sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O que fazer quando explode um escândalo no meio cristão?

No meio cristão volta e meia somos surpreendidos por um escândalo. Como nossa fé prega a santidade e o apego inegociável aos valores éticos, ficamos profundamente chocados quando tomamos conhecimento de falhas morais ou atitudes reprováveis de algum irmão ou irmã – seja de nosso círculo próximo de relacionamentos, seja alguém com mais notoriedade. É compreensível. O pecado nos choca, confronta, entristece, abate, revolta. Nessas horas, nosso senso de justiça nos leva a querer sangue, exigir punição dos pecadores, hereges e canalhas. A minha pergunta é: como exatamente devemos proceder quando explode um escândalo no meio cristão?

Pastores que falharam em sua santidade, irmãos que pecaram na sexualidade, líderes que desonraram pai e mãe, cristãos famosos que disseram ou fizeram algo estranho em público, bons pregadores que passaram a pregar heresias… a lista das causas de um escândalo entre nós é interminável. No centro de todas, uma única causa: pecado. Deus é santo e não tem parte com o pecado, é certo. Mas Deus também é gracioso e sua misericórdia dura para sempre. Diante dessa realidade, eis minha sugestão sobre como devemos nos posicionar diante de um escândalo:

1. Não tenha prazer no escândalo
Quedas morais, pecados e heresias são tragédias. São desastres. Não são motivo de piada. Devemos tratá-los como o horror que representam: com lamento, choro e profunda tristeza. O pecado jamais deve se tornar motivo para tricotadas, fofocadas, “você soube da última?” ou disse-me-disse. Não faça piada com o horror. Não se deleite na tragédia. Isso é papel do diabo.

2. Fale com Deus
Converse sobre o escândalo com as demais pessoas apenas o estritamente necessário. A pessoa com quem você deve conversar intensamente e longamente sobre o escândalo é o Senhor. O nome disso é oração. Portanto, ore a Deus, peça misericórdia sobre a vida dos envolvidos, clame por arrependimento e restauração. Ficar de tititi com as pessoas, pessoalmente ou nas redes sociais, não adianta absolutamente nada; orar adianta tudo.

3. Não conclua antes de saber de todos os fatos
Cansei de ver escândalos em que as pessoas criam mil conjecturas acerca do que houve sem saber direito as informações. “Ouviram falar” e, por causa disso, tomam comentários colhidos ao vento como verdades absolutas. Para emitir uma opinião, assumir uma postura, tomar lados, se posicionar, antes é preciso ter total conhecimento da situação. Nesse sentido, uma das virtudes do fruto do Espírito é essencial: a paciência. Espere. Não corra para emitir uma opinião. Deixe a verdade ser exposta totalmente e, só então, se posicione.

4. Olhe para os culpados com firmeza, mas com misericórdia
A ética de Cristo não é a da punição, é a da restauração. Como filhos de Deus, o desejo do nosso coração deve ser sempre ver os que erraram arrependidos e restaurados espiritualmente. Não queira mandar os hereges e os pecadores para o inferno, queira vê-los de lágrimas no pó e coração sinceramente compungido. Como embaixadores do reino daquele que veio para os doentes, devemos ser médicos da graça e não carrascos da desgraça. Uma vez que se comprove a culpa, seja movido por compaixão pela vida dos culpados, para que sejam resgatados do poço de trevas em que se enfiaram e que, se tiverem de arcar com as consequências humanas de seu pecado, que pelo menos sua alma seja salva.

5. Entenda que a disciplina dos culpados é necessária
Determinados tipos de escândalos vão gerar consequências no plano humano. Um pastor que adultera precisa ser afastado do cargo até que sua vida esteja restaurada. Um pregador que diz uma heresia precisa se retratar em público. Um líder que desonra pai e mãe tem de ser tratado fora dos púlpitos e cargos antes de continuar liderando. Uma pessoa qualquer que comete um crime deve ser punida de acordo com o que prevê o código penal, mesmo que esteja arrependida e tenha sido perdoada por Deus: há consequências no plano humano para nossos atos, e devemos enfrentá-las.

6. Olhe para as vítimas com compaixão
Esposas traídas, pessoas enganadas, ovelhas feridas… muitas pessoas ficam machucadas quando explode um escândalo. As vítimas devem ser abraçadas, devemos chorar com elas, conduzi-las a perdoar quem as machucou, amparar seu coração em frangalhos. Nunca se aproxime dos feridos para obter mais detalhes sobre o escândalo ou algo assim. O nosso papel é amar, sofrer com quem sofre e auxiliar na sua restauração física, emocional e espiritual.

7. Lembre-se dos seus próprios pecados
Jesus presenciou um escândalo. Mais do que isso: ele foi instigado a emitir um parecer sobre o escândalo. Afinal, uma mulher fora flagrada em adultério. Adúltera! Pecadora! Escandalosa! Opróbrio! Digna de apedrejamento aos olhos da Lei! Mas a resposta de Jesus aos que queriam apedrejá-la foi que cada um olhasse para si. Afinal, em maior ou menor intensidade, todos temos telhado de vidro. E isso Ele nos diz, hoje: olhe para si. Quando ocorre um escândalo, devemos agir com humildade, sem nos considerarmos megassantos, pessoas acima do bem e do mal. Mais do que jogar pedras, precisamos usar o escândalo alheio para ver como nós mesmos somos frágeis e passíveis de errar. Se há algo de positivo no escândalo é o alerta que ele lança sobre nós, para que, estando de pé, não caiamos. Vigie sempre.

8. Seja parte da solução e não do problema
Que tudo o que você pensar, falar ou fizer em relação ao escândalo seja para edificação das pessoas e para a glória de Deus. Fora disso, o melhor é não fazer nada, manter-se calado e ficar quieto.

Meu irmão, minha irmã, infelizmente sempre haverá escândalos entre nós, pois vivemos debaixo do pecado. Devemos saber como falar e agir no momento que isso acontecer, sempre com amor, graça e palavras temperadas, chorando com quem chora e pacificando. Nosso papel não é chutar quem está caído. Muito menos execrar vítimas. Exerça misericórdia. Busque a justiça, sim, mas que seja em amor e não com ira, vingança, ódio, destempero. Fale e faça aos outros como gostaria que falassem e fizessem a você se a queda fosse sua. E, acima de tudo, ore a Deus. Pois Ele é quem tudo sabe, quem exerce a perfeita justiça e quem governa a nossa vida como Justo juiz e Príncipe da paz. Como ordena a Palavra do Senhor: 
“Amados, nunca se vinguem; deixem que a ira de Deus se encarregue disso, pois assim dizem as Escrituras: ‘A vingança cabe a mim, eu lhes darei o troco, diz o Senhor’. Pelo contrário: ‘Se seu inimigo estiver com fome, dê-lhe de comer; se estiver com sede, dê-lhe de beber. Ao fazer isso, amontoará brasas vivas sobre a cabeça dele’. Não deixem que o mal os vença, mas vençam o mal praticando o bem.” (Romanos 12:19-21)
Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari (via Apenas)

Nota do blog: Deixo aqui mais dois singelos conselhos inspirados:
"Ao procurarmos corrigir os erros de um irmão, o Espírito de Cristo nos levará a resguardá-lo tanto quanto possível até das críticas dos próprios irmãos, quanto mais de censura do mundo incrédulo. Nós mesmos somos falíveis, e necessitamos da piedade e do perdão de Cristo, e da mesma maneira que desejamos que Ele nos trate, pede-nos que nos tratemos uns aos outros." (O Desejado de Todas as Nações, p. 312)
"Que revelações viriam aos homens se a cortina fosse aberta e vocês pudessem ver o resultado de seu trabalho ao lidar com os que erram e que necessitam do mais adequado tratamento para não serem desviados do caminho!" (Liderança Cristã, p. 62)

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Vamos falar de traição?

Ela está entre nós há muito tempo, mas nem por isso nos acostumamos com sua realidade. A notícia da infidelidade no casamento ainda choca, traumatiza, entristece e fragmenta famílias em todo o mundo. Porém, se ela é tão prejudicial, por que ainda faz parte do cotidiano da sociedade?

Com certeza, ninguém acorda obstinado de um dia para o outro e diz: “Vou trair meu cônjuge hoje!” Esse é um processo lento que pode ter contornos diferentes para homens e mulheres. Isso é o que revela uma pesquisa conduzida pela professora Mirian Goldenberg, do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O estudo, que vem sendo realizado desde 1989, já abrangeu cerca de 1.300 pessoas de ambos os sexos.

Segundo a investigação, os homens ainda traem mais que as mulheres – 60% dos homens pesquisados confessaram a traição, contra 47% das mulheres. Porém, as mulheres traem mais na atualidade do que há 20 anos. O que mais motiva a mulher a trair é a insatisfação com o marido ou a vingança por uma traição que tenha sofrido. Ela acaba procurando em outro homem um amigo, companheiro, cúmplice, e raramente consegue manter envolvimento com dois homens por muito tempo; tende logo a uma definição.

Em contrapartida, quando o homem trai, ele pode passar anos com uma vida dupla, convivendo “tranquilamente” com a esposa no âmbito social e buscando na amante a satisfação sexual. A maioria deles considera que a própria natureza masculina é a responsável pela traição. Essa ideia também é sustentada pela sociedade, que é muito mais tolerante com a traição masculina do que com a feminina. As mulheres experimentam mais repressão em questões de cunho sexual do que os homens.

A traição pode acontecer de várias formas, com danos igualmente consideráveis. Vale atentar, pelo menos, para três tipos de traição: a imaginária (vivenciada na fantasia da pessoa, sem que haja, necessariamente, a participação consciente do outro), a virtual (muito popular em nossos dias, podendo incluir desde o acesso à pornografia online até um relacionamento virtual com uma pessoa específica) e a real (um estágio mais avançado do que as anteriores e que inclui o contato físico). À medida que a traição avança, o parceiro vai se esvaziando na vida do outro. Quando menos se percebe, ele não está mais lá. Ainda que os dois dividam a mesma casa, caminham silentes em sua solidão.

Tanto traidor como traído sofrem. O primeiro experimenta perda da integridade, forte sentimento de culpa, angústia, medo de ser descoberto e confusão de sentimentos. O segundo sente dor, decepção, rejeição, tristeza, medo quanto ao futuro, perda da autoestima, raiva e desespero, entre outras coisas. Ambos podem experimentar depressão e precisar de ajuda. Os danos tendem a aumentar quando crianças estão envolvidas.

Muitas vezes, o relacionamento extraconjugal, que no momento de euforia trouxe a sensação de vivacidade, parece algo deslocado, que não se encaixa na vida da pessoa. É como beber água quando se está com sede: tão logo a sede passe, não faz sentido ficar perto do bebedouro. E acomodar um bebedouro na vida nem sempre é fácil; pode dar muito trabalho. É por isso que a traição virtual tem sido popular. Ela possibilita passos mais curtos antes do envolvimento concreto. Esses passos, contudo, não são menos perigosos. Sem perceber, a pessoa está construindo uma armadilha para si mesma, da qual terá muita dificuldade para se desvencilhar.

Seja fiel a um princípio de vida, e não apenas a uma pessoa, pois, neste caso, a chance de traição surgirá quando ela não estiver presente. Se você for fiel a um princípio de vida, não importa a oportunidade nem a ocasião, será mais fácil resistir. A fidelidade por princípio independe do outro. Se necessário, busque ajuda, pois, como disse alguém, “a traição pode ser questão de escolha ou oportunidade, mas, se persistir, torna-se uma questão de caráter”. 

Talita Borges Castelão (via Revista Adventista)

“No contexto religioso, a infidelidade parece denunciar uma falta de compromisso não somente com o casamento, mas também com Deus, com a religião e seus preceitos. Para o casal religioso, a reconstrução do relacionamento após um caso de infidelidade exige que não somente a dinâmica da relação seja revista, mas também a interação de cada um dos membros do casal com Deus, pois o perdão de Deus é tão importante quanto o perdão do cônjuge traído.” (Claudia Bruscagin - Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca, p. 59 e 60)

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Decepcionado com a igreja? Sair ou ficar?

Há um certo tempo, algumas pessoas têm me procurado com a mesma inquietação. Ao conversar com muitos, tenho percebido bastante gente que se encontra em uma espécie de crise de identidade cristã. Alguns chateados com suas igrejas e outros chateados com seus irmãos.

Para alguns, as queixas sempre circundam em relação a falta de afetividade entre irmãos da comunidade que participam, outros ainda tem tido uma tremenda sensação de incapacidade em relação à pressão imposta para atingir a perfeição moral, alguns enfrentam o peso de ter que sempre agradar um ou outro para ser aceito, tem de esconder o cansaço em relação a líderes exigentes, apresentam uma preocupação com a inadequação comunitária, sentem-se isolados dos grupos de expressividade dentro da igreja, e o mais comum é que muitos possuem uma insatisfação com o mal comportamento de alguns irmãos, ou seja, gente que é machucada por causa de outros.

Alguns até dizem que pensam em se desligar de suas comunidades, mas temem não encontrar um novo circulo de amigos, temem se sentir abandonados, outros não admitem, mas não querem perder seus prestígios titulares e seus cargos. Tomar uma decisão envolve muita coisa, muita gente, e nem sempre sabemos por onde andar.

Sair ou ficar?

Antes de tomar qualquer decisão, precisamos lembrar que uma igreja não pode ser julgada apenas por causa do comportamento de alguns ou de determinado pastor e líder. É comum querermos botar a culpa do nosso desapontamento pessoal no erro do outro. Lembremo-nos de que Jesus jamais disse que deveríamos procurar relações para sermos amados, mas nos mandou amar e perdoar ativamente, inclusive os que nos chateiam. Amar quem nos ama é fácil, mas amar na dificuldade é um milagre de Deus.

Se procuramos uma comunidade somente para nos sentir bem o tempo todo, estamos na verdade atrás de “produto religioso” e acabamos nos relacionando com a igreja de forma comercial, ou seja, a única coisa que nos liga a nossa igreja é um interesse pessoal. A igreja não é um ambiente neutro. Amar não implica em buscar a satisfação pessoal, mas sim em participar do promoção do bem comum.

Desistir de ir na igreja simplesmente porque “não concordamos com atitudes de alguns” é abandonar os demais irmãos nas mãos dos lobos da religião.

Outro ponto importante é saber que o espírito de indiferença, de egoísmo, de falta de sensibilidade é algo que é proveniente da natureza do ser humano, não é uma exclusividade dos ambientes religiosos, mas todos os lugares que pisamos, vamos encontrar algo do tipo.

Desistir da igreja é desistir do outro. Não podemos confundir o caráter falho dos seres humanos com o caráter perfeito de Deus. Nosso convívio em comunidade depende de entendermos que também fazemos parte do corpo. Quanto aos problemas relacionados a gente, a única forma de resolver é ser parte da solução também, sentar, conversar e, em amor, examinar. Que o Senhor nos dê a graça de identificar a sua vontade, que seu amor nos alivie o peso, e que a consciência de Cristo nos ajude a discernir e decidir. Amém.

Ronaldo Barra (via facebook)
"Embora existam males na igreja, e tenham de existir até ao fim do mundo, a igreja destes últimos dias há de ser a luz do mundo poluído e desmoralizado pelo pecado. A igreja, débil e defeituosa, precisando ser repreendida, advertida e aconselhada, é o único objeto na Terra ao qual Cristo confere Sua suprema consideração." (Ellen G. White - Testemunhos Seletos, vol. 2, p. 355)
Assista também o vídeo abaixo do prof. Leandro Quadros:

Estamos cheios de estar vazios

Estamos todos atarefados, abarrotados, faltando horas nos dias para cumprir com os compromissos, vendo o tempo passar mais depressa. Mas, o tempo é o tempo e ele sempre passou na mesma velocidade, nos mesmos sessenta segundos por minuto sem acelerar um milésimo sequer.

Nós temos uma vida mais rica, com mais cultura, mais tecnologia (tecnologia que nos poupa tempo, inclusive), mais opções de lazer, mais acesso a viagens, mais conectividade, mais possibilidades e oportunidades… E menos tempo.

Que contrassenso! Diz o ditado que menos é mais e, no que me diz respeito aos tempos atuais, mais tem se tornado menos. Bem menos!

Estamos cheios de estar vazios. Não importa o que alcancemos na vida, existe uma insatisfação generalizada acometendo a humanidade. Pensei ser sinal do consumismo, do materialismo desenfreado, individualismo e outros ismos que tanto nos enchem, mas não nos preenchem.

O que foi que aconteceu conosco? O que está acontecendo com nossos dias? Por que temos tanto e, ainda assim, nos sentimos tão vazios, tão cansados, tão exauridos e seguimos em passos forçados, lentos e trôpegos? Nesse mundo caótico em que nos encontramos, estamos todos padecendo do mesmo mal, cada um à sua maneira.

Para preencher esse vazio da alma humana, muitos procuram a companhia de outras pessoas. Mas o companheirismo que os amigos podem oferecer é muito pequeno para preencher o espaço infinito do coração humano.

Outros se dedicam diuturnamente a acumular riquezas. Mas o dinheiro também não resolve o problema. Podemos conquistar fortunas incalculáveis, e ainda que fosse possível conquistar o mundo todo, restaria sempre a ânsia de novas e maiores aquisições, nessa sede insaciável de preencher o vazio infinito do coração. Sexo, casamento, educação são outras alternativas que o homem procura, na tentativa de encontrar realização total, mas que produzem sempre o mesmo resultado: uma inexplicável sensação de vazio e insuficiência.

A solução que todos buscamos não está neste mundo. Se estivesse, a humanidade já a teria encontrado. A satisfação plena é produto da segurança absoluta e da paz interior que só Deus pode dar. Só um Deus infinito pode preencher, com o Seu amor, o espaço infinito do coração humano. E esta conquista espiritual está ao alcance de todos os que, reconhecendo a sua insuficiência, aceitam o presente que o Céu oferece – a vida eterna, através de Jesus Cristo: “Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 6:23).

A salvação, portanto, é um presente que Deus oferece ao homem. Não se pode pagar esse Presente. Tudo o que se tem a fazer é aceita-Lo.

Podemos aceita-Lo assim como estamos, mas jamais permaneceremos como estamos. Porque Ele irá transformar-nos. Irá operar em nós “tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade” (Fp 2:13).
"Temo que estejamos em perigo de, pela angústia, fazer jugos para nosso pescoço. Não nos preocupemos, pois assim tornamos muito severo o jugo e pesada a carga. Façamos tudo que pudermos, sem nos preocupar, confiando em Cristo. Estudemos Suas palavras: 'Tudo o que pedirdes na oração, crendo, o recebereis' (Mt 21:22). Essas palavras são o penhor de que tudo quanto um onipotente Salvador pode conceder será dado aos que nEle confiam. Como mordomos da graça do Céu, devemos pedir com fé, e então aguardar confiantes a salvação de Deus. Não devemos tomar-Lhe a dianteira, tentando, em nossas próprias forças, conseguir aquilo que desejamos. Em Seu nome devemos pedir, e então agir, crendo em Sua eficiência." (Ellen G. White - Mente, Caráter e Personalidade, vol. 2, p. 466)

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Carta aos que cristãos que magoam

Eu e você somos cristãos. Em teoria, deveríamos fazer pelo próximo o que gostaríamos que fizessem por nós. Amar ao próximo como a nós mesmos. Mas existe um porém: eu e você somos humanos – e essa é a parte horrível da história. Porque eu e você fazemos coisas muito, mas muito distantes das que Jesus idealizou para nós. Uma delas é magoar pessoas. Muitas vezes, as pessoas que mais amamos. Explicar isso dentro da fé cristã é inexplicável. 

Pelo dicionário, “magoar” é “contristar”, “entristecer”, “ofender”. Fugindo do "academiquês", magoar é pegar o coração de uma pessoa e esmagá-lo entre nossos dedos até que ele tenha sido transformado numa massa disforme de dor, lágrimas e tristeza. Lamento informar: eu e você fazemos isso com as pessoas com uma frequência bem maior do que gostaríamos. Na maioria das vezes, sem a intenção de magoar. Mas magoamos. Por palavras, atos, ações, atitudes, omissões, ausências, escritos, imagens. Tomamos atitudes que achamos muitas vezes que vão resolver problemas ou até mesmo por não saber resolver de outro jeito… mas acabamos ferindo o próximo. E ferir o próximo é a coisa menos cristã que há.

Pedro magoou Jesus. Ele foi egoísta e, para se livrar de sentir dor e sofrer, deu as costas e traiu a pessoa mais importante de sua vida. Marcos 14:72 nos fala de como Pedro se sentiu quando caiu em si e percebeu o que tinha feito: 
“E logo cantou o galo pela segunda vez. Então, Pedro se lembrou da palavra que Jesus lhe dissera: Antes que duas vezes cante o galo, tu me negarás três vezes. E, caindo em si, desatou a chorar."
Esse é exatamente o problema de magoar. É um ato que nunca vem acompanhado de dor só para quem foi magoado. Quem magoa, se ama quem magoou, é tomado de um sentimento de dor lancinante. Mateus 26:75 vai além e mostra o tipo de sentimento que vem embutido nesse choro causado pela dor descontrolada: 
“E, saindo dali, chorou amargamente." 
Magoar nunca é indolor. É amargo. Deixa um gosto de podre na boca.

A Bíblia descreve algumas características que a mágoa provoca. Em Salmos 6:7, diz o salmista: 
“Já os meus olhos estão consumidos pela mágoa, e têm-se envelhecido por causa de todos os meus inimigos." 
Já Jó 17:7 afirma: 
“Pelo que já se escureceram de mágoa os meus olhos, e já todos os meus membros são como a sombra." 
Mágoa escurece os olhos, consome o olhar. E se nós formos a Mateus 6, veremos que
“A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz; Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!“
Ou seja: a mágoa rouba a luminosidade do teu corpo e te mergulha em trevas.

Meu irmão, minha irmã, geralmente quando somos magoados isso nos chama muita atenção. Mas raramente nos damos conta de que magoamos alguém. E quando isso acontecer, só lhe resta um caminho: o da humilhação. Humilhe-se.

No léxico do mundo, humilhar-se é rebaixar-se. No do Céu, é elevar-se. Jesus lavou os pés dos apóstolos. Se você magoou alguém, não deixe por isso mesmo. Lave os pés dessa pessoa. Peça perdão. Chore amargamente. Deixe o gosto do fel descer pela sua garganta. Abandone o orgulho besta que não serve de nada na vida de um servo de Deus. E quando aquele ente magoado puser a mão sobre o seu ombro e disser “tudo bem, eu te perdoo”… meu querido, minha querida, você terá vivido uma das experiências mais sublimes da vida cristã.

Você magoou alguém recentemente? Pois então pegue uma bacia com água, um sabonete e uma toalha e comece a ser cristão.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Maurício Zágari (via Apenas)
"Se ofendestes a vosso amigo ou vizinho, deveis reconhecer vossa culpa, e é seu dever perdoar-vos plenamente. Deveis buscar então o perdão de Deus, porque o irmão a quem feristes é propriedade de Deus e, ofendendo-o, pecastes contra seu Criador e Redentor. O caso será levado perante o único Mediador verdadeiro, nosso grande Sumo Sacerdote, que 'como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado', e que Se compadece 'das nossas fraquezas' (Hb 4:15), sendo apto para purificar-nos de toda mancha de iniquidade." (Ellen G. White - Caminho a Cristo, p. 37)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Não poste tudo. Guarde seus próprios segredos

O despertador do celular tocou. Retruquei comigo mesma que queria poder dormir mais uns minutinhos. No escuro, apalpei a cabeceira da cama em busca do interruptor do abajur. Como estava num hotel, não me lembrava onde acendia a… achei!

Acendi a luz pra ver se o brilho me ajudava a despertar. Coloquei uma perna para fora da cama na tentativa de me motivar a abandonar aquele macio edredom. Que sono! O dever do trabalho me chamava, então não podia me dar ao luxo de dormir até tarde.

Caminhei até o banheiro e me assustei com meu próprio reflexo no espelho. Cara amassada, olheira, cabelo bagunçado… “É o que tem pra hoje”, pensei. Segui, então, o ritual matinal: fiz meu culto, tomei banho, arrumei o cabelo, passei uma leve maquiagem corretiva que disfarçou muito bem o cansaço do meu rosto, troquei o pijama por uma roupa social, e o chinelo por um salto alto. Parecia outra pessoa, mas, por dentro, eu continuava com o mesmo sentimento: “Tô muito cansada, não queria sair da cama por nada”.

Abri a cortina do quarto e deixei a luz do sol entrar. Vi meu reflexo no espelho e pensei: “Uau, essa luz me valorizou”. Nesse momento, meu corpo já se sentia mais desperto, e comecei a ver vislumbres de um bom humor. Então, peguei meu celular e filmei um “bom dia” bem pleno para os meus seguidores, como se já tivesse acordado arrumada e animada.

Em pé, perto na janela, vi um cenário contrastante. De um lado, uma bela paisagem composta por árvores, céu azul e prédios imponentes. Do outro, tetos manchados de comércios antigos e casas com obras em andamento. Adivinha qual deles virou foto?

Seleções diárias
Não precisamos nem de um dia inteiro para perceber que a vida virtual, a começar pela nossa, é um recorte de realidades. Ainda que a gente só poste verdades, são apenas metades. Eu poderia fazer uma grande lista sobre os perigos da nossa exposição na rede, mas quero destacar um que adoece a alma de quem está do lado de cá e do lado de lá da tela: acreditar que a vida pode ser recortada.

Recortes de realidade são vistos com normalidade, principalmente por se tratarem de seleções verídicas. Quem se sentiria culpada por postar sobre o buquê de flores que ganhou do namorado pela manhã? Ninguém. Mas quem ousaria postar que o buquê chegou como tentativa de reconciliação após uma briga feia entre os dois? O buquê veio, isso é fato, mas não é tudo.

Mas parece que ao deslizar o dedo na timeline nosso cérebro “buga”. Vemos os lindos recortes de realidade das outras pessoas como se fossem resumos de uma vida inteira. Nesse instante, nossa realidade integral, sem cortes nem censura, entra em contraste com o recorte perfeito dos segundos vividos por alguém. E isso adoece o corpo e a alma. Começa, então, um ciclo doentio, onde um busca provar para o outro o quão interessante sua vida também é.

A exposição cresce juntamente com a depressão. Pode parecer estranho, mas a falta de amor-próprio costuma gerar excesso de autodemonstração. No fundo, essa é uma tentativa desesperada de autoafirmação.

Nessas condições, é comum a gente ver pessoas divulgando informações íntimas, promovendo sua sensualidade em selfies sedutoras, exibindo suas posses e expondo detalhes da sua vida que deveriam ser preservados.

Não somos artigos públicos e de livre acesso, então por que tantas vezes nos colocamos nessa condição? A Bíblia diz que “o mexeriqueiro espalha segredos, mas a pessoa séria é discreta” (Provérbios‬ ‭11:13‬). O texto se refere às pessoas que gastam tempo falando da vida dos outros, mas esse princípio nos leva também a refletir sobre guardar os nossos próprios segredos, atentar pela nossa própria segurança e preservar a nossa própria identidade.

Emanuelle Sales (via Imagem & Semelhança)

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Você quer ouvir a voz de Deus?

Você quer ouvir a voz de Deus? Deseja ardentemente que ele lhe fale e transmita profundas realidades espirituais, que se apliquem de forma prática à sua vida? Será que você tem feito de tudo para que Deus revele sua vontade, explicando aquilo que você não está entendendo, mas… não tem ouvido nada? O silêncio é total? Você vai às Escrituras e parece que nada se aplica à sua vida? Se é o caso, permita-me dizer-lhe o que você precisa fazer para ouvir a voz do Senhor.

Jesus morreu na cruz. Três dias depois, dois discípulos dele, desanimados, tristes e desencorajados, seguem de Jerusalém para o povoado de Emaús, a alguns quilômetros de distância. Eles conhecem as Escrituras, mas não enxergam aplicação prática daquele conteúdo ao que estavam vivendo. É quando acontece um fato aparentemente corriqueiro. 
“No caminho, falavam a respeito de tudo que havia acontecido. Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a andar com eles” (Lc 24:14-15). 
Aqueles três homens começam, então, a entabular uma conversa sobre os fatos recentes de seu dia a dia e acabam discutindo sobre teologia e coisas da vida cristã: 
“Então Jesus lhes disse: “Como vocês são tolos! Como custam a entender o que os profetas registraram nas Escrituras! Não percebem que era necessário que o Cristo sofresse essas coisas antes de entrar em sua glória?”. Então Jesus os conduziu por todos os escritos de Moisés e dos profetas, explicando o que as Escrituras diziam a respeito dele” (v. 25-27).
Algumas coisas chamam minha atenção nessa extraordinária passagem da Bíblia. Primeiro, é quando aqueles homens conversam de forma trivial sobre as coisas da vida que acabam aprendendo profundas realidades espirituais e teológicas. Segundo, isso ocorre num momento qualquer, nada especial, enquanto caminham por uma estrada, e não quando eles estão desesperados, se virando do avesso para que Deus lhes dê respostas. Terceiro, Jesus só fala com aqueles homens porque os três começam a caminhar juntos, conversando e discutindo. O resultado? 
“Não ardia o nosso coração quando ele falava conosco no caminho e nos explicava as Escrituras?” (v. 32).
Essa passagem magnífica das Escrituras nos ensina que as profundidades da nossa fé podem ser aprendidas em momentos corriqueiros da vida. Tudo o que é preciso fazer é deixar Jesus “falar conosco no caminho”, isto é, em qualquer lugar por onde caminhemos. Perceba que aqueles dois homens aprenderam realidades espirituais espetaculares e transformadoras, que fizeram arder seu coração, simplesmente por caminhar junto com Jesus num momento da vida absolutamente normal e trivial. Simples. Cotidiano. Trivial. Mas transformador.

Muitas vezes, tentamos “subornar” Deus para que Ele fale conosco. Realizamos ações para tentar comprar o favor do Senhor por meio de nosso mérito pessoal e, com isso, ouvir sua voz. É quando muita gente se lança em “campanhas de setenta semanas”, jejuns intermináveis, “sacrifícios”, ofertas em dinheiro à igreja, subidas ao monte, busca de “profetas” e coisas semelhantes. Achamos que a voz de Deus só se fará ouvir se ganharmos o direito de ouvi-la por meio de esforço próprio. Mas Deus não se vende, meu irmão, minha irmã.

Você já ouviu alguém dizer que “vai ao culto para ouvir a voz de Deus”? Ou já ouviu algum pastor dizer que você vai à igreja “para receber a sua bênção”? Bobagem. Nós vamos ao culto exclusivamente para adorar a Deus em comunidade e não como meio de comprar o direito de ouvir sua voz. A vida com Cristo é um culto constante e Ele pode falar ao seu coração em qualquer momento trivial da vida. Afinal, Deus se relaciona conosco não por nosso mérito, mas por sua graça.

Entenda: Cristo quer que você ouça a Sua voz. Aqueles dois homens nem sabiam que era Jesus quem estava falando, mas ainda assim ouviam a voz dEle. Você não precisa comprar o direito de ouvi-Lo, pois Ele é gracioso e amoroso. Tudo o que necessita fazer é “começar a andar com Ele”. E a sua estrada, meu irmão, minha irmã, não se restringe a duas horas semanais de culto. Seu caminho é este exato momento. Esteja você onde estiver, este é o seu caminho. Talvez você esteja lendo este texto no ônibus, no sofá de casa, no trabalho, no trem ou no metrô. Talvez no banheiro! Sem problema. Saiba que é exatamente aí, onde você se encontra, que Jesus deseja “se aproximar e começar a andar com você”. E, ao fazê-lo, você, natural e consequentemente, ouvirá a sua voz.

Para isso, basta que recorra às Escrituras, onde a voz de Deus se faz presente. E, por caminhar com Ele, o Senhor vai “explicar o que as Escrituras diziam a respeito dEle”, iluminando o seu entendimento acerca das realidades bíblicas em momentos em que você menos espera. O trono de Cristo se faz presente na sua vida a cada segundo, e Sua divina voz habita o seu coração, desde que você esteja andando com Ele e atento ao texto das Escrituras.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Maurício Zágari (via Apenas)