quinta-feira, 31 de julho de 2025

LEVAI A CARGA UNS DOS OUTROS

Fernando Pessoa tem uma poesia bastante conhecida, onde se lê: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Por esse prisma, e com toda licença poética, me atrevo a dizer que vivemos cercados de poetas – pessoas que sorriem, cumprimentam, se esmeram em transparecer alegria, mas por dentro são tomadas de tristezas profundas. São fingidoras. Não pelo aspecto negativo, simplesmente fingem que está tudo bem quando, na verdade, está tudo mal. Heróis da temperança, suportam suas cargas sem repartir com ninguém – e não por vontade própria. São multidões de infelizes que circulam ao nosso redor sem que sua infelicidade torne-se visível. E, acredite: dentro das igrejas.

Entre esses irmãos e irmãs há de tudo. Pessoas acometidas por doenças que roubam sua paz, gente extremamente infeliz em sua vida afetiva, deprimidos, solitários, seres humanos feridos por outros seres humanos, filhos abandonados, pais esquecidos, almas esmagadas pelo peso do próprio pecado, cristãos que não conseguem enxergar Cristo. São muitas as razões, são muitas as vítimas. Convivem diariamente com a tristeza, sem ter com quem conversar, desabafar, sem ter quem as ouça e a suas histórias. São sofredores ocultos.

A pergunta que me faço é: por quê? Por que há entre nós essa multidão de ilhas humanas, isoladas, que não conseguem estabelecer pontes com as demais? Se somos um Corpo e cada membro que dói deveria afetar todos os outros, por que há tantos que se mantém em silêncio quanto às suas dores mais profundas? Paulo diz em Gálatas 6:2: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo”. Isso é o cenário ideal. Por que, então, para tantos e tantos isso não acontece?

Acredito que há duas explicações e, infelizmente, elas não são muito bonitas.

Primeiro: quem é que pergunta “tudo bem?” de fato preparado para ouvir um “não” como resposta? Porque, sejamos francos, todos estamos condicionados a cruzar com alguém, dizer “tudo bem?” e escutar um automático “tudo bem” de volta. Só que uma enorme porcentagem dos que dizem isso… não estão nada bem. Respondem pelo hábito e pela triste realidade: se dissessem “não, não estou bem” veriam da parte da outra pessoa uma total inabilidade de lidar com isso. Muitos ouviriam um “vamos orar, irmão” de volta ou um “que é isso, irmã, a vitória é tua!”. E tudo continuaria como antes.

Como igreja, a realidade é que muitos não estão preparados para lidar com quem não está bem. Simplesmente não sabem o que fazer. Nem o que dizer. Perdem o rebolado. Muitos buscam o caminho mais fácil: encaminham para o pastor. Muitos respondem frases-feitas. Muitos fogem. Muitos chegam ao ponto de dizer que é falta de fé. E, com isso, nos acostumamos a que não adianta nada nos mostrarmos como de fato estamos, pois abrir o peito não terá utilidade. O socorro não virá. O conforto ficará apenas na vontade. Dizer “não estou bem” pra quê? Quem se interessaria? E, caso se interessassem, quantos estariam habilitados a levar nosso fardo conosco?

Ellen White afirma: "Qualquer negligência do dever para com os necessitados e doentes é negligência do dever para com Cristo, na pessoa de Seus santos. Quando perante Deus se passarem em revista os casos de todos, não se fará a pergunta: Que professaram? Mas sim: que fizeram eles? Foram praticantes da Palavra? Viveram apenas para si mesmos? Ou se tornaram hábeis em obras de beneficência, em atos de bondade, em amor, preferindo os outros a si mesmos e negando-se a si próprios a fim de que fossem uma bênção aos outros?" (Para Conhecê-Lo, p. 331).

Penso que isso deveria ser muito mais presente em nossa vida em igreja. Deveríamos pregar mais sobre o assunto. Na escola sabatina deveria ser lição indispensável: como amar o próximo. Como levar as cargas uns dos outros. Como escutar a infelicidade alheia de maneira consequente. Todo seminário teológico deveria investir tempo tratando disso. Eu trocaria os dons mais excelentes pela habilidade de levar conforto a quem tem dor. Eu preferiria mil vezes mais ter o dom de levar as cargas dos meus irmãos do que operar maravilhas. Simplesmente porque é mais útil, mais importante e desesperadamente mais necessário em nossos dias. Amar o próximo… ó, Deus, como precisamos aprender a fazer isso!

A segunda explicação é a falta de confiabilidade de muitos. Há irmãos e irmãs aos montes que sofrem de dramas reais, dores de alma crônicas, tristezas infindáveis… mas não confiam em se abrir com ninguém da igreja. Porque já viram todo tipo de traições: pastores que vazam confissões que lhes foram feitas em confiança. Irmãos que passam adiante o que lhes segredamos. Irmãs que se afastam de nós ao tomar conhecimento de certas realidades que nos esmagam. Diante disso, como confiar? Como ter fé em que aquele amigo “tão espiritual” não trairá a confiança que depositamos nele ao vilipendiar nossas dores mais profundas e agoniantes? Logo, o que acontece é: “Tudo bem?”. “Sim, tudo ótimo!”, quando, por dentro, há tristeza, solidão, angústia, sofrimento.

Como podemos mudar isso? Preocupando-nos de fato com o próximo. Pondo em prática o Grande Mandamento. Se você começar a agir na sua comunidade de fé mostrando que é alguém com quem se pode contar na hora da angústia e da tribulação, as pessoas criarão coragem para compartilhar com você suas dores. Se você se apresentar como alguém confiável, os cansados e sobrecarregados se aproximarão. E terão coragem de dizer “não, não está tudo bem”. 

Ellen White aconselha: "Precisamos defender os interesses uns dos outros como fazemos com os nossos próprios. Não avaliamos a alma como devemos. Cumpre que estejamos unidos numa grande irmandade e encontrar-nos em tal condição que possamos suportar as faltas uns dos outros com toda longanimidade e mansidão, e procurar levar as cargas uns dos outros" (Manuscrito 13, 1886).

Olhe para si: você é alguém preparado para ouvir e auxiliar, para amparar? Tem base bíblica para oferecer conforto e paz a partir do que dizem as Escrituras? Você é um cristão pronto para oferecer o conforto de Cristo? Se percebe que não, procure urgentemente soluções para isso. Seus irmãos precisam de você. Há dores demais em nosso meio, angústias em excesso no seio da igreja para deixarmos isso pra lá. “Jesus cuida” – sim, eu sei disso. Mas Jesus quer usar você como instrumento para cuidar.

Ellen White diz: "Em todo o nosso redor há os que têm fome de alma, e que anseiam uma expressão de amor, em palavras e atos. Amistosa simpatia e sinceros sentimentos de terno interesse nos outros, trariam à pessoa bênçãos nunca experimentadas ainda, levando-nos a íntima relação com o nosso Redentor, cuja vinda ao mundo foi com o propósito de fazer o bem, e cuja vida devemos copiar. Que estamos nós fazendo por Cristo?"  (The Review and Herald, 13 de Julho de 1886).

Olhe ao redor e passe a procurar o próximo a quem possa amar. Não sabe como fazer? Comece com uma simples pergunta: “Tudo bem?”. E quando vier a resposta automática, olhe nos olhos e insista: “Mas… tudo bem mesmo?”. A partir daí, prepare-se: você pode se surpreender com o que vai ouvir e com a forma com que Deus pode usá-lo para levar cargas de pessoas que, muitas vezes, mal têm forças de ficar em pé.

Ellen White conclui: "Devemos nos relacionar corretamente uns com os outros, mesmo que o fazê-lo requeira sacrifício. Cristo realizou um sacrifício infinito por nós, e não deveríamos estar dispostos a nos sacrificar por outros?" (Carta 31, 1904).

Maurício Zágari (via Apenas)

quarta-feira, 30 de julho de 2025

QUANDO SEUS FILHOS NÃO QUEREM IR À IGREJA

Lucas, de nove anos, começou a rejeitar a ideia de ir à igreja: dizia que era chato e que preferia ficar com o tablet. Seus pais tentaram obrigá-lo, recompensá-lo e até puni-lo, mas sem resultados. Somente quando decidiram ouvi-lo e acompanhá-lo espiritualmente com mais paciência, perceberam que sua rebeldia escondia uma desconexão emocional. Às vezes, o “eu não quero ir” não é simplesmente rebeldia, mas um alerta. Discernir o que está por trás desse comportamento pode abrir as portas para uma reconexão sincera com a fé.

Como os pais devem reagir?
Quando um filho diz que não quer ir à igreja, muitos pais tentam convencê-lo a todo custo: com argumentos, repreensões, recompensas ou castigos. No entanto, em vez de responder com pressão ou raiva, o mais sensato é parar e ouvir com empatia. Perguntar com calma o que ele sente, o que não gosta ou o que o incomoda pode revelar muito mais do que uma simples recusa. Observar se é algo pontual ou recorrente também ajuda a entender melhor a situação. E se o motivo não estiver claro, é importante buscar apoio: conversar com professores, líderes ou até mesmo com outros pais pode esclarecer o problema.

Acima de tudo, é essencial orar com a criança e por ela, mostrar que Deus está presente mesmo nos momentos de dúvida ou cansaço. Às vezes, a resistência não é rebeldia, mas uma oportunidade para os pais se reconectarem com o coração de seus filhos e acompanhá-los espiritualmente. Mas se for uma atitude rebelde, é necessário estabelecer limites firmes com paciência, lembrando que ir à igreja faz parte dos valores do lar. Mesmo assim, convém perguntar-se o que pode estar gerando essa oposição: frustração, necessidade de atenção ou desejo de testar limites. Mesmo quando a atitude não é dócil, ouvir ainda é fundamental. Por trás de muitos comportamentos rebeldes, há necessidades não resolvidas que precisam ser compreendidas, não reprimidas.

Estudos recentes sustentam essa perspectiva. O Barna Group destaca que a maioria das pessoas que permanecem firmes na fé tomaram essa decisão antes dos 13 anos, embora muitas comecem a perder o interesse durante a infância se sentirem que a igreja é irrelevante ou está desconectada do seu mundo. O projeto Sticky Faith do Fuller Youth Institute também mostrou que os jovens que desenvolvem uma fé duradoura são aqueles que, desde pequenos, foram ouvidos, incluídos e acompanhados por adultos cristãos comprometidos, tanto dentro como fora do lar.

Motivos comuns pelos quais uma criança não deseja ir à igreja
Diante da resistência de um filho, muitos pais sentem frustração ou até culpa. Mas antes de forçar uma solução rápida, vale a pena parar e observar: o que pode estar acontecendo no coração dessa criança? Muitas vezes, sua recusa é apenas a ponta do iceberg. Entender as causas mais comuns pode nos ajudar a responder com mais sabedoria e amor: 
1. Cansaço físico ou emocional. Uma rotina exigente durante a semana pode deixar a criança esgotada. Dormir tarde na sexta-feira também influencia o sábado de manhã. 

2. Falta de vínculo afetivo com a igreja. Se ela se sente sozinha, ignorada ou sem amigos, isso pode afetar diretamente sua vontade de frequentar. 

3. Aulas pouco atrativas ou inadequadas para sua idade. Quando as atividades são repetitivas, com uma linguagem difícil ou sem interação, o interesse diminui. 

4. Conflitos não resolvidos. Brigas, bullying ou até experiências traumáticas podem gerar rejeição. 

5. Incoerência espiritual em casa. Se a espiritualidade se limita ao sábado e não é vivida naturalmente em casa, a igreja se torna uma obrigação, não um momento de comunhão e alegria.
Conselhos práticos para tornar a experiencia significativa
Às vezes, não se trata de mudar a criança, mas sim o ambiente que a rodeia. O preparo espiritual começa muito antes de entrar pela porta da igreja. Aqui estão algumas práticas que, com consistência e oração, podem transformar a experiência de ir à igreja em algo significativo e esperado: 
- Prepare o sábado com antecedência. Separe as roupas na sexta-feira, evite atividades estressantes de última hora, certifique-se de ter um jantar leve e uma noite tranquila. A impaciência é um dos piores inimigos do sábado! Deus pensou nesse dia como um presente, não como um fardo. 

- Chegue cedo para ajudar. Chegar tranquilos, sem correria, permite que a criança se integre com calma. Se puder ajudar em algo – entregar materiais, arrumar as cadeiras, cumprimentar os adultos – ela se sentirá útil e parte do grupo. Ao voltar para casa, faça perguntas significativas: O que você aprendeu hoje? De que história você gostou? O que você entendeu sobre o sermão? Essa conversa pode reforçar o que ela viveu e criar uma memória espiritual. 

- Valorize o culto familiar. Não subestime o poder de um momento de adoração em família. A conexão espiritual não é construída somente aos sábados. O culto diário, mesmo que breve, une a fé à vida. 

- Mostre entusiasmo por ir. Seus filhos sentem o que você sente. Se ir à igreja é uma obrigação para você, eles perceberão. Mas se você viver isso como um privilégio, você contagiará essa alegria. Celebre o sábado com alegria, com palavras positivas e com gratidão. 

- Acompanhe com presença, não apenas instruções. Estar com seu filho, participar das aulas, conhecer seus professores e amigos demonstra que a igreja é um lugar para a família. Não basta “deixá-lo” na Escola Sabatina – ele precisa saber que vocês caminham juntos.
Conclusão
Em um sábado de manhã, minha filha – que na época tinha apenas seis anos – me disse que não queria ir à igreja. Tentei insistir com carinho, mas ela só repetia: “não quero ir, eu não gosto”. Durante dias, perguntei-me o que estaria acontecendo: Será que ela não gosta da aula? Alguém a tratou mal? Ela está entediada? Até que, em oração e observando mais de perto, descobri a causa. Ao lado da igreja havia um jardim de infância abandonado e, às vezes, moradores de rua entravam lá. Em uma ocasião, uma das crianças disse em voz alta que o que viram lá dentro era “um ladrão”. Essa cena, embora ninguém tenha levado muito a sério, deixou uma marca em minha filha. Não era falta de fé nem rebeldia: era medo. A partir daí, entendi que muitas vezes, o “não quero ir” de uma criança é um pedido silencioso para ser ouvida e protegida.

Talvez a situação de seu filho seja completamente diferente. Mas se há algo que aprendi como mãe, é que a paciência é fundamental. E muitas vezes, é exatamente isso que nos falta. Nem sempre você vai entender imediatamente o que está acontecendo, e nem sempre terá as respostas. Mas Deus lhe deu esse filho com a promessa de estar ao seu lado também como Pai. Portanto, ouça com calma, observe sem se desesperar e ore com perseverança. Se você não souber o que fazer, procure apoio. Uma atitude serena pode abrir portas que a pressa e a ansiedade fecham. Às vezes, o que seu filho mais precisa não é de uma solução rápida, mas simplesmente uma mamãe ou um papai que esteja disposto a ficar por perto e esperar com fé.

Cuca Lapalma (via Notícias Adventistas)

Referências:
- Barna Group. “Why Most Kids Stay in Church after High School.” https://www.barna.com/research/why-teens-are-abandoning-church/

- Fuller Youth Institute. Sticky Faith: Practical Ideas to Nurture Long-Term Faith in Teenagers. https://fulleryouthinstitute.org/stickyfaith

terça-feira, 29 de julho de 2025

SEPULTAMENTO OU CREMAÇÃO?


O cuidado e a preocupação com os mortos têm sido uma experiência perene nas civilizações ao longo dos tempos. Embora existam diferentes rituais e formas de dispor os mortos de acordo com cada cultura e visão religiosa, o momento de despedida dos familiares é sempre doloroso, e os sentimentos nesse contexto precisam ser respeitados.

A questão sobre o que fazer com um corpo envolve aspectos culturais, sociais, ambientais e religiosos. Entre as culturas orientais, a cremação tem sido a prática predominante há muito tempo. Embora o sepultamento tenha sido o mais comum nos contextos judaico e cristão, nas últimas décadas a cremação se tornou uma prática dominante em muitos países ocidentais.

As diferenças entre sepultar e cremar são muitas. O processo de decomposição dos mortos em um sepultamento é lento, ocorre no solo e geralmente é mais caro. Na cremação, o processo é rápido, seco e geralmente mais barato. Ao enterrar os mortos, as pessoas têm o túmulo como memorial. Por outro lado, a cremação oferece a possibilidade de guardar as cinzas, permitindo que sejam mantidas como uma lembrança.

Os adventistas do sétimo dia nunca tomaram uma posição sobre cremação, porque nossa compreensão bíblica acerca da morte e ressurreição faz com que o assunto perca sua importância (veja Jó 19:27; Daniel 12:2; Lucas 24:39). Contrários à idéia de uma dicotomia entre corpo e alma, afirmamos que o ser humano tem uma existência física tanto antes da morte como na ressurreição. O Deus que nos criou no princípio é igualmente capaz de nos recriar das cinzas da incineração, ou do pó que resulta do lento processo da decomposição. Todas substâncias orgânicas retornam a seus elementos básicos. A única diferença é sobre quanto tempo isso leva.

Na verdade, não defendemos a idéia de que na ressurreição o novo ser será composto das mesmas células e átomos que antes lhe formavam o corpo. As células morrem e os átomos se dispersam, e a restauração de uma pessoa não consiste apenas na reunião e reestruturação dos átomos, mas na expressão do poder criativo de Deus, não importando quais átomos estejam envolvidos (Salmo 104:29-30). Sabemos que cada ser vivo é um conduto por onde novos átomos entram enquanto que os velhos se dispersam, de modo que, numa escala maior, em 10 anos cada pessoa será composta por átomos inteiramente diferentes.

A pessoa que morre permanece na mente de Deus e, por meio de Seu poder criador, Ele haverá de restaurar-lhe a vida segundo Sua vontade, num novo corpo isento dos efeitos os pecado (1 Coríntios 15:52). Na ressurreição, o Criador não depende de elementos previamente existentes.

Alguns dentre nós têm usado Amos 2:1 para se opor à prática da cremação. O profeta afirma que Deus Se irou contra Moabe “porque queimou os ossos do rei de Edom, até os reduzir a cal” (ARA). O principal problema de interpretação nesse texto é a frase “até os reduzir a cal”, que reflete com precisão o texto hebraico. O substantivo sid não significa “cinzas” mas “cal”. A cal era usada para rebocar paredes e pedras. Alguns têm sugerido que, nesse caso em particular, os ossos foram queimados ou calcinados para se obter cal. Seja como for, não há dúvida de que Moabe está sendo reprovado por causa de seu desprezo para com restos mortais humanos. Portanto, o profeta está se referindo a um ato de ódio e vingança que resultou no desrespeito para com a dignidade humana. Isso não é o que chamaríamos de cremação.

Cremação, propriamente falando, poderia ser um ato de piedade. Em 1 Samuel 31:11-13 lemos como os israelitas tomaram o corpo de Saul e seus filhos “do muro de Bete-Seã e os levaram para Jabes, onde os queimaram” (NVI). Esse não foi um ato de vingança, mas uma maneira adequada de pôr fim à humilhação de um corpo humano, nesse caso, o do primeiro rei de Israel.

Para alguns cristãos, a questão do sepultamento em lugar da cremação é muito importante. Eles notam que a cremação é adotada em países como Índia e China, cuja cultura predominante não é cristã. Na verdade, esses países superpopulosos já enfrentaram há muito tempo o dilema de poucas terras férteis e a necessidade de cemitérios, introduzindo em sua religião a noção da cremação, compreendida em termos de uma espécie de purificação pelo poder do fogo. Do ponto de vista científico, esse método oferece vantagens relacionadas com a prevenção de infecções. É fato que na tradição judaica os mortos eram consistentemente sepultados, costume esse que foi incluído nos cânones católicos e assim perpetuados na comunidade cristã. Mas, quando analisado à luz de nossa compreensão acerca de como Deus age, a cremação não representaria nenhum problema.

A cremação tem sido cada vez mais adotada em países com tradição protestante, enquanto os países católicos são mais dedicados ao sepultamento. No entanto, depois de decretar em 1886 que a cremação era um “costume ímpio detestável”, o Vaticano retirou a proibição da cremação para os católicos em 1963, embora tenha estabelecido que “orações ou rituais” não poderiam ser feitos diante dos “restos cremados”. Isso resultou em uma adoção gradual da cremação entre os católicos, mas em um ritmo lento.

Tradicionalmente, a Igreja Católica proibia a cremação porque era considerada uma “prática pagã” que negava a doutrina da ressurreição. Além disso, o corpo era considerado “templo do Espírito Santo”, portanto, sendo santo. Isso ainda segue como um fator desencorajador para a cremação entre os católicos.

Nos países da América do Sul, onde predomina o catolicismo, as taxas de cremação são baixas, com exceção do Peru, que possui uma taxa de 73,07%, e da Argentina, com 45%. No Brasil, apenas 9% dos mortos são cremados. No continente africano, as taxas de cremação são geralmente inferiores a 10%. Lá, os funerais são longos e muito frequentados, pois acredita-se que o espírito do falecido ainda está vivo e não separado do corpo, sustentando a crença de que os mortos não estão realmente mortos.

Além da percepção de que os protestantes estão mais inclinados a adotar a cremação em comparação aos católicos, os processos de cosmopolitização e secularização também têm influenciado a substituição do sepultamento pela cremação. Até recentemente, as implicações sociais e religiosas da cremação não receberam muita atenção. No entanto, à medida que essa prática se tornou uma forma dominante de lidar com os mortos, muitos cristãos começaram a questionar se ela é uma forma aceitável de dispor dos falecidos.

Concluindo, não há prescrição bíblica sobre uma ou outra maneira de dispor dos mortos. Essa é uma decisão muito pessoal e íntima, que deve ser respeitada. A questão essencial ao lidar com a morte de entes queridos é a esperança viva de que todos serão erguidos do pó da terra na segunda vinda de Jesus. Tenham sido sepultados ou cremados, todos que morreram em Cristo serão ressuscitados para uma nova e eterna vida no reino de Deus, conforme a promessa divina.

[Com informações das revistas Ministério e Diálogo Universitário]

segunda-feira, 28 de julho de 2025

O MAIOR FALSO ÍDOLO DO CRISTIANISMO MODERNO

A idolatria é uma coisa horrível, perigosa. Tristemente, cristãos demais carregam essa pesada culpa. Você pode ver isso pela forma que eles reclamam nas mídias sociais, pela forma que eles comentam sobre as notícias do dia; na linguagem derrotista, alarmista que eles usam para descrever o mundo. Você pode ver isso na forma que eles franzem suas sobrancelhas, levantam as mãos e batem em seus púlpitos.

Isso se mostra nos estereótipos preguiçosos e na retórica religiosa que flui tão facilmente nas conversas nos corredores das igrejas e nos discursos extremistas. É como se tudo agora houvesse se tornado uma ameaça iminente. O mundo fora da igreja é amplamente pintado como um zona de guerra vil, imoral, com o “Povo de Deus” desarmado, sendo encurralado sem esperança.

Papagueando os participantes desse talk show politizado e repostando as mais novas e terríveis notícias, eles perpetuam a narrativa da iminente destruição, deixando claro em cada oportunidade: O céu inteiro está desabando!

Embora eles repetida e confiantemente proclamem Cristo como Senhor, na realidade eles não mais praticam a fé em um Deus que tem algum real poder, algum real controle e inerente divindade. Eles parecem possuir pouco mais do que a figura de uma deidade que não parece estar apta para cuidar das coisas por muito mais tempo. A verdade é: o Medo se tornou o seu falso Deus, alguém que eles adoram com devoção completa e imortal.

Os sintomas da idolatria do Medo são fáceis de se notar… Quando você não tem certeza que Deus está lá ou que Ele realmente virá, você começa gastar a maior parte do seu tempo o defendendo in absentia. Você se torna o autoproclamado “Cruzado da Verdade”, cuja missão é fazer o trabalho santo de policiar o mundo (vai que Deus não consiga). Você passa muito tempo anunciando o mal, prevendo o desastre e predizendo a perdição.

Ellen White afirma: "É necessário que os terrores do dia de Deus sejam mantidos diante de nós, a fim de que sejamos compelidos à ação correta pelo medo? Não devia ser assim. Jesus é atraente. Ele é cheio de amor, misericórdia e compaixão. Deseja ser nosso amigo, andar conosco por todos os acidentados caminhos da vida" (Exaltai-O, p. 103).

Quando o Medo é seu Deus, você se torna um Mestre em “Gerenciamento Exterior do Pecado”. Você lentamente volta toda sua atenção para as coisas nas outras pessoas que você está certo que realmente indignam a Deus, e seu trabalho sagrado se torna modificar o comportamento deles, em nome de Jesus. Quando o seu Deus não é grande o suficiente, você tentará fazer nos outros o que você decidiu que Ele deseja, em vez de realmente confiar que Ele pode fazer isso.

Eu realmente sinto pelos cristãos cujo Jesus parece tão essencial para a salvação pessoal, para a vida eterna, e tão inútil para a vida que vivemos agora. Será que isso é realmente Deus? Isso que é a Divindade? Seria esse a respeito de quem o salmista escreveu: “Os céus declaram a glória de Deus, o firmamento proclama a arte de Suas mãos” (Sl 19:1). É esse o Deus que criou o mundo com sua voz, acalmou a tempestade, curou o cego e levantou os mortos?

Oro para que muitos de meus irmãos e irmãs em Cristo parem de adorar o falso ídolo do Medo. Oro para que eles “recuperem” um Deus que é digno, não só de ser citado e defendido, mas digno de nossa completa confiança. Oro pelo descanso, alegria e humildade que vem de colocar a fé em algo maior do que nós mesmos.

Ellen White diz: "O Salvador não nos engana. Não nos diz: 'Não tema, seu caminho está livre de perigos.' Ele sabe que há provações e perigos, e é sincero conosco. Não Se propõe tirar Seu povo de um mundo de males e pecados, mas indica-nos infalível refúgio. Sua oração em favor dos discípulos foi: 'Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal' (Jo 17:15). No mundo, diz Ele, 'tereis aflições, mas tende bom ânimo; Eu venci o mundo' (Jo 16:33)" (Caminho a Cristo, p. 122).

Se você está ansioso, Deus diz: “Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a Sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas” (Mt 6:33). Se tem medo do futuro, Ele diz: “Eis que venho em breve!” (Ap 22:12). Se teme a solidão, Cristo diz: “Eu estarei sempre com vocês” (Mt 28:20). Se a morte o apavora, Ele diz: “Eu sou a ressurreição e a vida” (Jo 11:25).

A cada dia, mesmo com o mistério que cresce na minha jornada, minha segurança cresce também. Eu sei o quão grande é o meu Deus. E você?

“Por isso, não abram mão da confiança que vocês têm; ela será ricamente recompensada. Vocês precisam perseverar, de modo que, quando tiverem feito a vontade de Deus, recebam o que ele prometeu; pois em breve, muito em breve ‘Aquele que vem virá, e não demorará’” (Hb 10:35-37).

sexta-feira, 25 de julho de 2025

SANTUÁRIO NO TEMPO

"Com as costas para o templo do senhor e os rostos voltados para o oriente, estavam se prostrando na direção do sol" (Ezequiel 8:16).

O êxodo foi um ato libertador. Mais que de cadeias que aprisionavam mãos, Deus desejava libertar Israel da adoração que prendia à terra da escravidão. Mais que um novo endereço, um novo rumo, uma nova terra, Deus oferecia um relacionamento real, com um Deus real. Cada uma das pragas enviadas ao Egito era um anúncio do Deus verdadeiro aos deuses de plástico cultuados por egípcios e israelitas. O Criador é quem dirige a criação. Só Ele merece culto.

Um santuário foi construído no meio do deserto. Seus muitos rituais, objetos e símbolos apontavam para a libertação e o libertador. Cada medida, cada cor, cada material fora escolhido pelo próprio Deus, e cumpria função nesse quadro de adoração. Até mesmo a posição em que o tabernáculo seria construído foi cuidadosamente escolhida. Sua porta da frente deveria dar para o oriente. E isso não era por acaso.

Cada vez que um adorador viesse ao santuário para se encontrar com Deus e oferecer sacrifício, ao entrar pelas portas estaria de costas para o sol - a principal divindade adorada nos dias escuros do cativeiro.

O sábado é o santuário de Deus no tempo. Cada vez que entramos pelas suas portas somos convidados a dar as costas a tudo que nos afasta de Deus. O sábado é um lembrete do compromisso de santidade que temos. O sábado é o elo de ouro que nos liga a Deus - o Criador e Libertador de nossa vida.

As portas estão abertas. Entre e viva um lindo sábado.

quinta-feira, 24 de julho de 2025

PRAGAS

Nenhuma divindade sobreviveu àquela guerra. Nenhuma estátua permaneceu ilesa. Nenhum rito místico silenciou o trovão hebreu. As 10 pragas do Egito não foram apenas desastres, foram um duelo entre o Criador e criaturas. Cada praga, um golpe. Cada grito de impotência reverberava Êxodo 7:5: “Eu sou o Senhor.”

1. Nilo em Sangue – Hapi, Osíris e Khnum, senhores das águas, calaram-se no rio tingido de morte. Do fértil ao podre.

2. Rãs – Heqet, a deusa da fertilidade com cabeça de rã virou repulsa. Um pântano de horror tomou casas, palácios e altares.

3. Piolhos – Geb e Set, deuses do chão e do deserto, foram vencidos pelo menor dos seres. Os magos confessaram: “é o dedo de Deus.”

4. Moscas – Uatchit e Khepri, protetores do ambiente, não suportaram o zumbido da justiça divina. Até o ar virou praga.

5. Peste nos Animais – Apis, Hathor e Mnevis tombaram com bois e vacas. Santuários ficaram vazios cheirando morte.

6. Úlceras – Sekhmet, Serápis e Imhotep, deuses da cura, ficaram cobertos de feridas. Sacerdotes viraram pacientes.

7. Chuva de Pedras e Fogo – Nut, Shu e Tefnut não deram explicação. A tempestade caiu com fúria, queimando egos e celeiros.

8. Gafanhotos – Nepri, Seth e Osíris, protetores da agricultura, ruíram nas plantações devoradas. A economia esfarelou.

9. Trevas – Rá, Amon-Rá e Hórus foram apagados. Nem o deus-sol ousou nascer. Três dias de trevas no relógio egípcio.

10. Morte dos Primogênitos – Faraó, tratado como deus, perdeu seu filho. Ísis e Hathor não ouviram o choro das mães. Foi o fim da arrogância.

O Senhor não disputou com os deuses do Egito. Ele os desmascarou. Não há poder humano que resista ao Seu toque. Ainda que pragas visitem seu mundo, o céu continua soberano. “Eu sou o Senhor, e não há outro” (Is 45:5). Entregue-se ao Único que não sangra, não cai, não falha. O trono dEle é eterno. E está ocupado.

Odailson Fonseca (via instagram)

“O Senhor Deus de Israel executará juízos sobre os deuses deste mundo como aconteceu com os deuses do Egito. Com fogo e inundações, pragas e terremotos, Ele deteriorá o mundo”, adverte Ellen White (Eventos Finais, p. 240). “O Senhor, em juízo, andará no fim dos tempos pela Terra” (p. 234).

quarta-feira, 23 de julho de 2025

A TEIMOSIA DO FARAÓ

A Bíblia é clara em afirmar que as pessoas foram criadas como seres morais livres, com capacidade de fazer escolhas, utilizando-se do livre-arbítrio. Tanto é que o primeiro casal escolheu desobedecer à proibição divina de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2:16, 17; 3:6).

Eis dois textos, dos mais conhecidos na Bíblia, que enfatizam o livre-arbítrio: “Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência” (Dt 30:19); “Porém, se vos parece mal servir ao Senhor, escolhei, hoje, a quem sirvais […]. Eu e a minha casa serviremos ao Senhor” (Js 24:15). Vê-se, então, que Deus não força nossa lealdade a Ele, mas deseja obediência que seja fruto de nosso amor por sua pessoa. Como disse Jesus: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14:15).

Se Deus não força as decisões dos seres humanos, como é que no livro de Êxodo é dito, várias vezes, que Ele endureceu o coração do faraó? (Êx 4:21; 9:12; 10:20; 11:10)? Esse monarca egípcio não tinha livre-arbítrio para escolher libertar os cativos israelitas? Para complicar, no mesmo livro é dito que foi o faraó que endureceu o coração (8:32). Afinal, foi Deus quem endureceu o coração do faraó ou foi o faraó quem endureceu o próprio coração?

Ao se ler a Bíblia, verifica-se como era a maneira de pensar dos israelitas do tempo em que ela foi escrita. Pensava-se que Deus, por deixar que algo aconteça, tem responsabilidade com o que acontece. Isto é, o que Deus permite é como se Ele mesmo causasse. Veja outros dois exemplos dessa maneira israelita de pensar: o caso de “um espírito maligno da parte de Deus” atormentando o rei Saul (1Sm 18:10); a informação de que o Senhor “pôs o espírito mentiroso” na boca de todos os profetas do rei Acabe (1Rs 22:23). Nesses casos, vê-se que não foi o Senhor mesmo quem fez o que é dito nos textos, mas apenas permitiu que essas coisas acontecessem.

Essa maneira israelita de pensar ilumina a questão do endurecimento do coração do faraó. Na verdade, não foi Deus quem endureceu o coração daquele monarca, pois, se fosse, o faraó não seria culpado por ficar de coração endurecido. A culpa recairia sobre Deus, que poderia ser acusado de tirar o livre-arbítrio do faraó. Deus apenas permitiu que o monarca egípcio seguisse seu caminho de obstinação, não interferindo nas escolhas daquele rei. Deus poderia forçá­-lo à obediência, mas, se o fizesse, estaria privando-o do livre-arbítrio. Na verdade, como é dito em Êxodo 8:32, foi o faraó quem “endureceu o coração e não deixou ir o povo”.

Ainda hoje, Deus segue respeitando as decisões de cada ser humano. É verdade que deve doer em seu coração de amor permitir que alguém escolha um caminho mau e colha as consequências nefastas, pois é seu desejo que façamos boas escolhas e colhamos o bem. Ele não força ninguém a recebê-lo e a obedecer-lhe, mas permanece do lado de fora de nosso coração, esperando pacientemente que abramos a porta (Ap 3:20).

O faraó poderia ter ouvido a voz de Deus falando-lhe através dos grandes e terríveis sinais que presenciou. Mas teve a liberdade de se recusar a ouvir. E essa sua recusa resultou em ruína para todo o povo egípcio, sendo a pior das tragédias a morte de todos os primogênitos daquela nação. Tira-se desse incidente uma importante lição: somos livres para escolher, mas cada decisão traz suas consequências, sejam elas boas ou más. “De Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6:7).

Ozeas Moura (via Revista Adventista)

"Deus havia declarado com referência a Faraó: 'Eu endurecerei o seu coração, para que não deixe ir o povo' (Êxodo 4:21). Não houve o exercício de poder sobrenatural para endurecer o coração do rei. Deus deu a Faraó a mais notável prova do poder divino; mas o rei obstinadamente se recusou a atender à luz. Cada manifestação do poder infinito, por ele rejeitada, tornava-o mais resoluto em sua rebelião. As sementes de rebelião que semeara quando rejeitou o primeiro prodígio, produziram a sua colheita. Como ele continuasse a aventurar-se em sua conduta, indo de um grau de teimosia a outro, seu coração se tornou mais e mais endurecido... Deus fala aos homens por meio de Seus servos, dando avisos e advertências, e repreendendo o pecado. Dá a cada um oportunidade para corrigir seus erros antes que eles se fixem no caráter; mas, se alguém recusa ser corrigido, o poder divino não intervém a fim de contrariar a tendência de sua ação. Essa pessoa acha mais fácil repetir a mesma conduta" (Ellen G. White - Patriarcas e Profetas, p. 186).

segunda-feira, 21 de julho de 2025

A VIDA É CURTA PARA SER ESBANJADA

Nosso tempo pertence a Deus. Cada momento é Seu, e estamos sob a mais solene obrigação de aproveitá-lo para Sua glória. De nenhum talento que nos concedeu requererá Ele mais estrita conta do que de nosso tempo. Cristo considerava precioso todo momento, e assim devemos considerá-lo.

A vida é muito curta para ser esbanjada. Temos somente poucos dias de graça para nos prepararmos para a eternidade. Não temos tempo para dissipar, tempo para devotar aos prazeres egoístas, tempo para contemporizar com o pecado. Agora é que nos devemos formar o caráter para a futura vida imortal.

O tempo esbanjado nunca poderá ser recuperado, porém. Não podemos fazer voltar atrás nem sequer um momento. A única maneira de podermos remir nosso tempo consiste em utilizar o melhor possível o que nos resta, tornando-nos coobreiros de Deus em Seu grande plano de redenção. A vida é muito solene para ser absorvida em negócios terrenos e temporais, em um remoinho de cuidados e ansiedades pelas coisas terrenas que são apenas um átomo em comparação com as de interesse eterno.

A vida é muito curta para ser esbanjada em diversões inúteis e frívolas, em conversação sem proveito, em adornos desnecessários para ostentação ou em entretenimentos excitantes. Não nos podemos dar ao luxo de desperdiçar o tempo que Deus nos dá para beneficiar a outros e ajuntar para nós mesmos um tesouro no Céu. O tempo é escasso para o desempenho dos deveres necessários. Devemos reservar tempo para o cultivo de nosso coração e mente, a fim de habilitar-nos para o trabalho de nossa vida.

A vida é demasiado curta, demasiado cheia de aflição. Não temos tempo de sobra para magoar algum coração ferido e tentado. Seja cada qual bondoso e cortês para o outro. Nunca se ponha o Sol sobre a vossa ira. Nunca fecheis os olhos no sono sem endireitar as pequenas e insignificantes dificuldades que ferem e magoam a alma.

Curto é o tempo de que dispomos. Não podemos passar por este mundo mais de uma vez; tiremos pois, ao fazê-lo, o melhor proveito de nossa vida. A tarefa a que somos chamados não requer riquezas, posição social, nem grandes capacidades. O que se requer é um espírito bondoso e desprendido, e firmeza de propósito. Uma luz, por pequena que seja, se está sempre brilhando, pode servir para acender outras muitas. Nossa esfera de influência pode parecer limitada, nossa capacidade diminuta, escassas as oportunidades, nossos recursos reduzidos; no entanto, se soubermos aproveitar fielmente as oportunidades, maravilhosas serão nossas possibilidades.

Não façam cálculos para meses ou anos; eles não lhes pertencem. Um curto dia é o que lhes é dado. Como se fosse esse seu último dia na Terra, trabalhem para o Mestre durante as suas horas. Temos uma alma a ser salva ou perdida, e devemos perguntar com a maior sinceridade: "Que farei para obter a vida eterna?" No melhor dos casos, a vida é curta, e é necessário que vivamos esta curta vida em harmonia com a lei de Deus, a qual é a lei do Universo.

Deponham perante Deus todos os planos, para serem executados ou rejeitados, conforme o indique a Sua providência. Aceitem os Seus planos, mesmo quando sua aceitação exija a renúncia de projetos acariciados. Assim a vida será moldada cada vez mais segundo o modelo divino; e “a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (Filipenses 4:7).

Ore comigo: "Pai, sabemos que o tempo voa. Passa muito rápido! E às vezes não sabemos aproveitar cada dia que nos ofereces. Ao compreendermos que a vida é um sopro que logo se extingue, ajude-nos a aplicar cada minuto naquilo que realmente tem valor: o preparo para a eternidade. Por favor, Senhor, ensina-nos a contar os nossos dias! Em nome de Jesus, amém!"

Textos de Ellen G. White extraídos dos livros Parábolas de JesusFundamentos do Lar CristãoConselhos sobre Educação e Jesus, Meu Modelo.

sexta-feira, 18 de julho de 2025

COMO É O SEU DIÁLOGO CONSIGO MESMO?

Quando crianças, costumávamos caçoar daqueles que víamos falando sozinhos, não é certo? Ríamos e dizíamos que estavam ficando birutas! Porém, os psicólogos dizem que todas as pessoas fazem isso diariamente. Falamos conosco mesmos sem parar e o que nos dizemos afeta permanentemente nossos pensamentos, interpretações e comportamento. Guiamo-nos, humilhamo-nos, apoiamo-nos, criticamo-nos, motivamo-nos e duvidamos de nós mesmos nesse diálogo interior.

O que nos dizemos pode pressionar-nos, fazer-nos desmaiar, acalmar-nos ou fazer-nos vencer nossos temores. Suponhamos que você esteja procurando um emprego e lê um anúncio interessante. E agora, deve apresentar-se para a entrevista? Muito vai depender do que dirá a si mesmo. Se pensar: “Puxa, nunca conseguirei aquele emprego. Não há possibilidade alguma de me escolherem”, é quase certo que não fará qualquer tentativa a respeito. Porém, se disser: “Bem, esse é um desafio, mas acho que posso conseguir. Vou tentar”, o modo positivo de encarar a situação vai encorajá-lo a marcar a entrevista.

Por estranho que pareça, a conversa consigo mesmo é como uma profecia. Aquilo que por tanto tempo você pensa que irá acontecer, acaba se concretizando.

Como interpretamos os acontecimentos no autodiálogo
Outro fato interessante quanto à conversa consigo mesmo, é que ela afeta a maneira como interpretamos os acontecimentos. Muitos entendem que tudo o que acontece em sua vida faz com que se sintam zangados, ofendidos, abatidos ou ansiosos. Graças ao trabalho de Albert Ellis, Aaron Back e Daniel Melchenbaum, só para mencionar uns poucos, sabemos que é nossa atitude mental diante das ocorrências da vida, o que realmente produz reações diante de qualquer situação.

Por exemplo, um rapaz traz para a namorada uma dúzia de rosas vermelhas. Ela o observa chegando e pensa: “Ele realmente me ama. Sou preciosa para ele. Ele se lembrou do meu aniversário!” Qual, você pensa, será sua reação? Positiva, sem dúvida. Mas, por outro lado, suponhamos que ela diga a si mesma: “Esse sujeitinho! Ele sabe que descobri que ele tem saído com a Patrícia e agora traz flores para me agradar! Não quero mais nada com ele!” Como a namorada irá enfrentá-lo agora? Provavelmente de maneira pouco amistosa. Mesmo que ele diga, meloso: “Mas é somente a você que eu amo”, se ela não mudar de ideia a seu respeito, a reação será negativa.

Se ela ficará deprimida ou não vai depender do que dirá a si mesma. Imaginemos que cisme: “Eu não sirvo para nada. Ninguém gosta de mim e é por isso que ele está saindo com outra”, então é quase certo que tal pensamento diminuirá seu amor-próprio, e possivelmente lhe trará uma depressão. Se, contudo, diz a si mesma, “Alegro-me por ter descoberto como ele é. Mereço algo melhor. Estou disposta a esperar por alguém que me ame como mereço”, então poderá esquecer mais rapidamente o acontecido.

Você percebeu que não é propriamente o evento que afeta os sentimentos, porém o que cremos e nos dizemos sobre ele.

Conversa interior negativa
Uma das histórias bíblicas que ilustra quão poderosa é a conversa consigo mesmo acha-se em I Reis 18 e 19. Nela Deus pede a Elias para confrontar o Rei Acabe, a Rainha Jezabel e seus 450 profetas de Baal, a fim de pôr às claras quem era mais poderoso – Baal ou o Deus de Israel. Após um longo dia, depois de observar os profetas de Baal gritarem e suplicarem a seu deus sem êxito, Elias entra em cena e faz uma oração simples. Subitamente, o sacrifício que havia sido encharcado com água é devorado por um raio do céu. Tão logo Elias orou pedindo que a seca de três anos terminasse, os céus “se enegreceram com nuvens e vento, e veio uma grande chuva” (I Reis 18:45).

Que dia vitorioso para o profeta e todos os adoradores de Deus! O poder divino se manifestou diante de todos. Mas é estranho que logo depois desse triunfo, Elias ficou tão temeroso diante de Jezabel que não somente fugiu para o deserto para se esconder, como também desejou a morte: “Toma agora a minha vida” (I Reis 19:4). Isso parece incrível! Como pôde Elias num minuto ter experimentado o grande poder de Deus, e em seguida fugir amedrontado?

Esse é um bom exemplo de uma irracional conversa interior. Provavelmente Elias tenha cogitado: “É melhor eu sair daqui. Jezabel vai me matar. E se Deus não puder me ajudar? Estou perdido!” Embora o profeta estivesse cercado por patentes mostras do poder de Deus, sua conversa negativa o derrotou.

Fugindo do negativo
Graças a Deus podemos livrar-nos da conversa interior negativa e fazer com que nossos pensamentos trabalhem a nosso favor, e não contra nós. Como? Experimente estes cinco passos:

 Ouça sua conversa interior e treine-se para ouvir os exatos pensamentos que produzem suas emoções. Visto que nossas atitudes e crenças se desenvolvem através da vida e, por vezes, resultam do feedback que recebemos de pessoas queridas, professores, amigos, etc., elas tendem a ocorrer num nível inferior de consciência. Sintonizando os pensamentos, identificando-os e avaliando-os, podemos decidir como vamos reagir a uma determinada situação. Podemos mudar os pensamentos que nos levam ao fracasso somente se primeiro os reconhecermos. Se você não os identificar, eles continuarão a dominar sua mente.

 Identifique as mensagens desfavoráveis em seu diálogo interno. Esclareça o que está desvirtuando e debilitando seus pensamentos. Palavras-chaves como “nunca”, e “sempre” são absolutas. Afirmações como “Nunca entrarei no time” ou “Sou sempre um fracasso”, não somente são destrutivas como também irracionais. Suponhamos que você queira praticar um novo tipo de esporte – esquiar, por exemplo. Se cai com frequência, tende a ficar frustrado. Em sua conversa interior você poderá ouvir o corpo dizer que está fora de forma e que devia se preparar melhor para o que pretende. Não é assim? Se é, faça algo a respeito. Fique nos declives mais fáceis, tome lições de esquiação, adote um plano diário de treinamento. Caso porém, ao ouvir a conversa interior, disser a si mesmo: “Sou burro e nunca aprenderei a esquiar”, isso está indicando que você impôs barreiras ao próprio sucesso.

 Procure livrar-se das palavras negativas, dizendo a si mesmo: “Chega!” Esse posicionamento o ajudará a escapar do ciclo negativo no qual provavelmente se encontra. Quanto mais cedo puder excluir essas atitudes, tanto melhor.

 Substitua a conversa negativa por posturas positivas. Inserir o positivo tão depressa quanto possível é a chave. Por exemplo, se você se apanhar dizendo: “Nunca passarei no exame”, interrompa esse pensamento negativo imediatamente e substitua-o por outro mais racional e correto, tal como, “Posso passar se me preparar adequadamente para o exame. Não sou bobo. Já passei em outras provas. Vou começar a estudar neste minuto”. Esse pensamento não somente é mais verdadeiro, como também substitui a atitude negativa por uma positiva e produtiva.

 Mantenha um relacionamento íntimo com Deus, permitindo que Ele habite em você, de modo que Sua paz e palavra estejam no interior do coração, “em toda sabedoria” (Colossenses 3:16). Uma vida dedicada a Deus motiva-nos a dizer: “Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20), e mostra que escolhemos ser influenciados por Sua Palavra. Ao passo que os pensamentos de outras pessoas têm origem em suas próprias mentes e são afetados por si mesmas e por outros, os cristãos creem que podem ser influenciados pela conversa interior que tem sua origem no reino espiritual. Em outras palavras, a mente humana pode achar novos recursos em Deus, o qual tem condições de direcionar e aprimorar o diálogo interior. Pensamentos como “Não sou bom para nada” podem ser transformados em “Deus me ama tanto que enviou Seu Filho para morrer em meu lugar e conceder-me vida eterna. Sou valioso para Ele” (João 3:16). Mensagens do tipo “estou só e não tenho ninguém” podem ser trocadas pelas confortadoras palavras de Cristo: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós” (João 14:18).

Os pensamentos de Paulo, quando compreendidos à luz da importância de uma conversa interior positiva, revestem-se de um novo significado: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama — se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai... e a paz de Deus que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (Filipenses 4:8-9, 7).

Repetindo esses passos, você poderá adquirir o hábito de pensar positivamente. Seja paciente consigo mesmo. Pode levar semanas ou meses a refutação de seu repertório de mensagens negativas. Identificar essa espécie de “endoutrinação própria” e substituí-la por um diálogo interior mais saudável tomará algum tempo, assim como demanda tempo romper com um velho hábito. Pode exigir muito esforço, mas no fim valerá a pena. Você ficará surpreso de como se tornará mais eficiente cada dia, desfrutando uma vida mais saudável, mais feliz e produtiva.

Nancy J. Carbonell (via Diálogo Universitário)

Nota do blog: Vejamos também esses preciosos conselhos de Ellen G. White:

"Precisamos de um constante senso do enobrecedor poder dos pensamentos puros, e da danosa influência dos pensamentos maus. Ponhamos nossos pensamentos em coisas santas. Sejam eles puros e verdadeiros, pois a única segurança para qualquer pessoa é o pensar correto. Devemos usar todos os meios que Deus pôs ao nosso alcance, para o governo e o cultivo de nossos pensamentos. Devemos pôr a mente em harmonia com a mente divina. Sua verdade nos santificará, corpo, alma e espírito" (Carta 123, 1904).

"Ninguém senão vós mesmos podereis dominar vossos pensamentos. Na luta para alcançar a mais elevada norma, o êxito ou o fracasso depende muito do caráter, e da maneira por que são disciplinados os pensamentos. Caso estes estejam bem cingidos, como Deus determina que o sejam dia a dia, estarão nos temas que nos ajudarão no sentido de maior devotamento. Se os pensamentos são justos, então, em resultado, as palavras o serão também; as ações serão de natureza a trazerem alegria e conforto e serenidade a outros" (Nossa Alta Vocação, p. 112).

“Mais precioso do que as barras de ouro de Ofir é o poder do pensamento positivo. Precisamos dar elevado valor ao controle correto de nossos pensamentos, pois tal controle nos prepara para trabalhar pelo Mestre. É necessário para a nossa paz e felicidade nesta vida que nossos pensamentos se centralizem em Cristo. Como o homem imagina em sua alma, assim ele é” (Refletindo a Cristo, p. 300).

quinta-feira, 17 de julho de 2025

MILHÕES DE PERDIDOS DENTRO DA IGREJA

“Crer em Deus” não é algo incomum. Periodicamente pesquisas são feitas em relação à crença religiosa. Com leves alterações, os resultados são praticamente os mesmos. Em geral, cerca de 90% dizem que “acreditam” em Deus. A maioria, contudo, não sabe muito bem no que crê. Alguns se referem a “um poder” ou “ser superior”, ou “o grande espírito”. Em linguagem irreverente, alguns fazem referência ao “cara lá de cima”. Crer em Deus é um grande negócio e boa política. Qual foi a última vez que você ouviu um político dizer que é ateu? A questão real, contudo, é que diferença tal crença faz na vida dos que dizem crer nEle?

Mais perturbador ainda seria saber até que ponto pessoas que se dizem cristãs são realmente afetadas em termos de compromisso com sua fé. Em 1940, Rod Bell, presidente da Comunidade Batista Fundamental, considerava que apenas 50% dos evangélicos norte-americanos poderiam ser seriamente considerados cristãos. Um pouco mais tarde, Bob Gray julgava que 75% dos cristãos batizados estão perdidos. Wallie Amos Criswell afirmou que estaria grandemente surpreso se ele encontrasse 25% dos cristãos no Céu, e Billy Graham, o famoso evangelista, alguns anos atrás, elevou o índice dos perdidos dentro das igrejas para 85%. Mais recentemente ainda, Aiden Wilson Tozer, outro destacado pastor norte-americano, subiu esse percentual para 90%. E vejam também esta forte declaração de Ellen White: "É uma solene declaração que faço à igreja, de que nem um entre vinte dos nomes que se acham registrados nos livros da igreja, está preparado para finalizar sua história terrestre, e achar-se-ia tão verdadeiramente sem Deus e sem esperança no mundo, como o pecador comum" (Eventos Finais, p. 172). 

Se a percepção desses líderes religiosos está correta, estamos diante de uma grande tragédia. Milhões de perdidos dentro da igreja! A questão se torna mais complexa quando pensamos em termos da pregação do evangelho. Como os perdidos dentro da igreja partilharão o conhecimento de Cristo com os perdidos de fora da igreja?

Qual é a explicação para tal fenômeno? Certamente a lista de razões poderia ser extensa e variada. Ellen White, entretanto, colocou o indicador num ponto muito sensível, que nos deveria fazer pensar seriamente: “Lembrem-se os pastores e o povo de que a verdade do evangelho, quando não salva, leva à ruína. A pessoa que se recusa a escutar dia a dia os convites da misericórdia, cedo poderá ouvir os mais urgentes apelos sem que uma emoção lhe agite o coração” (Testemunhos Para a Igreja, v. 5, p. 134). Portanto, "hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração" (Hebreus 3:7, 8).

Outro alerta importante encontramos em Apocalipse 3:14-22. A mensagem de Jesus aos cristãos em Laodiceia é uma impressionante acusação, e é aplicável ao povo de Deus no tempo presente. A igreja de Laodiceia simboliza a situação espiritual da igreja de Deus perto do fim da história da Terra. Vejamos o que Ellen White diz: "Que maior ilusão pode sobrevir ao espírito humano que a confiança de se acharem justos, quando estão totalmente errados! A mensagem da Testemunha Verdadeira encontra o povo de Deus em triste engano, todavia sinceros em seu engano. Não sabem que sua condição é deplorável aos olhos de Deus. Ao passo que aqueles a quem se dirige se lisonjeiam de achar-se em exaltada condição espiritual, a mensagem da Testemunha Verdadeira derriba-lhes a segurança, com a assustadora acusação de seu verdadeiro estado de cegueira espiritual. Foi-me mostrado que a maior causa de o povo de Deus se achar agora nesse estado de cegueira espiritual é o não receberem a correção. Muitos têm desprezado as reprovações e advertências que lhes foram feitas. A Testemunha Verdadeira condena o estado morno do povo de Deus, o qual dá a Satanás grande poder sobre eles, neste tempo de espera e vigilância" (Testemunhos Seletos, vol. 1, pp. 327-333).

Gostaria também de fazer algumas sugestões para sua vida espiritual, com aplicações práticas, e ao mesmo tempo convidar você a pensar nelas seriamente. A vida cristã não é nenhum piquenique. Os cristãos devem ter consciência disso e se portar de forma adulta diante das dificuldades.

1. Seu tamanho será avaliado pelo tamanho do obstáculo capaz de desencorajá-lo.

2. Planeje com antecedência. Um grande problema para os cristãos é que, em geral, eles deixam para tomar decisões espirituais no momento das crises e da tentação. Isso significa que, na maioria das vezes, já será muito tarde.

3. Apenas quando você se esquecer de si é que poderá realizar o que realmente será valioso e o fará ser lembrado. Jesus inverteu a pirâmide do poder, indicando que os verdadeiramente grandes são os que servem.

4. Não viva para impressionar. Busque influenciar: esse é o segredo das vidas úteis.

5. Muitos que planejam buscar a Deus às 11h morrem às 10h30. Portanto, tenha senso de urgência nas questões espirituais.

6. Não ore por fardos leves. Peça a Deus ombros fortes.

7. Infinitamente melhor que conhecer fatos sobre Deus é conhecê-Lo pessoalmente. Jesus chegou a dizer que esse é o princípio da vida eterna (Jo 17:3).

8. Experiência não é o que acontece com você, mas o uso que você faz daquilo que acontece com você.

9. Quando você estiver na direção errada, lembre-se: Deus permite retorno em qualquer ponto da estrada.

10. Para ouvir a voz de Deus, diminua o volume do mundo ao seu redor.

11. Mantenha a cabeça e o coração na direção certa, e você não terá que se preocupar com os pés.

12. Se você não evitar as iscas do diabo, terminará no anzol dele. Assim, aprenda a ver o tentador por trás das tentações.

13. Quando você tiver a “impressão” de que já sabe tudo, lembre-se de que isso é apenas impressão.

14. Quando Deus lhe parecer distante, pergunte-se: Quem se afastou?

15. Será difícil tropeçar se você se mantiver de joelhos.

16. Deus lhe dá oportunidades; o sucesso depende do uso que você faz delas.

Concluo com este alerta de Ellen White: "O fim está próximo, chegando-nos tão furtivamente, tão imperceptivelmente, tão silenciosamente, como os abafados passos do ladrão à noite, a fim de surpreender desprevenidos os dormentes, sem o devido preparo. Conceda o Senhor que Seu Santo Espírito sobrevenha aos corações que se encontram agora à vontade, para que não continuem por mais tempo dormindo como os outros, mas vigiem e sejam sóbrios" (Serviço Cristão, p. 30).

quarta-feira, 16 de julho de 2025

PONTUALIDADE NA IGREJA

“Que todas as coisas ocorram com decência e ordem” (1 Coríntios 14:40).

Nesses dias tão corridos em que vivemos quando é comum o “urgente” tomar lugar do “prioritário”, podemos facilmente ser levados a deixar de considerar que cada momento da vida é sumamente precioso, e que devemos ser mordomos cuidadosos no uso e administração do tempo que Deus nos concede. Paulo recomendou aos efésios: “Portanto, vede prudentemente como andais, não como néscios, mas como sábios, remindo o tempo, porquanto os dias são maus" (Efésios 5:15-16).

O nosso Deus permite que usemos o tempo para ganharmos o nosso sustento, para nosso descanso e lazer, para servirmos à sua igreja, para falarmos de Cristo e muito mais. Tudo isso nós fazemos em Sua presença como Seus adoradores. Entretanto, é fácil nos esquecermos de que o tempo não é nosso, mas sim um depósito que Ele nos confiou para administrarmos bem, como bons mordomos.

Temos muitos compromissos em nosso corrido cotidiano, e em sua grande maioria, precisamos ser pontuais e chegar no horário combinado. Nos mais variados aspectos, vivemos hoje a famosa “cultura do atraso”. Em relação aos cultos em nossas igrejas, é certo que um percentual de pessoas que têm o hábito de chegarem atrasadas perdem total ou parcialmente o precioso momento de louvor e adoração, que é tão importante como qualquer outro ato do culto ou da Escola Sabatina.

Muitas coisas que ocorrem na sexta-feira acabam influenciando na qualidade da observância do sábado. Quando recebemos o santo dia no devido espírito de adoração e reverência, isso se refletirá durante as horas sagradas. E um dos momentos mais tensos e complicados para muitas famílias é quando saem para a igreja. A maioria chega atrasada à Escola Sabatina ou ao Culto de Adoração. Muitos tentam encontrar as mais diferentes explicações. Realmente, para muitas pessoas isso é um verdadeiro desafio. O certo é que cada um deve buscar uma saída para esse dilema. A grande pergunta é: o que fazer? Onde está a causa do problema? 

Bem, vamos observar estas duas observações de Ellen White: “É uma triste falha o fato de muitos estarem sempre atrasados em relação ao tempo no sábado de manhã. São muito cuidadosos de seu tempo particular, e não se permitem perder uma hora sequer; mas o tempo do Senhor, do único dia dos sete que Ele reivindica como Seu, e pede que a Ele o devotemos, uma boa parte é dissipada em virtude de levantarem-se tarde da cama pela manhã. Estão desta forma roubando a Deus. Isto os leva a se atrasarem em tudo; produz confusão na família, resultando afinal em chegarem todos tarde à Escola Sabatina e talvez, ao culto. Mas por que não nos havemos de levantar com os pássaros e oferecer louvores e agradecimentos a Deus? Experimentai-o, irmãos e irmãs. Tende tudo preparado na véspera, e vinde prontamente para a Escola Sabatina e culto, e assim não apenas beneficiareis aos outros, mas recebereis ricas bênçãos” (Youth’s Instrutor, 19 de março de 1879).

"Pontualidade e decisão na obra e causa de Deus são muito necessárias. Atrasos são virtualmente defeitos. Os minutos são áureos e devem ser aproveitados da melhor das maneiras. Relações terrenas e interesses pessoais devem sempre ser secundários. Nunca deve a causa de Deus ser levada a sofrer em qualquer particular por causa de nossos amigos terrestres ou os mais queridos parentes" (Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, p. 598).

Cremos que, para muitos, essa é uma questão de oração. Para outros, é mais fácil. Basta ser mais cuidadoso com as claras orientações da Bíblia e do Espírito de Profecia. O certo é que, quando chegamos à igreja a tempo, isso se constitui num dos elementos favoráveis para uma adequada adoração. 

Ellen White também nos aconselha a começarmos na hora certa nossas reuniões: "As reuniões de conferências e oração não devem tornar-se tediosas. Todos devem estar prontos, se possível, na hora indicada; e se há retardatários, que estejam atrasados meia hora, ou mesmo quinze minutos, não se deve esperar por eles. Se houver apenas dois presentes, podem reclamar a promessa. A reunião deve ser iniciada na hora marcada, se possível, estejam presentes muitos ou poucos" (The Review and Herald, 3 de Maio de 1871).

Ellen White também cita a importância da pontualidade dos professores da Escola Sabatina: "Aqueles cujo dever é escolher professores, devem ser prudentes, não insistindo a que entrem para a escola os que não sejam aptos a exercer boa influência. Qual é o comportamento do professor? É pontual? É asseado? Essas qualidades merecem atenção, pois são essenciais ao professor. Como pode ele exigir da classe esses requisitos necessários, a menos que ela tenha um exemplo de pontualidade, asseio, compostura e ordem? Se o professor não está em seu lugar e a classe é deixada a recrear-se, se ele chega atrasado, entrando apressado e ofegante, essa influência conduz à desordem e falta de pontualidade" (Conselhos sobre a Escola Sabatina, p. 92).

Conscientes de que temos falhado muito na prática desta virtude, e que como cristãos precisamos vencer esta fraqueza, tomemos a firme decisão de vencer esta falha da nossa personalidade, dando assim um exemplo digno de uma organização onde impera uma perfeita ordem, por ser de origem divina. Considere a pontualidade como boa mordomia que agrada a Deus e contribui para encorajamento e prestígio dos que já são pontuais, exemplo aos que ainda não manifestam essa virtude cristã e, ainda, para edificação da igreja de Cristo. Que Deus nos auxilie a sermos bons mordomos sob a Sua graça e para a Sua glória. Pense nisso! O assunto é sério!

terça-feira, 15 de julho de 2025

MEU DÍZIMO

“Comprado com meu dízimo”. Essa foi a frase que encontrei escrita no vidro traseiro do meu carro num fim de sábado. Durante a manhã estive em um acampamento e à tarde fui participar em uma igreja. Cheguei com o carro tão empoeirado que nem estacionei em frente ao templo. No fim do programa, depois de atender várias pessoas, caminhei sozinho e cansado até o carro e me surpreendi com o que estava escrito. O carro, um dos primeiros que minha esposa e eu conseguimos comprar, era modesto. Pena que não pude explicar para o autor da frase como o automóvel fora comprado, quanto custara e de que maneira estava sendo pago!

Já se passaram muitos anos desde que isso aconteceu, mas ainda me incomoda pensar que alguns insistem em chamar de “meu dízimo” recursos que pertencem exclusivamente ao Senhor. Quando isso acontece, permitem que o inimigo transforme um poderoso remédio em um perigoso veneno. Afinal, o dízimo foi estabelecido não apenas para sustentar a obra do Senhor, mas especialmente como uma vacina contra o egoísmo. E como sublinhou Ellen White, o egoísmo é “a essência da depravação” (Mente, Caráter e Personalidade, v. 1, p. 30). Por isso, encarado de forma possessiva, o dízimo alimenta o egoísmo que deveria combater.

Dízimo não é recurso pessoal para ajudar a igreja ou sustentar pastores (Gn 14:18-20; 28:20-22; 2Cr 31:5, 6); é propriedade do Senhor para ser devolvido fiel e incondicionalmente a Ele (Nm 18:20, 21; Lv 27:32; Ml 3:8-10). Apesar desse conceito bíblico tão claro, alguns ainda encaram o dízimo apenas como um ato de generosidade pessoal. Por isso, perguntam “O que estão fazendo com meu dinheiro?”, insinuam que pastores e obreiros vivem às custas do sacrifício de membros fiéis, criticam a igreja quando os recursos não são usados da maneira que aprovam e ameaçam reter “seu” dízimo como forma de protesto.

Outras vezes, “meu dízimo” é usado para impor preferências particulares, tentando moldar nossa estrutura administrativa, líderes e pastores a uma visão pessoal. De um lado, alguns que têm uma situação financeira mais confortável buscam pastores e líderes que se identifiquem com seu nível social, financeiro e intelectual. De outro, irmãos que vivem com poucos recursos também querem pastores e líderes que tenham vida simples e experimentem as mesmas dificuldades. A igreja, porém, não é exclusividade dos mais pobres, nem propriedade dos mais ricos, mas um ambiente para todos. Líderes e pastores devem viver sem escandalizar os mais pobres, nem envergonhar os mais ricos, tornando-se sempre um ponto de equilíbrio. Por isso, a igreja oferece aos pastores um nível médio de vida, de modo que eles vivam com dignidade.

O assunto é sensível e deve ser avaliado com oração e responsabilidade. Assim como Deus espera visão correta e sólida fidelidade de cada membro da igreja, os pastores e líderes também precisam ser cuidadosos no uso dos recursos que o Senhor lhes confia, aperfeiçoando criteriosamente seus controles e priorizando os investimentos na missão. Devem se lembrar de que, além de relatórios apresentados à igreja, prestarão contas diretamente a Deus.

Dizimar não tem que ver com “o ato de deixar uma gorjeta sobre a mesa de Deus”, mas com “a confissão de uma dívida impagável contraída no Calvário”, como ilustrou o teólogo Paul S. Rees.

Erton Köhler (via Revista Adventista)

segunda-feira, 14 de julho de 2025

A IGREJA E A LIBERDADE DE PENSAMENTO

O escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro O Pequeno Príncipe, deu à liberdade de pensamento uma condição exclusiva: “Só conheço uma liberdade, e essa é a liberdade de pensamento”, afirmou. É uma frase oportuna para ser lembrada neste 14 de julho, Dia Mundial da Liberdade de Pensamento. A data remete à Queda da Bastilha, evento central da Revolução Francesa, que marcou o fim do absolutismo que regia privilégios a uma monarquia associada ao clero. Em seguida, foi aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte da França a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

A liberdade de pensamento assegura a qualquer pessoa o direito de manter e defender sua posição sobre fatos, ideias, opiniões, independente das visões dos outros. "Todas as pessoas têm direito à liberdade de pensamento, consciência e religião", descreve a Declaração Universal dos Direitos Humanos, no artigo 18.

Liberdade de Pensamento e a Igreja
Historicamente, a Igreja Adventista do Sétimo Dia se posicionou a favor da liberdade de pensamento. E entende as conexões que existem entre esta e outras liberdades - como a liberdade religiosa e de consciência. Compreende, ainda, que é preciso defender este direito para todas as pessoas. Ellen White observa esse ponto citando o exemplo dos puritanos, comunidade protestante perseguida na Inglaterra do século 17, por suas convicções religiosas e seu pensamento acerca da forma como a monarquia se relacionava com as confissões.

Perseguidos, eles encontraram liberdade para se estabelecer nos Estados Unidos. Mas falharam em compreender o aspecto central da liberdade: não deve ser um privilégio de um grupo, mas um direito de todos. “A liberdade que eles sacrificaram tanto para assegurar para si mesmos, não estavam igualmente dispostos a conceder a outros”, escreveu Ellen White, no livro O Grande Conflito. Ela ainda criticou as relações que passaram a ter com o Estado, buscando favorecimentos. “O regulamento adotado pelos primeiros colonos, de permitir que apenas membros da igreja votassem ou ocupassem cargos no governo civil, levou aos resultados mais perniciosos. Essa medida foi aceita como meio de preservar a pureza do estado, mas resultou na corrupção da igreja”, descreveu.

Em 21 de junho de 1889, os pioneiros adventistas fundaram nos Estados Unidos a Associação Nacional de Liberdade Religiosa. Eles assinaram uma Declaração de Princípios que incluía esta afirmação: “Acreditamos que é o certo e que deve ser o privilégio de todo homem adorar de acordo com o que dita a sua própria consciência”. A Igreja publicou, então, sua primeira declaração de liberdade religiosa e organizou o departamento de Assuntos Públicos e Liberdade Religiosa. Desde então, esse tem sido um tema importante para a denominação. Em 1893, a Associação Internacional de Liberdade Religiosa (Irla) foi organizada e patrocinada pela Igreja Adventista do Sétimo Dia.

A liberdade religiosa pode ser definida como o direito que cada um tem de praticar ou expressar livremente uma religião ou convicção, segundo os ditames de sua própria consciência. É uma questão de foro íntimo, inerente ao próprio conceito de dignidade, que hoje assume como princípio supremo da constituição de um Estado Democrático de Direito. A liberdade religiosa garante o direito de consciência, crença, culto e evangelização, assim como o direito de não crer. Ao permitir o amplo e irrestrito exercício da liberdade de crença, garante-se a plena concretização da dignidade humana, valor máximo inerente ao exercício de todos os valores individuais e coletivos. Segundo Günter Dürig, “cada ser humano é humano por força de seu espírito, que o distingue da natureza impessoal e que o capacita para, com base em sua própria decisão, tornar-se consciente de si mesmo, de autodeterminar a sua conduta, bem como de formatar a sua existência e o meio que o circunda” (A eficácia dos direitos fundamentais, 9ª ed [Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2008]).

Vale lembrar o que Martinho Lutero escreveu em seu pequeno livro Da Liberdade do Cristão (1520): “O cristão é um senhor livre de todas as coisas e não está sujeito a ninguém. O cristão é servo de todas as coisas e está submisso a todos.” Esse paradoxo é expresso também pelo apóstolo Paulo: “Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos” (1Co 9:19). Como pessoas livres em Cristo, precisamos levar a liberdade a todos, em todos os níveis. Deus nos liberta para ajudarmos o mundo a descobrir o que significa ser livre.