quarta-feira, 22 de setembro de 2021

AÇUCARANDO O EVANGELHO

Faz alguns anos, o U.S. News & World Report publicou, como artigo de capa, o tópico sobre a espiritualidade no mundo atual, informando que a religião, em muitas partes do mundo, tomou um manto de psicologia popular. Muitas congregações crescem oferecendo uma teologia açucarada, com uma dieta light de sermões preocupados com temas como “realização pessoal”, como ser “melhor parceiro”, “melhor empregado”, “melhor chefe” e “amigo” e até como “perder peso”. Mesmo admitindo que alguns desses tópicos possam ser uma preocupação da igreja, eles não podem ser o foco central da pregação.

Muitos pregadores modernos têm enfatizado unilateralmente os atributos da misericórdia, perdão e amor de Deus, mas negligenciado igual ênfase em Sua justiça, santidade e inimizade contra o pecado. Poderia ser que, na tentativa de agradar as pessoas e nos tornarmos simpáticos aos que queremos alcançar, estejamos comprometendo os ensinos das Escrituras? É evidente que, como o contexto em que pregamos muda, devemos fazer ajustes em nossa forma de apresentar o evangelho, mas isso não muda sua essência. Enquanto métodos de comunicação podem variar, o fundamento da verdade bíblica deve permanecer inalterável.

Em nossa pregação, não mudamos Deus nem Sua verdade. Devemos manter em equilíbrio dois polos da proclamação cristã; de um lado, manter a identidade, o caráter bíblico do conteúdo proclamado; de outro, manter a relevância, que é o relacionamento da revelação com o contexto humano atual. Muitos querem ser relevantes sem ter identidade bíblica. Outros querem reter a identidade, mas no processo deixam de ser relevantes. Os dois perigos são reais. A preocupação com a relevância tende a levar à “contextualização pragmática” do evangelho, conduzindo à utilização de recursos estranhos à Palavra de Deus. 

A atual superficialidade no conhecimento das Escrituras tem contribuído, mais do que qualquer outra coisa, para obliterar a consciência profético-doutrinária da denominação. O estudo objetivo (doutrinário) da Bíblia tem sido substituído por uma leitura pietista (existencialista), destinada quase que exclusivamente a alimentar um relacionamento místico e subjetivo com Cristo. Consequentemente, os sermões de muitas de nossas igrejas tornaram-se mais leves, substituindo, em grande parte, o conteúdo doutrinário da Bíblia pelas experiências pessoais do próprio pregador.

Deveríamos imitar mais de perto o exemplo deixado por Cristo em Seu relacionamento com a verdade. Ellen White afirma: “Em Seus ensinos, Cristo não sermonizava, como fazem os ministros atualmente. Sua tarefa era a de edificar sobre a estrutura da verdade. Ele ajuntou as preciosas pedras da verdade, de que o inimigo se havia apossado e colocado na estrutura do erro, recolocando-as na estrutura da verdade, para que todos os que recebessem a palavra fossem por ela enriquecidos" (Mensagens Escolhidas 1, p. 206).

O outro perigo é a tentativa de ser “bíblico” e cair na bibliolatria, respondendo a perguntas que ninguém está fazendo. Ou tentar responder, no século 21, a questões do século 19. De qualquer maneira, devemos entender que o único evangelho capaz de satisfazer às necessidades humanas é o evangelho real, ministrado em sua fórmula original, sem açucaramentos ou diluições.

Creio, particularmente, que a superficialidade doutrinária que enfrentamos hoje é uma das mais importantes estratégias satânicas para deixar-nos despreparados para os eventos finais, sem condições de expormos, de forma convincente, a base bíblica de nossas doutrinas. "Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, pois o próprio Satanás se transforma em anjo de luz" (2 Coríntios 11:13, 14).

Concluo com este pensamento de Ellen G. White extraído do livro Os Ungidos (pp. 60-61). Ela nos adverte:

"A voz severa de repreensão é necessária ainda hoje, pois pecados terríveis têm separado de Deus o povo. A infidelidade virou moda. ‘Não queremos que esse homem seja nosso rei’ (Lc 19:14), milhares afirmam. Os sermões superficiais pregados com tanta frequência não causam efeito duradouro; a trombeta não dá um sonido certo. O coração das pessoas não é atingido pelas claras, cortantes verdades da Palavra de Deus.

Muitos dizem: ‘Por que precisamos falar de forma tão clara?’ isso é o mesmo que perguntar: ‘Por que João Batista teve que provocar a ira de Herodias, dizendo a Herodes que ele estava errado em viver com a mulher de se irmão?’ Aquele que preparou o caminho para o ministério de Cristo perdeu a vida por falar com clareza.

Os que deveriam ser guardiões da lei de Deus têm usado esse argumento até que finalmente permitem que a comodidade torne o lugar da fidelidade, e o pecado continue a ser praticado sem reprovação. Quando será a voz da fiel reprovação ouvida novamente na igreja?

‘Você é esse homem’ (2Sm 12:7). Raramente se ouve nos púlpitos de hoje, raramente se lê nas publicações atuais, palavras tão claras como essas, ditas por Natã a Davi. Os mensageiros do Senhor não dão resultados enquanto não se arrependem do desejo de agradar aos outros, pois isso faz com que encubram a verdade.

Não é por amor ao próximo que os pastores amenizam a mensagem sob sua responsabilidade, mas porque são condescendentes consigo mesmos e amam a vida fácil. O verdadeiro amor busca primeiro a honra a Deus e a salvação do próximo. Os que possuem esse amor não deixaram de falar a verdade para fugirem dos resultados desagradáveis de falar com clareza. Quando as pessoas estão em perigo, os pastores de Deus falarão a palavra que lhes é ordenada, recusando desculpar o mal.

Ah, se todo pastor tivesse a coragem de Elias! Os pastores deve repreender, corrigir e exortar ‘com toda a paciência e doutrina’ (2Tm 4:2). Em nome de Cristo eles devem animar o obediente e advertir o desobediente. Ele não devem dar valor algum aos interesses mundanos, mas prosseguir com fé. Não devem falar suas próprias palavras, mas sua mensagem deve ser: ‘Assim diz o Senhor’ (Êx 4:2). Deus chama pessoas como Elias, Natã e João Batista – pessoas que levarão fielmente Sua mensagem sem temer as consequências, pessoas que falarão a verdade, ainda que isso signifique sacrificar tudo que possuem."

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

ZUMBIS ESPIRITUAIS

"Ao anjo da igreja de Sardes escreva o seguinte: Esta é a mensagem daquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas. Eu sei o que vocês estão fazendo. Vocês dizem que estão vivos, mas, de fato, estão mortos. Acordem e fortaleçam aquilo que ainda está vivo, antes que morra completamente; pois sei que o que vocês fizeram não está ainda de acordo com aquilo que o meu Deus exige. Portanto, lembrem do que aprenderam e ouviram. Obedeçam e se arrependam. Se não acordarem, eu os atacarei de surpresa, como um ladrão, e vocês não ficarão sabendo nem mesmo a hora da minha vinda. Mas alguns de vocês de Sardes têm conservado limpas as suas roupas. Vocês andarão comigo vestidos de roupas brancas, pois merecem esta honra. Aqueles que conseguirem a vitória serão vestidos de branco, e eu não tirarei o nome dessas pessoas do Livro da Vida. Eu declararei abertamente, na presença do meu Pai e dos seus anjos, que elas pertencem a mim. Portanto, se vocês têm ouvidos para ouvir, então ouçam o que o Espírito de Deus diz às igrejas” (Apocalipse 3:1-6).

O terror é formado por diferentes vertentes e subgêneros, e uma das mais famosas é, sem dúvidas, a dos zumbis. Desde o início do século 20, os mortos-vivos têm espaço garantido nos cinemas, na TV e em várias outras mídias. A popularidade das criaturas também costuma oscilar bastante, sempre entre a popularidade e a saturação - talvez até morta ocasionalmente, mas nunca enterrada de vez.

Mas o que seria um zumbi? Segundo o wikipédia, zumbi ou zombie é uma criatura cujo estereótipo se define, nos livros e na cultura popular, como um cadáver reanimado usualmente de hábitos noturnos, que vive a perambular e a agir de forma estranha e instintiva; um morto-vivo; um ser privado de vontade própria, sem personalidade.

A igreja de Sardes orgulhava-se de sua produção de lã e tinturaria. Era o centro de adoração à deusa Cibele (deusa da religião de mistérios cuja imoralidade e degeneração eram notáveis), apesar de haver alguns naquela igreja que ainda permaneciam fiéis a Deus, retendo a fé e a vida piedosa como princípios fundamentais de sua religião. A maioria esmagadora estava insensível à espiritualidade, ao compromisso cristão. A falta de dedicação era notável. O ponto de apoio espiritual dos cristãos de Sardes era o inicio glorioso daquela igreja. Porém o Senhor conhecia as suas obras: "Eu sei o que vocês estão fazendo. Vocês dizem que estão vivos, mas, de fato, estão mortos".

Essa igreja era apática, sem vida e sem amor. Tinha aparência, mas carecia de poder. Que é uma igreja morta? Que é um cristão que ‘está morto’? Os membros da Igreja em Sardes tinham a reputação de que estavam espiritualmente vivos, mas não possuíam fé viva. Consequentemente, suas obras não podiam ser aceitas por Deus. A igreja de Sardes tornara-se indolente e letárgica, manifestando alarmante satisfação consigo mesma – uma forma de morte espiritual. Cristo não vivia mais no coração dos membros; sua fé era morta, e suas obras eram obras mortas, que Cristo não podia aceitar.

Estaria Deus falando a uma igreja de zumbis?

Na Martinica e no Haiti, zumbi poderia ser um termo geral para descrever um espírito ou um fantasma – qualquer presença perturbadora que assumiria uma miríade de formas à noite. Mas gradualmente foi se espalhando a crença de que feiticeiros poderiam fazer suas vítimas parecerem mortas – através de magia, hipnose ou até uma poção secreta – e aí reavivá-los para servir como seus escravos particulares. O zumbi, de fato, é o resultado lógico de ser um escravo: alguém sem vontade própria, sem nome e preso em uma espécie de morte em vida.

O que Cristo veio propor à humanidade? Segundo o apostolo Paulo, o cristão é alguém que morreu para o mundo e agora vive para Deus.

"Antigamente, por terem desobedecido a Deus e por terem cometido pecados, vocês estavam espiritualmente mortos. Naquele tempo vocês seguiam o mau caminho deste mundo e faziam a vontade daquele que governa os poderes espirituais do espaço, o espírito que agora controla os que desobedecem a Deus. De fato, todos nós éramos como eles e vivíamos de acordo com a nossa natureza humana, fazendo o que o nosso corpo e a nossa mente queriam. Assim, porque somos seres humanos como os outros, nós também estávamos destinados a sofrer o castigo de Deus. Mas a misericórdia de Deus é muito grande, e o seu amor por nós é tanto, que, quando estávamos espiritualmente mortos por causa da nossa desobediência, ele nos trouxe para a vida que temos em união com Cristo. Pela graça de Deus vocês são salvos. Por estarmos unidos com Cristo Jesus, Deus nos ressuscitou com ele para reinarmos com ele no mundo celestial. Deus fez isso para mostrar, em todos os tempos do futuro, a imensa grandeza da sua graça, que é nossa por meio do amor que ele nos mostrou por meio de Cristo Jesus. Pois pela graça de Deus vocês são salvos por meio da fé. Isso não vem de vocês, mas é um presente dado por Deus. A salvação não é o resultado dos esforços de vocês; portanto, ninguém pode se orgulhar de tê-la. Pois foi Deus quem nos fez o que somos agora; em nossa união com Cristo Jesus, ele nos criou para que fizéssemos as boas obras que ele já havia preparado para nós" (Efésios 2:1-10).

Cristo também tornou possível que todo filho de Adão pudesse, por uma vida de obediência, vencer o pecado e ressurgir também da sepultura, para receber sua herança de imortalidade adquirida pelo sangue de Cristo. Cristo fez reparação da culpa de todo o mundo, e todos os que se chegarem a Deus com fé, receberão a justiça de Cristo, que levou “Ele mesmo em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro, para que, mortos para os pecados, pudéssemos viver para a justiça; e pelas Suas feridas fostes sarados” (1 Pedro 2:24).

E quais os sintomas de uma igreja morta? Simples, ela deixou de fazer as coisas que a igreja viva faz. A igreja viva guarda os mandamentos de Deus e tem fé em Jesus (Apocalipse 14:12). A igreja viva ama perdidamente o ser humano (João 13:35). A igreja viva é uma comunidade de conforto, consolo, estímulo, ânimo e paciência (I Tessalonicenses 5:14).

Em Lucas 12:42-46 Jesus nos apresenta a um mau servo, que perde de vista o espírito de vigilância, a noção de que seu senhor voltará de sua viagem ao estrangeiro a qualquer momento. Ele começa a espancar os seus conservos. Ele é um morto se alimentando da carne dos vivos, ferindo os vivos, tornando-os mortos como ele, mortos à sua imagem e semelhança.

Será que justamente quando acreditamos estar vivendo mais é que vamos concluir que nós somos os mortos? Será que a realidade é distante demais da nossa expectativa?

Ellen G. White declara: Muitos que complacentemente ouvem as verdades da Palavra de Deus estão mortos espiritualmente, embora professem estar vivos. Por anos têm eles ido e vindo em nossas congregações, mas parecem cada vez menos sensíveis ao valor da verdade revelada. Não estão famintos e sedentos de justiça. Não sentem o menor prazer nas coisas espirituais. Concordam com a verdade, mas não são santificados por ela. Nem a Palavra de Deus nem os testemunhos de Seu Espírito fazem qualquer impressão definitiva sobre eles" (Testemunhos para a Igreja 5, p. 76).

Em Ezequiel 37:5 eu leio estas palavras: "Diga que eu, o SENHOR Deus, estou lhes dizendo isto: Eu porei respiração dentro de vocês e os farei viver de novo”. Quem ouvir viverá. Quem ouvir a palavra do Deus vivo deixará de ser um morto. Guardará os mandamentos, exercitará fé, amará e cuidará dos que estão ao redor. Quem ouvir, viverá.

E aqui vale uma análise: o que temos sido? Cristãos verdadeiros ou apenas zumbis espirituais?

O JOVEM RICO

Baseado em Mateus 19:16-22; Marcos 10:17-22; Lucas 18:18-23. 

Um homem correu na direção de Jesus, se pôs de joelhos diante dEle, e Lhe perguntou: "Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Mc 10:17). Esse jovem, um príncipe, tinha muitos bens e uma posição de responsabilidade. Ele viu o amor de Jesus pelas crianças e, de tão comovido, correu na direção do Mestre. Com sinceridade e fervor, ele se ajoelhou diante de Jesus e fez a pergunta mais importante para a vida dele e a de cada ser humano.

“Por que você Me chama bom?”, Jesus respondeu. “Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus” (v. 18). Jesus queria provar a sinceridade do jovem e verificar em que sentido ele O considerava bom. Teria ele percebido que Aquele com quem estava falando era o Filho de Deus? Qual seria o verdadeiro sentimento do seu coração? 

Esse príncipe tinha em alta consideração sua própria justiça, mas sentia falta de algo que não possuía. Poderia Jesus abençoá-lo e satisfazer o desejo do seu coração? 

Em resposta, Jesus disse a ele que a obediência aos mandamentos de Deus era necessária se quisesse obter a vida eterna. “A tudo isso tenho obedecido desde a minha adolescência. O que me falta ainda?” 

Cristo olhou nos olhos daquele rapaz como se estivesse lendo sua vida e examinando seu caráter. Sentiu amor por ele e desejou lhe dar paz e alegria. “Falta-lhe ainda uma coisa. Venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos Céus. Depois venha e siga-Me” (Lc 18:22).

Cristo foi atraído a esse jovem. O Redentor desejava criar nele a capacidade de reconhecer a necessidade de ter um coração devoto. Desejava ver nele um coração humilde e arrependido, capaz de esconder suas falhas na perfeição de Cristo. 

Jesus viu nesse príncipe exatamente o auxílio de que precisava em Sua obra da salvação. Se ele se colocasse sob a orientação de Cristo, seria uma força para o bem. Ao ler seu caráter, Cristo o amou. O amor por Cristo foi despertado no coração do jovem, pois amor produz amor. Jesus queria que ele se tornasse um dos Seus colaboradores. Desejava desenvolver a excelência do seu caráter e santificá-lo para o uso do Mestre. Se aquele jovem tivesse se entregado a Cristo, quão diferente teria sido o seu futuro! 

“Falta-lhe ainda uma coisa. Venda tudo o que você possui e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro nos Céus. Depois venha e siga-Me”. Cristo leu o coração do jovem. Só uma coisa lhe faltava, mas essa era um princípio vital. Ele precisava do amor de Deus no centro de sua vida. Se essa carência não fosse preenchida, isso seria fatal. Sua natureza inteira se corromperia. A fim de receber o amor de Deus, ele devia renunciar ao amor supremo que nutria pelo próprio eu.

Cristo apelou para que ele escolhesse entre o tesouro celestial e a grandeza secular. O jovem líder devia renunciar ao próprio eu e entregar sua vontade ao controle de Cristo. Foi oferecido a ele o privilégio de se tornar coerdeiro com Cristo do tesouro celestial, mas, antes, devia tomar a cruz e seguir o Salvador no caminho da abnegação. 

A escolha era dele. Jesus havia lhe mostrado o ponto crucial do seu caráter. Se ele decidisse seguir a Cristo, deveria obedecer às Suas palavras em tudo e se apartar de seus ambiciosos projetos. Com desejo sincero e ansioso, o Salvador olhou para o jovem, esperando que ele aceitasse o convite do Espírito Santo. 

As palavras de Cristo eram palavras de sabedoria, ainda que parecessem severas. A única esperança de salvação do jovem príncipe era aceitá-las e obedecer-lhes. Sua posição social e seus bens estavam exercendo uma influência sutil sobre o seu caráter. Se acariciados, tomariam o lugar de Deus em suas afeições. 

Jesus Exigiu Demais? 
Compreendendo rapidamente tudo o que estava envolvido nas palavras de Cristo, o jovem ficou triste. Ele era membro do honrado conselho dos judeus, e Satanás o estava tentando com agradáveis perspectivas para o futuro. Queria o tesouro celestial, mas também queria as vantagens que suas riquezas trariam. Sim, ele desejava a vida eterna, no entanto, o sacrifício parecia grande demais, e se afastou dali triste, “porque tinha muitas riquezas”. 

Sua afirmação de que havia observado a lei de Deus era uma farsa. Ele demonstrou que suas riquezas eram o seu ídolo e que amava mais as dádivas de Deus do que o próprio Doador. Cristo ofereceu ao jovem a convivência com Ele. “Siga-Me”, Ele disse. Mas o Salvador não significava tanto para ele como os seus bens ou o prestígio que tinha na sociedade. Renunciar ao que se podia ver pelo invisível era, para ele, um risco muito grande. Rejeitou a oferta de vida eterna e foi embora. A partir dali, o mundo seria o objeto de sua adoração. Milhares de pessoas passam por essa prova, tendo de pesar Cristo e o mundo, e muitas delas escolhem o mundo. 

A maneira como Cristo lidou com o jovem contém lições para todos nós. Deus deixou a regra de conduta que os Seus servos devem seguir, a saber, a obediência à Sua lei – não meramente uma obediência legalista, mas a que permeia a vida e é demonstrada no caráter. Somente os que dirão “Tudo o que tenho e tudo o que sou pertencem a Ti” serão reconhecidos por Deus como Seus filhos e filhas. Pense no que significa dizer não a Cristo. O Salvador Se oferece para participar no trabalho que Deus nos deu para fazer. Somente dessa maneira é que Ele pode nos salvar. 

Deus nos confia dinheiro, talentos e oportunidade a fim de que sejamos Seus instrumentos para ajudar os pobres e sofredores. Os que empregam como Deus quer os dons que Ele lhes confiou se tornam colaboradores do Salvador. 

Para os que, a exemplo do jovem líder, ocupam posições de destaque e têm muitos bens pode parecer um sacrifício grande demais renunciar a tudo a fim de seguir a Cristo. Mas Deus não pode aceitar nada menos que a obediência. A entrega do próprio eu é a essência dos ensinamentos de Cristo. Não há outra maneira de nos salvar a não ser lançar fora aquelas coisas que vão desmoralizar todo o ser se nos apegarmos a elas. 

Quando os seguidores de Cristo devolvem ao Senhor o que é dEle, estão acumulando um tesouro que receberão quando ouvirem as palavras: “Muito bem, servo bom e fiel! [...] Venha e participe da alegria do seu Senhor!” A alegria de ver pessoas eternamente salvas é a recompensa de todos os que seguem as pegadas dAquele que disse: “Siga-Me”.

[Ellen G. White - O Libertador, pp. 352-355]

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

OPORTUNIDADE PARA TODOS

"Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai, que está nos Céus" (Mateus 7:21). 

Nem todos os que professam ser obreiros de Cristo são verdadeiros discípulos. Entre os que trazem Seu nome, e que são mesmo contados entre Seus obreiros, há alguns que não O representam no caráter. Até ao fim dos tempos, haverá joio no meio do trigo. 

Em Sua misericórdia e clemência, Deus suporta pacientemente os maus e até os hipócritas. Entre os apóstolos escolhidos de Cristo encontrava-se Judas, o traidor. Deverá, pois, ser causa de surpresa ou desânimo a existência de hipócritas entre os Seus obreiros de hoje? Se Ele, que penetrava nos corações, suportava quem bem sabia que O havia de trair, com que paciência não deveríamos nós suportar os que estão em falta! 

E nem todos, ainda dos que parecem mais culpados, são como Judas. Pedro, impetuoso, precipitado e cheio de confiança própria, aparentemente esteve em situação mais desvantajosa do que Judas. Foi mais vezes censurado pelo Salvador. Mas que vida de atividade e sacrifício foi a sua! Que testemunho deu do poder da graça de Deus! 

Cristo associou a Si a Judas e o impulsivo Pedro, não porque Judas fosse cobiçoso e Pedro apaixonado, mas para que dEle, seu grande Mestre, aprendessem a fazer-se semelhantes a Ele: desinteressados, mansos e humildes de coração. Jesus descobriu traços bons em ambos esses homens. Judas possuía talento financeiro e podia ter sido de grande utilidade à igreja, se tivesse aceito a lição que lhes dava Cristo, repreendendo o egoísmo, a fraude e a avareza, mesmo nos negócios de pouca importância. 

Esses dois homens [Judas e Pedro] desfrutaram igualmente das oportunidades e do privilégio que ofereciam as lições e o exemplo de Jesus, para se corrigirem dos seus defeitos de caráter. Enquanto ouviam Suas severas reprovações e denúncias contra a hipocrisia e a corrupção, percebiam que aqueles tão terrivelmente reprovados eram objeto de solícito e incansável esforço por sua regeneração. O Salvador chorou por causa de sua ignorância e dos seus erros. Movido de infinita compaixão e amor para com eles, exclamou para Jerusalém: “Quantas vezes quis Eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não quiseste!” (Lucas 13:34).

Por haver na igreja membros indignos, não tem o mundo o direito de duvidar da verdade do cristianismo, nem devem os cristãos desanimar por causa destes falsos irmãos. Como foi com a igreja primitiva? Ananias e Safira uniram-se aos discípulos. Simão Mago foi batizado. Judas Iscariotes foi um dos apóstolos. O Redentor não quer perder uma única pessoa. Sua experiência com Judas é relatada para mostrar Sua longanimidade com a corrompida natureza humana; e nos ordena sermos pacientes como Ele o foi. 

Textos extraídos dos livros Vidas que Falam (p. 320) e Testemunhos Seletos 1 (p. 566) de Ellen G. White.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

O secretário-geral da ONU, António Guterres, e o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, receberão líderes mundiais na próxima segunda-feira (20) para fortalecer os compromissos contra a mudança climática. A reunião, convocada paralelamente à Assembleia Geral da ONU, será realizada menos de seis semanas antes da conferência mundial COP26 em Glasgow, que visa garantir que o mundo cumpra sua meta de manter o aquecimento em 1,5 grau centígrado ao final do século. 

Guterres marcou três prioridades climáticas. Em primeiro lugar, a ONU vai pedir aos países que fortaleçam seus compromissos para alcançar zero emissões poluentes até 2050, segundo o acordo de Paris. Em segundo lugar, deseja que os países desenvolvidos cumpram sua promessa de criar um fundo climático de US$ 100 bilhões. E, por fim, busca um "avanço significativo" no financiamento de projetos de adaptação para os países mais afetados e, assim, protegê-los de eventos como secas, enchentes e aumento do nível do mar. A ONU quer que a adaptação absorva 50% do financiamento climático.

Com apenas 1,1 grau de aquecimento até agora, uma cascata de desastres climáticos mortais, amplificados pela mudança climática, assustou o mundo nos últimos meses, de ondas de calor que derreteram o asfalto no Canadá a tempestades que transformaram as ruas de cidades chinesas em rios. Este mês, um dilúvio sem precedentes provocado pelo furacão Ida atingiu Nova York e Nova Jersey, matando quase 50 pessoas.

Também, a divulgação de um novo relatório do Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas (o IPCC, na sigla em inglês) reaqueceu o debate ecológico. O levantamento feito por cientistas de 66 países mostrou que o aumento da temperatura do planeta, resultado da ação humana, tem atingido índices sem precedentes, causando grandes impactos ambientais. 

Será que essa preocupação global, considerada a grande causa do século 21, também tem influenciado o discurso religioso sobre ecologia?

Em tempos de discussão sobre mudanças climáticas, aquecimento global e outros temas, vejamos o que pensa a Igreja Adventista sobre cuidado do meio ambiente. A igreja, em nível mundial, já possui declarações a favor da preservação do meio ambiente, mas sempre sob a ótica de preservação daquilo que Deus criou.

Na série Falando de Esperança, produzida pela Igreja Adventista do Sétimo Dia na América do Sul, o ex-presidente da Igreja, pastor Erton Köhler, explica qual é o posicionamento da organização em relação ao assunto de preservação do meio ambiente e menciona preocupações relacionadas a aquecimento global e mudanças climáticas. “Estamos vendo tudo isso acontecer e o que temos individualmente para buscar o equilíbrio? Somos cristãos e é nosso dever cuidar da obra da criação de Deus. Para nós, essa é a principal motivação para cuidar do ambiente em que vivemos. Deus fez tudo e disse que era bom, mas, além disso, ordenou que o homem cuidasse do Jardim do Éden”.

Em 1995, em uma reunião administrativa mundial da Igreja Adventista, o tema de mudanças climáticas já havia sido objeto de debate. Ao final da discussão, ocorrida nos Estados Unidos, algumas declarações foram dadas oficialmente. Os adventistas se manifestaram e disseram que algumas medidas são necessárias para evitar os riscos desse fenômeno: cumprimento do acordo assinado no Rio de Janeiro (Convenção de 1992 sobre Mudanças Climáticas) a fim de estabilizar as emissões de dióxido de carbono por volta do ano 2000 a níveis de 1990; estabelecimento de planos para maiores reduções das emissões de dióxido de carbono após o ano 2000 e início de debates públicos mais eficazes sobre os riscos das mudanças climáticas.

Vejamos mais alguns trechos de duas declarações da Igreja Adventista sobre o meio ambiente:

"O mundo no qual vivemos é uma dádiva de amor do Deus Criador, que “fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas” (Apocalipse 14:7; 11:17-18). Nesta criação, colocou os humanos, criados intencionalmente para relacionarem-se com Ele, com as outras pessoas e com o mundo ao redor. Assim, os adventistas do sétimo dia mantêm que a preservação e manutenção da criação estão intimamente relacionadas com o culto a Ele. [...]

A decisão humana de desobedecer a Deus interrompeu a ordem original da criação, resultando em uma desarmonia alheia a Seus propósitos. Desta forma, nossa atmosfera e águas estão poluídas, as florestas e a vida selvagem saqueadas, os recursos naturais esgotados. [...]

Os adventistas do sétimo dia estão comissionados a um relacionamento respeitoso e cooperativo entre as pessoas, reconhecendo nossa origem comum e compreendendo a dignidade humana como uma dádiva do Criador. Uma vez que a miséria humana e a degradação do meio ambiente estão inter-relacionadas, nós nos empenhamos por melhorar a qualidade de vida de todas as pessoas. Nosso objetivo é manter um crescimento dos recursos atendendo concomitantemente às necessidades humanas.

O verdadeiro progresso quanto a cuidar de nosso ambiente natural recai sobre o esforço individual e cooperativo. Nós aceitamos o desafio de trabalhar em prol da restauração do desígnio global de Deus. Movidos pela fé em Deus, nós nos comprometemos a promover o progresso que se revela nos níveis pessoal e ambiental em pessoas íntegras e dedicadas a servir a Deus e a humanidade.

Neste compromisso confirmamos ser mordomos para com a criação de Deus e cremos que a restauração total se concretizará apenas quando Deus fizer novas todas as coisas."

Esta declaração foi aprovada e votada pela Associação Geral do Comitê Executivo dos Adventistas do Sétimo Dia na sessão do Concílio Anual em Silver Spring, Maryland, EUA, 12 de outubro de 1992.

"Os adventistas do sétimo dia creem que a espécie humana foi criada à imagem de Deus, assim representando a Deus como Seus mordomos, para dominar o ambiente natural de uma maneira fiel e frutífera.

Infelizmente, a corrupção e a exploração podem ser atribuídas à responsabilidade humana. Homens e mulheres têm se envolvido cada vez mais em uma destruição megalomaníaca dos recursos naturais, resultando em grande sofrimento, descontrole ambiental e ameaça da mudança climática. Conquanto a pesquisa científica precise continuar, as evidências confirmam que a crescente emissão de gases destrutivos, a diminuição da camada protetora de ozônio, a destruição maciça das florestas americanas e o chamado efeito estufa, estão ameaçando o ecossistema terrestre.

Estes problemas são, em sua maioria, devidos ao egoísmo humano e à egocêntrica atividade para obter mais e mais por meio do aumento da produtividade, do consumo ilimitado e do esgotamento de recursos não-renováveis. A causa da crise ecológica está na ganância humana e na opção de não praticar a boa e fiel mordomia dentro dos limites divinos da criação.

Os adventistas do sétimo dia defendem um estilo de vida simples e saudável, onde as pessoas não participam da rotina do consumismo desenfreado, da obtenção de posses e da produção exagerada de lixo. É necessário que haja respeito pela criação, restrição no uso dos recursos naturais, reavaliação das necessidades e reiteração da dignidade da vida criada.

Esta declaração foi aprovada e votada pela Comissão Administrativa da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia (ADCOM) e foi liberada pelo gabinete do presidente, Robert S. Folkenberg, na sessão da Associação Geral em Utrecht, Holanda, de 29 de junho a 8 de julho de 1995.

Ellen G. White também foi uma forte defensora do cuidado com o meio ambiente. Sua consciência ambiental veio de duas fontes: as Escrituras e a inspiração vinda de Deus. "Mas o que sobre todas as demais considerações deve levar-nos a apreciar a Bíblia é que nela está revelada aos homens a vontade de Deus. Ali aprendemos o objetivo de nossa criação e os meios pelos quais esse objetivo pode ser atingido. Aprendemos a melhorar sabiamente a presente vida, e a conseguir a futura" (Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 53).

Em relação à poluição atmosférica, ela afirmou: "O ambiente material das cidades constitui muitas vezes um perigo para a saúde. O estar constantemente sujeito ao contato com doenças, o predomínio de ar poluído, água e alimento impuros, as habitações apinhadas, obscuras e insalubres, são alguns dos males a enfrentar" (A Ciência do Bom Viver, p. 365).

Adão e Eva perderam o ambiente perfeito do Éden por causa do pecado. Estamos novamente correndo o risco de perder o nosso meio ambiente por causa dos pecados do materialismo, ganância, poluição e desprezo dos recursos ambientais. Em Cristo, podemos ser restaurados à imagem de Deus, uns com os outros e com a natureza. O cristão não deve olhar só para a frente, para a restauração final da Terra ao seu estado original, mas também honrar a Deus hoje, cuidando de forma responsável do planeta que Ele lhe confiou.

Confira este podcast da Revista Adventista com uma conversa com dois especialistas no tema:

A agência mundial de notícias da Igreja Adventista (ANN) conversou com o diretor do Instituto Adventista de Pesquisa em Geociências, Timothy Standish. Ele explicou como os adventistas do sétimo dia deveriam enxergar as diferentes opiniões sobre o assunto. Assista:

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

BATE-SEBA: CÚMPLICE OU VÍTIMA?

Bathsheba - Pintura de Artemisia Gentileschi
Ela era uma linda e jovem mulher casada, sem filhos, no frescor da feminilidade dos seus 19 anos. Não judia, de família honrada e nobre, era filha de Eliã, um dos 30 principais valentes do exército israelita, e seu avô Aitofel era um sábio estrategista, conselheiro de guerra do rei Davi. Seu marido, Urias, heteu convertido ao judaísmo, era um dentre os 30 mais fiéis soldados-heróis do exército de Israel.

Bate-Seba veio a se tornar o pivô da mais triste e lamentável nódoa na biografia do bom e querido rei Davi, com ingredientes hollywoodianos de adultério, traição e assassinato frio e premeditado por parte daquele que se considera como tendo sido o maior rei de Israel.

VISÃO DO TERRAÇO
No recôndito indevassável do jardim interno de seu lar, numa casa típica das famílias nobres de Jerusalém, estava Bate-Seba tomando banho, alheia ao fato de que, do privilegiado terraço do palácio real, Davi a espionava, invadindo sua privacidade, e que, extasiado com sua beleza, a desejou com todo o vigor da virilidade dos seus cerca de 40 anos.

Não era para o rei estar ali. Era primavera, época em que os reis saíam à guerra, e ninguém poderia sequer imaginar que Davi, cuja vitória sobre o gigante Golias o catapultara instantaneamente à invejável condição de herói nacional, e cujo máximo prazer era liderar seu exército à frente de renhidas batalhas, desta vez havia ordenado que Joabe e seus comandados fossem à guerra sem ele.

Quedou-se Davi mentalmente a degustar as glórias de sua fama em função de suas fantásticas conquistas, num afago ao ego por sua reconhecida e decantada inteligência e valentia: bonito, atraente, poeta, músico, cantor, salmista, temido e respeitado guerreiro, não existia rei como ele! E permitiu que seus pensamentos fluíssem ao léu, dando asas à imaginação…

Ao flagrar Bate-Seba em seu banho (cerimonial, de purificação?), sob o rubor da integridade moral estampado em sua face, Davi deveria ter desviado o olhar e fugido em respeito à intimidade dela, ainda mais sendo ele o líder espiritual de Israel.

Deveria, mas não o fez. Ao contrário, quanto mais se demorava em contemplar a estonteante beleza de Bate-Seba, obcecado por cada gesto, mais o fogo da paixão o inflamava, a tal ponto que racionalizou: “Afinal, não sou o rei? Aos reis nada é vedado. Tenho esse direito.”

Davi indagou quem era aquela mulher, e recebeu informações pormenorizadas dos informantes, talvez na sutil esperança de demovê-lo de suas previsíveis más intenções: “É Bate-Seba, filha de Eliã, mulher de Urias, heteu, fiel soldado do seu exército, que está no campo de batalha, arriscando a própria vida em defesa do nosso povo…” (ver 2Sm 11:3). Porém, o grande dominador Davi deixou-se dominar por seus instintos carnais, e ninguém o demoveria de sua decisão. Ordenou que fossem buscá-la.

Intrigada, sem sequer imaginar as pretensões do rei, Bate-Seba, sem hesitar, os acompanhou servilmente, como era próprio das mulheres e dos súditos da época. E então, surpreendida, acuada, subjugada por um rei todo-poderoso, sem outra opção, ela se submeteu passivamente aos irrefreáveis caprichos e desejos de Davi.

Mas por que não resistiu? Por que não gritou? Simples: de que adiantaria? Quem se arriscaria a tentar livrá-la de um rei considerado pelo próprio Deus um guerreiro sanguinário? (1Cr 28:3).

Ato contínuo, saciado em sua avassaladora e inconsequente volúpia, indiferente aos mais íntimos sentimentos de Bate-Seba, ele a despediu secretamente. Mas aquilo com que Davi não contava aconteceu. Discretamente, ela lhe enviou uma mensagem: “Estou grávida!”

No laconismo desse recado, evidenciam-se dois fatos: (1) seu banho realmente não havia sido uma exibição sensual e provocativa, a fim de atrair a atenção do rei, como alguns insinuam (um forjado álibi dos “advogados” de Davi, para atenuar a extensão de sua queda); (2) durante um mês inteiro, Bate-Seba, na solidão da sua casa, quedou-se reclusa no seu canto, sem buscar contato com Davi, o que seria próprio de uma mulher leviana e chantagista, como se busca injustamente imputar ao seu caráter, e só o contactou após se certificar de sua gravidez, com a quebra do ciclo menstrual (não havia exames laboratoriais).

O PLANO ESTRATÉGICO
O estrategista Davi, então, arquitetou um “infalível” plano. Usando suas prerrogativas de comandante-em-chefe do exército, mais que depressa mandou tirar Urias do campo de batalha, levou-o até o palácio, e, com palavras lisonjeiras, ofereceu-lhe um lauto banquete, regado com o melhor vinho, após o que, com presentes e um salvo-conduto real, instou-o a ir para casa e gozar as legítimas delícias matrimoniais com sua jovem e bela mulher, como se fosse um prêmio por sua bravura.

O relato evidencia a intenção de Davi em que a gravidez fosse atribuída ao próprio marido. Quem sabe, se Urias tivesse caído na armadilha, sob os auspícios e a liberação do rei, e estivesse com Bate-Seba, além de lhe atribuir a paternidade do seu filho, Davi poderia até condená-lo a apedrejamento, por ter infringido as práticas de guerra da época.

No entanto, Urias era mais nobre e fiel ao Deus de Israel do que o Seu ungido: “A arca, Israel e Judá ficam em tendas. Joabe, meu senhor, e os servos de meu senhor estão acampados ao ar livre. Como poderia eu ir para casa, comer e beber e me deitar com a minha mulher? Juro pela vida do rei que não faria tal coisa” (2Sm 11:11).

Davi tudo fez para convencer Urias, oferecendo-lhe novo banquete mais farto e embebedando-o com o mais fino dos vinhos de sua adega real. Mas Urias manteve firme sua consciência religiosa e ética, e não desceu à sua casa. Com obstinada fidelidade, acabou por levar em mãos sua própria sentença de morte, assinada pelo rei, numa trama sórdida e ­calculista, acobertada pelo general Joabe, que mais tarde traiu sua fidelidade a Davi.

Respeitados os dias de luto (segundo o costume, uma semana), na vã tentativa de ele próprio assumir a gravidez, Davi tomou Bate-Seba como sua mulher. Mas ambos sofreram amargamente a doença mortal que atingiu seu inocente primogênito, com apenas um aninho de vida.

Desse casamento legítimo, posto que Bate-Seba havia ficado viúva, mas imoral, dadas as artimanhas que o possibilitaram, nasceram mais quatro filhos, dentre os quais o rei Salomão, de cuja descendência veio ninguém menos que o Salvador da humanidade! E o evangelista, apesar de evitar mencionar seu nome, inclui Bate-Seba na genealogia de Jesus (Mt 1:6)!

O PECADO DO REI
Não há como atribuir culpa alguma a Bate-Seba em todo esse imbróglio, na velada intenção de atenuar a culpa de Davi. Sintomaticamente, a Bíblia e Ellen White silenciam sobre sua participação, um silêncio eloquente, referindo-se única e exclusivamente ao “pecado de Davi”. Mas por que, na ausência de registro contra ou a favor, opta-se pelo contra? Seria por se tratar de uma mulher, via de regra incriminada como corruptora?

Várias opções têm sido oferecidas: (1) Bate-Seba banhava-se “em público”, “sensualmente”, para atrair a atenção de Davi; (2) sabendo-se muito bonita, ela teria se envaidecido por ter sido escolhida dentre todas as mulheres de Israel, que adorariam estar em seu lugar; (3) ela não teria sido forçada pelos emissários do rei, tendo aceitado ir ter com Davi espontaneamente; (4) ela teria participado na trama da morte de Urias, para livrar a própria pele do apedrejamento; (5) Davi e Bate-Seba tiveram vários encontros de prazer, até que ela engravidou, o que foge totalmente da revelação direta da Palavra (2Sm 11:4, 5). Quanta imaginação fértil, tendenciosa, sem a mais remota evidência escriturística!

Em contraposição, nas sete vezes em que Ellen White se refere a Bate-Seba, em nenhuma delas a mulher tem sua conduta moral desabonada. Em duas dessas referências, a mensageira indica, de forma sensível e cristalina, que ela não foi cúmplice, mas vítima: “Passando-se o tempo, o pecado de Davi contra Bate-Seba se tornou conhecido, e despertou a suspeita de que ele havia tramado a morte de Urias” (Patriarcas e Profetas, p. 720). “Davi tinha cometido um grave pecado, tanto contra Urias como contra Bate-Seba, e intensamente o sentia. Mas infinitamente maior era seu pecado contra Deus” (p. 722).

A inteligente alegoria que o profeta Natã, inspirado pelo Espírito Santo, enunciou a Davi, comparando Bate-Seba a uma ovelhinha frágil, indefesa, inocente, que o “homem rico” matou (moralmente), é tão contundente que Davi se sentiu sensibilizado e, num impulso de justificada ira e revolta, foi movido a usar de sua autoridade e declarar uma sentença real: “Morte a esse homem!” Ao dizer isso, Davi estava sentenciando a si mesmo, tanto que o profeta Natã lhe disse: “Também o Senhor perdoou o seu pecado; você não morrerá” (2Sm 12:13).

O drama (i)moral que Bate-Seba involuntariamente protagonizou era de tal gravidade para a cultura oriental que seu avô Aitofel bandeou-se para o lado de Absalão, como que para “lavar a honra” maculada de sua família pelo ato de Davi.

Felizmente, para nosso ensino e advertência, a Palavra de Deus revela, sem rodeios e subterfúgios, as gravíssimas consequências dos impensados e condenáveis atos de Davi e, por extensão, de todos nós. Mas, de igual modo, para nossa inspiração, nos belíssimos e tocantes Salmos 32 e 51 está registrada a profundidade do seu arrependimento, num arroubo poético de rara beleza e sinceridade.

É bonito constatar que, por divina inspiração, a Bíblia relata que Davi teve a honestidade moral e espiritual de assumir as consequências dos seus atos pecaminosos, eximindo totalmente Bate-Seba de culpa (ver Sl 32:1-5; 51:3, 4, 7, 8).

Atente-se para a dramaticidade do registro do seu profundo remorso e o patético relato de seu jejum, por sete dias, intercedendo em angústia pelo filho de apenas um aninho, acometido de mortal enfermidade, fruto inocente de sua insensatez (2Sm 12:15-23).

Embora Deus tivesse dito a Samuel que encontraria um homem segundo o Seu coração para suceder Saul, foi a partir do inspirador desfecho dessa amarga experiência que ao nome de Davi, como num sobrenome restaurador, se acrescentou carinhosamente o qualificativo “o homem segundo o coração de Deus” (1Sm 13:14; At 13:22). Os evangelistas e os contemporâneos de Jesus se referem a Ele como “filho de Davi”, admirado e até hoje muito amado.

Após esse triste episódio, Davi reinou ainda por cerca de 30 anos e, como havia profetizado Natã, a espada nunca se afastou do seu reinado (2Sm 12:9-15).

Queira Deus que, mercê da imerecida graça divina, tenhamos o privilégio e a alegria de testemunhar a comovente cena do reencontro entre Urias, Bate-Seba, Davi e o anônimo bebê, num longo e forte abraço de perdão e restauração, sob o sorriso feliz e o satisfeito olhar de Jesus!

Francisco Gonçalves (via Revista Adventista)

terça-feira, 14 de setembro de 2021

CAUSAS DA APOSTASIA

O nome é fictício, mas a história que relatarei é real. Aconteceu assim. No início, passamos a sentir a falta do irmão Silva em algumas reuniões e programações da igreja. Com o passar do tempo, sua ausência se tornou mais frequente, até que ele se afastou totalmente. Eu o conhecia havia muitos anos e sabia de sua história de envolvimento, serviço e dedicação às atividades na igreja. Sabia também que muitas pessoas abraçaram a fé pela influência e testemunho dele. Por isso, sempre considerei com simpatia suas orientações e sua opinião, marcadas pelo equilíbrio e pela ponderação. Decidi ir visitá-lo. Porém, fiz isso sozinho para evitar algum constrangimento. 

O irmão Silva me recebeu com o mesmo sorriso e simpatia de sempre. Conversamos sobre os desafios do dia a dia, a família e os planos, até que finalmente chegamos ao momento da pergunta inevitável: 

– Diga-me, irmão Silva, por que depois de tantos anos na fé e de dedicação à igreja o senhor decidiu abandonar os caminhos de Deus? 

Ele me olhou com surpresa e até espanto: 

– Abandonar os caminhos de Deus? Isso não passou pela minha cabeça. 

O irmão Silva reconheceu a importância da comunhão, mas explicou que estar ausente do templo não significava estar afastado do corpo de Cristo. Segundo ele, o local de adoração não é o que mais importa para Deus, mas sim adorá-Lo em espírito e em verdade (Jo 4:20-24). O irmão Silva enfatizou que só Deus pode avaliar o coração daqueles que são Seus filhos e filhas sinceros, e que uma pessoa pode estar presente fisicamente, mas afastada de Deus espiritualmente ou vice-versa. Ressaltou que podemos fazer parte da igreja de Cristo em qualquer lugar do mundo, desde que permaneçamos ligados a Ele. Admitiu, porém, que para confirmarmos nossa unidade e nossa fé é importante que cada membro permaneça ligado ao corpo quando este se reúne. 

– Mas, então, por que o senhor perdeu o vigor eclesiástico e decidiu se afastar do nosso meio? – eu insisti. 

O irmão Silva sentou-se e decidiu abrir o coração: 

– Já estou há muitos anos na caminhada cristã. Enfrentei com perseverança as lutas, provas e desapontamentos, mas sempre procurei prezar pela fé e me pautar pela prudência. No entanto, em todos esses anos também consegui perceber e avaliar diversos fatores e variáveis que foram sutilmente ocorrendo em algumas denominações, levando alguns a abandonar a comunhão com a igreja. 

– E quais são eles? – indaguei. 

Então ele me apresentou as seguintes razões: 

1. Institucionalização. O grande problema é quando as doutrinas e os dogmas acabam se tornando um fim em si mesmos. Assim como as coisas podem ser mais valorizadas do que pessoas, algumas “verdades” e dogmas também podem. Algumas doutrinas e verdades bíblicas, mesmo não sendo ponto de salvação, podem ser defendidas com tanto zelo e preciosismo que acabam se convertendo mais em barreiras e muralhas de divisão e separação do que em pontes de empatia e aproximação (Mt 15:6, 20). Verdades defendidas sem sabedoria e equilíbrio podem dividir tanto quanto as heresias (Mt 12:2-5). 

2. Dependência excessiva dos meios de comunicação. Não podemos ignorar que o uso das mídias trouxe grande benefício à pregação do evangelho. Porém, uma dependência excessiva dos meios de comunicação tende a limitar a participação, o envolvimento e a utilidade das pessoas. Corremos o risco de depender tanto da mídia a ponto de menosprezarmos ou até mesmo esquecermos da necessidade da atuação e controle do Espírito Santo. Além disso, não podemos ter relacionamentos pessoais sinceros, profundos e confiáveis apenas por meio das redes, plataformas e grupos de internet. Jesus e a igreja apostólica apreciavam o contato presencial com as pessoas e a oportunidade de estar junto com a multidão (Mc 10:1). 

3. Relacionamentos superficiais. Uma das maiores causas de afastamento da igreja na atualidade é a perda do elemento relacional e da interação entre líderes e liderados. A formação de vínculos sociais é um fator básico para a saúde mental e espiritual. Alguns pastores tendem a ser mais gerenciadores eclesiásticos do que cuidadores. Aliás, a visita pessoal de um líder se tornou algo distante da realidade de muitos membros, o que não costuma ocorrer por indiferença ou falta de amor, mas principalmente pelo acúmulo de responsabilidades da liderança. Relacionamentos construídos sobre a formalidade não favorecem o amadurecimento, a confiabilidade e a firmeza da fé. Por isso, muitos que não têm facilidade para interagir e se integrar ao grupo vão naturalmente se excluindo da igreja, até se afastarem definitivamente. 

4. Ênfase no crescimento numérico. Grandes investimentos são feitos em campanhas evangelísticas, a fim de ganhar seguidores e batizar pessoas. No entanto, em muitos casos esse trabalho não é seguido de um acompanhamento mais significativo aos novos na fé. O apóstolo Paulo é um bom exemplo da preocupação com a instrução e conservação dos novos conversos. Apesar das viagens missionárias e da distância física, ele se preocupava em enviar cartas ensinando e exortando aqueles que haviam abraçado a verdade (Gl 1:6-8). 

5. Carência de inovação e criatividade. Muitas denominações mantêm práticas e liturgias de um século atrás. Embora os rituais tenham um papel importante, a repetição automática deles e a falta de criatividade podem ser fatais para a sustentação e o crescimento de uma igreja. A falta de inovação e de criatividade é ainda mais frustrante para os jovens. Não se trata apenas de priorizar conteúdos diferentes e excitantes, produzir incentivos visuais e sonoros ou evocar megaeventos religiosos, mas de apresentar o evangelho eterno de maneira atraente e inovadora. 

6. Mensagens superficiais e sem aprofundamento. Os novos membros precisam de cuidado e também de alimento nutritivo. Mensagens superficiais e sem poder espiritual tendem a produzir pessoas com os mesmos atributos. Às vezes, elas preferem os sermões da TV ou da internet a aqueles que são proferidos dos púlpitos das igrejas. 

7. Falta de envolvimento. Não é novidade o fato de que as pessoas precisam estar ativas para se manter no corpo de Cristo. Infelizmente, muitas denominações falham nesse sentido. Não basta enfatizar a necessidade de envolvimento. É preciso criar condições para que os membros participem da missão. 

8. Conflitos. A maior parte daqueles que abandonam a igreja o fazem também por alguma frustração. Os conflitos são parte da convivência. Inclusive, muitas vezes magoamos, ofendemos e excluímos sem querer. Porém, uma pessoa ressentida e magoada é uma forte candidata à apostasia. E como diz a Bíblia, “O irmão ofendido resiste mais do que uma fortaleza” (Pv 18:19). Por isso, aquele que feriu ou ofendeu, mesmo sem ter essa intenção, deveria imediatamente buscar a reconciliação. Na prática, porém, não é o que acontece. Desse modo o ressentimento tende a se cristalizar. 

Então o irmão Silva me relatou um fato do qual eu já desconfiava. Ele se sentia triste e magoado por ter sido profundamente ferido por alguém de sua denominação e desprezado por seu líder espiritual. O irmão Silva associou aquele desencanto pessoal à igreja como um todo e decidiu se afastar. 

Depois de ter conversado e orado com o irmão Silva passei a reconsiderar toda a minha teologia sobre o afastamento da igreja e a apostasia.

Eronides Nicolas (via Revista Adventista)