quinta-feira, 12 de outubro de 2023

VENERAÇÃO DE MARIA

O Novo Testamento deixa claro que Jesus foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria quando ela ainda era virgem (Mt 1:18-25; Lc 1:26-56; 2:1-7). Mas a igreja apostólica jamais atribuiu a Maria qualquer função especial junto à comunidade dos crentes. No entanto, várias teorias especulativas a respeito de Maria começaram a se infiltrar no cristianismo pós-apostólico. Justino Mártir, Irineu e Tertuliano sugeriam que, como Eva havia sido a fonte do pecado e da morte, Maria trouxe a bênção da redenção ao mundo. Não demorou muito para que se consolidasse também a noção da perpétua virgindade de Maria.

No Concílio de Éfeso (431), Maria foi declarada “mãe de Deus” (grego Theotokos), o que ajudou a estimular a crescente veneração da Virgem Maria através de cultos e orações a ela dedicados. Mas foi, sem dúvida, a oração da “Ave Maria”, originária do século 11, que mais contribuiu para popularizar essa veneração. Philip Schaff declara que durante a Idade Média “a veneração de Maria degenerou-se gradualmente na adoração de Maria”, a ponto de suplantar a própria “adoração de Cristo”.

A teoria da imortalidade natural da alma proveu o embasamento necessário para abrigar o dogma católico da assunção de Maria. Na Idade Média difundiu-se a crença de que a alma de Maria teria sido levada para o Paraíso logo após a sua morte; mas, quando o seu corpo estava para ser sepultado, Jesus o buscou a fim de ser reunido com a alma dela. Como se isso não bastasse, Maria passou a ser considerada como exercendo a função de mediadora humana junto ao trono de Cristo, através da qual os seres humanos poderiam ter acesso à majestade divina e obter graça especial. Em 8 de dezembro de 1854, o papa Pio IX decretou o dogma da Imaculada Conceição de Maria, sugerindo que ela “foi preservada imune de toda mancha do pecado original”.

A veneração de Maria continua ocupando um lugar central na teologia católica romana. O novo Catecismo da Igreja Católica (publicado em 1992) corrobora a crença: “Cremos que a Santíssima Mãe de Deus, nova Eva, Mãe da Igreja, continua no Céu sua função materna em relação aos membros de Cristo.” E mais: “Esta maternidade de Maria na economia da graça perdura ininterruptamente… Assunta aos céus, não abandonou este múnus salvífico, mas, por sua múltipla intercessão, continua a alcançar-nos os dons da salvação eterna.”

A revista Newsweek de 25 de agosto de 1997 revelou que “um crescente movimento na Igreja Católica Romana” estava sugerindo que o papa aprovasse um novo dogma reconhecendo Maria como co-redentora com Cristo. Naquela ocasião, o papa já havia recebido em apoio a essa proposta “4.340.429 assinaturas de 157 países”, entre as quais constavam as assinaturas de “aproximadamente 500 bispos e 42 cardeais”.

Por mais significativa que a veneração da Virgem Maria tenha se tornado para a Igreja Católica Romana, ela não possui qualquer base bíblica. Jesus mesmo advertiu contra tal postura em Lucas 11:27 e 28: “Ora, aconteceu que, ao dizer Jesus estas palavras, uma mulher, que estava entre a multidão, exclamou e disse-lhe: Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram! Ele, porém, respondeu: Antes, bem-aventurados são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!” Em Lucas 8:21, Cristo acrescenta: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a praticam.”

A teoria da mediação de Maria diante de Cristo a favor dos seres humanos é contrária ao ensino de Cristo de orarmos diretamente ao Pai em Seu nome. Jesus mesmo afirmou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim” (Jo 14:6). “E tudo quanto pedirdes em Meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14:13). E o apóstolo Pedro acrescentou: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (At 4:12).

O próprio dogma da assunção de Maria ao paraíso cai por terra se levarmos em consideração o ensino bíblico de que os mortos permanecem em estado de completa inconsciência na sepultura (ver Sl 115:17; 146:4; Ec 3:19, 20; 9:5, 6 e 10), aguardando o dia da ressurreição final (ver Jo 5:28 e 29; 1Co 15:51-54; 1Ts 4:13-18). Se os justos fossem levados ao céu por ocasião da morte, o apóstolo Pedro jamais poderia ter afirmado no Pentecostes que Davi, um dos heróis da fé, ainda não havia subido “aos Céus” (At 2:29 e 34).

Cremos, por conseguinte, que Maria foi uma pessoa piedosa e temente a Deus; mas, como Davi, ela ainda não se encontra no céu e, como qualquer outra criatura, ela jamais deveria ser venerada (ver Ap 22:8 e 9).

Em todas as denominações cristãs, Maria é reconhecida como uma pessoa especial, escolhida por Deus pela sua vida santa e devotada à prática da religião. Segundo Cáio Fábio D’ Araújo Filho, “a mãe de Jesus é vista nos evangelhos como uma bem-aventurada, eleita pela graça de Deus para a mais sublime de todas as missões que um mortal já recebeu”. Paulo Pinheiro, editor de Sinais dos Tempos, afirma: “Maria, a mãe de Jesus, foi uma pessoa formidável”. Ao escrever o seu Comentário ao Magnificat, Martinho Lutero declarou que “Maria é a mulher mais sublime da Terra”. Ellen G. White apresenta-a como uma fonte de sabedoria e instrução para Jesus, “sua mãe foi-lhe a primeira professora humana” (OC, 19). Para White, “as próprias palavras por Ele [Jesus] ditas a Moisés para Israel, eram-lhe agora ensinadas aos joelhos de Sua mãe” (DTN, 70). Augustin George, professor de Novo Testamento da Faculté Catholique de Théologie de Lyon, França, declara que, “por sua fé, seu amor e sua humildade, [Maria] é a bela flor de seu povo e toda a raça humana”.

Hermes C. Fernandes, conferencista, autor, psicólogo e doutor em Ciência da Religião, disse em sua página do facebook: "Jesus é o único caminho que nos leva a Deus. Maria foi o caminho tomado por Deus para vir ao encontro dos homens. Maria é a representação da humanidade em todas as suas cores, etnias e expressões culturais, que traz ao mundo o Filho de Deus. O desprezo protestante a Maria é uma reação grotesca e exacerbada à devoção que se presta a ela. Deveríamos, antes, optar por uma postura idônea e equilibrada. Amemos a Maria e adoremos o fruto do seu ventre. E ainda que não compreendamos a devoção que lhe é prestada por nossos irmãos católicos, que possamos respeitá-la e buscar considerar o contexto de onde emerge e suas implicações sociais. No fundo, todos somos marianos, pois nos submetemos à instrução que ela deu aos serventes em Caná da Galileia: 'Fazei tudo o que Ele vos disser' (João 2:5)."

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

GOGUE E MAGOGUE

Hoje estudaremos a última profecia do livro de Ezequiel. Uma intrigante mensagem contra Gogue, da terra de Magogue.

Esta profecia está nos capítulos 38 e 39 de Ezequiel e foi feita em torno do ano de 587 a.C. É uma profecia grande – uma das maiores que encontramos em toda a Bíblia. E de difícil compreensão. As afirmações do eminente comentarista Adam Clarke são valiosas: “É reconhecida ser esta a mais difícil profecia no Velho Testamento. Este estudo é difícil para nós porque não conhecemos nem o rei e nem o povo mencionados por ele: mas estou satisfeito porque eram bem conhecidos no tempo em que o profeta escreveu”.

Vamos conferir alguns trechos dessa profecia? “… profetiza contra ela, e dize: Assim diz o Senhor Deus: Eu sou contra ti, ó Gogue, príncipe e chefe de Meseque e de Tubal. Eu te farei voltar, e porei anzóis nos teus queixos, e te levarei a ti, com todo o seu exército. Depois de muitos dias serás visitado. No fim dos anos virás a terra que se recuperou da espada, ao povo que se congregou dentre muitos povos sobre os montes de Israel, que sempre estavam desolados. Aquela terra foi tirada dentre os povos, e todos eles habitarão seguramente” (Ezequiel 38:1,3,4,8).

Sempre é bom lembrar que um profeta dava uma mensagem para as pessoas de seus dias e, outras vezes, apresentava profecias para um futuro a médio ou longo prazo. Disso não podemos nos esquecer. Há também um outro detalhe importante: todas as profecias que dizem respeito a glória futura de Israel e de Jerusalém dependiam – ou estavam condicionadas – à obediência do povo (Jeremias 18:7-10). Após o fracasso de Israel, um novo conceito começou a ser apresentado sobre quem era de fato um israelita. O próprio apóstolo Paulo escreveu: “Porque nem todos os que são de Israel, são israelitas” (Romanos 9:6).

Isto nos dá a entender, que além do Israel literal, há também o que passaremos a chamar de o Israel espiritual. As profecias não cumpridas pelo Israel literal, Deus espera vê-las cumpridas pelo Israel espiritual. Em Apocalipse 20:8, temos uma revelação posterior ao que Ezequiel já havia apresentado. “…e sairá a enganar as nações que estão nos quatro cantos da terra, Gogue e Magogue, cujo numero é como a areia do mar, afim de ajuntá-los para a batalha.”

Precisamos responder algumas perguntas: Quem é Gogue, da terra de Magogue? Que guerra é essa que João menciona no Apocalipse? Quando esta profecia se cumprirá?

Vejamos o que diz o Comentário Bíblico Adventista: "O princípio [para determinar o que é imediato e o que é futuro ou escatológico nesta profecia] pode ser declarado da seguinte forma: as profecias com respeito à glória futura de Israel e de Jerusalém eram primariamente condicionais e dependiam da manutenção da aliança (ver Jr 18:7-10; PR, 704). Elas teriam um cumprimento literal nos séculos subsequentes se Israel tivesse aceitado totalmente os planos de Deus. O fracasso de Israel tornou impossível o cumprimento dessas profecias em seu propósito original. … Ezequiel 38 e 39 teria se cumprido literalmente depois que os judeus retornaram do exílio, caso eles tivessem atendido às condições apresentadas pelos profetas. Pelo fato de eles as haverem recusado persistentemente, a condição de prosperidade aqui retratada nunca se cumpriu. Consequentemente, não pôde haver o ataque combinado dos pagãos contra um povo que habitasse na prosperidade mencionada. A profecia terá uma aplicação futura? … tal aplicação pode ser estabelecida com certeza apenas por uma revelação subsequente. No NT, há apenas uma referência direta aos símbolos usados nesta profecia: Apocalipse 20:8. Nesta passagem, João diz como esta profecia, que teria se cumprido literalmente em época anterior, terá certo grau de cumprimento na luta final contra Deus empreendida pelas hostes dos ímpios, chamadas de Gogue e Magogue. ... Em realidade não há necessidade de encontrar um Gogue nos registros históricos. O mais provável é que Gogue seja um nome ideal empregado por Ezequiel para denominar a ultima força pagã que lançaria um ataque final contra Israel, depois de sua restauração, em um tempo quando os Israelitas estivessem gozando da prosperidade prometida por Deus, como fruto de sua obediência” (p. 773-775).

A Andrews Study Bible diz: "Gogue é um misterioso inimigo de Deus e Seu povo, cuja identidade não é clara, provavelmente de propósito. A predição do ataque e derrota de Gogue e seus aliados, contudo, nunca ocorreu na história, mesmo que possa ter ocorrido de forma parcial em algumas circunstâncias … em Cristo … na Igreja. De acordo com o livro de Apocalipse, esta profecia tem cumprimento específico, tanto ao tempo da Segunda Vinda de Cristo quanto ao final do milênio. Jesus é o vitorioso na última guerra (Ap 17:14) e todo aquele que O escolhe, identifica-se e permanece com Ele, pode compartilhar de Sua vitória".

Em resumo, o que poderíamos dizer sobre Gogue, seria isto. É uma palavra que descreve o último ataque de Satanás contra Israel. É bom lembrar que este ataque não aconteceu até hoje ao Israel literal. Também não se conhece quem poderia ser este Gogue, inimigo de Israel. Mas não podemos esquecer que as profecias que não se cumpriram com o Israel literal, poderão se cumprir com o Israel espiritual.

A melhor interpretação para esta profecia é que as palavras Gogue e Magogue são apenas símbolos para descrever os inimigos que surgiriam contra o Israel literal após a volta do cativeiro babilônico. Se eles fossem fiéis a Deus, os inimigos iriam surgir, mas seriam destruídos por Ele.

E quando se cumpriria esta profecia? Segundo Ezequiel 38:8, isto aconteceria após alguns anos do cativeiro em Babilônia. Ao retornarem, iniciariam um processo de reabilitação, restauração e destruição de todos os inimigos de Israel, pois haviam tomado posse das terras que lhes pertenciam. Esta profecia, porém, nunca se cumpriu. Israel nunca esteve disposto a obedecer a Deus por muito tempo.

E que guerra é esta, mencionada no Apocalipse? A interpretação mais aceita é que as palavras Gogue e Magogue usadas em Apocalipse 20:8 e em Ezequiel são apenas para simbolizar as nações ímpias, a quem Satanás reúne depois do milênio para atacar a Cristo e tentar tomar a Nova Jerusalém. Perceba que em todo o capitulo 38 e 39 de Ezequiel há uma descrição da ultima coalizão de nações pagãs contra o povo de Deus. Segundo o apostolo João, Satanás reunirá todas as suas forças, como a última e desesperada tentativa para atacar a Deus e ao povo dEle. "Vista em seus aspectos mais amplos, a batalha aqui descrita é apenas a culminação da luta milenar entre os poderes do mal e o povo de Deus, e há frequente menção disso em profecias anteriores. A mais antiga vem do jardim do Éden, na maldição pronunciada sobre a serpente. … qualquer sucesso da parte do povo de Deus encontra a mais violenta oposição do adversário" (CBASD, vol. 4, p. 780).

Querido leitor, assim é o mal. Ele nunca desiste. Satanás sabe que foi vencido, quando Cristo morreu na cruz, mas hoje ele se comporta como se fosse o vitorioso. Satanás sempre esteve em oposição a Deus. Foi assim desde o inicio do mundo, e continuou por todos os séculos e milênios. E quando Jesus voltar terceira vez, após o milênio, o diabo fará uma ultima investida contra Deus e os salvos de todos os tempos. Porém será destruído para sempre e Deus implantará, finalmente, um novo céu e uma nova terra. Um novo tempo que jamais passará. "À medida que o conflito se aproxima de seu clímax, os elaborados estratagemas do enganador serão desmascarados, e será revelada a debilidade e falsidade de suas reivindicações. Demônios e homens vão reconhecer que há apenas um que é supremo, e que seu modo de agir no grande conflito visava a promover o bem eterno de Seu povo e do universo em geral (ver GC, 671)" (CBASD, vol. 4, p. 781).

terça-feira, 10 de outubro de 2023

ISRAEL NAS PROFECIAS DO FIM DOS TEMPOS

O povo de Israel é proeminente tanto no Antigo quanto no Novo Testamento bíblico. Escolhido por Deus como o povo da Sua aliança com a humanidade, também é descrito em muitas profecias acerca do tempo do fim. A partir disso, muitas dúvidas surgem sobre a literalidade destas profecias e o real papel de Israel nos últimos dias da história da humanidade. 

Contexto histórico sobre o povo de Israel
Abraão foi chamado por Deus para sair da sua terra, Ur dos Caldeus, na Mesopotâmia, e ir à terra de Canaã, onde daria origem a uma grande nação. Ali ele teve um filho, Isaque, que gerou a Jacó, que ficou conhecido como Israel. Este, por sua vez, teve 12 filhos. Fugindo da fome que assolava aquela terra na época, a família foi para o Egito, onde cresceu e viveu por muito tempo. Ali o povo foi escravizado e depois libertado por Deus, já com mais de dois milhões de pessoas. Então, foi para uma terra - o atual Oriente Médio - e a ocupou e fundou o reino de Israel, inclusive a cidade Jerusalém. Até que a cidade foi invadida e destruída e eles foram levados cativos para Babilônia, onde ficaram cativos por algumas décadas. Depois deste exílio, alguns voltaram para a sua antiga terra, estabelecendo a nação da Judeia, mas outros ficaram em Babilônia, outros fugiram para o Egito. A partir daí começa a dispersão do povo, o que chamamos de diáspora judaica. Já no Novo Testamento encontramos judeus no norte da África, em Roma, na Grécia e em vários outros países. Depois do holocausto, na Segunda Guerra Mundial, muitos judeus que estavam espalhados pelo mundo voltaram e estabeleceram o atual Estado de Israel, em 1948.

O Estado de Israel é culturalmente descendente do Israel da Bíblia?
Sim, porque a maior parte dos judeus foi registrada nas regiões para onde foram como judeus, e até tinham que viver em locais separados. Isso preservou o povo. Claro que também houve pessoas que se converteram ao judaísmo e se integraram ao povo de Israel, mas há uma continuidade garantida. Então, hoje sabemos que o atual Estado de Israel descende daquele povo, que é um dos mais antigos que existem. Desde Abraão, são mais de quatro mil anos de história contínua.

Na Bíblia há alguma referência ao povo de Israel no fim dos tempos?
Há muitas referências a Israel nas profecias sobre o fim dos tempos nos livros de Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Amós, etc., inclusive no Novo Testamento. A pergunta é “como interpretar essas profecias?”

Uma das interpretações mais antigas e tradicionais no meio cristão é chamada de supersessionismo. Ele surge a partir do segundo século da era cristã entre os pais da Igreja. Sua ideia é que Israel, como povo de Deus, falhou rejeitando o Messias. Portanto, Deus rejeitou a nação, e todas as profecias em que ela aparece mostram o que poderia ter acontecido a ela, mas não vai acontecer devido à sua infidelidade. A Igreja cristã, então, toma o seu lugar como um Israel espiritual, composto por gente de todas as nações, e todas aquelas profecias se cumprirão nela dentro de uma batalha espiritual entre o bem e o mal.

Outra visão, também comum entre os evangélicos conservadores ou fundamentalistas, é chamada de dispensacionalismo. Ele considera que a Igreja cristã e Israel são duas realidades separadas. Como a profecia acerca de Israel não pôde se cumprir na antiguidade, se cumprirá no futuro, durante um milênio de paz que haverá na Terra, começando com o arrebatamento secreto. Em algum momento, todos os cristãos fiéis irão desaparecer, levados por Deus para o Céu. Este rapto vai impactar o mundo inteiro, e os judeus irão se converter e evangelizar as outras nações. Jerusalém será a capital do mundo, o templo será reconstruído e todos os povos virão à cidade adorar a Deus. Estas nações guardarão as festas judaicas e seguirão a religião do Antigo Testamento, com a fé em Jesus. Até que, no final deste milênio, aparecerá o anticristo, que é um judeu infiel, que dominará o mundo, destruirá o templo e lutará contra Deus. Por fim, Jesus voltará para pôr fim ao anticristo e estabelecer o seu Reino eterno. Então, o dispensacionalismo parte do pressuposto de que, se Deus fez uma promessa, ela tem de se cumprir de qualquer maneira; e se não foi no passado, será no futuro, de forma literal nesta segunda chance que Deus dará ao povo de Israel.

E há um terceiro grupo, que acredita na chamada teologia das alianças, no qual nós, adventistas, nos encontramos. Nela, toda profecia está ligada à aliança de Deus com o Seu povo. Esta aliança tem elementos de condicionalidade e de incondicionalidade. Por exemplo, em Levítico 26 Deus diz que daria bênçãos ao povo de Israel se este fosse fiel, e traria juízo se fosse infiel. Ou seja, são bênçãos condicionais. Mas o texto segue com Deus dizendo que, mesmo quando o povo tivesse sofrido todos os Seus juízos, Ele nunca o rejeitaria, mas aproveitaria o juízo para trazê-los de volta para perto dEle. Então, vemos aí que nem tudo é condicional e que a misericórdia divina opera.

De um lado temos essas revelações, com elementos de condicionalidade e incondicionalidade, e do outro, as profecias apocalípticas, em especial no livro de Daniel. Essas profecias são dadas em momentos em que o povo de Deus está em dificuldades, sendo perseguido e sem esperança quanto ao futuro, e se pergunta sobre o cumprimento da antiga aliança. A profecia apocalíptica vem como uma resposta divina a essas dúvidas. Elas mostram o que, daquelas revelações dadas aos profetas, vai se cumprir, como e quando. Como elas tinham elementos condicionais, nem tudo se cumprirá, porque Deus respeita as decisões do Seu povo. Mas Ele também não deixará o Seu plano de salvação cair por terra. Ele enviará o Messias, sim, mas para resolver o problema do pecado e trazer salvação para toda a humanidade. Entre a Sua primeira vinda e o final da história humana haverá desolações e guerras, até o momento em que Ele retornará definitivamente para instaurar o Seu reino. Veja que há uma interação entre o livre arbítrio humano, que muitas vezes impossibilita Deus de fazer o que Ele gostaria conosco, e a perseverança e fidelidade divinas em cumprir a essência da Sua promessa de salvação, mesmo que não no tempo em que gostaria.

Qual é o papel do Israel de hoje nas profecias?
Nós temos que manter a perspectiva bíblica acerca de Israel. Há cristãos que acreditam que os judeus estão perdidos por terem rejeitado a Jesus, e há outros que creem que estes estão salvos apenas por serem judeus. Ambas as visões estão erradas. A Bíblia diz que Deus ama a todos os seres humanos, judeus e não judeus. Deus escolheu Israel para uma missão muito clara: ser uma fonte de bênçãos para a humanidade. Por exemplo, a Bíblia que temos hoje foi quase que integralmente escrita por israelitas; foi também pelo povo judeu que veio o Messias; a nossa fé é firmada no Deus de Israel. Então, mesmo com todos os problemas da nação ao longo dos séculos, Israel abençoou, e muito, a humanidade. Temos que reconhecer isto.

Como eu disse, existem profecias bíblicas acerca do povo de Israel no fim dos tempos. Ellen White também comenta que o final do capítulo 11 de Romanos fala sobre Israel nestes últimos dias; que é um mistério de Deus, pois muitos judeus aceitarão a Jesus como o Messias e participarão da etapa final da pregação do Evangelho. Outras passagens, como Oséias 2 e 3, Isaías 10:20, Amós 9:13 a 15 e Zacarias 8, ela também aplica ao povo de Israel no final dos tempos. E há aquilo que ela escreve além das passagens bíblicas. No livro Atos dos Apóstolos há um capítulo chamado A Salvação para os Judeus, em que ela fala sobre esse papel. Outras menções estão no livro Patriarcas e Profetas. Então, sim, Deus conta com o povo de Israel unindo-se à Igreja no fim dos tempos e proclamando o Evangelho.

Então a crença de algumas pessoas de que haverá eventos específicos em Israel, como a volta de Jesus ocorrendo sobre aquela região, não procede, certo?
A Bíblia diz que a volta de Jesus ocorrerá para todo o mundo. Se ela acontecesse apenas em Jerusalém, seria um falso Messias. Talvez a questão seja “se a profecia tem essa universalidade, por que existe o Estado de Israel hoje?” E é interessante ver a própria perspectiva judaica sobre isso. Para o judeu religioso, o Estado de Israel não é o cumprimento da profecia porque esta fala de uma conversão religiosa que ocorreria sob a liderança do Messias, e não foi o que aconteceu. O judeu que não é religioso também rejeita essa ideia porque acredita que o Estado de Israel é fruto do seu trabalho. Mas eu acho interessante a perspectiva de um grande teólogo judeu do século 20, Abraham Heschel; quando perguntado sobre isso, ele diz que “o Estado de Israel não é o cumprimento da profecia, mas está aqui para ajudar a cumprir as profecias”. Se ele existe hoje, é porque Deus o quis.

Por que devemos estudar mais este assunto e que impacto isso tem nas nossas vidas?
Israel é um tema muito importante na Bíblia. Ao estudarmos sobre ele e entendermos as profecias acerca dele, compreendemos as verdades bíblicas e os tempos que estão diante de nós, e podemos seguir com mais segurança. Também, quando vemos todo o amor de Deus por um Israel pecador e infiel, que rejeitou o Messias, temos a certeza de que Ele também nos ama incondicionalmente, e isso acaba nos inspirando a ter esse caráter divino para com as outras pessoas. Israel é a segurança da imutabilidade e perpetuidade do amor de Deus para com o ser humano.

Este texto é um resumo de uma entrevista da Agência Adventista Sul-americana de Notícias (ASN) com o pastor Reinaldo Siqueira, diretor do Seminário de Teologia no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp) - (via Notícias Adventistas)

Assista à Live completa:

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

HAVERÁ PAZ NA TERRA SANTA?

O conflito entre Israel e Palestina, uma das questões mais complexas e persistentes da geopolítica contemporânea, atravessa décadas de tensões e confrontos. Desde o fim do Mandato Britânico na Palestina e a subsequente criação do Estado de Israel em 1948, essa região tem sido palco de conflitos intermináveis e mudanças significativas.

Em meio à marca de 50 anos do início da Guerra do Yom Kippur, também conhecida como a Guerra do Ramadan pelos árabes, um conflito que deixou profundas marcas e moldou a dinâmica regional, é crucial refletir sobre os eventos que continuam a influenciar o presente e o futuro de Israel e da Palestina.

No entanto, a tragédia e a violência permanecem arraigadas na região. No último sábado (7), somos confrontados com notícias de um novo e surpreendente ataque do Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), que lançou uma ofensiva de larga escala contra Israel. Este é um dos ataques mais graves das últimas décadas, resultando em perdas significativas de vidas em ambos os lados. A rápida e intensa escalada deste confronto serve como um sombrio lembrete da instabilidade e da imprevisibilidade que continuam a cercar a região.

É importante ressaltar que ataques a alvos civis são condenáveis, independentemente do lado envolvido no conflito. O Hamas considera a ofensiva militar como uma ação defensiva contra mais de sete décadas de violência, humilhações, genocídios e ações terroristas de Israel contra a população palestina. É fundamental compreender o contexto mais amplo e complexo que envolve esse conflito, no qual ambas as partes têm sofrido perdas e danos significativos ao longo dos anos.

A propalada excelência da segurança de Israel foi desafiada pelo revide do Hamas, que representa uma resposta às décadas de barbárie que a população palestina enfrentou. Essa população tem enfrentado uma série de desafios e adversidades ao longo dos anos, incluindo a perda de terras, restrições de movimento, dificuldades econômicas, escassez de recursos básicos e a constante presença militar israelense em suas vidas cotidianas.

As condições de vida dos palestinos em Gaza, por exemplo, são especialmente precárias, com um bloqueio rigoroso que limita o acesso a alimentos, medicamentos e outros recursos essenciais. Isso, somado à falta de infraestrutura adequada e aos danos causados pelos conflitos anteriores, tornou a vida na região extremamente desafiadora.

A reação de Tel-Aviv ao ataque do Hamas é motivo de preocupação, uma vez que as operações militares frequentemente afetam áreas densamente povoadas, colocando civis em risco. Muitos palestinos e israelenses, incluindo crianças e idosos, sofrem as consequências diretas desses conflitos, enfrentando morte, ferimentos e traumas psicológicos duradouros.

Conflito de origem bíblica
O conflito que se abate entre Israel e Palestina tem origem bíblica. Desde que Ismael nasceu, houve desconforto na casa de Abraão. Desde que Isaque nasceu, depois de Ismael, há conflito entre eles e os povos que deles descenderam.

Reza o Velho Testamento que Abraão recebeu de Deus, por volta dos 75 anos de idade, o chamado para se mudar de mala e cuia para os rincões de Canaã, com a promessa de que seus descendentes dariam origem ali a uma grande nação (Gn 12:1-5). Dez anos depois, porém, já estabelecido na nova terra, o longevo migrante ainda não havia conseguido gerar a tão esperada prole (Gn 15:1-6). Sara, a esposa, o instigou a desposar sua serva, a egípcia Hagar, para fazer valer o desígnio divino – união que produziu o menino Ismael (Gn 16). Ellen G. White diz: "A poligamia se tornara tão espalhada que deixara de ser considerada como pecado; mas nem por isso deixava de ser uma violação da lei de Deus, e era de resultado fatal à santidade e paz na relação da família" (Patriarcas e Profetas, p. 145).

Quando o rapagote completava seu 13º aniversário, Abraão, já com 99 anos, teve outro encontro com Deus, que reiterou a promessa feita anteriormente e garantiu que a posteridade de Abraão sairia das entranhas de Sara (Gn 17:15-19). Dito e feito: no ano seguinte veio ao mundo Isaque, filho do centenário porém fecundo patriarca (Gn 21:1-3).

Na festa de apresentação de Isaac, contudo, Sara viu o primogênito zombando do caçula, e ordenou ao marido que expulsasse Agar e Ismael de seus domínios. A ideia de desterrar o sangue do seu sangue não agradou a Abraão, que apenas levou a cabo a ação por ter a garantia de Deus que seu filho com a escrava também teria um destino fabuloso, iniciando outra grande nação. Assim, fornecendo um pão e um odre de água a Hagar e Ismael, o patriarca mostrou-lhes o caminho da rua logo na manhã seguinte (Gn 21:8-21). Ambos erraram por algum tempo pelo deserto da Bersabéia, até que Ismael se fixou no deserto da Arábia, produzindo doze filhos – as doze tribos ismaelitas, ancestrais do povo árabe (Gn 25:12-18). Do outro lado da família, em Canaã, seu irmão Isaque teve como prole Esaú e Jacó (Gn 25:19-26). Os doze herdeiros deste último (rebatizado mais tarde de Israel) compuseram as doze tribos que deram origem ao povo hebreu (Gn 29, 30 e 35:16-22).

Ellen G. White comenta: "Em seus últimos dias, Ismael arrependeu-se de seus maus caminhos, e voltou ao Deus de seu pai; mas permaneceu o cunho de caráter dado à sua posteridade. A poderosa nação que dele descendera foi um povo turbulento, gentio, que sempre foi um incômodo e aflição aos descendentes de Isaque" (Patriarcas e Profetas, p. 174).

Talvez não se tenha na história humana um conflito de origem familiar tão intenso e extenso quanto esse. Um conflito em que os protagonistas são os filhos de um mesmo homem, temente e fiel a Deus, que escolheram dar as costas aos ensinos ético-morais e espirituais do pai, ao decidirem patrocinar uma vida de ódio cujos resultados insistem em chamar de preço da “guerra santa”.

Nesta maravilhosa meditação via instagram, o pastor Odailson Fonseca reflete sobre o tema:

Isaque e Ismael. Israel e Palestina. Shalom e Salamaleico. Jerusalém e Meca. Tel Aviv e Faixa de Gaza. Quipá e Jihab. Torá e Alcorão. Yom Kippur e Ramadã. Sara e Hagar. Shabat e sexta-feira. Judaísmo e Islamismo. Gênesis 21:12 e 13. Ambas grandes nações. Grandes religiões. Onde tudo começou? Na promessa. Absurdo pensar assim? Nada é simples no tabuleiro mortal destes descendentes das páginas sagradas. ⁣
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As cenas onipresentes nos celulares estampando mulheres arrastadas pelos cabelos, idosos sequestrados, crianças aos gritos e civis massacrados, estarreceram o planeta. Todos empalidecemos assistindo os riscos no céu da Terra Prometida. Ofensiva, defensiva, contra-ofensiva. Mísseis e escudo. Invasões de ambos os lados. Quem começou? Quem reagiu? Pagar o mal com o mal é palavra de ordem na pandemia do pecado. Choro, ódio, saudade, desespero, desrespeito. Tudo está desorientado há séculos por lá. Na verdade, milênios. ⁣
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Do terrorismo à batalha por um pedaço de chão, e da fúria à briga pela primogenitura da benção, a guerra sempre disparará gargalhadas no inferno. Intolerância. Todo mundo perde. Neste momento? Só resta interceder por eles e implorar a vocês:⁣
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Paz! ⁣
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“E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus” (Fp 4:7). Se as três maiores religiões monoteístas do planeta descendem de Abraão, que a pacificação não seja vista como covardia. Se o mundo volta seus olhos em lágrimas aos filhos de Isaque contra os filhos de Ismael, ou vice-versa, que os irmãos de Jesus não joguem mais lenha na fogueira. Nem pólvora no gatilho. Pois há um Novo Testamento depois do Velho Testamento. Houve uma cruz no Moriá. O véu rasgou. Foi consumado. E se a verdadeira paz de Deus só está em Cristo? Façamos nossa parte sangrando junto com todos. Eles e nós. ⁣
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Será uma dor sem fim? Não. Errado. Haverá paz na Terra Santa quando a Cidade Santa “preparada como uma noiva adornada para o seu marido” (Ap 21:2) finalmente descer pondo fim em absolutamente tudo o que o pecado machucou. Ali a eterna promessa a Abraão se cumprirá. Filhos serão irmãos.⁣
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E Genesis 1 e 2 finalmente reencontrará Apocalipse 21 e 22. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

O ALTO CLAMOR

“Ouvi outra voz do céu, dizendo: Retirai-vos dela, povo Meu, para não serdes cúmplices em seus pecados e para não participardes dos seus flagelos” (Ap 18:4).

Hoje vamos descobrir o que é o alto clamor, a mensagem e o tempo, quando será proclamada e o segredo para nos tornarmos vitoriosos.

O que é o alto clamor
Dentre as mais belas provas do atletismo está a corrida de revezamento 4 por 100 metros. Essa é uma prova que requer extrema habilidade, esforço e prática. Cada um dos quatro atletas, de acordo com suas melhores características, percorre 100 metros, recebendo o bastão de seu antecessor e passando-o ao próximo. O atleta que possui maior velocidade e capacidade muscular fica sempre no último posto, pois é ele quem dá a arrancada final, buscando levar a equipe à vitória.

No livro do Apocalipse encontramos a figura de quatro anjos que se sucedem na proclamação da última mensagem de advertência ao mundo. O primeiro anjo de Apocalipse 14 proclama a hora do julgamento divino. O segundo anuncia a queda espiritual de Babilônia. O terceiro adverte contra o evangelho forjado de Babilônia. Finalmente, o quarto anjo, de Apocalipse 18, ao unir-se à obra da mensagem do terceiro anjo, levará a pregação do evangelho à sua conclusão. Isto ocorrerá quando essa mensagem tomar o volume de um alto clamor.

Essa experiência do alto clamor tornará possível ao povo de Deus cruzar a linha de chegada em sua jornada espiritual. Será a última mensagem antes das cenas da retribuição divina, a qual marcará a linha de transição deste mundo para o Reino de Cristo. Da resposta a essa mensagem dependerá a vitória final ou perdição eterna. Portanto, este assunto deve absorver toda a nossa atenção.

O conteúdo da mensagem e o tempo da proclamação
O centro da mensagem do anjo de Apocalipse 18 é o último chamado para o povo de Deus que ainda se acha em Babilônia, antes do fechamento da porta da graça. Mas o que Babilônia representa? Babilônia significa confusão. No relato de Gênesis 11, temos sua origem com a construção da torre de Babel. Nessa ocasião, os homens, em profunda corrupção e apostasia, se levantaram em oposição aberta contra Deus. E assim, por toda a Bíblia, Babilônia é sinônimo de um poder político-religioso que se contrapõe a Deus e a Seu povo.

Esse mesmo espírito de rebelião foi demonstrado primeiramente no Céu, por Satanás, quando este se opôs abertamente à lei de Deus – um reflexo de Seu caráter justo e bom. Na Idade Média, Babilônia mística voltou seu ataque contra o sábado, o sinal de lealdade a Deus.

"[A observância do domingo é uma] prática que se originou com Roma, e que ela alega como sinal de sua autoridade. É o espírito do papado – espírito de conformidade com os costumes mundanos, com a veneração das tradições humanas acima dos mandamentos de Deus – que está embebendo as igrejas protestantes e levando-as a fazer a mesma obra de exaltação do domingo, a qual antes delas fez o papado" (O Grande Conflito, p. 573).

"Pouco sabem os protestantes do que estão fazendo ao se proporem aceitar o auxílio de Roma na obra da exaltação do domingo. Enquanto se aplicam à realização de seu propósito, Roma está visando a restabelecer o seu poder, para recuperar a supremacia perdida. [...] O mundo protestante saberá quais são realmente os propósitos de Roma, apenas quando for demasiado tarde para escapar da cilada" (Ibid., p. 581).

Como podemos perceber, Babilônia tem oferecido seu cálice de abominações e imundícias, e muitos têm aceitado e se embriagado com suas doutrinas apóstatas. Babilônia é também representada por uma prostituta vestida de escarlate, simbolizando a depravação moral e religiosa apresentada pelo mundo hoje. É-nos dito que, ao se afunilar a história da Terra, “o professar religião se tornará um manto para ocultar a mais vil iniquidade. A crença nas manifestações espiritualistas abre a porta aos espíritos enganadores e doutrinas de demônios, e assim a influência dos anjos maus será sentida nas igrejas. [...] Babilônia [...] encheu a medida de sua culpa, e a destruição está a ponto de cair sobre ela” (O Grande Conflito, p. 604).

Neste tempo que se chama hoje, temos que acordar de nossa letargia espiritual. Nós que conhecemos e amamos a verdade precisamos ser a voz profética de Deus. É o momento para aqueles a quem Ele concedeu a luz da verdade vivenciarem a experiência do alto clamor. O Espírito Santo está pronto a nos outorgar o poder, de modo que seja dada a última mensagem de advertência e esperança àqueles que perecem no erro.

"Deus ainda tem um povo em Babilônia; e, antes de sobrevirem Seus juízos, esses fiéis devem ser chamados a sair, para que não sejam participantes dos seus pecados e não incorram nas suas pragas. Esta é a razão de ser o movimento simbolizado pelo anjo descendo do Céu, iluminando a Terra com sua glória, e clamando fortemente com grande voz, anunciando os pecados de Babilônia. [...] Ouve-se a chamada: “Sai dela, povo Meu.” Estes anúncios, [...] constituem a advertência final a ser dada aos habitantes da Terra" (Ibid., p. 604).

Da mesma forma que Deus ainda tem os Seus em Babilônia, infelizmente, Babilônia tem os seus na igreja. É preciso entender que, acima de tudo, Babilônia reflete uma condição espiritual. Sair de Babilônia não significa simplesmente sair de um determinado grupo religioso que se opõe à verdade bíblica. Qualquer um que conhece a verdade, mas de forma obstinada vive em contradição com ela, se encontra espiritualmente em Babilônia. Da mesma forma, muitos nas igrejas apóstatas que compõem a Babilônia mística virão para se unir ao remanescente de Deus. E muitos de entre nossas fileiras irão se apostatar, tornando-se até mesmo os piores inimigos da verdade.

Como ser vitorioso no alto clamor
Um dos principais problemas que podem acometer um filho de Deus é a cegueira espiritual. Precisamos do colírio do Espírito Santo a fim de vermos nossa real condição. Sentar num banco de igreja não faz de ninguém um cristão. É preciso nos sujeitarmos inteiramente a Deus para que sejamos transformados por Seu Espírito.

"A mensagem do terceiro anjo está se avolumando num alto clamor, e não deveis sentir-vos na liberdade de negligenciar o dever presente, e ainda entreter a idéia de que em algum tempo futuro sereis recipientes de grande bênção, quando, sem nenhum esforço de vossa parte tiver lugar maravilhoso reavivamento. Hoje deveis entregar-vos a Deus, para que Ele vos torne vasos para honra, e aptos para Seu serviço. Hoje deveis entregar-vos a Deus para que sejais esvaziados do próprio eu, esvaziados de inveja, ciúmes, ruins suspeitas, pelejas, tudo quanto seja desonroso para Ele. Hoje deveis ter purificado vosso vaso a fim de estar prontos para o orvalho celeste, prontos para os aguaceiros da chuva Serôdia; pois a chuva Serôdia virá, e a bênção de Deus encherá toda alma que estiver purificada de toda contaminação. É nossa obra hoje entregar nossa alma a Cristo, para estarmos preparados para o tempo de refrigério pela presença do Senhor – preparados para o batismo do Espírito Santo" (Mensagens Escolhidas, v. 1, pp. 190, 191).

O preparo hoje é fundamental para recebimento do poder de Deus, para vencermos a hoste da maldade em todas as suas manifestações. “Sujeitai-vos, portanto, a Deus”. Este é nosso primeiro dever. Então resistiremos ao diabo e ele fugirá de nós (Tg 4:7). Aqueles que assim procederem receberão o poder do Espírito Santo. E, como consequência, estes “servos de Deus, com o rosto iluminado e a resplandecer de santa consagração, apressar-se-ão de um lugar para o outro para proclamar a mensagem do Céu. Por milhares de vozes em toda a extensão da terra, será dada a advertência. Operar-se-ão prodígios, os doentes serão curados, e sinais e maravilhas seguirão aos crentes” (O Grande Conflito, p. 612). “O derramamento do Espírito Santo no dia de Pentecostes foi a chuva Temporã; porém a chuva Serôdia será mais copiosa” (Parábolas de Jesus, p. 121). É a chuva Serôdia que qualificará a igreja a levar o testemunho no alto clamor e permanecer firme durante o último tempo de angústia.

"O Senhor operará por meio de humildes instrumentos, dirigindo a mente dos que se consagram ao Seu serviço. Os obreiros serão antes qualificados pela unção de Seu Espírito do que pelo preparo das instituições de ensino. Homens de fé e oração serão constrangidos a sair com zelo santo, declarando as palavras que Deus lhes dá. Os pecados de Babilônia serão revelados. [...] O povo será comovido" (O Grande Conflito, p. 606).

O alto clamor será o clímax da manifestação do Espírito Santo para a igreja, o auge da proclamação do Evangelho pouco antes do fechamento da porta da graça. É um enfrentamento direto para resgatar os últimos fiéis em Babilônia.

Coletiva e individualmente temos que buscar o poder do alto. “Satanás procura constantemente lançar sua sombra infernal sobre estas mensagens, para que o povo remanescente de Deus não discirna claramente sua importância – seu tempo e lugar” (Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 405). O derramamento do Espírito Santo é a nossa mais urgente necessidade. Esta experiência levará ao alto clamor e, conseqüentemente, a pregação do evangelho será concluída.

Conta-se que durante a Guerra Civil Americana uma moça se misturou entre as tropas do norte. A única arma que levava na mão, se é que se pode chamar isso de arma, era um pequeno atiçador, usado para revolver as brasas do fogareiro. Quando terminou a decisiva batalha de Gettysburg, os militares lhe perguntaram: “O que você tencionava fazer com um atiçador contra os soldados do sul?” E sua resposta foi: “Nada! Só queria mostrar de que lado estava.” Nos últimos eventos da história deste mundo só haverá dois grupos de pessoas. De que lado você estará?

Em oração e meditação, leia mais esta declaração da palavra profética: "Sobre nós repousa a pesada responsabilidade de advertir o mundo de sua condenação iminente. De todas as direções, de perto e de longe, vêm pedidos de ajuda. Deus convida Sua igreja a despertar, e revestir-se de poder. Há imortais coroas a ser ganhas; há o reino do Céu a ser alcançado; há o mundo, perecendo na ignorância, a ser iluminado" (Testemunhos Para a Igreja, v. 7, p. 16).

Guarde em seu coração
Esta mensagem se encerrará com um poder muito maior do que aquele visto nos dias apostólicos. “Servos de Deus, dotados de poder do alto, com rosto iluminado e resplandecendo com santa consagração, saíram para proclamar a mensagem provinda do Céu” (Primeiros Escritos, pp. 278, 279).

"Muitos estavam louvando a Deus. Os enfermos eram curados, e outros milagres eram realizados. Viu-se um espírito de intercessão tal como se manifestou antes do grande dia de Pentecostes. Viam-se centenas e milhares visitando famílias e abrindo perante elas a Palavra de Deus. Os corações eram convencidos pelo poder do Espírito Santo, e manifestava-se um espírito de genuína conversão. Portas se abriam por toda parte para a proclamação da verdade. O mundo parecia iluminado pela influência celestial" (Conselhos Sobre Saúde, p. 580).

Lembre-se: Hoje você é livre para escolher seguir a programação de Cristo em Sua Palavra ou seguir o programa do inimigo, fora da Palavra. Porém, pense e considere: Você não é livre para escolher as consequências de sua decisão.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

ZUMBIS ESPIRITUAIS

"Ao anjo da igreja de Sardes escreva o seguinte: Esta é a mensagem daquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas. Eu sei o que vocês estão fazendo. Vocês dizem que estão vivos, mas, de fato, estão mortos. Acordem e fortaleçam aquilo que ainda está vivo, antes que morra completamente; pois sei que o que vocês fizeram não está ainda de acordo com aquilo que o meu Deus exige. Portanto, lembrem do que aprenderam e ouviram. Obedeçam e se arrependam. Se não acordarem, eu os atacarei de surpresa, como um ladrão, e vocês não ficarão sabendo nem mesmo a hora da minha vinda. Mas alguns de vocês de Sardes têm conservado limpas as suas roupas. Vocês andarão comigo vestidos de roupas brancas, pois merecem esta honra. Aqueles que conseguirem a vitória serão vestidos de branco, e eu não tirarei o nome dessas pessoas do Livro da Vida. Eu declararei abertamente, na presença do meu Pai e dos seus anjos, que elas pertencem a mim. Portanto, se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam o que o Espírito de Deus diz às igrejas” (Apocalipse 3:1-6).

O terror é formado por diferentes vertentes e subgêneros, e uma das mais famosas é, sem dúvidas, a dos zumbis. Desde o início do século 20, os mortos-vivos têm espaço garantido nos cinemas, na TV e em várias outras mídias. A popularidade das criaturas também costuma oscilar bastante, sempre entre a popularidade e a saturação - talvez até morta ocasionalmente, mas nunca enterrada de vez.

Mas o que seria um zumbi? Segundo o wikipédia, zumbi ou zombie é uma criatura cujo estereótipo se define, nos livros e na cultura popular, como um cadáver reanimado usualmente de hábitos noturnos, que vive a perambular e a agir de forma estranha e instintiva; um morto-vivo; um ser privado de vontade própria, sem personalidade.

A igreja de Sardes orgulhava-se de sua produção de lã e tinturaria. Era o centro de adoração à deusa Cibele (deusa da religião de mistérios cuja imoralidade e degeneração eram notáveis), apesar de haver alguns naquela igreja que ainda permaneciam fiéis a Deus, retendo a fé e a vida piedosa como princípios fundamentais de sua religião. A maioria esmagadora estava insensível à espiritualidade, ao compromisso cristão. A falta de dedicação era notável. O ponto de apoio espiritual dos cristãos de Sardes era o inicio glorioso daquela igreja. Porém o Senhor conhecia as suas obras: "Eu sei o que vocês estão fazendo. Vocês dizem que estão vivos, mas, de fato, estão mortos". Essa igreja era apática, sem vida e sem amor. Tinha aparência, mas carecia de poder. 

Que é uma igreja morta? Que é um cristão que ‘está morto’? Os membros da Igreja em Sardes tinham a reputação de que estavam espiritualmente vivos, mas não possuíam fé viva. Consequentemente, suas obras não podiam ser aceitas por Deus. A igreja de Sardes tornara-se indolente e letárgica, manifestando alarmante satisfação consigo mesma – uma forma de morte espiritual. Cristo não vivia mais no coração dos membros; sua fé era morta, e suas obras eram obras mortas, que Cristo não podia aceitar.

Estaria Deus falando a uma igreja de zumbis?

Na Martinica e no Haiti, zumbi poderia ser um termo geral para descrever um espírito ou um fantasma – qualquer presença perturbadora que assumiria uma miríade de formas à noite. Mas gradualmente foi se espalhando a crença de que feiticeiros poderiam fazer suas vítimas parecerem mortas – através de magia, hipnose ou até uma poção secreta – e aí reavivá-los para servir como seus escravos particulares. O zumbi, de fato, é o resultado lógico de ser um escravo: alguém sem vontade própria, sem nome e preso em uma espécie de morte em vida.

O que Cristo veio propor à humanidade? Segundo o apostolo Paulo, o cristão é alguém que morreu para o mundo e agora vive para Deus.

"Antigamente, por terem desobedecido a Deus e por terem cometido pecados, vocês estavam espiritualmente mortos. Naquele tempo vocês seguiam o mau caminho deste mundo e faziam a vontade daquele que governa os poderes espirituais do espaço, o espírito que agora controla os que desobedecem a Deus. De fato, todos nós éramos como eles e vivíamos de acordo com a nossa natureza humana, fazendo o que o nosso corpo e a nossa mente queriam. Assim, porque somos seres humanos como os outros, nós também estávamos destinados a sofrer o castigo de Deus. Mas a misericórdia de Deus é muito grande, e o seu amor por nós é tanto, que, quando estávamos espiritualmente mortos por causa da nossa desobediência, ele nos trouxe para a vida que temos em união com Cristo. Pela graça de Deus vocês são salvos. Por estarmos unidos com Cristo Jesus, Deus nos ressuscitou com ele para reinarmos com ele no mundo celestial. Deus fez isso para mostrar, em todos os tempos do futuro, a imensa grandeza da sua graça, que é nossa por meio do amor que ele nos mostrou por meio de Cristo Jesus. Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus. A salvação não é o resultado dos esforços de vocês; portanto, ninguém pode se orgulhar de tê-la. Pois foi Deus quem nos fez o que somos agora; em nossa união com Cristo Jesus, ele nos criou para que fizéssemos as boas obras que ele já havia preparado para nós" (Efésios 2:1-10).

Cristo também tornou possível que todo filho de Adão pudesse, por uma vida de obediência, vencer o pecado e ressurgir também da sepultura, para receber sua herança de imortalidade adquirida pelo sangue de Cristo. Cristo fez reparação da culpa de todo o mundo, e todos os que se chegarem a Deus com fé, receberão a justiça de Cristo, que levou “Ele mesmo em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas Suas feridas fostes sarados” (1 Pedro 2:24).

E quais os sintomas de uma igreja morta? Simples, ela deixou de fazer as coisas que a igreja viva faz. A igreja viva guarda os mandamentos de Deus e tem fé em Jesus (Apocalipse 14:12). A igreja viva ama perdidamente o ser humano (João 13:35). A igreja viva é uma comunidade de conforto, consolo, estímulo, ânimo e paciência (1 Tessalonicenses 5:14).

Em Lucas 12:42-46 Jesus nos apresenta a um mau servo, que perde de vista o espírito de vigilância, a noção de que seu senhor voltará de sua viagem ao estrangeiro a qualquer momento. Ele começa a espancar os seus conservos. Ele é um morto se alimentando da carne dos vivos, ferindo os vivos, tornando-os mortos como ele, mortos à sua imagem e semelhança.

Será que justamente quando acreditamos estar vivendo mais é que vamos concluir que nós somos os mortos? Será que a realidade é distante demais da nossa expectativa?

Ellen G. White declara: "Muitos que complacentemente ouvem as verdades da Palavra de Deus estão mortos espiritualmente, embora professem estar vivos. Por anos têm eles ido e vindo em nossas congregações, mas parecem cada vez menos sensíveis ao valor da verdade revelada. Não estão famintos e sedentos de justiça. Não sentem o menor prazer nas coisas espirituais. Concordam com a verdade, mas não são santificados por ela. Nem a Palavra de Deus nem os testemunhos de Seu Espírito fazem qualquer impressão definitiva sobre eles" (Testemunhos para a Igreja 5, p. 76).

Em Ezequiel 37:5 eu leio estas palavras: "Diga que eu, o SENHOR Deus, estou lhes dizendo isto: Eu porei respiração dentro de vocês e os farei viver de novo”. Quem ouvir viverá. Quem ouvir a palavra do Deus vivo deixará de ser um morto. Guardará os mandamentos, exercitará fé, amará e cuidará dos que estão ao redor. Quem ouvir, viverá.

E aqui vale uma análise: o que temos sido? Cristãos verdadeiros ou apenas zumbis espirituais?

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

A ÚLTIMA BOLACHA DO PACOTE

Que importância temos na vida de alguém? Que lugar nos tem sido reservado? Como nos sentimos ao sermos preteridos?

Jesus havia sido convidado para visitar a casa de um dos principais dos fariseus e percebeu entre os demais convidados, uma disputa pelos primeiros lugares. Não querendo desperdiçar a oportunidade de dar-lhes uma lição, contou-lhes duas parábolas. Na primeira parábola, Jesus se dirige aos convidados, na segunda, Ele adverte aos que convidam. Sobra para todo mundo.

Observe a advertência feita aos que são convidados:

“Quando alguém o convidar para um banquete de casamento, não ocupe o lugar de honra, pois pode ser que tenha sido convidado alguém de maior honra do que você. Se for assim, aquele que convidou os dois virá e lhe dirá: ‘Dê o lugar a este’. Então, humilhado, você precisará ocupar o lugar menos importante. Mas quando você for convidado, ocupe o lugar menos importante, de forma que, quando vier aquele que o convidou, diga-lhe: ‘Amigo, passe para um lugar mais importante’. Então você será honrado na presença de todos os convidados. Pois todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado” (Lucas 14:7-11).

O que está em foco aqui não é propriamente o tal “lugar de honra”, mas o fato de nos darmos tanta importância. Sempre haverá alguém mais importante do que nós, e quem estabelece isso é quem nos inclui em sua lista de convidados. Não há como exigir que tenhamos a importância almejada na vida de ninguém. Cada um tem seus critérios na hora de averiguar o valor de alguém. Todavia, no que depender de nós, seremos sempre os mais importantes, os que merecem tratamento VIP.

Ainda que tenhamos alguma importância, certamente haverá quem tenha importância maior. Por isso, Jesus nos adverte a sermos menos presunçosos, ocupando lugares de menos prestígio na festa para a qual houvermos sido convidados. É melhor que sejamos chamados a darmos um UPGRADE, ocupando um lugar de honra que não tenhamos ousado ocupar, do que sermos convidados a ceder o lugar a alguém considerado mais importante.

A tão cobiçada honra não deveria ser atribuída a quem dela faz questão, mas a quem jamais a pretendeu receber. Que ela seja tão somente o resultado da importância que alcançamos na vida de alguém por aquilo que representamos e não uma mera exigência. Quer ser importante na vida de alguém? Ocupe um lugar de serviço sem pretender ser honrado. Não busque reconhecimento. Apenas, ame.

Agora observe atentamente a advertência que Jesus dirige ao dono da festa:

“Então Jesus disse ao que o tinha convidado: "Quando você der um banquete ou jantar, não convide seus amigos, irmãos ou parentes, nem seus vizinhos ricos; se o fizer, eles poderão também, por sua vez, convidá-lo, e assim você será recompensado. Mas, quando der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos, e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na ressurreição dos justos” (Lucas 14:12-14).

Jesus não está proibindo que se convide quem quer que seja. A lógica subjacente à orientação de Jesus diz respeito à motivação por trás do convite.

Qual a diferença entre convidar vizinhos ricos e convidar os pobres para a sua festa? Ambos não vão consumir da mesma maneira? Talvez o rico pareça ter bons modos, respeitando todas as regras de etiqueta. O pobre, por sua vez, talvez não conheça tais normas. Talvez nem saiba vestir-se adequadamente para a ocasião. Mas o que Jesus pretendia não era nos impedir de convidar a quem quer que fosse, mas expor as motivações com que estabelecemos quem deve ou não ser convidado. Quais, afinal, os critérios que usamos para estabelecer o grau de importância de alguém em nossa vida? Por que alguns são incluídos, enquanto outros, excluídos de nossa lista?

Quando convidamos um rico, sabemos que eventualmente seremos convidados de volta, e assim, a importância que lhe atribuímos, ser-nos-á atribuída depois. Convidá-lo, coloca-nos na posição de credores, de benfeitores, ao passo que o coloca numa posição de devedor e beneficiário. Já o pobre, não terá como nos retribuir. Sua dívida de gratidão jamais poderá ser paga. Aqui subjaz a questão ressaltada por Jesus.

A natureza humana parece tão eticamente corrompida que até algo lindo como a gratidão se torna num mecanismo de controle. Não há sensação que nos seja mais prazerosa do que a de que alguém nos deva um favor. E assim, ocupamos, na marra, um lugar de prestígio na vida do outro.

Por isso, adotamos o costume de agradecer o favor com a expressão “obrigado”.

Já parou para pensar no significado desta expressão? Ao dizer “obrigado” você está admitindo ter contraído uma dívida com quem lhe favoreceu. A expressão completa seria “Estou obrigado a retribuir-lhe o favor.”

Em vez disso, o que o evangelho nos propõe é uma relação onde não se busque qualquer vantagem. Não há lugar para contabilidade. Ninguém deve nada a quem quer que seja. Tudo deve ser feito graciosamente. Por isso, em vez de “obrigado”, deveríamos dizer “agradecido”. Só é agradecido quem admite ter sido agraciado. O que está em foco é a graça, isto é, uma favor imerecido, em que não se tenha a pretensão de cobrar.

Quem vive sob a égide da graça é capaz de desobrigar a todos quantos tenham sido agraciados por sua vida. Ninguém nos deve coisa alguma. A lógica do "uma mão lava a outra" é substituída pela lógica do "não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita."

E um ótimo exercício para isso é fazer o que Jesus nos propõe nessa parábola. Convidemos justamente quem não nos possa retribuir o convite. Façamos o bem a quem não possa nos recompensar mais tarde. Sejamos despretensiosos. Que nossa recompensa seja tão-somente o bem daquele a quem amamos.

Isso é libertador! Nossa gratidão passa a ser legítima, posto que é espontânea, não cobrada. Nossos gestos de amor passam a ser gratuitos como deveriam ser e não uma maneira de nos locupletar, dando-nos o direito de exigir retribuição. Passamos a amar por amar. Desistimos de impor qualquer compensação.

Hermes C. Fernandes (via facebook)