Há anos, a psicologia social e estudos em mídia mostram: emoções fortes como raiva, moralismo e medo geram mais reações do que fatos moderados ou argumentos ponderados. Postagens com carga moral tendem a viralizar, independentemente da veracidade ou profundidade. Essa dinâmica foi anteriormente chamada de “outrage porn” ou “engagement farming”.
Hoje, devido aos algoritmos sofisticados, essa tendência se tornou sistêmica e automática. As plataformas não precisam “decidir” por nós. Os sistemas avaliam o engajamento e impulsionam o conteúdo com melhor desempenho, que, frequentemente, é aquele capaz de gerar maior indignação.
“Rage bait” (traduzido como “isca da raiva”) é o nome que se dá ao conteúdo projetado para despertar indignação instantânea. Não para informar ou inspirar, mas para fisgar emocionalmente. Em 2025, a Oxford University Press escolheu esse termo como a Palavra do Ano, reconhecendo que essa estratégia se tornou o motor central das redes sociais.
Isso exige pausa e reflexão. Pois, quando uma palavra que descreve manipulação emocional em massa se torna o marco do ano, significa que o problema já saiu do controle. “Rage bait” tornou-se a palavra do ano porque grita uma realidade: a internet se transformou de uma ferramenta de curiosidade e descobertas para um tipo de consumo emocional.
O funcionamento é simples e brutal: quanto mais irritado você fica, mais tempo passa na tela e, consequentemente, mais dinheiro as plataformas ganham. Não importa o seu posicionamento, importa o quanto você reage.
A forma de funcionamento das redes sociais transformou a raiva em um ativo econômico. Cliques motivados pela indignação geram receita publicitária, produzem mais dados e ampliam o alcance dos conteúdos. Sem nenhum compromisso ideológico, o sistema é movido pela atenção, e descobriu-se na indignação a forma mais eficaz de mantê-la.
Estejamos atentos!
Quando a raiva é transformada em argumento, acontece uma mutação espiritual grave: impaciência torna-se “zelo”, a humilhação do outro vira “defesa da fé”, o tribalismo se apresenta como “convicção” e o ódio passar a ser “coragem moral”.
Nesse processo, a essência do Evangelho se perde, enquanto o algoritmo assume o papel de um falso profeta, premiando quem grita mais alto. A pergunta central já não é “isso é verdade?”, mas “isso viraliza?”.
Estrutura de manipulação
Esse fenômeno não é casual, e três observações revelam o cenário:
1. A Oxford ter escolhido o termo como Palavra do Ano indica que a prática é global e dominante.
2. O próprio conceito nasceu porque as plataformas estão otimizadas para estimular a indignação, e isso molda o que vemos e o que somos atraídos a consumir.
3. A polarização crescente, que destrói famílias, igrejas e democracias, não surge dos argumentos, mas da estrutura que os amplifica. É um subproduto da nossa natureza impulsiva sendo alimentado de volta a nós. O desejo por consumo e vingança se uniram de forma marcante.
Quando o design de plataformas privilegia o conflito, o mundo inteiro passa a interpretar o próximo como inimigo.
Engajamento pré-programado
Enquanto as pessoas acham que estão “lutando pela verdade”, “defendendo valores” e “salvando o país”, na realidade estão frequentemente cumprindo o script de engajamento programado por alguém.
Se você se identifica como “politicamente ativo”, mas se alimenta de indignações fabricadas, é válido questionar: a quem você realmente serve? Se cada vez que você se revolta, a plataforma sorri, é sinal de que você está sendo instrumentalizado.
Não é sobre posicionamento político, mas sobre quem controla o seu gatilho emocional. O que é chamado de “engajamento cívico” pode ser, na verdade, apenas dopamina a serviço de uma estratégia de negócios.
Comportamento ético
Para quem acredita que fé, comunidade e ética devem construir pontes, e não muros, essa mudança é profunda e perigosa. O desafio agora não é sair da internet, mas recuperar o comando das próprias emoções e decisões.
Por isso, aqui vão algumas dicas:
- Antes de postar, respire.
- Antes de indignar-se, discirna.
- Antes de compartilhar, filtre.
- Antes de reagir, ore.
A “fé como bandeira política”, quando mobilizada não por convicção, mas por marketing espiritual, deixa de ser ministério e se torna um produto. A convergência entre Estado, identidade nacional e discurso religioso cria um terreno fértil para manipulação coletiva, tanto emocional, quanto espiritual. A polarização, nesse contexto, não é um acidente.
A fé infantiliza o pensamento quando se mistura à polarização induzida. Emoções turbulentas assumem o lugar do argumento, e a indignação vira rótulo de “espiritualidade comprometida”.
Quando Cristo esteve na Terra, Ele não viralizou. Mas, sim, transformou. Nosso papel não é ganhar discussões, mas recuperar consciências.
Se “rage bait” define 2025, que a nossa resposta defina a eternidade em nós. Pois a fé não prospera na raiva, mas na lucidez.
O conceito agora tem nome oficial. O desafio é não morder a isca.
Diego Barreto (via Notícias Adventistas)
