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quarta-feira, 6 de março de 2019

Quarta-feira de cinzas - Um conto adventista


Rodrigo vinha andando pela calçada. Sem camisa, o sol refletia na pele suada, cintilando em alguns confetes e purpurina. Quarta-feira de cinzas, sol a pino, e ele alegre, pois tinha passado o feriadão com colegas, festando até o limite da exaustão.

Pulou carnaval, embriagou-se. Drogas não, pois recusou as incontáveis vezes que lhe ofereceram pelo menos três tipos de entorpecente, com um educado: “Deixa para a próxima!” Sim, quem sabe outra vez.

Ficou com quase uma dezena de garotas nos dias da festa, sequer lembrava-se do nome delas e trazia contatos de outras tantas. Preocupou-se por um momento, pois não se lembrava de ter se prevenido nas relações sexuais que, embriagado, manteve.

Ainda divagando nessas lembranças de euforia passageira, foi arrebatado por assovios de uma turma nas janelas de um ônibus: “Ei Rodrigo!”, “Saudades, maninho!”, “Visita a gente no sábado!” 

Da calçada, Rodrigo retribui o aceno e seu estômago revirou quando viu Camila descendo do coletivo; feliz, radiante, mochila de tralhas e barraca nas costas. 

- Oi Rô! – disse ela, com aquele sorriso apaixonante de sempre. – Como foi o feriadão? 

- Foi bom – ele respondeu e começaram a caminhar juntos. A verdade é que sentia vergonha de contar qualquer detalhe para a amiga... Aliás, Camila não era apenas amiga da época de igreja. Eles foram namorados. 

- O meu foi maravilhoso – disse ela e começou a contar detalhes do retiro espiritual com a galera da igreja. – Perfeito, Rô, simplesmente perfeito. Vou guardar aquilo tudo, cada momento, para o resto da minha vida. 

Rodrigo sabia do que ela estava falando. Felicidade. Já tinha sentido aquilo, de forma tão intensa, no passado. Muitos desses momentos foram compartilhados com Camila, sua namorada na época. Mas ele quis “conhecer mais do mundo”, “viver intensamente”. Deixou a igreja; deixou Camila. 

- Nós oramos por você – disse ela de forma franca. – Você faz falta para o grupo. 

“Para o grupo?”, pensou Rodrigo, “E para você?”. A resposta era um tanto óbvia. Camila já tinha superado. Ele não tinha noção de quanto a jovem sofreu com a separação. Chegou até a culpar-se pelo rompimento, pois era convicta em preservar sua castidade no namoro. Até mesmo esta convicção foi abalada e pensou em tentar segurar o namorado cedendo às suas exigências. Bem... o tempo passou. Camila se recuperou, pois se firmou na Rocha que é Cristo. 

Rodrigo, por seu turno, sabia que sua alegria era passageira. Uma máscara, como a de carnaval. Sentia alegria frívola, mas não felicidade verdadeira. Incomodava-se depois das baladas. A saudade dos amigos e da igreja era uma constante. O vazio que antes era preenchido por Jesus agora ecoava com os choros da alma. 

- Ainda dá tempo para eu voltar? – ele parou e perguntou. Camila deu mais dois passos, também parou e virou-se. O sol do meio dia prateando seus cabelos claros. 

- Para Jesus? Sempre. Ele te espera e de braços bem abertos. 

- Eu quero voltar – disse com sinceridade e, depois de uma pausa, fez nova pergunta: - E para você, ainda há tempo? 

- Rô, você quis conhecer mais do mundo e perdeu o universo que eu tinha reservado para nosso amor. Tudo seria no tempo certo, no tempo de Deus. 

Camila virou-se e, enquanto caminhava, gritou: 

- Te vejo na igreja, meu irmão.

[via blog do Denis Cruz]

quinta-feira, 17 de maio de 2018

O culto em que um bêbado libertou um endemoninhado

Aquele estava sendo um dia normal de culto até que Raul Grandão entrou. Tudo estava acontecendo conforme o esperado. Os músicos tocavam habilmente, no ritmo certo, para que a congregação cantasse em adoração a Deus. As crianças esperavam ansiosamente pelo momento especial da história. Um casal idoso olhava os pequenos, relembrando como era cuidar de três crianças com menos de sete anos de idade durante o culto. A paz enchia a sala.

Então, Raul Grandão invadiu a igreja como um búfalo bravo. Seus gritos anunciavam sua chegada bem antes de abrir as portas. O alvoroço da sua entrada parou tudo. As crianças estavam aterrorizadas, encolhidas na segurança do colo dos pais. A maior parte da congregação tentou continuar cantando, mas era difícil louvar mais alto que a voz do Grandão.

Os músicos? Não mudaram o ritmo. Seu dever era muito mais importante do que a chegada do Raul Grandão. O pastor, conhecendo muito bem aquele homem, ficou sentado, orando silenciosamente, e esperou para ver como o Espírito Santo agiria.

Raul Grandão, com seu hálito de deixar qualquer um bêbado, também estava louvando a Deus. Alto. Muito alto! “Jesus é nosso Rei, nosso Redentor, nosso Salvador, nosso Irmão”, cantava ele, acabando-se em lágrimas. “Sou um pecador, mas Jesus me ama mesmo assim”, continuava Grandão, com a fala arrastada pelo efeito do álcool.

Um casal de diáconos o conduziu para a lateral do templo, como um barco que puxa um navio enorme por meio de um canal estreito. Várias vezes os diáconos já haviam lidado com aquela situação. O demônio rum parecia trazer à tona o pior de Raul Grandão. Embora suas palavras glorificassem a Deus, sua vida era alimentada pelas drogas e não pelo amor de Deus.

Raul Grandão seguia a orientação dos diáconos, ainda proclamando a bondade de Deus com rugidos bêbados, enquanto eles o levavam para uma das fileiras do fundo. Logo a normalidade do culto foi restabelecida.

Sem interrupção por poucos minutos. Então, Armando chegou. Ele não tinha uma casa de verdade, morava debaixo da ponte perto da igreja. Seus únicos amigos formavam uma gangue de traficantes de drogas e assassinos. Armando tinha cicatrizes, era bravo, forte e perigoso, um homem a ser evitado a todo custo.

Até aquele dia, uma “igreja” nunca esteve na sua lista de lugares a ser visitados. Armando irrompeu pelas portas gritando blasfêmias contra tudo o que é divino. – Eu sou o diabo! – proclamava ele. Daquele momento em diante as coisas pioraram, aterrorizando a congregação e transformando o culto em um palco de demônios.

O pastor, que já havia visto Armando repreender outras pessoas embaixo da ponte, baixou a cabeça e começou a orar silenciosamente com o fervor do apóstolo Paulo: “Agora é Sua vez, Senhor! O inimigo está aqui nos desafiando a levantar e lutar contra ele. Ou a correr e nos esconder. Eu clamo pelo Teu Espírito Santo para que venha com total poder ao nosso culto agora, Senhor. Se o inimigo nos declarar guerra, por favor, mostra-nos a Tua paz!”

O pastor esperou ansioso para ver o que o Espírito faria. Quase imediatamente houve uma agitação lá no banco do fundo, onde Raul Grandão estava sentado com os diáconos. Ele, ainda com hálito de embriagado, se levantou cambaleante, encontrou suas pernas e marchou silenciosamente na direção de Armando, como uma cobra atrás de um rato.

Raul Grandão não é chamado assim por acaso. Ele é mais alto do que todos. Parece um caminhão grande e se movimenta como se tivesse a missão de “limpar a estrada”. Todos se afastaram para dar espaço enquanto ele avançava na direção de Armando, que sentiu sua presença se aproximando e virou o rosto na direção de Raul.

– Você não vai mais blasfemar contra meu Jesus nesta casa de culto! – desafiou o Grandão. Aquilo despertou o pior de Armando, que continuou com seu palavreado cheio de ódio, mas dessa vez jogando tudo isso na cara de Raul. Nada daquilo o deteve. Ele permanecia em pé, a apenas alguns centímetros do “diabo”. Grandão agarrou Arnaldo pelos ombros e ordenou ao inimigo que o deixasse naquele momento!

Armando, quase desmaiando com o bafo de Raul, gritou ainda mais alto. Assim, Grandão soltou os ombros de Armando e, com suas mãos gigantescas, apertou as bochechas de seu oponente. – Saia desse homem agora mesmo! – gritou Grandão, nariz a nariz com Armando e com os demônios que tinham se apossado da vida daquele homem.

A batalha barulhenta, poderosa, demoníaca e divina, deixou a igreja paralisada por 20 minutos. Os demônios de Amando tentaram gritar mais alto que os comandos de Raul Grandão, mas a conexão dele com Jesus ficava mais forte a cada grito dos demônios.

De repente, como ocorreu algumas vezes há muitos séculos na Galileia, os demônios fugiram. Fraco, como se os demônios tivessem levado seus ossos, Armando desabou nos braços receptivos de Raul Grandão. Então, sóbrio como se tivesse bebido apenas da “água da Vida”, Grandão abraçou Armando como a um bebê recémnascido.

– Ele agora é nosso – gritou bem alto Raul Grandão, enquanto pastor, diáconos, idosos, pais, crianças e várias visitas correram para participar da comemoração. Os músicos começaram a tocar um ritmo mais vivo com notas mais agudas. E todos passaram a cantar juntos uma nova música: “A Canção dos Redimidos”.

LIÇÕES PARA TODOS
Quando ouvi essa história, fiquei impressionado e cheio de perguntas. “Será que isso realmente aconteceu?”; “Será que Armando e Raul Grandão são de verdade ou personagens criados pelos contadores de história?” Porém, logo eu soube que a história é verdadeira e eles são pessoas reais.

Então, me surgiram mais perguntas: “Por que o pastor ficou sentado quieto, orando, em vez de pular no meio deles e resolver os problemas?”; “Quanto aquela igreja estava sintonizada com o Espírito Santo para ser uma comunidade acolhedora, para receber um bêbado e um endemoninhado?” E a pergunta mais importante de todas: “Como posso ajudar minha igreja a ser como essa congregação?”

Dick Duerksen é pastor e mora em Portland, Oregon, nos Estados Unidos 

(Publicado originalmente na edição de maio de 2018 da Revista Adventista/Adventist World)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Dia Internacional da Prostituta - Conheça o diário de uma delas

No dia 2 de junho de 1975, 150 prostitutas ocuparam a igreja de Saint-Nizier, em Lyon, na França. Elas protestavam contra multas e detenções, em nome de uma guerra contra o rufianismo (atividade de quem tira proveito da prostituição alheia), e até contra assassinatos de colegas que sequer eram investigados. Ao romper o silêncio e denunciar o preconceito, a discriminação e as arbitrariedades, chamando a atenção para a situação em que viviam, as prostitutas de Lyon entraram para a história.

Conheça agora, o diário de uma prostituta que teve papel fundamental na história da humanidade.

03/01
Gostaria que todos me apreciassem pelo que sou de fato. Mas sinto que a maioria das pessoas só se interessa pela minha beleza. Se ao menos eu tivesse uma amiga, alguém que pudesse confiar os meus segredos...

11/01
Os prostíbulos são os lugares mais solitários do mundo. Ali, nada é humano; cada um age como se estivesse diante de um objeto. Havia algumas mulheres que fingiam que tudo aquilo era bom, mas agiam desta forma para não ficarem loucas. Quando se está afundado no lodo, parece que não existe nada além fora o lodaçal. Nenhuma prostituta sabe sair. É pior que a escravidão; é como estar morta em vida. A maioria se esconde atrás do sorriso e uma maquiagem berrante. Oh Deus! Como eu desejaria sair disto! Sinto que a vida é um abismo escuro e tétrico. Um despenhadeiro onde os dois extremos são o nascimento e a morte.

07/02
Sinto nojo quando me tocam. Alguns querem se achar os sedutores, atuando como se eu fosse a mulher mais linda do mundo. Desgraçados! A única coisa que lhes interessa é tomar o meu corpo e usar-me. Tocam a minha carne, mas não tocam a minha alma. Nesta hora, escondo-me no fundo de minha mente e corro atrás de sonhos e lembranças. Vêem, me tocam e vão embora. Ninguém pergunta quem eu sou. Hoje é mais um dia em que eu gostaria de estar morta.

22/03
Minha vida é um suicídio lento, tortuoso, fatalmente certeiro que vai me minando por dentro, tirando a minha vontade de viver, de enfrentar a vida. Às vezes, sinto que tenho 100 anos. Olho-me no espelho e vejo minhas carnes enrugadas, pálidas. Sinto que em mim habitam duas pessoas.

08/04
Nem todos os clientes querem ter relações sexuais. Alguns querem apenas um carinho, e pagam para que eu lhes escute. Que terrível! Seria preferível estar morto. Pagar para ser ouvido!

09/04
A maldita noite se aproxima. Com ela, um desejo de crueldade. A escuridão esconde as mais terríveis paixões. Durante o dia, sinto-me muitas vezes livre, mas quando a noite se aproxima, ouço o som da morte e do desprezo. Alguém tomará posse do meu corpo. Minha boca se encherá de veneno e meu corpo se renderá ao ritmo da loucura. Maldita noite! Deveria ser sempre dia...

15/06
Poderá Deus me perdoar algum dia? Sinto que levo em minhas costas uma grande pedra atada que não me abandona. Se ao menos eu pudesse dormir em paz.

17/06
Quando eu era menina, minha mãe me contava histórias. Ela dizia sobre um homem respeitado que viveu por essas terras durante muitos anos e que um Deus diferente o guiava por todos os lugares. Esse Deus não exigia sacrifícios humanos, nem nada disso. Ele se conformava com um cordeiro oferecido num altar de pedras. Nada além disso.

18/06
Lá está novamente o velhinho na praça contando aquelas histórias. Muitas crianças sentam-se ao redor dele para ouvir os contos. Hoje ele falou a respeito de um tal Abraão, que era filho de Deus, do Criador. Cheguei perto para ouvi-lo. Ouvi falar de Moisés, de Enoque e Noé. Achei interessante.

27/08
Hoje senti a brisa fresca da liberdade batendo no meu rosto. Recebi dois hebreus em minha casa. Escondi-os é claro, para que não fossem pegos. Eles foram a resposta aos meus clamores! Foram os primeiros homens que entraram em minha casa sem segundas intenções. Eles me falaram para colocar um pano vermelho em minha janela e prontamente obedeci. Percebi que o Deus deles estava me ajudando. Senti-me saindo do lodo. Depois de anos, o sol brilhou na meia noite da minha vida.

01/12
O Deus dos hebreus salvou a minha vida. Jericó ficou em ruínas, mas eu e a minha casa fomos preservadas. Ofereci a Ele um cordeiro. Devo a Ele minha vida. Acho que isso é fé!

04/04
Pela primeira vez em minha vida senti meu coração pulsar de fato. Conheci um homem e não apenas isso: um príncipe! O nome dele é Salmom. Acho que estou apaixonada. E o melhor, ele também! Estou amando de verdade. Parece um sonho! Nunca um príncipe apaixonou-se por uma ex-prostituta. Adeus ilusões! Como é lindo conhecer o amor. Ele quer se casar comigo. Estou tão insegura, mas feliz!

30/01
Hoje o dia foi intenso. Senti uma dor terrível. Nosso bebê não para de chutar. Após anos do casamento, nunca senti tão fortes emoções! Acho que está quase para nascer. Pelo jeito, deve ser menino. Se for, queremos o nome “Boaz”! Bonito, não? O que acha diário? Significa “Nele está a minha força”.
“Pela fé, Raabe, a meretriz, não pereceu com os incrédulos, acolhendo em paz os espias.” (Hebreus 11:31)
Raabe era uma prostituta que morava numa casa sobre o muro de Jericó. Ela ocultou dois espias israelitas enviados para verificar as defesas daquela cidade. Por causa de sua bondade para com eles, e sua declaração de crença em Deus, os espias prometeram que a vida de Raabe e seus familiares seria poupada quando ocorresse o ataque a Jericó. (Josué 2)

Somos propensos, muitas vezes, a pensar que Deus, para ser justo, deve restringir Sua oferta de salvação apenas às pessoas moralmente dignas. Mas a mensagem bíblica, revelada tanto no Antigo Testamento como no Novo, é que a oferta de salvação é extensiva a todos os pecadores. São de Cristo as palavras: “Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores ao arrependimento” (Lc 5:31 e 32). Em Isaías 1:18 é apresentado o convite: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor; ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a lã.”

A experiência da prostituta Raabe é uma das mais belas histórias de salvação pela graça “mediante a fé” (Ef 2:8) encontradas nas páginas do Antigo Testamento. Como Abraão foi justificado pela fé (Gn 15:6; Rm 4), e essa fé se evidenciou na prática de boas obras (Tg 2:21-24), assim também o foi Raabe. Hebreus 11:31 declara que “pela fé, Raabe, a meretriz, não foi destruída com os desobedientes, porque acolheu com paz aos espias”. E Tiago 2:25 acrescenta que a fé dessa mulher foi genuína porque resultou na prática de boas obras.

Mas o fato da vida de Raabe ser poupada, sendo ela uma prostituta e havendo mentido aos emissários do rei de Jericó, não significa que Deus estivesse sancionando tais pecados explicitamente condenados no Decálogo (ver Êx 20:14 e 16). Nesse incidente, Deus manifestou Sua graça salvadora a uma prostituta possuída de uma fé genuína, com o propósito de salvá-la de sua vida de pecado. O mesmo poder regenerador que atuaria na vida da “mulher adúltera”, durante o ministério terrestre de Cristo (Jo 8:1-11), também transformou a vida da prostituta Raabe. E o mesmo amor compassivo que perdoaria as mentiras do pretensioso apóstolo Pedro (Mc 14:27-31; 66-72) também perdoou a mentira de Raabe.

Todos os habitantes da cidade [de Jericó], com todo o ser vivo que nela se continha, “desde o homem até à mulher, desde o menino até ao velho, e até ao boi e gado miúdo, e ao jumento”, passaram ao fio da espada. Apenas a fiel Raabe, com sua casa, foi poupada, em cumprimento da promessa dos espias. A cidade foi queimada.

O mais bonito é ver como dessa fé nasceu a esperança para o mundo, Raabe faz parte da genealogia do Salvador do mundo.

[Filhas de Deus, Ellen White / Daughters of Grace, Trudy J. Morgan-Cole]

quarta-feira, 5 de março de 2014

Quarta-feira de cinzas - Um conto adventista


Rodrigo vinha andando pela calçada. Sem camisa, o sol refletia na pele suada, cintilando em alguns confetes e purpurina. Quarta-feira de cinzas, sol a pino, e ele alegre, pois tinha passado o feriadão com colegas, festando até o limite da exaustão.

Pulou carnaval, embriagou-se. Drogas não, pois recusou as incontáveis vezes que lhe ofereceram pelo menos três tipos de entorpecente, com um educado: “Deixa para a próxima!” Sim, quem sabe outra vez.

Ficou com quase uma dezena de garotas nos dias da festa, sequer lembrava-se do nome delas e trazia no bolso números de telefone e contatos de e-mail de outras tantas. Preocupou-se por um momento, pois não se lembrava de ter se prevenido nas relações sexuais que, embriagado, manteve.

Ainda divagando nessas lembranças de euforia passageira, foi arrebatado por assovios de uma turma nas janelas de um ônibus: “Ei Rodrigo!”, “Saudades, maninho!”, “Visita a gente no sábado!” 

Da calçada, Rodrigo retribui o aceno e seu estômago revirou quando viu Camila descendo do coletivo; feliz, radiante, mochila de tralhas e barraca nas costas. 

- Oi Rô! – disse ela, com aquele sorriso apaixonante de sempre. – Como foi o feriadão? 

- Foi bom – ele respondeu e começaram a caminhar juntos. A verdade é que sentia vergonha de contar qualquer detalhe para a amiga... Aliás, Camila não era apenas amiga da época de igreja. Eles foram namorados. 

- O meu foi maravilhoso – disse ela e começou a contar detalhes do retiro espiritual com a galera da igreja. – Perfeito, Rô, simplesmente perfeito. Vou guardar aquilo tudo, cada momento, para o resto da minha vida. 

Rodrigo sabia do que ela estava falando. Felicidade. Já tinha sentido aquilo, de forma tão intensa, no passado. Muitos desses momentos foram compartilhados com Camila, sua namorada na época. Mas ele quis “conhecer mais do mundo”, “viver intensamente”. Deixou a igreja; deixou Camila. 

- Nós oramos por você – disse ela de forma franca. – Você faz falta para o grupo. 

“Para o grupo?”, pensou Rodrigo, “E para você?”. A resposta era um tanto óbvia. Camila já tinha superado. Ele não tinha noção de quanto a jovem sofreu com a separação. Chegou até a culpar-se pelo rompimento, pois era convicta em preservar sua castidade no namoro. Até mesmo esta convicção foi abalada e pensou em tentar segurar o namorado cedendo às suas exigências. Bem... o tempo passou. Camila se recuperou, pois se firmou na Rocha que é Cristo. 

Rodrigo, por seu turno, sabia que sua alegria era passageira. Uma máscara, como a de carnaval. Sentia alegria frívola, mas não felicidade verdadeira. Incomodava-se depois das baladas. A saudade dos amigos e da igreja era uma constante. O vazio que antes era preenchido por Jesus agora ecoava com os choros da alma. 

- Ainda dá tempo para eu voltar? – ele parou e perguntou. Camila deu mais dois passos, também parou e virou-se. O sol do meio dia prateando seus cabelos claros. 

- Para Jesus? Sempre. Ele te espera e de braços bem abertos. 

- Eu quero voltar – disse com sinceridade e, depois de uma pausa, fez nova pergunta: - E para você, ainda há tempo? 

- Rô, você quis conhecer mais do mundo e perdeu o universo que eu tinha reservado para nosso amor. Tudo seria no tempo certo, no tempo de Deus. 

Camila virou-se e, enquanto caminhava, gritou: 

- Te vejo na igreja, meu irmão.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Vergonha nacional: os altos salários dos professores


Os vereadores laboram de segunda à sexta, oito horas por dia, num ambiente turbulento, hostil e sem infra-estrutura. Apesar disso, recebem apenas um salário mínimo por mês. É uma das remunerações mais baixas entre todas as classes trabalhistas. 

Só para citar um exemplo, nas Câmaras de todo o País faltam materiais imprescindíveis para a execução das funções desses políticos, como mesa, cadeira, tinta para impressora e papel. Além disso, por trabalharem arduamente pelo povo, nossos parlamentares municipais sofrem constantes ameaças dos poderosos (inclusive à mão armada).

Um vereador – que não quer ser identificado – diz que pensa em sair da vida política. “Todos os cargos públicos eletivos – não apenas o de vereador – são desestimulantes. Trabalhamos exaustivamente a favor da população. E é por isso que muitos inconformados magnatas invadem nossos gabinetes para nos ameaçar e, muitas vezes, chegam a cumprir a ameaça”. Esse vereador, que usa chinelo de dedo e uma camisa desbotada, ainda acrescenta: “Na maioria das vezes, temos de tirar o dinheiro do próprio bolso para suprir a falta de material de trabalho. Com isso, no final do mês, não sobra quase nada, pois, como já é público e notório recebemos os piores salários do Brasil”. 

Enquanto os políticos reclamam, com razão, dos baixíssimos salários, os professores brasileiros – incluindo aqueles que lecionam para as séries iniciais – ostentam o contracheque mais gordo do País. Seus ordenados chegam a oito mil reais mensais. Por conta disso, o termo Mestre virou sinônimo contemporâneo de Marajá (já incorporado aos dicionários). 

Muitos organismos sociais empreendem uma luta permanente para tentar combater essa astronômica disparidade. Eles já sugeriram aos deputados e senadores vários projetos de lei para redução dos salários colossais dos professores brasileiros. Entretanto, os documentos nem chegam a ser discutidos, em virtude da bancada da Educação no Congresso. Essa bancada formou um impiedoso lobby que insurge contra qualquer coisa que tente diminuir os privilégios dos professores. 

João da Silva e Silva, coordenador de uma ONG, reclama que a alta remuneração dos docentes é desproporcional ao ambiente de trabalho em que eles atuam. “Nas escolas particulares ou publicas, todos os alunos são disciplinados e educados. Nunca respondem aos professores. Adicione-se a isso que as instituições de ensino são tão tranquilas e silenciosas que uma professora chegou a dormir dentro da sala de aula, diante dos alunos adolescentes do Ensino Médio”, diz o coordenador. 

Para afirmar isso, João da Silva e Silva se respalda em dados concretos, que trazem outras revelações, como o fato de os professores não necessitarem desenvolver trabalhos extraclasses, conforme se imaginava. “Só seria trabalhoso se a realidade do alunado e de sua comunidade fossem totalmente diferentes da comunidade escolar. Mas, como as realidades são as mesmas, qualquer projeto é inútil”. 

João revela também que os professores não precisam mais perder seus finais de semana corrigindo avaliações. Afinal, as provas foram extintas das escolas há muitos anos. 

Este foi o sonho que a professora Maria José teve, enquanto ficou desacordada sobre uma cama de hospital. 

Horas antes, a sala onde ela estava dando aula fora invadida por vândalos que estudavam na própria escola que depredavam. Maria José entrou em pânico, sofreu crise de convulsões e perdeu completamente os sentidos. 

Agora – no quarto do hospital – sentindo intensas dores físicas e emocionais, a professora conseguiu sorrir sarcasticamente de si mesma. Isso porque, após olhar o calendário na parede ao lado da cama, viu que aquele era dia 1º de Abril. 

Com o sorriso ainda presente em seu rosto, ela falou: 

“Bem que minha realidade poderia ser uma brincadeira, uma pegadinha do Dia da Mentira. Mas minha vida é uma verdade nua, crua e dolorosa”.

Valdeir Almeida - Ponderantes

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Crônica – Ela queria casar virgem


Os vidros embaçados denunciavam para quem estava fora que o clima era quente ali dentro. Próprio da idade, diriam alguns. Uma “sem-vergonhice”, provavelmente pensariam os pais da garota encantada com os beijos e os efeitos colaterais que eles provocavam. Era seu primeiro namorado, mas não assumiam de todo. Não era cool namorar, só ficar. A falta de compromisso era tida no meio como a regra de conduta geral fora da qual não havia vida ou aceitação. Então, mesmo sonhando com namoro, ela aceitava a ditadura do “fico”. Aquele “fico” sem muita vontade e dividido, como o imperador faria dois séculos antes. Na verdade ela até tinha delírios com uma certa marcha, flores, vestido branco. Epa, epa, epa!

Enquanto desfrutava das ondas de calor e arrepio daquela situação, ela pensava mesmo já estar se tornando adulta. Era o mais longe que seu flerte a havia levado e agora, bem antes da maioridade, se sentia grande. As mãos deles em lugares que até então eram só dela é que incomodavam um pouco, todavia se ajeitava como podia para não desagradar aquele que supunha ser a própria fábula se materializando em sua frente, mais ao lado, fungando no pescoço se enrolando em seu delgado corpo. Ela queria olhar nos olhos, fazer charminho, mas não dava tempo. A impaciência do rapaz em beijar e apalpar o máximo possível era como a de um faminto ao se deparar como comida pela primeira vez depois da longa abstinência. Nem o mais fino ou delicado prato poderia ser apreciado, somente engolido para aplacar o que julgava uma necessidade urgente.

Gastronomicamente, a comparação até faz certo sentido. A garotinha de faces rubras, esforçando-se por parecer adulta era um prato sofisticado, bem preparado que levara horas ao forno. Nada contra a profissão, todavia não era a refeição merecidamente apropriada para um pedreiro saído de sua exaustiva jornada de trabalho. Ela queria ser apreciada, elogiada, como o querem todas as mulheres, livres ou não do peso da idade. Ele, no entanto, só queria matar a fome e serviria qualquer refeição. Até um pão murcho com mortadela supria. Não havia respeito com o cuidado do chef, com a escolha dos ingredientes…

Tempos de cozimento à parte, lá estava a encruzilhada na qual chegariam quando ele levantou seu vestido e foi logo colocando os cinco dedinhos em regiões antes desabitadas. Parou! Ué, o que estaria errado, pensava o garanhão que nunca antes reconhecera um não. Se possível fosse, mais vermelha ela ficaria ao dizer que não estava pronta. Era um eufemismo pra dizer que não estava pensando em trocar as delicadas calcinhas de algodão, com bichinhos e flores, por lingeries sensuais. Não, eu não quero transar. Sim, eu quero casar virgem. Compreensão talvez esperasse.

O espanto, seguido de raiva e logo um deboche. “Virgem, em pleno século 21?!” agora era ela que se surpreendia. Em sua casa estes valores andavam bem na moda e, a despeito das amigas que já não tinham tanto apreço pelo status, ela se orgulhava, no íntimo, de ser virgem. Se hoje todos são livres pra pensar, agir e se vestir como quiser, por que a menosprezam por seus valores? Era um contra-senso na sua cabeça. Como assim tinha que respeitar as maiores maluquices de todos e ninguém respeitava sua decisão? Então não era num mundo livre que vivia e sim numa disfarçada e opressora ditadura onde só valiam bebedeiras, drogas, prostituição e orgias as mais impronunciáveis. Sexo não era opção, era obrigação de todos, pouco importando se mal entrados estivessem na puberdade!

“Desce do carro!” era o príncipe virando sapo, bem ali na sua frente. A carruagem era de novo abóbora, os sapatinhos se esfarelavam em seus pés. Nem eles restaram para lembrar da magia. Não era vergonha, nem decepção. No curto caminho pra casa nem deu tempo de processar o que era. Talvez medo. Não dele, imagine. Dele sentia uma mistura de repulsa com pena. Ah, o que é a vida sem o encanto! Era medo talvez de não poder mais sustentar o que acreditava, de defender o que valia a pena. Medo por todos que ainda a ridicularizariam e por não saber ao certo quanto tempo aguentaria a pressão. Medo de perder seu bem mais precioso e vê-lo entregue nas mãos de qualquer um pra ser aceita. Um terrível e pesado medo em viver num totalitarismo cruel onde não pudesse ser respeitada só porque tinha um sonho, um valor: casar virgem. 

Fabiana Bertotti - Meu Cantinho

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O Grande Pianista

Imagine uma família de camundongos que tenha vivido toda sua vida em um grande piano. A eles, no mundo de seu piano, vinha a música do instrumento, enchendo todos os lugares escuros com som e harmonia. Primeiramente os camundongos ficaram impressionados.

Eles extraíam conforto e admiração do pensamento de que havia Alguém que produzia tal música – embora invisível a eles – acima, contudo, perto deles. Eles gostavam de pensar no Grande Pianista que eles não podiam ver.

Então, um dia, um destemido camundongo resolveu subir na parte superior do piano e retornou cheio de idéias. Ele tinha descoberto como a música era produzida. As cordas eram o segredo – cordas firmemente esticadas com tamanhos graduados, as quais tremiam e vibravam. Eles deviam agora fazer uma revisão de suas velhas crenças; ninguém, a não ser os mais conservadores, poderia crer mais no Pianista Invisível.

Mais tarde, outro explorador conduziu a explicação mais adiante. Martelos eram agora o segredo, um número de martelos dançando e saltando sobre as cordas. Esta era uma teoria um pouco mais complicada, mas tudo demonstrava que eles viviam em um mundo puramente mecânico e matemático. O Pianista Invisível passou a ser considerado um mito.

Mas o Pianista continuou a tocar.

Publicado no London Observer, 1993. Transcrito em Diálogo Universitário