Sol como Escudo (Apocalipse 20:6; Salmo 84:11).

“Vi um novo céu, e uma nova Terra. Porque já o primeiro céu e a primeira Terra passaram” (Apocalipse 21:1). O fogo que consome os ímpios purifica a Terra. Todo vestígio de maldição é removido. Nenhum inferno a arder eternamente conservará perante os resgatados as terríveis consequências do pecado. 

Apenas uma lembrança permanece: nosso Redentor sempre levará os sinais de Sua crucifixão. Em Sua fronte ferida, em Seu lado, em Suas mãos e pés estão os únicos vestígios da obra cruel que o pecado efetuou. Diz o profeta, contemplando Cristo em Sua glória: “Raios brilhantes saíam da Sua mão, e ali estava o esconderijo da Sua força” (Habacuque 3:4).

Suas mãos, Seu lado ferido donde fluiu a corrente carmesim, que reconciliou o homem com Deus – ali está a glória do Salvador, ali está “o esconderijo da Sua força”. “Poderoso para salvar”, mediante o sacrifício da redenção, foi Ele, portanto, forte para executar justiça sobre aqueles que desprezaram a misericórdia de Deus. E os sinais da Sua humilhação são a Sua mais elevada honra; através das eras intérminas, os ferimentos do Calvário Lhe proclamarão o louvor e declararão o poder. 

Na terra renovada não mais haverá lágrimas, cortejos fúnebres, manifestações de pesar. “Não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:4). “E morador nenhum dirá: Enfermo estou; porque o povo que habitar nela será absolvido da sua iniquidade” (Isaías 33:24).

Ali está a nova Jerusalém, a metrópole da nova Terra glorificada, como “uma coroa de glória na mão do Senhor e um diadema real na mão de teu Deus” (Isaías 62:3). “Sua luz era semelhante a uma pedra preciosíssima, como a pedra de jaspe, como cristal resplandecente.” “As nações andarão à sua luz; e os reis da Terra trarão para ela a sua glória e honra” (Apocalipse 21:11 e 24). Diz o Senhor: “Folgarei em Jerusalém, e exultarei no Meu povo” (Isaías 65:19). “Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o Seu povo, e o mesmo Deus estará com eles e será o seu Deus” (Apocalipse 21:3).

“E ouvi a toda a criatura que está no céu, e na terra, e debaixo da terra, e que está no mar, e a todas as coisas que neles há, dizer: Ao que está assentado sobre o trono, e ao Cordeiro, sejam dadas ações de graças, e honra, e glória, e poder para todo o sempre” (Apocalipse 5:13). O grande conflito terminou. Pecado e pecadores não mais existem. O Universo inteiro está purificado. Uma única palpitação de harmonioso júbilo vibra por toda a vasta criação. DAquele que tudo criou emanam vida, luz e alegria por todos os domínios do espaço infinito. Desde o minúsculo átomo até ao maior dos mundos, todas as coisas, animadas e inanimadas, em sua serena beleza e perfeito gozo, declaram que Deus é amor."

domingo, 13 de junho de 2021

CRISE NO PÚLPITO

A pregação sempre foi, é e será o ponto alto do culto, a intersecção entre o Céu e a Terra, o momento em que Deus toca mentes e transforma corações. O ministério ganha e transmite vida (ou morte) a partir do púlpito. No entanto, para quem transita por igrejas diversas, já está se tornando lugar-comum a reclamação de que existe uma crise na qualidade da pregação. Onde estão os grandes oradores da atualidade? Por que os nomes associados com a pregação poderosa estão no passado? Qual seria a solução para o suposto declínio do púlpito cristão e adventista?

Sem dúvida, a pregação é um fator essencial na conversão dos pecadores, no sucesso da igreja e na espiritualidade dos membros. As pessoas buscam sermões de qualidade. Entre os cristãos norte-americanos que raramente frequentam a igreja, 18% dizem que não vão porque não gostam do sermão, segundo pesquisa divulgada em agosto de 2018 pelo Pew Research Center. Em outro levantamento feito em 2016, o mesmo instituto constatou que um bom sermão influencia a decisão de quem está procurando uma igreja. Para 83% dos entrevistados, esse é o fator mais importante para a escolha, pesando mais do que o calor humano dos líderes (79%), o estilo do culto (74%) e a localização do templo (70%).

Além disso, no fim do tempo, a pregação tem que crescer tanto em quantidade quanto em qualidade e poder. Os anjos do Apocalipse (14:6-11; 18) que falam com voz poderosa são uma indicação nesse sentido. Nos séculos 18 e 19, quando ocorreu um grande reavivamento na América do Norte e surgiu o adventismo, houve uma explosão no número de pregadores. Segundo dados de Dawn Coleman, num capítulo que focaliza o sermão americano no período antes da guerra, incluído no livro A New History of the Sermon: The Nineteenth Century (Brill, 2010, p. 521), o total de pessoas oficialmente filiadas a igrejas nos Estados Unidos saltou de 17% da população em 1776 para 37% em 1860. Em grande parte, esse crescimento foi catalisado pela pregação, que incendiou a nova república. Coleman completa: “O número de pregadores aumentou de 1.800 em 1775 para 40 mil em 1845 – o que representou não somente um impressionante crescimento bruto, mas também a triplicação no número de pregadores per capita, indo de um pregador para cada 1.500 pessoas a um para cada 500.”

O sermão era uma força unificadora e transformadora. Além da quantidade, o mundo foi agitado por grandes pregadores dos dois lados do Atlântico, como Charles H. Spurgeon (1834-1892), Dwight L. Moody (1837-1899) e Charles Finney (1792-1875). Isso sem falar na geração anterior, como John Wesley (1703-1791), Jonathan Edwards (1703-1758) e George Whitefield (1714-1770). O resultado foi fenomenal.

CAUSAS DO DECLÍNIO
Se a pregação realmente passa por uma crise, quais são as principais causas? Sem ser exaustivo nem apontar o dedo para ninguém, vou enumerar alguns fatores. Primeiro, nota-se uma superficialidade no conhecimento bíblico. Todavia, ninguém consegue pregar com excelência se não tiver base teológica sólida e familiaridade com a Bíblia. Para pregar bem, não basta inspiração momentânea. Alguns temem que a letra mate o espírito, mas o espírito também pode matar a letra. Sem o conteúdo, o pregador se torna um mensageiro sem mensagem. E não ter nada para dizer no púlpito, mais do que escândalo, é uma traição ao legado do evangelho.

Outro aspecto é a mudança no contexto cultural. Vivemos em uma época de ceticismo, entretenimento, consumismo, distração, superficialidade e cinismo. O império do imediato exige tudo para agora. A fragmentação é real em muitas esferas. Essas transformações acabam afetando muitos pregadores, que, buscando agradar o público, nutrem o desejo por popularidade fácil, transformam a plataforma num tablado e pregam a si mesmos. O púlpito se torna um grande cenário para selfies em que Cristo jamais aparece.

Em terceiro lugar, existe a pressão do pluralismo e do relativismo. O nível de incerteza aumenta a cada dia. Nesse contexto, o pregador pode ser tentado a não confiar totalmente na relevância da Bíblia. Passa também a relativizar os aspectos distintivos da teologia e dilui a mensagem. Com isso, ele não prega com convicção. Porém, em uma sociedade instável, a Palavra de Deus deve ser o fator de estabilidade. Para quem crê, Deus é a grande âncora existencial.

Há também a perda de autoridade, potencializada pela facilidade no “preparo” dos sermões. Muitas pregações são entediantes, irrelevantes e dispensáveis. A oferta de materiais na internet tornou-se uma bênção e uma maldição. O pregador que apenas recorta sermões e os apresenta como se fossem seus tem um problema ético. Mas há outra implicação: o corta-e-cola mina a sua autoridade, pois é o processo de preparo que ajuda a solidificar o conhecimento e a espiritualidade do pregador.

Por fim, vem a incoerência entre o discurso e a vida. Na sociedade, falta integridade, sobra hipocrisia. Pregador e audiência podem ser contaminados por esses vícios. O estilo de vida de muitos pregadores nem sempre transmite confiança. Quando o público percebe o orador como aproveitador, demagogo, egoísta, manipulador, oportunista ou simulador, temos um problema sério. Pior ainda é quando ele leva uma vida incompatível com a ética do evangelho, pois o descompasso entre pregação e vida é um desastre para a autoestima do pregador e o poder da pregação.

MUDANÇA DE PARADIGMA
Naturalmente, o próprio ato de preparar a mensagem e o estilo da pregação acabam influenciando o resultado. Em termos de técnica para elaborar e apresentar sermões, os estudiosos veem dois paradigmas principais, especialmente no cenário norte-americano, que tem uma forte tradição de grandes oradores: (1) o método dedutivo, começando com um livro clássico de John Broadus, On the Preparation and Delivery of Sermons (1870), e (2) o método indutivo, introduzido por Fred B. Craddock, com As One Without Authority (1971, 1979) e Overhearing the Gospel (1978). Se o método dedutivo é mais lógico, formal e direto, o método indutivo é mais aberto, intimista e indireto.

Enfatizando a “pregação narrativa”, a “nova homilética” de Craddock desbancou a “velha homilética” de Broadus e mudou os púlpitos na América, o que acabou refletindo em outras partes do mundo. Para Craddock, o ouvinte não deve ser um recipiente passivo, apenas absorvendo o conteúdo estruturado por uma figura autoritativa. Por isso, é importante o pregador recriar para o ouvinte o contexto e a experiência da mensagem, adaptando o estilo da pregação ao gênero do texto bíblico. Nessa perspectiva, a pregação envolve o ato de conduzir o ouvinte em uma viagem de descoberta.

Na verdade, ambos os paradigmas podem ser eficazes. Afinal, forma e conteúdo caminham lado a lado. O estilo grandiloquente de pregar talvez esteja morto, mas a pregação grandiosa não precisa estar. Há muitas maneiras legítimas de apresentar a mensagem: exposição, narrativa, história/biografia, analogia, recriação do mundo contemporâneo dentro da moldura do universo bíblico... A exposição, por exemplo, é um estudo criativo sobre uma seção ou tópico da Bíblia seguindo a moldura e a ênfase do texto. A narrativa leva o ouvinte a se identificar com os personagens e a desejar recriar sua própria história. O importante é apresentar a verdade bíblica com a visão bíblica, nos termos bíblicos, recriando os eventos bíblicos, a fim de iluminar o contexto atual e levar a uma transformação real. O objetivo é transportar a audiência do texto para o contexto, do evento para o advento, da inércia para a ação. O bom conteúdo, é claro, não pode faltar. Pregar é fazer teologia ao vivo.

Independentemente do paradigma adotado, como enriquecer a pregação? Aqui estão dez sugestões:

1. Direcione os holofotes para Deus. Pregação é uma arte e, como toda boa arte, o foco dela não deve estar na técnica nem no artista. Por isso, o aparato de recursos usados para construir o sermão deve permanecer oculto, assim como o conhecimento do pregador não deve ser o destaque. O foco é a teologia, não a habilidade; a mensagem, não o mensageiro; Cristo, não o ser humano. A pregação é eficaz porque procede de Deus, não porque o orador tem carisma.

2. Fundamente a pregação na Bíblia. Este foi o conselho do apóstolo Paulo a Timóteo: pregue a Palavra (2Tm 4:2). Deus fala, e o pregador retransmite as palavras divinas, vivendo de tudo o que procede da boca do Senhor (Dt 8:3). As Escrituras têm poder para salvação, o que não ocorre com notícias de jornal e historinhas adocicadas. Sermão não é comédia, entretenimento nem sessão de terapia. A Bíblia é o livro do Deus vivo e contém palavras de vida. Ela tem o poder de regenerar e transformar. Para pregar com propriedade, é preciso ter uma visão da teologia de todo o livro em que se encontra a passagem do sermão. Não basta ler a Palavra superficialmente; é necessário conhecê-la profundamente. Pregar a mensagem certa, no tom certo, com o efeito certo, é bênção certa. Na Bíblia, a preocupação não é primariamente com a retórica, mas com a verdade.

3. Adote a pregação cristocêntrica. Há muitas passagens indicando que Jesus era o foco da proclamação dos apóstolos e de outros líderes, até porque desejavam convencer o mundo de que Ele era o Messias (At 5:42; 8:35; 11:20; 17:18; Rm 16:25; 1 Co 1:23; 2:2; 2Co 1:19; 4:5; Gl 1:16; Fp 1:15). No Novo Testamento, o nome “Cristo” é mencionado cerca de 530 vezes e “Jesus” aproximadamente 917 vezes. Dos 260 capítulos dessa parte da Bíblia, Cristo aparece em 251 (96,5%). Jesus é também o centro do Antigo Testamento, a Bíblia usada pelo Salvador e os discípulos (Lc 24:13-27, 44-48; Jo 5:39). Portanto, é essencial tornar Jesus o elemento central da pregação, sem forçar o texto bíblico e sem esquecer a relação de Cristo com as outras pessoas da Divindade. Inserir um conceito artificialmente no texto seria uma fraude exegética.

4. Descubra e aperfeiçoe seu estilo. Há vários tipos de pregadores: o criativo, que tem um senso estético e valoriza a beleza e a originalidade; o pragmático, que prefere falar de coisas práticas e de seu funcionamento; o intelectual, que tem talento literário e gosta de burilar o sermão; o comunicador, que tem uma habilidade natural para transmitir conceitos; o evangelista, que se especializa em apelos e busca converter os ouvintes; o exortador, que tenta convencer o público a fazer mudanças; o motivador, que usa estratégias emocionais para propagar sonhos e levar à ação; o homilético, que prefere mensagens devocionais; o professor, que adota o estilo instrucional do ensino; o visionário, que apresenta grandes ideias para ampliar os horizontes. Um pregador quer que você aja, outro deseja que pense, outro quer que entenda, outro ainda deseja que sinta, e assim por diante. Não importa qual seja seu estilo, procure desenvolvê-lo. O mais importante é que você pratique, sinta-se confortável e se torne eficaz.

5. Considere o perfil do público. Todo bom orador leva em conta a maneira pela qual a audiência vive, pensa e se comporta. Isso é o que se chama pregar com inteligência cultural, estabelecendo pontes. Por exemplo, a pregação dos negros norte-americanos faz muito sucesso na tradição protestante e mesmo entre os adventistas. É algo diferente, um tipo de pregação que valoriza a dimensão social do evangelho e em que o conteúdo define o estilo e a retórica. “A pregação negra norte-americana é uma realidade identificável”, escreveu Calvin B. Rock no artigo “Black SDA Preaching” na revista Ministry de setembro de 2000. “Sua energia e imagens a tornam uma proclamação singular do evangelho. É uma forma de arte nascida da fé, enraizada no amor, orientada pela esperança, moldada na provação, nutrida pela fé, mentoreada no sofrimento e autenticada pelo tempo.” Apesar de suas qualidades, alguns públicos podem achá-la exuberante demais. Evite os “ruídos” e busque se conectar com a audiência.

6. Use todas as avenidas para impactar o ouvinte. O evangelho é apreendido pelo intelecto e aceito no coração. A grande pregação envolve o aspecto cognitivo e o afetivo, cabeça e coração. Na medida do possível, ela precisa ser multissensorial. Por isso, o pregador tem que pensar nessas dimensões. Excesso de emoção ou emoção na hora imprópria pode ser prejudicial, mas a emoção em si não é ruim. Apenas monstros e mortos não têm emoção. É preciso equilibrar fatos e experiência, ter o que dizer e saber como dizer, para obter o maior efeito. Como escreveu Ellen White, “o alvo da pregação não é apenas apresentar informação nem meramente convencer o intelecto”, mas “alcançar o coração dos ouvintes” (Review and Herald, 22 de dezembro de 1904).

Floyd Bresee, meu ex-professor de homilética, ilustrou esse aspecto da seguinte maneira: “Como você pode conhecer melhor o Oceano Pacífico: estudando um mapa ou sentindo a areia da praia sob seus pés e o respingar do mar na sua face? Para realmente conhecer o oceano, você precisa de fatos e sentimentos. Como você pode conhecer melhor a Cristo: estudando a teologia que Ele ensinou ou experimentando a sensação de como Ele amou e tratou as pessoas? Para realmente conhecer a Cristo, você precisa de ambos” (Ministry, março de 1984, p. 8).

A retórica fazia parte da arquitetura do pensamento no mundo antigo, que empregava técnicas criativas para tornar os discursos e os escritos mais vivos, bonitos e convincentes. Três elementos integravam o arsenal de recursos retóricos: a confiabilidade do orador (ethos), o apelo à razão (logos) e o toque nas emoções (pathos). Ainda hoje, esses elementos têm sentido. O objetivo não era apenas criar efeito estético, mas persuasivo.

Como parte da retórica persuasiva, empregue ilustrações (do latim lux, “luz”) para iluminar na medida certa a mensagem, facilitar a compreensão, chamar a atenção e cativar o público. Se luz demais ofusca, luz de menos não clareia. As ilustrações e as metáforas servem para maximizar o efeito da verdade no interior. A boa pregação é uma epifania, uma revelação, o descortinar dos movimentos divinos. Para ser profunda, ela não precisa ser árida; pode combinar ensino e imaginação, conteúdo sólido e criatividade.

7. Planeje suas pregações para relembrar o que precisa ser lembrado. A melhor maneira de programar as mensagens é idealizar séries para sábados, domingos e quartas. No sábado, pregue temas bíblicos mais expositivos; no domingo, apresente mensagens evangelísticas; na quarta, coloque assuntos devocionais e práticos. Isso permitirá que você saia do “mesmismo”, dê sequência aos assuntos e sistematize a apresentação do conteúdo. Leve em conta o calendário, a necessidade da igreja e o momento. Ao planejar o cardápio espiritual da sua congregação, é possível equilibrar várias temáticas e contemplar assuntos que costumam ser pouco explorados.

As séries permitem resgatar mais facilmente os grandes temas bíblicos. Pregação não é apenas explicar, aplicar e motivar, mas relembrar.

COMO ESTRUTURAR O SERMÃO
O sermão não é apenas um instantâneo efêmero dos gestos e ênfases de um pregador; é um retrato de atitudes, ideias, pensamentos e sentimentos sobre Deus, a Bíblia, o corpo, a sociedade, o casamento, a vida, a morte, o Céu, a Terra, o presente, o futuro... Como parte de um sistema de comunicação, é o reflexo de um tempo. Assim, quando os intelectuais do futuro olharem para os sermões de hoje, o que encontrarão?

Para ser eficaz, a pregação deve ser bem preparada. Nesse sentido, Derek Morris sugere 12 passos no livro O Poder da Pregação Bíblica (CPB, 2016, p. 17-25):

1. Escolha uma passagem para pregar. Considere o impacto pessoal ao ler um texto bíblico, sua preocupação como líder espiritual, a necessidade social e a ocasião.

2. Estude a passagem escolhida e faça anotações. Leve em conta o contexto e pense nas palavras-chave.

3. Descubra a ideia exegética da passagem. Identifique a grande ideia do texto.

4. Formule a ideia central da pregação. Elabore uma frase simples e marcante que você deseja que seus ouvintes se lembrem e pratiquem na vida diária.

5. Estabeleça seu objetivo. Saiba por que você está pregando tal mensagem.

6. Escolha a forma do sermão. Expositivo, narrativo, tópico?

7. Reúna os materiais de apoio. Isso inclui fatos, citações, ilustrações.

8. Desenvolva a introdução. Ela deverá atrair a atenção dos ouvintes, se relacionar a uma necessidade deles e introduzir a parte principal do sermão.

9. Elabore a conclusão. Ela visa fazer um resumo da mensagem, a aplicação e o apelo.

10. Escreva o sermão. Use um estilo oral.

11. Internalize o sermão. Repasse-o como se estivesse caminhando por ele como um guia turístico, pensando na maneira de proferir a mensagem e até pronunciar as palavras.

12. Ouça a Deus, você mesmo e o público enquanto prega. Procure se libertar do texto e prestar atenção a essas “vozes”.

Marcos De Benedicto (via Revista Adventista)

Nota do blog: Confira mais algumas considerações de Ellen G. White sobre o assunto:

"Deus pede um reavivamento e uma reforma. As palavras da Bíblia, e a Bíblia somente, deviam ser ouvidas do púlpito. Mas a Bíblia tem sido roubada em seu poder, e o resultado é visto no rebaixamento do tono da vida espiritual. Em muitos sermões de hoje, não existe aquela divina manifestação que desperta a consciência e leva vida à alma. Os ouvintes não podem dizer: 'Porventura não ardia em nós o nosso coração quando, pelo caminho, nos falava, e quando nos abria as Escrituras?' (Lc 24:32). Há muitos que estão clamando pelo Deus vivo, ansiando pela divina presença. Permiti que a Palavra de Deus lhes fale ao coração. Deixai que os que têm ouvido apenas tradição e teorias e máximas humanas ouçam a voz dAquele que pode renovar a alma para a vida eterna" (Profetas e Reis, p. 626).

“Há homens que ficam nos púlpitos como pastores, professando alimentar o rebanho, enquanto as ovelhas estão morrendo por falta do pão da vida. Há longos e arrastados discursos grandemente compostos de narrativas de anedotas; mas o coração dos ouvintes não é tocado. Pode ser que os sentimentos de alguns sejam tocados, podem derramar algumas lágrimas, mas seu coração não foi quebrantado. […] O Senhor, Deus do Céu, não pode aprovar muito do que é trazido ao púlpito pelos que professam estar falando a Palavra do Senhor. Não inculcam ideias que sejam uma bênção para os que o ouvem. Alimento barato, muito barato é colocado diante do povo” (Testemunhos para Ministros, pp. 336-337).

sábado, 12 de junho de 2021

DIA DOS NAMORADOS

“Como posso saber se estou realmente amando?”, perguntou um leitor ao colunista de um jornal. E a resposta foi: “Se precisa perguntar, então não está amando.” A inadequação da resposta é aterradora, ainda assim muitos continuam pensando que quando o amor os acertar, ele será percebido! Na verdade, a coisa não é bem assim.

Estudos mostram que a maioria das pessoas tende a considerar os relacionamentos passados como paixões e o atual como amor verdadeiro. Outra pesquisa descobriu que a média das experiências de pessoas que vivem paixões é de seis a sete vezes, ao passo que as do amor verdadeiro é de uma a duas vezes. Você pode ter vivenciado muitos romances, mas o ponto é: Como pode afirmar se seu amor é verdadeiro ou apenas uma paixão efêmera?

Amor e paixão possuem algo em comum – sentimentos fortes de afeição por alguém – o que complica a questão de perceber as diferenças, porquanto muitos dos sintomas se sobrepõem uns aos outros. A maioria das paixões arrebatadas e cegas pode conter uma porção de amor verdadeiro e o amor verdadeiro pode incluir muitos dos sintomas encontrados na paixão. Então, as diferenças entre amor e paixão são frequentemente verificadas em grau, mais do que em definição. Portanto, devem-se examinar todas as evidências com extrema cautela.

Amor e paixão compartilham três sintomas: atração sexual, desejo de estar próximo e emoções fortes. Os textos em negrito são de autoria de Ellen G. White.

1. Atração sexual. A atração sexual pode estar presente sem o amor verdadeiro. É inteiramente possível, particularmente para o homem, ter um forte desejo sexual por uma mulher que ele antes não conhecia. Abraçar e acariciar aumenta a urgência dos sentimentos eróticos até que o sexo domine a relação. A paixão, por si só, não é indicação de amor verdadeiro. A atração sexual pode ser tão importante na paixão quanto no amor verdadeiro, e às vezes pode ser até dominante. O amor deve estar baseado em mais do que atração sexual ou paixão cega.

Além disso, ninguém pode manter uma paixão por muito tempo e com tamanha intensidade, mesmo que jurem fazê-lo. Se todos os casais vão à procura de paixão, o relacionamento possivelmente terminará em poucos meses. Se um casal pretende chegar ao matrimônio baseando-se no ímpeto inicial da atração sexual, aprenderá que quando a paixão acabar, nada haverá que os mantenha unidos.

"O amor que não se baseia senão em mera satisfação sensual, será obstinado, cego, incontrolável. A honra, a verdade, toda nobre e elevada faculdade do espírito são levadas cativas das paixões. O homem preso nas cadeias dessa insensatez fica muitas vezes surdo à voz da razão e da consciência; nem argumentos nem súplicas o podem levar a ver a loucura de sua conduta" (Signs of the Times, 1º de julho de 1903).

"A juventude confia demais no impulso. Não deve entregar-se demasiado facilmente, nem deixar-se cativar muito depressa pelo atraente exterior do pretendente" (Mensagem aos Jovens, p. 450).

2. Desejo de proximidade. O desejo de proximidade pode tornar-se imprescindível tanto na paixão como no amor verdadeiro. Você pode desejar estar junto à pessoa amada o tempo todo, temendo o momento em que se apartará dela. Você pode sentir-se vazio e sozinho quando seu(sua) amado(a) não está com você, mas isso não é necessariamente uma indicação de amor verdadeiro. O desejo de estar próximo pode ser tão forte na paixão quanto no amor verdadeiro. Mas o hábito de ficarem muito tempo próximos demais não agrada a Deus, ainda que sejais ambos cristãos. Não permitirás que o sentimentalismo amoroso te cegue de tal maneira a visão que não possas discernir os elevados direitos de Deus sobre ti como cristão.

"O amor verdadeiro não é uma paixão forte, ardente, impetuosa. Ao contrário, é calmo e profundo em sua natureza. Olha para além das coisas meramente exteriores, sendo atraído unicamente pelas qualidades. É sábio e apto a discriminar, e sua dedicação é real e permanente" (Testemunhos Seletos, vol. 1, p. 208).

"Os anjos de Satanás estão de vigia aos que passam grande parte da noite namorando. Fossem os seus olhos abertos, e veriam um anjo a fazer o relatório de suas palavras e atos. As leis da saúde e da modéstia são violadas. Seria mais próprio deixar algumas horas do namoro antes do casamento para a vida de casados. Mas em geral o casamento acaba com toda devoção manifestada durante os dias do noivado" (O Lar Adventista, p. 56).

3. Emoções fortes. As pesquisas confirmam que experimentamos diferentes sintomas físicos no princípio da paixão. Sensações como caminhar nas nuvens quando tudo vai bem e sentir-se doente quando tudo vai mal; arrepios subindo e descendo pela coluna vertebral, incapacidade de concentração, dores no estômago ou dificuldade de comer, são sintomas muito comuns, mas as emoções fortes ocorrem tão frequentemente na paixão quanto no amor verdadeiro, embora sentimentos inexplicáveis e emoções fortes indiquem mais a paixão. O amor verdadeiro abriga mais que uma mistura de sentimentos inexplicáveis, e se mantém após a diminuição das emoções fortes.

Se você está sozinho(a), entediado(a) ou tentando superar o rompimento de um romance, mostra-se mais vulnerável a interpretar um novo romance como amor verdadeiro, ainda que esse seja pouco mais que paixão. Se você é inseguro(a) ou possui baixa auto-estima, deve ficar alerta. Pessoas maduras, bem como aquelas que possuem elevada auto-estima, podem ser enganadas por uma paixão, mas têm mais chances de reconhecer a diferença entre o amor verdadeiro e a paixão.

"É o amor um dom precioso, que recebemos de Jesus. A afeição pura e santa não é sentimento, mas princípio. Os que são movidos pelo amor verdadeiro, não são irrazoáveis nem cegos" (A Ciência do Bom Viver, p. 358 e 359).

Não fique com a impressão de que a paixão seja de todo ruim. Pode ser uma agradável e divertida experiência se reconhecê-la como tal – um curto interlúdio de uma fantasia romântica. Dando-se tempo suficiente, ela irá passar ou se desenvolverá num relacionamento verdadeiro que envolverá mais que um ímpeto de emoções. Lembre-se de que alguns relacionamentos que começam como paixão, desenvolvem-se em amor verdadeiro com o passar do tempo, enquanto são postos à prova.

"O verdadeiro amor é um princípio elevado e santo, inteiramente diferente em seu caráter daquele amor que se desperta por um impulso e que subitamente morre quando severamente provado" (Patriarcas e Profetas, p. 176).

O amor verdadeiro difere da paixão na medida em que provê tempo e espaço para reconhecer as boas qualidades bem como as falhas do amigo(a) especial. Comprometer-se com, ter relações sexuais com, viver com, ou casar-se com alguém baseado nesses sentimentos precoces, é pura tolice e irá resultar em consequências previsíveis e negativas.

Como diz a psicopedagoga Ana Macarini:

"O amor é a paixão que aprendeu a conversar com os olhos. O amor é a paixão que nos torna mais sensível para todo o resto. O amor nos ensina que é possível rir, chorar e rir de novo, tudo num mesmo encontro. O amor nos faz melhores, mais disponíveis para o afeto universal. E… se estar apaixonado é bom, amar é o nirvana. Se a paixão é deliciosa, amar é uma experiência gastronômica na Tailândia. Se a paixão é explosiva, o amor é ser invadido por um exército de anjos de luz. Se a paixão é transformadora, o amor é a revelação da nossa versão mais essencial e intensa. O amor não exaure. O amor restaura. E… 'por ser amor, invade e fim!'."

quinta-feira, 10 de junho de 2021

DIGNIDADE HUMANA

"Promovendo a liberdade religiosa, a vida familiar, a educação, a saúde e a ajuda mútua, e atendendo às necessidades humanas, os adventistas do sétimo dia afirmam a dignidade da pessoa humana criada à imagem de Deus".1 - Trecho extraído da declaração feita pela Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, no dia 17 de novembro de 1998, por ocasião do 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Por que, como igreja, cremos na dignidade de todo ser humano e a proclamamos ao mundo? Por que o direito de cada homem e mulher à igualdade, saúde, liberdade, oportunidades pessoais e vocacionais, expressão e culto, independentemente de raça, religião, nacionalidade, idioma, cor ou tribo, é tão fundamental à visão e missão da igreja? A resposta é simples. Nossa missão em prol da dignidade humana não deriva de política, educação, sociologia ou psicologia. Ele está enraizado no compromisso de fé que temos com nosso Deus Criador.
Assim sendo, quando falamos em dignidade humana, temos de começar com o relacionamento Deus-homem e isso envolve profundas implicações teológicas e relacionais. Tal consideração leva em conta a realidade da Criação, a cruz, o Espírito Santo, a lei moral e o discipulado.

Criação e dignidade humana

O conceito adventista de dignidade humana teve sua origem na própria mente de Deus, quando Ele, em Sua infinita sabedoria, tornou a humanidade a coroa de Seu processo criativo. Quando o Criador disse: "Façamos o homem à Nossa imagem" (Gênesis 1:26),2 estava compartilhando com os seres humanos algo de Sua singularidade. O ser humano não é mera criatura. Seu lugar na criação é absolutamente singular. Foi-lhe atribuído o domínio "sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra". Foi-lhe concedida a faculdade de pensar, escolher, ser criativo e desfrutar parceria com Deus por meio de comunhão e mordomia.
Todas as demais criaturas são também "seres viventes", mas os seres humanos devem refletir a imagem de Deus e ser cumpridores da Sua vontade. Adão recebeu uma missão: gerenciar o planeta Terra. A diferença entre o conceito bíblico e as antigas tradições ou a teoria da evolução é imensa. Não somos o produto acidental de um longo e sinuoso processo evolucionário, nem a ação arbitrária de uma divindade lunática. Somos fruto do amor de Deus e parte de Seu desígnio universal. Somos chamados a ser os principais protagonistas de um extraordinário destino. Portanto, quando lidamos com seres humanos, estamos lidando com o seu Criador. É esse parentesco divino que fundamenta o conceito adventista de dignidade humana.

A cruz e a dignidade humana

O segundo fator que reforça a âncora teológica da dignidade humana, como defendido pelos adventistas, é que Deus não abandonou a raça humana à morte e destruição, mesmo após ter ela se rebelado contra a Sua vontade. Quando Adão e Eva pecaram no Jardim do Éden, revoltaram-se contra a manifesta vontade divina e se tornaram merecedores de morte. Mas Deus preferiu enfrentar o pecado de uma forma diferente. Rebeldes como fossem, Adão, Eva e seus descendentes eram ainda Sua criação, e Deus preferiu enfrentar a rebelião com redenção, a morte com vida, o ódio com amor. "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (João 3:16). Embora sejamos pecadores e a despeito de quão longe tenhamos ido, ainda somos a preciosa propriedade de Deus. Ele nos dotou de certa dignidade. Não obstante seja firme propósito de Satanás destruir essa dignidade mediante o pecado e seus vários meios enganosos, Deus, mediante Seu Filho Jesus, revelou quão valiosos somos à Sua vista. Tanto assim que Jesus morreu na cruz por nossos pecados. Por isso, a cruz se torna a afirmação perdurável de que todo ser humano é uma pessoa de imenso valor e dignidade. De fato, Jesus de tal modo Se identificou com a humanidade, que aquilo que fazemos a uma pessoa equivale a tê-lo feito ao próprio Cristo. "Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes" (Mateus 25:40). Portanto, toda vez que alguém sofre abuso, tortura ou humilhação, Cristo é atingido. A criatura de Deus, motivo da redenção provida por Cristo, nunca deve ser tratada como um objeto comum a ser manipulado, mas como uma joia insubstituível.

A dignidade humana e o templo do Espírito Santo

Se os atos criativos e redentores de Deus propiciam o fundamento para o nosso conceito de dignidade humana, essa concepção é ainda elevada a maiores alturas pela proclamação bíblica de que somos o templo do Espírito Santo. "Não sabeis que sois santuário de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá; porque o santuário de Deus, que sois vós, é sagrado" (I Coríntios 3:16 e 17). E novamente: "Acaso não sabeis que o vosso corpo é santuário do Espírito Santo que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por preço" (6:19 e 20).
Declarar que somos o templo de Deus e que nosso corpo é o lugar de habitação do Espírito Santo, é atribuir a mais elevada dignidade possível ao ser humano. Mesmo um descrente não ousaria pensar em cometer sacrilégio contra um local de adoração. Como, pois, podemos insultar nossos semelhantes, seres criados à imagem de Deus e templos em potencial do Espírito Santo? Ninguém é demasiado insignificante, pobre e indigno para ser tratado com desrespeito. E isso não é tudo. Nossa doutrina de dignidade humana chega ao ponto de requerer que tratemos nossa mente e nosso corpo com o maior cuidado, e que não permitamos estejam eles sujeitos a abuso ou maus-tratos de qualquer espécie. Assim, o apelo adventista em prol da dignidade humana procede da nossa atitude com relação a nós mesmos, para envolver toda a humanidade em escala global.

A dignidade humana e os mandamentos de Deus

Os Dez Mandamentos podem ser chamados de a primeira declaração de direitos humanos. A violação de um deles afeta diretamente a qualidade de vida, paz e dignidade humanas. Jesus sumariou os Dez Mandamentos em poucas palavras: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento... Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Mateus 22:37). Os primeiros quatro mandamentos tratam da nossa aliança com Deus, que é a origem de nossos direitos. Os últimos seis definem nosso relacionamento uns com os outros como seres humanos. Conquanto Deus permaneça como o supremo ponto de referência e definidor de nossa atitude para com outros, é nas especificações da segunda parte da lei moral que temos as relações humanas codificadas. Você acha que alguém, tendo sua bússola moral calibrada pelos Dez Mandamentos, possa mentir, matar ou manifestar desprezo e desrespeito para com seu próximo? Esse relacionamento conceitual entre a lei moral e a dignidade humana foi ampliado ainda mais por Jesus no Sermão da Montanha. Um exemplo basta: Jesus definiu o assassinato não simplesmente como o ato de tirar a vida de alguém, mas até ofato de desprezar e chamar um semelhante de louco (ver Mateus 5:21 e 22). Daí a ênfase adventista sobre a lei moral e a incorporação do amor puro e ilimitado para o qual ela aponta, constituir-se o firme e inabalável fundamento de nossa defesa da dignidade e dos direitos humanos.

Dignidade humana: Implicações no discipulado

Para os adventistas do sétimo dia, a dignidade humana não deve aparecer como algo distante e inatingível. Isolar as crenças da prática tem sido uma contínua tentação em nossa vida religiosa, e isso não se mostra mais real do que na arena das relações humanas. Quando Deus nos ordena amá-Lo com todo o nosso ser e aos nossos semelhantes como a nós mesmos, está apelando a um retorno à meta da vida como planejada originalmente por Ele. O centro da vida é o relacionamento bom e apropriado, tanto com Deus quanto com os seres humanos. O profeta Isaías declara quão inseparáveis são: "Porventura não é também este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante?" (Isaías 58:6 e 7.)
A religião, portanto, é mais do que uma rotina formal. É mais do que belas frases, comoventes orações, hinos inspiradores ou reuniões movimentadas num templo elegante e confortável. Não se trata de um catálogo de doutrinas, a despeito de quão importantes elas sejam. É vida real! Como declara Tiago: "A religião pura e sem mácula para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo" (Tiago 1:27). Em outras palavras, não pode haver verdadeira experiência religiosa sem respeito pela dignidade humana.
Isso explica por que os adventistas, desde o início de sua história, têm-se comprometido em defender o valor de todo ser humano. Desde o princípio foi adotada uma firme posição contra toda forma de injustiça social. Ellen White escreveu: "A escravidão, o sistema de castas, os preconceitos raciais, a opressão dos pobres, a negligência dos desventurados -- isso tudo é estabelecido como anticristão e uma séria ameaça ao bem-estar da humanidade, e como males apontados por Cristo que a Sua igreja tem o dever de vencer".3
E também: "O Senhor requer que reconheçamos os direitos de todos os homens. Os direitos sociais dos homens, e seus direitos como cristãos, devem ser tomados em consideração. Todos têm de ser tratados fina e delicadamente, como filhos e filhas de Deus".4
Como resultado, nossa igreja desenvolveu um ministério de restauração e respeito pela dignidade humana. Mediante um sistema global de igrejas, escolas, hospitais, serviços comunitários e a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (ADRA), os adventistas difundem a mensagem de preocupação e cuidado para com toda a humanidade em 203 dentre 208 países reconhecidos pelas Nações Unidas. Entre as igrejas cristãs, assumimos um papel de liderança na promoção da liberdade religiosa para todos. Através da pena e da voz, de missão e ministério, não somente suscitamos mais tentamos oferecer uma resposta significativa a perguntas como: De que forma estamos defendendo e promovendo os direitos humanos? Que deve ser feito quanto às várias formas de discriminação em diferentes países? Como nos relacionamos com políticas que tratam de guerra e terror? Que dizer de sistemas e estruturas políticas que podem afetar a vida das pessoas, gerar fome, refugiados e campos de concentração? Como devemos reagir à tragédia humana da AIDS? Que dizer da exploração do trabalho infantil, da escravidão e da condição da mulher?
Não pretendemos ter todas as respostas ou soluções eficazes para todos os problemas. Mas levantar tais indagações e agir em cooperação com outras agências na promoção dos valores humanos são, por si só, tarefas necessárias. Não podemos de forma alguma dar-nos ao luxo de permanecer em silencio no que se refere à violação do ser humano.

Margem alguma para o silêncio

Em 1988, Zdravko Plantak publicou um livro corajoso sobre nossa igreja e os direitos humanos. O título por si só é eloquente: The Silent Church [A Igreja Silenciosa]. Ele escreveu: "Os adventistas precisam começar a envolver-se (no mundo) porque o seu Deus Se interessa nisso e deseja que eles cuidem uns dos outros. Identificar-se com Jesus significa identificar-se com pobres, oprimidos e aqueles a quem têm sido negados os direitos e liberdades básicos. Não é suficiente cuidar da pessoa e deixar de preocupar-se com as leis que afetam a vida dela na sociedade".5
Os pioneiros adventistas entendiam isso perfeitamente. Ellen White pode não ter promovido uma melhoria das condições dos escravos, mas condenou a escravidão em termos bem vigorosos: "A instituição da escravatura... permite [o homem] exercer sobre seu semelhante um poder que Deus nunca lhe conferiu, e que pertence somente ao Senhor".6Ela prosseguiu condenando a política escravagista como "um insulto a Jeová".7
Tiago White escreveu que o cristão "tem realmente tanto interesse neste velho mundo quanto qualquer outro homem. Aqui ele deve permanecer e fazer sua parte até que o Príncipe da Paz venha para reinar".8
Essa visão dos pioneiros, de que o cristão deve ir além da metodologia tradicional de assistência social, até os problemas da dignidade e valor humanos, refletiu-se na resolução da Associação Geral de 1865: "Resolvido que, a nosso ver, o ato de votar quando exercido em benefício da justiça, humanidade e direito, é em si mesmo correto e pode às vezes ser altamente apropriado; mas a admissão de tais crimes como intemperança, insurreição e escravidão, consideramos como altamente condenáveis à vista do Céu".9
Essa resolução apelava à promoção e defesa da dignidade humana mediante "o ato de votar" para mudar a lei. Contudo, os pioneiros estabeleceram um limite: "Mas devemos reprovar qualquer participação no espírito de disputa partidária".10

A dignidade humana: Um valor central

Assim, para os adventistas, a dignidade humana é um valor essencial. Não devemos apoiar de modo algum uma política ou atitude que negue a dignidade de qualquer segmento da humanidade. Como igreja, devemos ser prudentes e sábios ao falarmos oficialmente, mas ser uma igreja silenciosa sobre questões vitais é envergonhar-se de Jesus, nosso Salvador e de Deus, nosso Criador. Como membros da igreja, não devemos tomar parte em nenhum empreendimento que transforme alguém feito à imagem de Deus em uma coisa ou objeto. A questão não tem a ver somente com coerência, mas também com testemunho. Nunca devemos nos esquecer de que somos embaixadores do reino de Deus na Terra, e arautos de uma nova criação que restaura e estabelece para sempre a dignidade humana. Só então, "romperá a tua luz como a alva, a tua cura brotará sem detença, a tua justiça irá adiante de ti, e a glória do Senhor será a tua retaguarda" (Isaías 58:8).
John Graz (via Diálogo Universitário)

Notas e referências:

  1. Declarações de Igreja, 1a. ed. (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), p. 59.
  2. Todas as referências bíblicas deste artigo foram extraídas da Versão Almeida revista e atualizada no Brasil.
  3. Ellen G. White, Life Sketches of Ellen G. White (Mountain View, Calif.: Pacific Press Publ. Assn., 1943), p. 473.
  4. __________, Obreiros Evangélicos (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1993), p. 123.
  5. Zdravko Plantak, The Silent Church (Nova York: St. Martin's Press, Inc., 1998), p. 48.
  6. Ellen White, Testemunhos Para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), vol. 1, p. 358.
  7. Ver Douglas Morgan, Adventists and the American Republic (Knoxville: The University of Tennessee Press, 2001), p. 31.
  8. Tiago White, citado por Morgan, p. 34.
  9. "Report on the Third Annual Session of the General Conference", p. 197; citado por Morgan, pp. 36 e 37.
  10. Ibidem.
"Toda religião falsa ensina seus adeptos a serem descuidados para com as necessidades, sofrimentos e direitos humanos. O evangelho dá alto valor à humanidade, como resgate do sangue de Cristo, e ensina uma terna solicitude pelas necessidades e misérias do homem" (Ellen G. White - O Desejado de Todas as Nações, p. 287).

quarta-feira, 9 de junho de 2021

EM DEFESA DA SAÚDE

Imagine ser levado perante um tribunal para responder a acusações, não por guardar o sábado, mas por viver e ensinar a mensagem adventista de saúde. O que você diria se um juiz, olhando nos seus olhos, perguntasse: “Por que os adventistas do sétimo dia priorizam tanto a promoção da saúde?” E, batendo o martelo, o juiz exigisse: “Defenda-se!” Se eu estivesse nessa situação, responderia o seguinte:

NOSSA FILOSOFIA
Meritíssimo, se me permite, o trabalho de cuidado com a saúde e de cura é o cerne da Igreja Adventista. Nossa declaração de missão diz, entre outras coisas, que “defendemos os princípios bíblicos do bem-estar do ser humano como um todo, priorizamos a vida saudável e a cura dos doentes e, por meio do nosso ministério com os pobres e oprimidos, cooperamos com o Criador em Seu trabalho compassivo de restauração”.

Além disso, meritíssimo, declaramos em nossas crenças fundamentais que, “sendo nosso corpo o templo do Espírito Santo, devemos cuidar dele de maneira inteligente. Junto com adequado exercício e repouso, devemos adotar a alimentação mais saudável possível e nos abster dos alimentos imundos identificados nas Escrituras. Visto que as bebidas alcoólicas, o fumo e o consumo irresponsável de medicamentos e narcóticos são prejudiciais ao nosso corpo, também devemos nos abster dessas coisas. Em vez disso, devemos nos empenhar em tudo que submeta nossos pensamentos e nosso corpo à disciplina de Cristo, o qual deseja nossa integridade, alegria e bem-estar” (Nisto Cremos, CPB, 2018, p. 351).

Por essa razão, senhor juiz, os adventistas não consomem fumo, álcool, drogas recreativas, nem narcóticos. Nossa denominação incentiva uma dieta vegetariana equilibrada, evitando alimentos impuros, conforme listados no Antigo Testamento. Desde o início, a promoção da saúde, integridade e bem-estar humanos fazem parte do DNA da organização.

Em 1863, por exemplo, Ellen White, cofundadora da denominação, ajudou a moldar nossa filosofia de saúde. Muito antes de a evidência médica surgir, ela já falava com veemência sobre os perigos do fumo e do álcool e alertava a respeito dos riscos de medicamentos venenosos, que tinham como base o arsênico e o mercúrio.

Ela também condenou fortemente o consumo de chá-preto, café e o uso de estimulantes, bem como a ingestão de alimentos cárneos. A pioneira adventista defendeu o cardápio vegetariano equilibrado como a melhor dieta. Além disso, incentivou o uso de água pura e limpa (por dentro e por fora), ar puro, exercícios físicos regulares, descanso, fé, exposição apropriada ao sol, integridade e apoio social. Até hoje esses princípios são a base da nossa educação e prática de saúde.

PROMOÇÃO DA TEMPERANÇA
Senhor juiz, no fim dos anos 1950 e início da década de 1960, a Igreja Adventista liderou, nos Estados Unidos, as iniciativas contra o tabagismo, desenvolvendo o famoso Plano de Como Deixar de Fumar em Cinco Dias. Esse programa foi posteriormente revisado duas vezes e agora é chamado de BreatheFree 2.0 (Respire Livre 2.0). Essa abordagem continua a ser usada pelos adventistas em várias partes do mundo.

De fato, nossa denominação tem uma longa história de promoção da temperança. Realiza constantemente esse trabalho com o apoio de organismos como a Associação Internacional de Saúde e Temperança e da Comissão Internacional para a Prevenção do Alcoolismo e da Toxicodependência, entidade fundada em 1953 e que tem atuação em mais de 120 países.

A VANTAGEM ADVENTISTA
Meritíssimo, se me permite, gostaria de acrescentar que outros já reconheceram as vantagens para a saúde que resultam do estilo de vida promovido pelos adventistas. Por exemplo, a revista Time (28 de outubro de 1966) relatou o resultado positivo do primeiro Estudo de Saúde Adventista, descrevendo os resultados como a “vantagem adventista”. Nessa pesquisa observou-se que os adventistas apresentaram redução significativa no índice de câncer e cirrose hepática.

Estudos posteriores têm mostrado um aumento expressivo na longevidade entre os que vivem o estilo de vida adventista. Os resultados das meta-análises têm sido tão convincentes que o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos alocou 19 milhões de dólares para realizar o Estudo Adventista de Saúde II, com ênfase especial nas diferenças de doenças malignas entre os adventistas e a população em geral.

Nossos princípios de saúde receberam maior visibilidade internacional após uma reportagem da revista National Geographic de novembro de 2005 classificar a comunidade adventista de Loma Linda, no sul da Califórnia (EUA), como uma das populações mais longevas e saudáveis do planeta. A matéria, que procurou investigar os segredos para se viver mais tempo, acabou resultando depois no livro Zonas Azuis: A Solução para Comer e Viver como os Povos Mais Saudáveis do Planeta (nVersos, 2018). Na obra, o jornalista Dan Buettner mostrou lugares em que as pessoas vivem saudavelmente aos 80, 90 e até 100 anos de idade.

Em 20 de fevereiro de 2009, foi a vez do portal de notícias U.S. News and World Report publicar uma matéria sobre os onze hábitos que podem levar as pessoas a viver até um século. O oitavo hábito apresentado na reportagem era: “Viva como os adventistas do sétimo dia. Os americanos que se definem como adventistas do sétimo dia têm uma expectativa média de vida de 89 anos, cerca de uma década acima da média dos americanos. [...] Os fiéis normalmente seguem uma dieta vegetariana com base em frutas, vegetais, feijões, nozes e praticam exercícios físicos diariamente.”

MINISTÉRIO DE CURA
Contudo, por melhor que tudo isso pareça, meritíssimo, mais importante do que viver alguns anos a mais é a decisão de realizar o trabalho Daquele que nos enviou (Jo 9:4). Nós, adventistas, acreditamos que Deus nos muniu de orientações importantes de como ser saudáveis, felizes e santos.

E essa mensagem nos foi confiada para ser canalizada em benefício do próximo, a fim de aliviar o sofrimento do mundo. É por isso que nossa denominação mantém sete cursos de Medicina, mais de 70 de Enfermagem, além de 783 hospitais, clínicas e ambulatórios em todo o mundo. Mais de 250 mil funcionários trabalham nos sistemas de saúde adventistas, que operam sem fins lucrativos.

Nessas unidades de saúde são atendidos anualmente mais de 22 milhões de pacientes ambulatoriais e 1,5 milhão de internos. Somente nos Estados Unidos, a rede hospitalar adventista oferece por ano mais de 1,1 bilhão de dólares em serviços médicos gratuitos.

Portanto, estou diante do senhor, acusado de ensinar, promover e me entusiasmar com a mensagem de saúde adventista, que tem como base a Bíblia, os escritos de Ellen White e pesquisas científicas sólidas. Logo, meritíssimo, declaro-me culpado!

Peter N. Landless (via Revista Adventista)

terça-feira, 8 de junho de 2021

ESCATALOGIA DO MEDO

Nos últimos anos, tem surgido no meio religioso algo que chamo de “escatologia do medo”. Trata-se de uma corrente de pensamento que associa profecias bíblicas e textos inspirados a notícias da atualidade, numa abordagem alarmista e sensacionalista. Infelizmente, essa ideologia tem se inserido em muitas igrejas por meio de palestras sobre música, seminários de saúde, sermões proféticos, entre outros. Seu objetivo é criar um quadro profético da eminência do fim. Porém, não passa de teoria conspiratória, por meio da qual se dá maior ênfase nos planos malignos do que nos planos de Deus.

Esse tipo de abordagem tem disseminado medos infundados no meio do povo de Deus. Segundo o teólogo Amin Rodor, tais interpretações, dependentes de jornais e mapas proféticos de invenções próprias, buscam inutilmente obter credibilidade (Encontro com Deus, Meditação Matinal, p. 313).

O fato é que as mensagens proféticas não podem ser fundamentadas no medo. Segundo o apóstolo João, “aquele que tem medo não está aperfeiçoado no amor” (1Jo 4:17,18). Percebe-se que, ao longo da história, o medo gerou um efeito destrutivo na espiritualidade das pessoas.

Os cumprimentos proféticos são independentes de acontecimentos sociais específicos. Para a profecia, não é relevante o último discurso de um líder religioso ou de um presidente de uma grande nação. Eles são apenas personagens dentro de um quadro mais amplo, o qual está sob o controle de Deus e não, como alguns afirmam, de alguma suposta sociedade secreta.

Essa abordagem sensacionalista dos acontecimentos representa um mero esforço humano para dar credibilidade à profecia, algo que não lhe compete. Como já foi demonstrado inúmeras vezes, profecias fundamentadas em factoides não se sustentam.

Segundo Natanael Moraes, professor de Teologia do Unasp, essa prática é consequência da impaciência humana (Parousia, 2010, p. 25). Ellen G. White também afirma: “É verdade que o tempo tem prosseguido mais do que esperávamos nos primeiros tempos desta mensagem. Nosso Salvador não apareceu tão depressa como esperávamos. Falhou, porém, a Palavra do Senhor? Nunca! Devemos lembrar que as promessas e ameaças de Deus são igualmente condicionais” (Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 67).

A profecia é dada justamente para que saibamos que Deus está no controle da história. Seu objetivo não é que mergulhemos numa profunda pesquisa em busca de quando as profecias irão acontecer. Em Mateus 24:15, em sua mensagem profética, Cristo não manda que seus discípulos descubram quando iriam acontecer os sinais. A ênfase dada é que eles deveriam estar prontos quando tudo acontecesse.

O foco da profecia está no preparo antecipado e não propriamente no acontecimento. Porém, existem inúmeros cristãos que estão focados nos acontecimentos e não no preparo. Quando estes “despertarem”, para então buscarem o preparo, pode ser tarde demais! (Mt 25:1-13).

Segundo Ellen White, Deus pede reavivamento e reforma embasados nas Escrituras (Profetas e Reis, p. 320). A escritora acrescenta: “Tenho sido instruída de que não é de doutrinas novas e fantasiosas que o povo precisa. Não necessitam de conjeturas humanas. Precisam do testemunho de homens que conhecem e praticam a verdade” (Testemunhos Seletos, v. 3, p. 272).

Isso me leva a questionar se é saudável essa abordagem escatológica que especula sobre os detalhes dos acontecimentos finais? Tem ela preparado o povo de Deus para estar desperto no retorno de Cristo?

O que deve estar ocupando nossa mente, conforme orientou Ellen White, é a capacidade de nos submetermos a Jesus Cristo diariamente. “Todo o que pretende ser um servo de Deus é convidado a realizar Seu serviço como se cada dia fosse o último” (Maranata: O Senhor Vem!, p. 106).

Pr. Danielson Roaly (via Revista Adventista)

Nota do blog: Confira mais alguns textos de Ellen G. White nos advertindo sobre o cuidado que devemos ter com as mensagens alarmistas e o sensacionalistas:

"O Senhor vos chama a fazer decidida melhora em vossa maneira de apresentar a verdade. Não precisai ser sensacionalistas" (Evangelismo, p. 184).

"Há uma classe de pessoas sempre dispostas a escapar por alguma tangente, que desejam apreender qualquer coisa estranha, maravilhosa e nova; mas Deus quer que todos procedam calma e ponderadamente … Devemos guardar-nos de criar extremos, de animar os que tendem a estar ou no fogo, ou na água" (Testemunhos para Ministros e Obreiros Evangélicos, pp. 227, 228).

"Enquanto trabalham com fervor a fim de interessar seus ouvintes e manter o interesse, ao mesmo tempo devem ser cuidados contra tudo que se aproxime do sensacionalismo. Nessa época de extravagância e exibicionismo, quando se pensa que é necessário fazer cena para ganhar sucesso, os mensageiros escolhidos de Deus devem desmascarar a falácia de gastar meios pelo mero fim de causar impacto" (The Review and Herald, 21/02/1907).

"O que queremos criar não é a excitação, mas uma reflexão profunda e fervorosa, a fim de que as pessoas que escutam, façam uma obra sólida, verdadeira, correta, genuína, que seja tão duradoura quanto a eternidade. Não temos ânsia de excitação, de sensacionalismo; quanto menos disso tivermos, tanto melhor. O raciocínio tranquilo e fervoroso com base nas Escrituras, é precioso e frutífero" (Evangelismo, p. 170).

"Deus convida Seu povo, que tem a luz diante de si na Palavra e nos Testemunhos, a ler e considerar, e dar ouvidos. Instruções claras e definidas têm sido dadas a fim de todos entenderem. Mas a comichão do desejo de dar origem a algo de novo dá em resultado doutrinas estranhas, e destrói largamente a influência dos que seriam uma força para o bem, caso mantivessem firme o princípio de sua confiança na verdade que o Senhor lhes dera" (Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 38).

"É necessário que os terrores do dia de Deus sejam mantidos diante de nós, a fim de sermos compelidos à ação correta pelo medo? Não devia ser assim. Jesus é atraente. […] Deseja ser nosso Amigo, andar conosco por todos os acidentados caminhos da vida. […] Jesus, a Majestade do Céu, deseja elevar ao companheirismo com Sua pessoa os que se dirigem a Ele com seus fardos, fraquezas e preocupações" (The Review and Herald, 02/08/1881).