quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
TEMPOS DIFÍCEIS VÊM POR AÍ
Entre tantas evidências dos últimos dias da Terra estão também fenômenos sociais e humanos. Jesus pede que estejamos atento aos tempos, assim como alguém se atenta para o dia da colheita de uma figueira (Mateus 24). É costume dos cristãos que aguardam a volta de Jesus tentar se atentar a sinais mais literais e físicos, como o escurecimento do sol, queda das estrelas, etc. No entanto, existem outros fatores tão evidentes quanto, mas que por sua natureza subjetiva são menos observados. Mas talvez sejam os mais evidentes.
Paulo nos adverte sobre alguns personagens que aparecerão nos últimos tempos. É uma lista terrível. Semelhantes têm aparecido em outros momentos, mas somos guiados por sua advertência a apreender que eles aparecerão em maior número nos últimos dias do que em qualquer época anterior: “Não seja ingênuo. Tempos difíceis vêm por aí. À medida que o fim se aproxima, os homens vão se tornando egoístas, avarentos, orgulhosos, vaidosos, xingadores, ingratos, desobedientes aos seus pais e não terão respeito pela religião. Não terão amor pelos outros e serão duros, caluniadores, incapazes de se controlarem, violentos e inimigos do bem. Serão traidores, atrevidos e cheios de orgulho. Amarão mais os prazeres do que a Deus; parecerão ser seguidores da nossa religião, mas com as suas ações negarão o verdadeiro poder dela. Fique longe dessa gente!” (2 Timóteo 3:1-5).
EGOÍSTAS
A antítese do genuíno espírito cristão de abnegação (1Co 13:5) e mansidão (Mt 5:5). Vivemos num mundo maligno. As intenções que movem as pessoas são de fato egoístas. Na cosmovisão bíblica, o mundo está imerso numa constante decadência moral, resultado do pecado que impera na vida das pessoas. Nesse sentido, a natureza humana é egoísta e má, pondo em evidência só o que é favorável a si própria. Na Bíblia encontramos frases como “Negue-se a si mesmo” (Lucas 9:23); “Ninguém se glorie” (Efésios 2:9); “Ninguém busque o seu próprio interesse” (1 Coríntios 10:24); “Não vivam mais para si mesmos” (2 Coríntios 5:15); “E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:27) e muitos outros que fazemos questão de não decorar porque denunciam a mais importante e difícil transformação a ser feita: a morte do eu. O egoísmo segue como a marca dos atuais tempos da humanidade. Diz Ellen G. White: "Os perigos dos últimos dias estão a alcançar-nos. Os que vivem para agradar-se e satisfazer-se a si mesmos estão desonrando ao Senhor. Ele não pode operar por intermédio deles, pois O representariam mal perante os que são ignorantes da verdade". E completa: "O egoísmo é a essência da depravação, e, devido a se terem os seres humanos submetido ao seu poder, o que se vê no mundo é o oposto à fidelidade a Deus. Nações, famílias, e indivíduos estão cheios do desejo de fazer do eu um centro" (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 1, p. 273).
AVARENTOS
Do grego philarguroi, “amantes do dinheiro” (ver com. de Lc 16:4; cf. com. de 1Tm 6:10). O apego aos bens materiais é a raiz dos grande problemas do mundo. Ele está na base de grande parte das filosofias políticas e econômicas, sendo, assim, responsável pela maioria dos conflitos nacionais e de classes. Em Lucas 12:15-21, Jesus apresentou os aspectos negativos da vida de um homem “avarento” e sordidamente apegado ao dinheiro, obcecado por adquirir e acumular, alguém que não é generoso. Ellen G. White adverte: "Não deves ser avarento, mas honesto contigo mesmo e com teus irmãos. A avareza é um abuso das beneficências de Deus. Seja qual for a vossa vocação ou posição, se acariciardes o egoísmo e a cobiça, sobre vós recairá o desagrado do Senhor" (Conselhos sobre Mordomia, p. 145).
ORGULHOSOS
Orgulho é sinônimo de arrogância, altivez, soberba, prepotência. São os que consideram os outros com desprezo ou desrespeito. O orgulho é uma doença espiritual maligna e silenciosa. O orgulho sufoca, destrói, mata, derruba. É um pecado mencionado com bastante frequência nas Escrituras e todas as suas menções indicam que Deus o odeia. Ellen G. White adverte: "Deus aborrece o orgulho, e… todos os orgulhosos, e todos os que procedem impiamente, serão como palha, e o dia que está para vir os consumirá. [...] A soberba é um terrível aleijão no caráter. 'A soberba precede a ruína'. Isto é verdade na família, na igreja e na nação. Sempre que a ambição e o orgulho são tolerados, a vida é maculada; pois o orgulho, não sentindo necessidade, cerra o coração para as bênçãos infinitas do Céu" (Mensagens aos Jovens, p. 128 / Profetas e Reis, p. 60).
VAIDOSOS
Em sentido bíblico original, a “vaidade” não se referia primariamente à obsessão pela aparência, mas à falta final de significado dos esforços humanos. Depois de Salomão mencionar seus grandes feitos e sua busca hedonista pelo prazer, concluiu: “E eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (Ec 2:11). Sabemos também que todos os troféus e conquistas humanos, todos os deuses pessoais e sociais não passam de vaidade. O texto bíblico nos diz: “Nossos pais herdaram só mentiras e vaidade, em que não havia proveito. Porventura fará um homem deuses para si, que contudo não são deuses?” (Jr 16:19, 20, ACF). Ellen G. White alerta: "A vaidade e a presunção estão matando a vida espiritual. O eu é exaltado; fala-se sobre o eu. Oh! se morresse esse eu! 'Cada dia morro' (1Co 15:31), disse o apóstolo Paulo. Quando esta orgulhosa, jactanciosa presunção, e esta complacente justiça própria permeiam a alma, não há lugar para Jesus. É-Lhe dado um lugar inferior, ao passo que o eu incha em importância, e enche todo o templo da alma. Eis a razão por que o Senhor pode fazer tão pouco por nós" (Testemunhos Seletos, vol. 2, p. 210).
XINGADORES
Ou blasfemadores, ou caluniadores, ou abusadores, são os que falam mal na tentativa de prejudicar a reputação de outros, seja de Deus ou de outras pessoas. Um dos sinais bíblicos que apontam para o tempo do fim é a proliferação de escarnecedores, aqueles que debocham da fé e do próprio Deus como escreveu Pedro em sua segunda carta, capítulo 3 verso 3: "Nos últimos dias, virão escarnecedores com seus escárnios, andando segundo suas próprias paixões". Infelizmente, este tipo de atitude desrespeitosa só tem aumentado. Quem blasfema mostra desprezo por Deus. Blasfêmia é rejeitar Deus de forma consciente. Não há salvação para o blasfemo que rejeita Deus completamente e se recusa a reconhecer Sua ação. Ellen G. White alerta: "Quando houver sido feita a última decisão, quando todos houverem tomado partido, ou em favor Cristo e dos mandamentos, ou em favor do grande apóstata, Deus levantar-Se-á em Seu poder, e para sempre será tapada a boca aos que blasfemaram contra Ele. Todo poder oponente receberá a sua punição" (Carta 28, 1900).
INGRATOS
A ingratidão é manifestada apesar dos benefícios recebidos de Deus. Os que são “amantes de si mesmo” raramente são gratos. A invenções modernas têm contribuído para a autossuficiência humana que, com frequência, faz com que as pessoas não sintam necessidade das bênçãos de Deus. Ellen G. White afirma: “Como Deus considera nossa ingratidão e falta de apreciação por Suas bênçãos? Quando vemos alguém desprezar ou usar mal nossas dádivas, nosso coração e nossas mãos se fecham contra essa pessoa. Mas os que recebem as dádivas misericordiosas de Deus, dia após dia e ano após ano empregam mal Suas bênçãos e negligenciam as pessoas por quem Cristo deu Sua vida. Os meios que Ele emprestou para sustentar Sua causa e construir Seu reino são investidos em casas e terras, desperdiçados com o orgulho e satisfação própria, e o Doador é esquecido” (Advent Review and Sabbath Herald, 7 dezembro de 1886).
DESOBEDIENTE AOS PAIS
Em toda a Escritura, a desobediência aos pais é tratada como um dos piores males (Rm 1:30; 2Tm 3:2). Ellen G. White adverte: "Nestes últimos dias, os filhos se fazem notar tanto por sua desobediência e desrespeito, que Deus os tem observado especialmente, e isto constitui um sinal da proximidade do fim. É um indício de que Satanás tem completo domínio sobre a mente dos jovens. Por parte de muitos, já não há respeito para com a idade" (Testemunhos Seletos, vol. 1, p. 76). A palavra “obediência” não soa agradável aos ouvidos modernos, mas os que se ressentem dela como uma “imposição” devem assumir sua parcela de culpa pelo alarmante aumento da delinquência juvenil nos últimos tempos.
VIOLENTOS
Estamos vivendo em um mundo sem sentido do qual o Espírito Santo vai Se retirando paulatinamente. Vejamos o que diz Ellen G. White: "Foi-me mostrado que o Espírito do Senhor está-Se retirando da Terra. O poder mantenedor de Deus logo será recusado a todos os que continuam desrespeitando os Seus mandamentos. Os relatos de transações fraudulentas, homicídios e crimes de toda a espécie chegam até nós diariamente. [...] Roubos ousados são ocorrência frequente. Homens possuídos de demônios tiram a vida a homens, mulheres e crianças. Os homens têm-se enchido de vícios, e campeia por toda parte toda espécie de mal. Os terríveis relatos que ouvimos de atos de violência declaram que o fim de todas as coisas está próximo. Agora, agora mesmo, precisamos estar nos preparando para a segunda vinda do Senhor” (Testemunhos Seletos, vol. 3, p. 280 / Carta 308, 1907).
MAIS AMIGOS DOS PRAZERES DO QUE DE DEUS
Aqueles que amam a si mesmos, naturalmente vão em busca dos prazeres, em vez de cumprir as exigências do sagrado modo de viver estipulado por Deus. Tais pessoas são controladas pelo amor ao prazer e não pelo amor a Deus. Essa descrição pode se aplicar tanto os que são membros da igreja como aos que não o são. Ellen White diz: "A mente natural tende para o prazer e a satisfação egoístas. É método de Satanás providenciar abundância dessas coisas. Busca encher o espírito dos homens com o desejo dos prazeres mundanos, a fim de não lhes sobrar tempo algum para perguntarem a si mesmos: Como vai minha alma? O amor do prazer é infeccioso. A ele entregue, a mente precipita-se de um a outro ponto, buscando sempre algum entretenimento. Nesta fase do mundo há uma busca de prazeres sem precedentes. Dissipação e absurda extravagância prevalecem por toda parte. As multidões estão famintas por divertimentos" (O Lar Adventista, p. 521).
PARECERÃO SER SEGUIDORES DA NOSSA RELIGIÃO
Em outras versões, "forma de piedade", ou seja, características exteriores de religião, como a frequência à igreja, ofertas e até mesmo um serviço personalizado para ela. Essa característica se aplica especificamente aos que se identificam superficialmente com o cristianismo. Ao longo dos anos, o comportamento dos membros nominais da igreja, isto é, os que professam lealdade ao modo de vida de Deus, mas não revelam evidência tangível de um desenvolvimento à semelhança de Cristo, tem sido o maior obstáculo para o progresso do evangelho do que outro fator (comparar com 2Co 2:14-16; 1Tm 4:16; 2Pe 3:12). Ellen White adverte: "Satanás quer que sejais cristãos nominais, pois assim podereis melhor servir aos seus desígnios. Se tendes uma forma de piedade e não a piedade verdadeira, ele vos pode usar para seduzir outros ao mesmo caminho, isto é, a se iludirem a si mesmos" (Testemunhos Seletos, vol. 1, p. 55).
CONCLUSÃO
A presença do mal não é uma característica única dos “últimos dias”. No entanto, a progressiva degradação moral da humanidade atesta a total incapacidade humana de se salvar. Com a crescente atividade do príncipe do mal (cf. Ap 7:1; 12:12), é de se esperar que o curso milenar do mal chegue a um clímax de intensidade nos “últimos dias”. Em contradição às afirmações amenas de uma miríade de religiosos equivocados que ensinam que o ser humano está ficando cada vez melhor e que, finalmente, o mudo inteiro será convertido, as Escrituras declaram que declaram que os homens malignos “irá de mal a pior” (2Tm 3:13). É nesse cenário que as palavras do apóstolo a respeito dos “últimos dias” assumem seu significado pleno e completo.
O mundo sempre foi o mesmo, porém, cada dia mais vemos as características que Paulo mencionou na humanidade. Nosso egoísmo se agrava com o tempo e nossa presunção também. Amamos mais o entretenimento que a Deus, os prazeres pessoais que o Criador. E o pior: neste tempo, temos a forma de piedade, a aparência de piedade, mas negamos o poder de Deus. Sinais do fim. De uma sociedade doente moralmente e espiritualmente. Não seja um deles, querido leitor. Creia em Deus para estar seguro. Creia nos profetas dEle para prosperar.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
A MEGADECIBELIZAÇÃO DO LOUVOR
Em algumas igrejas mais, em outras menos, nossos cultos estão se tornando cada vez mais barulhentos. Isso sem falar nos mega-eventos e congressos, onde toneladas de som sacodem os ouvintes. Os ruídos aumentaram na congregação: os adoradores conversam cada vez mais e os cantores exigem som cada vez mais amplificado. Não sei o que está acontecendo, mas gostaria de manifestar a minha preocupação sonora.
Nosso país é barulhento: motos sem escapamento, motores de ônibus desregulados, automóveis com caixas de som pesadíssimas e até a cachorrada da vizinhança. E as igrejas então, confundem decibéis com fé.
Joêzer Mendonça, professor, músico, pesquisador, doutor em Musicologia pela UNESP e autor do livro Música e Religião na Era do Pop diz: "Quando no livro de Amós (capítulo 5) se lê que Deus pede para que 'se afaste dEle o barulho dos instrumentos de louvor' deve-se entender que Ele não está dizendo que se pare de tocar qualquer instrumento musical que seja. O problema, na verdade, é o falso espírito de louvor de um povo que O louva com seus lábios, mas O desonra em seus corações, fazendo da música apenas um ruído desagradável. Vê-se um Deus menos preocupado com o estilo musical e mais atento ao estilo de vida do adorador. Porém, se alguém disser que os versos de Amós se referem ao atual volume das bandas de louvor estará exegeticamente errado, mas auditivamente correto. A intensidade exagerada das vozes e instrumentos se deve primordialmente à má direção musical - onde está o equilíbrio entre os instrumentos e as vozes dos cantores do grupo e da congregação? Submersa pelos decibéis empolgados da banda, a congregação acaba assistindo a um concerto. Essa megadecibelização do louvor contribui para uma inversão de papéis."
Quando vou ao templo, vou ao encontro do Criador e de meus irmãos. Sempre imagino um ambiente silencioso, aconchegante, que contribua para acalmar os achaques de minha alma. Em algumas ocasiões, entretanto, me senti obrigado a sair, ou no mínimo, a me afastar dos primeiros bancos, onde, na maioria das vezes, ficamos expostos a quilos de decibéis nada crentes.
Não é possível adorar a Deus num ambiente tumultuado, com vaivém constante de pessoas, gente falando todo o tempo, cantores embalados por bandas retumbantes e caixas de sons tonitruantes. Pode ser que eu esteja fora de moda, mas acho que precisamos nos lembrar do “aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus”. Como se acalmar num ambiente com tantas interferências?
Também não quero admitir que o templo, um lugar onde Deus Se encontra com as pessoas, seja insalubre para o nosso corpo. E não deveria ser. O livro de Ellen White, Conselhos Sobre Saúde, à página 28, diz que “a influência do Espírito de Deus é o melhor remédio para as doenças. O Céu é todo saúde”. Mas a Organização Mundial de Saúde afirma que, dependendo do tempo de exposição, o limite de decibéis que faz mal à saúde é 65. Um liquidificador produz 85 decibéis.
Ruído excessivo aumenta a adrenalina e a pressão arterial, estimula o estresse e a insônia. O excesso de ruído já levou cerca de 10 milhões de cidadãos americanos à perda da audição ou parte dela. Aqui no Brasil não temos estatísticas, mas o barulho e o ouvido deles não devem ser diferentes dos nossos. Gente surda e com zumbido no ouvido, eu conheço muita.
Em relação aos frequentadores dos cultos, os efeitos psicológicos do excesso de ruído são preocupantes. Os especialistas falam em perda de concentração (imprescindível num culto racional), irritação permanente, perda da inteligibilidade das palavras, dor de cabeça, fadiga, zumbido no ouvido e loucura. O excesso de ruído provoca interferências no metabolismo de todo o organismo, com risco de perda auditiva irreversível. A partir de 85 decibéis, não importa se o som é agradável ou não, se é produzido por música rock ou sacra, ele é, de qualquer modo, prejudicial ao corpo e em especial à audição. Devemos também nos lembrar dos vizinhos de nossas igrejas. Por que os imóveis próximos aos templos, em geral, têm baixa cotação no mercado imobiliário?
Um aspecto importante a destacar: aumentar o volume dos instrumentos musicais não vai aumentar o espírito de louvor da congregação. Como já sabemos, a igreja não vai tentar cantar mais forte que o som da banda (ou do playback), não importa quantas vezes o líder de louvor repita: “Cantem com todo entusiasmo!” Então, tudo o que teremos é música tocada em volume alto.
Nós, músicos e cantores, queremos que a igreja participe do louvor, que se envolva no canto. No entanto, pegamos cinco instrumentistas e dez cantores, por exemplo, todos com microfone, todos amplificados nas caixas de som, e depois reclamamos que a igreja continua sem cantar. Um problema pode estar no espírito de louvor que o indivíduo traz para o culto. Mas você já parou para pensar que uma boa razão para a igreja não cantar conosco pode estar no volume das vozes e da banda? Ellen White diz: “Pensam alguns que, quanto mais alto cantarem, tanto mais música fazem; barulho, porém, não é música. O bom canto é como a música dos pássaros – suave e melodioso” (Manuscrito 91, 1903).
A participação de um grupo de pessoas no louvor congregacional não é indesejável. O problema está no alto volume dos microfones, o que faz com que seja difícil escutar a voz da congregação. Às vezes, a pessoa não consegue escutar a própria voz. Isso inibe a participação da igreja que, em vez de participar, passa a assistir ao louvor. Ellen White adverte: “A música forma uma parte do culto de Deus nas cortes do alto. Devemos esforçar-nos em nossos cânticos de louvor, por aproximar-nos o mais possível da harmonia dos coros celeste. Tenho ficado muitas vezes penalizada ao ouvir vozes não educadas, elevadas ao máximo diapasão, guinchando positivamente as palavras sagradas de algum hino de louvor. Quão impróprias essas vozes agudas, estridentes, para o solene e jubiloso culto de Deus! Desejo tapar os ouvidos, ou fugir do lugar, e regozijo-me ao findar o penoso exercício. Os que fazem do canto uma parte do culto divino, devem escolher hinos com música apropriada para a ocasião, não notas de funeral, porém melodias alegres, e todavia solenes. A voz pode e deve ser modulada, suavizada e dominada” (Evangelismo, pp. 507 e 508)
Como podemos equalizar a participação de músicos, cantores e membros da congregação? Seguem algumas dicas:
1. Não intensifique demais o volume dos instrumentos. Cada instrumento musical possui sua identidade sonora e é preciso equilibrar as bases rítmica e harmônica de modo a não sufocar as vozes nem os instrumentos que dão o “chão” da tonalidade e da harmonia, como o violão e o piano. Ellen White diz que "uma balbúrdia de barulho choca os sentidos e perverte aquilo que, se devidamente dirigido, seria uma bênção” (Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 36).
2. Evite solos durante as frases cantadas pela congregação. Não importa se você está tocando piano, guitarra ou saxofone. Estude a música que você vai acompanhar e selecione alguns trechos para reforçar a melodia e outros em que você possa fazer um contracanto à melodia, como as partes entre as frases cantadas. Ellen White conta: “Tenho ouvido em algumas de nossas igrejas solos que eram de todo inadequados ao culto da casa do Senhor. As notas longamente puxadas e os sons peculiares não agradam aos anjos” (Evangelismo, p. 510).
3. Nossa equipe de louvor não está à frente da igreja para cantar mais alto que todos, nem para mostrar como se deve louvar, mas para apoiar, orientar e conduzir as vozes da congregação. No final da Carta 170, de 1902, Ellen White diz: “Nem sempre o canto deve ser feito apenas por alguns. Permita-se o quanto possível que toda a congregação dele participe”.
Somos chamados a cantar e tocar de todo o coração e de todo o entendimento, e não de todo volume. Vamos organizar, apoiar e orientar os momentos de louvor para que a igreja se sinta confortável e estimulada a participar também de todo coração e entendimento. Não nos esqueçamos de que o louvor é congregacional. Giovanni da Palestrina, compositor da Renascença, diz que "o culto na igreja não é um concerto no qual o público canta com os cantores principais. Musicistas – cada um deles, incluindo os cantores - acompanham o louvor da congregação. Eles deveriam estar misturados ao som o suficiente apenas para fazer a sua parte, conduzindo e apoiando a congregação."
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
IGREJA E ESCOLA DE SAMBA
Seria lícito tomar o desfile do Carnaval como analogia de nossa caminhada cristã? Certamente, a maioria dirá que não. Afinal de contas, o Carnaval é a festa pagã por excelência, onde, além de toda promiscuidade, entidades pagãs são homenageadas. Eu poderia gastar muitas linhas tecendo críticas justas a esta festa em que tantas famílias são desfeitas, e inúmeras vidas destruídas. Porém hoje, quero pegar a contramão.
Por que será que os cristãos sempre enfatizam os aspectos ruins de qualquer manifestação cultural? Se vivêssemos nos tempos primitivos da igreja cristã, como reagiríamos ao fato de Paulo tomar as Olimpíadas como analogia da trajetória cristã neste mundo? Ora, os jogos olímpicos celebravam os deuses do Olimpo. Portanto, era uma festa idólatra. Os atletas competiam nus. Sem contar as orgias e os sacrifícios que se seguiam às competições. Sinceramente, não saberia dizer qual seria pior, as Olimpíadas ou o Carnaval. Porém, Paulo soube enxergar alguma beleza por trás daquela manifestação cultural. A disposição dos atletas, além do seu preparo e empenho, foram destacados pelo apóstolo como virtudes a serem cultivadas pelos seguidores de Cristo.
E quanto ao Carnaval? Haveria nele alguma beleza, alguma virtude que pudesse ser destacada do meio de tanta licenciosidade? Podemos enxergar alguma ordem no meio do caos carnavalesco? O que a igreja poderia aprender com os desfiles das escolas de samba?
Concentração
O desfile começa com a concentração. É ali que é dado o grito de guerra da Escola, seguido pelo aquecimento dos tamborins. A concentração equivale à congregação. Nosso lugar de culto (comumente chamado de “templo” ou “igreja”) é onde nos concentramos e aquecemos nosso espírito. Porém, a obra acontece lá fora, “na avenida” do mundo.
Gosto quando Paulo fala que somos conduzidos por Cristo em Seu desfile triunfal. O apóstolo compara a marcha cristã pelo mundo às paradas triunfais promovidas pelo império romano. Era um espetáculo cruento, no qual os presos eram expostos publicamente, acorrentados e arrastados pelas ruas da cidade. Era assim que Roma exibia sua supremacia, e impunha seu poder. Paulo toma emprestada a figura deste majestoso e horroroso evento para afirmar que Cristo está nos exibindo ao Mundo como aqueles que foram conquistados por Seu amor. Muitos cristãos acreditam ingenuamente que a guerra se dá na concentração. Por isso, a igreja atual é tão ensimesmada, isto é, voltada para dentro de si. Ela passou a ver-se como um fim em si mesmo. A avenida nos espera!
"Devemos sentir agora a nossa responsabilidade de trabalhar com intenso ardor, a fim de comunicar a outros as verdades que Deus nos tem revelado para o tempo atual. Não podemos ser demasiado diligentes. A obra evangelística, de abrir as Escrituras aos outros, advertindo homens e mulheres daquilo que está para vir ao mundo, deve ocupar, mais e mais, o tempo dos servos de Deus" (Evangelismo, p. 172).
Comissão de Frente
Encabeçando o desfile vai a comissão de frente, seguida pelo carro abre-alas. Compete aos componentes dessa comissão a primeira impressão. A comissão de frente da igreja de Cristo é formada pelos que nos precederam, que abriram caminho para as novas gerações. Não podemos permitir que caiam no esquecimento. Também são os missionários, que deixam sua pátria para abrir caminho em outros rincões. Grande é sua responsabilidade, e alto é o preço que se dispõem a pagar para que o Evangelho de Cristo chegue às populações ainda não alcançadas. Paulo fazia parte da comissão de frente da igreja primitiva. Escrevendo aos Coríntios, ele diz que sua missão era “anunciar o evangelho nos lugares que estão além de vós, e não em campo de outrem” (2Co 10:16). Em bom português, o apóstolo dos gentios preferia pescar em alto mar, e não no aquário dos outros.
"Os que desejam avivar a memória e ser instruídos na verdade, precisam estudar a história da Igreja primitiva durante e imediatamente após o dia de Pentecostes. Estudai atentamente, no livro de Atos, as experiências de Paulo e dos outros apóstolos, pois o povo de Deus, em nosso tempo, terá de passar por experiências similares" (Eventos Finais, p. 148).
Fantasias, Carros alegóricos, Samba-enredo
Destaco também a criatividade dos foliões, principalmente dos carnavalescos na composição das fantasias, dos carros alegóricos e do samba-enredo. É notória sua busca pela perfeição. Diz-se que o desfile do ano seguinte começa a ser preparado quando termina o Carnaval. É, de fato, um trabalho árduo que demanda muito empenho.
Se houvesse por parte de muitos cristãos uma parcela da dedicação encontrada nos barracões de Escolas de Samba, faríamos um trabalho muito mais elaborado para Deus. Buscaríamos a excelência, em vez de nos contentar com tanta mediocridade. Tomemos por exemplo as composições musicais. Basta ouvir algumas estrofes para perceber o trabalho de pesquisa que envolve a composição de um samba-enredo. Sem contar as rimas ricas, as melodias marcantes, e a ousadia criativa das baterias. Enquanto isso, composições que visam louvar a Deus estão cada vez mais pobres, tanto do ponto de vista melódico, quanto do ponto de vista lírico.
"O Senhor não está satisfeito com a atual falta de ordem e exatidão entre os que trabalham na Sua obra. Tudo quanto tenha qualquer relação com a obra de Deus deve ser tão perfeito quanto seja possível ao cérebro e às mãos humanos. É um pecado ser descuidado, sem ideal e indiferente em qualquer trabalho em que nos empenhemos, mas especialmente na obra de Deus. Cada empreendimento relacionado com Sua causa deve ser realizado com ordem, previsão e fervorosa oração. Cada um deve prostrar-se em seu grupo e em seu lugar, fazendo seu trabalho. Cada indivíduo entre vocês deve, perante Deus, realizar um trabalho para estes últimos dias que é importante, sagrado e majestoso" (Evangelismo, p. 94).
Harmonia e Evolução
A Escola de Samba é dividida em alas, cada uma com fantasias e carro alegórico próprios. Porém, o samba-enredo é o mesmo. O que é cantado lá na frente, é sincronicamente cantado na última ala da Escola. A voz do puxador do samba, bem como a batida harmoniosa da bateria, ecoando por toda a avenida, garantem esta sincronia. Não pode haver espaços vazios entre as alas. Há harmonia até nas cores das fantasias. Ninguém entra na avenida vestido como quiser. Imagine se as variadas denominações que compõem o Corpo Místico de Cristo se relacionassem da mesma maneira, respeitando cada uma o espaço da outra, porém dentro de uma evolução harmoniosa.
“'Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos' (1Co 14:33). Cristão deve estar em união com cristão, igreja com igreja, cooperando o instrumento humano com o divino, achando-se cada agência subordinada ao Espírito Santo, e tudo em combinação para dar ao mundo as boas-novas da graça de Deus" (Atos dos Apóstolos, p. 53).
Mestre-sala e Porta-bandeira
No meio do desfile encontramos o casal formado pelo mestre-sala e pela porta-bandeira. Eles exibem orgulhosamente o pavilhão da Escola. Seus gestos e passos são cuidadosamente combinados, para que a bandeira receba as honras devidas. É triste verificar como a bandeira do Evangelho tem sido chacoalhada, pois os que a deveriam ostentar, são os primeiros a desonrá-la com seu mal testemunho. Entretanto, os cristãos primitivos se dispunham a pagar com a própria vida para que seu testemunho de fé fosse validado e o nome de Cristo fosse honrado.
"Os cristãos primitivos foram chamados muitas vezes a enfrentar face a face os poderes das trevas. Mediante a perseguição e o sofisma, o inimigo se esforçava por fazê-los desviarem-se da verdadeira fé. Eles sentiram que Deus os chamara para dar a luz do evangelho ao mundo e, ao fazê-lo, estavam prontos a sacrificar suas posses, liberdade e a própria vida. Somos nós, nesta última batalha do grande conflito, igualmente fiéis ao nosso encargo?" (Cristo Triunfante, p. 357).
Momento da Dispersão
Ao término do desfile chega o momento da dispersão. É hora de partir, levando a certeza de que todos deram o melhor de si. Alguns saem machucados, com os pés sangrando, com as forças exauridas. Mas todos saem alegres, esperançosos. Aprenderam a sublimar a dor enquanto desfilam. Ignoram o cansaço. Vencem os limites do seu corpo. Tudo pela alegria de ver sua Escola se sagrando campeã. Mas no fim, chega a hora de tirar a fantasia, descer dos carros alegóricos, cuidar das feridas. Mesmo assim, ninguém reclama. Todos exibem no rosto um sorriso de contentamento.
Semelhantemente, todos estamos a caminho do fim do desfile. O momento da dispersão está chegando, quando deixaremos este corpo, nossa fantasia, e seremos saudados pela Eternidade. Que diremos nesta hora? Não haverá novos desfiles. Terá chegado o fim de nossa trajetória? Não! Será apenas o começo de uma nova fase existencial. Deixaremos nossas fantasias, para nos revestirmos de novas vestes celestiais. Falaremos como Paulo em sua carta de despedida a Timóteo: "...o tempo da minha partida está próximo. Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amarem a Sua vinda” (2 Timóteo 4:6b-8).
Aproveitemos os instantes em que estamos na avenida desta vida, celebremos a verdadeira alegria, infelizmente ainda desconhecida por muitos foliões, e que não terminará em cinzas.
"O inimigo busca por muitas maneiras levar-nos a buscar satisfação em divertimentos e prazeres que parecem desejáveis ao coração carnal. Mas os verdadeiros filhos de Deus não procuram sua felicidade neste mundo; buscam as perduráveis alegrias de um lar na cidade eterna, onde Cristo habita, e onde os remidos receberão as recompensas da obediência aos mandamentos de Deus. Estes não desejam as diversões transitórias, baratas, desta vida, mas a duradoura bem-aventurança do Céu" (Mente, Caráter e Personalidade 1, p. 314).
* Os textos em destaque são de autoria de Ellen G. White.
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
O ERRO DE DARWIN
O Dia de Darwin é celebrado em 12 de fevereiro, data de nascimento de Charles Darwin (1809), homenageando o naturalista e sua teoria da evolução por seleção natural. A data destaca o legado de suas observações, especialmente a biodiversidade das Ilhas Galápagos e os tentilhões, fundamentais para a biologia moderna.
Charles Darwin é um ícone para a maioria dos evolucionistas. Falando dele, Will Durant escreveu que seu nome poderia passar para a posteridade “como o ponto de inflexão no desenvolvimento de nossa civilização ocidental”, e completou que, “se ele estiver certo, os homens terão que datar 1859 como o começo do pensamento moderno”. Darwin morreu em 1882, teve um funeral de estado e foi sepultado na Abadia de Westminster ao lado de grandes nomes. Embora Julian Huxley tenha mencionado o “eclipse do darwinismo” na década de 1940, hoje inúmeros cientistas acham que nada faz sentido sem a teoria da evolução.
Por outro lado, os criacionistas veem Darwin como um pensador atormentado que defendeu ideias infundadas e nocivas. No julgamento de John Scopes, William Jennings Bryan descreveu a cosmovisão darwinista como “um dogma de escuridão e morte”. Tendo estudado para ser um clérigo, Darwin deveria crer firmemente no Criador. No entanto, ele perdeu todo vestígio de fé em um Deus bondoso quando morreu sua adorada filha Annie. Ao tentar tirar Deus da equação da vida e a Bíblia do repertório de explicações do mundo, ele não percebeu a ação do inimigo na natureza.
A partir das ideias darwinistas, a disputa entre criacionismo e evolucionismo se intensificaram, com implicações culturais, políticas e teológicas. Porém, como deve o adventista se portar diante dessa batalha intelectual? Confiar plenamente na Palavra de Deus. A narrativa da criação em Gênesis estabelece várias verdades que são reafirmadas ao longo da Bíblia e oferece respostas para as perguntas mais intrigantes da vida.
Primeiro, o texto indica quem criou: Deus. O destaque em Gênesis é o Criador. Ele planejou, criou e organizou tudo. Kenneth Mathews afirma em seu comentário Genesis 1–11:26 (Broadman & Holman, 1996): “‘Deus’ é o sujeito gramatical da primeira sentença (1:1) e continua como o sujeito temático ao longo do relato.” Sem Deus, o caos seria a máxima possibilidade do mundo. Com Deus, o cosmos é a realidade.
Em segundo lugar, o relato apresenta o quando: no princípio. A Bíblia não revela a data da criação do Universo, mas assegura que foi no começo. Embora não haja consenso sobre o significado da expressão “no princípio”, há boas razões para acreditar que ela se refira a um tempo muito distante. Ao que tudo indica, Deus criou o Universo e a Terra há milhões de anos e a vida no planeta num período recente.
Em terceiro lugar, o registro descreve o como: criação pela palavra. O evolucionismo ensina que tudo surgiu por meio de uma trindade formada por tempo, acaso e seleção natural. Mas a Escritura revela que Deus falou e tudo apareceu. A expressão “E disse Deus: Haja…” aparece em vários versos (3, 6, 9, 11, 14, 20, 24, 26). Esse fato é reafirmado poeticamente pelo salmista (Sl 33:6, 9). Longe de a vida surgir por meios lentos, caóticos e randômicos, Deus criou por um método rápido, pessoal e dirigido.
Em quarto lugar, Gênesis revela o que: o Universo. A expressão “os céus e a Terra” é uma figura de linguagem para indicar o cosmos. Ela é diferente da expressão encontrada em Gênesis 2:1 (“os céus e a Terra e todo o seu exército”), que se refere à biosfera terrestre e seus três habitats descritos em Gênesis 1:3-31, como explica Richard Davidson em seu capítulo no livro He Spoke and It Was (Pacific Press, 2015). De acordo com o teólogo, essa expressão de Gênesis 1:1 está em paralelo com a que aparece em 2:4, formando uma estrutura quiástica, muito comum na Bíblia.
Por fim, o relato sugere o porquê: um ambiente proposital para o ser humano. O termo “bom” (hebraico tov), repetido seis vezes em Gênesis 1, foi usado para toda a criação, e, quando o homem foi criado, o mundo ficou completo e passou a ser “muito bom”. O selo de aprovação e qualidade foi conferido pelo próprio Deus.
O relato de Gênesis foi escrito com o objetivo claro de desconstruir as cosmogonias (teorias das origens) e mitologias da época. Trata-se de uma narrativa artisticamente construída, mas seus paralelismos seguem as ações esteticamente planejadas de Deus, o maior Artista do Universo. Confiar nessa narrativa situada no Jardim do Éden ainda é o melhor antídoto contra as ideias elaboradas em Galápagos.
[Com informações de Revista Adventista]
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
A INVOLUÇÃO HUMANA
Nossa perspectiva sobre a involução humana é fundamentada na crença de que, após a queda de Adão e Eva no Éden, a raça humana não evoluiu para melhor, mas sim degenerou progressiva e cumulativamente em termos físicos, mentais e morais. Essa visão contrasta com a teoria da evolução biológica e foca na deterioração causada pelo pecado e pela violação das leis da natureza.
Aqui estão os pontos principais dessa perspectiva:
Criação especial
O livro de Gênesis apresenta um relato bem definido da vida social e individual, e, todavia, não temos notícia de alguma criança que nascesse com alguma deficiência física ou mental. Não é mencionado um só caso de morte natural na infância, meninice ou juventude. Não há relato algum de homens e mulheres vitimados por doenças. Os obituários no livro de Gênesis declaram o seguinte: “E foram todos os dias que Adão viveu novecentos e trinta anos; e morreu” (Gênesis 5:5). “E foram todos os dias de Sete novecentos e doze anos; e morreu” (Gênesis 5:8). Com referência a outros, diz o relato: “Morreu em boa velhice, velho e farto de dias” (Gênesis 25:8). Era tão raro morrer um filho antes de seu pai que tal acontecimento foi considerado digno de menção: “E morreu Harã, estando seu pai Terá ainda vivo” (Gênesis 11:28). Harã já era pai ao tempo de sua morte.
Força vital
Deus dotou o homem de tão grande força vital que ele tem resistido ao acúmulo de doenças lançadas sobre a humanidade em consequência de hábitos pervertidos, e tem sobrevivido por seis mil anos. Este fato, por si mesmo, é suficiente para nos mostrar a força e a energia que Deus conferiu ao ser humano na criação. Foram necessários mais de dois mil anos de delitos e de condescendência com as paixões inferiores para trazer sobre os seres humanos enfermidades físicas em grande escala. Se Adão, ao ser criado, não houvesse sido dotado de vinte vezes maior vitalidade do que os homens possuem agora, a humanidade, com seus atuais métodos de vida que constituem uma violação da lei natural, já estaria extinta. Por ocasião do primeiro advento de Cristo, o ser humano degenerara tão rapidamente que um acúmulo de doenças pesava sobre aquela geração, suscitando uma torrente de aflição e uma carga de sofrimento indescritível.
Degeneração do ser humano
Como se encontra deplorável a condição do mundo no tempo atual. Desde a queda de Adão, a humanidade tem estado degenerando. A decadência física, mental e moral faz com que nossos corações fiquem pesarosos e abatidos. Deus não criou o gênero humano em sua presente condição debilitada. Este estado de coisas não é obra da Providência, mas do homem; e tem sido ocasionado por maus hábitos e abusos, pela violação das leis que Deus estabeleceu para governar a existência humana. A violação da lei física e sua consequência — o sofrimento humano — têm prevalecido por tanto tempo que homens e mulheres consideram o presente estado de doença, sofrimento, debilidade e morte prematura como a sorte destinada aos seres humanos. O homem saiu das mãos do Criador perfeito e belo na forma, e de tal modo dotado de força vital que levou mais de mil anos para que os corruptos apetites e paixões, bem como a geral violação da lei física, fossem sensivelmente notados na humanidade. As gerações mais recentes têm experimentado a pressão da debilidade e da doença mais rápida e rigorosamente a cada geração. As forças vitais têm sido grandemente enfraquecidas pela condescendência com o apetite e as paixões da concupiscência.
Comparação com o passado
Os patriarcas desde Adão até Noé, com poucas exceções, viveram quase mil anos. Depois do tempo de Noé, a duração da vida tem diminuído gradualmente. Os que sofriam de enfermidades eram levados a Cristo de toda cidade, vila e aldeia para serem curados por Ele; pois eram afligidos por toda sorte de doenças. E a doença tem aumentado constantemente através das gerações sucessivas desde aquele período. Em virtude da continuada violação das leis da vida, a mortalidade tem aumentado de modo alarmante. Os anos de vida dos homens têm diminuído a tal ponto que a geração atual desce à sepultura antes mesmo da idade em que as gerações que viveram durante os dois primeiros mil anos, após a criação, se lançavam ao campo de ação.
A devastação do pecado
A doença tem sido transmitida de pais a filhos, de geração a geração. Crianças de berço são severamente afligidas por causa dos pecados de seus pais, que reduziram sua força vital. Seus maus hábitos de comer e vestir, e sua dissipação geral, são transmitidos como herança aos filhos. Muitos nascem com deficiências físicas, e uma classe muito numerosa é deficiente no intelecto. A estranha ausência de princípios que caracteriza esta geração, e que se manifesta no desprezo mostrado às leis da vida e da saúde, é espantosa. Prevalece a ignorância sobre este assunto, embora a luz esteja brilhando por toda parte ao redor deles. A preocupação da maioria é: Que comerei? Que beberei? e com que me vestirei? (Mateus 6:31).
Escravidão do apetite
Cedendo à tentação de satisfazer o apetite, Adão e Eva caíram originalmente de sua condição elevada, santa e feliz. E é por meio da mesma tentação que os homens têm se debilitado. Eles têm permitido que o apetite e a paixão ocupem o trono, mantendo em sujeição a razão e o intelecto. A despeito de tudo o que é declarado e escrito acerca do modo como devemos tratar o corpo, o apetite é a grande lei que governa homens e mulheres em geral. As faculdade morais estão enfraquecidas porque homens e mulheres não querem viver em obediência às leis da saúde nem fazem deste grande assunto um dever pessoal. Os pais transmitem a seus descendentes os próprios hábitos pervertidos, e doenças repulsivas corrompem o sangue e debilitam o cérebro. A maioria dos homens e das mulheres satisfazem o pervertido apetite ao usar venenos lentos, que corrompem o sangue e minam as forças nervosas, trazendo, consequentemente, doença e morte sobre si. Rebelaram-se contra as leis da natureza, e sofreram a punição deste abuso. Sofrimento e mortalidade prevalecem agora em toda a parte, principalmente entre crianças. Quão grande é o contraste entre esta geração e as que viveram durante os dois primeiros mil anos!
Esperança e restauração
Enquanto Jesus não retornar, haverá maior fragilidade física resultante do pecado e das transgressões das leis da saúde. Mas após a segunda vinda de Cristo a este mundo, todos os salvos ressuscitarão e sairão do túmulo com a mesma estatura que tinham quando ali entraram. Adão, que está em pé entre a multidão dos ressuscitados, é de grande altura e formas majestosas, de estatura pouco menor que o Filho de Deus. Apresenta assinalado contraste com o povo das gerações posteriores; sob este único ponto de vista se revela a grande degeneração da raça. Todos, porém, surgem com a louçania e vigor de eterna mocidade. Restabelecidos à árvore da vida, no Éden há tanto tempo perdido, os remidos crescerão até à estatura completa da raça em sua glória primitiva. Então, os últimos traços da maldição do pecado serão removidos, e os fiéis de Cristo aparecerão na beleza do Senhor nosso Deus, refletindo no espírito, alma e corpo, a imagem perfeita de seu Senhor. A verdadeira "evolução" ou restauração da perfeição original só ocorrerá com a segunda vinda de Jesus, que porá fim à dor, à morte e à degeneração humana.
[Baseado nos livros Testemunhos para a Igreja vol. 3, Mensagens Escolhidas vol. 2, Conselhos sobre Saúde, Conselhos sobre Regime Alimentar e O Grande Conflito de Ellen G. White]
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
CRISTIANISMO NÃO EXISTE
“Cristianismo simplesmente não existe” (Søren Kierkegaard).
E quem seria capaz de contestar esta afirmação de Kierkegaard? Há, de fato, um Cristianismo que não existe. Mas antes de afirmar a não-existência de um Cristianismo aparentemente existente, faz-se necessário explorar o que a própria Bíblia diz a respeito desta palavra.
Em que lugar da Bíblia algum autor inspirado cita a palavra Cristianismo? Em nenhum lugar.
Peter Leithart nota que na Bíblia ninguém é convidado a proclamar o Cristianismo, a ensinar o Cristianismo, ou sequer a aceitar o Cristianismo. Ainda assim, a palavra existe no nosso vocabulário. Os Evangelhos falam de Cristo e de seus seguidores que eventualmente passaram a ser chamados de Cristãos. Mas a base, a visão, o fundamento da palavra “Cristão” se centrava em Cristo, Suas palavras, Sua vida, e a missão por Ele deixada.
Na Bíblia não encontramos a palavra nem o conceito de Cristianismo. Mas após inúmeras expansões territoriais e evangelísticas, o “Cristianismo” invadiu o mundo. No entanto, em algum momento desta milenar jornada, o Cristianismo parece ter perdido sua ligação com os Evangelhos. Se tornou um corpo de doutrinas professado por Cristãos, ou uma maneira de adorar o Cristo ressurreto. Tudo muito objetivo e cognitivo. Cristianismo é “isso” e se você aceitar “isso” você se torna um Cristão. Mortes e guerras encontraram suas justificativas no palavra (e no conceito) Cristianismo, riquezas foram acumuladas em nome do Cristianismo e povos foram oprimidos em nome da cruz. Ao se distanciar dos Evangelhos, o Cristianismo –que já não é um conceito Bíblico per se– se tornou algo que, quando muito, remotamente se assemelha à religião bíblica descrita nos Evangelhos.
Dostoiévski no capítulo “O Grande Inquisidor” de seu livro Irmãos Karamazov descreve o problema da seguinte maneira: a tentação que o homem Jesus divinamente rejeitou –de poder, honras e glória– foram aceitos pela Igreja Cristã através de seus líderes falhos e humanos. Desta maneira, ao longo de séculos e milênios, a religião Cristã se tornou uma antítese dos ensinamento e da vida de Cristo. Por isto a afirmativa de Kierkegaard: afinal, os atos, a postura e a religião de Jesus nos Evangelhos, era irreconhecível no Cristianismo de sua época.
Hoje em dia a situação não é diferente. Por mais que muitas pessoas ainda de fato vivam um novo tipo de existência ao se decidirem por seguir a Cristo, ainda existe muito charlatão, muito líder religioso corrupto, muito fiel egoísta em busca apenas de riquezas, bênçãos e realizações pessoais, além da evidente ausência de ética tanto na esfera pública como religiosa; e isto debaixo da bandeira do Cristianismo e em países que se denominam Cristãos. E se “Cristianismo” é tudo isto, ele não é nada; porque uma palavra que pode significar tantas coisas diferentes –e até opostas– perde seu significado.
As palavras de Cristo, o texto Bíblico através do qual Ele ainda hoje se quer fazer entender, nos interessam de forma parcial nos dias de reuniões de nossas comunidades religiosas, quando muito. Nos púlpitos ao redor do mundo somos dificilmente confrontados com a realidade do texto. São poucos os pregadores que estão dispostos a deixar suas agendas particulares (ou de suas instituições religiosas) de lado para, em contrição, simplesmente buscar transmitir o que o texto disse e ainda diz. Há poucos profetas.
Para preencher o tempo e desviar a atenção da nossa indisposição de estudar o texto a fundo, costumamos dar ênfase a discussões menores, menos relevantes e paralelas. Define-se um comportamento padrão e discute-se uma infinidade de variações ou “desvios” deste comportamento denominado “padrão”. Discute-se a relação entre fé e evidências (no caso, evidências extra-bíblicas). Discute-se a relação entre fé e ciência. Como o texto não é interessante, fazemos apologética. Procuramos –às vezes até inventamos– um inimigo em comum do qual precisamos nos defender, ou melhor: defender a fé. Aliás, preferimos defender a fé do que viver a fé, debater a fé do que entender que fé é esta. E esta busca incessante por discussões paralelas e menores apenas confirma uma triste realidade: o texto bíblico não é interessante o suficiente. Damos prioridade a discussões de “fatos” externos (científicos/arqueológicos/metafísicos) sem perceber que tais discussões são no máximo secundárias. O desafio deixado por Kierkegaard continua até hoje: desenvolver a honestidade e a coragem de dizer que o “Cristianismo” nos nossos dias (junto com suas discussões, ética, e prioridades estranhas) não existe.
Que esta confissão nos conduza de volta ao texto Bíblico, aos Evangelhos de Gênesis, Êxodo e João. Precisamos redescobrir o que significa Cristianismo, pois, atualmente, ele simplesmente não existe.
Assista também o vídeo abaixo "Cristianismo não Existe", por Tiago Arrais, ministrado como palestra dividida em 5 noites.
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