terça-feira, 11 de novembro de 2025

REVESTIDOS DE IMORTALIDADE

Como será o corpo dos justos após a ressurreição, quando Cristo voltar?

Quando a Bíblia trata da ressurreição dos salvos, ela apresenta elementos de continuidade e descontinuidade em relação ao nosso corpo atual. A diferença não pode ser absoluta, pois, caso contrário, não seria uma ressurreição. Cristo ressuscitou com um corpo glorificado, e, em Sua vinda, “transformará o nosso corpo de humilhação, para ser igual ao corpo da Sua glória” (Fl 3:21).

Corpo físico. O corpo ressuscitado não é uma alma desencarnada, mas um corpo físico. Após Sua ressurreição, Cristo permitiu que os discípulos tocassem Nele, confirmando que possuía carne e ossos; Ele não era um fantasma (Lc 24:39; Jo 20:20). A natureza física do corpo ressuscitado de Cristo foi testemunhada por muitas outras pessoas. Ele apareceu aos onze discípulos em uma montanha (Mt 28:16, 17) e a “mais de quinhentos irmãos de uma só vez” (1Co 15:6; cf. At 1:3; 13:31). Nem todos O viram, mas chegará o tempo em que todos O verão na glória de Seu corpo ressuscitado (Ap 1:7).

Corpo espiritual. O corpo ressuscitado de Jesus não era exatamente o mesmo que Seu corpo terreno; havia também um elemento de descontinuidade. Maria ouviu Sua voz, mas inicialmente não O reconheceu (Jo 20:15, 16). Dois discípulos caminharam com Ele até Emaús e só O reconheceram quando Jesus abençoou e partiu o pão (Lc 24:30, 31). Naquele momento, os olhos incrédulos deles foram abertos. Assim como Cristo foi reconhecido pelos discípulos, também seremos capazes de reconhecer nossos entes queridos na eternidade. Os relatos bíblicos das aparições de Cristo após Sua ressurreição indicam uma mudança em seu corpo: de forma inesperada e sobrenatural, ele desaparecia (Jo 20:19, 26; Lc 24:31). Portanto, essas foram manifestações sobrenaturais de Sua presença na Terra. A expressão “corpo espiritual” não se refere a um ser imaterial, mas a alguém que pertence permanentemente ao reino celestial de glória.

Corpo transformado. Nosso corpo ressuscitado não será composto exatamente pelas mesmas partículas que formaram nosso corpo terreno (1Co 15:35-38). O que será preservado e trazido de volta à vida na existência corporal é o caráter da pessoa. Na ressurreição, algo extraordinário e misterioso acontecerá: o perecível será ressuscitado imperecível (1Co 15:42, 43) e o mortal será revestido de imortalidade (v. 53; Jo 8:51). Nossa existência corporal humana estará, então, perpetuamente livre dos danos que o pecado causou ao nosso corpo e à nossa natureza.

Ao sermos transformados, a comida será compatível com esse corpo glorificado, assim como foi com Jesus (Lc 24:41, 42; At 10:41). Comeremos da árvore da vida (Ap 22:2) e dos frutos da terra (Is 65:21). As distinções de sexo (masculino e feminino), estabelecidas na criação, serão preservadas, embora nós, assim como os anjos, não procriaremos (Mt 22:30). Na Nova Terra, nossa visão será perfeita, permitindo-nos reconhecer nossos entes queridos no esplendor de seus corpos ressuscitados. 

ÁNGEL MANUEL RODRÍGUEZ (via Revista Adventista)

"Alguns serão mudados quando Cristo vier. Isto que é mortal será revestido de imortalidade, e estes corpos corruptíveis, sujeitos à enfermidade, serão mudados do mortal ao imortal. Seremos então dotados de uma natureza superior. Os corpos de todos os que purificam a alma pela obediência à verdade serão glorificados. Os justos estarão revestidos de imortal juventude e beleza" (Ellen G. White - Olhando para o Alto, p. 97).

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

MORDOMIA AMBIENTAL

Vivemos em um planeta que se deteriora rapidamente. O impacto da humanidade tem sido devastador e evidente. Aproximadamente um quarto da área terrestre do planeta foi convertida para uso humano. Quase metade das florestas tropicais e temperadas foi cortada ou demolida. A poluição do ar, terra e água tornou-se global. Por causa da exploração excessiva e negligente, plantas e animais estão desaparecendo em um ritmo sem precedentes. Milhares de espécies são extintas a cada ano. Ao transportar micróbios, plantas e animais para novos lugares, temos inadvertidamente disseminado doenças e acelerado a destruição de espécies nativas.

As mudanças climáticas em andamento na Terra já são irreversíveis. Nas próximas décadas, teremos milhões de refugiados ambientais por conta da subida no nível dos oceanos e pelos eventos climáticos extremos; fome em grande escala devido à redução e desertificação de áreas de produção e à perda da capacidade pesqueira; aumento na quantidade de pessoas doentes e subnutridas, além de conflitos e guerras em busca de água e de terra para plantar. Muita gente vai morrer no Brasil e no mundo. E os sobreviventes terão que adaptar sua vida para conviver com um ambiente mais hostil. 

E enquanto líderes mundiais discutem em Belém na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30) caminhos para conter o aquecimento global, o Brasil foi palco, na sexta-feira, 7, de um evento climático extremo: um tornado devastador atingiu o município município de Rio Bonito do Iguaçu, no centro-sul do Paraná, deixando um rastro de destruição e lembrando que as mudanças do clima não são uma abstração, mas uma realidade já presente no território nacional. A questão não é mais "evitar" mudanças climáticas e sim "reduzir a tragédia que já começou". O mundo precisa entender que já está no fundo poço. A questão é que, no fundo, há um alçapão.

Será que o Criador, que declarou que todas as formas de vida são “muito boas” (Gn 1:31), que amorosamente alimenta e sacia todas as criaturas (Sl 104:24-27; Is 43:20; Mt 6:26), e que vê os pardais que caem dos céus (Mt 10:29), percebeu no que se tornou Sua criação? Será que Ele vê que “toda a criação geme” (Rm 8:22)? É claro que sim!

Alguns cristãos expressam mais preocupação com a criação de Deus do que outros. Muitos veem nas Escrituras um mandamento claro ordenando a preservação da criação, mas outros enxergam a permissão implícita para saqueá-la. Curiosamente, várias pesquisas publicadas revelam que os cristãos e os de outros grupos religiosos são consideravelmente menos preocupados com questões ambientais que o público em geral. Por que isso acontece?

Pelo menos três razões explicam a indiferença ou até mesmo os sentimentos antiambientalistas de alguns cristãos.

Em primeiro lugar, alguns argumentam, com base na teologia do domínio (Gn 1:26, 28), que Deus permite que os seres humanos explorem os recursos naturais sem preocupação com as consequências.

Além disso, nossas visões escatológicas levam alguns a insistir que não precisamos nos preocupar com nosso lar terrestre nem com suas criaturas porque este mundo será destruído e recriado na segunda vinda de Jesus.

Por último, os referidos estudos mostram que a conscientização ambiental pode ser fortemente influenciada por tendências políticas e exposição à mídia.

Muitos cristãos se ofendem com a visão secular de que a criação surgiu por processos naturais ao longo de milhões ou bilhões de anos. No entanto, alguns deles se irritam com os que acreditam que devemos nos preocupar com o que resta da criação. Eles insistem que os cientistas e os políticos, bem como aqueles cristãos que compartilham do mesmo pensamento, são alarmistas.

Por que devemos nos importar
Então, como os adventistas do sétimo dia e outros cristãos devem se relacionar com a criação? Aqui estão quatro razões pelas quais devemos adotar a mordomia ambiental.

1. Ele espera que nos importemos
As Escrituras defendem a mordomia ambiental. Devidamente compreendida, a “autoridade” dada os seres humanos para “dominar” sobre todas as coisas vivas e “subjugar” a terra (Gn 1:26, 28) refere-se ao desejo de Deus de que cuidemos da terra (Êx 23:10, 11; Lv 25:2-7, 23, 24) e tratemos os animais de forma humana, fornecendo-lhes comida e descanso suficientes (Êx 23: 5, 12; Dt 25: 4), resgatando-os do perigo (Mt 12:11) e jamais torturando-os (Nm 22: 23-33). O planeta pertence a Deus, não a nós (Lv 25:23; Sl 24:1; 1Co 6: 15-20, 10:26). Foi Deus quem sancionou a primeira “lei de proteção ambiental” (Gn 2:15) e o primeiro “ato de proteção a espécies ameaçadas” (Gn 6:19).

Nitidamente, Deus espera que os governantes nomeados para gerenciar Sua criação exerçam a mordomia benevolente e altruísta (Sl 72: 8-14; Ez 34: 2-4; Mt 20:26, 27).

2. Preservar nos leva à comunhão com o Criador
Os cristãos que procuram preservar a criação reconhecem a clara relação entre nossa compreensão da natureza e Deus: “Pergunte, porém, aos animais, e eles o ensinarão, ou às aves do céu, e elas lhe contarão; fale com a terra, e ela o instruirá, deixe que os peixes do mar o informem” (Jó 12: 7, 8).

Ellen White insistiu sobre a importância de estudar e preservar a criação de Deus. “Deus tem nos cercado de belas paisagens da natureza para cativar e ocupar a mente. É Seu desígnio que associemos as glórias da natureza com Seu caráter. Se fielmente estudarmos o livro da natureza, vamos vê-lo como um frutífero campo à contemplação do infinito amor e poder de Deus” (My Life Today, p. 294).

Na verdade, vamos estudar a natureza, aprender com ela e preservá-la para que para as futuras gerações façam o mesmo.

3. Devemos preservar por razões econômicas
Deus nos legou extraordinários recursos naturais que tornam a vida confortável e produtiva. Porém, esses recursos são finitos.

Podemos caracterizar os recursos naturais como serviços do ecossistema, dos quais depende nossa própria existência. Eles incluem o fornecimento de alimentos e água; polinização de plantas silvestres e agrícolas; reposição de nutrientes; moderação de climas extremos, incluindo atenuação de inundações e secas; proteção contra a erosão; regulação de pragas em plantas e organismos causadores de doenças; decomposição e desintoxicação de resíduos; purificação de ar e água; e manutenção da biodiversidade. Esses serviços, fornecidos gratuitamente para nós, foram avaliados globalmente em 125 trilhões de dólares por ano. Obviamente, eles são insubstituíveis.

Sem esses serviços, que estamos degradando rapidamente, nossa qualidade de vida e a de gerações futuras, seria drasticamente reduzida.

4. Devemos cuidar por razões de saúde e justiça social
Seres humanos sadios precisam de ambientes saudáveis que forneçam recursos e processos naturais que sustentem a vida humana. Ambientes degradados fornecem recursos precários e promovem doenças, tensão, conflitos e desigualdade. Infelizmente, são os pobres que normalmente suportam o peso dos problemas que surgem a partir de ambientes degradados. Pessoas e corporações egoístas exploram o ambiente e diminuem sua capacidade de sustentar a população local. As nações ricas, muitas vezes, se beneficiam às custas dos países em desenvolvimento.

Normas ambientais inconsistentes, a corrupção e o desrespeito às leis ambientais ameaçam a saúde e a subsistência de milhões de pessoas. Estima-se que uma em cada sete mortes em 2012 resultou da exposição ao solo e água contaminados, e/ou poluição do ar, e 93% dessas 9 milhões de mortes ocorreram em países em desenvolvimento. Sendo cristãos, devemos estar à frente da defesa das vítimas de injustiça ambiental, que incluem não apenas os seres humanos, mas também outras formas de vida.

Pensamento crítico
Sendo seguidores de Jesus, temos a obrigação de preservar a criação e aliviar o sofrimento humano sempre que possível. No entanto, a compreensão de como devemos agir se torna mais difícil pelas opiniões polarizadas que ouvimos. Quando se trata de questões ambientais, devemos buscar nos manter informados pelas fontes mais confiáveis. Devemos reconhecer a linguagem da propaganda com a qual nos deparamos diariamente nos meios de comunicação, pois há muitos especialistas que entendem pouco sobre as interações complexas do mundo natural. Precisamos ter a mente aberta, aplicar pensamento crítico com o melhor de nossas habilidades e tratar com respeito as opiniões dos outros, mesmo quando acreditamos que estão errados.

Testemunhando por meio da mordomia ambiental
A indiferença de muitos cristãos para com as questões ambientais levou o renomado biólogo de Harvard, E. O. Wilson, a publicar em 2006 seu livro The Creation: An Appeal to Save Life on Earth. Elaborado na forma de uma série de cartas a um pastor batista fictício, Wilson pediu que os cristãos se unissem no esforço, em grande parte secular, para salvar o que resta da criação. Em suas palavras: “A ciência e a religião são duas das forças mais potentes na Terra, e elas devem se unir para salvar a Criação”.

Parece irônico, com base na forma com a qual nossa igreja vê o ato original da Criação, que algum de nós permaneça indiferente à sua preservação. No entanto, grande parte dos adventistas e de outros cristãos tem se omitido, enquanto os não-crentes têm tomado a iniciativa de cuidar da criação. Se trabalhássemos juntos, imagine as oportunidades que haveria para testemunhar, especialmente para aqueles que mais necessitam conhecer Cristo!

Pessoalmente, tenho orgulho de pertencer a uma igreja que leva a sério o estudo do segundo livro de Deus, a natureza. A Igreja Adventista tem abraçado a mordomia ambiental com várias declarações oficiais (veja aqui, aqui e aqui). Com essas declarações, a denominação reconhece que “a crise ecológica está enraizada na ganância e recusa da humanidade a praticar a boa e fiel mordomia dentro dos limites divinos da criação”. Porém, apesar dessas declarações de apoio, as instituições da igreja atualmente destinam recursos insignificantes para o que poderia ser um poderoso testemunho através da preservação da Criação.

A Criação totalmente restaurada
Embora o pecado tenha manchado a criação original de Deus, ainda podemos ver Sua obra. Fomos encarregados de assegurar que a assinatura da obra de Deus permaneça para que todos possam vê-la e aproveitá-la. É um dom de Deus. Mostramos nossa gratidão ao apreciá-la. Também podemos contrastar a presente criação com a original, que um dia será restaurada. “E morará o lobo com o cordeiro, e o leopardo com o cabrito se deitará, e o bezerro, e o filho de leão e o animal cevado andarão juntos, e um menino pequeno os guiará” (Is 11: 6).

Isso é um ecossistema que todos nós esperamos conhecer, e é ele que eu quero estudar um dia!

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

COBIÇA

Você já percebeu como o espírito de descontentamento está generalizado? Muitos estão buscando desesperadamente aquilo que finalmente satisfará seus desejos e suas vontades, mas descobrem que quanto mais têm e adquirem, mais querem.

Grande parte do conflito no mundo gira em torno de pessoas que se apegam egoisticamente à riqueza, à posição e ao poder. Por sermos seres humanos caídos, somos inclinados ao egoísmo, em contraste direto com o caráter perfeito e altruísta de Deus. O pecado e o egoísmo andam de mãos dadas. Em alguns círculos, entretanto, a palavra “pecado” não mais é ouvida. Alguns preferem não falar dele, preferindo se concentrar apenas em mensagens positivas.

Ellen G. White diz: "O egoísmo e a cobiça muitas vezes não são reprovados, no entanto, esses são pecados especialmente ofensivos a Deus, pois são contrários à benevolência de Seu caráter e àquele desinteressado amor que é a própria atmosfera do Universo não caído" (Caminho a Cristo, p. 30).

A Bíblia, por sua vez, tem muito a dizer sobre o pecado, inclusive nos Dez Mandamentos. Entre eles está o décimo mandamento que, cada vez mais, é negligenciado. É o que trata do pecado da cobiça (Êx 20:17). De fato, se você perguntasse às pessoas na rua o que é cobiça, imagino que muitos nem sequer saberiam o significado da palavra. Em termos simples, a cobiça envolve o desejo egoísta e desmedido por aquilo que os outros possuem.

Infelizmente, muito do que está ao nosso redor foi concebido para nos fazer desejar exatamente desta maneira: sentir vazio e anseio por aquilo que não temos e, às vezes, desejar especificamente o que pertence aos outros. Desde as formas mais tradicionais de publicidade até os algoritmos das mídias sociais, somos bombardeados incessantemente com mensagens que estimulam nosso cérebro a ficar insatisfeito e desejar muitas coisas das quais não temos necessidade ou das quais não faremos bom uso.

Por outro lado, Paulo deu o exemplo de como “viver contente em toda e qualquer situação” (Fp 4:11). Nesse contexto, ele escreveu: “Tudo posso Naquele que me fortalece” (v. 13). Contudo, sendo bem honestos, não são necessárias campanhas publicitárias inteligentes ou algoritmos de mídia social para nos fazer cobiçar. Somos muito bons nisso!

Conta-se que um repórter perguntou ao magnata Nelson Rockefeller: “Quanto dinheiro é necessário para ser feliz?”. O ricaço respondeu com naturalidade: - Um pouco mais” (Michael Horton - A Lei da Perfeita Liberdade, p. 212). É isso. Cobiçar significa colocar nossa devoção em coisas – dinheiro, sucesso, fama – e transformá-las no centro de nossa existência, crendo que são o fundamento sobre o qual construímos a felicidade. Para o cobiçoso, as coisas se tornam mais importantes do que as pessoas e suas necessidades. O cobiçoso nunca está satisfeito; para ele, o muito é ainda pouco. Enfim: A cobiça é o amor fora de proporção, fora de equilíbrio e fora de lugar.

O apóstolo Tiago escreveu: “Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e Ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tiago 1:13-15).

Ellen G. White nos adverte: "O décimo mandamento fere a própria raiz de todos os pecados, proibindo o desejo egoísta, do qual nasce o ato pecaminoso" (Patriarcas e Profetas, p. 218). e continua: "O último mandamento condena a cobiça. Todo desejo egoísta, toda medida de descontentamento, todo ato de engano, toda satisfação do próprio eu, produz o fortalecimento e desenvolvimento de um caráter que destruirá a imagem de Cristo no ser humano, e cerra-lhe as portas da cidade de Deus" (Carta 15, 1895).

A Bíblia conta a história de um homem que ficou conhecido por esconder o seu pecado. O nome dele era Acã. Ele pertencia à tribo de Judá e participou da vitória de Israel sobre Jericó. Foi uma batalha memorável, na qual o nome de Deus foi exaltado. Junto com a vitória, veio a advertência: “Fiquem longe das coisas consagradas, não se apossem de nenhuma delas, para que não sejam destruídos” (Js 6:18). No entanto, Acã deu um “jeitinho” de levar para a sua tenda algumas riquezas. Ele mesmo disse: “Quando vi entre os despojos uma bela capa feita na Babilônia, dois quilos e quatrocentos gramas de prata e uma barra de ouro de seiscentos gramas, eu os cobicei e me apossei deles. Estão escondidos no chão da minha tenda” (Js 7:21). 

Perceba que a trágica escolha de Acã começou pelos olhos, da mesma forma que o pecado de Eva (Gn 3:6). Acã olhou, cobiçou e finalmente agiu, cometendo o furto e encobrindo a transgressão. Essa é a dinâmica do pecado. Infelizmente a escolha de Acã trouxe sérias consequências para Israel e, inclusive, para a sua família. Ele e tudo quanto possuía tiveram que ser destruídos a fim de que Israel voltasse a uma base sólida de santidade e justiça (Js 7:25, 26). O fato de a sua família ter sido morta também revela que provavelmente compactuasse com o segredo de Acã. Essa história está registrada na Bíblia para nos advertir sobre as sérias consequências do pecado. Ellen G. White diz: "O mortal pecado que determinara a ruína de Acã teve suas raízes na cobiça, um dos mais comuns e mais levianamente considerados dentre todos os pecados. Enquanto outras faltas são descobertas e castigadas, quão raramente apenas desperta censura a violação do décimo mandamento. A enormidade deste pecado, e seus terríveis resultados, são a lição da história de Acã" (Patriarcas e Profetas, p. 362).

E a cobiça, de muitas maneiras, é o pecado esquecido dos nossos dias. Talvez isso nem seja surpresa, já que está tão intimamente ligado à origem do pecado, quando Satanás caiu, concentrando-se em seu orgulho e buscando ser exaltado até mesmo sobre o trono de Deus. Jesus, porém, fez exatamente o oposto. Em contraste direto com o diabo, Ele humilhou-Se, tornando-Se humano e morrendo por nós (Fp 2:5-8).

Um dos principais objetivos da ênfase que as Escrituras dão ao pecado é a promessa de que podemos ter vitória por intermédio de Cristo e que, finalmente, por meio da Sua obra, todo pecado, sofrimento e morte serão erradicados. Se depositarmos nossa fé em Jesus, descobriremos que nossos anseios mais profundos, aos quais nada no mundo pode satisfazer plenamente, serão satisfeitos para sempre em Seu reino vindouro. E, mesmo agora, podemos encontrar Nele o contentamento e a paz que excedem todo entendimento (Fp 4:7).

Enquanto aguardamos, oremos intencional e continuamente para que Deus mude nosso coração, a fim de que nos afastemos do egoísmo e passemos a amar altruisticamente, seguindo o exemplo máximo de amor altruísta dado por Jesus, o Autor e Consumador de nossa fé (Hb 12:2), que nos amou e Se entregou por nós (Ef 5:2).

quinta-feira, 6 de novembro de 2025

LUTA SOBRENATURAL

A compreensão do conflito cósmico entre o bem e o mal oferece uma visão de mundo que indica uma tensão entre a soberania de Deus e a ação das forças malignas. As Escrituras afirmam que esse conflito teve início no Céu, numa batalha entre Cristo e Satanás (Is 14:12; Ez 28:14; Ap 12:7). Quando a rebelião individual de Satanás se tornou pública, persuadindo um terço das hostes celestiais a seguirem seu governo alternativo (Jd 6; Ap 1:20, 12:4), ele foi expulso do Céu, de modo que a possibilidade de rebelião passou a estender-se para outras partes da vasta criação. Essa rebelião estabeleceu-se na Terra, em decorrência da queda do primeiro casal (Gn 3:1-6).

Quando Adão e Eva desobedeceram ao Criador, a realidade do pecado infectou a raça humana, subjugando sua natureza e fazendo-a inclinada e predisposta a pecar (Gn 5:3; Rm 5:12). A queda afetou a orientação espiritual e moral de cada pessoa, ocasionando uma deturpação da vontade humana (Rm 7:14-19).

Originalmente, Deus criou Adão para ser o representante da criação, encarregado de exercer domínio sobre a ordem criada (Gn 1:28). No entanto, após a queda, Satanás tomou o controle e passou a atuar como o representante deste mundo caído (Jó 1:6, 7). Ele foi chamado de príncipe deste mundo (Jo 12:31, 32; 2Co 4:4; Ef 2:2) e, de certa forma, assumiu o governo que originalmente pertencia a Adão (Gn 1:26; Mt 4:9). Essa insurreição cósmica provocou um profundo desequilíbrio, pois as acusações contra Deus se intensificaram. Em vez de eliminar seu inimigo imediatamente, o Senhor permitiu que as consequências e as verdadeiras intenções do governo de Satanás fossem reveladas, de modo que o Universo pudesse testemunhar a resposta divina mediante o conflito instaurado (1Co 4:9; Ellen G. White, O Grande Conflito [CPB, 2021], p. 416-418).

No contexto do grande conflito, o mundo sobrenatural é uma realidade atestada pela Bíblia, a qual o apóstolo Paulo descreveu como uma luta sobrenatural "contra os principados e as potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestiais” (Ef 6:12).

ESTEREÓTIPOS DO MAL

Em contraste a essa visão teísta, que afirma a existência de realidades espirituais, a cosmovisão científico-naturalista disputa a noção de transcendência metafísica, rejeitando assim qualquer ação intervencionista de Deus ou de outras forças do mal sobre a ordem criada. Esse materialismo privilegia os seres "físicos”, excluindo as realidades espirituais.

Indivíduos influenciados pelo naturalismo científico tendem a reinterpretar os milagres e despersonificar Satanás, tornando as forças do mal apenas uma condição interna, afeições negativas ou uma espécie de perturbação da natureza humana. Dessa maneira, não existe um ser metafísico opositor ao bem. Os seres espirituais são interpretados de forma simbólica ou mitológica.

O filósofo ateu Friedrich Nietzsche postulou que a dualidade entre o bem e o mal, e a figura de Satanás, são construções da moralidade ocidental, especialmente a cristã, que precisam ser superadas (Além do Bem e do Mal [Companhia das Letras, 1992], p. 154). Outro filósofo existencialista, ao refletir sobre o ser responsável, afirma que quando atribuímos a responsabilidade de nossas ações a terceiros, quer sejam espíritos ou circunstâncias, isto se torna uma terceirização da responsabilidade moral. Assim, tudo o que temos é a existência, nada mais, nada menos.

Ellen White advertiu os que desconsideram a agência do inimigo: "Ninguém corre maior risco de cair sob a influência dos espíritos maus do que aqueles que [...] negam a existência e atuação do diabo e seus anjos” (O Grande Conflito, p. 431). O inimigo quer espalhar a crença de que ele não existe e não passa de uma fábula.

Por outro lado, muitos cristãos adotam um modelo de superpersonificação do mal e das hostes satânicas. Nessa perspectiva, cada fragilidade humana é atribuída a algum demônio ou entidade. Existe, assim, o demônio da inveja, do adultério, da mentira e do assassinato. A possessão demoníaca é a causa da fragilidade moral. Em outras palavras, a responsabilização da decisão passa do ser humano para um ser externo a ele mesmo.

Portanto, a solução para a vitória contra o pecado e alcançar o amadurecimento moral seria uma seção de exorcismo, na qual o "ser" responsável pela falha moral é expulso, libertando o indivíduo do pecado que o aprisiona. No cristianismo popular, essa prática, conhecida como "descarrego", é compreendida como ritual de purificação espiritual, no qual os participantes buscam eliminar influências espirituais negativas ou demoníacas, que supostamente tenham se apegado à pessoa. Essa sessão envolve orações, exorcismo e comandos espirituais conduzidos por um líder religioso, utilizando elementos simbólicos e técnicas de evocação para facilitar a libertação da pessoa.

Esses dois exemplos extremos, a despersonificação e a superpersonificação do inimigo, apontam para distorções na compreensão das forças ocultas no cosmos e sua influência sobrenatural na vida das pessoas, por decorrência do grande conflito.

O SOBRENATURAL

Antes mesmo da criação da humanidade, os anjos já existiam (Jó 38:7). Eles são seres de ordem superior, pois a raça humana foi criada "um pouco menor [...] do que os anjos” (Sl 8:5, ARC). No mundo sobrenatural, existem anjos que servem a Deus e estão do lado do bem, e outros que seguiram a Satanás e se tornaram anjos maus.

A Bíblia afirma que existem anjos da guarda: "O Anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra" (Sl 34:7). Cada seguidor de Cristo possui um anjo protetor designado para acompanhá-lo no enfrentamento dos poderes do mal (O Grande Conflito, p. 428). Jesus, falando acerca dos pequeninos, disse: “Eu afirmo a vocês que os anjos deles, lá nos céus, veem incessantemente a face de Meu Pai Celeste" (Mt 18:10). Portanto, os anjos do bem são comissionados para cuidar, proteger, guardar, vigiar e ministrar aos filhos de Deus (Ellen G. White, A Verdade Sobre os Anjos [CPB, 2022], p. 11, 12).

Em contrapartida, os anjos malignos originalmente eram anjos do bem, criados perfeitos. Contudo, caíram em decadência devido ao pecado e à rebelião contra a autoridade divina. Esses seres decaídos são chamados de demônios, espíritos "maus" ou "imundos". Eles não são as almas daqueles que morreram, pois a Bíblia descreve a morte como um sono, e a imortalidade natural da alma como um engano (Gn 2:7; Ec 9:5, 12:7; Jó 14:2; Sl 115:17; Ez 18:20; Tg 4:14).

O testemunho das Escrituras descreve esses seres espirituais do mal influenciando e controlando, em maior ou menor grau, a vida de pessoas suscetíveis ao pecado (Mc 5:9; Mt 8:33, 34; At 8:9; 13:8; 16:16-18). Compare, por exemplo, o grau de controle espiritual entre os endemoniados de Gadara e Pedro. No primeiro caso, os endemoniados estavam acometidos por uma legião de espíritos imundos, tendo sua consciência e força de vontade completamente subjugadas por forças ocultas em um caso de possessão. No segundo exemplo, não há indicação de características externas de possessão. O apóstolo Pedro, absorto em suas próprias expectativas quanto ao Messias, tentou desviar o foco de Jesus de cumprir Sua missão e recebeu uma forte repreensão. O Mestre disse a Pedro: "Saia da minha frente, Satanás!" (Mt 16:23, 24). Na última ceia, mais uma vez, Cristo exortou o apóstolo, dizendo, “Simão, Simão, eis que Satanás pediu para peneirar vocês como trigo” (Lc 22:31). Com a exortação, Jesus deu uma promessa de fortalecimento: “Eu, porém, orei por você, para que a sua fé não desfaleça” (v. 32). O ponto principal da exortação do Salvador é claro: Satanás quer peneirar os servos de Deus.

Esses exemplos refletem que há diferentes níveis de demonização. Kelvin Onongha descreve cinco estágios ou graus: tentação, influência, opressão, obsessão e possessão (Can Christians be Possessed by Evil Spirits, Journal of Adventist Mission Studies, v. 18 [2023], n. 1, p. 30, 31). As atividades demoníacas têm início quando a pessoa cede à tentação. Ao conceder esse consentimento e optar voluntariamente por permanecer no pecado, a condição de rebelião permite uma crescente intensificação do domínio demoníaco, que pode resultar na possessão completa. Não importa se a pessoa está tão debilitada a ponto de perder a razão por possessão, ou se está sob a influência de Satanás, escravizada em sua própria natureza pecaminosa e cedendo às tentações (Tg 1:14; 1Jo 2:16); a única maneira de alcançar segurança plena é encontrar libertação em Jesus Cristo.

CARACTERÍSTICAS DA POSSESSÃO

Uma pessoa possessa é aquela que está sob a influência do diabo (At 10:38). No Novo Testamento, as pessoas traziam seus enfermos e aqueles possuídos por espíritos malignos para que fossem libertos (At 5:16). É necessário diferenciar o diabo de espíritos malignos ou imundos. De fato, Satanás não é descrito nas Escrituras como alguém que possuía pessoas, exceto Judas (Jo 13:2, 27). No entanto, ele está por trás de todas as possessões, atuando em conjunto com os demônios, seus agentes no conflito espiritual (Mt 10:1; 12:43; Lc 7:21, 8:2; At 19:12-16).

As características da possessão são variadas, dependendo de cada caso. Por vezes, o endemoniado tinha sua fala alterada e descontrolada (Mc 1:24), comportamento violento (Mc 5:4), masoquista ou autodestrutivo (Mc 5:5), convulsões epiléticas (Mt 17:15), mudez (Mt 9:32), cegueira (Mt 12:22), força incomum (Mc 5:3), transtorno de personalidade (Lc 8:30), mente atormentada (1Sm 16:14) e percepção extrassensorial. Alguns, ao tentar obter poder sobrenatural, recebiam voluntariamente a influência do mal a fim de obter poderes mágicos e de adivinhação (At 8:9-12; 13:8).

Apesar de o sintoma da possessão se assemelhar a algumas enfermidades de causa natural ou psiquiátrica, as Escrituras afirmam que a origem dessas doenças não era apenas física, mas também espiritual. Cristo reconheceu os espíritos malignos por trás do sofrimento humano.

A VONTADE DE DEUS E O MAL

Apesar da soberania e onipotência do Senhor, por vivermos em um mundo de pecado, nem tudo o que acontece é responsabilidade Dele. Precisamos entender que, quando ocorre alguma circunstância de mal moral ou natural, isso não corresponde à vontade ideal de Deus. A vontade divina ideal é aquela que aconteceria se os seres criados, no uso de seu livre-arbítrio, estivessem alinhados com a vontade de seu Criador, gerando vida e prosperidade.

Como nem sempre isso ocorre, mesmo Deus sendo soberano, Ele tolera o mal permitindo sua existência devido ao fato de que o conflito cósmico ainda está em desenvolvimento. Essa permissão faz parte de Sua vontade remediativa; isto é, o Senhor remedia ou ajusta situações não ideais, utilizando Sua providência para alcançar Seus propósitos. Nesse sentido, Ele escreve reto com linhas tortas.

É importante lembrar que Deus não consegue realizar tudo o que deseja, não porque Lhe falte poder, mas porque existem regras de engajamento entre o Criador e Sua criação. Por exemplo, a vontade ideal do Senhor é que todos sejam salvos (Jo 3:16; 1Tm 2:4-6; 2Pe 3:9). No entanto, embora Ele "deseje" a salvação de todos, nem todos serão salvos. Isso não ocorre porque Deus não queira ou não possa, mas porque a criação, que possui livre-arbítrio, tem a capacidade de contrariar Sua vontade onipotente. Isso implica que devemos entender a onipotência divina a partir de Seu amor, que possibilita a liberdade de escolha (John C. Peckham, Teodiceia do Amor [CPB, 2022], p. 44).

O amor divino permite que as criaturas tomem decisões livres; afinal, a semente do amor apenas pode nascer no terreno da liberdade. No juízo final, Deus respeitará a liberdade dos ímpios de O rejeitarem. Caso Satanás fosse salvo, mesmo contrário à sua vontade, “a pureza, paz e harmonia do Céu lhe seriam uma tortura extrema" (O Grande Conflito, p. 554). Essa concepção é importante porque nem tudo o que acontece no mundo foi causado por Deus, pois existe o livre-arbítrio e uma outra força espiritual antagonista à ordem divina.

LIMITES DA ATUAÇÃO DO MAL

O livro de Jó afirma que Satanás compareceu perante o concílio celestial representando a Terra. Deus afirmou a integridade de Jó (1:8; 2:3), o que foi contestado por Satanás como interesse despretensioso. O inimigo não apenas acusou Jó, mas também Deus. A sequência de sofrimento, evidenciada no diálogo entre Jó e seus amigos, mostra que Deus permitiu a atuação de Satanás dentro de certos limites (Jó 1:12; 2:6). Mesmo diante de adversidades, o patriarca permaneceu fiel, demonstrando que as alegações de Satanás eram falsas.

Em meio ao grande conflito, Deus permite que o mal siga seu curso, mas estabelece limites ou parâmetros dentro dos quais o inimigo tem liberdade de agir. Jó desconhecia o que estava nos bastidores do conflito cósmico. Por isso, sua única fonte de esperança era confiar em Deus. Isso fica evidente em seu brado em meio à dor, “porque eu sei que o meu Redentor vive e por fim Se levantará sobre a terra" (Jó 19:25).

O escopo da atuação do mal não significa necessariamente que os fiéis terão proteção total contra as adversidades, ou "corpo fechado" para ataques físicos e espirituais. Ao contrário, o próprio Jesus disse: “no mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: Eu venci o mundo” (Jo 16:33).

O MAL E A LÓGICA RETRIBUTIVA

A lógica retributiva também é inválida para explicar o mal. Os amigos de Jó sugeriram erroneamente que o sofrimento era consequência de seus pecados (Jó 9:1-24). Essa lógica pressupõe que, se uma pessoa for justa, ela prosperará; se ela for ímpia, sofrerá. Dessa maneira, alguém poderia inferir que, se uma pessoa está prosperando, ela deve ser necessariamente justa.

Essa visão retributiva não corresponde à experiência humana em todas as circunstâncias, pois a soberania divina não implica que Deus seja o causador do sofrimento humano. Os amigos de Jó “foram repreendidos por Deus, não por terem atacado a Jó, mas por não terem falado corretamente sobre Deus (Jó 42:7, 8)" (Andrew Hill e John Walton, A Survey of the Old Testament [Zondervan, 2014], p. 414). A compreensão de que Deus é um ser estritamente retributivo desvirtua Sua índole e Seu caráter.

Semelhantemente, essa ideia está por trás do pensamento dos discípulos que, ao verem um cego, perguntaram: “Mestre, quem pecou para que este homem nascesse cego? Ele ou os pais dele?" (Jo 9:2) Jesus respondeu: "Nem ele pecou, nem os pais dele" (v. 3). A lógica retributiva ainda é erroneamente aceita no cristianismo popular. A teologia da prosperidade, por exemplo, é uma expressão contemporânea dessa mentalidade, centrada na ideia de que a fidelidade a Deus necessariamente resulta em prosperidade material. No entanto, esse "toma-lá-dá-cá" pode levar à culpa e ao julgamento daqueles que enfrentam dificuldades, promovendo uma visão simplista e distorcida da relação entre fé e sofrimento.

APOIO ESPIRITUAL

O conflito espiritual é real e tem implicações no mundo físico. Precisamos distinguir a possessão demoníaca, que se caracteriza pela perda do controle da vontade, de graus mais brandos de demonização, quando a pessoa se coloca sob a influência do mal. A intervenção espiritual varia de acordo com a intensidade do domínio de Satanás na vida da pessoa. Sugiro algumas dicas para o enfrentamento das forças do mal no conflito espiritual:

• Tenha conhecimento bíblico do escopo das ações do inimigo e convicção de que “Jesus triunfou sobre as forças do mal" (Nisto Cremos [CPB, 2018], p. 167).

• Compreenda que Cristo possui autoridade sobre os espíritos maus e que a capacidade de expulsar demônios não reside na autoridade de quem realiza a libertação, mas no nome de Jesus.

• Prepare-se espiritualmente para o encontro de libertação, garantindo que sua vida reflita uma conversão genuína e esteja em harmonia com Deus (Mt 17:19, 20; At 19:13-16).

• Não dialogue com a pessoa endemoniada, pois Satanás é o pai da mentira (Jo 8:44). Os envolvidos no processo de libertação devem manter confidencialidade sobre as informações compartilhadas, para evitar especulação e sensacionalismo.

• Evite orar ajoelhado e com os olhos fechados, pois o possesso pode apresentar comportamento violento.

• Proporcione aconselhamento espiritual e emocional mesmo após o momento da expulsão. A restauração plena depende de apoio contínuo na jornada, para prevenir que fatores de aprisionamento espiritual voltem a ocorrer, pois, ao deixar uma pessoa, um espírito impuro "leva consigo outros sete espíritos, piores do que ele, e, entrando, habitam ali. E o último estado daquela pessoa se torna pior do que o primeiro" (Mt 12:45).

VITÓRIA SOBRE O MAL

Embora o cristão possa ser assediado, tentado e oprimido pelo diabo, enquanto se recusar a entregar sua vontade ao inimigo, não estará sujeito à habitação das forças do mal. Portanto, encoraje a pessoa a entregar sua vida inteiramente e sem reservas a Jesus Cristo (adaptado de Clifford Quantz, An investigation of satanic influences upon physically, emotionally, and spiritually disturbed Christians, Universidade Andrews, 1994, p. 225-236).

Existem diversas crenças populares sobre o conflito espiritual e o sobrenatural. Algumas delas geram confusão, pois distorcem a atuação de Deus e de Seu inimigo, invertendo os papéis e minimizando a influência de ambos. Outras crenças podem despertar curiosidade, levando milhares de pessoas a flertar com o oculto. No entanto, esse tema também pode provocar medo. Por essa razão, precisamos recordar o conselho de Eliseu ao seu servo, quando um enorme exército sírio representava uma ameaça: "Não tenha medo, porque são mais os que estão conosco do que os que estão com eles" (2Rs 6:16). Quando o Senhor abriu os olhos do servo, ele pôde ver que "o monte estava cheio de cavalos e carros de fogo, ao redor de Eliseu” (v. 17). Embora não consigamos ver algumas realidades espirituais, por meio da fé podemos confiar sem hesitação, certos de que, em Cristo, somos mais que vencedores (Rm 8:37).

ELMER A. GUZMAN é pastor e diretor acadêmico da Faculdade Adventista do Paraná"

(BATALHA INVISÍVEL - CRENÇAS POPULARES SOBRE O CONFLITO NA DIMENSÃO ESPIRITUAL, Revista Adventista, Novembro de 2025, p. 12 a 18)

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

ENTRE ÍDOLOS E IDEOLOGIAS

Era uma vez um reino dividido... Não por espadas ou muralhas, mas por bandeiras. Vermelhas, verdes, azuis. No meio desse campo de batalha simbólico, havia uma igreja, uma casa de oração transformada, pouco a pouco, em quartel de opiniões, trincheira de ideologias e palanque de paixões partidárias baseadas em ideologias.

O púlpito, que antes ecoava a mensagem do reino eterno, agora tremia sob o peso de discursos terrenos. E os cristãos começaram a se parecer mais com ativistas ou militantes de partidos em guerra do que com peregrinos em missão.

Neste cenário, precisamos fazer algumas perguntas urgentes: O que acontece quando a fé se torna refém de um partido ou ideologia? Por que não devemos transformar a política em religião e a religião em palanque? Que tipo de testemunho estamos oferecendo ao mundo quando permitimos que ideologias políticas moldem nossa compreensão do evangelho?

Mundo em ebulição
Antes de qualquer resposta, vale considerar algumas situações críticas que nos cercam. Vivemos uma era de transformações vertiginosas e desafios profundos, em que a política global parece caminhar sobre terreno instável. O cenário de 2025 expõe um mundo em permanente tensão, abalado por rivalidades geopolíticas, disputa feroz de interesses e erosão acelerada de valores.

Os conflitos armados seguem assombrando o planeta. A guerra na Ucrânia, longe de um desfecho, arrasta-se há mais de três anos como uma ferida aberta no leste europeu, com resultados devastadores para as populações locais e para o equilíbrio político entre o Ocidente e a Rússia. A tentativa russa de anexar áreas do território ucraniano, somada a outras exigências para se falar em paz, constitui uma afronta flagrante a qualquer princípio de justiça. Afinal, o território não é apenas uma área geográfica, mas “um espaço de narrativas, identidades coletivas e imagens científicas, incluindo as cartográficas, moldadas por tradições formais e informais complexas”, como destaca o cientista político Oscar Mazzoleni (Territory and Democratic Politics [Palgrave Macmillan, 2024], p. 128).

No Oriente Médio, a escalada entre Israel e grupos terroristas como Hamas e Hezbollah extrapola os limites regionais. A dificuldade em alcançar uma solução reflete a complexidade histórica, política, econômica, ideológica e religiosa de um conflito marcado por décadas de violência e desconfiança. Interesses externos e rivalidades locais continuam a alimentar o ciclo de hostilidades, tornando a paz duradoura um desafio quase insuperável. Infelizmente, a proposta de dois Estados (Israel e Palestina), que parece racional, ainda não é aceita por muitos.

Nesse ambiente, a ordem global também se redesenha. Enquanto na época da Guerra Fria o bloco dos Estados Unidos e seus aliados representava 64% do PIB global, o bloco da União soviética e seus aliados somava 19% e os países não alinhados 8%, hoje o bloco norte-americano e aliados equivale a 30%, o subbloco europeu a 13%, o bloco dos desafiantes (incluindo China e Rússia) a 27% e os países com múltiplos alinhamentos a 22%. Os dados são do estudo State of Our World 2025, do Oliver Wyman Forum.

No mundo multipolar atual, Estados Unidos, China, Rússia, União Europeia, Índia e outras nações disputam influência política, econômica e tecnológica. E novas formas de imperialismo surgem no horizonte, enquanto o multilateralismo, que por décadas sustentou algum equilíbrio, encontra-se sob crescente pressão. Instituições internacionais como a ONU (Organização das Nações Unidas) e a OMS (Organização Mundial da Saúde) são vistas com crescente desconfiança, acusadas de ineficácia ou parcialidade.

Democracias mais fracas
Além das ameaças bélicas, outro fenômeno inquietante se espalha silenciosamente: o enfraquecimento das democracias. Em diversos países, vemos o crescimento do autoritarismo, a supressão de liberdades civis, a manipulação eleitoral e o uso da desinformação como arma política. O populismo, impulsionado pelas redes sociais, tem corroído instituições e distanciado as sociedades de um debate saudável. A polarização se adensa como nuvem de tempestade sobre a paisagem social. O diálogo cede lugar ao duelo, e o debate, que deveria ser a arena da convivência democrática, é substituído por trincheiras cavadas na areia movediça das narrativas absolutas.

No Brasil e em outros países sul-americanos, a tensão crescente entre defensores de polos políticos antagônicos reflete uma crise mais ampla de confiança nas instituições, radicalização ideológica e politização de entidades independentes. Esse cenário alimenta a instabilidade democrática, fragiliza o diálogo e coloca os países entre as nações em que a polarização política se tornou um risco real à coesão social e à governabilidade.

O nacionalismo religioso, ao fundir fé e identidade nacional, transforma a devoção em arma e o “nós” contra “eles” em doutrina. Philip Gorski descreve o nacionalismo cristão como uma “espécie de hiperpatriotismo apocalíptico e nativista” (American Covenant [Princeton University Press, 2017], página 7). Esse fenômeno alimenta conflitos, sufoca minorias e mina os princípios democráticos, tornando-se uma das forças mais perigosas por trás da polarização global e da escalada da intolerância. Como discorrem N. T. Wright e Michael F. Bird em Jesus and the Powers (Zondervan, 2024), a mensagem do reino de Deus confronta os poderes terrenos, mas os cristãos não são chamados a instituir uma teocracia.

A imposição de altas tarifas sobre importações e exportações entre países, que recentemente ganhou um novo capítulo, tem trazido grande turbulência, com potencial para causar graves efeitos colaterais. As crises migratórias atingem níveis alarmantes. O total estimado de migrantes internacionais chegou a 304 milhões, o que representa 3,7% da população mundial, segundo um estudo da ONU intitulado International Migrant Stock 2024, divulgado em 2025. Milhões de pessoas são forçadas a deixar suas casas devido a guerras, fome, perseguições ou mudanças climáticas.

Para além das estatísticas, o problema ganhou contornos de um radicalismo sem precedentes. Enquanto alguns países lutam para acolher e integrar, vários outros erguem barreiras. A pressão social, política e policial é enorme, e o discurso xenofóbico encontra terreno fértil em tempos de medo. A radicalização das políticas de imigração revela uma mudança ideológica profunda, cujos efeitos atravessam fronteiras e impactam o fluxo migratório em escala global.

Em um mundo em rápida mudança, pautas culturais, sexuais e éticas se tornaram campos decisivos de disputa pelo futuro da sociedade. Esses temas expõem o choque entre tradições históricas e novas visões de mundo, exigindo coragem e lucidez para lidar com sua complexidade. Acrescente-se a isso o impacto avassalador da tecnologia. Recursos digitais e inteligência artificial avançam em ritmo acelerado, desafiando governos a estabelecer regulamentações capazes de garantir segurança e ética. O uso dessas tecnologias para manipular informações e os ataques cibernéticos a infraestruturas críticas são apenas alguns dos novos riscos que se impõem.

Paralelamente, o planeta clama por socorro diante da crise climática. Enchentes devastadoras, secas prolongadas e ondas de calor já não são previsões distantes, mas realidades cotidianas. Esses novos desafios globais e nacionais, somados aos persistentes problemas de desigualdade, corrupção, insegurança e violência, fazem do mundo um lugar cada vez mais instável, sombrio e difícil de governar.

A tentação da partidarização
Nesse ambiente carregado de tensão, em que cada grupo ergue seu altar de certezas e sacrifica a escuta em nome da lealdade partidária, os cristãos podem ser tentados a trocar a cruz pelo estandarte de suas preferências políticas, como se o reino de Deus, que transcende as ideologias humanas, estivesse circunscrito à lógica de um lado apenas. O reino é sequestrado e instrumentalizado por ideologias ditas alinhadas ao que se conhece como esquerda e direita.

Os apelos ideológicos e o sentimento de urgência moral tornam atraente a ideia de alinhar o evangelho a um partido, a uma bandeira ou a um líder humano. Em certos casos, a lealdade política tem rivalizado com a fidelidade ao evangelho. No entanto, essa mistura é como água e gasolina: pode parecer compatível à primeira vista, mas, quando posta sob pressão, explode em divisão e destruição.

A partidarização da fé se insinua de forma sutil, oferecendo aos discípulos de Cristo o cálice do poder imediato, do engajamento inflamado e da retórica sem misericórdia. É fácil confundir zelo com raiva e convicção com militância cega. Essa tendência está criando raízes no solo do cristianismo.

Essa tentação não é nova, mas hoje ela ressurge com intensidade febril, amplificada pelas redes digitais que transformam cada cidadão em pregador de suas próprias certezas, e cada feed em púlpito. A cruz, que chama à renúncia de si, à humildade e ao amor pelo inimigo, é substituída por uma espada empunhada em nome de causas que, ainda que legítimas em parte, não podem usurpar o trono de Cristo.

Quando a fé se torna bandeira de ideologias humanas e a identidade cristã é sugada pelo vórtice da polarização, o evangelho começa a ser moldado à imagem de um projeto político, e não o contrário. Jesus deixa de ser o Cordeiro que tira o pecado do mundo para Se tornar “mascote” de partido – um Cristo capturado por slogans, instrumentalizado por discursos, distorcido por paixões ideológicas.

Não é só a religião que influencia a política; uma identidade partidária forte tem efeitos religiosos, como mostra Michele F. Margolis no livro From Politics to the Pews (University of Chicago Press, 2018).

Além disso, quando a política sequestra a fé, o sal perde seu sabor e a luz se apaga. As poderosas metáforas de Cristo em Mateus 5:13-16 não são meras figuras poéticas; são diagnósticos espirituais profundos. Elas apontam para uma atuação consciente e equilibrada, sem imposição nem fuga. A ausência do sal deixa o mundo insosso e vulnerável à corrupção, mas o excesso o torna intragável, adoecendo o corpo social. A luz, escondida, falha em guiar; mas, quando confundida com outras luzes ou intensificada de modo descontrolado, cega em vez de revelar, e já não distingue os contornos da geografia moral e ética. Cristo nos chama a sermos presença transformadora: sal que cura e luz que revela.

Portanto, é urgente que os cristãos olhem para além das bandeiras humanas e recobrem o senso de alteridade (olhar o outro) e transcendência que o evangelho exige. O reino de Deus não é de direita nem de esquerda, nem conservador ou progressista, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo. A igreja não é um comitê de campanha, mas um corpo vivo que testemunha o amor de Cristo em meio às ruínas do ódio. Em tempos de polarização, permanecer fiel a Jesus é resistir à tentação de ser devoto de César. A vocação do cristão não é a de um soldado de guerra política e cultural, mas a de um embaixador da reconciliação.

“A cruz oferece uma justificativa radicalmente diferente para a participação política cristã, pois demonstra que não vencemos por demonstrações de poder”, escreve Daniel K. Williams. “Ela também mostra que já conquistamos a vitória definitiva e que nosso Rei soberano já está no trono” (The Politics of the Cross [Eerdmans, 2021], p. 9). A cruz redefine vitória e poder: na política do evangelho, o trono é conquistado com sangue, não com espada; não conquistamos, fomos conquistados.

Cidadania sem siglas
As igrejas comprometidas com o evangelho, bem como seus líderes, têm sólidos motivos para evitar qualquer tipo de engajamento partidário, mesmo quando se ele apresenta de forma sutil ou informal. O apóstolo Paulo adverte que os cristãos não devem agir por “partidarismo” (Filipenses 2:3, ARA). O termo grego utilizado, eritheia, originalmente denotava “ambição egoísta” e “rivalidade”, mas, no contexto político, também era empregado para descrever “intrigas de partido”, “disputas por poder” ou “formação de facções”. O termo indicava ainda candidatos a cargos eletivos que cortejavam o aplauso popular por meio de truques e métodos ilegítimos.

Embora Paulo estivesse tratando das relações dentro da comunidade cristã, o princípio tem implicações mais amplas, inclusive para a maneira pela qual os cristãos se posicionam diante da política. A busca por poder, influência ou identificação com um grupo político pode comprometer o testemunho do evangelho.

Neutralização partidária
A seguir, apresento sete razões para a neutralidade partidária da igreja:

1. Argumento teológico: o reino de Deus é eterno, os partidos são passageiros. A teologia cristã enfatiza que o reino de Deus não é deste mundo (João 18:36). Quando cristãos se tornam militantes partidários, correm o risco de pagar a fronteira entre o eterno e o temporário. A igreja não pode confundir a cruz de Cristo com bandeira partidária, pois uma é eterna e redentora, a outra é transitória e falível.

2. Argumento filosófico: a militância imposta anula a consciência cristã. A filosofia cristã, desde os tempos antigos até pensadores contemporâneos, defende a centralidade da consciência individual e da liberdade de pensamento. Ao se envolverem em militância partidária, líderes e membros da igreja podem impor visões ideológicas sobre a congregação, suprimindo o diálogo, a reflexão e a liberdade de consciência que são fundamentais para o amadurecimento cristão. A fé se fortalece na liberdade.

3. Argumento histórico: o comprometimento com partidos deforma a missão da igreja. A história mostra que a associação direta entre igreja e partidos políticos costuma gerar sérias distorções da fé cristã, como ocorreu em períodos em que o cristianismo se aliou ao poder estatal para perseguir dissidentes ou impor doutrinas. Esse tipo de envolvimento político compromete o testemunho da igreja, reduzindo sua autoridade moral e espiritual diante da sociedade. Quando a igreja se casa com o poder político, ela se divorcia do evangelho.

4. Argumento eclesiológico: a igreja deve ser casa de comunhão, não trincheira ideológica. A pluralidade política entre os fiéis exige que a igreja se mantenha como um espaço de acolhimento e unidade. Quando representantes da igreja assumem bandeiras partidárias, inevitavelmente criam divisões internas e afastam membros que pensam diferente, contrariando o chamado à comunhão e ao amor mútuo. Quando um partido entra pela porta da frente da igreja, muitos irmãos saem pela dos fundos.

5. Argumento missional: o foco da igreja é Cristo, não os candidatos. O testemunho cristão deve apontar para Cristo, não para partidos ou líderes humanos. Quando a igreja é associada a um grupo político específico, ela corre o risco de ser instrumentalizada e sua mensagem confundida com os interesses de poder terreno. O compromisso cristão deve ser com a justiça, a verdade e o amor, não com ideologias passageiras e, muitas vezes, contraditórias com os valores do evangelho. Se a voz da igreja ecoa slogans em vez do evangelho, ela já perdeu o púlpito para o palanque.

6. Argumento pastoral: a missão da igreja é reconciliar, não polarizar. A política partidária, por sua natureza, divide, polariza e antagoniza. Por sua vez, o evangelho reconcilia as pessoas com Deus e umas com as outras (2 Coríntios 5:18-20). A igreja deve buscar caminhos de paz, reconciliação e serviço, sendo um refúgio espiritual acima das disputas ideológicas. Ao evitar a militância partidária, os cristãos preservam sua identidade e relevância como mensageiros do reino eterno. Onde a igreja toma partido, ela perde sua vocação de ser ponte entre os opostos.

7. Argumento profético: envolvimento partidário tende a comprometer a mensagem profética da igreja. O papel profético exige independência crítica para denunciar injustiças em qualquer governo ou sistema. Militância partidária mina essa autoridade, pois a igreja passa a ser vista como cúmplice de um lado e inimiga do outro. Uma igreja partidária não profetiza; faz campanha.

No turbilhão das crises e paixões partidárias atuais, em que todos parecem pressionados a escolher um lado, a igreja enfrenta a tentação de confundir sua missão com militância partidária, abraçando bandeiras que não lhe pertencem. É preciso, porém, resistir. Cristãos podem atuar na política com coragem e discernimento, e a própria igreja tem o dever de confrontar injustiças e abusos de poder. Ainda assim, ela é chamada a eleger o horizonte eterno, em vez de se prender à luta passageira. Sua força não reside em votos, partidos ou alianças efêmeras, mas na capacidade de irradiar luz, verdade e esperança que nenhum partido jamais poderá oferecer ou monopolizar.

Marcos De Benedicto (via Notícias Adventistas)

terça-feira, 4 de novembro de 2025

QUEM FOI A MULHER DE CAIM?

"Então Caim saiu da presença do Senhor e foi morar na região de Node, que fica a leste do Éden. Caim conheceu sua mulher, tiveram um filho e lhe deram o nome de Enoque. Mais tarde Caim construiu uma cidade e a chamou de Enoque, o nome do seu filho" (Gn 4:16, 17).

É certo que as Escrituras não mencionam o nome da mulher de Caim e nem a sua procedência. Porém, devemos nos lembrar que a Terra já tinha começado a ser povoada quando ele se casou. Com certeza, naquela altura dos acontecimentos, havia muito mais do que apenas 5 pessoas, inclusive outras mulheres além de Eva. Notemos os seguintes pontos antes de chegarmos a uma conclusão:

1. Em Gênesis são mencionados pelos nomes os filhos de Caim e depois os de Sete, que seria o patriarca da segunda geração, nascido quando Adão tinha 130 anos (Gênesis 5:3). E o Livro Santo afirma ainda que Adão, além de Sete, “gerou filhos e filhas” (Gênesis 5:4). Não sendo importantes tais detalhes, não foram mencionados os nomes e nem a quantidade de filhos e filhas que Adão e Eva tiveram, mas, é certo que a bênção de Deus ao casal, registrada em Gênesis 1:28, já estava se cumprindo: “E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra…” E, num tempo em que a vida humana se media em séculos, a descendência de Adão já deveria ser numerosa. Portando, uma dessas filhas de Adão, irmã de Caim, poderia ter sido sua esposa.

2. Caim cometeu o brutal homicídio em idade já madura. Diz Gênesis 4:3: “Aconteceu que no fim de uns tempos trouxe Caim do fruto da terra uma oferta ao SENHOR.”

Isso mostra o transcorrer de um período considerável de tempo. A tradução de Matos Soares e de Figueiredo diz: “Passados muitos anos…”. E, o Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia também admite esta hipótese: “ao fim de muitos dias denota um período indefinido e considerável de tempo transcorrido. Ora, a esta altura dos acontecimentos, já a prole de Adão estaria numerosíssima”.

3. Alguns acreditam que a mulher de Caim até poderia ter sido uma sobrinha dele, filha de Sete. Baseiam-se no fato de ter decorrido muito tempo o exílio de Caim na terra de Node, (Gênesis 4:16) e o seu casamento relatado no verso 17. E o verso 25 afirma que Adão e Eva tiveram outro filho para substituir o justo Abel assassinado. Esse era Sete, e também ele “gerou filhos e filhas” (Gênesis 5:7). A terra de Node, para onde Caim foi, era conhecida com esse nome no tempo de Moisés, (em que ele estava escrevendo o Livro!) que relatou por inspiração divina a história de Caim. É bem provável que no tempo de Caim o lugar não tinha nome. Também é importante considerarmos que o relato da vida de Adão foi feito por Moisés, talvez milênios depois dos acontecimentos. Este é o motivo de se dizer que Caim fundou uma cidade (Gênesis 4:17), quando talvez se tenha fundado com o alastramento de sua própria prole.

4. Há ainda comentaristas que admitem que no espaço de 300 anos, o número de filhos e filhas de Adão era superior a 50, e mais de 20 os filhos de Sete.

5. A dificuldade geral parece estar no capítulo 4 verso 17, onde diz que Caim conheceu sua mulher. Mas o texto não diz que ele a conheceu de vista pela primeira vez. Afirma que ele a conheceu e ela concebeu um filho. O seu conhecimento quanto à sua mulher não foi no sentido de vê-la pela primeira vez, mas sim de gerar um filho. É comum na Bíblia usar o termo “conhecer” para se referir à relação sexual (ver Mateus 1:25).

Podemos concluir que tanto Caim quanto Sete e todos os demais filhos de Adão e Eva casavam-se ou com uma irmã sua ou com uma sobrinha (naquele tempo os homens não se casavam tão prematuramente como nos nossos dias). E, ao tempo em que Caim pensara em casar-se, havia muitas irmãs e muitas sobrinhas, o que não lhe trouxe dificuldades para encontrar uma esposa.

Esse costume, o casamento entre parentes próximos, continuou por muito tempo. Tanto que Abraão se casou com sua meia irmã Sara (Gênesis 20:12). No tempo de Moisés, por exemplo, durante a 18ª dinastia, Hatshepsut se casou com seu meio-irmão Tutmés II. Sabemos que, entre os israelitas, Anrão, pai de Moisés, casou-se com uma jovem tia, irmã de seu pai, por nome Joquebede (Êxodo 6:20). Essas culturas antigas viam o casamento de maneira diferente da nossa.

No entanto, depois que Deus tirou os israelitas do Egito e os separou como reino de sacerdotes e nação santa (Êxodo 19:6; Levítico 19:2), Israel recebeu as leis que disciplinavam todas as formas de incesto (Levítico 18:7-17; 20:11, 12, 14, 17, 20, 21; Deuteronômio 22:30; 27:20, 22, 23). Embora tais práticas fossem comuns no Egito, os israelitas em sua nova pátria deviam evitar esses costumes das sociedades pagãs. Levítico 18:6 proíbe relações sexuais com parentes próximos, como mãe, pai, madrasta, irmã, irmão, meio-irmão, neta, nora, genro, tia, tio ou cunhada. O que fora permitido por necessidade no passado então foi proibido. Tendo sido chamado a ser uma nação santa, Israel precisava estar à altura dos elevados padrões de conduta moral que o distinguia das nações ao redor. É preciso considerar essas proibições sexuais específicas em função das condições que prevaleciam no Antigo Oriente Médio nessa época. O culto das diversas deusas da fertilidade entre as nações fazia da entrega do corpo a diversos prazeres sexuais uma obrigação religiosa. Em contrapartida, os israelitas deviam consagrar-se a Yahweh e refletir a santidade divina para as nações ao redor deles (Êxodo 19:2; Isaías 49:6).

Apesar de, no início da história humana, o casamento entre parentes ter sido uma necessidade, no momento em que Israel se tornou uma nação, as relações sexuais entre parentes próximos foram proibidas. A razão para essa proibição se devia, sobretudo, ao status especial de Israel como povo santo de Deus. Foi ordenada também porque o perigo de problemas genéticos aumentou com o agravamento dos efeitos do pecado. Esse perigo não existia imediatamente após a criação. Deus criou todas as coisas perfeitas. Embora o risco de problemas genéticos seja hoje extremamente alto, as primeiras gerações de seres humanos não enfrentaram os mesmos riscos biológicos.

A Bíblia é muito clara em afirmar que toda raça humana descendeu de Adão e Eva, e, portanto, qualquer teoria contrária não passa de mera conjectura que não possui base bíblica: “De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar” (Atos 17:26).

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO?

A cada episódio de violência em que criminosos levam a pior no confronto com a polícia ou mesmo com cidadãos armados, velhas e virulentas representações sobre o crime e a justiça veem à tona numa forma de quase histeria ou celebração coletiva. Se utilizando do discurso de ódio, de “bandido bom é bandido morto”, milhares de pessoas celebram nas redes sociais a morte de um criminoso por policiais. Tal discurso se alastra pela sociedade, pelo consciente e inconsciente das pessoas, e, espalhado pelo meio social não encontra limite apenas nas pessoas que se conceituam como pessoas de bem.

O Datafolha, reconhecido instituto de pesquisa de opinião pública, revelou em 2015 uma pesquisa aterradora. Segundo esta pesquisa, mais da metade da população brasileira acredita que BANDIDO BOM É BANDIDO MORTO. Quando mais da metade da população quer ver o sangue cobrindo as ruas, quer ver a polícia ou quem vier a fazê-lo, a matar os indesejados, os excluídos, os marginais, quando mais da metade da população se regozija com isso, qualquer voz que se levante falando pela dignidade humana será execrada e levada à matilha para que seja ali devorada, em praça pública, sob o holofote das redes sociais.

* Uma pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (01/11) mostrou que 77% dos moradores da capital e da região metropolitana do Rio de Janeiro consideram mais importante realizar investigações para combater o crime organizado do que matar criminosos. O levantamento ouviu 626 pessoas acima de 16 anos por telefone nos dias 30 e 31 de outubro, apenas nessa região. Segundo o instituto, 73% discordam da ideia de que “quem morre em operação policial é sempre bandido”, enquanto 23% afirmam concordar com a frase. Já em relação ao discurso de que “bandido bom é bandido morto”, 45% discordam e 51% concordam. O levantamento foi feito logo após a operação policial que deixou ao menos 121 mortos nas favelas da Penha e do Alemão. Mesmo assim, 57% concordam com a declaração do governador Cláudio Castro, que afirmou que a ação foi bem-sucedida, enquanto 39% discordam.

A extrema direita política usa esses episódios de tortura, justiçamento ou assassinato de criminosos pela polícia para propagar um discurso de ódio, ancorado exatamente na visão reacionária de que “bandido bom é bandido morto”. A violência urbana não vai diminuir com mais polícia, mais grupos de operações especiais, mais pessoas armadas. O discurso do ódio é vazio, superficial e anticristão. É muito perigoso, está crescendo e precisa ser combatido.

Expressões como ‘bandido bom é bandido morto’, ‘tá com dó? leva pra casa’, ‘deveriam ter matado mais’, entre outras, estão cada vez mais presentes no pensamento de inúmeras pessoas atualmente, todavia, o que causa-nos estranheza, é que boa parte dessas pessoas que apoiam e promovem este tipo de discurso são professos cristãos. Devem os seguidores de Jesus incorporar em suas vidas e reproduzir essa ideologia? Há base bíblica para essa retórica?

O presente artigo não pretende, de forma alguma, fazer apologia à impunidade de pessoas que merecem ser julgadas e punidas no rigor da lei por seus próprios atos. Antes, o texto propõe um autoexame para o coração e um olhar para o problema, a fim de, fundamentado na ética cristã encontrada na mensagem do evangelho, ir em busca de caminhos mais parecidos com os de Jesus frente ao desafio que temos de nos relacionar com criminosos.

O que diz a Bíblia Sagrada?
É evidente que o problema da segurança pública é latente e quem o sente de forma mais dura são os trabalhadores, as mulheres, os homossexuais e os negros, que muitas vezes são agredidos, violentados e até assassinados. Com tal violência crescente e a ineficiência do Estado em proteger a população, gerando um sentimento de impunidade, é natural que muitos de nós estejamos indignados. Essa indignação quando é com base no que é justo não só é um direito, mas também é um dever. Posicionamo-nos contra a injustiça e os desmandos que nos afetam. Ocorre que existe um sem número de pessoas que extrapolam o âmbito daquilo que é justo. Deixam-se levar pelas emoções, deixam aflorar aquilo que há de pior em si mesmas, e toda essa raiva e revolta, não poucas vezes, redundam em atitudes desequilibradas e injustas. Vivem exatamente o inverso da lógica: um erro não justifica outro.

Quando estudamos a Bíblia percebemos nitidamente que a retórica do “bandido bom é bandido morto” é incompatível com os valores do evangelho. Logo, tal discurso pernicioso não condiz com aqueles que professam ser cristãos, pelas seguintes razões:

1) Porque Jesus ensinou a amar os inimigos. “Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem”, ordena-nos Ele. (Mateus 5:44, NVI). Nos versículos precedentes Ele já nos disse que não devemos ter pensamentos de ódio e desejos pecaminosos, que nossos pensamentos e palavras devem ser puros. Naturalmente, Jesus exigiu algo muito difícil. Como pode alguém fazer tais coisas? Exatamente. Amar nossos inimigos não é normal, mas é uma atitude cristã, e nos versos seguintes Jesus nos diz por que isso é cristianismo (versos 45-48). Portanto, um cristão que propaga nas redes sociais a retórica do bandido bom é bandido morto está confrontado com o claro ensino de Jesus.

2) Porque Jesus ensinou a perdoar como somos perdoados por Deus. Disse Jesus: “Pois se perdoarem as ofensas uns dos outros, o Pai celestial também lhes perdoará. Mas se não perdoarem uns aos outros, o Pai celestial não lhes perdoará as ofensas" (Mateus 6:14,15, NVI). Cristo fala categoricamente do dever do cristão em perdoar os que nos fazem mal. Mateus 6:12, 14 e 15 não são os únicos lugares no primeiro Evangelho onde se enfatiza a lição de passarmos adiante a outros o perdão que recebemos de Deus. Em Mateus 18:21-35 aborda também a questão da reciprocidade do perdão. Portanto, precisamos demonstrar tanto espírito de perdão aos outros quanto Deus tem demonstrado por nós (v. 33). O que significa ser cristão? Ser cristão é imitar a Jesus; ser semelhante a Ele, viver a vida que Ele viveu. Pois bem, não devemos odiar, por que Ele perdoava e mesmo na cruz foi capaz de orar: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lucas 23:34). Como cristãos, precisamos aprender a perdoar. Isso exige graça, graça transformadora e graça capacitadora.

Ademais, quem nunca cometeu um erro? O grande desafio de mantermo-nos fiéis à pregação da mensagem cristã encontrada na Bíblia Sagrada tão ignorada hoje em dia, é que ela nos dá um grande tapa na cara, nivelando-nos a todos por baixo! Todos são pecadores! Diz-nos o apóstolo Paulo: “Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23, NVI). Todos são maus! Todos estão condenados! Pregar essa mensagem cancela todo orgulho, toda altivez, todo mérito. Essa mensagem impossibilita qualquer pessoa da raça humana a se colocar em posição de superioridade diante de quem quer que seja.

O julgamento que Jesus condena é exatamente esse! É o julgamento de quem olha para o outro com ar de superioridade e coração desprovido de amor. Que bate no peito e diz: “Ó Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano!” (Lc 18-10-14). É o julgamento de quem pensa não ter a mesma capacidade de cometer pecados tão grandes ou maiores do que qualquer outro ser humano. É o julgamento daquele que não percebeu ainda que nada é, e não aprendeu ainda a gloriar-se apenas e tão somente nos méritos de Cristo. Queremos e até pregamos algumas partes do evangelho que consideramos ‘radicais’, ‘revolucionárias’, ‘loucas’, mas essa que diz que distantes de Cristo, somos miseráveis pecadores condenados a morte eterna, e de que fomos chamados a amar nossos inimigos, ó não, esta não, esta nós ignoramos.

Quem se acha superior a quem quer que seja, não sabe quão corrupta é a alma humana e quão capazes somos de fazer o mal. Não sabe quão suja é a lama do pecado de onde Cristo nos tirou. Então, perguntamos: e se fôssemos tratados por Deus com a mesma justiça que vomitamos nas redes sociais contra os nossos semelhantes? Será que não estamos com o coração no lugar errado? Será que não nos está faltando discernimento para entender o coração subversivo daquele que nos ordena a amar nossos inimigos?

3) Porque Jesus rejeitou a vingança como forma de fazer justiça. “Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra” (Mateus 5:39, NVI). Oferecer o outro lado da face simboliza o espírito não vingativo, humilde e manso que deve caracterizar os cristãos. Jesus está nos ensinando que não é papel de cristãos individualmente “castigar o que pratica o mal” (Romanos 13:4), mas a polícia e os tribunais de justiça, com base na lei. Não devemos impor a lei com as próprias mãos. Não devemos viver uma vida de retaliação. Devemos viver de acordo com as bem-aventuranças, devemos ser pacificadores e amar nossos inimigos. Devemos deixar a vingança com Deus, pois está escrito: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira de Deus, porque está escrito: Minha é a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor.” Em outra passagem, Salomão escreveu: “Não digas: vingar-me-ei do mal; espera pelo Senhor e ele te livrará” (Provérbios 20:22). Ao contrário: “Se o seu inimigo tiver fome, dê-lhe de comer; se tiver sede, dê-lhe de beber. Fazendo isso, você amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele”. “Não se deixem vencer pelo mal, mas vençam o mal com o bem” (Romanos 12:19-21, NVI).

Lucas nos conta que Jesus havia iniciado sua última viagem para Jerusalém. Lá ele seria entregue, julgado e crucificado. Enquanto seguia a viagem, Jesus continuou a proclamar o reino de Deus, a ensinar seus discípulos e a curar os enfermos. Quando estavam próximos de uma aldeia samaritana, ele enviou discípulos que o precedessem para preparar um lugar no qual pudessem repousar. Mas diferente de uma outra cidade samaritana, aquela da história registrada em João cap. 4, que se converteu a Jesus, esta aqui recusou-se a recebê-lo.

Então, diante disto Tiago e João, os “filhos do trovão”, perguntam a Jesus: “O Senhor quer que nós ordenemos que caia um fogo do céu que consuma estes samaritanos. Esse episódio mostra nitidamente que os irmãos fizeram a indagação a Jesus motivados por sentimentos de retaliação e vingança. Para suas surpresa, Jesus os repreendeu, dizendo: “Vocês não sabem de que espécie de espírito são, pois o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los" (Lucas 9:51-56, NVI).

A Bíblia, inclusive, exorta-nos a não se alegrar quando o nosso inimigo fracassa: “Quando cair o teu inimigo, não te alegres, e quando tropeçar, não se regozije o teu coração; para que o Senhor não o veja, e isso seja mau aos seus olhos, e desvie dele, a sua ira.” (Provérbios 24:17-18).

Portanto, reações descontroladas e pautadas no ódio e na vingança da parte de gente que não tem compromisso nenhum com a fé e com a moral cristã são lamentáveis, mas de uma forma ou de outra, compreensíveis, tendo em vista o estado de escuridão e ódio que uma pessoa dominada pelo pecado pode chegar. Entretanto, alguém que se diz seguidor de Cristo compactuar com esse tipo de coisa é inadmissível. Reproduz apenas o triste eco de uma geração cristã ególatra, que não sabe quem de fato é, não sabe de onde Cristo a tirou, não tem Cristo e este crucificado como Senhor e referência de seu coração, é biblicamente analfabeta e vazia do Espírito Santo de Deus.

4) Porque Jesus andou com os pobres e miseráveis. E em nossa sociedade desigual e racista, a imagem do bandido é sempre de pobres e negros. Certa vez Jesus encontrava-se na casa do publicano Levi Mateus. Ele estava sentado à mesa comendo na companhia daqueles que a sociedade julgava “indesejáveis”: publicanos e pecadores (Mt 9:10-13). Sendo interrompidos pelos fariseus, que perguntaram se era apropriado que Ele Se misturasse com pessoas tão desprezíveis, Jesus os desafiou a aprender o significado de misericórdia, em contraste com sacrifício. “Vão aprender o que significa isto: ‘Desejo misericórdia, não sacrifícios’. Pois eu não vim chamar justos, mas pecadores (Mt 9:13, NVI).

Reflitamos sobre esta incrível verdade de que Aquele que fez todas as coisas (Jo 1:3) assumiu a humanidade e, na carne, misturou-se com os seres humanos caídos e os ajudou. Essa verdade, que nos traz muita esperança, de alguma forma, deve afetar o modo como nos relacionamos com os outros.

O sistema não é justo. Os mortos da guerra às drogas são jovens, negros e pobres. 77% dos mortos por homicídio no Brasil são negros. É a pobreza que está sendo criminalizada.

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo. Muitos presos estão ali mesmo sem condenação, cerca de 45%. São pessoas muito jovens, 74% têm até 34 anos e 64% são negros. Quanto à escolaridade, 75% da população prisional brasileira não chegou ao ensino médio. Menos de 1% dos presos tem graduação.

Os números indicam que a questão é muito mais profunda e complexa do que as explicações da extrema direita. Como explicar esses números sem entender que a questão da violência, do crime, do encarceramento é uma questão social, que está relacionada ao racismo e às desigualdades latentes da sociedade capitalista?

Ademais, o mantra “bandido bom é bandido morto” não diminui a quantidade de crimes, não traz mais segurança para a população, como pensam muitos, mas, para além de difundir um pensamento que é criminoso por si só, acaba espalhado pelo meio social, atingindo a todos com sua mensagem de morte e intolerância, de abandono do estado de direito.

Quem pensa que uma polícia mais violenta é saída para melhorar a segurança pública está redondamente enganado. Estudos revelam que a cada ano a polícia mata mais, e a cada ano a violência aumenta mais, os homicídios aumentam mais. Portanto, o discurso do ódio “bandido bom é bandido morto” não traz mais segurança para ninguém. A Polícia Militar brasileira é uma das mais violentas do mundo e isso não nos torna mais seguros. Todo jovem e negro da periferia sabe disso. A ação da PM traz mais morte, mais violência, mais preconceito.

Conclusão
Concluímos dizendo que, o julgamento que somos chamados a fazer é segundo a reta justiça, com total fundamento, não em nosso ódio pecaminoso, mas no amor. Se alguém deve ser punido, que seja com todo rigor, com base na legislação penal de nosso país, contudo, não porque somos melhores, mas porque é justo, e a paz é fruto da justiça. Temos de agir sempre no intuito de sermos fiéis a Deus, na esperança de vermos vidas arrependidas e restauradas pelo poder do evangelho. Nossa ação deve ser fruto de alguém que sabe que nada é, e que chora por ver a própria miserabilidade e a miserabilidade dos que estão ao seu redor. Nosso posicionamento deve sempre ter um norte: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.

Em um tempo de tanta animosidade, tantas discussões, tanta rivalidade e tantas polarizações, somos chamados a ser sal da terra, somos chamados a andar na contramão do sistema e em humildade, agir como pacificadores com base na justiça do Reino. É tempo de buscarmos sabedoria e sensatez para nossos posicionamentos públicos como cristãos.

Justiçamento e vingança não devem fazer parte nem do vocabulário, nem da vida dos cristãos! Seja Cristo o Senhor das nossas mentes, e que Ele nos dê sabedoria e discernimento em nossa forma pública de viver neste mundo caótico e sofrido. Sejamos luz, como nos pede o Senhor (Mt 5:14)!

Ricardo André (via A Verdade Como é em Jesus)

* Inserção feita pelo blog