sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Meritocracia ou humildade?

Só uma lógica faz sentido no reino dos homens para dar valor às pessoas e às coisas: mérito. Nossa sociedade é construída em cima desse pilar. Desde a educação familiar, passando pela educação acadêmica e adentrando a vida adulta e profissional, todas as coisas são medidas na régua do mérito. O que fazemos, como fazemos e o que deixamos de fazer são e serão a sentença de nossas vidas.

E convenhamos, não dá para pensar de outra maneira. Alguma coisa ou alguém só valem mesmo se forem úteis de alguma maneira. Ninguém quer convocar o “gordinho pereba” para o time de futebol, queremos o artilheiro, o “fazedor de gols”. Quem chega mais rápido à linha de chegada é que é digno da medalha dourada. Aquele que vende mais é digno da promoção na empresa, o que rende mais, trabalha mais, acerta mais, enfim, nossos valores são pautados pela régua da meritocracia. A sociedade capitalista aplaude porque essa foi, até agora, a melhor forma de motivar o rendimento humano sem qualquer opressão que fira o direito a liberdade (em tese).

O Reino de Deus é diferente do nosso. Seus valores são outros e isso é desconcertante. Enquanto nós escolhemos os melhores, Jesus escolhe os doze discípulos mais improváveis, de um terrorista (zelote) a um político corrupto (Levi Mateus), de iletrados a homens irascíveis. O que tinha mais títulos, mais méritos, o mais estudado, era Judas. Segundo esse ponto de vista, não fosse por Judas, o ministério de Jesus teria caído em descrédito pela tenebrosa escolha dos outros onze.

Graças a Deus que Deus não é humano. Sua lógica é outra e Sua operação é diferente do que esperamos. Deus opera em outro paradigma, outra forma de enxergar a vida. Enquanto procuramos os melhores, os bons, os mais capacitados, Ele procura outra coisa. No Reino de Deus o valor é outro. Jesus disse:

“Eu lhes asseguro que, a não ser que vocês se convertam e se tornem como crianças, jamais entrarão no Reino dos céus” (Mateus 18:3).

Muitas versões foram produzidas com o tempo a respeito sobre o que Jesus quis dizer com essa afirmação. Mas basta olhar para o contexto judaico da época e será possível perceber o que exatamente Jesus estava falando. Mulheres e crianças não eram contadas naquele tempo. Apenas adultos homens tinham algum valor social. O mérito era todo deles. Eles lideravam, dominavam, trabalhavam, realizavam, eram quem “importava” naquele contexto. Jesus mesmo tem que dizer: “deixai vir a mim os pequeninos”, porque ninguém queria deixar que as crianças se aproximassem do Mestre, “atrapalhando” Seus afazeres. Era uma afronta uma criança ou uma mulher demandar atenção de um homem adulto. Crianças não tinham valor. Afinal, não tinham mérito algum, “serviam para quê?”.

Jesus começa a subverter essa ideia quando declara aos orgulhosos adultos que ninguém entra no Reino dos Céus se não se despir de suas personas infladas, e se diminuir ao nível de simplicidade, fragilidade, submissão de uma criança. Resumindo, Jesus falava de humildade. É como se dissesse: “Quem acha que vai a algum lugar por suas próprias forças, conquistas e méritos, não vai a lugar algum. Quanto mais vocês enxergam valor em vocês mesmos, menos aptos estão para o Reino. Enquanto aqueles que forem dependentes do Pai como uma criança, humildes e sem valorizar a si mesmos, estarão a caminho do céu”.

Quando Deus vai escolher “Seu time”, não busca os mais aptos, mais capazes, mais saudáveis, mais inteligentes, nada disso. Ele busca os mais humildes.

“Ao escolher homens e mulheres para Seu serviço, Deus não indaga se eles possuem riquezas mundanas, saber ou eloquência. Pergunta: ‘Andam eles em tanta humildade que lhes possa ensinar o Meu caminho? Posso pôr em seus lábios as Minhas palavras? Representar-Me-ão?” (Ellen White, Ciência do Bom Viver, p. 37).

Portanto, o valor do Reino de Deus é de um tipo que não exclui ninguém. Enquanto o mérito deixa de fora os que não o possuem, a humildade é um atributo que todos os homens podem se apropriar desde que não olhem para si mesmos como merecedores. É também um atributo agregador, em vez de excludente. O mérito clama por competição, a humildade clama por cooperação. Esse é o valor do Reino de Deus que contrapõe a meritocracia: humildade. É certo que “como ferro afia o ferro, um homem afia o seu companheiro” (Provérbios 27:17), e a competitividade ajuda um homem a aprimorar o outro. Mas como o ferro batendo no ferro esse aprimoramento ocorre ao custo de feridas e enfrentamentos. O texto, embora fale do “ferro com o ferro”, fala também de companheirismo. A humildade também é capaz de aprimorar o homem, também haverá feridas e enfrentamentos, mas aqui o outro é companheiro. Existe amor nessa relação, cooperação e não competição. No Reino de Deus, a humildade é a substituta do mérito.

Ouvi recentemente que a arrogância e o orgulho é como um cadáver que pensa em ganhar um concurso de beleza. Nossos melhores méritos não são mais do que “trapos de imundícia”. Estamos maculados pelo pecado, nossa natureza é doente, somos como cadáveres, mas nos pomos a ganhar um concurso de beleza, porque olhamos para nós mesmos como merecedores de alguma coisa, dignos de reconhecimento e valiosos a nossos olhos.

O Reino de Deus vem para desconstruir nossa ilusão. Revelar o que somos e mudar nossa postura. O convite de Deus é para uma vida de muita humildade. De abatimento constante do orgulho e da consciência de merecimento. No Reino, nós somos completamente dependentes de Deus. Ele é o grande realizador, por meio de nós. Não há disputa sobre quem é maior, ninguém se vê superior ao outro, somos convocados e olhar de baixo para cima todas as outras pessoas, nos permitindo ser usados por Deus. Sim, usados. Essa palavra vai incomodar os mais soberbos e orgulhosos. Deixe Deus usá-lo.

Quando Deus chama Seus líderes, Ele escolhe os que se parecem mais com crianças, dependentes do Pai, do que os autossuficientes. Os mais humildes são os mais moldáveis, os mais orgulhosos, mais engessados.

“Muitos não percebem que ao andarmos humildemente com Deus, nos colocamos numa posição em que o inimigo não pode tirar vantagem de nós. … Unicamente se nos submetermos como crianças dispostas a ser instruídas e disciplinadas, poderá Deus usar-nos para a Sua glória” (Ellen White, Manuscrito 102 de 1904).

Mas isso não é fácil:

”É unicamente por meio de torturante esforço de nossa parte que nos tornaremos altruístas, modestos, semelhantes a crianças, dóceis, mansos e humildes de coração, como nosso divino Senhor” (Ellen White, Para Conhecê-lo, p. 182).

Assim, imitando a Cristo, a gente vai levando o Seu Reino ao mundo. Com uma verdade espantosa que o mundo não espera. Gente indigna, carregando a maior dignidade, Jesus Cristo em seu próprio coração. Vivendo em outro parâmetro, ocupando um outro patamar, apresentando um amor não fingido, e um valor que não vale em si mesmo. A humildade é só tem valor, porque é o espaço que se abre no ser para que Deus possa habitar em nós.

“Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo” (Filipenses 2:3).

Esse é o Reino.

Diego Barreto (via O Reino - Título original: Miss Cadáver)

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

Amor na era do gelo

Prepare o seu cobertor, pras coisas que eu vou contar: a maior e mais forte massa de ar frio do ano chegou ao país e vai derrubar as temperaturas e provocar frio intenso de Sul a Norte, com geadas e até formação de neve.

A massa de origem polar se aproximou na terça-feira, mas terá sua fase mais ampla e congelante entre hoje e sábado, com quedas de até 10ºC na temperatura e marcas abaixo de zero na região Sul. Segundo a Climatempo, “a onda de frio muito forte” será sentida nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste e chegará ao Norte, em Rondônia, Acre e Amazonas. O vento gelado também vai soprar no sul do Pará e do Tocantins e em parte da Bahia.

Mas o que vemos ultimamente, é que um frio congelante também anda atingindo o coração dos seres humanos. Vamos refletir sobre isso lendo este belo artigo de autoria de Diogo Cavalcanti (via Apocalipses):

Éfeso: Amor na era do gelo
Vivemos numa verdadeira era do gelo nas relações humanas, uma crise de indiferença mortal. O individualismo extremo se revela numa profunda falta de amor ao semelhante, reflexo da ausência do amor de Deus no coração. Esse frio humano, oposto ao calor humano, se manifesta todos os dias nos assustadores índices de violência no lar, nas ruas, no choque entre culturas, religiões e países.

Quando Cristo olhou para nosso tempo, não poderia dar um diagnóstico mais preciso: “E, por se multiplicar a iniquidade [anomian], o amor [agapē] se esfriará de quase todos [pollōn, “muitos”] (Mateus 24:12). O Salvador não só antecipou nossa era do gelo, mas explicou sua causa. O amor-princípio, de origem divina (agapē) se esfriaria quanto mais se multiplicasse a iniquidade (anomia). Mas o que é anomia? O termo ocorre 14 vezes no Novo Testamento e, em 11 delas, é traduzido como “iniquidade”, e nas três restantes, como “maldade” (duas vezes em Romanos 6:19,) e como “transgressão da lei” (1 João 3:4). A passagem de 1 João é esclarecedora, pois a tradução é determinada pela etimologia da palavra grega anomia (a = “não”, “contra”; nomos = “lei”). Se a essência da lei está no amor a Deus e ao semelhante (Marcos 12:28-31), a essência da iniquidade se revela na rejeição à lei do amor.

Na primeira mensagem às sete igrejas do Apocalipse, lemos um forte chamado de retorno ao “primeiro amor”. “Tenho, porém, contra ti que abandonaste [afekas] o teu primeiro amor [agapenproten]” (Apocalipse 2:4). Apesar de serem elogiados por Cristo por suas obras, labor, perseverança, zelo doutrinário e resistência diante das maiores provações, os efésios tinham perdido seu “primeiro amor”. Note que eles não estavam no processo de perder, ou quase perdendo, mas já o haviam perdido, como indicam os tempos verbais de “abandonar”, tanto no grego (aoristo) quanto na tradução (pretérito perfeito), que expressam uma ação acabada. É possível que, na luta contra “lobos vorazes”, com seus falsos ensinos, os efésios tinham perdido de vista o mais importante. O problema não era tanto uma corrosão teológica, mas uma perda de essência.

Os cristãos da capital da Ásia Menor haviam recebido a mensagem do evangelho de braços abertos, mas após algumas décadas sua religião estava se tornando “legalista e sem amor”[1]. Talvez, a pressão dos falsos ensinadores tenha desviado o coração de alguns membros e gerado um clima faccioso na Igreja.[2] Na luta contra os falsos ensinos, a Igreja se esqueceu de viver os verdadeiros. Perdeu de vista o agapē, o amor-princípio que vem de Deus – o mesmo tipo de amor mencionado por Jesus e por João, como vimos. Os efésios não tinham perdido apenas o amor que vem de Deus, mas estavam perdendo o amor a Ele e, sem dúvida, o amor tanto pelos de dentro quanto pelos de fora.

A situação particular daquela igreja representava o quadro maior do fim da primeira e mais pura fase do cristianismo: uma igreja fervorosa, doutrinariamente saudável, mas que, ao fim do primeiro século, dava mostras de fadiga. Tinha algum amor, mas não como o “primeiro”. Seu amor a Deus e a Cristo estava se arrefecendo. Em relação aos últimos contemporâneos de Jesus, João entre eles, as novas gerações de cristãos deixavam a desejar.

Cristo, então, vai direto ao ponto: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Apocalipse 2:5). Três verbos marcam o conselho de Jesus, que serve muito bem para nós, hoje: (1) A igreja precisa se lembrar em que ponto de sua jornada espiritual perdeu seu primeiro amor; (2) também deve se arrepender de seu desvio; e (3) tem que voltar “à prática das primeiras obras”. O amor tem que ver com ação, com a prática de boas obras (Efésios 2:10; Tito 2:7, 14; 3:8; Hebreus 10:24; 1 Pedro 2:12) e não só com teorias ou belos discursos vazios de atitude.

Dias atrás visitei parentes que não pertencem à nossa fé, de uma forma especial: pregando numa igreja próxima da casa deles. Vários foram ao culto e apreciaram a mensagem de exortação e consolo. À tarde, pude visitar alguns desses parentes e conversar com eles. José, um primo que tem paixão pela natureza e pela fé cristã, tinha acabado de chegar de um trabalho em favor de moradores de rua do centro de São Paulo. Ele e um grupo de sua igreja cortam os cabelos e fazem a barba dos moradores de rua, levam-lhes alimentos, limpam suas feridas e aplicam curativos, entre outros serviços.

Naquele dia frio, José me contou que haviam sido pegos de surpresa por uma chuva. Porém, ele compartilhou algo marcante: “Diogo, não sou muito da liturgia; gosto mais de ajudar as pessoas”. José estava onde muitos de nós deveríamos estar. Nossa profissão de fé e adoração se tornam genuínas quando são o clímax da celebração de uma vivência cristã em amor ao longo da semana.

Se a igreja do primeiro século precisava voltar ao primeiro amor, a igreja da era do gelo moral, muito mais. Embora muitas pregações e iniciativas sejam louváveis, precisamos da rara combinação entre uma doutrina sadia, fundamentada na Bíblia, associada a uma fé genuína e impulsionada ao amor prático. As características do povo de Deus nos últimos não se resumem na pregação dos verdadeiros mandamentos de Deus e a fé em Jesus, mas na prática da lei (Apocalipse 12:17; 14:12). Só o amor divino em corações humanos pode aquecer pessoas em meio ao individualismo congelante deste mundo. A iniquidade esfria o amor de muitos, mas não de todos.

[1] Stefanovic, Ranko, Revelation of Jesus Christ. 2 ed. Berrien Springs, MI: Andrews University Press, 2009, p. 118.

[2] Nichol (ed.), Francis D. Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia. Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, vol. 7, p. 823.

"Muitos há que consideram a expressão de amor como uma fraqueza e mantêm uma reserva que repele aos outros. Este espírito detém a corrente de simpatia. Sendo reprimidos os generosos impulsos sociais, eles mirram, e o coração torna-se desolado e frio. Devemos precaver-nos contra este erro. O amor não pode existir por muito tempo sem se exprimir. Não permitais que o coração do que se acha ligado convosco pereça à míngua de bondade e simpatia" (Ellen G. White - O Lar Adventista, p. 107).

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

As sete últimas pragas

O que são as pragas do Apocalipse, quem as causará, quando elas cairão e quem será atingido?  
O FENÔMENO
O derramamento das sete últimas pragas será um momento crítico, solene e tenso, um evento sobrenatural literalmente de proporções apocalípticas. João descreve: “Vi no céu outro sinal grande e admirável: sete anjos tendo os sete últimos flagelos” (Ap 15:1). Quando esse “sinal” ocorrer, o que sugere algo com visibilidade cósmica, as dimensões dos flagelos serão inéditas. “O fato de haver sete anjos com sete pragas indica a certeza e completude da ira divina contra toda injustiça”, comenta Robert H. Mounce (The Book of Revelation [Eerdmans, 1977], p. 285). Até esse momento, outros juízos menores continuarão assolando o planeta.
Para descrever os flagelos finais, João usa o paralelo das pragas do Egito (Êx 7–12), mas não segue estritamente a narrativa do Êxodo, a começar pelo número de pragas (dez no Egito e sete no fim dos tempos). “Ambos os relatos testificam da autoridade e do poder superior de Deus”, ressalta o Comentário Bíblico Adventista (CPB, 2015, v. 7, p. 930). “Ambos resultam na derrota de pessoas que escolheram desafiar a Deus; portanto, resulta também no livramento do povo escolhido de uma situação que, de outra forma, seria irremediável. Ambos demonstram a justiça de Deus e glorificam Seu nome.”
Assim como as pragas sobre o Egito foram literais, os flagelos finais também serão literais, embora alguns aspectos da descrição sejam simbólicos (por exemplo, o secamento das águas do rio Eufrates). Por sinal, alguns autores defendem que o que se relaciona com as pragas do Egito ocorre no Apocalipse de forma literal, enquanto o que diz respeito a Babilônia tem uma aplicação simbólica.
O fato é que os elementos da natureza (e da vida) reconhecidos na antiguidade (terra, água, fogo, ar) serão atingidos e se voltarão contra os conspiradores humanos, que não cumpriram seu papel de guardiões do planeta nem seu dever de adorar a Deus. O que é erroneamente adorado como deus se transforma em praga. A última “taça” será derramada sobre o “ar”, que representa o elemento mais difundido e básico da vida (veja o quadro).
O AGENTE
Na linguagem do Apocalipse (7:1-3), os anjos estão segurando “os quatro ventos da Terra”, impedindo que danifiquem a terra, o mar e as florestas, até o selamento dos servos de Deus. Sem restrição, as agências do mal transformariam o mundo num verdadeiro caos. Portanto, Deus controla os eventos e intervém no mundo. Na verdade, Ele é o Senhor do tempo, da história e da eternidade.
Além disso, considerando que os anjos saem do santuário (Ap 15:5, 6), o julgamento final ocorre sob a autorização de Deus, que, em última instância, é o responsável pelo Universo. “O Senhor Deus de Israel executará juízos sobre os deuses deste mundo como aconteceu com os deuses do Egito. Com fogo e inundações, pragas e terremotos, Ele deteriorá o mundo”, adverte Ellen White (Eventos Finais, p. 240). “O Senhor, em juízo, andará no fim dos tempos pela Terra” (p. 234).
Porém, embora as pragas sejam uma manifestação da ira divina, Deus não é o agente direto da dor e das mortes causadas por esses flagelos. De acordo com Ellen White, os juízos finais não virão “diretamente da parte do Senhor”, mas recaem sobre os que “se colocam além de Sua proteção” (Eventos Finais, p. 242). A Terra será o campo de batalha entre o bem e o mal. E quem não estiver no refúgio de Deus será atingido.
O TEMPO
Quando ocorrerão as pragas: antes ou depois do chamado “fechamento da porta da graça”? Apocalipse 15:8 apresenta a resposta, ainda que indireta: “O santuário se encheu de fumaça procedente da glória de Deus e do Seu poder, e ninguém podia penetrar no santuário, enquanto não se cumprissem os sete flagelos dos sete anjos.”
O fato de o santuário estar cheio de fumaça sugere a plenitude da presença divina, e a informação de que ninguém podia entrar ali, nem mesmo os anjos, indica o fim da intercessão de Cristo e a impossibilidade de salvação. A última parte do verso mostra que essa situação continuará até o fim das pragas e, portanto, o futuro de cada pessoa já estará definido. As pragas apenas revelam quem é quem, mas não mudam o destino da pessoa.
Teoricamente, as pragas iniciais do Apocalipse poderiam ser redentivas, caso alguém queira enfatizar um paralelo mais próximo com as pragas do Egito, em que o faraó endureceu o coração, mas tinha chance de mudar de ideia. Afinal, a narrativa dessa guerra entre Deus e os deuses do Egito (Êx 12:12) indica que, se o monarca mudasse sua obstinação, Deus mudaria o roteiro da punição (4:8, 9; 8:8-12, 28-31; 9:27-29; 10:16-19). Além disso, a linguagem da quarta e da quinta praga do Apocalipse (16:8-11) sugere que era de se esperar que as pessoas se arrependessem, mas elas continuam blasfemando o nome de Deus.
No entanto, a informação de que as pragas caem sobre as pessoas que têm a marca da besta (Ap 16:2), após o selamento dos justos (7:1-3) e a advertência ao mundo (14:9-11), mostra que o destino delas estará selado. “Além disso, o fato de as sete últimas pragas constituírem a medida cheia da ira divina, sem mistura de misericórdia (Ap 14:10; 15:1; 16:1), indica que a oportunidade da graça já se encerrou para aqueles sobre quem as pragas caem”, registra o Comentário Bíblico Adventista (v. 7, p. 929).
Ellen White também tem uma série de afirmações ressaltando que as pragas serão derramadas após o fim da intercessão de Cristo e da oportunidade de salvação (por exemplo, Primeiros Escritos, p. 36; História da Redenção, p. 403; O Grande Conflito, p. 627), o que solidifica essa perspectiva. Nessa fase, Jesus não mais estará intercedendo, porém isso não significa que Ele não esteja com Seu povo. O Espírito Santo não estará atuando no mundo, mas estará ainda mais perto do povo de Deus.
A EXTENSÃO
As quatro primeiras pragas são limitadas em termos de espaço, mas não na intensidade. “Estas pragas não são universais, ao contrário os habitantes da Terra seriam inteiramente exterminados. Contudo serão os mais terríveis flagelos que já foram conhecidos por mortais”, comenta Ellen White (O Grande Conflito, p. 628-629).
A quinta praga (Ap 16:10, 11) atinge o trono da besta, o centro do poder do mal, e assim avaria toda a sua esfera de influência. “Ao alvejar seu trono, Deus danifica a capacidade da besta de governar sobre seu reino”, observa Rudolph Scharneck em sua tese de doutorado (“New Perspectives on the Bowl Plagues in Revelation 16”), defendida na Universidade de Pretória, na África do Sul, em 2019 (p. 232).
A sexta praga, que desencadeia a batalha final entre o bem e o mal, leva ao julgamento final de Deus sobre o mundo. A sétima praga (sobre o ar) é marcada por uma potente voz anunciando: “Feito está!” (Ap 16:17). Isso sinaliza o fim e o aparecimento iminente de Cristo.
“Nenhuma extensão de tempo foi especificada para o derramamento das pragas, mas resta a impressão de que esses eventos ocorrem em um breve período de tempo”, pondera Edwin E. Reynolds no verbete sobre as pragas na Enciclopédia Ellen White (CPB, 2018, p. 1175). Mesmo sendo um curto período, o planeta ficará arrasado. Considerando que Satanás é o causador de todo o mal, seu sistema não ficará livre dos flagelos, embora a destruição dele mesmo ocorrerá somente depois do milênio (Ap 20).
O PROPÓSITO
Seria o objetivo das pragas redentivo ou apenas punitivo? Antes das pragas, todos terão a oportunidade de se posicionar ao lado de Deus ou do inimigo. Haverá uma polarização, tendo a lei, o sábado e a adoração como epicentro do interesse público. Portanto, o propósito das pragas não é converter a humanidade, mas servir de julgamento por sua rebelião.
“Depois destas coisas, olhei, e abriu-se no céu o santuário do tabernáculo do Testemunho”, afirma o profeta (Ap 15:5). A expressão “olhei, e abriu-se” indica uma nova cena, enquanto a descrição incomum “santuário do tabernáculo do Testemunho” aponta para a lei e o lugar do julgamento. O fato de o santuário se abrir no Céu revela um evento com ­repercussão cósmica.
A temática dos capítulos 15 e 16 de Apocalipse está conectada ao capítulo 11, onde se encontra a narrativa das duas testemunhas perseguidas (o Antigo e o Novo Testamentos, juntamente com seus defensores). Note as semelhanças: “Abriu-se, então, o santuário de Deus, que se acha no Céu, e foi vista a arca da Aliança no Seu santuário” (11:19a); “Depois destas coisas, olhei, e abriu-se no Céu o santuário do tabernáculo do Testemunho” (15:5). Portanto, o julgamento tem que ver com desobediência à lei e perseguição ao povo de Deus.
O capítulo 11 informa que chegou o tempo de julgar/destruir “os que destroem a Terra” (11:18). Em geral, esse verso tem sido usado para despertar a consciência ecológica e incentivar o cuidado com o planeta, o que indiretamente pode ser feito. Porém, no fundo, João não está denunciando a destruição do ecossistema em escala global, mas destacando a destruição ou corrupção moral da Terra pelos poderes do mal.
Há um jogo de palavras ou conceitos entre “destruir” em 11:18 e “corromper” em 19:2, verbos com a mesma raiz no original grego. Quem corrompe a Terra com imoralidade é a “Babilônia” espiritual. Por isso, Richard Bauckham diz que “os destruidores da Terra são os poderes do mal: o dragão, a besta e a prostituta de Babilônia” (The Theology of the Book of Revelation [Cambridge University Press, 1993], p. 52). João está ecoando Jeremias 51:25, texto em que o profeta denuncia Babilônia como uma montanha poderosa que destrói toda a Terra.
No relato das pragas, o texto mais explícito sobre o julgamento com base no chamado princípio da retribuição é Apocalipse 16:6: “porquanto derramaram sangue de santos e de profetas, também sangue lhes tens dado a beber”. De acordo com alguns teólogos, temos aqui uma aplicação da famosa lei de talião (lex talionis) ou direito de talião (ius talionis), que prescreve uma pena igual ao crime, mantendo o equilíbrio da justiça (ver Êx 21:23-25; Lv 24:18-20; Dt 19:21). Nesse julgamento escatológico, conforme destaca Richard Bauckham, “a descrição da punição corresponde verbalmente à descrição do pecado” (p. 52).
Entretanto, há outros propósitos do derramamento das pragas, cuja sequência recapitula o ciclo das trombetas, embora com mais severidade. Em seu recente comentário sobre o Apocalipse, o teólogo adventista Sigve Tonstad prefere ressaltar o aspecto cósmico e ver as pragas como “revelação”, mostrando o tipo de pessoa que é Deus (Revelation [Baker Academic, 2019], p. 219).
Para finalizar, é importante enfatizar que Deus é um Pai amoroso que procura atrair a humanidade de volta para Si. Ele não tem prazer na morte de ninguém. Por isso, o julgamento de Deus no Apocalipse é progressivo, indo desde a advertência inicial até a aniquilação total. Primeiro, vemos o convite às igrejas (Ap 2, 3), depois o abrir dos selos (5, 6; 8:1), em seguida os avisos das trombetas (8:2–9:21; 11:15-19), depois a ameaça das pragas (15, 16) e, por fim, a destruição total e a eliminação do mal do mundo (20, 21).
O ciclo das sete pragas é paralelo com o ciclo das sete trombetas, que, por sua vez, é parecido com o ciclo dos sete selos. Tudo isso é entremeado com descrições e chamados para um posicionamento ao lado de Deus. Apocalipse 18:4 revela que Ele gostaria de salvar até o povo de “Babilônia”, se possível. Em cada passo, as pessoas determinam seu destino pelas escolhas que fazem, até que seja tarde demais.
As últimas pragas serão o fim da civilização como a conhecemos, mas abrirão caminho para uma nova realidade. Se vamos fazer parte do novo planeta dos sonhos, depende de nós mesmos.
Marcos De Benedicto (leia o artigo na íntegra em Revista Adventista - Título original: Sete taças)

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Fanatismo

"O fanatismo é uma parte da verdade que ficou louca."

Esse aforismo consegue expressar com genialidade duas ideias-chaves sobre o fanatismo: 

1. Sua identificação com a verdade: se o fanatismo é uma parte da verdade, ele se opõe, a princípio, e na maior parte dos casos, à heresia, que consiste em uma – ou mais – doutrina espúria, a qual concorre com a verdade. O fanático nasce a partir de uma motivação antagônica: o herético odeia a verdade; o fanático ama tanto a verdade que idealiza, segmenta e, por fim, distorce. 

2. Sua peculiaridade perniciosa: o fanatismo se sobressai em relação ao conjunto doutrinal de que se origina pela tendência de manter certas ênfases, em detrimento do conjunto. Eis a peculiaridade do fanatismo. Também não podemos igualar fanatismo a uma mera excentricidade religiosa, já que ele toma certa carga de virulência, infectando tudo e todos ao redor, implícita ou explicitamente. Eis sua perniciosidade. Embora o fanatismo não esteja restrito ao Cristianismo, é relevante o número de cristãos fanáticos. Geralmente, o fanático inverte o zelo autêntico do testemunho cristão – enquanto um genuíno servo de Deus estaria disposto a morrer pela verdade, o fanático, em contrapartida, dispõe-se a matar por aquilo que considera como a vontade divina. Dessa forma, o fanático abandona o posto de súdito do Reino do Céu, condição na qual se acata a legislação do Evangelho, e se torna, ele próprio, o legislador agindo coercivamente sobre outros, a fim de acatarem seu dogmatismo. (Questão de Confiança)

Os textos a seguir foram extraídos dos livros de Ellen G. White, Obreiros Evangélicos e Mente, Caráter e Personalidade

À medida que o fim se aproxima, o inimigo há de trabalhar com todas as suas forças para introduzir entre nós o fanatismo. Vivemos num tempo em que todo aspecto de fanatismo se insinuará entre os crentes e descrentes. Satanás forçará entrada, falando mentiras, hipocritamente. Apresentará tudo que possa inventar, para enganar homens e mulheres. Temos visto, em nossa experiência, que, se Satanás não consegue prender as pessoas no gelo da indiferença, ele procurará impeli-las para o fogo do fanatismo.

Quando o Espírito do Senhor Se faz notar entre o Seu povo, o inimigo aproveita a oportunidade para também atuar sobre várias mentes, levando-as a misturar seus próprios peculiares traços de caráter com a obra de Deus. Assim, sempre há o perigo de que eles permitam que suas próprias idéias se misturem com a obra e assim se tomem resoluções imprudentes. Muitos se empenham numa obra por eles mesmos ideada, e que não é inspirada por Deus. Por eles são pervertidos princípios, erguidas normas falsas, formam-se critérios que não trazem a assinatura do Céu.

Há muitos, muitos, que confiam em sua própria justiça. Estabelecem uma norma para si mesmos, e não se submetem à vontade de Cristo, nem permitem que Ele os envolva nas vestes de Sua justiça. Formam um caráter de acordo com a sua vontade. Satanás se agrada de sua religião. Representam falsamente o caráter perfeito - a justiça - de Cristo. Enganados eles mesmos, por sua vez enganam outros. Não são aceitos por Deus. São capazes de levar outras pessoas por falsos caminhos. Receberão afinal sua recompensa, juntamente com o grande enganador Satanás.

Há os que são combativos por natureza. Pouco se lhes dá concordarem ou não com os seus irmãos. Têm prazer em entrar em polêmicas, gostam de lutar em defesa de suas singulares idéias; devem, porém, pôr de lado isso, pois não contribui para promover as graças cristãs. Nenhum de nós está em segurança, a menos que diariamente aprendamos de Cristo Sua mansidão e humildade.

Deus convoca Seus servos a que estudem Seu desejo e vontade. Então, quando se apresentam homens com teorias forjadas curiosamente, não discutam com eles, mas afirmem o que sabem. "Está escrito" deve ser vossa arma.

Os que são atentos estudantes da Palavra, seguindo a Cristo com humildade de alma, não irão a extremos. O Salvador nunca foi a extremos, nunca perdeu o domínio de Si mesmo, nunca violou as leis do bom gosto. Sabia quando convinha falar, e quando guardar silêncio. Estava sempre na posse de Si mesmo. Nunca errou no ajuizar os homens ou a verdade. Nunca foi enganado pelas aparências. Nunca levantou uma pergunta que não fosse perfeitamente apropriada, nunca deu uma resposta que não fosse bem apropriada ao caso. Fez calar os cavilosos sacerdotes, penetrando para além da superfície, e atingindo o coração, fazendo a luz no espírito e despertando a consciência.

Os que seguem o exemplo de Cristo não serão extremistas. Cultivarão a calma e a posse de si mesmos. A paz que se manifestava na vida de Cristo se patenteará na deles.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Deus também chora

Se Deus é compassivo e sensível, por que permite que o estupro aconteça? Por que Ele não faz algo para limitar ou impedir esse tipo de violência que machuca tanta gente? Neste breve artigo, vou tentar responder a essa complexa questão, mostrando que Deus considera sagrada a dignidade humana, que Ele não é o responsável pela existência do mal e do sofrimento, e como as famílias e comunidades religiosas podem representar o caráter amoroso de Deus demonstrando sensibilidade para com as vítimas de estupro.

No Antigo Testamento, por exemplo, há 3,5 mil anos, os maus tratos de um homem para com uma mulher eram levados muito a sério. A lei determinava que, se alguém seduzisse uma virgem, chegando a ter intimidade sexual com ela, deveria pagar o dote e casar-se com a moça (Êxodo 22:16-17). Por sua vez, no caso do estupro de uma mulher, o agressor era passível de pena de morte (Deuteronômio 22:25-27). Conforme explica o Holman Illustrated Bible Dictionary, a legislação dada por Deus a Moisés previa a proteção dos direitos da vítima, tanto para sua compensação financeira quanto para a recuperação de sua dignidade (p. 1.365).

Nos tempos do Novo Testamento, por sua vez, há 2 mil anos, Jesus classificou o adultério não simplesmente como um ato de contato corporal, mas como um pensamento desvirtuado que precede a ação. Na visão do educador e teólogo D. Robert Kennedy, o modo pelo qual Cristo confirma os mandamentos do Antigo Testamento (Mateus 5:28), aprofundando o sentido e a aplicação deles, eleva o valor do ser humano e se opõe frontalmente às paixões que motivam o estupro (revista Ministry, fevereiro de 1995). 

Portanto, não é preciso ser profundo conhecedor da Bíblia para perceber que Deus se revela por meio dela e é claramente contra a exploração sexual. Para Ele, as relações sexuais são retratadas como sagradas, idealizadas exclusivamente para o contexto de estabilidade, aceitação e proteção do casamento. Se dependesse apenas de Deus, a liberdade humana nunca seria utilizada para tornar a sexualidade uma experiência vulgar, frustrante ou humilhante. 

DEUS NÃO PODE SER CULPADO 
Na Bíblia, Deus sempre é apresentado como alguém misericordiosamente preocupado com as pessoas. Ele é descrito como cheio de compaixão pelos seus frágeis filhos (Êxodo 34:6 e 7, Mateus 20:34 e Lucas 7:13). E, embora não perdoe cegamente, é sempre orientado pelo princípio da justiça (1Jo 1:9). Além disso, Ele é retratado como um refúgio, porque sob suas mãos podemos encontrar proteção e segurança (Salmos 18:1 e 2; 27:5; 46:1; 125:2). Portanto, esses textos deixam claro que Deus tem um caráter irrepreensível e que não pode ser culpado pelo estupro ou qualquer tipo de violência.

Porém, como explicar a existência do mal? Deus criou Adão e Eva, os pais da humanidade, com responsabilidade moral, o que lhes permitiu fazer escolhas. Foi o mal uso dessa liberdade que acarretou a entrada do sofrimento na Terra (Gênesis 2:17; 3:16-19). Segundo o teólogo Hans Schwarz, no livro The Human Being: A Theological Anthropology, o ser humano é um agente moral livre, e como tal deveria desfrutar de sua liberdade com responsabilidade; em outras palavras, em obediência a Deus. Mas o Todo-poderoso não poderia ter evitado que Adão e Eva tivessem a queda moral? O que Ele poderia ter feito, Ele fez: avisou sobre as consequências mortais da desobediência. Porém, intervir na escolha deles seria violentar a liberdade humana. Deus idealizou e criou um mundo em que seres inteligentes agissem por conta própria e com responsabilidade. Isso implicava riscos, e o estupro é um deles. 

NÓS PODEMOS SER SENSÍVEIS 
Se por um lado a Bíblia apresenta um plano original que foi comprometido pela irresponsabilidade humana, por outro, ela não nos deixa sem esperança (1 Coríntios 15:21), pois retrata Deus intervindo para restaurar o que foi perdido (2 Coríntios 5:19 e Apocalipse 21:1-4), fazer justiça (Hebreus 10:30) e logo pôr fim à extensão do mal (Malaquias 4:1). Enquanto isso não ocorre, Ele espera que os seres humanos sensíveis à sua voz minimizem o sofrimento alheio. 

As orientações abaixo, oferecidas pelo ministério cristão Focus on the Family, podem ajudar você a amparar alguém que foi violentado. 

1. Mostre solidariedade. Talvez muitas mulheres não procurem ajuda porque temem que ninguém acredite nelas. Assim, é preciso aproximar-se da vítima demonstrando dignidade e respeito. Foi justamente isso que fez o samaritano da parábola contada por Jesus, que auxiliou o ferido na estrada de Jerusalém para Jericó (Lucas 10:30-35). Ele não se preocupou em saber quem era a vítima ou quais riscos ele corria ao se aproximar do ferido. Apenas demonstrou respeito e promoveu a dignidade humana. 

2. Proteja e inspire confiança. É comum que a vítima se sinta insegura, com medo. Por isso, é importante oferecer cuidado e proteção, criando um senso de segurança e confiança, essenciais para a recuperação. Foi isso que Cristo fez quando se colocou ao lado da mulher acusada de adultério, não para ser conivente com o erro dela, mas para protegê-la e mostrar que a confiança e o perdão são mais fortes do que o medo (João 8:11). 

3. Ofereça apoio emocional. Quem passou pelo sofrimento do estupro tende a carregar o peso da falsa culpa e da vitimização. É necessário que essa pessoa enxergue que não é culpada e que pode superar essa etapa da vida, pela graça e poder de Deus. Nesse caso, a mensagem do apóstolo Paulo é especialmente poderosa: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Filipenses 4:13). 

4. Seja paciente. O estupro implica sofrimento intenso e a vítima precisará de bastante tempo para se recuperar. Por isso, é preciso ter paciência para não cobrar “resultados” imediatos. É necessário praticar o ensino de Mateus 11:28: receber as pessoas de braços abertos e ajudá-las a lidar com suas dores.

A toda vítima de estupro, que derrama lágrimas e sofre pela tragédia dessa experiência, Deus diz: “Eu conheço suas lágrimas; Eu também chorei. Aqueles pesares demasiadamente profundos para serem desafogados em algum ouvido humano, Eu os conheço. Não pense que está perdida e abandonada. Ainda que sua dor não encontre eco em nenhum coração na Terra, olhe para Mim e viva!” (Ellen White, O Desejado de Todas as Nações, p. 483, trecho adaptado). 

sábado, 15 de agosto de 2020

A última visão de Ellen White

Há 105 anos, a Review and Herald – publicação antológica adventista – apresentava o conteúdo da última visão recebida pela pioneira da denominação, a escritora Ellen G. White. Em 15 de abril de 1915, o texto intitulado “Uma mensagem para os nossos jovens” é considerado um alerta interessante para os jovens. A visão propriamente dita ocorreu no dia 3 de março.

Os adventistas do sétimo dia creem que Ellen White recebeu visões da mesma maneira como diversos profetas autores de livros da Bíblia. A denominação ressalta, no entanto, que os escritos da norte-americana não são superiores e nem substituem a narrativa do Antigo e Novo Testamentos.

O teor da visão apresenta diferentes aspectos que são interpretados como alertas. O primeiro deles diz respeito aos cuidados com o tipo de leitura. Ellen White afirmou que os jovens devem buscar leitura que pareça recomendável para edificação do caráter. Ela acrescenta, ainda, que “os jovens deveriam ler o que terá um efeito saudável e santificador sobre a mente. Necessitam fazer isso com a finalidade de estar capacitados para discernir qual é a religião verdadeira”.

Outro alerta na última visão antes da morte, a cofundadora da Igreja Adventista reafirma a importância de a juventude ser ajudada, elevada e animada, só que da maneira correta.

Essa última visão é uma clara orientação a respeito dos critérios que todas as pessoas, e não apenas os jovens, precisam desenvolver em termos de vigilância espiritual sobre o que veem, ouvem e leem. Não podemos nos esquecer que, no tempo em que esse material foi escrito, a leitura era o principal meio de informação e, também, de lazer. Ou seja, ela fala a respeito da importância de se pensar nas atividades realizadas em horário de lazer.

Ellen G. White morreu alguns meses depois, no dia 16 de julho de 1915. Leia a visão dela na íntegra:

Uma mensagem para os nossos jovens

Há livros de vital importância que não são olhados por nossos jovens. São negligenciados por não lhes parecerem tão interessantes como certas leituras leves. 

Cumpre-nos avisar a mocidade de que devem lançar firmemente mão dessa leitura que se recomenda para o erguimento do caráter cristão. Os pontos mais essenciais de nossa fé devem ser gravados na memória dos jovens. Eles têm tido um vislumbre dessas verdades, mas não um conhecimento que os leve a considerar com agrado o estudo das mesmas. Nossos jovens devem ler aquilo que exerça no espírito um efeito saudável, santificador. Isto necessitam eles, a fim de serem capazes de discernir o que seja a verdadeira religião. Há muita leitura boa que não contribui para santificar. 

É agora o nosso tempo favorável para trabalhar em benefício da mocidade. Dizei-lhes que nos achamos atualmente numa época de crise perigosa, e precisamos perceber o que seja a verdadeira piedade. Nossa juventude precisa ser ajudada, erguida e animada, mas na devida maneira; não, talvez, como eles desejariam, mas de modo que os auxilie a obter um espírito santificado. Eles precisam mais da boa e santificadora religião que de qualquer outra coisa. 

Não espero viver muito. Minha obra está quase concluída. Dizei aos nossos jovens que eu quero que minhas palavras os animem naquela maneira de viver que mais atrativa será aos seres celestes, e que sua influência sobre os outros seja enobrecedora.

Estive, durante as horas da noite, pondo de lado livros que não são de proveito para os moços. Devemos escolher-lhes livros que os estimulem à sinceridade de vida, e os levem a abrir a Palavra. Isto me foi apresentado em tempos passados, e pensei pôr isto diante de vós, e assentá-lo. Não nos podemos permitir oferecer à mocidade leitura destituída de valor. Necessitam-se livros que sejam uma bênção à mente e à alma. Estas coisas são consideradas com demasiada leviandade; portanto, nosso povo se deve familiarizar com o que estou dizendo. 

Não penso que eu tenha mais Testemunhos para nosso povo. Nossos homens de sólida mentalidade sabem o que convém ao erguimento e edificação da obra. Mas, com o amor de Deus no coração, necessitam aprofundar-se mais e mais no estudo das coisas divinas. Sinto-me deveras ansiosa de que nossa mocidade receba a devida espécie de leitura; então os mais idosos também a conseguirão. Cumpre-nos conservar os olhos na atração religiosa da verdade. Devemos manter mente e cérebro abertos às verdades da Palavra de Deus. Satanás se achega quando os homens estão despercebidos. Não nos devemos satisfazer com o haver a mensagem de advertência sido uma vez apresentada. Cumpre-nos apresentá-la repetidamente. 

Poderíamos iniciar um curso de leitura tão intensamente interessante, que atrairia e influenciaria muitos espíritos. Caso eu seja poupada para trabalho posterior, de boa vontade ajudarei no preparo de livros para os nossos jovens. 

Há uma obra a ser feita em favor dos jovens pela qual seu espírito seja impressionado e moldado pela santificadora verdade de Deus. É meu sincero desejo, quanto aos nossos jovens, que eles encontrem o verdadeiro sentido da justificação pela fé, e da perfeição do caráter que os preparará para a vida eterna. Não espero viver muito, e deixo esta mensagem aos jovens, a fim de que o objetivo que se propõem não se venha a malograr. 

Exorto meus irmãos a animar os jovens a que conservem sempre a preciosidade e graça de Deus grandemente exaltadas. Trabalhai e orai constantemente pelo senso da preciosidade da verdadeira religião. Introduzi nela a bem-aventurança e o atrativo da santidade e da graça de Deus. Tenho sentido um peso a esse respeito, pois sei que é negligenciado. 

Não tenho nenhuma certeza de que minha vida se prolongue muito, mas sinto que estou aceita pelo Senhor. Ele sabe como eu tenho sofrido ao ver as baixas normas de vida adotadas pelos chamados cristãos. Tenho sentido ser imperioso que a verdade se manifeste em minha vida, e que meu testemunho seja dirigido ao povo. Quero que façais o que estiver ao vosso alcance para que meus escritos sejam postos nas mãos do povo nas terras estrangeiras. 

Dizei aos jovens que eles têm tido muitas vantagens espirituais. Deus quer que façam fervorosos esforços para apresentar a verdade ao povo. Tenho a impressão de ser meu dever especial dizer estas coisas. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Anjos em forma humana

Anjos visitantes
O Senhor gostaria que tivéssemos percepções agudas para entender que esses seres poderosos que visitam nosso mundo têm uma parte ativa em toda obra que temos considerado como nossa. Esses seres celestiais são anjos ministradores e frequentemente se disfarçam na forma de seres humanos. Como estranhos conversam com aqueles que estão empenhados na obra de Deus. Em lugares isolados têm sido companheiros de viajantes em perigo. Em navios castigados pela tempestade, anjos em forma humana têm proferido palavras de animação para desviar o temor e inspirar confiança na hora do perigo, e os passageiros têm julgado que era um dentre eles com quem nunca antes haviam falado.

Muitos, sob diferentes circunstâncias, têm ouvido vozes dos habitantes de outros mundos. Eles têm vindo desempenhar uma parte nesta vida. Têm falado em assembleias, e desenrolado histórias humanas perante essas assembleias, e realizado obras que seriam impossíveis para instrumentos humanos. Vez após vez, têm sido generais de exércitos. Têm sido enviados para eliminar pestilência. Têm-se alimentado à mesa de humildes famílias. Frequentemente têm aparecido como cansados viajores em necessidade de abrigo para a noite.

Precisamos compreender melhor do que o fazemos a obra desses anjos visitantes. Seria bom que todos quantos alegam ser filhos de Deus considerassem que as palavras que falam são ouvidas pelos seres celestiais e que estes contemplam as obras que realizam.[1]

Anjos podem ser hospedados hoje em dia
A Bíblia põe muita ênfase na prática da hospitalidade. Não somente a recomenda como um dever, mas apresenta muitos belos quadros do exercício desta graça e das bênçãos que ela traz. Entre estes, destaca-se o exemplo de Abraão. ...

Tais atos de cortesia foram reputados por Deus suficientemente importantes para serem registrados em Sua Palavra; e mais de mil anos depois, esses atos foram mencionados por um inspirado apóstolo: 'Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns, não o sabendo, hospedaram anjos.' (Hb 13:2).

O privilégio concedido a Abraão e a Ló, não nos é negado a nós. Mostrando hospitalidade aos filhos de Deus nós, também, podemos receber-Lhe os anjos em nossa morada. Mesmo nos dias atuais, anjos em forma humana entram no lar dos homens e são aí hospedados por eles. E os cristãos que vivem à luz do rosto de Deus estão sempre acompanhados por anjos invisíveis, e esses seres santos deixam após si uma bênção em nosso lar.[2]

Disfarçados como crentes
Satanás usará toda oportunidade para seduzir os homens e desviá-los de sua lealdade a Deus. Ele e os anjos que caíram com ele aparecerão na Terra como homens, procurando enganar. Anjos de Deus também aparecerão como homens, e usarão todos os meios ao seu alcance para frustrar os desígnios do inimigo.

Anjos maus em forma humana falarão com os que conhecem a verdade. Eles interpretarão mal e desvirtuarão as declarações dos mensageiros de Deus. ... Os Adventistas do Sétimo Dia esqueceram a advertência dada no sexto capítulo de Efésios? Estamos empenhados numa peleja contra as hostes das trevas. A menos que sigamos nosso Dirigente bem de perto, Satanás obterá a vitória sobre nós. 

Anjos maus, disfarçados como crentes, atuarão em nossas fileiras para introduzir um forte espírito de descrença. Não permitais que nem mesmo isso vos desanime, mas trazei um coração leal ao socorro do Senhor contra os poderes das agências satânicas. Esses poderes do mal se juntarão em nossas reuniões, não para receber uma bênção, mas para combater as influências do Espírito de Deus.[3]

Entre os ouvintes de Jesus
Misturando-se com os ouvintes [de Jesus], achavam-se anjos sob a forma de homens, fazendo suas sugestões, criticando, interpretando erroneamente e representando falsamente as palavras do Salvador.[4]

Anjos bons e maus
Agentes satânicos sob forma humana tomarão parte neste último grande conflito, para opor-se à edificação do reino de Deus. Anjos celestiais em aparência humana também estarão no campo de ação. Os dois partidos antagônicos prosseguirão existindo até o encerramento do último grande capítulo da história deste mundo.[5]

Manifestações sensacionalistas
Não é difícil para os anjos maus representar tanto os santos como os pecadores que morreram, e tornar essas representações visíveis aos olhos humanos. Essas manifestações serão mais frequentes e aparecerão desenvolvimentos de caráter mais sensacional à medida que nos aproximarmos do fim do tempo.[6]

Encontro na eternidade
Todo remido compreenderá o serviço dos anjos em sua própria vida. Que maravilha será entreter conversa com o anjo que o guardou desde seus primeiros momentos, que lhe vigiou os passos e cobriu a cabeça no dia de perigo, que com ele esteve no vale da sombra da morte, que assinalou o seu lugar de repouso, que foi o primeiro a saudá-lo na manhã da ressurreição, e dele aprender a história da interposição divina na vida individual e da cooperação celeste em toda a obra em prol da humanidade. [7]

Textos de Ellen G. White
[1] Cuidado de Deus, p. 284
[2] Lar Adventista, p. 445
[3] Eventos Finais, pp. 160-161
[4] A Verdade Sobre os Anjos, p. 190
[5] A Verdade Sobre os Anjos, p. 261
[6] Eventos Finais, p. 161
[7] Educação, p. 305