terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Os Adventistas e os Direitos Humanos

A Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 71 anos nesta terça-feira. O documento foi proclamado pela Assembleia Geral da ONU no dia 10 de dezembro de 1948, com o objetivo de assegurar a dignidade de todos os seres humanos, por meio da defesa de valores como a liberdade de expressão, a igualdade e a não discriminação. Seus 30 artigos compõem a base de todas as leis contemporâneas que defendem os direitos essenciais de todo o ser humano, como o direito à vida, à integridade física, à livre expressão e à associação, sem qualquer distinção de raça, cor, sexo, religião ou visão política (leia aqui)

Declaração da Igreja Adventista sobre a Declaração dos Direitos Humanos
Em meados do século 19, os adventistas do sétimo dia defenderam, desde o seu inicio, os direitos humanos. Inspirados pelos valores bíblicos, os adventistas pioneiros estiveram envolvidos na luta contra a escravatura e a injustiça, e reivindicaram o direito de cada pessoa escolher uma crença de acordo com a sua consciência e de exercer e ensinar livremente a sua religião de forma não discriminatória, respeitando sempre a igualdade de direitos dos demais. Os adventistas do sétimo dia acreditam que na religião o uso da força é contrário aos princípios de Deus. Os adventistas do sétimo dia afirmam a dignidade do ser humano criado à imagem de Deus, promovendo a liberdade religiosa, a vida familiar, a educação, a saúde, a ajuda mútua e satisfazendo as prementes necessidades humanas.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 foi escrita e adotada por indivíduos que conheceram a destruição, o desespero e as dificuldades sem precedentes da Segunda Guerra Mundial. Esta experiência dolorosa concedeu-lhes a visão e o desejo de um mundo futuro de paz e liberdade. Ao brotar do melhor e mais nobre do coração humano, a Declaração Universal é um documento basilar que defende firmemente a dignidade, liberdade e igualdade humana, e a não discriminação de minorias. O artigo 18, que protege incondicionalmente a liberdade religiosa na crença e na prática, é de especial importância, pois a liberdade religiosa é o direito humano fundamental que sustém e suporta todos os direitos humanos.

Atualmente, a Declaração Universal dos Direitos do Homem é muitas vezes violada, especialmente o Artigo 18. A intolerância levanta frequentemente a sua cara feia, apesar dos progressos alcançados em muitos países. A Igreja Adventista do Sétimo Dia desafia as Nações Unidas, as autoridades governamentais, os líderes religiosos e os crentes e as organizações não governamentais a trabalharem consistentemente para a implementação desta Declaração. Os políticos, os líderes dos sindicatos, os professores, os empregadores, os representantes da comunicação social e todos os líderes de opinião deveriam apoiar fortemente os direitos humanos. Isso constituiria a resposta e a solução para a redução do crescente e violento extremismo religioso, a intolerância, os crimes passionais e a discriminação baseada na religião ou no secularismo anti-religioso. Deste modo, a Declaração Universal crescerá na sua importância prática e no seu esplendor, sem nunca correr o risco de se tornar num documento irrelevante.

Esta declaração foi votada em 17 de Novembro de 1998 pelo Conselho Administrativo da Conferência Geral e emitida pelo Gabinete de Relações Públicas da Conferência Geral (via Centro White)

"Toda religião falsa ensina seus adeptos a serem descuidosos para com as necessidades, sofrimentos e direitos humanos. O evangelho dá alto valor à humanidade, como resgate do sangue de Cristo, e ensina uma terna solicitude pelas necessidades e misérias do homem." (Ellen G. White - O Desejado de Todas as Nações, p. 287)

Veja o vídeo abaixo com o presidente da Igreja Adventista para a América do Sul, pastor Erton Köhler, e saiba mais sobre o assunto.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Levantar as mãos na adoração

Há base bíblica para a prática, cada vez mais comum, de levantar as mãos durante o canto congregacional? 

Essa pergunta pode parecer sem importância, porém revela que estamos muito interessados em um tipo de culto que esteja biblicamente fundamentado e que não viole as instruções bíblicas. Mostra, também, que o movimento das mãos enquanto cantamos está criando certa tensão. Vou falar do uso das mãos durante os atos de adoração. Ficará claro que, na Bíblia, o ritual do uso das mãos acontecia, principalmente, durante a oração.

1. Atos não-verbais.
 As expressões corporais desempenham papel importante na expressão de ideias e emoções. Estudos sobre o papel dos atos não-verbais na adoração nos ajudam a entender um pouco melhor seu significado. Na Bíblia, temos apenas a linguagem da postura, gestos, movimentos e expressões faciais. As artes do antigo Oriente Médio ilustram muitos desses gestos. Os gestos das mãos, mencionados na Bíblia, eram também comuns no ambiente de adoração e culto no antigo Oriente Médio.

2. Levantar das Mãos. As expressões "levantar as mãos [yãdím]" ou "levantar as palmas (mãos) [kappayim]" são praticamente sinônimas. São usadas em diferentes contextos e, em alguns casos, expressam significados distintos. "O ato de levantar as mãos" é um gesto que expressa adoração no contexto do culto. Os que ministravam no templo eram exortados assim: "Levantem as mãos na direção do santuário e bendigam o SENHOR!" (Sl 134:2, NVI).

O gesto indicava que o objeto de louvor era o Senhor e que todo o indivíduo estava envolvido nesse ato. Era também usado para apresentar ao Senhor as orações e súplicas (Sl 28:2), como se a oração fosse colocada na palma da mão e levantada ao Senhor pedindo-Lhe que aceitasse (Sl 141:2).

Em outros casos, o gesto aparece para expressar a vontade do adorador de receber do Senhor o que pediu (Sl 63:4, 5; Lm 2:19). Mas o levantar das mãos parece expressar algo profundo, algo relacionado com o coração humano: "Derrame o seu coração como água na presença do Senhor. Levante para Ele as mãos" (Lm 3:41, NVI). O levantar das mãos correspondia ao levantar do íntimo do ser adorador ao Deus adorado, em comunhão com Ele.

3. Movimentar as Mãos. Neste caso, o verbo é pãrash ("acenar"), expressando a ideia de que as mãos acenam em frente da pessoa, não necessariamente levantadas. Às vezes, parece que o adorador acena as mãos em direção ao templo, ao Céu (1Rs 8:38, 39, 54; Sl 44:20) ou ao Senhor (Êx 9:33). O movimentar das mãos era usado, particularmente, durante as orações de súplica (1Rs 8:54; Is 1:15; Êx 9:29; Lm 1:17) ou quando havia uma profunda necessidade da presença de Deus (Sl 143:6). No salmo 88:9, lemos: "A minha vista desmaia por causa da aflição. SENHOR, tenho clamado a Ti todo o dia, tenho estendido para Ti as minhas mãos".

A necessidade do salmista é tão intensa que ele implora pela ajuda do Senhor. Embora em necessidade profunda, o adorador vai ao Senhor e estende as mãos a Ele, pedindo ajuda. Esse gesto mais intenso era uma expressão pessoal de dependência de Deus (Sl 44:20) e a devoção do coração ao Senhor (Jo 11:13).

4. E Então? Tanto quanto posso apurar, não há aceno com as mãos durante o culto na Bíblia. O levantar das mãos é comum (cf. 1Tm 2:8). A Bíblia não prescreve gestos das mãos na adoração, mas os descreve como prática comum aceitável. A arte dos cristãos primitivos indica que eles costumavam orar com os braços e as mãos estendidas para os lados, formando um crucifixo com o corpo. Hoje, unimos nossas mãos, tanto atrás como na frente do corpo, ou simplesmente as deixamos soltas. Ocasionalmente, podemos juntar as palmas das mãos e entrelaçar os dedos, uma prática comum entre os antigos romanos e sumerianos. Em outros tempos, as palmas eram colocadas juntas com os dedos estendidos, ato comum no budismo e hinduísmo.

A introdução de novidades em nossas igrejas, influenciadas pelo sistema carismático de adoração, pode perturbar um culto que deveria estar centrado em nosso Criador e Redentor e na Sua Palavra. Seria melhor seguir as práticas comuns da congregação onde coletivamente adoramos o Senhor. 

Angel Manuel Rodríguez (via Música e Adoração)

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Quando historicamente nasceu Jesus?

O tema sobre a data de nascimento de Jesus sempre vem à tona no final do ano. Historicamente, é importante entender alguns aspectos. O evangelho confirma que o nascimento de Jesus teria ocorrido durante o governo de Herodes, o Grande. Levando-se em conta que esse terrível rei morreu no ano 4 ou 3 a.C., é possível concluir que Jesus não poderia ter nascido depois desse tempo. Logo, é mais provável apontar o nascimento de Cristo em algum período antes de 3 ou 4 a.C. e não no ano 1 como convencionalmente alguns o fazem.

É preciso, também, considerar que existe um possível ciclo de 14 em 14 anos, verificado nos censos romanos remanescentes. Por isso, o segundo censo de Quirino teria ocorrido no ano 6 d.C., portanto, o primeiro censo pode ter sido por volta do ano 8 a.C. Assim, Jesus teria nascido em qualquer período entre os anos de 8 e 3-4 a.C. É muito improvável que seu nascimento tenha se dado fora desse intervalo.

E o 25 de dezembro?
A data do 25 de dezembro como dia do nascimento de Jesus foi fixada pela Igreja Católica em 525 para coincidir com as festas pagãs do Oriente e de Roma. Segundo alguns historiadores, foi o Papa João I quem oficializou a comemoração, embora alguns digam que ela já existia desde os tempos do Imperador Constantino. Seja como for, os cristãos do Oriente jamais aceitaram essa data e até hoje os armênios comemoram o Natal em 6 de janeiro.

É quase nula a chance de Jesus ter nascido no Natal, comemorado pelos cristãos ocidentais no dia 25 de dezembro. No Hemisfério Norte, o inverno ocorre nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro de cada ano. Portanto, se Jesus tivesse nascido em algum desses meses, seria uma época de muito frio e não faria nenhum sentido o fato de existirem pastores e rebanhos acampados à noite sobre as colinas da Judeia (Lucas 2:8). Essa é uma cena típica de estações quentes. Embora não haja nada que impeça a comemoração simbólica no dia 25 de dezembro, essa definitivamente não é a data historicamente apropriada de seu nascimento.

A Bíblia diz que, quando Jesus nasceu, havia pastores com seus rebanhos ao ar livre no alto das colinas (Lucas 2:8-20). Manter os animais no campo mesmo à noite era uma prática comum daqueles dias, mas ela era propícia para os meses da primavera ao outono. Dezembro, que corresponde ao mês do calendário judaico de Quislev, é o período de inverno e fortes chuvas (Jeremias 36:22; Esdras 10:9; Zacarias 7:1). Ninguém deixaria o rebanho ao relento nessa época do ano. Igualmente a viagem de Maria e José não seria apropriada numa época de inverno. Pelas limitações da época, qualquer trajeto de mais de 100 quilômetros exigia grande esforço. Assim, os tempos próprios para viagens longas seriam: Páscoa, ou Pessá (abril), no começo do plantio; Pentecostes ou Shavuot (junho), sete semanas depois, quando os primeiros frutos estavam maduros, e Tabernáculos ou Sukkot (outubro), quando os últimos frutos eram colhidos.

Qual a provável data mais correta?
Qual seria, portanto, a data certa para o nascimento de Cristo? O dia é difícil dizer, mas existe uma possibilidade quanto ao mês. Para descobrir qual seria, basta fazer uma análise de três fontes: o evangelho de Lucas, o calendário judeu e o livro de I Crônicas 24:10. Começando por Lucas, esse evangelista dá a informação de que, antes do nascimento de Jesus, houve o nascimento de João Batista. Em Lucas 1:5, 23-28, é dito que Isabel ficou grávida de João quando seu marido, Zacarias, ministrava no Templo como sacerdote. Ora, Zacarias trabalhava no chamado turno de Abias. O que seria isso?

I Crônicas 24 explicita como Davi dividiu os sacerdotes em 24 turnos de 15 dias cada um. Assim, os turnos cobririam o ano inteiro. O verso 10 diz que Abias ficou com o oitavo turno. Contando que eram dois turnos por mês e que o calendário judeu começava no mês de nisã que equivale a março/abril, entende-se que a segunda quinzena de tamuz (julho) seria o tempo do anúncio do nascimento de João Batista e o início da gestação de Isabel. Com nove meses de gestação, Isabel deve ter dado à luz no mês de nisã, que seria março/abril. E quanto a Jesus? Lucas 1:26-36 diz que Maria ficou grávida quando Isabel, sua parenta, estava no sexto mês de gestação, o mês de tibete (dezembro/janeiro). Logo, Jesus nasceria nove meses depois disso, no mês de etanim que seria setembro/outubro. Essa, portanto, seria uma hipótese bastante razoável para a época do nascimento de Jesus.

Veja vídeo com mais informações históricas sobre o nascimento de Jesus:



Rodrigo Silva (via Evidências de Deus)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Netflix lançará série “Messias”, que mostra a segunda vinda de Jesus nos dias atuais

No dia de Ano Novo, a Netflix libera a série "Messiah" (Messias), um thriller geopolítico que envolve a fé cristã sobre um dos eventos mais importantes relatados na Bíblia: a volta de Jesus.

A história, que tem a atriz Michelle Monaghan, estrela de “Missão Impossível - Fallout”, como a cética agente da CIA Eva Geller, narra como seria se a segunda vinda de Jesus acontecesse no atual clima político, social e cultural.

"Messias" é criado pelo escritor Michael Petroni ("O Ladrão de Livros"), dirigido por James McTeigue ("V de Vingança") e produzido por Mark Burnett e Roma Downey ("Filho de Deus") e Andrew Deane ("O dobro").

História
A agente Geller, interpretada por Monaghan, descobre informações sobre um misterioso homem messiânico, interpretado por Mehdi Dehbi. Seu personagem é do Oriente Médio e afirma ter sido enviado por Deus.

Quando o homem passa a realizar atividades que causam perturbações públicas, Geller começa a investigar de onde ele poderia ter vindo. Mas, enquanto ela continua sua busca, o homem misterioso acumula rapidamente seguidores que estão convencidos de que ele está realizando milagres. À medida que o tempo passa, a agente da CIA está determinada a descobrir se ele é uma figura divina ou um vigarista talentoso que desvenda a ordem mundial.

No trailer, os espectadores ouvem um oficial de inteligência israelense, um pastor do Texas e um refugiado palestino. Enquanto isso, a misteriosa figura messiânica viaja de Israel e da Síria para o Texas - tudo sem deixar rasto. "Ele surgiu do nada e não sabemos quem ele é", diz Geller a certa altura. "Ele está liderando pessoas desesperadas."

Quando perguntado sobre o que ele está fazendo, o personagem de Dehbi diz que está "entregando uma mensagem ... do meu pai". Em outro ponto do trailer, quando ele está algemado em uma sala de interrogatório, ele diz a Geller que está na Terra para fazer o "trabalho de Deus".

Esta série da Netflix é o mais recente projeto dos cineastas cristãos Burnett e Downey, a dupla de marido e mulher por trás da minissérie do History Channel "A Bíblia", o filme "Mulheres da Bíblia", a série da NBC "A.D. A Bíblia continua”, e a CBS mostra “Os Dovekeepers”. Além disso, Burnett é bem conhecido por seus sucessos na TV “Survivor”, “Shark Tank” e “O Aprendiz”.

"Messias" começará a ser transmitido em 1º de janeiro de 2020 (Guiame).

Assista o trailer:



Nota do blog: Infelizmente, a série acaba colaborando para reforçar mal-entendidos sobre a segunda vinda de Jesus. Cristo virá em glória e majestade, não tornará a pisar neste planeta (a não ser após o milênio) e não virá para salvar nem curar; virá para buscar os que aceitaram Seu plano de salvação. Muitas pessoas vivem despreocupadamente justamente porque não acreditam que Ele voltará como prediz a Bíblia. Uma série como essa tem potencial para ampliar essa indiferença e ainda aumentar as distorções sobre o Evangelho. Uma pena.

A segunda vinda de Jesus, mencionada mais de 300 vezes no Novo Testamento, é o ponto alto dos nossos ensinamentos. É essencial para nossa identidade como cristãos adventistas do sétimo dia. Essa doutrina está gravada em nosso nome e é parte fundamental do evangelho que somos chamados a proclamar. Sem a promessa de Sua vinda, nossa fé seria inútil. Essa gloriosa verdade nos dá um senso de destino e motiva nosso trabalho missionário. O grande plano da redenção terá seu ponto culminante na segunda vinda de Jesus. Sem o retorno de Cristo à Terra, Sua encarnação, morte e ressurreição não teriam nenhum efeito para nossa salvação.

Em Seu sermão profético, Cristo manifestou preocupação a respeito dos ensinamentos errados acerca da Sua segunda vinda, e advertiu os discípulos contra pessoas que viriam em Seu nome dizendo: “Eu sou o Cristo” (Mt 24:5, 23-26). Ele não quer que Seus seguidores sejam enganados. Por isso, indicou claramente de que modo virá (Mt 24:27). O relâmpago não pode ser escondido nem falsificado. Ele se manifesta e brilha em todo o céu de tal forma que todos podem vê-lo. Assim será a segunda vinda de Jesus. Nenhuma propaganda será necessária para chamar a atenção das pessoas com relação a ela. Todos os seres humanos, bons e maus, salvos e perdidos, e “até mesmo aqueles que O traspassaram” (Ap 1:7) verão a Sua vinda (Mt 26:64). 

Em Seu segundo advento, Cristo será visto com toda a Sua glória divina como “REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES” (Ap 19:16). Na encarnação, o Filho veio sozinho e sem nenhum esplendor externo. “Nenhuma beleza havia que nos agradasse” (Is 53:2). Mas desta vez Ele descerá com toda a Sua majestade e magnificência, rodeado por “todos os santos anjos” (Mt 25:31, ARC) e “com grande som de trombeta” (Mt 24:31, NVI). Se tudo isso não bastasse, os mortos em Cristo ressuscitarão para a imortalidade.

“Surge logo no Oriente uma pequena nuvem negra, aproximadamente da metade do tamanho da mão de um homem. É a nuvem que rodeia o Salvador, e que, a distância, parece estar envolta em trevas. O povo de Deus sabe ser esse o sinal do Filho do homem. Em solene silêncio fitam-na enquanto se aproxima da Terra, mais e mais brilhante e gloriosa, até se tornar uma grande nuvem branca, mostrando na base uma glória semelhante ao fogo consumidor. Sobre ela está o arco-íris do concerto. Jesus, na nuvem, avança como poderoso vencedor. […] Com antífonas de melodia celestial, os santos anjos, em vasta e inumerável multidão, O acompanham em Seu avanço. O firmamento parece repleto de formas radiantes – ‘milhões de milhões e milhares de milhares’ (Ap 5:11). Nenhuma linguagem humana pode descrever a cena, mente mortal alguma é apta para conceber seu esplendor” (Ellen G. White, O Grande Conflito, pp. 640, 641).

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Deus sempre usa o pregador?

Várias vezes vejo cristãos dizendo: “Ah, não importa quem é o pregador, Deus sempre irá usá-lo de alguma forma para edificar minha vida”. De onde surgiu isso? Essa visão ingênua e romantizada da igreja e do púlpito pode parecer muito bonita a alguns, mas, na verdade, é fruto de misticismo e não há nada de bíblico nela. O fato de alguém ocupar um púlpito não é salva-guarda contra falsos ensinos. Afirmar tal coisa é não apenas crer estar firme construindo sua casa sobre areia movediça (uma vez que Deus nunca prometeu essa segurança quanto aos sermões que ouvimos), mas também negar as diversas advertências bíblicas contra os falsos mestres, os quais pregam suas falsidades de dentro do próprio povo de Deus (Mt 7:15; 24:11; 2Co 11:13-15; Gl 2:3-5; 2Pd 2:1; 1Jo 4:1).

Ao contrário do que muitos acham, abrigar esse tipo de pensamento não acaba exaltando o púlpito como um local abençoado, mas, visto que tal visão não é bíblica, esse pensamento apenas rebaixa o púlpito cristão como um local místico, que pode ser ocupado por qualquer um, mesmo que não esteja sequer minimamente interessado e preparado para ministrar alimento sadio à igreja.

Púlpito não é brincadeira. Não é lugar para colocarmos alguém simplesmente por ser alguém incisivo ou simpático, “desenrolado” ou bem-intencionado, e sim pessoas que se preparem espiritual e intelectualmente para esta tarefa. Não inutilize a Palavra de Deus. Ela existe a fim de que possamos nos alimentar dela. Pôr no púlpito alguém que não está apto para alimentar a outros com a Palavra é uma forma de inutilizá-la, não só porque ela não estará servindo ao propósito para o qual foi dada, mas também porque ela mesma afirma que quem instrui o povo deve manejá-la bem (2 Tm 2:15) e que o Espírito reparte os dons conforme Lhe apraz. Uns possuem o dom de ser mestres, ou seja, instruir a igreja (1Co 12:7-11, 28); outros, não (1Co 12:28-29), portanto, não deveriam ocupar o púlpito.

Muitos podem achar essas palavras arrogantes, crendo que isso é pregar uma espécie de segregação. Curiosamente, essas pessoas não acham arrogante desconsiderar que o Espírito Santo é soberano acerca de como Ele reparte os dons e que não devemos cobiçar aquilo que Deus, em Sua infinita sabedoria, escolheu não nos dar. Tampouco acham arrogante subir a um púlpito para pregar suas próprias palavras, e não a Palavra de Deus. Sim, porque quem não estuda não poderá falar outra coisa senão suas próprias Palavras, pois Deus não costuma transmitir miraculosamente aquilo que podemos adquirir estudando. Em momento algum a Bíblia afirma que o Espírito Santo seria dado a fim de fazer de nós preguiçosos e pouco aplicados em buscar o sentido original do texto bíblico.

Se uma pessoa quer subir ao púlpito sem preparo espiritual e intelectual para alimentar a igreja, a única forma de amá-la e amar a igreja é não permitindo que a arrogância destruidora dela seja alimentada enquanto a igreja morre de inanição, pois é exatamente isso o que fazemos quando permitimos que tal pessoa pregue.

Quando digo que não devemos permitir isso, não é crucificando ou zombando do pregador ou dos púlpitos, numa revolta infantil e inoperante, mas cobrando amoravelmente dos líderes um alimento sólido, tanto deles quanto de quem eles colocam no púlpito. Cobrando cursos de capacitação para que a igreja tenha condições de ler, entender e comunicar efetivamente a Palavra de Deus, em vez de sermões melosos, ou fanáticos, ou sem pé nem cabeça, ou mesmo bem estruturados, mas cujas conclusões não procedem do texto bíblico.

Procure os líderes de sua igreja e converse humildemente sobre isso. Procure você também, na medida de suas possibilidades, estudar para cobrar. Muitos deles, quando veem que o nível dos membros é muito baixo, se acomodam e também passam a não estudar, criando um ciclo vicioso: líderes preguiçosos, incapazes de alimentar o povo; gerando um povo cada vez mais ignorante; que alimenta a preguiça desses líderes; que gera um povo cada vez mais ignorante; que… Não espere por ninguém; esse ciclo precisa ser rompido em algum ponto. 

Que seja você o ponto de rompimento com o desleixo para com a Palavra de Deus. Comece não admitindo sermões rasos, especulativos e que enfatizam o que a Bíblia não enfatiza, “negligenciando os preceitos mais importantes da lei” (= Palavra de Deus) (Mt 23:23). Comece parando de se resignar diante do engano supersticioso do “não importa quem pregue”. Importa, sim! Com amor e mansidão, exija Bíblia, cruz e evangelho nos púlpitos de sua igreja!

“Há homens que ficam nos púlpitos como pastores, professando alimentar o rebanho, enquanto as ovelhas estão morrendo por falta do pão da vida. Há longos e arrastados discursos grandemente compostos de narrativas de anedotas; mas o coração dos ouvintes não é tocado [e esse entretenimento pode ser tanto “liberal” como “extremista”]. Pode ser que os sentimentos de alguns sejam tocados, podem derramar algumas lágrimas, mas seu coração não foi quebrantado. […] O Senhor, Deus do Céu, não pode aprovar muito do que é trazido ao púlpito pelos que professam estar falando a Palavra do Senhor. Não inculcam ideias que sejam uma bênção para os que o ouvem. Alimento barato, muito barato é colocado diante do povo [novamente, esse alimento barato, água com açúcar, pode ser tanto “liberal” como “extremista”]” (Ellen G. White, Testemunhos para Ministros, pp. 336-337).

Vanedja Cândido (via Missão Pós-Moderna)

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

As três grandes surpresas no Céu

Martinho Lutero, o grande reformador do século XVI, em uma de suas reflexões, supôs que no Céu haveriam três grandes surpresas. A primeira seria ele próprio estar lá, a segunda seria encontrar pessoas que ele nunca imaginou que estariam lá, e a terceira seria não encontrar as pessoas que ele imaginou que estariam. Ao analisarmos essas três grandes surpresas do Céu propostas por Martinho Lutero, encontramos respaldo bíblico e no Espírito de Profecia.

1ª Grande Surpresa - A de estar lá 
Inúmeros cristãos afirmam corretamente, com base na morte de Cristo na Cruz do Calvário, que pagou a dívida dos nossos pecados (Jo 3:16; 1Co 13:3; 1Pe 2:24), que possuem absoluta certeza da salvação em Cristo Jesus. Mas, ao longo da sua jornada cristã, tropeçam e caem algumas vezes. Reconhecem que, mesmo tendo uma experiência com Jesus, ainda são limitados como seres humanos, lutando contra todo o pecado e as paixões e fraquezas, portanto ainda assim pecadores, mentirosos, avarentos, gananciosos, egoístas, egocêntricos, miseráveis, pobres... que fazem com que algumas vezes duvidem da sua salvação e sintam-se indignos de entrar no Céu. 

De fato, será uma grande surpresa a nossa chegada no Reino dos Céus! Quando lá chegarmos, olharemos para um lado e para o outro, e finalmente surpresos e sem acreditar muito, haveremos de constatar que finalmente chegamos aos céus. Será emocionante percebemos que completamos a carreira e conquistamos o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus, e podermos contemplar face a face o Senhor! Veja o que diz Ellen G. White:

“E qual é a felicidade do Céu senão ver a Deus? Que maior júbilo poderá ter o pecador salvo pela graça de Cristo, do que contemplar a face de Deus, e tê-Lo por Pai.” (Testemunhos Seletos, vol. 3, p. 266) 

Ellen G. White nos deixou alguns conselhos para estarmos no Céu:

"O caráter que manifestarmos agora decidirá nosso futuro destino. Encontraremos a felicidade do Céu pondo-nos em conformidade com a vontade de Deus, e se os homens se tornarem membros da família real no Céu, será porque para eles o Céu começou na Terra." (Filhos e Filhas de Deus, p. 361)

"Ninguém, nem mesmo Deus, nos pode levar para o Céu a menos que façamos o necessário esforço de nossa parte. Importa introduzirmos traços de beleza em nossa vida. Temos de excluir as desagradáveis características naturais que nos tornam diferentes de Jesus. Ao passo que Deus opera em nós o querer e o efetuar Sua boa vontade, cumpre-nos cooperar com Ele. A religião de Cristo transforma o coração. Torna a mente mundana do homem uma mente voltada para as realidades celestiais." (Testemunhos para a Igreja, vol. 5, p. 345)

"Nossa obra agora é preparar-nos para aquelas mansões que Deus está preparando para aqueles que O amam e guardam os Seus mandamentos. ... O Senhor Jesus ampliará toda mente e coração para o recebimento do Espírito Santo." (Olhando para o Alto, p. 145)

2ª Grande Surpresa - Encontrar pessoas que nunca imaginaria que estariam no Céu 
Será difícil esconder o espanto ao encontrar pessoas que, segundo nossa avaliação, jamais deveriam estar ali. Uma dessas pessoas espantadas é o profeta Isaías. Ele acaba de descobrir que o rei Manassés, filho do rei Ezequias, está entre os salvos. Manassés, como sabemos, foi um rei ímpio, que erigiu altares para praticar a idolatria, mandou sacrificar um dos seus próprios filhos, perseguiu os que eram fiéis ao verdadeiro Deus e, segundo a tradição, mandou serrar ao meio o profeta Isaías. Imagino o espanto do profeta Isaías com a presença de Manassés entre os salvos. "Como teria acontecido isso? Não teria havido algum engano?" Estêvão, o primeiro mártir, é outro que não esconderá sua admiração. Não muito longe dali, assentado à mesa, está alguém que ele já vira antes. Com um pequeno esforço de memória ele se lembrará de que, pouco antes de morrer, vira um jovem segurando as capas daqueles que o apedrejavam. Sim, é ele mesmo, Saulo, o feroz perseguidor dos cristãos! “Como será que ele chegou aqui?”, se perguntará Estevão. Essa segunda surpresa nos remete ao texto sacro: 

“O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração." (1 Samuel 16:7) 

Realmente seremos surpreendidos quando chegarmos ao Céu. Ellen G. White afirma: 

“Muitas vezes consideramos casos perdidos justamente aqueles que Cristo está atraindo a Si. (…) Haverá muitos no Céu, os quais seus vizinhos supunham que lá não entrariam. O homem julga segundo a aparência; mas Deus vê o coração.” (Parábolas de Jesus, pp. 71 e 72) 

Acredito que muitas pessoas que não professam a fé cristã, mas com corações puros, sinceros e piedosos, alcançarão misericórdia e redenção divina. O Salvador disse: 

“Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus." (Mateus 8:11) 

"Aqueles que Cristo louva no Juízo, talvez tenham conhecido pouco de teologia, mas nutriram Seus princípios. … Há, entre os gentios, almas que servem a Deus ignorantemente, a quem a luz nunca foi levada por instrumentos humanos; todavia não perecerão. Conquanto ignorantes da lei escrita de Deus, ouviram Sua voz a falar-lhes por meio da natureza, e fizeram aquilo que a lei requeria. Quão surpreendidos e jubilosos ficarão os humildes dentre as nações, e dentre os pagãos, de ouvir dos lábios do Salvador: 'Quando o fizestes a um destes Meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes'! (Mt 25:40). Quão alegre ficará o coração do Infinito amor quando Seus seguidores erguerem para Ele o olhar, em surpresa e gozo ante Suas palavras de aprovação!" (O Desejado de Todas as Nações, p. 638)

O que dizer do ladrão na cruz que horas antes estava perdido blasfemando contra o Senhor Jesus. Mas em um momento de lucidez, convencido pelo Espírito, nos últimos minutos de sua vida, entrega-se ao Salvador. Diz Ellen G. White:

“A Cristo, em Sua agonia na cruz, sobreveio um raio de conforto. Foi a súplica do ladrão arrependido. (…) Em Jesus ferido, zombado e pendente da cruz, vê o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Num misto de esperança e de agonia em sua voz, a desamparada, moribunda alma atira-se sobre o agonizante Salvador. 'Senhor, lembra-Te de mim, quando vieres no Teu reino.' (Lucas 23:42). A resposta veio pronta. Suave e melodioso o acento, cheias de amor, de compaixão e de poder as palavras: 'Na verdade te digo hoje, que serás comigo no Paraíso' (Lucas 23:43).” (O Desejado de Todas as Nações, pp. 749 e 750) 

Não se espantem se encontrarmos no Céu pessoas que confessavam uma fé diferente da nossa. Quão grande a surpresa encontrarmos pessoas que se diziam espíritas, budistas, muçulmanos, judeus, hindus... Muitos desses não conheceram a Cristo e nunca tiveram contato com o evangelho, mas que, sob a influência do Espírito Santo, sentiram necessidade de libertação e agiram de acordo com isso, serão salvas. É o que sugere esta citação de Ellen G. White: 

"Há, entre os pagãos, aqueles que servem a Deus sem o verdadeiro conhecimento, a quem a luz nunca foi levada por agentes humanos; entretanto não se perderão. Embora desconheçam a lei de Deus escrita, ouviram Sua voz a lhes falar por meio da natureza, e praticaram o que a lei requer. Suas obras mostraram que o Espírito Santo tocou o coração deles, e são reconhecidos como filhos de Deus.” (O Desejado de Todas as Nações, p. 638) 

A salvação é pela Graça e é um dom divino (Ef 2:8-10). Só o Senhor Deus conhece todas as coisas e sonda os nossos corações. Só o Senhor Deus pode saber a intenção de um coração em seu último suspiro de vida!!! 

“Alguns dentre os remidos terão aceitado a Cristo Cristo nas derradeiras horas da vida, e no Céu será ministrada instrução aos que, ao morrer, não compreendiam perfeitamente o plano da salvação. Cristo guiará os remidos para junto do rio da vida e revelará a eles tudo que, quando na Terra, não puderam compreender.” (Comentário Bíblico Adventista, vol. 5, p. 1.156) 

3ª Grande Surpresa - Não encontrar as pessoas que imagina que estariam no Céu 
Após serem apresentados uns aos outros, durante as bodas do Cordeiro, os salvos notarão que não se acham presentes muitas pessoas que tinham certeza de encontrarem lá. Há uma porção de pessoas ausentes, e eles gostariam de saber por que elas não estão lá, já que frequentavam regularmente as reuniões da igreja, davam o dízimo fielmente, eram vegetarianas, faziam muitas obras de caridade e tinham aparência de piedade. O que aconteceu com tais pessoas? Jesus afirmou: 

“Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?' Então eu lhes direi claramente: ‘Nunca os conheci. Afastem-se de mim vocês, que praticam o mal!’" (Mateus 7:21-23) 

Veja o que afirma Ellen G. White:

"Entre aqueles a quem sobrevirá amarga decepção naquele dia do ajuste de contas final achar-se-ão alguns que foram exteriormente religiosos, e que viveram aparentemente vidas cristãs. Mas o próprio eu se acha entretecido em tudo quanto fazem. Orgulham-se de sua moralidade, sua influência, sua capacidade para ocupar posição mais alta que outros, [e] seu conhecimento da verdade, pois pensam que essas coisas lhes granjeiam o louvor de Cristo. ... Eles são excluídos do Céu por sua própria inaptidão para nele habitar." (Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 82)

Estas e outras dúvidas serão respondidas no juízo durante o milênio, quando forem abertos os livros de registro e verificarmos que Deus foi absolutamente justo em cada caso. 

"Ao abrirem-se os livros de registro no juízo, é passada em revista perante Deus a vida de todos os que creram em Jesus. Começando pelos que primeiro viveram na Terra, nosso Advogado apresenta os casos de cada geração sucessiva, finalizando com os vivos. Todo nome é mencionado, cada caso minuciosamente investigado. Aceitam-se nomes, e rejeitam-se nomes. Quando alguém tem pecados que permaneçam nos livros de registro, para os quais não houve arrependimento nem perdão, seu nome será omitido do livro da vida, e o relato de suas boas ações apagado do livro memorial de Deus." (Maranata, o Senhor vem!, p. 90)

Tal juízo desfará toda a dúvida da mente dos redimidos acerca da malignidade do pecado e a justiça e o amor de Deus, de modo que o caráter de Deus ficará vindicado perante o Universo, e a compreensão de Sua justiça garantirá a estabilidade eterna da criação. 

Queridos, que a primeira grande surpresa do Céu se torne realidade em nossas vidas e das pessoas as quais amamos. Jesus Cristo veio para salvar a todos, mas, para conhecer as surpresas do Céu, é preciso fazer a escolha de servir a Deus e fazer a Sua vontade. Qual é a sua escolha? 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

A política da religião

O mundo atual vive um paradoxo: ao mesmo tempo, ele se distancia e se aproxima de Deus, e os próprios atores políticos que defendem a liberdade religiosa correm o risco de impor um padrão de religião que ameaça destruir essa liberdade. Ou seja, à medida que a sociedade se torna mais secularizada, ela se volta também para a religião, o que desperta uma tentativa autoritária de salvar os princípios da religião livre. Em tal contexto polarizado, tudo é politizado, inclusive a religião, que se mistura com o neonacionalismo e o populismo radical. Há uma estranha narrativa político-religiosa sendo escrita em nível mundial.
Com diversos tons e um raivoso discurso antiglobalista, o fenômeno “imprevisto” do novo nacionalismo afeta um grupo crescente de países do Ocidente e do Oriente, incluindo Áustria, China, Dinamarca, Estados Unidos, Filipinas, França, Hungria, Holanda, Índia, Indonésia, Inglaterra, Israel, Itália, Japão, México, Polônia, Rússia, Turquia e, claro, o Brasil. Os motivos que desencadeiam esse fenômeno são vários: crise econômica, imigração incontrolável, crescente desigualdade social, perda de valores morais, enfraquecimento das instituições tradicionais… No vácuo da incompetência, da insegurança e do medo, os populistas entram com seu discurso moralizante e hostil às elites, mas, longe de renovar a moral e beneficiar o povo, constroem uma nova ideologia e substituem uma elite por outra.
Se o patriotismo cívico é saudável, o nacionalismo fanático e ideológico pode se tornar sanguinário. Alguns dos piores crimes da história foram cometidos em nome da nação, inclusive a morte de Cristo (Jo 11:50). O nacionalismo do século 19 parecia inocente, mas se tornou um monstro genocida na primeira metade do século 20. Em uma entrevista ao jornal La Stampa publicada no dia 9 de agosto, o próprio papa Francisco, preocupado com o nacionalismo, reclamou: “Ouvimos discursos que lembram os de Hitler em 1934.” A religião cívica parece inofensiva, mas pode se transformar em uma fera perseguidora.
Nesse cenário, torna-se perceptível a silhueta da Igreja cortejando o Estado, ou vice-versa. Alguns países simplesmente intensificaram a relação já existente entre política e religião, enquanto outros buscam uma espécie de detox do ópio (anti)religioso representado pela ideologia que dominou boa parte do mundo nas últimas décadas. A reação pendular aos males causados pelo esquerdismo trouxe de volta um direitismo que, em longo prazo, pode causar males igualmente nefastos. O problema não é a interação amistosa entre religião e política, e sim a instrumentalização da religião para promover o radicalismo ideológico. O risco da mistura entre política e religião é politizar a religião e “religionizar” a política, o que é ruim para ambas.
O caso mais típico nessa linha é a realidade norte-americana, em que Donald Trump, um presidente improvável que percebeu os novos gostos políticos e usou amplamente as mídias sociais, foi saudado como uma espécie de “messias” pelos evangélicos. Não por acaso, ele recebeu o apoio de mais de 80% dos evangélicos brancos na eleição de 2016, apesar de mostrar comportamentos pouco afins ao evangelho. Uma pesquisa realizada em agosto do ano passado pela Associated Press em conjunto com o NORC Center for Public Affairs Research revelou que sete em cada dez evangélicos brancos do país apoiam o presidente.
Esses religiosos engajados na política se esquecem de que, para merecer respeito e ter sua voz realmente ouvida, eles precisam ter uma religião acima dos partidos políticos. Até porque vários estudos têm demonstrado que a afiliação política acaba influenciando as próprias escolhas religiosas, como argumenta Michele Margolis em seu recente livro From Politics to the Pews (The University of ­Chicago Press, 2018). Em outras palavras, não é só a religião que afeta a política; uma identidade partidária forte tem efeitos religiosos.
Para não ficar somente no caso dos Estados Unidos, vale fazer uma breve menção ao Oriente Médio. Se em muitos países é a economia que move a política, nos territórios do Oriente Médio é a religião que ainda manda. Em Israel, na Turquia e na maioria dos países da região, o pertencer à religião e o viver no território nacional se misturam, e o Estado faz parte do coração da identidade religiosa, conferindo significado e coesão social. A redefinição da religião pela nação-estado, ou às vezes a definição do estado-nação pela religião, faz surgir um nacionalismo religioso e uma homogeneização religiosa, ao contrário da Europa e da América, onde a separação entre Igreja e Estado possibilitou o pluralismo religioso.
Conforme Jocelyne Cesari explica no artigo “Unexpected Convergences: Religious Nationalism in Israel and Turkey”, publicado na revista Religions em 2018, as instituições políticas desses países não somente se apropriam da religião e a instrumentalizam, mas a “redefinem como parte da nova ordem social e política”. Para ela, “o nacionalismo religioso não é simplesmente o uso do islamismo ou do judaísmo para o controle político pelo Estado, mas, em vez disso, é um traço da nova psiquê dos cidadãos sob a nova ordem política, incorporado em comportamentos automáticos inculcados desde a infância”. Enfim, o aparato do Estado se encarrega de transformar o país em religião, ou a religião em nacionalidade.
O PERIGO DO AUTORITARISMO
Alguém pode argumentar que a religião e a política nunca estiveram realmente separadas, o que é verdade. Em alguma parte do mundo, em qualquer fase da história, as duas sempre caminharam juntas. Desde o momento em que o imperador Constantino supostamente viu no céu o sinal da cruz, acompanhado da inscrição “com este sinal vencerás”, e se ajoelhou em oração antes da batalha da ponte Mílvia sobre o rio Tibre, em outubro de 312, o mundo ocidental sempre teve que lidar com a tentação de unir religião e política. Ao comentar esse acontecimento, num capítulo do livro Politics, Religion and Political Theology (Springer, 2017), Michael Allen Gillespie escreveu: “De várias maneiras, desde aquela época, papas e imperadores, reis e cardeais, reformadores e príncipes, grupos confessionais e parlamentos têm lutado para encontrar maneiras de coexistir.”
Mesmo nos Estados Unidos, onde há uma separação constitucional entre Igreja e Estado, uma invenção tipicamente americana, uma vez que na Europa a relação Igreja-Estado era vista como algo natural, sempre houve uma mistura de interesses nas duas esferas. Embora “Deus” e o termo “divino” não apareçam explicitamente na constituição do país, tanto um quanto o outro são mencionados pelo menos uma vez em cada constituição dos 50 estados norte-americanos, num total de quase 200 menções, segundo um levantamento do Pew Research Center. Algumas constituições se referem ao “Criador”, “Senhor”, “Todo-Poderoso”, “Ser Supremo” e “Supremo Governante do Universo”. E sete estados (Maryland e outros seis) proíbem os ateus de exercerem cargos públicos, embora a lei não venha sendo aplicada, por temor de ferir a carta magna. Em Maryland (“Terra de Maria”), a crença em Deus ainda é um requisito até para testemunhas.
No prefácio do livro God’s Democracy (­Praeger, 2008), o historiador italiano Emilio Gentile escreveu: “Todos os presidentes dos Estados Unidos, desde os tempos do primeiro presidente, George Washington, terminaram seu discurso inaugural pedindo que Deus ­abençoasse a América, e nenhum presidente deixou de mencionar, pelo menos uma vez, sua fé no Deus Todo-Poderoso, na origem divina da democracia americana e na missão providencial da nação. O presidente americano é não apenas o líder político da nação, mas também o pontífice de sua religião civil.” Assim, o governo é visto como o protetor legal da liberdade religiosa, enquanto os políticos usam a religião e os religiosos usam a política para alcançar seus fins.
Que a mistura de religião e política está crescendo no mundo está bastante claro. A novidade é a intensidade dessa relação. Destacados atores (países) no teatro político estão indo na mesma direção ao mesmo tempo, e normalmente com virulência. Resultado? Assim como (e)ventos políticos decisivos do passado instigaram movimentos semelhantes em outras paisagens, a exemplo da Revolução Francesa, do fascismo e do comunismo, a guinada político-religiosa do momento também tem o poder de facilitar outros experimentos na mesma direção. Embora seja difícil prever se esse ciclo direitista será longo, o alinhamento em escala global pode representar risco.
No caso dos Estados Unidos, o ataque terrorista de 2001 claramente representou um momento apocalíptico na história mundial recente e motivou uma guinada na política da maior nação do planeta. A fragilidade do poderoso império despertou seu ímpeto contra as ideologias ameaçadoras. “O trauma que os americanos sofreram na tragédia de 11 de setembro foi não somente psicológico, existencial e político, mas, para os crentes, também religioso”, avalia Gentile. Para a população altamente religiosa dos Estados Unidos, o impacto foi enorme. Como poderiam os representantes de uma fé radical diferente humilhar a nação escolhida? Teria Deus abandonado a América? O que fazer para conter a religião rival? A estratégia foi a aproximação da ala mais fundamentalista do cristianismo americano com o segmento mais conservador da política de Washington, dando origem ao novo americanismo.
CHOQUE DE RELIGIÕES
Na visão profética adventista, os Estados Unidos vão liderar o alinhamento político-religioso de boa parte do globo no fim dos tempos, perseguindo os dissidentes (Ap 13:15-17). Para isso, terá que mudar sua retórica e abandonar sua ideologia da liberdade, pelo menos na prática. A nação posará de cordeiro, símbolo de Cristo, mas agirá como dragão, símbolo de Satanás (Ap 13:11). A lei humana será honrada acima da lei divina, e o resultado será o caos.
Ellen White, pioneira inspirada do movimento adventista, tinha uma preocupação com a interface entre religião e política no contexto americano, prevendo que a religião controlará a política, criando um monstro feroz. “A fim de formarem os Estados Unidos uma imagem da besta, o poder religioso deve a tal ponto dirigir o governo civil que a autoridade do Estado também seja empregada pela igreja para realizar os seus próprios fins”, ela escreveu (O Grande Conflito, p. 443).
Logo à frente, ela completa: “Quando as principais igrejas dos Estados Unidos, ligando-se em pontos de doutrinas que lhes são comuns, influenciarem o Estado para que imponha seus decretos e lhes apoie as instituições, a América do Norte protestante terá então formado uma imagem da hierarquia romana, e a aplicação de penas civis aos dissidentes será o resultado inevitável” (p. 445). Embora tanto a direita quanto a esquerda possam ser cooptadas pelo mal e se transformar em “bestas”, aqui o perigo vem da extrema direita religiosa, que existe desde o início do século 19, mas ganhou influência nas últimas décadas.
Na verdade, a nação norte-americana já vive um paradoxo: ao se ver na obrigação de defender o mito de que o país é o paradigma da liberdade religiosa, acaba se posicionando como a guardiã global da religião livre e forçando um conformismo ao seu padrão. Assim, a religião passa a ser um elemento definidor por excelência de quem é amigo e digno de confiança. No livro Beyond Religious Freedom (Princeton University Press, 2015), Elizabeth Shakman Hurd discorre sobre esse tema e afirma: “O discurso da liberdade religiosa descreve e legalmente define indivíduos e grupos em termos religiosos ou sectários e não com base em outras afinidades e relações – como, por exemplo, afinidades políticas, laços históricos ou geográficos, vizinhança ou afiliações ocupacionais, redes de parentesco, vínculos geracionais ou fatores socioeconômicos. Ao posicionar a religião como prioritária em relação a essas identidades e afiliações, o modelo dos direitos religiosos aumenta a importância sociopolítica do que as autoridades nacionais ou internacionais designam como religião.” Assim, o critério para julgar alguém é o religioso, a chamada “ecologia de afiliação”.
No fim, o que vai desencadear a fúria imperial norte-americana contra os dissidentes? Um conjunto de fatores, mas com destaque para a religião que não se alinhar com a ideologia político-religiosa dominante. De acordo com a controvertida tese de Samuel Huntington a respeito do “choque de civilizações”, as diferenças mais importantes entre os povos no mundo pós-guerra fria não mais são “ideológicas, políticas nem econômicas”, mas culturais. E a chave para definir o elemento cultural seria a religião. Em grande medida, ele argumentou em The Clash of Civilizations (Touchstone, 1996), “as principais civilizações da história humana têm sido intimamente identificadas com as grandes ­religiões do mundo; e pessoas que compartilham etnia e linguagem mas diferem em religião podem massacrar umas às outras”. No caso, haverá um choque de religiões. A percepção do risco de descristianização da América e a ameaça de islamização do mundo são elementos importantes nessa trajetória profética. O processo pode ser longo, com idas e vindas, mas chegará aonde a profecia sinaliza.
A ligação entre religião e política ou Igreja e Estado nunca termina bem. Não importa se o Estado é de direita ou esquerda, em algum momento ele se tornará Leviatã, o monstro imperial que age como soberano absoluto. A metáfora do Leviatã como um governo central que concentra todo o poder em torno de si e controla as decisões da sociedade, a fim de evitar o caos social ou situações chamadas de “estado de natureza”, é associada ao livro homônimo de Thomas Hobbes lançado em 1651. Porém, o simbolismo do verdadeiro Leviatã vem da Bíblia. Os monstros ou bestas de Apocalipse 13 são poderes político-religiosos cooptados pelo dragão (Satanás) para promover sua agenda de intimidação e perseguição. O objetivo é desviar o foco da adoração de Deus para si mesmo. Portanto, a política local ganha uma dimensão maior ao ser vista como um estágio na geopolítica cósmica.
Em síntese, o mundo político-religioso está mudando. A ideia de que a religião desapareceria do mapa diante das forças modernistas era compartilhada por grandes pensadores sociais do século 19. Hoje, eles perceberiam a complexidade da sociedade e explicariam as coisas de maneira diferente. A aproximação entre religião e política no momento pode ser apenas a soma de coincidências sociopolíticas, mas pode também ser a acentuação de um movimento global com futuras implicações proféticas. Sem sensacionalismo e apavoramento, os cristãos conscientes observam os acontecimentos e mantêm a esperança de que, depois do caos político-religioso, virá um reino de paz.
Marcos De Benedicto (via Revista Adventista)