quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

(NÃO) VOU ORAR POR VOCÊ

É muito comum no nosso meio cristão prometermos orar por alguém. Sabemos que uma pessoa está em uma situação complicada e nossa resposta imediata costuma ser algo como “vou estar em oração”. Recentemente vi um irmão postar no facebook que estava no hospital e li muitas pessoas escreverem comentários como “em oração”, “estou orando”, “estamos orando” ou algo assim. A pergunta que te faço é: todas as vezes em que você diz que vai orar ou que está orando por alguém realmente você chega a falar com Deus sobre o assunto? Ou é só da boca pra fora?

Tenho reparado que o “vou orar por você” ganhou uma série de significados diferentes, como se fosse uma espécie de “resposta coringa” que serve para diferentes situações e ganha significados distintos em cada uma delas. O primeiro deles é uma espécie de “receba o meu apoio”. É uma forma de dizer que a pessoa estende sua solidariedade ao outro. Por exemplo, alguém diz que está triste e o amigo comenta: “Vou orar por você”… só que, na realidade, não ora. Nunca chega a falar com Deus sobre o assunto. Outro significado é na linha do “como é que ficou aquela situação?”. É como ocorre quando você encontra alguém que estava com um problema que vinha se desenrolando já há algum tempo e, para mostrar que se lembra da questão e se preocupa com o amigo que a está enfrentando, você manda um “continuo orando, viu?”. Mas, de fato, não tirou nenhum período de oração em prol do conhecido.

Há muitas outras circunstâncias em que a promessa de oração é feita mas não cumprida. É como ocorre no já citado caso da pessoa doente. Muitos dizem (ou escrevem) “em oração”, querendo exprimir, na verdade, “melhoras!”… e não chegam a dobrar os joelhos pelo enfermo nem por um segundo. Ou quando alguém desabafa sobre um problema ou uma angústia por que esteja passando e você encerra a conversa prometendo “vamos orar, vamos orar”, com o significado de “espero que tudo dê certo”. Assim, se você começar a prestar atenção, verá que muita gente se compromete a interceder por algo ou alguém sem nunca chegar, de fato, a cumprir a promessa.

Isso é um problema? Sim, é.

Uma oração não é pouca coisa. Ela é, de fato, uma disciplina poderosa é indispensável na vida cristã. Quando oramos, algo real e concreto ocorre no mundo espiritual e, consequentemente, no material. A oração tem consequências. Ela é fato. Por isso, sempre que você promete que vai orar por alguém e não ora, está deixando de somar à multidão de vozes que recorrem ao Pai por aquela situação. Sua oração faz falta. Deus conta com ela. E, se você não a fizer de fato, um buraco ficará no conjunto de irmãos que intercedem por algo ou por alguém específico.

Outro problema é, simplesmente, que você mentiu. E a mentira sempre traz más consequências. Lembre-se de que o Diabo é o pai da mentira, logo, nada de bom pode brotar a partir de uma inverdade, mesmo que bem intencionada.

“Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno” (Mt 5:37).

Se nos comprometemos com algo, como povo da verdade precisamos cumprir aquela promessa. Uma promessa solene, como a promessa de orar por alguém ou alguma situação, configura um voto; e, como todo voto, tem peso diante dos homens e diante de Deus. A Escritura fala sobre isso:

“Não seja precipitado de lábios, nem apressado de coração para fazer promessas diante de Deus. Deus está nos céus,e você está na terra, por isso, fale pouco. Das muitas ocupações brotam sonhos; do muito falar nasce a prosa vã do tolo. Quando você fizer um voto, cumpra-o sem demora, pois os tolos desagradam a Deus; cumpra o seu voto. É melhor não fazer voto do que fazer e não cumprir” (Ec 5:2-5).

Em geral, quem diz que vai interceder em favor do próximo e não o faz não compreende realmente a eficácia da oração nem a angústia no coração de quem precisa dela. Jesus no Getsêmani se entristeceu porque Seus discípulos dormiram em vez de compartilhar de seu momento, em oração. Repare bem o que Ele disse quando, em angústia de alma, encontrou Pedro e os dois filhos de Zebedeu roncando em vez de em oração:

“Depois, voltou aos Seus discípulos e os encontrou dormindo. ‘Vocês não puderam vigiar comigo nem por uma hora?’, perguntou Ele a Pedro. ‘Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca’” (Mt 26.40-41).

Acredito que a decepção que Jesus sentiu por Seus amigos não estarem em oração por Ele é a mesma que Ele sente, hoje, quando alguém assume o compromisso de interceder… mas não intercede.

É importante que “vou orar por você” signifique, exatamente, “vou orar por você”. Que “em oração” signifique que você está de fato tirando momentos regulares de intercessão pela situação. Ou seja, que a promessa resulte numa ação: abrir os lábios e expor ao Senhor o seu pedido. Então, fica aqui a minha recomendação: pense muito bem antes de se comprometer a orar por algo ou alguém, antes de escrever nos comentários das redes sociais que está orando, antes de dizer que fará algo que não fará. Não é pecado não orar por quem precisa, embora não seja muito misericordioso deixar de clamar a Deus por quem necessita da sua oração. Mas, uma vez que você se compromete, deixar de cumprir seu voto é, sim, pecado. Pois é mentira.

A Igreja precisa de intercessores. Você tem essa capacidade. Tudo de que precisa é um coração cheio de compaixão e alguns minutos do seu dia. Diante disso, o convido a lembrar de todas as vezes que prometeu orar por algo ou alguém e não o fez… e fazer isso agora. E, também, a, a partir de hoje, sempre que fizer essa promessa, cumpri-la. É só o que Deus espera de você.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari (via Apenas)

VENERAÇÃO DE MARIA

O Novo Testamento deixa claro que Jesus foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria quando ela ainda era virgem (Mt 1:18-25; Lc 1:26-56; 2:1-7). Mas a igreja apostólica jamais atribuiu a Maria qualquer função especial junto à comunidade dos crentes. No entanto, várias teorias especulativas a respeito de Maria começaram a se infiltrar no cristianismo pós-apostólico. Justino Mártir, Irineu e Tertuliano sugeriam que, como Eva havia sido a fonte do pecado e da morte, Maria trouxe a bênção da redenção ao mundo. Não demorou muito para que se consolidasse também a noção da perpétua virgindade de Maria.

No Concílio de Éfeso (431), Maria foi declarada “mãe de Deus” (grego Theotokos), o que ajudou a estimular a crescente veneração da Virgem Maria através de cultos e orações a ela dedicados. Mas foi, sem dúvida, a oração da “Ave Maria”, originária do século 11, que mais contribuiu para popularizar essa veneração. Philip Schaff declara que durante a Idade Média “a veneração de Maria degenerou-se gradualmente na adoração de Maria”, a ponto de suplantar a própria “adoração de Cristo”.

A teoria da imortalidade natural da alma proveu o embasamento necessário para abrigar o dogma católico da assunção de Maria. Na Idade Média difundiu-se a crença de que a alma de Maria teria sido levada para o Paraíso logo após a sua morte; mas, quando o seu corpo estava para ser sepultado, Jesus o buscou a fim de ser reunido com a alma dela. Como se isso não bastasse, Maria passou a ser considerada como exercendo a função de mediadora humana junto ao trono de Cristo, através da qual os seres humanos poderiam ter acesso à majestade divina e obter graça especial. Em 8 de dezembro de 1854, o papa Pio IX decretou o dogma da Imaculada Conceição de Maria, sugerindo que ela “foi preservada imune de toda mancha do pecado original”.

A veneração de Maria continua ocupando um lugar central na teologia católica romana. O novo Catecismo da Igreja Católica (publicado em 1992) corrobora a crença: “Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãe da Igreja, continua no Céu sua função materna em relação aos membros de Cristo.” E mais: “Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura ininterruptamente… Assunta aos céus, não abandonou este múnus salvífico, mas, por sua múltipla intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna.”

A revista Newsweek de 25 de agosto de 1997 revelou que “um crescente movimento na Igreja Católica Romana” estava sugerindo que o papa aprovasse um novo dogma reconhecendo Maria como co-redentora com Cristo. Naquela ocasião, o papa já havia recebido em apoio a essa proposta “4.340.429 assinaturas de 157 países”, entre as quais constavam as assinaturas de “aproximadamente 500 bispos e 42 cardeais”.

Por mais significativa que a veneração da Virgem Maria tenha se tornado para a Igreja Católica Romana, ela não possui qualquer base bíblica. Jesus mesmo advertiu contra tal postura em Lucas 11:27 e 28: “Ora, aconteceu que, ao dizer Jesus estas palavras, uma mulher, que estava entre a multidão, exclamou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram! Ele, porém, respondeu: Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” Em Lucas 8:21, Cristo acrescenta: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam.”

A teoria da mediação de Maria diante de Cristo a favor dos seres humanos é contrária ao ensino de Cristo de orarmos diretamente ao Pai em Seu nome. Jesus mesmo afirmou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim” (Jo 14:6). “E tudo quanto pedirdes em Meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14:13). E o apóstolo Pedro acrescentou: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12).

O próprio dogma da assunção de Maria ao paraíso cai por terra se levarmos em consideração o ensino bíblico de que os mortos permanecem em estado de completa inconsciência na sepultura (ver Sl 115:17; 146:4; Ec 3:19, 20; 9:5, 6 e 10), aguardando o dia da ressurreição final (ver Jo 5:28 e 29; 1Co 15:51-54; 1Ts 4:13-18). Se os justos fossem levados ao céu por ocasião da morte, o apóstolo Pedro jamais poderia ter afirmado no Pentecostes que Davi, um dos heróis da fé, ainda não havia subido “aos Céus” (At 2:29 e 34).

Cremos, por conseguinte, que Maria foi uma pessoa piedosa e temente a Deus; mas, como Davi, ela ainda não se encontra no céu e, como qualquer outra criatura, ela jamais deveria ser venerada (ver Ap 22:8 e 9).

Alberto R. Timm (via Centro White)

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

NOVOS MÉTODOS

(Textos selecionados de Ellen G. White)
Novos métodos precisam ser introduzidos. O povo de Deus tem que despertar para as necessidades da época em que vive. Deus tem pessoas que Ele chamará para o Seu serviço – pessoas que não farão o trabalho na maneira destituída de vida com que foi conduzido no passado. […] Em nossas grandes cidades, a mensagem deve avançar como uma lâmpada ardente. Deus levantará trabalhadores para a Sua obra, e Seus anjos irão à frente deles. Que ninguém impeça essas pessoas de cumprirem a missão que Deus lhes deu. Não as impeçam. Deus lhes deu uma tarefa. Que a mensagem seja proclamada com tanto poder que os ouvintes se convençam. – Evangelismo, p. 70
Não deve haver regras fixas; nossa obra é progressiva, e deve haver oportunidade para os métodos serem melhorados. Porém, sob a direção do Espírito Santo, a unidade deve ser preservada e o será. – p. 105.
Há necessidade de pessoas que orem a Deus pedindo sabedoria e que, sob a orientação divina, possam pôr nova vida nos antigos métodos de trabalho e inventar novos planos e métodos modernos de despertar o interesse dos membros da igreja, alcançando os homens e as mulheres do mundo. – p. 105.
Nas cidades de hoje, onde existem tantas coisas destinadas a atrair e agradar, as pessoas não podem se interessar por esforços medíocres. Os ministros designados por Deus acharão necessário realizar esforços extraordinários para atrair a atenção das multidões. E quando conseguem reunir grande número de pessoas, precisam apresentar mensagens tão fora do comum que o povo fique desperto e esclarecido. Precisam usar todos os meios que possam ser planejados para fazer com que a verdade seja apresentada. – p. 122.
Cada um que trabalha na vinha do Senhor deve estudar, planejar, idealizar métodos a fim de alcançar as pessoas onde elas estão. Devemos fazer algo fora do curso comum das coisas. Temos que prender a atenção. – p. 122.
Aqueles que estudarem os métodos de ensino de Cristo, e se educarem em seguir os Seus passos, irão atrair grande número de pessoas, mantendo a atenção delas, como Cristo fazia. – p. 124.
Seja qual for que tenha sido a sua prática anterior, não é necessário repeti-la sempre e sempre, da mesma maneira. Deus deseja que sigamos métodos novos e ainda não experimentados. […] Surpreenda as pessoas. – p. 125.
A tarefa de levar pessoas a Cristo exige cuidadoso preparo. Não se deve começar o serviço do Senhor sem a necessária instrução e, ainda assim, esperar o maior êxito. […] Perguntem ao arquiteto, e eles lhes dirá quanto tempo levou para compreender a maneira de planejar uma construção elegante e cômoda. E a mesma coisa é feita em todas as profissões. Deveriam os servos de Cristo ser menos dedicados em se preparar para uma tarefa infinitamente mais importante? Deveriam ser ignorantes a respeito dos meios e maneiras a ser usados para alcançar as pessoas? Saber como se aproximar de homens e mulheres para tratar dos grandes temas que dizem respeito ao bem-estar eterno delas requer conhecimento da natureza humana, profundo estudo, meditação e fervorosa oração. – p. 128.
Na providência de Deus, os que levam a responsabilidade de Sua obra têm se esforçado para dar nova vida aos antigos métodos de trabalho, e também delinear novos planos e novos métodos de despertar o interesse dos membros da igreja num esforço unido para alcançar o mundo. – p. 252.
A prevalecente monotonia da rotina religiosa em nossas igrejas precisa ser modificada. A influência da atividade necessita ser introduzida, para que os membros da igreja possam trabalhar em novos ramos e planejar novos métodos. O poder do Espírito Santo moverá corações à medida que for quebrada essa monotonia morta, sem vida, e muitos que nunca antes haviam pensado em ser além de espectadores ociosos começarão a trabalhar com vigor. […] Devem ser feitos esforços para fazer algo enquanto é dia, e a graça de Deus se manifestará, a fim de que pessoas possam ser alcançadas para Cristo. – Testemunhos para ministros, p. 204.
Tenho uma mensagem aos cristãos que vivem em nossas grandes cidades: Deus lhes mostrou a verdade, não para que vocês a retenham, mas para que a comuniquem aos outros. […] Enquanto trabalham e elaboram planos, novos métodos surgirão na mente de vocês a todo o momento, e, pelo uso, as habilidades intelectuais de vocês aumentarão. – Beneficência social, p. 204.
Deus chamará pessoas ao Seu serviço, pessoas que não promoverão o trabalho da maneira desanimada como tem sido promovido no passado. […] Que ninguém desanime a esses fervorosos trabalhadores. Eles cometerão erros em algumas coisas, e precisarão ser corrigidos e instruídos. Mas, vocês que estão há mais tempo na igreja, também não têm cometido enganos e necessitado de correção e instrução? Quando cometeram erros, o Senhor não os expulsou, mas os curou e fortaleceu. […] Deus escolhe os Seus mensageiros, e lhes dá a Sua mensagem; e Ele diz: “Não [os] impeçam” (Lc 18:16, NVI). Novos métodos precisam ser introduzidos. O povo de Deus precisa despertar para a necessidade do tempo em que está vivendo. – Refletindo a Cristo, p. 234.
Nas igrejas [adventistas do sétimo dia], haverá admirável manifestação do poder de Deus, mas ele não influirá sobre os que não têm se humilhado diante do Senhor, abrindo a porta do coração pela confissão e arrependimento. Na manifestação desse poder que ilumina a Terra com a glória de Deus, eles só verão alguma coisa que, em sua cegueira, consideram perigosa, alguma coisa que despertará os seus receios, e se disporão a resistir-lhe. Visto que o Senhor não age de acordo com suas ideias e expectativas, eles combaterão a obra. “Por que”, dizem eles, “não reconheceríamos o Espírito de Deus, se temos estado na obra por tantos anos?” – Eventos finais, p. 209.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

MICHELLE E O DOM DE LÍNGUAS

O que a primeira-dama Michelle Bolsonaro quis dizer quando usou o que evangélicos pentecostais chamam de dom de línguas para comemorar a confirmação do amigo André Mendonça no STF (Supremo Tribunal Federal)?

As imagens rodaram a internet: a esposa do presidente Jair Bolsonaro estava ao lado de Mendonça quando ele descobriu que seu nome havia sido aprovado pelos senadores, garantindo-lhe a vaga para o qual foi indicado com a premissa de ser "terrivelmente evangélico". Assista abaixo:

   

A primeira-dama, visivelmente emocionada, levanta os braços, diz "glória a Deus", dá pulinhos de júbilo, fala "aleluia" e emenda numa língua estranha. Parece chorar de emoção antes de rir, louvar o "Deus de promessas" e abraçar Mendonça.

Michelle, que já frequentou a Assembleia de Deus sob comando do pastor Silas Malafaia e depois se mudou para uma denominação batista na carioca Barra da Tijuca, estava manifestando o Espírito Santo, segundo a crença pentecostal. Não é uma cena incomum em igrejas dessa linha.

O pentecostalismo surgiu nos Estados Unidos no final do século 19 e faz referência à festa de Pentecostes, quando o Espírito Santo teria outorgado aos discípulos de Cristo poderes de cura e glossolalia (falar línguas).

O estranhamento que o vídeo causou em círculos pouco familiarizados com o pentecostalismo levou a uma onda de zombarias com a fé de Michelle. Portais conservadores enfatizaram o que viram como preconceito religioso contra ela e, por extensão, a todos os evangélicos. (Folha)

Dom de Líguas Bíblico
Esse importante dom mencionado na Bíblia tem sido incompreendido pelos sinceros irmãos da atualidade. Há mesmo quem afirme que quem não fala em “línguas estranhas” não é batizado com o Espírito Santo (contrariando totalmente o que está escrito em Efésios 1:13 que afirma sermos selados pelo Espírito a partir do momento em que cremos em Jesus e não no momento em que “falamos línguas estranhas”), ou seja, é uma espécie de “cristão de segunda classe”. Asseguram inclusive que a única prova de ser batizado com o Espírito Santo é falar “língua estranha”.

Definição e Propósito
Segundo a Bíblia, o dom de línguas é a capacidade de falar outra língua conhecida, em outro idioma (esse é o significado do termo grego para “língua”) com o objetivo de anunciar a boa notícia e salvação por meio de Cristo.

Mateus 28:19, 20 diz que devemos “ensinar as pessoas a guardarem todas as coisas…” Observe que, para ensinar, é indispensável conhecer a língua falada do estrangeiro. “A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso” (1 Coríntios 12:7). Concluímos, obviamente, que o falar em língua deve ter uma utilidade; deve ser, ao menos, inteligível. Lembrando: que tenha um propósito evangelístico.

Esta experiência autêntica aconteceu com os discípulos por ocasião do Pentecostes (a palavra pentecostes é grega e quer dizer “quinquagésimo (dia)”, pois essa festa era comemorada cinquenta dias depois da Páscoa (Dicionário da Bíblia de Almeida – Sociedade Bíblica do Brasil):

“Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar; de repente, veio do céu um som, como de um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam assentados. E apareceram, distribuídas entre eles, línguas, como de fogo, e pousou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a falar em outras línguas, segundo o Espírito lhes concedia que falassem. Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. Estavam, pois, atônitos e se admiravam, dizendo: Vede! Não são, porventura, galileus todos esses que aí estão falando? E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna? Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?” (Atos 2:1-11).

O relato mostra que o dom de línguas foi dado para evangelizar. O verso 6 declara que “cada um ouvia falar na sua própria língua” o que cada seguidor de Cristo dizia e o verso 8 confirma: “e como os ouvimos falar cada um em nossa própria língua materna?” Pela terceira vez exclamaram os estrangeiros: “como os ouvimos falar em nossa própria língua as grandezas de Deus ?” (verso 11).

Havia, naquele lugar, cerca de 18 nações diferentes. Os apóstolos não tinham tempo e nem uma escola para aprender todos aqueles idiomas. Você percebeu? Houve uma “NECESSIDADE” de pregar o evangelho em um lugar onde havia muita gente (Deus não poderia perder aquela oportunidade!); por isso, o Senhor deu-lhes o dom de línguas estrangeiras. Note que os discípulos não falaram palavras ou sílabas sem sentido. Eram compreendidos em outros idiomas.

Há aspectos importantes a analisarmos o dom de línguas em Atos 2:

1. A mensagem de Pedro centralizava-se em Jesus (Atos 2:22-36);

2. O dom de línguas não foi acompanhado por um êxtase sentimental descontrolado. Observe que a mensagem foi compreendida de forma a haver resultados: 3.000 pessoas foram batizadas! (Atos 2:41);

3. Paulo também afirma que as palavras usadas no dom são idiomas que precisam ser entendidos pelos ouvintes para que se convertam a Cristo. Não adianta nada falar num idioma que a pessoa não conheça: “Agora, porém, irmãos, se eu for ter convosco falando em outras línguas, em que vos aproveitarei, se vos não falar por meio de revelação, ou de ciência, ou de profecia, ou de doutrina? É assim que instrumentos inanimados, como a flauta ou a cítara, quando emitem sons, se não os derem bem distintos, como se reconhecerá o que se toca na flauta ou cítara? Pois também se a trombeta der som incerto, quem se preparará para a batalha? Assim, vós, se, com a língua, não disserdes palavra compreensível, como se entenderá o que dizeis? Porque estareis como se falásseis ao ar” (1 Coríntios 14:6-9).

4. “Assim vós, se com a língua não disserdes palavras compreensíveis, como se entenderá o que dizeis? Porque estaríeis como se falásseis ao ar” (ler também 1 Coríntios 14: 18, 19, 23).

5. O dom de línguas é um sinal para os descrentes a fim de que ouçam as maravilhas de Deus no idioma deles. Não é um sinal para os crentes, conforme 1 Coríntios 14:22: “De sorte que as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos; mas a profecia não é para os incrédulos, e sim para os que creem.”

Portanto, tal dom não deve ser usado para orgulho pessoal. O dom de línguas é concedido para evangelizar outras pessoas de outras nações que não conhecem ao Salvador.

Regras a serem seguidas no uso do Dom de Línguas
1. No máximo três pessoas devem falar, de forma sucessiva e organizada, um de cada vez – 1 Coríntios 14:27;

2. Deve haver tradutor (intérprete) – 1 Coríntios 14:28;

3. Precisa ser entendido por todos – Atos 2:9-12;

4. Cumprir o papel de edificar a igreja edifica a Igreja estando subordinado ao dom de profecia (1 Coríntios 14:1, 5, 26).

5. Ser enriquecido pelo amor aos irmãos – 1 Coríntios 13:1 e 9.

Muitos cristãos de hoje ferem essas cinco regras frontalmente. Em muitas congregações, por exemplo, há certo número de pessoas e todos querem falar ao mesmo tempo. Não pode haver intérpretes porque os que falam não sabem o que estão falando.

Observação: Por que utilizar o dom de línguas no Brasil se todos falam o português?

Outros aspectos importantes a serem avaliados sobre o Dom
1. A gritaria não pode fazer parte da manifestação de qualquer dom – Efésios 40:30, 31;

2. A pessoa tomada pelo Espírito Santo tem paz e domínio próprio (Gálatas 5:22, 23), ou seja, não cai no chão.

3. O dom de línguas não provoca desordem na igreja. Em 1 Coríntios 14:33, 40 é dito que “Deus não é de confusão e sim de ordem e paz.” A obra de Deus sempre se caracteriza pela calma e a dignidade. Havendo barulho, choca os sentidos (ler Mateus 6:6; Gálatas 5:22, 23). Lembremos de que Deus não é surdo.

4. O Espírito Santo somente é concedido aos que obedecem a Deus (Atos 5:32). Será que os que se dizem possuidores do Espírito Santo guardam todos os mandamentos de Deus? (ver Tiago 2:10). A pessoa que conhece a Palavra e de livre vontade desobedece a Deus, não tem o Espírito Santo, mesmo que possa parecer! “O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável” (Provérbios 28:9).

5. O fato de alguém falar em línguas não é prova de tenha sido batizado(a) pelo Espírito Santo. A Bíblia apresenta diversas pessoas que receberam o Espírito Santo e, contudo, não falaram em línguas, pois não era necessário. São elas:

- Os samaritanos (Atos 8:17);
- Maria (Lucas 1:35);
- Estevão (Atos 6:5; 7:55);
- Saul, o primeiro rei de Israel (l Samuel 10:10);
- Gideão, juiz de Israel (Juízes 6:34);
- Sansão, outro juiz (Juízes 15:14);
- Zacarias, pai de João Batista (Lucas 1:67);
- Bezalel, em tempos remotos (Êxodo 31:1-3);
- João Batista e sua mãe (Lucas 1:15 e 41);
- Os sete diáconos (Atos 6:1-7);
- Jesus Cristo (Lucas 3:22).

Vemos que Jesus nunca falou em línguas. Será que Ele não tinha o Espírito Santo? Claro que tinha! Ele não usou esse dom porque não havia uma necessidade evangelística para tal. Exigir que todos os irmãos falem em línguas é querer dirigir o Espírito. É ir contra a soberania dEle, pois somente Deus Espírito Santo é quem distribui os dons como Ele quer: “Porém é um só e o mesmo Espírito quem faz tudo isso. Ele dá um dom diferente para cada pessoa, conforme ele quer” (1 Coríntios 12:11).

6. O termo “língua dos anjos” só aparece em 1 Coríntios 13:1, quando Paulo afirma: “Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine.” O apóstolo está apenas destacando que, mais importante que falar a língua dos homens e dos anjos, é ter amor. Não está afirmando que essa manifestação estranha de língua angélica fizesse parte de nossa pregação (leia Gênesis 18 e Apocalipse 22:8, 9, onde os próprios anjos falaram idiomas humanos para que pudessem ser compreendidos! Leia também Gênesis 19:15; Lucas 2:8-14; 1:16-18).

7. Em Marcos 16:17 é dito: “Estes sinais hão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome, expelirão demônios: falarão novas línguas.” O que significa “falar uma nova língua” na Bíblia? O texto original grego responde. Há duas palavras gregas diferentes para descrever o termo “novas” línguas: neós e kainós.

- Neós é algo novo que não existia antes.
- Kainós é algo novo que já existia.

A palavra empregada em Lucas 16:17 é kainós, indicando assim que as “novas línguas” faladas pelos discípulos de Jesus seriam novas apenas para eles que não as conheciam, mas elas já existiam!

Ilustrações
Ilustração 1: A pessoa tinha um carro, ano 2007, e trocou por um 2008. Para a pessoa que comprou, o carro é novo. Significa novo na “experiência”, pois o carro já existia. Assim é o dom de línguas em Marcos 16:17. Para a pessoa que aprendeu a nova língua, é nova (Kainós), mas o idioma já existia, era falado por um grupo de pessoas.

Ilustração 2: Certa vez, um pastor foi em um culto para “testar” se realmente aqueles cristãos entendiam o que estavam dizendo. No decorrer da programação ele recitou o Salmo 23 em grego. Um dos membros daquela igreja levantou-se e foi “interpretar” o que o pastor disse. Afirmou que Deus estava pedindo para que todos entregassem o coração a Jesus, sendo que o pastor apenas falou o Salmo 23 em grego, e ainda por três vezes! Imagine que “balde de água fria” foi para a congregação quando o pastor disse o significado verdadeiro das palavras e que o suposto tradutor estava mentindo.

Considerações Finais
A língua falada é um sistema de linguagem em que os seres humanos, dotados de inteligência, se comunicam e se entendem perfeitamente. As “línguas estranhas” faladas em muitos cultos de hoje nada têm em comum com as mais de 3 mil línguas e dialetos existentes na Terra.

Por conseguinte, não possuem importância evangelística e nem servem para identificar quem é cristão consagrado ou não (lembre-se Efésios 1:13).

A teoria de que o genuíno dom de línguas se manifesta hoje na forma de línguas estáticas, não faladas atualmente por qualquer povo ou nação, carece de fundamento bíblico.

As várias alusões, na Versão Almeida Revista e Corrigida, a “línguas estranhas” (1 Coríntios 14) não aparecem no texto original grego (o termo línguas estranhas foi acrescentado pelo tradutor para tentar “facilitar” a compreensão do texto. Entretanto, dificultou mais ainda, dando apoio à idéia de que o dom de línguas bíblico é algo ininteligível) onde a expressão usada é simplesmente “línguas”.

Portanto, se estou falando a você em francês (língua estrangeira) e você não sabe nada de francês, para você estou falando língua estranha, pois não pode ser entendida. Mas isso não quer dizer que o francês é um idioma que não pode ser entendível por ninguém. Daí surge a necessidade do intérprete.

Segundo nossos dicionários, interpretar é a “arte de determinar o significado preciso de um texto ou lei”, “fazer entender”. Traduzir é apenas converter cada palavra de seu estado estrangeiro (estranho) ao corrente (entendível). Portanto, não existe tradução sem interpretação.

E, não esqueça: o dom de línguas em Atos 2 (Atos 10, 19, 1 Coríntios 12-14) tem sempre um propósito evangelístico.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O PASTOR E A POLÍTICA

Política é o palco do poder. E poder é a imposição de uma vontade sobre a outra. Sempre que a vontade de alguém é substituída pela de outra pessoa estamos diante de uma manifestação de poder e, portanto, de algum nível de política. Geralmente, as discussões políticas giram em torno da busca por um mundo melhor construído pelo homem. Entretanto, de acordo com a cosmovisão bíblica, isso é impossível. Como reflexo de nossa realidade, as discussões sobre ideologias políticas também alcançaram os líderes religiosos. Contudo, parece que esse assunto não deveria ocupar o tempo dos ministros do evangelho. Ellen White escreveu: “O Senhor quer que Seu povo enterre as questões políticas. Sobre esses assuntos, o silêncio é eloquência. Cristo convida Seus seguidores a chegar à unidade nos puros princípios evangélicos que são positivamente revelados na Palavra de Deus.”1

Como líderes cristãos, podemos defender plenamente algum posicionamento político?

Poucas questões políticas são verdadeiramente espirituais. A liberdade religiosa é uma delas; possivelmente, a de maior relevância. É também a mais recorrente na história. A Bíblia mostra casos de violência e de perseguição gerados simplesmente contra a liberdade que as pessoas têm de adorar a Deus. As histórias de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, Daniel, Estevão e Paulo dão testemunho disso. Mesmo que os cristãos reconheçam o papel da autoridade temporal (Mc 12:13-17; At 26:9-12; Rm 13:1-7; 1Tm 2:1, 2; Tt 3:1, 2; 1Pe 2:13-17), continuam sendo alvo de perseguição por parte de outros indivíduos por causa da liberdade religiosa. 

Um segundo aspecto também merece atenção. Quando alguém se torna cristão, ele admite a cosmovisão bíblica como normativa para si. A Bíblia se torna o critério pelo qual a realidade é julgada, incluindo as ideologias políticas, filosóficas, científicas ou de qualquer outra natureza que se apresentem. Assim, caso o cristão queira adotar uma ideologia para viver, ela competirá com a autoridade da Palavra de Deus, e o resultado desse embate mostrará o que é mais importante para ele: se as Sagradas Escrituras ou as ideologias humanas. Ainda, se o reino de Deus não é deste mundo (Jo 18:36), e se os filhos de Deus também não são (Jo 17:14, 16, 18), por que adotar uma ideologia do mundo? Por acaso, querem viver no mundo para sempre? A admoestação de Paulo parece ser apropriada nesse sentido: “Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo” (Cl 2:8, NVI).

Independentemente das condições de vida de um país, a Bíblia chama as pessoas a se arrepender e crer no evangelho, proclamando que o reino de Deus está próximo. Essa é a essência da mensagem divina do Antigo ao Novo Testamento. Esse é o cerne da pregação dos reformadores do século 16, dos mileritas do século 19 e dos adventistas até a segunda vinda de Jesus. Todos os mensageiros evangélicos da história viveram em cidades com melhores ou piores condições de vida, com gente brigando por poder, mas não colocaram sua atenção no sistema nem nas circunstâncias. Em vez disso, pregaram a mensagem de juízo e de salvação, levando os ouvintes a decidir sobre seu destino eterno.

Se não pregarmos a Bíblia, quem pregará? Se misturarmos a Bíblia e a política, a Palavra de Deus será rebaixada à condição humana. Se os ministros de Deus se concentrarem nas coisas deste mundo, quem serão os pregadores do evangelho de Jesus? Quem anunciará a esperança da vida eterna? A quem as pessoas recorrerão quando quiserem aprender as Escrituras? “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão Aquele em quem não creram? E como crerão Naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10:13, 14). “Vós sois o sal da Terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens” (Mt 5:13).

Se um pastor acha que prestaria um serviço melhor à humanidade por meio da política, não deveria ser coerente e deixar o ministério pastoral, dedicando-se à carreira política integralmente? Ellen White foi muito contundente quanto a esse assunto, ao escrever que “todo mestre, ministro ou dirigente em nossas fileiras que é agitado pelo desejo de ventilar suas opiniões sobre questões políticas, deve converter-se pela crença na verdade ou renunciar à sua obra”,2 afinal, “o dízimo não deve ser empregado para pagar ninguém para discursar sobre questões políticas”.3 Em vez disso, cada ministro deve se lembrar de que a “cada dia o tempo de graça de alguém se encerra. Cada hora alguns passam para além do alcance da misericórdia. E onde estão as vozes de aviso e rogo, mandando o pecador fugir desta condenação terrível? Onde estão as mãos estendidas para o fazer retroceder do caminho da morte? Onde estão os que com humildade e fé perseverante intercedem junto a Deus por ele?”4 Como disse o apóstolo Paulo, “importa que os homens nos considerem como ministros de Deus” (1Co 4:1).

Thadeu J. Silva Filho (Artigo na íntegra em Revista Ministério)

Referências
1. Ellen G. White, Fundamentos da Educação Cristã (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2016), p. 475.

2. Ellen G. White, Fundamentos da Educação Cristã, p. 477.

3. Ibid.

4. Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2014), p. 92.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

COMO PIONEIROS ADVENTISTAS COMBATERAM O RACISMO?

Em 1943, Lucy Byard, uma mulher negra norte-americana, entrou em um quadro severo de pneumonia. Adventista do sétimo dia, ela encontrou uma esperança de tratamento no Sanatório Adventista de Washington. A mulher, entretanto, não foi atendida. Aquele hospital denominacional tinha como público pessoas brancas. Dessa forma, ela precisava ser destinada ao Hospital dos Alforriados. Sem atendimento, o estado de saúde delicado agravou-se ainda mais. Lucy morreu às portas da unidade, sem cuidados.[1]

A exclusão social deixa um rastro de sangue na história das grandes denominações históricas e a Igreja Adventista do Sétimo Dia não está imune a isso. Olhar, no entanto, apenas para os aspectos negativos é um recorte perigoso da história. As contribuições do adventismo ao combate à escravidão e racismo estão repletas de exemplos virtuosos desde os pioneiros adventistas.

Mileritas
Alguns dos responsáveis pelo movimento religioso arrebatador do século XIX estiveram profundamente comprometidos com a causa abolicionista, impopular para muitos à época. No mesmo sentido, o também historiador Richard W. Schwarz afirma que "as convicções abolicionistas da maioria dos conferencistas mileritas os tornavam personae non grata [pessoas não bem vindas ou aceitáveis] no sul”[2]. Esse contexto de hostilidade trouxe problemas para Joseph Bates (1792-1872), que viria a ser o primeiro presidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Em uma ocasião, foi interrogado por um juiz sob a acusação de que "tinha vindo para levar nossos escravos"[3]. Por mais de uma vez, ele foi expulso de cidades com base na mesma acusação. Sua missão era comprometida por convicções morais e políticas.

Essa falta de receptividade por parte dos sulistas, que eram majoritariamente escravagistas, fica compreensível quando lidas as palavras de Joshua V. Himes, que não somente participou na fundação da Sociedade Antiescravista de Massachusetts, como também teve importância para a Sociedade Antiescravista da Nova Inglaterra. Sua esposa era uma das diretoras da Sociedade Feminina Antiescravista de Boston. Himes também defendeu que donos de escravos e defensores dessa prática não deveriam ser aceitos como adventistas mileritas, uma vez que eles “corromperiam a organização”[4].

Ellen White
Ellen G. White também foi comprometida com a causa da liberdade dos negros. Ciente de que o envolvimento com a causa poderia prejudicar o avanço da pregação, não deixou de dar declarações contundentes: "Sei que o que vou falar agora me trará conflitos. Quisera não tê-los, pois já bastam os conflitos que parecem perdurar nos últimos anos; mas não é minha intenção viver como uma covarde nem morrer como uma covarde, deixando minha obra por fazer. É meu dever seguir os passos do Mestre. [...] O Deus do branco é o Deus do negro, e o Senhor afirma que Seu amor para com os mais pequeninos de Seus filhos supera o amor de uma mãe pelo seu filho querido. [...] Ele ama a todos, e não faz diferença alguma entre brancos e negros, a não ser no que diz respeito à piedade terna e especial que tem por aqueles que são chamados a suportar um fardo mais pesado que outros. [...]

O nome do negro está escrito no livro da vida ao lado do nome do branco. Todos são um em Cristo. Nem nascimento, nem posição, nacionalidade nem cor podem elevar ou degradar as pessoas”[5].

Cristianismo e racismo
Dados como esse mostram a necessidade de reflexão. Ativistas negros afirmam que o cristianismo foi uma ferramenta de legitimação da violência. A participação ativa da fé na manutenção do sistema escravocrata é, de fato, inegável. Apesar disso, o papel da fé cristã é fundamental para compreender o combate ao racismo.

Joaquim Nabuco (1849-1910), político brasileiro importantíssimo no combate a escravidão no Brasil, reconhece que “em outros países a propaganda da emancipação foi um movimento religioso, pregado do púlpito, sustentado com fervor pelas diferentes igrejas e comunhões religiosas. Entre nós, o movimento abolicionista nada deve, infelizmente, à Igreja do Estado; pelo contrário, a posse de homens e mulheres pelos conventos e por todo o clero secular desmoralizou inteiramente o sentimento religiosos de senhores e escravos”[6].

As palavras de Nabuco ecoam as contribuições de religiosos ingleses, como John Wesley (1703-1791), um dos grandes nomes da história do protestantismo, que foi fundamental no combate à escravidão.[7] Nabuco teve notável sensibilidade em compreender que a fé cristã é cheia de ambivalências e contradições. Quando o assunto é racismo, cristãos estão entre os principais vilões, bem como heróis. A fé cristã foi manipulada para servir a uma defesa da escravidão. Ao mesmo tempo, a mesma foi fundamental para o combate ao racismo como um todo. Entre os adventistas, isso não é diferente.

Como bem notou George R. Knight, um dos principais historiadores da denominação, “o preconceito racial (bem como outros pecados) não é totalmente erradicado da maioria dos cristãos quando esses se convertem. Nem são as tensões raciais enraizadas numa cultura fáceis de serem superadas pelas igrejas que vivem naquele ambiente social. Sendo assim é lamentável, mas não surpreendente, que os adventistas tenham tido sua parcela de vítimas de questões raciais”[8].

As ambivalências da história adventista e questões raciais revelam exemplos preciosos de como agir. As tensões raciais ainda existem. O acirramento revela novos problemas e uma boa abordagem pode ser encontrada nas palavras equilibradas de Ellen G. White. Apesar de temerosa com as consequências de assumir posturas de defesa da igualdade racial, ela escreveu:

"Estou muito preocupada com a obra entre as pessoas negras. O evangelho precisa ser pregado a essas pessoas, que em geral vivem em situação de desvantagem. Entretanto, devemos revelar grande precaução nos esforços para erguer essas pessoas. Entre os brancos, em muitos lugares, existe forte preconceito contra os negros. Deveríamos ignorar tal preconceito, porém, isso não é possível. Se agíssemos como se esse antagonismo não existisse, seríamos incapazes de apresentar a luz aos brancos. Temos de enfrentar a situação tal qual ela se apresenta, lidando com ela sábia e inteligentemente"[9].

Lições importantes
Das palavras de White citadas acima, além dos demais dados trazidos, acredito que é possível trazer algumas lições preciosas.

Não devemos negar o fato de que desigualdades sociais graves acontecem ainda hoje e têm como causa prevalente a etnia, que White chama de “situação de desvantagem”. O preconceito, uma consequência óbvia do pecado, em suas mais variadas formas, pode atrapalhar a missão, excluindo muitos do acesso à mensagem. Ignorar o preconceito não fará com que ele suma. Ao invés disso, devemos trazer uma abordagem cristã para a análise desse fenômeno.

O tom beligerante, comum ao debate público, não é propício ao contexto cristão. Sem incorporar as ideologias da nossa era, devemos desenvolver como sabedoria e equilíbrio um pensamento cristão acerca desse fenômeno.

A teologia e as igrejas cristãs emprestaram autoridade teológica para ideias de supremacia racial, que também tinham respaldo em teorias pseudocientíficas. O envolvimento de instituições e indivíduos cristãos com a escravidão, seu silêncio, omissão e até promoção da desigualdade racial devem ser sempre contrastados com os exemplos igualmente abundantes de combate a esse mal. Não se pode esquecer muitos males causados por cristãos foram corrigidos por outros da mesma fé. Compreender os impactos do papel da teologia, boa ou má, no nosso mundo nos protege de promover o mal. E, ao mesmo tempo, entender como a nossa história traz bons exemplos de como agir frente aos problemas da nossa era.

Davi Boechat é jornalista e estudante de direito (via ASN)

Referências

[1] KNIGHT, George R. Breve História dos Adventistas do Sétimo Dia, p. 138. Casa Publicadora Brasileira, 2000.

[2] SCHWARZ, Richard W. GREENLEAF, Floyd. Portadores de Luz, p. 52. Unaspress, 2016.

[3] Ibidem, p. 124.

[4] KNIGHT, George. Adventismo, p. 179. Casa Publicadora Brasileira, 2015.

[5] Ellen G. White citada por DOUGLASS, Hebert E. Profecias Surpreendentes, p. 43. Casa Publicadora Brasileira, 2012.

[6] Nabuco, Joaquim. Abolicionismo, p. 43. Edições Câmara. 2019.

[7] Renders, Helmut. John Wesley e a luta abolicionista, p. 39. ASTE, 2019.

[8] Knight, George. Uma Igreja Mundial: Breve História dos Adventistas do Sétimo Dia, p. 136 e 137. Casa Publicadora Brasileira, 2020.

[9] White, Ellen G. Testemunhos para a Igreja, p. 178. Ellen G. White Estate, 2013

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

NATAL DOS EXCLUÍDOS

Feliz Natal! Pra quem? 19 milhões de brasileiros com fome, 13,5 milhões desempregados, milhares de crianças sem um teto... Não há felicidade sem garantia de vida digna para o nosso povo. O registro da imagem acima feito pelo fotógrafo João Paulo Guimarães no município de Pinheiro, a 333 km de São Luís, no Maranhão, tem chamado atenção nos últimos dias. Uma foto tirada em um lixão da cidade mostra Gabriel, de 12 anos, que acompanhava a mãe no local, feliz ao encontrar uma árvore de Natal em meio aos entulhos. Com a repercussão da imagem, Gabriel acabou ganhando uma árvore nova, além de outras doações arrecadadas em uma campanha online.

A epopeia do casal Maria e José ─ os excluídos da sociedade judaica que não tiveram direito a uma estalagem para abrigar o seu filho Jesus que estava prestes a nascer, hoje, são simbolizados por aqueles que nesse Natal estão longe das mesas repletas de guloseimas e vinhos; são representados por aqueles que estão bem distantes do burburinho da cidade engalanada e repleta de efêmeros atrativos. O drama dos pais de Jesus que não foram acolhidos pela sociedade daquela época, se repete diariamente na pele dos excluídos de nossa sociedade. Vejamos o que Ellen G. White nos convoca a fazer nesta época do ano:

“As festividades de Natal e Ano Novo podem e devem ser celebradas em favor dos necessitados. Deus é glorificado quando ajudamos os necessitados que têm família grande para sustentar" (O Lar Adventista, p. 482).

"Pelo mundo os feriados são passados em frivolidades e extravagância, glutonaria e ostentação. ... Milhares de dólares serão gastos de modo pior do que se fossem lançados fora, no próximo Natal e Ano Novo, em condescendências desnecessárias. Mas temos o privilégio de afastar-nos dos costumes e práticas desta época degenerada; e em vez de gastar meios meramente na satisfação do apetite, ou com ornamentos desnecessários ou artigos de vestuário, podemos tornar as festividades vindouras uma ocasião para honrar e glorificar a Deus" (Review and Herald, 11 de dezembro de 1879).

A ligação entre o evangelho e a responsabilidade social é claramente representada no ministério de Cristo, tanto no Velho como no Novo Testamentos. Quando os estragos da pobreza, injustiça e opressão estão bem presentes, a Palavra de Deus insiste que uma fé que fala somente das necessidades espirituais do povo, mas deixa de demonstrar sua compaixão mediante auxílio prático é vista como um culto falso (ver Isaías 58). Com efeito, como Gandhi certa vez disse: “Precisamos viver em nossas vidas as mudanças que queremos ver no mundo.”

Um discípulo de Cristo verdadeiramente crente não pode tratar com indiferença as desigualdades materiais e a manifestação de poder e privilégio que atingem a tantos e leva ao empobrecimento espiritual de outros. 
 
Ellen G. White escreveu: “A desumanidade do homem para com o homem, eis nosso maior pecado” (A Ciência do Bom Viver, p. 163). Quantas vezes, mesmo empenhados na obra de Deus, nós nos entusiasmamos com novos projetos, métodos e alvos, e, contudo, somos indiferentes para com os que sofrem.
 
O evangelho convida o discípulo de Cristo e a igreja à solidariedade com todos os que sofrem, a fim de juntos podermos receber, incorporar e partilhar as boas-novas de Jesus, a fim de melhorar a vida de todos. Como Cheryl Sanders o expressa:

“O reino preparado desde a fundação do mundo é um reino onde todos são satisfeitos, alimentados e livres. Alguém se qualifica para entrar nesse reino exercendo boa mordomia da própria vida, e distribuindo vida a partir da abundância que recebeu como legado de Deus. E o evangelho declara que a vida eterna é a recompensa daqueles que cuidam da vida. Aqueles que alimentam os famintos, dão de beber aos sedentos, abrigam o estrangeiro, vestem os nus e visitam os doentes e encarcerados tornam-se identificados com a criação do reino de Deus neste mundo, e atuam em parceria com Deus no domínio dos negócios humanos. Desobedecer esse mandado bíblico é negar lealdade ao reino e ao Rei” (Ministry at the Margins, p. 28).

A igreja e o seguidor de Cristo precisam responder à pergunta: “Sou eu guardador do meu irmão?” O sofrimento de nossos semelhantes nos causa dor. Podemos tentar escondê-lo, negá-lo, encobri-lo ou descartá-lo, mas ainda assim o sofrimento e a dor dos outros não nos podem deixar completamente impassíveis. Nossa fé cristã reforça isso. Como posso chamar-me de seguidor de Cristo quando não me preocupo com meus semelhantes? Como posso representar o reino de Deus e não me preocupar profunda e praticamente com as pessoas que são incluídas em Seu reino?

“Mas não necessitamos de ir a Nazaré, a Cafarnaum ou a Betânia para andar nos passos de Jesus. Encontraremos Suas pegadas ao pé do leito dos doentes, nas choças de pobreza, nos apinhados becos das grandes cidades, e em qualquer lugar onde há corações humanos necessitados de consolação. Fazendo como Jesus fazia quando na Terra, andaremos nos Seus passos" (O Desejado de Todas as Nações, p. 616).

Na Palavra de Deus, a responsabilidade do seguidor de Cristo pelos pobres e necessitados não é menos importante do que a pregação do evangelho, nem é opcional. É parte integrante de toda a história do evangelho, porque realmente vemos na face do pobre a face de Cristo: “Em verdade vos digo que, quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes” (Mateus 25:40).

Concluo com estas importantes exortações de Ellen G. White para nós:

“O verdadeiro cristão é amigo dos pobres. Ele trata com o seu irmão perplexo e desafortunado como se trata com uma planta delicada, tenra e sensível.” (Beneficência Social, p. 168)

"A obra de recolher o necessitado, o oprimido, o aflito, o que sofreu perdas, é justamente a obra que toda igreja que crê na verdade para este tempo devia de há muito estar realizando. Cumpre-nos mostrar a terna simpatia do samaritano em acudir às necessidades físicas, alimentar o faminto, trazer para casa os pobres desterrados, buscando de Deus todo dia a graça e a força que nos habilitem a chegar às profundezas da miséria humana, e ajudar aqueles que absolutamente não se podem ajudar a si mesmos. Isto fazendo, temos favorável ensejo de apresentar a Cristo, o Crucificado." (Beneficência Social, p. 188-190)
 
Deus nos convoca, hoje, a ajudarmos o próximo. Juntos, em amor, compaixão, bondade e misericórdia em prol de um irmão necessitado de esperança, de pão, de uma oportunidade, de uma chance para mudar sua vida.