terça-feira, 20 de setembro de 2022

EVENTOS FINAIS

Algo que fascina e intriga qualquer estudante da Bíblia são as profecias, principalmente aquelas que ainda estão por se cumprir. Como adventistas, temos uma visão muito ampla dos acontecimentos finais da história. Tão ampla que, às vezes, nos perdemos em meio ao grande volume de informações.

Para não se confundir, você encontra a seguir uma visão panorâmica dos eventos que antecederão a segunda vinda de Cristo. A sequência não é rígida, mas procura seguir a ordem mais lógica e natural dos acontecimentos mencionados na Bíblia e nos escritos de Ellen G. White. Momentos difíceis nos aguardam no futuro, mas a felicidade de estar com Jesus compensará tudo.

1. REAVIVAMENTO E REFORMA
Significa a completa mudança de mentalidade, hábitos e práticas entre o povo de Deus. Requisito para a chuva serôdia, só ocorrerá por meio de verdadeira conversão (Jl 2:12; 13, 23, 28, 29).

2. CHUVA SERÔDIA 
Concessão especial do poder do Espírito Santo, é semelhante à experiência do Pentecostes (Jl 2:23, 28-31; At 2) e indispensável para a conclusão da missão. Requer profunda consagração (Jl 2:12, 13, 15-17).

3. ALTO CLAMOR
Como resultado da chuva serôdia, a igreja desperta e se envolve intensamente na pregação global do evangelho eterno (Ap 14:6-12; 18:1), dando oportunidade para cada ser humano decidir sobre a própria salvação (Mt 24:14; Mc 16:15).

4. SACUDIDURA
A mornidão espiritual, as falsas doutrinas, a crise final e a perseguição gerada pelo decreto dominical vão "peneirar" o povo de Deus. O "trigo" permanece na igreja enquanto o "joio" sai dela e se une aos perseguidores (Am 9:9; Mt 13:24-30).

5. SELAMENTO
Conduzido pelo Espírito Santo, esse processo se inicia na conversão e termina com a morte do crente ou o fim do juízo pré-advento (Ef 1:13; 4:30). O selo invisível, que prepara a pessoa para o tempo da angústia (Ap 7:2 3), confirma que ela pertence a Deus e é fiel à Sua lei (Is 8:16; Ez 20:20).

6. DECRETO DOMINICAL E PERSEGUIÇÃO
A união do poder religioso (papado) com o político (Estados Unidos) resultará na imposição por lei da guarda do domingo (Ap 13). Os guardadores da lei de Deus serão perseguidos e terão que fugir das grandes cidades.

7. ENGANOS SATÂNICOS
O inimigo concentrará seus maiores esforços nos últimos dias, usando principalmente o espiritismo e o protestantismo desvirtuado. Porém, o clímax do engano ocorrerá no tempo de angústia, quando ele imitará os milagres e o retorno de Cristo (2Co 11:14; Mt 24:23-27).

8. TEMPO DE ANGÚSTIA PRÉVIO
Breve período, possivelmente entre o decreto dominical e o fechamento da porta da graça, quando tribulações deixarão o mundo perplexo (Lc 21:25, 26; Ellen G. White - Primeiros Escritos, p. 85, 86).

9. FIM DO TEMPO DA GRAÇA
Quando Cristo concluir o juízo pré-advento no Céu, os salvos terão sido selados na Terra e o destino eterno de cada ser humano estará definido (Ap 22:11). O Espírito Santo deixará de atuar no coração dos ímpios e começará o tempo de angústia e o derramamento das pragas.

10. TEMPO DE ANGÚSTIA E AS SETE PRAGAS
Depois de terminada a intercessão no Céu (Ap 15:5-8), haverá um período de aflição sem precedentes (Dn 12:1), em que os anjos não mais conterão a fúria dos homens, da natureza e do mal (Ap 7:1-3). As sete pragas castigarão apenas os ímpios. Com exceção, talvez, da sexta e sétima pragas, esses flagelos não terão alcance global (Ap 16).

11. DECRETO DE MORTE
Os ímpios culparão o povo de Deus pelas pragas. Os fiéis serão perseguidos com o apoio de um decreto de morte promulgado pela coalizão entre as duas bestas de Apocalipse 13.

12. ANGÚSTIA DE JACÓ
Com a perseguição batendo à porta, o povo de Deus passará por um breve período de intensa angústia, assim como Jacó (Gn 32:22-32; Jr 30:7). Eles clamarão pela certeza do perdão dos pecados e por livramento da perseguição. Deus estará com eles.

13. ARMAGEDOM
É a última batalha entre o bem e o mal, que incluirá aspectos políticos, militares e religiosos. Terá alcance global e ocorrerá entre a sexta e a sétima pragas (Ap 16:12-16). Cristo e seu povo triunfarão (Ap 19:11-21).

14. LIVRAMENTO
A sétima praga inclui relâmpagos, trovões, um terremoto gigantesco, chuva de granizo e outros fenômenos cataclísmicos (Ap 16:17-21). Colocará fim à perseguição e culminará com o juízo de Deus contra a Babilônia mística e a ressurreição especial dos que precisam testemunhar a volta de Cristo (Dn 12:2; Ap 1:7).

15. SEGUNDA VINDA DE CRISTO
Ela será visível, audível e gloriosa. Jesus virá numa nuvem branca acompanhado de todos os seus anjos (Mt 24:30; Ap 1:7) para ressuscitar os justos mortos, transformar os justos vivos (1Co 15:51, 52), fulminar os ímpios (2Ts 2:8) e levar os salvos para o Céu (1Ts 4:16, 17). Lá eles passarão mil anos (Ap 20:4), e retornarão com Cristo à Terra para testemunhar a destruição de pecado e pecadores (Ap 20:5; 7-15) e a restauração do planeta, no qual irão morar eternamente (Ap 21:1-4).

Fontes: O Grande Conflito e Eventos Finais, de Ellen G. White; e Preparação para a Crise Final (CPB, 2011), de Fernando Chaij 

Edição do texto: Eduardo Rueda (via Revista Adventista)

Ilustração: Phil McKay - The Three Angels

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O CRISTIANISMO QUE JESUS NÃO ENSINOU

O cristianismo é a religião da graça, do amor e da paz. Uma das grandes diferenças entre a fé cristã e outras religiões é que o nosso Deus não é uma besta-fera sedenta por sangue, ansiosa por punir, salivando por castigar quem se desvia um milímetro dos seus preceitos. Muito pelo contrário: o evangelho de Jesus Cristo foca em perdão, restauração, reconstrução, bênçãos sem merecimento, graça. É a proposta do filho pródigo, do bom Pastor, do 70 vezes 7, do Cordeiro de Deus que estende uma graça que não é barata, mas que nunca deixa de ser vigorosa graça.
Logo, é totalmente incompatível com essa fé que qualquer cristão defenda ou pratique a violência, a agressividade, o ódio – seja no que faz, seja no que fala, seja no que escreve. Qualquer cristão que proponha como primeiro recurso com relação a pessoas que agem ou pensam de modo diferente revidar, agredir, ironizar e retaliar, em vez de usar um tom gentil e de conduzir quem incorre no erro para a restauração… simplesmente não entende o evangelho. Afinal, é o evangelho de Jesus Cristo de Nazaré que nos dá o mandamento:
“O servo do Senhor não deve viver brigando, mas ser amável com todos, apto a ensinar e paciente. Instrua com mansidão aqueles que se opõem, na esperança de que Deus os leve ao arrependimento e, assim, conheçam a verdade. Então voltarão ao perfeito juízo e escaparão da armadilha do diabo, que os prendeu para fazerem o que ele quer” (2Tm 2.24‭-‬26).
A sensação que tenho com frequência é que ser cristão, no entendimento de muitos, deixou de ser amar a Deus e ao próximo para defender Deus com fúria e detonar o próximo que pensa diferente ou que faz algo de que discordamos.
Tenho observado muito os meus irmãos em Cristo, em especial pelas redes sociais. E tenho ficado boquiaberto e triste com o jeito de que uma multidão deles se expressa, age e, principalmente, reage a quem discorda deles ou faz algo com que não concordam. Em nome da “defesa da fé”, muitos se comportam de um modo que nada tem a ver com a nossa fé: com agressividade. Sarcasmo. Raiva. Parece que, se o ódio é destilado “em nome de Jesus”, é válido agir como um bruto, um bárbaro, um ser humano desagradável. E quem age com equilíbrio e argumentos é chamado pelos que odeiam de “em cima do muro”.
O que mais me espanta é que, sempre que você diz que essa forma de comportamento não condiz com o evangelho, o argumento bíblico é o mesmo: o episódio de Jesus no templo derrubando as mesas dos cambistas e vendilhões. Já ouvi isso montes de vezes. Parece que todo cristão que se exprime com agressividade se justifica dizendo que Jesus se irou e saiu derrubando a mercadoria dos vendilhões do templo; logo, teríamos sinal verde para atacar com fúria quem age ou crê diferente de nós. Isso é um erro monumental.
A hermenêutica bíblica, isto é, as regras que nos ensinam a ler e compreender as Escrituras, tem uma norma  básica: você não pode construir uma doutrina ou formular um princípio de fé a partir de uma passagem isolada da Bíblia. É preciso analisar todas as passagens do texto bíblico que falem sobre o assunto, a fim de entender o todo. Assim, pegar o episódio dos vendilhões do templo como argumento teológico que tente justificar a agressividade é uma falha bizarra, que só gera comportamentos anticristãos.
Sim, Jesus expulsou os vendilhões. Mas será que por causa disso Deus nos dá carta branca para sair chutando e açoitando quem diverge de nós? A Bíblia apresenta uma enxurrada de passagens que respondem isso com um enfático não.
Vamos analisar algumas dessas passagens, muitas delas palavras saídas dos lábios do próprio Cristo, para compreender exatamente o que o evangelho propõe como padrão de relacionamento – inclusive com inimigos e pessoas que não necessariamente concordam ou caminham conosco:
“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9).
“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt 5.21-22).
“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes” (Mt 5.38-42).
“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo?” (Mt 5.43-47).
“Por que vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, quando tens a trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão” (Mt 7.3-5).
“Abençoai os que vos perseguem, abençoai e não amaldiçoeis. […] Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12.14-18).
“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.19-21).
“Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente” (1Pe 1.22).
“Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros” (Jo 15.17).
“Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34-35).
“Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor. Porque toda a lei se cumpre em um só preceito, a saber: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos” (Gl 5.13-15).
“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor” (Ef 4.1-2).
“Porque a mensagem que ouvistes desde o princípio é esta: que nos amemos uns aos outros; não segundo Caim, que era do Maligno e assassinou a seu irmão […] Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte. Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino; ora, vós sabeis que todo assassino não tem a vida eterna permanente em si” (1Jo 3.11-15).
“Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. […] Amados, se Deus de tal maneira nos amou, devemos nós também amar uns aos outros. Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado” (1Jo 4.7-12).
“Nós amamos porque ele nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora, temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão” (1Jo 4.19-21).
E por aí vai. Como dá para ver com muita clareza pela enorme quantidade de passagens bíblicas sobre o assunto, a proposta é da paz, da conciliação, do trato amoroso com as diferenças e com os diferentes. Usar Jesus com os vendilhões para tentar validar um comportamento horrível é uma aberração.
Um argumento que muitos usam para justificar sua forma ofensiva e agressiva de se comportar, falar e escrever é que a ira divina contra o pecado e o erro nos daria permissão para sermos odiosos na hora de “defender a fé” ou se opor a quem de nós discorda.
Sobre isso, importa lembrarmos de algo: embora Deus seja o nosso exemplo, nós não somos Deus. Ele pode fazer o que bem entender; nós não. Ele é o autor e o dono da vida: nós não. Deus tem todo o direito, por exemplo, de acabar com a vida de uma pessoa, mas, se nós fizermos isso, nos tornamos assassinos e quebramos um dos Dez Mandamentos.
Isto é muito importante: Deus fazer algo não nos dá o direito de fazer a mesma coisa. Se ele manifesta e tem todo o direito de manifestar a sua justa ira, o que ele nos diz é que a ira humana é uma das obras da carne (Gl 5.20), a ponto de pôr um prazo para quando nos iramos: “Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo” (Ef 4.25-27).
A proposta é clara: “O insensato expande toda a sua ira, mas o sábio afinal lha reprime” (Pv 29.11). Vou repetir: “O insensato expande toda a sua ira, mas o sábio afinal lha reprime”. Mais uma vez: “O insensato expande toda a sua ira, mas o sábio afinal lha reprime”. Portanto, não, a ira de Deus não nos dá o direito de agirmos com ira e acharmos isso bíblico. Pois não é.
Esse princípio se reafirma a todo tempo nas Escrituras. O evangelho jamais nos dá o direito de agirmos como Deus age. Veja o caso da vingança. Se, por um lado, há inúmeras passagens que falam sobre a vingança divina, a ordem para nós é: “não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.19).
Assim, vemos que não se pode justificar um comportamento humano pelo fato de o Pai ou o Filho terem agido deste ou daquele modo. É preciso saber identificar o que Deus faz e que devemos tomar como exemplo e o que Ele faz porque é prerrogativa exclusiva dEle fazer. Se não soubermos separar uma coisa da outra, tomaremos para nós atitudes que não nos cabem ter e viveremos de modo que o evangelho não nos dá sinal verde para viver.
Chega de agressividade. Chega desse argumento maligno de que “posso ser impetuoso (para não dizer grosseiro, agressivo) porque Jesus derrubou as mesas dos cambistas”. Chega dessa igreja irada, raivosa, odiosa, trevosa. Estou exausto de ver agressões “em nome de Jesus” e gente supostamente defendendo a fé usando palavras e um tom que da nossa fé não têm nem o cheiro. 

Em grande parte, temos sido tão agressivos como o mundo e, com isso, nos igualamos a Ele. Deixamos de brilhar. Deixamos de salgar. E sal que não salga “Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens” (Mt 5.13).
Quem erra deve ser conduzido pacificamente ao acerto e não jogado sadicamente na fogueira dos hereges (para não dizer no inferno). Fomos chamados para restaurar, disciplinar com mansidão e discipular… e não para detonar! Fico arrasado por ver gente defender o evangelho achando que isso deve ser feito jogando no lixo o mandamento de amar o próximo.
Amar o diferente está fora de moda. Falamos muito sobre a graça, mas a praticamos pouco, muito pouco, muito, muito pouco. E não estou falando de amor bobinho nem de graça barata, mas de amor maduro, sólido, o tipo que levou Jesus a subir à cruz por pessoas odiosas como eu e você. Tomamos para nós atitudes que só cabem a Deus. Reproduzimos, “em nome de Jesus”, atitudes essencialmente diabólicas e mundanas. E isso está errado. Está errado.
Eu não quero compactuar com o pseudoevangelho da chibata e do chicote. O açoite que deveria nos interessar não é o que Jesus usou contra os vendilhões, é o que Ele recebeu em suas costas.
Discordar é natural e lícito, ninguém é obrigado a pensar igual; o xis da questão é como se discorda. O discordante não é meu inimigo, é meu objetivo. A proclamação das boas-novas de Cristo me faz ver o discordante e aquele que considero estar no erro não como canalhas e inimigos, mas como necessitados, carentes, gente que ainda não enxergou a luz. Porque eu já fui assim um dia. E aqueles que penso estarem errados só verão a luz se virem em mim amor, graça, misericórdia, perdão, sacrifício, entrega, abnegação, paz, mansidão… Cristo, enfim.
O ódio de religiosos judeus que queriam “defender a sua fé” levou Jesus à cruz, mas foi o amor de Deus pelos perdidos que o levou à ressurreição. Que enorme tristeza é ver que muitos cristãos bem-intencionados não entendem isso, com arrogância se recusam a entender e, portanto, não compreendem nem põem em prática a graça, preferindo o discurso da chibata e um falso cristianismo que “defende Deus” com afiadas espadas verbais. Não aguento mais tanto ódio vindo daqueles que foram salvos pelo Amor com a finalidade de amar. Bem predisse Jesus que, no final dos tempos, “Devido ao aumento da maldade, o amor de muitos esfriará” (Mt 27.12).
O amor de multidões de cristãos já esfriou, dando lugar ao que eles chamam de “ira santa” e que de santa não tem nada. Defendem um deus que eu não conheço, que precisa de “defensores” para levantar sua bandeira com ira e agressividade. Desses, creio eu, o evangelho não precisa.
Creio que Deus busca aqueles que, com amor transbordante, partem em busca dos inimigos, dos perdidos, dos desencaminhados e dos equivocados, com amor e graça, com o objetivo de conduzi-los amorosamente a Jesus: o bom e manso Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. “Pois é da vontade de Deus que, praticando o bem, vocês silenciem a ignorância dos insensatos” (1Pe 2.15).
Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari (via Apenas)

"Deus é a personificação da benevolência, misericórdia e amor. Os que se acham verdadeiramente ligados a Ele não podem estar em divergência, uns com os outros. Seu Espírito reinando no coração, criará harmonia, amor e união. O contrário disto se vê entre os filhos de Satanás. É sua obra provocar inveja, discórdia e ciúme. Em nome de meu Senhor eu pergunto aos professos seguidores de Cristo: Que frutos produzis? O poder da graça de Deus fará mais em favor da alma do que as polêmicas farão em toda uma vida. Pelo poder da verdade, quantas coisas poderiam ser ajustadas, e velhas controvérsias encontrar quietude na adoção de maneiras melhores. Diferenças de opinião sempre existirão, pois nem todas as mentes são constituídas de modo a fluir no mesmo conduto. As tendências hereditárias e as cultivadas têm de ser guardadas, para que não criem controvérsias sobre assuntos de pouca importância. Os obreiros de Cristo devem achegar-se uns aos outros em terna simpatia e amor" (Ellen G. White - Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, pp. 497-505).

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

EM QUE CANDIDATO JESUS VOTARIA?

Em 16 dias, 156 milhões de eleitores brasileiros irão às urnas para o primeiro turno das eleições com o objetivo de escolher, entre outras funções, o próximo presidente da República. No total, são 11 candidatos ao Planalto. Entre os principais nomes, estão Lula (PT), Jair Bolsonaro (PL), Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB), que comandam as pesquisas de intenção de voto. Além do presidente, os eleitores também vão escolher governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais/distritais.

Num ambiente democrático, o cristão também precisa manifestar sua posição, e deve deixar que seus princípios o conduzam, a fim de honrar a Deus com sua decisão. E a Bíblia é o guia do cristão para as decisões de sua vida. Jesus Cristo é apresentado nela como um exemplo a ser imitado (Ef 5:1; Fp 2:5-9; Hb 12:2, 3). Quem busca cumprir a vontade de Deus consulta as santas Escrituras a fim de encontrar nelas orientação adequada e exemplos para imitação. Para muitas decisões, a Bíblia dá o esclarecimento necessário. Mas, para outras questões, ela aparentemente não tem nada a declarar. Mesmo com respeito àquilo que a Palavra de Deus silencia, o cristão pode dela extrair, com a ajuda do Espírito Santo, princípios e sabedoria para todas as escolhas da vida.

Em que candidato Jesus votaria? Se Ele é o modelo, Seu procedimento deve ser exemplo para tudo. E por que não para as preferências eleitorais?

Em 1896, o pastor norte-americano Charles M. Sheldon, da Igreja Congregacional, publicou o livro Em seus passos o que faria Jesus? Nele, Sheldon inventa a história de uma congregação cristã cujos membros procuram, durante um ano, viver o desafio de tomar cada atitude como resposta à pergunta que intitula o livro. Na história criada por Sheldon, os cristãos votam, nas eleições municipais, a favor de candidatos que estampam princípios cristãos e defendem valores morais, que, no contexto da época, abrangia a defesa da proibição do comércio de bebidas alcoólicas e dos jogos de azar.

Na obra, Sheldon tentou responder a uma pergunta difícil. Os personagens de seu livro presumiram os critérios que Jesus teria usado para definir seu voto. Essa é uma preocupação válida para o cristão. No entanto, Jesus Cristo viveu em um momento histórico em que o sistema democrático não existia na forma como o conhecemos hoje. Nascido no auge do Império Romano (Lc 2:1), Jesus viveu sua vida terrena sem ter que votar como nós.

No entanto, em um aspecto Cristo votou. Ele elegeu pessoas, não para cargos públicos, mas para o Reino dos Céus! Ele escolheu doze homens para serem seus apóstolos (Lc 6:13) e para que se assentassem em tronos a fim de serem juízes celestiais (Mt 19:28). Designou mais setenta para que fossem de dois em dois e o precedessem nas cidades aonde ia (Lc 10:1). Mas, acima de tudo, deu o voto que é suficiente para eleger qualquer pecador indigno à condição de herdeiro do Reino de Deus (Ap 21:7).

Jesus votaria em candidatos corruptos? É exigida honestidade e integridade perfeitas para se candidatar ao Reino de Deus (1Co 6:9, 10). No entanto, até mesmo o mais corrompido pecador pode ter a “ficha limpa”, se for lavado, santificado e justificado por Jesus e pelo Espírito Santo (1Co 6:11).

Foi assim que pelo menos dois funcionários públicos com histórico de corrupção, Levi Mateus (Mt 9:9) e Zaqueu (Lc 19:1-10), foram eleitos por Jesus para o Reino. Semelhantemente, Paulo, o “principal dos pecadores” (1Tm 1:15), um homem que esteve envolvido com a prática de tortura, além de prisões e execuções claramente injustas (At 8:3; 26:10, 11), foi “constituído ministro” das coisas que Deus lhe revelou (At 26:16).

Cristo não hesita em confiar os mais importantes cargos de Seu Reino a pessoas com um passado sujo. Pelo contrário, Ele expressou sua preferência por pecadores (Mc 2:17). Discursando aos pretensiosos fariseus, que se julgavam dignos de se assentarem nas mais importantes posições do governo de Deus (Mt 23:2), Jesus revelou que pessoas de moral duvidosa precederiam muito candidato honesto no Reino dos Céus (Mt 21:31).

Com seu voto, Jesus quer eleger pessoas que, apesar de seu passado, defeitos e falhas, aceitam ser transformadas por Deus. Ele disse: “Vocês não me escolheram, mas eu os escolhi para irem e darem fruto, fruto que permaneça, a fim de que o Pai lhes conceda o que pedirem em meu nome” (Jo 15:16, NVI).

Quando Cristo regressar, os eleitos pelo voto de Cristo assumirão um cargo mais elevado que o dos anjos (1Co 6:3): eles se assentarão ao lado de Cristo, em seu próprio trono (Ap 3:21), e “reinarão” com Cristo (Ap 20:6).

Em qual candidato Jesus vai votar nessas eleições?

Ele talvez não tenha muito o que manifestar sobre a política deste mundo, mas para o Reino dos Céus Ele deseja eleger pecadores como você e eu.

Ellen G. White diz: "Eleita é toda alma que opera a sua própria salvação com temor e tremor. É eleito aquele que cingir a armadura, e combater o bom combate da fé. É eleito quem vigiar e orar, quem examinar as Escrituras, e fugir da tentação. Eleito é aquele que continuamente tiver fé, e que for obediente a toda a palavra que sai da boca de Deus. As providências tomadas para a redenção, são franqueadas a todos; os resultados da redenção serão desfrutados por aqueles que satisfizeram as condições" (A Maravilhosa Graça de Deus, p. 354).

Adaptado de texto de Fernando Dias (via Revista Adventista)

terça-feira, 13 de setembro de 2022

PODE!

Você pode conversar com Deus quando quiser. Pode sentir Ele perto e interessado pela sua vida. Suas noites mal dormidas podem encontrar alento em Sua companhia. Porque você “pode tudo nAquele que lhe fortalece” (Fp 4:13).⁣⁣

Você pode ir onde preferir e, de preferência, se Ele puder ir também. Pode curtir, gargalhar e conhecer lugares incríveis. Você pode sair com amigos e construir amizades verdadeiras que durem todos os seus dias. Também pode ter histórias extraordinárias para contar.⁣
Você pode encontrar alguém que divida os dias ao seu lado - noites também. E pode ter uma família linda fundamentada em valores e virtudes excepcionais capazes de protegerem, fortalecerem e ampliarem os horizontes da felicidade. Além disso, pode celebrar a esperança com outras famílias vivendo a experiência do maior lar que chamamos igreja.⁣
Você pode ser feliz. “Deleite-se no Senhor,⁣ e Ele atenderá aos desejos do seu coração” (Sl 37:4). Quer coisa melhor do que isso? “Feliz é aquele que confia no Senhor” (Pv 16:20). Ou seja, é permitido totalmente ao seu coração encontrar paz, alegria, satisfação, prazer e amor - muito amor. “Como é feliz o homem constante no temor do Senhor!” (Pv 28:14). Fico extasiado em testemunhar o quanto a Bíblia fala de garantias e promessas carregadas de “sins”!⁣
Você pode fazer do esporte um palco de testemunho; pode tornar o ambiente de trabalho um portal de honestidade; pode pescar coisas boas nas redes sociais; e pode cuidar do seu corpo com a nutrição mais saudável que existe. Ah, pode fazer das suas finanças uma renúncia de si reconhecendo que Deus é Dono de tudo. E pode ser mais grato pelo que tem.⁣
Já entendeu, né? Você pode. Pode muito. Inclusive, pode olhar mais para o que pode e curtir a companhia de Cristo com milhões de permissões. Princípios. O Céu deseja que você possa pra sempre. Isso é mais importante no Reino do Amor. Pois Deus nos deu o espírito “de poder, amor e equilíbrio” (2Tm 1:7). ⁣
Finalmente, existe uma palavra que sumiu deste texto. Descobriu? É pra você ter certeza que a vida com Jesus pode ser resumida no que pode. E esta é a melhor expressão da religião, do cristianismo e da redenção:⁣
o SIM.⁣
Pr. Odailson Fonseca (via Instagram)

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

DEUS ESTÁ NO CONTROLE

"É Deus quem põe os reis no poder e os derruba" (Daniel 2:21).

Em mais do que uma ocasião, vi crentes duvidarem se Deus está verdadeiramente no controle deste mundo. Ellen G. White diz: "Nos anais da história humana o crescimento das nações, o levantamento e queda de impérios, aparecem como dependendo da vontade e façanhas do homem. O desenvolver dos acontecimentos em grande parte parece determinar-se por seu poder, ambição ou capricho. Na Palavra de Deus, porém, afasta-se a cortina, e contemplamos ao fundo, em cima, e em toda a marcha e contramarcha dos interesses, poderio e paixões humanas, a força de um Ser todo misericordioso, a executar, silenciosamente, pacientemente, os conselhos de Sua própria vontade. A Bíblia revela a verdadeira filosofia da História. [...] O poder exercido por todo governante sobre a Terra, é-lhe comunicado pelo Céu; e depende seu êxito do uso que fizer do poder que assim lhe é concedido. [...] Reconhecer a operação destes princípios na manifestação do Seu poder que 'remove os reis e estabelece os reis' corresponde a entender a filosofia da História" (Educação, pp. 173-175).

Assim, o Deus da Bíblia está tão estreitamente associado à Sua obra que não se pode passar os olhos sobre a história do mundo sem relembrar ao mesmo tempo a história da própria providência divina. Não existe nada tão bem estabelecido como a finalidade providencial para a qual a Humanidade se encaminha. A filosofia providencialista da História ensina-nos que a existência humana tem uma razão de ser, que Deus governa a História e que o Seu objetivo será realizado. Os planos divinos são-nos revelados na Bíblia, a qual não é outra coisa senão o relato dos atos sucessivos de Deus na Terra, atos esses que conduzem ao ato redentor da encarnação e culminam no estabelecimento do Seu reino.

Ellen White afirma: "Conquanto as nações rejeitassem os princípios de Deus, e com esta rejeição operassem a sua própria ruína, todavia era manifesto que o predominante propósito divino estava agindo através de todos os seus movimentos" (Educação, p. 177).

Este sentido escondido da História permite-nos descobrir com esperança que, apesar do mau uso que os homens fazem frequentemente da liberdade e das oportunidades que Deus nos dá, o leme desta nave está nas mãos do Pai celestial, que faz de cada ser humano, criado à Sua imagem, o objeto da Sua solicitude, do Seu amor e providência.

Ellen G. White conclui: "A história das nações que, uma após outra, têm ocupado seus destinados tempos e lugares, testemunhando inconscientemente da verdade da qual elas próprias desconheciam o sentido, fala a nós. A cada nação, a cada indivíduo de hoje, tem Deus designado um lugar no Seu grande plano. Homens e nações estão sendo hoje medidos pelo prumo que se acha na mão dAquele que não comete erro. Todos estão pela sua própria escolha decidindo o seu destino, e Deus está governando acima de tudo para o cumprimento de Seu propósito" (Educação, p. 178).

Hoje convido-te a reconhecer que há um Deus nos Céus que está no controle deste planeta. As Suas promessas são seguras. Decide ser-Lhe fiel.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

JESUS POLITICAMENTE INCORRETO

Parece que Jesus está sempre na contramão dos nossos métodos. Sua atitude é sempre “politicamente incorreta”, contrariando aquilo que nós esperaríamos. Ele nunca “dourou a pílula” para seduzir, persuadir ou aliciar pessoas. Os que desejam segui-Lo, devem, de forma consciente e voluntária, tomar a cruz, símbolo de morte e crucifixão do eu.

Ao morrer, com grande brado, Jesus proclamou que Sua missão estava consumada. Em apenas três anos e meio, Ele realizou a maior obra de resgate do Universo. E, surpreendentemente, nós nunca O encontramos apressado ou afobado. Nas narrativas dos Evangelhos, Cristo Se move com extraordinária majestade e compostura. Ele Se move com extraordinário controle do tempo e das circunstâncias. Frequentemente Ele detém o Seu caminho, oferecendo-Se para curar e ouvir pessoas necessitadas. Nunca importante demais, nunca “graduado”, nunca afetado ou “superior”, para o contato com aqueles que O buscam: cegos, aleijados, enfermos, leprosos, pessoas possessas, mulheres e crianças, todos estes marginalizados dentro do sistema social e religioso dos judeus.

O método de que Jesus usou para cumprir Sua missão foi inovador e revolucionário. Ele não usou a propaganda para criar sentimento público positivo ou para Se promover. Não estabeleceu um exército para impor Suas ideias. Ele cumpriu o propósito de Sua visita ao planeta Terra sem depender de força, organizações, cultura, educação ou reforma. Dependeu apenas de um elemento intangível chamado “verdade”. Sua única credencial era Ele próprio.

Seus ensinos e Sua ética são verdadeiros paradoxos para nós: “Os primeiros serão os últimos”; “os mansos herdarão a terra”; “vivemos quando morremos”; “bem aventurados os pobres”; “grande é aquele que serve”. Nos ensinamentos de Jesus, a pirâmide do poder se encontra invertida, uma vez que, para a maioria de nós, os grandes são aqueles que se assentam no topo do poder, usualmente obtendo-o e conservando-o por manobras fisiologistas e esquemas políticos cujo objetivo é a imposição de sua vontade aos outros. Jesus viveu e ensinou algo diferente. Grande é aquele que coloca o seu ombro na base da pirâmide, para ajudar servir e ministrar aos mais fracos. Que rei se deixaria crucificar por seu povo? Os reis e todos aqueles que são dominados pela sedução do poder sacrificam os seus súditos. Que tipo de rei lavaria os pés dos seus servos, como fez Jesus? Que governante livremente se associaria com os mais humildes membros da sociedade? Pessoas em posição de poder secular ou religioso geralmente mantêm a mística da liderança, que, na compreensão deles, significa manter-se afastado daqueles a quem governam. A noção secular de grandeza parece impor a tais líderes o afastamento, a distância. E os conselheiros que normalmente eles escolhem os tornam duplamente cegos. Jesus não exibiu nenhuma dessas características exteriores do poder.

Aproximou-Se dos pobres e humildes. Partilhou de refeições com eles. No Evangelho de Lucas várias vezes O encontramos à mesa com os menos prováveis. Não é de surpreender que isso tenha escandalizado a muitos (Lucas 15:1). Jesus partiu o pão (berit) com os “déclassès”, símbolo de aceitação e do concerto que Ele veio estabelecer com aqueles que O recebem. Conversou com aqueles com quem ninguém falava. Tocou os intocáveis, alienados e marginalizados dos Seus dias. Reis, presidentes e governantes se cercam de toda sorte de servidores, prontos a atender às suas ordens e caprichos, mas Jesus não partilhou dessa mentalidade. Ele não tinha trono. Não tinha servos, mas amigos (João 15:15). Afirmou que a liderança verdadeira tem por base a amizade e o amor voluntário. Significativamente, no episódio em que João Batista mandou Lhe perguntar se era o Messias (Lucas 7:18-22), a credencial por Ele apresentada foi o serviço em favor dos necessitados.

A vida e a pessoa de Cristo, bem como Seu estilo paradoxal, são irresistíveis. Qualquer um que conversasse com Ele, saía coçando a cabeça, consideravelmente perturbado por Sua lógica desafiadora e perspectiva das coisas. Na maioria das vezes, os evangelhos O retratam fazendo em Seu ministério precisamente o oposto do que esperaríamos.

Em Seu encontro noturno com Nicodemos, registrado no Evangelho de João, Ele o surpreendeu ao desfazer com um só golpe todo o castelo da teologia farisaica desse importante líder judaico. Jesus não exibiu diante de Nicodemos aquela atitude de servilismo tão comum quando se tratava com pessoas importantes. Ele o tratou como um descrente, com uma necessidade fundamental, e exigiu dele o inesperado: “Você precisa nascer de novo” (ver João 3:7). O velho fariseu inicialmente se apresenta como “sabendo” (João 3:2), mas a partir do verso 4 começa a revelar sua ignorância, e do verso 10 em diante já está em completo silêncio, sendo Jesus quem realmente sabe (João 3:11).

No capítulo 4 desse mesmo Evangelho, Cristo tem Seu encontro com a mulher samaritana, uma figura ao mesmo tempo antiga e atual. No início da narrativa, é ela quem tem a água, e Jesus, quem tem a sede (João 4:7). No final, a mesa se inverte e é Jesus quem tem a água, e ela, a sede (João 4:13-14). Que mestre é esse?

Considere mais uma vez o Seu nascimento: numa manjedoura, um lugar completamente inadequado para o nascimento de um rei. Não merecia Ele algo melhor? Às vezes considero que se Cristo tivesse me consultado, eu poderia ter-lhe sugerido que fizesse uso do Seu poder, estalando os dedos e criando um hospital equipado com uma ala ultramoderna de obstetrícia. Mas Ele não me consultou, e nasceu em uma estrebaria. Ele poderia ter nascido em um grande centro, aumentado com isso a habilidade de as pessoas de se lembrarem dele. Mas, ao contrário, Ele escolheu a obscura Belém. Com isso, Ele evitou que as pessoas se intimidassem por causa de Seu local de nascimento. Fosse Ele cercado de realeza e sofisticação, isso afastaria milhões de seres humanos de Sua presença. E isso era precisamente o que Ele não queria! Observe os Seus pais. Ele escolheu nascer como um “bastardo”, marcado com o estigma da concepção fora do casamento. Se você quisesse ser reconhecido como Deus, certamente não escolheria esse tipo de origens. Entretanto, devido justamente a isso, milhões de pessoas humildes no mundo podem se aproximar dEle sem serem intimidadas.

A venerada pureza de sangue da tradição judaica foi completamente desconsiderada. Sua linha de ancestrais foi comprometida por Rute, a moabita, e por Raabe, uma cananita de baixa reputação. As pessoas em geral se orgulham de ancestrais importantes, tal como Adolph Hitler, que buscou criar a ideia de uma raça pura, formada pelos dolicocéfalos louros. Orgulho de pedigree, da força genética de ancestrais, é uma fantasia muito forte no imaginário popular. Mas esse surpreendente Jesus descartou a linhagem imaculada a fim de não intimidar a maioria das pessoas, que não pode se apresentar como o produto final de uma super-raça.

Em linguagem atual, Jesus seria um commoner, na tradição britânica de distinção de classe. Em harmonia com isso, veja ainda quem testemunha o Seu nascimento. Ele passa sobre o Templo, o Sinédrio e todas as celebridades da época, para Se anunciar a alguns pastores, pessoas não apenas simples, mas consideradas como de má reputação no judaísmo da época. Em uma palavra, Cristo não Se deixou enganar pela psicologia popular do sucesso, qualquer que fosse a área da vida. Aquilo que a maioria de nós consideramos tão importante, Ele afastou e descartou como desnecessárias, provando quão errados estamos com nossas superficialidades e deslumbramentos patéticos.

Jesus sempre viu as pessoas por um ângulo inteiramente diferente. Se Ele me tivesse consultado, provavelmente eu não aprovaria nenhum dos discípulos que Ele escolheu. Em Seu pequeno grupo, Ele reuniu um zelote (parte de um grupo de revolucionários radicais contra a presença romana), e um publicano (cobrador de impostos a serviço de Roma), uma combinação perigosíssima, com baixo ponto de ebulição. Mas isso torna evidente o profundo apelo de Cristo às pessoas, Seu magnetismo sobre elas, habilitando-as a conviver e superar as diferenças. Provavelmente eu teria demitido Pedro em sua primeira semana de trabalho, pois a vida dele indica que certamente sofria de várias disfunções psicológicas. Sua impulsividade certamente diminuía sua utilidade em, pelo menos, cinquenta por cento. Contudo, Jesus, além de o manter entre os doze, ainda lhe dá certa preeminência no grupo.

Sabe o que Jesus está dizendo a cada um de nós com esse grupo pouco encorajador? Ele está dizendo: “Se Eu posso trabalhar com estes, Eu posso trabalhar com você também”. Que encorajamento extraordinário! Na escolha dos Seus associados, Jesus não trabalhou com os critérios das grandes corporações, e não utilizou as normas de seleção das consultorias. Seu critério de escolha de pessoas está no limite de qualquer lógica, mas isso é absolutamente compatível com a Sua visão singular. O Seu grupo de associados seria motivo de riso para qualquer departamento de Recursos Humanos moderno. Um verdadeiro constrangimento. Mas, afinal, Jesus estava certo. Com esse grupo aparentemente pouco promissor transformado e habilitado (veja o Livro de Atos), Ele revolucionou o mundo. Com uma única exceção (Judas), todos se tornaram dispostos a assumir as últimas consequências do Seu compromisso com Ele.

Jesus escolhe a rota que só Ele mesmo pode entender. Sua abordagem é sempre não ameaçadora e não manipuladora. Sua estratégia está sempre na contramão dos nossos métodos. A partir do Seu tipo de critério, todos podem ter afinidade com Ele. Ele pode Se aproximar de nós, certo de que nossa resposta será honesta. Ele não utiliza nenhum método que coage as pessoas, porque Ele não aceita qualquer coisa menos que fé e dedicação genuínas. Aliás, o amor requer e aceita apenas resposta genuína. Em Seu estilo revolucionário, Jesus recusa qualquer forma de manipulação. E, devemos lembrar, a principal característica da manipulação é que ela destrói nossa habilidade de escolha.

Em geral nós tomamos pouquíssimas decisões autênticas na vida. A maioria de nossas escolhas são afetadas por forças e demandas exteriores. Mas quando nos aproximamos de Cristo, a mais importante decisão da vida, Ele busca e aceita apenas resposta autêntica. E quando Ele vem a nós, Sua abordagem desconcerta nossos preconceitos e nos liberta para tomar decisões profundamente autênticas. Nós podemos aceitá-Lo ou rejeitá-Lo, mas Ele Se recusa a violar nossa individualidade, o nosso poder de escolha. E isso é amor em sua melhor expressão, e, de fato, em sua única expressão verdadeira.

Amin Rodor (via O Incomparável Jesus Cristo, p. 108)

terça-feira, 6 de setembro de 2022

A VERDADEIRA LIBERDADE

Poucas palavras evocam sentimentos tão positivos como “liberdade”. De poetas a publicitários, de filósofos a políticos, de escravos a libertários, todos apelam para o conceito, embora nem sempre entendam ou vivam a verdadeira liberdade. Dependendo do momento histórico, esse tema ganha ainda mais relevância. Hoje se fala muito em liberdade, mas ela corre risco.

A Bíblia menciona frequentemente esse tópico. Por exemplo, ela diz que devemos escolher os caminhos da vida e não da morte (Dt 30:19); o Espírito do Senhor ungiu Jesus para proclamar a liberdade (Lc 4:18); a verdade e o Filho libertam (Jo 8:32, 36); onde está o Espírito está a liberdade (2Co 3:17); “tudo” é permitido, mas nem tudo convém (1Co 6:12); devemos viver como pessoas livres, mas não podemos abusar da liberdade e usá-la para o mal (Gl 5:13; 1Pe 2:16).

A ideia bíblica de liberdade, portanto, não é no sentido de uma licença para agir como quiser. Como ensina uma antiga ilustração, o trem é livre enquanto permanece no trilho. Se ele sair do trilho, ganha certa “liberdade” superficial, mas perde a verdadeira liberdade para ir, vir e cumprir seu propósito. O mesmo acontece com as pessoas que saem dos “trilhos”. Liberdade não é o direito de fazer o que é errado, mas ter a opção de fazer o que é certo.

Ellen G. White diz: "Verdadeira liberdade e independência são encontradas no serviço de Deus. Este serviço não imporá sobre vós nenhuma restrição que não aumente a vossa felicidade. Acedendo aos Seus reclamos, encontrareis tal paz, contentamento e prazer que nunca poderíeis desfrutar na vereda de desenfreada licenciosidade e pecado. Estudai então devidamente a natureza da liberdade que desejais. É ela a liberdade dos filhos de Deus, para serem livres em Cristo Jesus? Ou chamais liberdade à condescendência egoísta com paixões baixas? Tal liberdade conduz ao mais penoso remorso; é a escravidão mais cruel" (Fundamentos da Educação Cristã, p. 88).

Muitas pessoas querem ser livres, mas não aceitam se submeter a Deus. Não existe liberdade sem estar ligado a Cristo. Só existem dois senhores, e temos que decidir a qual deles serviremos. As escolhas do dia a dia determinam se de fato somos livres ou não. O pecado cria amarras que só podem ser quebradas pelo poder de Deus. Por meio Dele, recebemos três tipos de liberdade:

1. Liberdade de consciência. Não existe liberdade que não nasça na consciência. E somente Jesus pode oferecer esse tipo de coisa. Nascemos pecadores, inclinados a fazer o que é errado, dignos de condenação e morte eterna. Mas, quando aceitamos que nossa culpa foi paga por Jesus, a sentença condenatória é tirada de nossos ombros. Uma pessoa revestida da graça de Deus é como se nunca tivesse pecado. E, se eventualmente quebramos a lei de Deus e nos arrependemos, Jesus devolve nosso acesso à presença de Deus. Paulo declarou: “Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8:1).

2. Liberdade para obedecer. Quem deseja fazer a vontade de Deus com as próprias forças pode ser considerado uma boa pessoa, mas não é livre. Em Romanos 8, encontramos a descrição da luta entre os desejos da natureza humana pecaminosa e os da nova natureza em Cristo. Paulo diz que Jesus veio nos libertar da escravidão do pecado. A graça é o único poder capaz de quebrar o domínio do pecado no coração humano.

Mesmo tendo ainda a natureza pecaminosa, depois da conversão, temos liberdade para obedecer. Por isso, rejeitamos determinadas coisas, embora a Bíblia não seja explícita em proibi-las. Por exemplo: fumar ou não fumar; ir a determinados lugares ou não; assistir a certos filmes ou não; tomar certas bebidas ou não. Fazemos o certo porque somos livres para obedecer.

3. Liberdade de conhecimento. Quanto mais conhecemos Jesus, maior é nossa liberdade (Jo 8:32). O conhecimento da verdade liberta. O conhecimento divino proporciona acesso a uma fonte inesgotável de sabedoria. Quem tem comunhão com Jesus conhece a verdade e o próprio Deus. Quem não conhece a verdade será enganado e escravizado por superstições e preconceitos. Somente aqueles que buscam o conhecimento do Senhor crescem em liberdade. Seja livre hoje conhecendo a verdade!

Ellen G. White conclui: "Toda pessoa que recusa entregar-se a Deus, acha-se sob o domínio de outro poder. Não pertence a si mesma. Pode falar de liberdade, mas está na mais vil servidão. Não lhe é permitido ver a beleza da verdade, pois sua mente se encontra sob o poder de Satanás. Enquanto se lisonjeia de seguir os ditames de seu próprio discernimento, obedece à vontade do príncipe das trevas. Cristo veio quebrar as algemas da escravidão do pecado para a alma. 'Se pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.' 'A lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus” nos liberta “da lei do pecado e da morte' (Romanos 8:2)" (O Desejado se Todas as Nações, p. 32).