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sexta-feira, 8 de março de 2024

FEMINISMO E CRISTIANISMO PODEM ANDAR JUNTOS?

O feminismo deve ser entendido como um conjunto de teorias que, segundo as feministas e intelectuais, dividiram a história do movimento em quatro momentos: o primeiro refere-se fundamentalmente à conquista do sufrágio feminino durante o 
século 19 e início do 20, com movimentos preocupados principalmente com o direito da mulher ao voto. O segundo grande movimento diz respeito às ideias e ações associadas com os movimentos de liberação feminina iniciados na segunda metade da década de 1960, que lutaram pela igualdade jurídica e social das mulheres. O terceiro grande momento, iniciado na década de 1990, pode ser considerado uma continuação e uma reação às falhas do segundo movimento. O quarto momento refere-se ao ressurgimento do interesse no feminismo iniciado por volta de 2012 e associado ao uso das redes sociais. O foco do quarto movimento é a busca pela justiça para as mulheres e a oposição ao assédio sexual e à violência contra a mulher.

Vamos somente analisar os movimentos de emancipação feminina que compuseram a primeira onda do feminismo, e também destacar a herança religiosa de alguns personagens que protagonizaram o início do feminismo.

A primeira onda do feminismo se refere a um período extenso de atividade feminista ocorrido durante o século 19 e início do século 20, no Reino Unido e nos EUA, que tinha o foco originalmente na promoção da igualdade nos direitos contratuais e de propriedade para homens e mulheres, e na oposição de casamentos arranjados e da propriedade de mulheres casadas (e seus filhos) por seus maridos. No entanto, no fim do século 19, o ativismo passou a se focar principalmente na conquista de poder político, especialmente o direito ao sufrágio por parte das mulheres.

No Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, as sufragistas fizeram campanha pelo voto da mulher. Em 1918, o Representation of the People Act foi aprovado, concedendo o voto às mulheres acima de 30 anos de idade que possuíssem uma ou mais casas. Em 1928, este direito foi estendido a todas as mulheres acima de vinte e um anos de idade. 

Há uma inegável relação entre o desenvolvimento do feminismo e o crescimento do “cristianismo sectário” nos EUA do século 19, sendo os Quakers o grupo igualitarista mais representativo dentre os protestantes. Os Quakers são um movimento religioso de tradição protestante fundado pelo inglês George Fox em 1652. Destacaram-se como pacifistas, abolicionistas e igualitaristas de gênero. Lideraram e se envolveram em movimentos contra o tráfico de escravos e a escravidão, pela reforma das prisões, pela abolição da pena de morte e contra as guerras entre nações. Para os Quakers, a dominação masculina era uma manifestação do pecado, e a igualdade entre homens e mulheres restaurada em Cristo, que ordenou que homens e mulheres fossem anunciadores proféticos do evangelho.

Nos EUA, líderes deste movimento incluíram mulheres que haviam todas lutado pela abolição da escravidão antes de defender o direito das mulheres ao voto; todas eram influenciadas profundamente pelo pensamento Quaker, fruto de esforços e ideias cristãs. Vejamos uma lista de algumas das pioneiras mais importantes do movimento:

- Susan Brown Anthony, um dos nomes mais importantes da primeira onda do feminismo, era uma cristã Quaker. Foi presa por votar em 1872, quando não era permitido, e em 1890 organizou em Washington a primeira convenção para o voto feminino. Sua atuação foi tão destacada que a emenda permitindo o voto feminino nos Estados Unidos recebeu seu nome: Emenda Anthony.

- Sojourner Truth, ex-escrava, abolicionista e pregadora cristã. Após fugir do seu dono com a filha bebê em 1826, e deixar para trás os outros quatro filhos, ela viveu durante algum tempo com uma família Quaker que lhe deu a única educação que recebeu na vida. Foram eles que também a ajudaram a recuperar um dos seus filhos. Posteriormente ela se converteu ao cristianismo e viajou pelo país para ajudar nas causas abolicionistas e promover os direitos das mulheres.

- Abigail Quincy Smith Adams, primeira dama dos EUA (foi esposa do presidente John Adams), era de família Quaker, filha de um ministro Quaker, que posteriormente tornou-se cristã unitariana. Em 1776, através de cartas, ela pressionou seu marido, congressista na época, para a criação de leis igualitárias que beneficiassem as mulheres. Apesar de não terem dado resultado, essas cartas são um dos primeiros documentos conhecidos pedindo direitos iguais para as mulheres.

- As irmãs Sarah e Angelina Grimké foram uma das primeiras mulheres americanas a defenderem a abolição da escravatura e os direitos das mulheres no século 19, e o igualitarismo cristão Quaker foi um fator motivador essencial para elas. O livro de Sarah, Letters on the Equality of the Sexes and the Condition of Woman, publicado em 1838, foi a primeira argumentação pública de grande alcance em favor dos direitos das mulheres.

- Harriet Bishop, importante sufragista, foi missionária e professora batista.

- Lucy Stone, sufragista e defensora dos direitos femininos, era cristã fortemente influenciada pelo pensamento igualitário. Fez seu primeiro discurso feminista no púlpito da Igreja Evangélica Congregacional em 1847.

- Elizabeth Cady Stanton, uma das mulheres mais importantes da primeira onda do feminismo, era da Igreja Episcopal.

- Anna Elizabeth Dickinson, quaker, republicana, abolicionista, sufragista, foi a primeira mulher a fazer discurso político no congresso americano.

- Lucretia Mott, grande ícone do feminismo americano, era ministra Quaker ordenada (pastora).

- Outros nomes: Amélia Bloomer (episcopal), Alice Paul (quaker), Isabella Ford (quaker), Elise Boulding (quaker).

Elizabeth Cady Stanton, Amelia Bloomer, Sojourner Truth, e Harriet Ross Tubman estão no calendário de santos da Igreja Episcopal. Sim, uma igreja dedica um dia no ano (20 de junho) para homenagear como santas, pioneiras do movimento feminista.

O cristianismo dessas mulheres não é coincidência e nem um detalhe insignificante. Muitas delas agiram movidas exatamente por princípios cristãos. 

Muitas mulheres sufragistas dos EUA faziam parte do grupo cristão protestante Woman's Christian Temperance Union, a primeira grande agremiação de mulheres a promover esforços organizados em prol de reformas sociais nos EUA. Esse grupo foi a maior e mais influente associação de mulheres que existira até então. A organização do grupo e a mobilização de mulheres em torno de causas sociais contribuíram para o maior envolvimento feminino na política. Ellen G. White tinha uma visão positiva do ativismo desse grupo, e escreveu algumas cartas recomendando cooperação. Vejamos alguns trechos destas cartas: 

"A União de Temperança das Mulheres Cristãs é uma organização com cujos esforços para disseminação dos princípios de temperança, podemos unir-nos de boa vontade. Foi-me mostrado que não nos devemos manter afastados delas mas, conquanto não deva haver sacrifício de princípios de nossa parte, devemos o quanto possível unir-nos com elas no trabalho de reforma de temperança. [...] Foi-me mostrado que não devemos esquivar-nos às obreiras da U.T.M.C. Unindo-nos com elas em favor da abstinência total, não mudamos nossa atitude quanto à observância do sétimo dia, e podemos mostrar nossa apreciação pela atitude delas relativamente à questão da temperança. Abrindo a porta, e convidando-as a se unirem conosco no assunto da temperança, granjeamos assim sua cooperação nesse sentido; e elas, unindo-se a nós, ouvirão novas verdades que o Espírito Santo está esperando para gravar nos corações. [...] Tenho tido algumas oportunidades de ver a grande vantagem a ser obtida mediante nossa ligação com as obreiras da U.T.M.C., e ficado muito surpreendida ao ver a indiferença de muitos de nossos dirigentes para com essa organização. Convido meus irmãos a despertarem" (Temperança, pp. 222-223). 

Portanto, se faz necessário destacar claramente o background religioso do movimento feminista e reivindicar a legitimidade de sua importância histórica. Muitos precisam saber que houve influência do cristianismo no início dos movimentos pelos direitos das mulheres.

Leia também o excelente artigo Cristianismo e Feminismo podem coexistir? de Vanessa Raquel Meira, que analisa mais profundamente este tema.

quinta-feira, 7 de março de 2024

A ATITUDE DE JESUS PARA COM AS MULHERES

Sua vida na terra foi breve – somente 33 anos e meio. Seu ministério foi ainda mais breve – apenas três anos e meio. Mas ninguém, com sua vida e ensinamentos, impactou tanto a história de uma maneira tão intensa quanto Jesus. O que Ele ensinou e o que fez alterou o curso da história e dramaticamente mudou e continua mudando milhões de vidas ao redor do mundo. Seus ensinamentos têm afetado cada aspecto da vida – religião, educação, trabalho, ética, saúde, justiça social, desenvolvimento econômico e as muitas artes e ciências do viver humano.

Uma faceta da missão de Jesus que é menos conhecida, mas digna de ser recapitulada, é Sua atitude para com as mulheres. Isto é particularmente importante à luz de como o mundo na época de Jesus tratava as mulheres. Romanos e gregos, judeus e gentios, davam às mulheres nada mais que a segunda classe, como se elas fossem prestativas ferramentas em uma sociedade de domínio machista – cozinhar, dar à luz e criar as crianças e desempenhar qualquer função que lhes estivesse designada dentro das paredes de sua casa. Casos individuais de liderança e valentia se destacam em vários lugares, mas muitas mulheres estavam sob o domínio dos homens. Elas eram consideradas uma propriedade, transferida de pai para marido. Em um mundo como aquele, Jesus veio e abriu novas perspectivas de igualdade e dignidade humanas. Ele se opôs às tradições e procurou direcionar os homens e as mulheres de volta ao plano original de Deus para a humanidade.

Este artigo revê brevemente a atitude de Jesus para com as mulheres em Seus ensinamentos e ministério que contrastou com as atitudes em relação à mulher no 1º século da sociedade judaica.

A posição da mulher na sociedade judaica
As sinagogas do primeiro século mantêm registros somente de homens. Homens e meninos podiam entrar nas sinagogas para adorar, mas para as mulheres e meninas havia uma divisória separada onde era permitido que elas se sentassem.

Salvação. A tradição afirmava que as mulheres não tinham direito à salvação por seus próprios méritos. A única esperança de salvação era se unir a um devoto homem judeu. As prostitutas eram excluídas porque não tinham esse vínculo, e viúvas precisavam ter sido casadas com um judeu piedoso para ter esse privilégio.

Associação em público. Um homem era proibido de falar com uma mulher em lugares públicos. Um rabi deveria ignorar uma mulher em público, mesmo se ela pacientemente persistisse em busca de algum urgente conselho espiritual.

Responsabilidade pelo pecado. Em um enterro, as mulheres caminhavam à frente do caixão. Elas eram consideradas responsáveis pelo pecado e, por isso, encabeçavam a procissão, levando a culpa pelo que havia acontecido. Os homens, não se sentindo responsáveis, caminhavam atrás do corpo.

Impureza. As mulheres eram consideradas cerimonial e socialmente impuras durante seu período menstrual. Durante sua menstruação, elas eram isoladas. Até mesmo aos membros da família não era permitido chegar perto para não serem contaminados.

Gravidez como chave de valor. Aos olhos da sociedade, o valor de uma mulher estava vinculado a sua habilidade de dar à luz. A esterilidade era um estigma social terrível. A responsabilidade da mulher era dar à luz bebês do sexo masculino que perpetuariam, desta maneira, o nome do pai.

Divórcio. Era privilégio do homem iniciar um processo de divórcio, o qual ele podia exercer baseado em considerações que hoje parecem frívolas e dignas de riso.

Posição legal. A palavra de uma mulher, num tribunal, precisava ser confirmada pelo menos por três homens, de outro modo, não tinha valor.

Educação. Não era permitido à mulher entrar em uma sinagoga para estudar; era considerado perda de tempo.

Religião. Não era permitido que as mulheres se aproximassem do Lugar Sagrado no templo. Na época de Jesus, havia um pátio no templo para as mulheres, localizado fora dos recintos reservados para sacerdotes e outros homens, e uns 15 degraus abaixo, que indicava a posição subordinada da mulher.1

Uma revolução silenciosa
Jesus não começou uma revolução aberta contra o sistema que colocava as mulheres em uma posição subordinada. Todavia, Sua vida fez um manifesto. “Não encontramos em nenhuma de suas ações, seus sermões ou suas parábolas nenhuma depreciação referente às mulheres, tais como podemos facilmente encontrar em qualquer de seus contemporâneos.”2

Considere alguns exemplos de como Jesus relacionou-Se com as mulheres.

- Jesus convidou as mulheres para serem Suas discípulas. Contrariando as expectativas contemporâneas, Jesus deu as boas-vindas às mulheres em seu círculo íntimo de discipulado (veja Lucas 8:1-3). Esta atitude contradisse as especulações rabínicas. As mulheres que seguiram a Cristo desprezaram os postulados da época. Elas se tornaram cuidadosas administradoras de seus recursos e apoiaram a missão de Cristo em momentos críticos (Lucas 8:13). “Uma coisa era as mulheres serem desobrigadas de aprender o Torah e proibidas de associar-se com um rabi, outra totalmente diferente era viajarem com um rabi e se responsabilizarem pelos assuntos financeiros.”3 Elas fizeram isso. Simplesmente revolucionário!

- Jesus aceitou a hospitalidade das mulheres e ensinou-as. O mais importante exemplo é aquele da associação com Maria, Marta e Lázaro. O Mestre encontrou descanso e companheirismo na casa deles (Lucas 10:38-42). Enquanto um rabi judeu quase não olhava para uma mulher, Jesus não hesitou em falar com Maria e Marta em público ou em ensinar-lhes as grandes verdades sobre a morte e ressurreição (veja João 11).

- Para Jesus, mulheres e homens eram igualmente importantes quando se tratava de ensinar sobre as boas-novas de Seu reino. Na época em que foi dito “é melhor queimar as palavras do Torah que confiá-las ao cuidado de uma mulher”,4 Jesus indicou que entre as escolhas abertas às mulheres, Maria “escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada” (Lucas 10:42 – NVI). Desta forma, mostrou que a educação não era para ser um monopólio dos homens e que as mulheres também tinham o direito de aproveitarem as oportunidades para se educarem.

- Outro exemplo da atitude diferente de Jesus para com as mulheres foi a revelação de Sua Missão a uma mulher. Na mais longa conversa registrada nos Evangelhos, Jesus revelou à mulher no poço samaritano (João 4:4-42) algumas das mais profundas doutrinas do reino: a natureza do pecado, o significado da verdadeira adoração, a disponibilidade de perdão para aqueles que se arrependem, a igualdade de todos os seres humanos independentemente de serem judeus ou samaritanos. Assim, em uma simples conversa no poço samaritano, Jesus rompeu dois preconceitos: de gênero e de raça.

- Jesus reconheceu que à vista de Deus a família de Abraão inclui filhos e filhas. Ao curar a mulher incapacitada por 18 anos, Jesus colocou Suas mãos sobre ela e afetuosamente a definiu como “filha de Abraão” (Lucas 13:10-17). Por usar esta designação, Jesus advertiu em público que as mulheres seguramente, tanto quanto os homens, herdam os direitos prometidos a Abraão, e à vista de Deus não há nem homem nem mulher. Em nenhuma parte da Bíblia está estabelecido que os homens têm vantagem sobre as mulheres em termos de acesso à salvação. Contrariamente às tradições rabínicas que ensinavam que as mulheres poderiam ser salvas somente pela união com um devoto homem judeu, Jesus convidou tanto homens quanto mulheres a se voltar para Deus e a aceitar o presente da salvação.

- Em outro caso, a defesa e o perdão de Cristo a uma mulher pega em adultério revelaram que Sua definição de pecado e provisão para salvação estabelecia tratamento igual a todos. Quando alguns líderes religiosos trouxeram perante Ele uma mulher pega em adultério, Cristo a defendeu. Ele sabia que os líderes judeus, ao fazer a acusação contra a mulher, estavam, eles mesmos, violando as leis de Moisés. A lei levítica estipulava que ambos, homem e mulher, deviam ser submetidos a julgamento em tais casos (Levítico 20:10), mas os críticos de Jesus trouxeram apenas a mulher, e não os homens envolvidos no suposto ato. A lei também requeria pelo menos duas testemunhas (Deuteronômio 19:15), mas os fariseus não levaram nenhuma. A resposta de Cristo não somente deu à mulher acusada o benefício da lei, mas também mostrou aos presentes que Seu evangelho de perdão, baseado no arrependimento, estava aberto a todos. Assim Ele disse esta notável frase: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (João 8:7). Em outras palavras, Jesus disse aos homens: se vocês têm coragem de acusá-la, primeiro olhem para vocês mesmos em um espelho.

- Jesus permitiu a uma mulher pecadora ungi-Lo. Quando Jesus foi convidado para uma festa na casa de Simão em Betânia, uma mulher conhecida no povoado por sua má reputação lançou-se aos pés de Jesus e o ungiu. Aqueles que estavam reunidos na festa, incluindo Seus discípulos, condenaram o incidente. Como era possível uma mulher pecadora tocar os pés do Messias, ungi-Lo e secar Seus pés com seus cabelos? Uma ofensa absoluta às tradições religiosas! Os que estavam ao redor de Jesus não podiam entender, muito menos aceitar, o ato de uma mulher ou a atitude de Jesus em permitir que ela fizesse o que fez. Mas Jesus disse que a mulher ao ungi-Lo fez uma bonita ação, mostrando às gerações futuras que, como ela, todos os pecadores podem ter a certeza da salvação ao ir até o Salvador e colocar sua vida a Seus pés, em rendição (Marcos 14:1-9; Lucas 7:36-50).

- Jesus usou homens e mulheres para simbolizar os atos de resgate de Deus. Em Lucas 15, Jesus contou três parábolas para ilustrar a profunda e eterna verdade da procura de Deus pela humanidade perdida. Ao passo que as parábolas da ovelha perdida e do filho pródigo ilustram a procura de Deus através de figuras masculinas, do cuidado do pastor e o amante pai, a parábola da moeda perdida revela a procura de Deus através da cuidadosa e persistente missão de uma mulher que não sossegou até encontrar a moeda e regozijar-se com seus amigos (Lucas 15:8-10). Para os ouvidos legalistas daquela época isto deve ter soado herético.

- Jesus dignificou as mulheres como primeiras testemunhas do maior evento da história humana – Sua ressurreição. As tradições rabínicas consideravam as mulheres como mentirosas por natureza. Conceito que advinha da reação de Sara ao ser dito que ela teria uma criança (Gênesis 18:9-15). No modo de pensar deles, a negação e o riso de Sara caracterizavam-se como uma mentira diante de Deus que sempre diz a verdade. Assim, por causa dela, todas as mulheres descendentes eram consideradas mentirosas.5 Nenhuma mulher era aceita como testemunha. Todavia, Jesus rejeitou esta perversa tradição e escolheu mulheres como as primeiras testemunhas de Sua ressurreição (Mateus 28:8-10), “constituindo-as não somente como as primeiras receptoras da mais importante mensagem do cristianismo mas as primeiras a proclamá-la”.6 Jesus reprovou os discípulos por não crerem no testemunho daquelas mulheres (Marcos 16:14) e desta maneira incentivou-os a rejeitarem os preconceitos do passado e caminharem à luz de Seu reino, no qual não há nem homem nem mulher.

Conclusão
No relato bíblico da vida de Cristo, “as mulheres nunca são discriminadas”.7 Não há nada que respalde a visão cultural e religiosa da Sua época que via a mulher como inferior. Pelo contrário, “a atitude e a mensagem de Jesus significaram uma ruptura com a dominante visão mundial”.8

Jesus “não identificou as mulheres em harmonia com as normas do sistema patriarcal de seu tempo nem tomou parte no sistema como era, por definição, repressivo para as mulheres”.9 Abertamente, mas sem fanfarra, Jesus proferiu um golpe mortal na praga da tradição que negava dignidade às mulheres. Através de Seu exemplo e ensino, Jesus reclamou para Seu novo reino as bênçãos de Sua criação original, a igualdade dos dois gêneros à vista de Deus.

Miguel Ángel Núñez (via Diálogo Universitário)

Referências
1. Joachim Jeremias. Jerusalén en Tiempos de Jesús: Estudio Económico y Social del Mundo del Nuevo Testamento. Madrid: Cristiandad, 1977. p. 97.
2. Marga Muñiz. Femenino Plural: Lãs Mujeres en la Exégesis Bíblica. Barcelona: Clie, 2000. p. 183.
3. Alcion Westphal Wilson. “Los discípulos olvidados: La habilitación del amor vs. el amor al poder”, en Bienvenida a la mesap. Langley Park, Maryland: TEAMPress,1998. p. 185.
4. Wilson. p. 180.
5. Wilson. p. 386.
6. Muñiz. p. 187.
7. Leonardo Boff. El Rostro Materno de Dios: Ensayo Interdiciplinar sobre lo Femenino y sus Formas Religiosas. Madri: Paulinas, 1988. p. 83. (Em português: O Rosto Materno de Deus. 9ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2003).
8. Boff. p. 84.
9. Muñiz. p. 18.

quarta-feira, 6 de março de 2024

O PODER DAS MULHERES NOS TEMPOS DA BÍBLIA

Não é de hoje que as mulheres lutam por direitos iguais, reconhecimento, espaço e respeito. No fim do século 19, elas começaram a se mobilizar, reivindicando o direito ao voto, educação e trabalho. Hoje, apesar de ainda existirem desigualdades entre os sexos, as mulheres têm desempenhado um protagonismo maior, ocupando posições de destaque em várias áreas.

O empoderamento feminino (para usar o neologismo que se popularizou nos últimos anos) é o tema do momento. Mas, embora a tendência da maioria das pessoas seja a de ver o protagonismo das mulheres como uma conquista recente do mundo ocidental, seu poder e influência também podem ser vistos em períodos anteriores. Apesar da imagem estereotipada que alguns têm da mulher na cultura dos tempos bíblicos, estudos etnográficos e arqueológicos recentes têm ajudado a desconstruir alguns mitos.

Na realidade, se quisermos ter uma compreensão mais ampla da condição da mulher no Antigo Testamento, precisamos considerar quanto do retrato feminino no período vem da Bíblia e de outras fontes primárias e quanto é fruto de pressuposições do mundo ocidental moderno.

Uma leitura superficial favorece um retrato limitado e distorcido da vida das mulheres no período monárquico de Israel. Por outro lado, se fizermos um estudo aprofundado, acompanhado de uma análise interdisciplinar, perceberemos que seu valor e influência foram muito além da esfera doméstica.

NA ESFERA DOMÉSTICA
Em um artigo publicado em março de 1991 na revista Biblical Archaeologist, Carol Meyers afirma que, na sociedade do Antigo Oriente Próximo, o contexto doméstico envolvia aspectos econômicos, sociais, educativos e até mesmo políticos e religiosos. Nessa cultura, a casa era economicamente autossuficiente e independente.

O retrato advindo do texto bíblico demonstra que a mulher era respeitada como autoridade dentro de casa. Um exemplo foi Abigail, esposa de Nabal, a quem seus servos informaram e obedeceram sem questionar, mesmo quando ela foi contra a determinação do próprio marido (1Sm 25:14, 18-19). Outra evidência da autoridade feminina tem que ver com o fato de que, na maioria dos casos, era ela quem escolhia o nome dos filhos.

Porém, o desenvolvimento histórico e o progresso tecnológico parecem ter mudado essa condição. De uma unidade doméstica economicamente independente, passou-se a valorizar o trabalho que resultava em maior contribuição econômica, algo que, nas sociedades modernas, sempre foi exterior ao âmbito doméstico e, ao longo dos séculos, tem sido dominado pelo sexo masculino. A partir do período helenístico, isso causou uma depreciação do poder econômico da mulher, diminuindo sua influência e autoridade dentro e fora da casa, conforme analisou W. C. Trenchard no livro Ben Sira’s View of Women: A Literary Analysis (1982, p. 57, 94).

Outro aspecto interessante é que, no contexto do Antigo Testamento, frequentemente as mulheres eram associadas ao preparo de alimentos. Tamar foi chamada para assar bolos para seu irmão Amnom (2Sm 13:8); a viúva de Sarepta estava prestes a preparar o último bocado de pão quando Elias foi ao seu encontro (1Rs 17:12). Esse era apenas um dos passos no complexo processo de produção do principal item da dieta israelita antiga. O relato bíblico indica que, no plantio e colheita, ambos os sexos tomavam parte (Rt 2:8-9). No entanto, segundo Carol Meyers, o processamento do grão e a produção do pão ficavam a cargo das mulheres (Rediscovering Eve: Ancient Israelite Women in Context, 2013, p. 128).

O fato de terem sido encontrados implementos e instalações para moer e assar em casas da época evidencia que o trabalho era feito no âmbito doméstico. Também foram achadas estatuetas e pinturas que retratam mulheres no processo de moer o grão e preparar a massa. Porém, durante o período helenístico, as ferramentas manuais começaram a ser substituídas por moinhos mais eficientes, movidos por animais. Por volta desse mesmo período, o pão passou a ser produzido fora de casa, em padarias especializadas, tirando das mãos das mulheres parte do valor econômico da produção de comida, além de isolá-las, já que a atividade geralmente era realizada com outras integrantes da comunidade.

A tecelagem também é retratada dentro e fora da Bíblia como uma atividade feminina desenvolvida em conjunto. Por demandar tempo e habilidade, tinha alto valor econômico (Pv 31:13, 19, 21-22, 24), que também diminuiu a partir do período helenístico, com a invenção tecnológica do tear duplo.

FORA DE CASA
Em 1 Samuel 8, por exemplo, vemos que o trabalho da mulher não estava limitado ao âmbito doméstico. De acordo com Nahman Avigad, diversos selos encontrados por aqueólogos estampavam nomes de mulheres, o que oferece pistas de seu papel em transações econômicas e políticas (Corpus of West Semitic Stamp Seals, 1997, p. 30 e 31).

Três mulheres com grande poder político e religioso são descritas nas Escrituras: Maaca, rainha-mãe que foi deposta pelo próprio filho (1Rs 15:13); Atalia, que se fez rainha em lugar dos netos e estabeleceu um templo a Baal em Jerusalém (2Rs 11:1-20); e Jezabel, que reinou ao lado de Acabe e estabeleceu o culto a Baal em Israel (1Rs 18; 21:1-15).

NA MÚSICA
Elas também tinham participação no canto e na música instrumental. Apenas para citar alguns exemplos, mulheres cantaram e tocaram instrumentos ao receber o exército de Israel depois da vitória contra os filisteus (1Sm 18:6-7). A canção de Ana, relatada no capítulo 2 de 1 Samuel, evidencia que algumas também eram compositoras.

Em um estudo sobre sexo, gênero e música, T. W. Burgh demonstrou a participação ativa de mulheres em performances musicais no Egito, Mesopotâmia, Fenícia, Filístia e Israel (Listening to the Artifacts: Music Culture in Ancient Palestine, 2006, p. 44-105). Ou seja, essa prática parece ter sido bem aceita culturalmente tanto no contexto israelita quanto fora dele.

NA RELIGIÃO
Apesar de não haver sacerdotisas no sistema ritual e religioso tradicional israelita, as mulheres não eram excluídas do processo de adoração e sacrifício. Ana foi ao templo sozinha para pedir a Deus um filho (1Sm 1:9-12). Depois de ter sua oração atendida, ela levou Samuel ao templo para os rituais de dedicação e do voto nazireu (v. 24 e 25).

No mesmo período, há menção a mulheres que trabalhavam na entrada do templo. Apesar de a Bíblia não detalhar quais eram suas funções e tarefas (1Sm 2:22), o verbo hebraico utilizado nesta passagem (tsov’ot) é o mesmo usado para descrever a função dos levitas em seu serviço no templo (Nm 4:23; 8:24). Considerando o lugar das mulheres no culto de Israel, P. Bird sugere que elas preparavam as refeições sacrificiais (Ancient Israelite Religion, 1987, p. 406).

Durante os séculos seguintes do período do Primeiro Templo, igualmente foi permitido o acesso das mulheres às áreas públicas do edifício sagrado. Elas também tinham liberdade para consultar os profetas (1Rs 14:2-3; 2Rs 4:22-23). Além disso, era comum sua participação em atividades rituais e em festivais religiosos, como indicado pela expectativa do marido da sunamita de que ela procurasse o “homem de Deus” (Eliseu) em um dia religioso.

Contudo, conforme Ziony Zevit, as evidências arqueológicas sugerem que as mulheres estavam mais envolvidas com o culto doméstico do que com o oficial centralizado no templo (The Religions of Ancient Israel: a Synthesis of Parallactic Approaches, 2001, p. 554 e 555).

O papel da mulher no período monárquico de Israel antigo parece ser, portanto, significativamente diferente do retrato geral imaginado nos dias de hoje sobre aquele período. A mulher dessa época tinha autoridade e presença dentro e fora de casa, em praticamente todas as esferas da vida diária: social, religiosa e política. A mulher tinha poder para realizar transações comercias (Pv 31), negociar questões militares (2Sm 20:15-22), governar (1Rs 15:13; 21:8-11; 2Rs 11:1-3) e participar de rituais religiosos (1Sm 1:24-25; Jr 7:18).

A imagem da mulher como propriedade masculina, limitada ao ambiente doméstico, sem poder político ou comercial, parece vir de um tempo posterior ao retratado nas descrições da época dos reis de Israel e Judá. Provavelmente seja proveniente do período helenístico.

Assim, se levarmos em conta o contexto histórico-cultural do Antigo Oriente Próximo, o retrato apresentado a respeito das mulheres no texto bíblico é muito positivo. Embora alguns continuem vendo a Bíblia como um livro machista, ela tem muito a nos ensinar sobre o valor e o papel da mulher.

SABEDORIA FEMININA
Atos de sabedoria são igualmente associados à figura feminina no texto bíblico. Abigail, esposa de Nabal, é uma que recebe esse título (1Sm 25:3). Joabe busca uma mulher sábia em Tecoa para convencer Davi a levar Absalão de volta a Jerusalém (2Sm 14:2). Nos capítulos seguintes, vemos que uma mulher de Abel Bete Maacá negocia com ele em favor da cidade, desempenhando o papel de uma anciã influente (2Sm 20:15-22). Outro exemplo é o da rainha de Sabá, que viajou para testar a sabedoria de Salomão com “perguntas difíceis” (1Rs 10:1). Na cultura hitita, segundo D. P. Wright, mulheres de idade também eram consideradas sábias e responsáveis pela instrução das mais jovens, educando as novas gerações em práticas rituais (The Disposal of Impurity in the Priestly Writtings of the Bible with Reference to Similar Phenomena in Hittite and Mesopotamian Cultures, 1984, p. 36-38, 102, 246).

Christie G. Chadwick (via Revista Adventista)

terça-feira, 8 de março de 2022

JESUS E AS MULHERES - UMA REVOLUÇÃO SILENCIOSA

Sua vida na terra foi breve – somente 33 anos e meio. Seu ministério foi ainda mais breve – apenas três anos e meio. Mas ninguém, com sua vida e ensinamentos, impactou tanto a história de uma maneira tão intensa quanto Jesus. O que Ele ensinou e o que fez alterou o curso da história e dramaticamente mudou e continua mudando milhões de vidas ao redor do mundo. Seus ensinamentos têm afetado cada aspecto da vida – religião, educação, trabalho, ética, saúde, justiça social, desenvolvimento econômico e as muitas artes e ciências do viver humano.

Uma faceta da missão de Jesus que é menos conhecida, mas digna de ser recapitulada, é Sua atitude para com as mulheres. Isto é particularmente importante à luz de como o mundo na época de Jesus tratava as mulheres. Romanos e gregos, judeus e gentios, davam às mulheres nada mais que a segunda classe, como se elas fossem prestativas ferramentas em uma sociedade de domínio machista – cozinhar, dar à luz e criar as crianças e desempenhar qualquer função que lhes estivesse designada dentro das paredes de sua casa. Casos individuais de liderança e valentia se destacam em vários lugares, mas muitas mulheres estavam sob o domínio dos homens. Elas eram consideradas uma propriedade, transferida de pai para marido. Em um mundo como aquele, Jesus veio e abriu novas perspectivas de igualdade e dignidade humanas. Ele se opôs às tradições e procurou direcionar os homens e as mulheres de volta ao plano original de Deus para a humanidade.

Este artigo revê brevemente a atitude de Jesus para com as mulheres em Seus ensinamentos e ministério que contrastou com as atitudes em relação à mulher no 1º século da sociedade judaica.

A posição da mulher na sociedade judaica
As sinagogas do primeiro século mantêm registros somente de homens. Homens e meninos podiam entrar nas sinagogas para adorar, mas para as mulheres e meninas havia uma divisória separada onde era permitido que elas se sentassem.

Salvação. A tradição afirmava que as mulheres não tinham direito à salvação por seus próprios méritos. A única esperança de salvação era se unir a um devoto homem judeu. As prostitutas eram excluídas porque não tinham esse vínculo, e viúvas precisavam ter sido casadas com um judeu piedoso para ter esse privilégio.

Associação em público. Um homem era proibido de falar com uma mulher em lugares públicos. Um rabi deveria ignorar uma mulher em público, mesmo se ela pacientemente persistisse em busca de algum urgente conselho espiritual.

Responsabilidade pelo pecado. Em um enterro, as mulheres caminhavam à frente do caixão. Elas eram consideradas responsáveis pelo pecado e, por isso, encabeçavam a procissão, levando a culpa pelo que havia acontecido. Os homens, não se sentindo responsáveis, caminhavam atrás do corpo.

Impureza. As mulheres eram consideradas cerimonial e socialmente impuras durante seu período menstrual. Durante sua menstruação, elas eram isoladas. Até mesmo aos membros da família não era permitido chegar perto para não serem contaminados.

Gravidez como chave de valor. Aos olhos da sociedade, o valor de uma mulher estava vinculado a sua habilidade de dar à luz. A esterilidade era um estigma social terrível. A responsabilidade da mulher era dar à luz bebês do sexo masculino que perpetuariam, desta maneira, o nome do pai.

Divórcio. Era privilégio do homem iniciar um processo de divórcio, o qual ele podia exercer baseado em considerações que hoje parecem frívolas e dignas de riso.

Posição legal. A palavra de uma mulher, num tribunal, precisava ser confirmada pelo menos por três homens, de outro modo, não tinha valor.

Educação. Não era permitido à mulher entrar em uma sinagoga para estudar; era considerado perda de tempo.

Religião. Não era permitido que as mulheres se aproximassem do Lugar Sagrado no templo. Na época de Jesus, havia um pátio no templo para as mulheres, localizado fora dos recintos reservados para sacerdotes e outros homens, e uns 15 degraus abaixo, que indicava a posição subordinada da mulher.1

Uma revolução silenciosa
Jesus não começou uma revolução aberta contra o sistema que colocava as mulheres em uma posição subordinada. Todavia, Sua vida fez um manifesto. “Não encontramos em nenhuma de suas ações, seus sermões ou suas parábolas nenhuma depreciação referente às mulheres, tais como podemos facilmente encontrar em qualquer de seus contemporâneos.”2

Considere alguns exemplos de como Jesus relacionou-Se com as mulheres.

Jesus convidou as mulheres para serem Suas discípulas. Contrariando as expectativas contemporâneas, Jesus deu as boas-vindas às mulheres em seu círculo íntimo de discipulado (veja Lucas 8:1-3). Esta atitude contradisse as especulações rabínicas. As mulheres que seguiram a Cristo desprezaram os postulados da época. Elas se tornaram cuidadosas administradoras de seus recursos e apoiaram a missão de Cristo em momentos críticos (Lucas 8:13). “Uma coisa era as mulheres serem desobrigadas de aprender o Torah e proibidas de associar-se com um rabi, outra totalmente diferente era viajarem com um rabi e se responsabilizarem pelos assuntos financeiros.”3 Elas fizeram isso. Simplesmente revolucionário!

Jesus aceitou a hospitalidade das mulheres e ensinou-as. O mais importante exemplo é aquele da associação com Maria, Marta e Lázaro. O Mestre encontrou descanso e companheirismo na casa deles (Lucas 10:38-42). Enquanto um rabi judeu quase não olhava para uma mulher, Jesus não hesitou em falar com Maria e Marta em público ou em ensinar-lhes as grandes verdades sobre a morte e ressurreição (veja João 11).

Para Jesus, mulheres e homens eram igualmente importantes quando se tratava de ensinar sobre as boas-novas de Seu reino. Na época em que foi dito “é melhor queimar as palavras do Torah que confiá-las ao cuidado de uma mulher”,4 Jesus indicou que entre as escolhas abertas às mulheres, Maria “escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada” (Lucas 10:42 – NVI). Desta forma, mostrou que a educação não era para ser um monopólio dos homens e que as mulheres também tinham o direito de aproveitarem as oportunidades para se educarem.

Outro exemplo da atitude diferente de Jesus para com as mulheres foi a revelação de Sua Missão a uma mulher. Na mais longa conversa registrada nos Evangelhos, Jesus revelou à mulher no poço samaritano (João 4:4-42) algumas das mais profundas doutrinas do reino: a natureza do pecado, o significado da verdadeira adoração, a disponibilidade de perdão para aqueles que se arrependem, a igualdade de todos os seres humanos independentemente de serem judeus ou samaritanos. Assim, em uma simples conversa no poço samaritano, Jesus rompeu dois preconceitos: de gênero e de raça.

Jesus reconheceu que à vista de Deus a família de Abraão inclui filhos e filhas. Ao curar a mulher incapacitada por 18 anos, Jesus colocou Suas mãos sobre ela e afetuosamente a definiu como “filha de Abraão” (Lucas 13:10-17). Por usar esta designação, Jesus advertiu em público que as mulheres seguramente, tanto quanto os homens, herdam os direitos prometidos a Abraão, e à vista de Deus não há nem homem nem mulher. Em nenhuma parte da Bíblia está estabelecido que os homens têm vantagem sobre as mulheres em termos de acesso à salvação. Contrariamente às tradições rabínicas que ensinavam que as mulheres poderiam ser salvas somente pela união com um devoto homem judeu, Jesus convidou tanto homens quanto mulheres a se voltar para Deus e a aceitar o presente da salvação.

Em outro caso, a defesa e o perdão de Cristo a uma mulher pega em adultério revelaram que Sua definição de pecado e provisão para salvação estabelecia tratamento igual a todos. Quando alguns líderes religiosos trouxeram perante Ele uma mulher pega em adultério, Cristo a defendeu. Ele sabia que os líderes judeus, ao fazer a acusação contra a mulher, estavam, eles mesmos, violando as leis de Moisés. A lei levítica estipulava que ambos, homem e mulher, deviam ser submetidos a julgamento em tais casos (Levítico 20:10), mas os críticos de Jesus trouxeram apenas a mulher, e não os homens envolvidos no suposto ato. A lei também requeria pelo menos duas testemunhas (Deuteronômio 19:15), mas os fariseus não levaram nenhuma. A resposta de Cristo não somente deu à mulher acusada o benefício da lei, mas também mostrou aos presentes que Seu evangelho de perdão, baseado no arrependimento, estava aberto a todos. Assim Ele disse esta notável frase: “Aquele que dentre vós estiver sem pecado seja o primeiro que lhe atire pedra” (João 8:7). Em outras palavras, Jesus disse aos homens: se vocês têm coragem de acusá-la, primeiro olhem para vocês mesmos em um espelho.

Jesus permitiu a uma mulher pecadora ungi-Lo. Quando Jesus foi convidado para uma festa na casa de Simão em Betânia, uma mulher conhecida no povoado por sua má reputação lançou-se aos pés de Jesus e o ungiu. Aqueles que estavam reunidos na festa, incluindo Seus discípulos, condenaram o incidente. Como era possível uma mulher pecadora tocar os pés do Messias, ungi-Lo e secar Seus pés com seus cabelos? Uma ofensa absoluta às tradições religiosas! Os que estavam ao redor de Jesus não podiam entender, muito menos aceitar, o ato de uma mulher ou a atitude de Jesus em permitir que ela fizesse o que fez. Mas Jesus disse que a mulher ao ungi-Lo fez uma bonita ação, mostrando às gerações futuras que, como ela, todos os pecadores podem ter a certeza da salvação ao ir até o Salvador e colocar sua vida a Seus pés, em rendição (Marcos 14:1-9; Lucas 7:36-50).

Jesus usou homens e mulheres para simbolizar os atos de resgate de Deus. Em Lucas 15, Jesus contou três parábolas para ilustrar a profunda e eterna verdade da procura de Deus pela humanidade perdida. Ao passo que as parábolas da ovelha perdida e do filho pródigo ilustram a procura de Deus através de figuras masculinas, do cuidado do pastor e o amante pai, a parábola da moeda perdida revela a procura de Deus através da cuidadosa e persistente missão de uma mulher que não sossegou até encontrar a moeda e regozijar-se com seus amigos (Lucas 15:8-10). Para os ouvidos legalistas daquela época isto deve ter soado herético.

Jesus dignificou as mulheres como primeiras testemunhas do maior evento da história humana – Sua ressurreição. As tradições rabínicas consideravam as mulheres como mentirosas por natureza. Conceito que advinha da reação de Sara ao ser dito que ela teria uma criança (Gênesis 18:9-15). No modo de pensar deles, a negação e o riso de Sara caracterizavam-se como uma mentira diante de Deus que sempre diz a verdade. Assim, por causa dela, todas as mulheres descendentes eram consideradas mentirosas.5 Nenhuma mulher era aceita como testemunha. Todavia, Jesus rejeitou esta perversa tradição e escolheu mulheres como as primeiras testemunhas de Sua ressurreição (Mateus 28:8-10), “constituindo-as não somente como as primeiras receptoras da mais importante mensagem do cristianismo mas as primeiras a proclamá-la”.6 Jesus reprovou os discípulos por não crerem no testemunho daquelas mulheres (Marcos 16:14) e desta maneira incentivou-os a rejeitarem os preconceitos do passado e caminharem à luz de Seu reino, no qual não há nem homem nem mulher.

Conclusão
No relato bíblico da vida de Cristo, “as mulheres nunca são discriminadas”.7 Não há nada que respalde a visão cultural e religiosa da Sua época que via a mulher como inferior. Pelo contrário, “a atitude e a mensagem de Jesus significaram uma ruptura com a dominante visão mundial”.8

Jesus “não identificou as mulheres em harmonia com as normas do sistema patriarcal de seu tempo nem tomou parte no sistema como era, por definição, repressivo para as mulheres”.9 Abertamente mas sem fanfarra, Jesus proferiu um golpe mortal na praga da tradição que negava dignidade às mulheres. Através de Seu exemplo e ensino, Jesus reclamou para Seu novo reino as bênçãos de Sua criação original, a igualdade dos dois gêneros à vista de Deus.

Miguel Ángel Núñez (via Diálogo Universitário) (Título original: A atitude de Jesus para com as mulheres)

Referências
1. Joachim Jeremias. Jerusalén en Tiempos de Jesús: Estudio Económico y Social del Mundo del Nuevo Testamento. Madrid: Cristiandad, 1977. p. 97.
2. Marga Muñiz. Femenino Plural: Lãs Mujeres en la Exégesis Bíblica. Barcelona: Clie, 2000. p. 183.
3. Alcion Westphal Wilson. “Los discípulos olvidados: La habilitación del amor vs. el amor al poder”, en Bienvenida a la mesap. Langley Park, Maryland: TEAMPress,1998. p. 185.
4. Wilson. p. 180.
5. Wilson. p. 386.
6. Muñiz. p. 187.
7. Leonardo Boff. El Rostro Materno de Dios: Ensayo Interdiciplinar sobre lo Femenino y sus Formas Religiosas. Madri: Paulinas, 1988. p. 83. (Em português: O Rosto Materno de Deus. 9ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2003).
8. Boff. p. 84.9. Muñiz. p. 18.

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Feminismo e cristianismo podem andar juntos?

O feminismo deve ser entendido como um conjunto de teorias que, segundo as feministas e intelectuais, dividiram a história do movimento em três momentos: o primeiro refere-se fundamentalmente à conquista do sufrágio feminino, com movimentos preocupados principalmente com o direito da mulher ao voto. O segundo grande movimento diz respeito às ideias e ações associadas com os movimentos de liberação feminina iniciados na segunda metade da década de 1960, que lutaram pela igualdade jurídica e social das mulheres. O terceiro grande momento, iniciado na década de 1990, pode ser considerado uma continuação e uma reação às falhas do segundo movimento.

Vamos somente analisar os movimentos de emancipação feminina que compuseram a primeira onda do feminismo dos séculos 19 e 20, e também destacar a herança religiosa de alguns personagens que protagonizaram o início do feminismo nos EUA.

A primeira onda do feminismo se refere a um período extenso de atividade feminista ocorrido durante o século 19 e início do século 20, no Reino Unido e nos EUA, que tinha o foco originalmente na promoção da igualdade nos direitos contratuais e de propriedade para homens e mulheres, e na oposição de casamentos arranjados e da propriedade de mulheres casadas (e seus filhos) por seus maridos. No entanto, no fim do século 19, o ativismo passou a se focar principalmente na conquista de poder político, especialmente o direito ao sufrágio por parte das mulheres.

No Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, as sufragistas fizeram campanha pelo voto da mulher. Em 1918, o Representation of the People Act foi aprovado, concedendo o voto às mulheres acima de 30 anos de idade que possuíssem uma ou mais casas. Em 1928, este direito foi estendido a todas as mulheres acima de vinte e um anos de idade. 

Há uma inegável relação entre o desenvolvimento do feminismo e o crescimento do “cristianismo sectário” nos EUA do século 19, sendo os Quakers o grupo igualitarista mais representativo dentre os protestantes. Os Quakers são um movimento religioso de tradição protestante fundado pelo inglês George Fox em 1652. Destacaram-se como pacifistas, abolicionistas e igualitaristas de gênero. Lideraram e se envolveram em movimentos contra o tráfico de escravos e a escravidão, pela reforma das prisões, pela abolição da pena de morte e contra as guerras entre nações. Para os Quakers, a dominação masculina era uma manifestação do pecado, e a igualdade entre homens e mulheres restaurada em Cristo, que ordenou que homens e mulheres fossem anunciadores proféticos do evangelho.

Nos EUA, líderes deste movimento incluíram mulheres que haviam todas lutado pela abolição da escravidão antes de defender o direito das mulheres ao voto; todas eram influenciadas profundamente pelo pensamento Quaker, fruto de esforços e ideias cristãs. Vejamos uma lista de algumas das pioneiras mais importantes do movimento:

- Susan Brown Anthony, um dos nomes mais importantes da primeira onda do feminismo, era uma cristã Quaker. Foi presa por votar em 1872, quando não era permitido, e em 1890 organizou em Washington a primeira convenção para o voto feminino. Sua atuação foi tão destacada que a emenda permitindo o voto feminino nos Estados Unidos recebeu seu nome: Emenda Anthony.

- Sojourner Truth, ex-escrava, abolicionista e pregadora cristã. Após fugir do seu dono com a filha bebê em 1826, e deixar para trás os outros quatro filhos, ela viveu durante algum tempo com uma família Quaker que lhe deu a única educação que recebeu na vida. Foram eles que também a ajudaram a recuperar um dos seus filhos. Posteriormente ela se converteu ao cristianismo e viajou pelo país para ajudar nas causas abolicionistas e promover os direitos das mulheres.

- Abigail Quincy Smith Adams, primeira dama dos EUA (foi esposa do presidente John Adams), era de família Quaker, filha de um ministro Quaker, que posteriormente tornou-se cristã unitariana. Em 1776, através de cartas, ela pressionou seu marido, congressista na época, para a criação de leis igualitárias que beneficiassem as mulheres. Apesar de não terem dado resultado, essas cartas são um dos primeiros documentos conhecidos pedindo direitos iguais para as mulheres.

- As irmãs Sarah e Angelina Grimké foram uma das primeiras mulheres americanas a defenderem a abolição da escravatura e os direitos das mulheres no século 19, e o igualitarismo cristão Quaker foi um fator motivador essencial para elas. O livro de Sarah, Letters on the Equality of the Sexes and the Condition of Woman, publicado em 1838, foi a primeira argumentação pública de grande alcance em favor dos direitos das mulheres.

- Harriet Bishop, importante sufragista, foi missionária e professora batista.

- Lucy Stone, sufragista e defensora dos direitos femininos, era cristã fortemente influenciada pelo pensamento igualitário. Fez seu primeiro discurso feminista no púlpito da Igreja Evangélica Congregacional em 1847.

- Elizabeth Cady Stanton, uma das mulheres mais importantes da primeira onda do feminismo, era da Igreja Episcopal.

- Anna Elizabeth Dickinson, quaker, republicana, abolicionista, sufragista, foi a primeira mulher a fazer discurso político no congresso americano.

- Lucretia Mott, grande ícone do feminismo americano, era ministra Quaker ordenada (pastora).

- Outros nomes: Amélia Bloomer (episcopal), Alice Paul (quaker), Isabella Ford (quaker), Elise Boulding (quaker).

Elizabeth Cady Stanton, Amelia Bloomer, Sojourner Truth, e Harriet Ross Tubman estão no calendário de santos da Igreja Episcopal. Sim, uma igreja dedica um dia no ano (20 de junho) para homenagear como santas, pioneiras do movimento feminista.

O cristianismo dessas mulheres não é coincidência e nem um detalhe insignificante. Muitas delas agiram movidas exatamente por princípios cristãos. 

Muitas mulheres sufragistas dos EUA faziam parte do grupo cristão protestante Woman's Christian Temperance Union, a primeira grande agremiação de mulheres a promover esforços organizados em prol de reformas sociais nos EUA. Esse grupo foi a maior e mais influente associação de mulheres que existira até então. A organização do grupo e a mobilização de mulheres em torno de causas sociais contribuíram para o maior envolvimento feminino na política. Ellen G. White tinha uma visão positiva do ativismo desse grupo, e escreveu algumas cartas recomendando cooperação. Vejamos alguns trechos destas cartas: 

"A União de Temperança das Mulheres Cristãs é uma organização com cujos esforços para disseminação dos princípios de temperança, podemos unir-nos de boa vontade. Foi-me mostrado que não nos devemos manter afastados delas mas, conquanto não deva haver sacrifício de princípios de nossa parte, devemos o quanto possível unir-nos com elas no trabalho de reforma de temperança. [...] Foi-me mostrado que não devemos esquivar-nos às obreiras da U.T.M.C. Unindo-nos com elas em favor da abstinência total, não mudamos nossa atitude quanto à observância do sétimo dia, e podemos mostrar nossa apreciação pela atitude delas relativamente à questão da temperança. Abrindo a porta, e convidando-as a se unirem conosco no assunto da temperança, granjeamos assim sua cooperação nesse sentido; e elas, unindo-se a nós, ouvirão novas verdades que o Espírito Santo está esperando para gravar nos corações. [...] Tenho tido algumas oportunidades de ver a grande vantagem a ser obtida mediante nossa ligação com as obreiras da U.T.M.C., e ficado muito surpreendida ao ver a indiferença de muitos de nossos dirigentes para com essa organização. Convido meus irmãos a despertarem" (Temperança, p. 222-223).

"Devemos procurar ganhar a confiança das obreiras da U.F.T.C., harmonizando-nos com elas quanto possível. Este povo tem sido rico em boas obras." (Manuscrito 91, 1907)

Portanto, se faz necessário destacar claramente o background religioso do movimento feminista e reivindicar a legitimidade de sua importância histórica. Muitos precisam saber que houve influência do cristianismo no início dos movimentos pelos direitos das mulheres.

Leia também o excelente artigo Cristianismo e Feminismo podem coexistir? de Vanessa Raquel Meira, que analisa mais profundamente este tema.

quinta-feira, 23 de julho de 2020

Violência contra a mulher: a pandemia que não cessa

Por conta do confinamento causado pela pandemia do Covid-19, as mulheres enfrentam um duplo medo: um vírus assustador e a violência doméstica.

Pesquisas apontam que as denúncias de violência doméstica cresceram em todo país neste período de isolamento social, mesmo com a queda de registros telefônicos em todos os estados. Esse fato se deu por conta de o medo da mulher realizar a denúncia com o agressor presente.

De acordo com um levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública – FBSP, o número de denúncias de violência contra a mulher cresceu principalmente em seis estados brasileiros em comparação à 2019, são eles: São Paulo, Acre, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Pará.

São dados preocupantes e alarmantes para uma sociedade que já é recheada de preconceitos e violência. Para atentar a população sobre esse crescimento, diversos Institutos, Empresas e Militantes criaram conteúdos para diversos veículos e mídias sociais que demonstram o que é considerado violência doméstica e com o objetivo de conscientização e, em casos mais sérios, de denúncias.

Para denunciar, ligue para o número 180. Este serviço público e gratuito é uma Central de Atendimento à mulher em situação vulnerável e o seu registro é realizada de forma anônima/confidencial. Caso você esteja em outro país, consulte o número de telefone para denúncias clicando aqui: https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/politicas-para-mulheres/ligue-180.

E é possível realizar a denúncia também pelo 190 – Polícia Militar, serviço público e gratuito. 

E para você que ainda não conhece sobre o assunto, deixamos como dica fundamental o site do Instituto Maria da Penha, organização sem fins lucrativos (ONG) lançada em 2009, que tem como um dos propósitos elevar a qualidade de vida física, emocional e intelectual das mulheres. Para conhecer, é só clicar aqui: https://www.institutomariadapenha.org.br/quem-somos.html.

Conheça também o projeto Quebrando o Silêncio, promovido desde 2002 pela Igreja Adventista do Sétimo Dia em oito países da América do Sul com o objetivo de prevenir a violência doméstica.

A ajuda a mulheres em situação de violência pode vir da sua rede de relacionamentos, como amigos, vizinhos, colegas de trabalho, entre outros. Pode ser que você conheça alguém que esteja passando por uma situação semelhante por perto, seja de violência física, verbal, psicológica ou sexual, ou quem sabe ser a própria vítima. 

O silêncio perpetua a ação do abusador ou agressor, portanto, o maior desafio de alguém que deseja ajudar, é vencer o medo e romper o silêncio. 

Ao olhar para a condição atual de uma sociedade em sofrimento, há o desafio em tempos de quarentena, de preservar relacionamentos saudáveis, criando um ambiente de respeito, diálogo e afeto, principalmente na dinâmica familiar. Em situações de adoecimento psicológico, a busca por ajuda profissional é o aconselhável. Como comunidade cristã, o trabalho de conscientização e suporte espiritual é uma ferramenta importante no contexto de promover de qualidade de vida e apoio a saúde espiritual.

Para concluir, confira abaixo mensagens fundamentais que Ellen G. White deixou para os maridos abusivos, ditatoriais, dominadores, egoístas e intolerantes no livro O Lar Adventista, p. 225-227:

"Muitos maridos não compreendem e não apreciam suficientemente os cuidados e perplexidades que suas esposas suportam, geralmente confinadas o dia todo à incessante rotina dos deveres domésticos.

Tua vida seria muito mais feliz se não sentisses que estás investido de absoluta autoridade porque és marido e pai. Tua conduta mostra que interpretas mal tua posição de marido, isto é, laço de união do lar. És nervoso e ditatorial e muitas vezes manifestas grande falta de senso, de maneira que em qualquer tempo que considerares tua conduta nessas ocasiões, ela não pode parecer razoável para com tua esposa e teus filhos. Uma vez havendo tomado uma posição, raramente te mostras disposto a dela afastar-te. Estás determinado a executar teus planos, quando muitas vezes não estás seguindo reto curso e devias notá-lo. O que necessitas é mais, muito mais, de amor, de longanimidade, e menos de determinação de seguir tua maneira de sentir tanto em palavras como em obras. No curso que estás agora perseguindo, em vez de seres um laço de união da família, serás como um torno para comprimir e martirizar a outros. 

Procurando forçar outros a seguir tuas idéias em todo sentido, muitas vezes fazes maior mal do que se abrisses mão desses pontos. Isto é verdade mesmo quando tuas idéias são corretas em si mesmas, mas não o são em muitas coisas; eles são sobrecarregados como resultado das peculiaridades de tua administração; assim inculcas as coisas erradas de maneira forte e irrazoável. 

Tens pontos de vista peculiares com respeito à condução da família. Exerces um poder independente, arbitrário, que não permite liberdade de opiniões em torno de ti. Pensas que és suficiente para ser a cabeça em tua família e entendes que tua cabeça é suficiente para mover cada membro, como uma máquina funciona nas mãos do operador. Ditas e assumes autoridade. Isto desagrada o Céu e fere os santos anjos. Tens-te conduzido em tua família como se unicamente fosses capaz de autogoverno. Ofendes-te se tua esposa se aventura a opor-se a tuas opiniões ou questione tuas decisões.

Esperas demasiado de tua esposa e filhos. Censuras demais. Se encorajasses em vós mesmo um temperamento alegre e feliz e lhes falasses bondosa e ternamente, levarias para teu lar luz em vez de sombras, tristezas e infelicidade. Preocupas-te demasiado com tua opinião; tomas posições extremas, e não tens permitido que tua esposa tenha no seio de tua família o peso que deveria ter. Não tens encorajado o teu próprio respeito por tua esposa nem educado os filhos para que lhe respeitem o julgamento. Não a tendes feito tua igual, antes tens tomado em tuas mãos as rédeas do governo e controle, e as tens mantido firmemente. Não possuis disposição de afeição e simpatia. Necessitas cultivar esses traços de caráter se queres ser um vencedor e se desejas as bênçãos de Deus em tua família.

Devem os maridos ser cuidadosos, atentos, constantes, fiéis e compassivos. Devem manifestar amor e simpatia. Quando o marido tem a nobreza de caráter, a pureza de coração, a elevação de espírito que deve possuir todo verdadeiro cristão isso será manifesto na relação matrimonial. Ele procurará conservar a esposa com boa saúde e ânimo. Esforçar-se-á por falar palavras de conforto, criar uma atmosfera de paz no círculo familiar."

quinta-feira, 28 de maio de 2020

A mulher rixosa

A Bíblia fala sobre um tipo específico de mulher, que merece nossa atenção: a mulher rixosa. Como essa não é uma palavra muito comum, temos de entender exatamente o que significa. Segundo o dicionário, “rixosa” é uma pessoa “que promove contenda”. Ou seja, uma mulher briguenta, que causa discórdia ou desavença, que com enorme frequência está de mau humor. Ela é irritadiça, explode por qualquer coisa, descarrega suas tensões e frustrações em cima dos outros, ira-se num piscar de olhos, tem sempre uma boa desculpa para despejar sua cabeça quente e falta de mansidão sobre os demais – eles que aguentem. Ela tem prazer em comprar briga. E, por tudo isso, é intragável. Bem… por que tratar especificamente desse tipo de mulher? Pois, acredite, é um dos tipos sobre os quais a Bíblia mais fala – certamente, não à toa.

Vejamos algumas verdades que as Escrituras expõem sobre a mulher que promove contendas:
“Melhor é morar no canto do eirado do que junto com a mulher rixosa na mesma casa.”
Essa mesma afirmação é tão séria que ocorre em duas passagens: Provérbios 21:9 e 25:24. O que esse versículo está dizendo é que a mulher rixosa é alguém tão insuportável que ninguém consegue conviver debaixo do mesmo teto com ela. Quando chega da rua, em vez de trazer alegria para o lar traz uma nuvem negra sobre a cabeça e contamina todos ao redor com seu mau humor crônico. É aquela que, quando você dá “bom dia” parece que ela responde “o que há de bom nele?!”. A mulher rixosa afasta os outros de si. Ela destrói seu casamento, leva os filhos à ira e sabota a harmonia do lar. Dificilmente ela cede e nunca admite que está errada. A culpa de tudo é sempre do outro – que, por isso, precisa ouvir umas boas verdades. Desculpar-se? Jamais, pois acredita que pedir perdão é diminuir-se em vez de engrandecer-se. Em suma, a mulher rixosa faz você querer estar em qualquer lugar do mundo, menos perto dela. A Bíblia avança na descrição desse tipo de mulher:
“Melhor é morar numa terra deserta do que com a mulher rixosa e iracunda” (Pv 21:19).
Essa afirmação parece semelhante à anterior, elevada ao quadrado. Uma terra deserta não tem água, é um lugar onde você morre de sede. A comida é escassa, restrita a animais rastejantes e peçonhentos. De dia, o calor é abrasador, queima a alma, tira o ânimo, mata por desidratação. As noites são gélidas e congelam quem anda por ali. Uma terra deserta tem tempestades de areia que tornam a vida de quem está na região um inferno, pois açoitam sua pele, enchem seus orifícios de sedimentos, impedem a visão, tornam a caminhada impossível. O deserto é o último lugar do mundo em que você quer morar, porque a qualidade de vida ali é a pior que há. No entanto, a Bíblia diz que é melhor morar nesse local insuportável do que com uma mulher iracunda e rixosa. É… a coisa é grave. Mas não para por aí. A sabedoria bíblica afirma: 
“O gotejar contínuo no dia de grande chuva e a mulher rixosa são semelhantes” (Pv 27:15).
Os antigos chineses tinham um método conhecido de tortura, simples e eficaz. Quando capturavam um inimigo, o amarravam de modo que ficasse imóvel. Em seguida, punham uma fonte qualquer de água sobre a cabeça daquele pobre coitado, para que um gotejar contínuo caísse sobre o mesmo ponto de sua cabeça. Uma gota. Duas gotas. Três. Quatro. Vinte. Cem. Mil. Dez mil. E por aí vai. Não parece grande coisa, mas os relatos históricos revelam que essa simples forma de tortura, após dias seguidos de pingos intermináveis, era capaz de levar os torturados simplesmente à loucura. Isso mesmo. Guerreiros fortes e bem treinados, com resistência a grandes dores e sofrimentos, eram quebrados e enlouqueciam devido a um gotejar contínuo. E é a isso que o texto bíblico compara a mulher que vive em contendas. Em outras palavras: a mulher rixosa é capaz de te levar à loucura. Ela tira qualquer um do sério e a convivência com ela torna-se uma tortura insuportável.

A mulher rixosa age, portanto, de modo errado, indigno e vergonhoso. Muitas vezes vemos homens casados definharem depois de conviver por anos com esposas do tipo. Eles perdem o viço, o vigor, a alegria e, muitas vezes, a saúde. É fácil entender a razão: 
“A mulher virtuosa é a coroa do seu marido, mas a que procede vergonhosamente é como podridão nos seus ossos” (Pv 12:4). 
Pela medicina, apodrecimento ósseo ocorre em algumas poucas circunstâncias. Uma é uma condição chamada osteonecrose, uma consequência da má circulação sanguínea dentro do osso, que causa a morte de células e tem como resultado o apodrecimento do osso e, consequentemente, fraturas e dor no local. A única solução para a osteonecrose é remover o osso e substituí-lo por uma prótese. A outra situação que faz o osso apodrecer? A morte. Deu para entender a que a Bíblia compara esse tipo de mulher?

A mulher rixosa vive de modo oposto ao que o evangelho propõe. Ela precisa urgentemente de uma mudança de vida. Não acredito que uma mulher rixosa tenha intimidade com Deus. Simplesmente porque a natureza de um cristão autêntico exclui totalmente o prazer por promover a contenda. Paulo admoesta que devemos fazer tudo “sem murmurações nem contendas” (Fp 2.14), logo, viver estimulando a rixa contraria a vontade divina. 
“O ódio excita contendas, mas o amor cobre todas as transgressões" (Pv 10:12).
Vemos, então, que a rixa é fruto do ódio e, por sua vez, o ódio é contrário à natureza de Cristo, como deixam claro algumas passagens das Escrituras: 
“Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora, está nas trevas” (1Jo 2:9).
“Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si” (1Jo 3:15).
Por outro lado, o amor é a essência de Deus: 
“Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1Jo 4:16).
Uma mulher rixosa, ou seja, que promove contendas, faz exatamente o contrário do que a Bíblia estipula como o comportamento ideal de uma mulher de Deus. Paulo condena as contendas em passagens como 2 Timóteo 2:23, Romanos 13:13 e Tito 3:9. Em 1 Coríntios 3:3, o apóstolo de Cristo associa diretamente as rixas à carnalidade: 
“Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem?”
Isso é totalmente corroborado por Tiago, quando o irmão de Jesus diz: 
“De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne?” (Tg 4:1).
Mais claro, impossível: ser rixoso é ser carnal – logo, é viver distante de Deus.

Meu objetivo ao chamar sua atenção para a deformação espiritual que é ser uma mulher rixosa, é despertá-la para uma reflexão. Pense sobre a sua vida. Será que as pessoas vivem se afastando de você? Será que seu marido tem preferido ficar em qualquer outro lugar que não seja ao seu lado? Será que os irmãos fogem de sua companhia? Será que seus filhos evitam ficar muito tempo com você? Se a resposta a alguma dessas perguntas foi “sim”, não necessariamente significa que você é rixosa, pode haver outras explicações. Mas… pode ser que sim. Talvez as suas atitudes e o seu temperamento precisem ser reavaliados, o que é algo excelente:
“Honroso é para o homem o desviar-se de contendas, mas todo insensato se mete em rixas” (Pv 20:3).
A boa notícia é que isso tem jeito. Se você perceber que tem vivido a insensatez do mau humor constante, saiba que rabugice tem cura. Um espírito belicoso tem cura. Uma alma amarga tem cura. E a cura tem nome: Jesus de Nazaré.

Jesus é o Príncipe da Paz. Ele é o manso Cordeiro. Ele é o Senhor dos exércitos que foi humilhado sem revidar. 
“Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma” (Mt 11:29).
Aproxime-se de Cristo. Procure crescer em intimidade com Ele. Busque-O na oração e no estudo de Sua Palavra. Viva uma vida com Deus. Negue-se a si mesmo e siga-O. Aprenda a pedir perdão, isso não diminui ninguém – muito pelo contrário. Reconheça seus erros, pois só almas grandiosas são capazes disso. Fale palavras de edificação e afirmação e não de diminuição e destruição. Aprenda a dar o braço a torcer. Ceda. Prefira os outros em honra. Sorria. Ame.

Se Cristo fizer morada no seu coração, os seus pensamentos se tornarão os pensamentos de Jesus, a sua mente será renovada e você se tornará uma mulher exemplar, como a de Provérbios 31:10-31: amada por todos, elogiada e que deixa um rastro de alegria e vida por onde passa.

Ah, sim: se você é um homem rixoso, não pense que está em melhor situação. Tudo o que leu neste post se aplica a você também.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari (via Apenas)

"Mútua bondade e paciência farão do lar um paraíso e atrairão os anjos para o círculo da família; mas eles fugirão da casa onde há palavras desagradáveis, rixas e atritos. Ausência de bondade, queixumes e ira expulsam Jesus do lar" (Ellen G. White - O Lar Adventista, p. 422).

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Ser mãe... o que é? - Por Ellen G. White

Ser independente
A mulher deve ocupar a posição que Deus originariamente lhe designou, de igualdade com o marido. O mundo necessita de mães que o sejam não meramente no nome, mas em todo o sentido da palavra. A mãe não deve sacrificar sua força e permitir fiquem adormecidas suas faculdades, dependendo inteiramente do esposo. Sua individualidade não pode imergir na dele. Ela deve sentir que é igual ao marido - deve estar ao seu lado, fiel no seu posto de dever e ele no seu. Sua obra na educação dos filhos é em todos os respeitos tão elevada e nobre como qualquer posição de honra que ele seja chamado a ocupar, ainda que seja a de principal magistrado da nação.

Ser rainha
A mãe é a rainha do lar, e os filhos são os seus súditos. Deve governar a casa sabiamente, na dignidade de sua maternidade. Sua influência no lar deve ser excelsa; sua palavra, lei. Se é cristã sob o governo de Deus se imporá ao respeito dos filhos. Os filhos devem ser ensinados a considerar sua mãe, não como uma escrava cujo trabalho seja servi-los, mas como uma rainha que deve guiá-los e dirigi-los, ensinando-os mandamento sobre mandamento, regra sobre regra.

Ser fiel
Mães, em grande medida o destino de seus filhos está em suas mãos. Se falharem na função, podem levá-los para as fileiras do inimigo, tornando-os seus instrumentos na ruína das almas; mas por piedoso exemplo e fiel disciplina podem levá-los a Cristo e torná-los instrumentos em Suas mãos para a salvação de muitas almas. Seu trabalho [das mães cristãs], se feito fielmente em Deus, será imortalizado. Os cultores da moda jamais verão ou compreenderão a beleza imortal da obra da mãe cristã, e escarnecerão de suas ideias arcaicas e de suas vestimentas simples e sem adornos, enquanto a Majestade do Céu escreverá o nome dessa fiel mãe no livro da fama imortal.

Ser poderosa
A esfera de atividade da mãe pode ser humilde; mas sua influência, unida à do pai, é tão duradoura como a eternidade. Depois de Deus, o poder da mãe para o bem é a maior força conhecida na Terra.

Ser alegre
A mãe que alegremente assume os deveres que jazem diretamente em seu caminho sentirá que a vida para si é preciosa, porque Deus lhe deu uma obra a realizar. Nesta obra ela não precisa necessariamente comprimir o espírito nem permitir que seu intelecto se debilite.

Ser paciente
Mas frequentemente a paciência da mãe é sobrecarregada com essas numerosas pequenas provas que quase não parecem dignas de atenção. Mãos traquinas e pés inquietos criam uma grande quantidade de trabalho e perplexidade para a mãe. Ela tem de segurar firme as rédeas do domínio próprio, pois do contrário sairão de seus lábios palavras de impaciência. Muitas vezes ela chega quase a perder a cabeça, mas uma oração silenciosa a seu misericordioso Redentor acalma-lhe os nervos, e ela volta a controlar-se revelando calma dignidade. Ela fala com voz calma, mas custa-lhe esforço restringir palavras ásperas e subjugar sentimentos de revolta que, se expressos, destruiriam sua influência, a qual demandaria tempo readquirir.

Ser influente
É privilégio da mãe abençoar o mundo pela sua influência, e fazendo isto trará alegria ao seu próprio coração. Ela pode fazer retas veredas para os pés de seus filhos, através de claridade e sombra, em direção às alturas gloriosas do Céu. Mas, unicamente quando procura em sua vida seguir os ensinos de Cristo, é que a mãe pode esperar formar o caráter de seus filhos segundo o modelo divino. Ela, de cujo sangue a criança se nutre e se forma fisicamente, comunica-lhe também influências mentais e espirituais que tendem a formar-lhe a mente e o caráter. Foi Joquebede, a mãe hebreia que, fervorosa na fé, não temeu o “mandamento do rei”, a progenitora de Moisés, libertador de Israel. Foi Ana, a mulher de oração e espírito abnegado, inspirada pelo Céu, que deu à luz Samuel, a criança divinamente instruída, juiz incorruptível, fundador das escolas sagradas de Israel. Foi Isabel, a parenta e o espírito-irmão de Maria de Nazaré, que gerou o precursor do Messias.

Textos extraídos do livro Ser Mãe - O que é? de Ellen G. White