quarta-feira, 25 de outubro de 2023

O MAL DOS SERMÕES ÁGUA COM AÇÚCAR

Faz alguns anos, o U.S. News & World Report publicou, como artigo de capa, o tópico sobre a espiritualidade no mundo atual, informando que a religião, em muitas partes do mundo, tomou um manto de psicologia popular. Muitas congregações crescem oferecendo uma teologia açucarada, com uma dieta light de sermões preocupados com temas como “realização pessoal”, como ser “melhor parceiro”, “melhor empregado”, “melhor chefe” e “amigo” e até como “perder peso”. Mesmo admitindo que alguns desses tópicos possam ser uma preocupação da igreja, eles não podem ser o foco central da pregação.

Muitos pregadores modernos têm enfatizado unilateralmente os atributos da misericórdia, perdão e amor de Deus, mas negligenciado igual ênfase em Sua justiça, santidade e inimizade contra o pecado. Poderia ser que, na tentativa de agradar as pessoas e nos tornarmos simpáticos aos que queremos alcançar, estejamos comprometendo os ensinos das Escrituras? É evidente que, como o contexto em que pregamos muda, devemos fazer ajustes em nossa forma de apresentar o evangelho, mas isso não muda sua essência. Enquanto métodos de comunicação podem variar, o fundamento da verdade bíblica deve permanecer inalterável.

Em nossa pregação, não mudamos Deus nem Sua verdade. Devemos manter em equilíbrio dois polos da proclamação cristã; de um lado, manter a identidade, o caráter bíblico do conteúdo proclamado; de outro, manter a relevância, que é o relacionamento da revelação com o contexto humano atual. Muitos querem ser relevantes sem ter identidade bíblica. Outros querem reter a identidade, mas no processo deixam de ser relevantes. Os dois perigos são reais. A preocupação com a relevância tende a levar à “contextualização pragmática” do evangelho, conduzindo à utilização de recursos estranhos à Palavra de Deus.

A atual superficialidade no conhecimento das Escrituras tem contribuído, mais do que qualquer outra coisa, para obliterar a consciência profético-doutrinária da denominação. O estudo objetivo (doutrinário) da Bíblia tem sido substituído por uma leitura pietista (existencialista), destinada quase que exclusivamente a alimentar um relacionamento místico e subjetivo com Cristo. Consequentemente, os sermões de muitas de nossas igrejas tornaram-se mais leves, substituindo, em grande parte, o conteúdo doutrinário da Bíblia pelas experiências pessoais do próprio pregador.

Deveríamos imitar mais de perto o exemplo deixado por Cristo em Seu relacionamento com a verdade. Ellen White afirma: “Em Seus ensinos, Cristo não sermonizava, como fazem os ministros atualmente. Sua tarefa era a de edificar sobre a estrutura da verdade. Ele ajuntou as preciosas pedras da verdade, de que o inimigo se havia apossado e colocado na estrutura do erro, recolocando-as na estrutura da verdade, para que todos os que recebessem a palavra fossem por ela enriquecidos" (Mensagens Escolhidas 1, p. 206).

O outro perigo é a tentativa de ser “bíblico” e cair na bibliolatria, respondendo a perguntas que ninguém está fazendo. Ou tentar responder, no século 21, a questões do século 19. De qualquer maneira, devemos entender que o único evangelho capaz de satisfazer às necessidades humanas é o evangelho real, ministrado em sua fórmula original, sem açucaramentos ou diluições.

Charles Spurgeon, o Príncipe dos Pregadores (como era conhecido por muitos), disse: "Evitai o evangelho açucarado, assim como evitaríeis um açúcar amaciado pelo chumbo. Procurai o evangelho que rasga e rompe e corta e fere, entalha e até mesmo mata, pois esse é o evangelho que também vivifica."

Creio, particularmente, que a superficialidade doutrinária que enfrentamos hoje é uma das mais importantes estratégias satânicas para deixar-nos despreparados para os eventos finais, sem condições de expormos, de forma convincente, a base bíblica de nossas doutrinas. "Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, pois o próprio Satanás se transforma em anjo de luz" (2 Coríntios 11:13, 14).

Concluo com este pensamento de Ellen G. White extraído do livro Os Ungidos (pp. 60-61). Ela nos adverte:

"A voz severa de repreensão é necessária ainda hoje, pois pecados terríveis têm separado de Deus o povo. A infidelidade virou moda. ‘Não queremos que esse homem seja nosso rei’ (Lc 19:14), milhares afirmam. Os sermões superficiais pregados com tanta frequência não causam efeito duradouro; a trombeta não dá um sonido certo. O coração das pessoas não é atingido pelas claras, cortantes verdades da Palavra de Deus.

Muitos dizem: ‘Por que precisamos falar de forma tão clara?’ isso é o mesmo que perguntar: ‘Por que João Batista teve que provocar a ira de Herodias, dizendo a Herodes que ele estava errado em viver com a mulher de se irmão?’ Aquele que preparou o caminho para o ministério de Cristo perdeu a vida por falar com clareza.

Os que deveriam ser guardiões da lei de Deus têm usado esse argumento até que finalmente permitem que a comodidade torne o lugar da fidelidade, e o pecado continue a ser praticado sem reprovação. Quando será a voz da fiel reprovação ouvida novamente na igreja?

‘Você é esse homem’ (2Sm 12:7). Raramente se ouve nos púlpitos de hoje, raramente se lê nas publicações atuais, palavras tão claras como essas, ditas por Natã a Davi. Os mensageiros do Senhor não dão resultados enquanto não se arrependem do desejo de agradar aos outros, pois isso faz com que encubram a verdade.

Não é por amor ao próximo que os pastores amenizam a mensagem sob sua responsabilidade, mas porque são condescendentes consigo mesmos e amam a vida fácil. O verdadeiro amor busca primeiro a honra a Deus e a salvação do próximo. Os que possuem esse amor não deixaram de falar a verdade para fugirem dos resultados desagradáveis de falar com clareza. Quando as pessoas estão em perigo, os pastores de Deus falarão a palavra que lhes é ordenada, recusando desculpar o mal.

Ah, se todo pastor tivesse a coragem de Elias! Os pastores deve repreender, corrigir e exortar ‘com toda a paciência e doutrina’ (2Tm 4:2). Em nome de Cristo eles devem animar o obediente e advertir o desobediente. Ele não devem dar valor algum aos interesses mundanos, mas prosseguir com fé. Não devem falar suas próprias palavras, mas sua mensagem deve ser: ‘Assim diz o Senhor’ (Êx 4:2). Deus chama pessoas como Elias, Natã e João Batista – pessoas que levarão fielmente Sua mensagem sem temer as consequências, pessoas que falarão a verdade, ainda que isso signifique sacrificar tudo que possuem."

terça-feira, 24 de outubro de 2023

POR QUE JUDAS TRAIU JESUS?

Existem muitas dúvidas sobre as motivações que impulsionaram e, por fim, levaram Judas a entregar Jesus aos líderes judeus. Podemos destacar algumas questões, mas é complicado oferecer uma resposta definitiva para essa pergunta.

1. Processo longo. Temos que admitir que Judas se uniu aos discípulos motivado pelo caráter amoroso de Cristo e pelo poder que Ele demonstrou durante Seu ministério (Mt 10:4). Assim como os outros discípulos, Judas veio a Jesus com suas imperfeições, mas nunca as dominou. A mais perniciosa delas era a avareza, que o cegou para a verdadeira natureza da obra de Cristo (Jo 12:6; cf. Mt 26:15). Depois de permanecer com Jesus cerca de um ano, é provável que Judas tenha expressado suas frustrações aos discípulos e talvez tenha criticado, pelas costas, o trabalho de Jesus. Isso levou o Mestre a fazer uma pergunta retórica aos discípulos: “Não é fato que Eu escolhi vocês, os doze? Mas um de vocês é um diabo [diabolos, caluniador, adversário]” (Jo 6:70, NAA). Nesse ponto, Judas ainda não estava pensando em traí-Lo (v. 71; cf. Lc 6:16).

A frustração de Judas com a direção do trabalho de Jesus atingiu um ponto crucial após Maria tê-Lo ungido com um perfume tão valioso. Ele escondeu sua verdadeira oposição, mas seu egoísmo foi exposto, e Jesus o repreendeu com delicadeza (Jo 12:5-8). Desta vez, Judas buscou os líderes judeus com o propósito de trair o Mestre (Mc 14:10; Mt 26:14). No momento da Última Ceia, o inimigo já havia colocado no coração de Judas a ideia de trair Jesus (Jo 13:2). O ponto de não retorno foi alcançado durante a Ceia, quando Jesus o identificou como traidor, dizendo que Satanás havia entrado nele (v. 27). O texto bíblico relata que “Judas logo saiu. E era noite” (v. 30).

2. A motivação. É seguro afirmar que Judas era dominado pelo egoísmo e pela avareza, o que o levou a trair Jesus. Em primeiro lugar, podemos presumir que Judas, assim como os outros discípulos, acreditava que Jesus era um Messias político destinado a libertar Seu povo dos romanos. Unir-se a Ele poderia assegurar-lhe uma posição proeminente no reino de Cristo. Em segundo lugar, Judas logo começou a perceber que a visão de Jesus para Seu reino era de natureza espiritual, não militar, e isso o frustrou. Ao que parece, após a tentativa fracassada do povo de coroar Jesus como rei à força, Judas começou a questionar se deveria manter sua lealdade a Ele (Jo 6:14, 15, 70, 71). Em terceiro lugar, é provável que Judas não tenha gostado da ideia de Jesus estar prevendo Sua própria morte, algo incompatível com o conceito de Messias militar que ele tinha em mente (cf. Mc 14:8, 10). Em quarto lugar, sabemos que, ao entregar Jesus, Judas esperava que, como em ocasiões anteriores, Ele escapasse (Mt 27:3), talvez antecipando uma demonstração de Jesus como um Messias militar.

Durante a prisão do Salvador, tornou-se evidente que Ele poderia ter escapado, mas optou por não fazê-lo (Jo 18:5-8). Ficou claro que Jesus, e não os soldados ou Judas, estava no controle de Seu destino. Quando Judas percebeu que Jesus estava prestes a ser morto, tentou interromper o que pensava ter desencadeado (Mt 27:3, 4), porém era tarde demais; Jesus tinha vindo para morrer. Impelido por um profundo sentimento de culpa, Judas saiu e tirou sua própria vida (v. 5). Sim, Judas ansiava por um lugar no reino militar de Cristo visando ao benefício pessoal, mas não no Seu reino espiritual. Judas jamais compreendeu que a missão de Jesus era oferecer Sua vida em favor daqueles que integrariam Seu reino eterno.

Ángel Manuel Rodríguez (via Revista Adventista)

"Jesus havia lavado os pés de Judas, mas isso não fez com que amasse o Mestre mais do que antes. Ficou aborrecido porque Cristo havia feito o trabalho de um servo. Agora ele sabia que Jesus não seria rei e isso fez com que ficasse mais determinado a traí-Lo" (Ellen G. White - Vida de Jesus, p. 77).

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

CRISE DE IDENTIDADE DA IGREJA

O cristianismo atual vive uma crise de identidade. Entre as muitas causas desse fenômeno, encontra-se a exaltação das tradições humanas e dos conceitos pós-modernos de cosmovisão. O estudo da Bíblia e de suas doutrinas tem perdido espaço para a experiência sensorial e as mensagens existencialistas. É preciso se voltar para os fundamentos bíblicos da fé cristã e indagar qual é a finalidade de nossa existência como povo de Deus.

Identidade adventista
A identidade adventista é o que nos distingue dentro do cristianismo, isto é, a identidade é a essência do adventismo, o que define sua existência. O assunto da identidade, portanto, toca na questão da contribuição que o adventismo dá ao cristianismo. Além disso, a identidade é essencial para responder aos tempos ecumênicos em que vivemos. Se não sabemos o que somos, dificilmente podemos evitar ser atraídos e assimilados pelo ecumenismo. Agora, o que define a existência do adventismo é sua teologia. Sem teologia não há identidade e, sem identidade, não há missão. A base fundamental da teologia adventista é o princípio Sola Scriptura, que está estabelecido na primeira crença fundamental do cristianismo.

A Igreja Adventista desenvolve sua teologia tomando por base, exclusivamente, os ensinamentos bíblicos. Os pilares do adventismo são aspectos fundamentais e gerais das Escrituras. Esses pilares são: a doutrina do santuário; a imortalidade condicional do homem; a lei de Deus, incluindo o sábado; e as três mensagens angélicas. Esses princípios gerais estabelecem os fundamentos macro-hermenêuticos sobre os quais o adventismo interpreta as Escrituras, constrói sua teologia, desenvolve sua identidade como igreja e concebe sua missão global.

Identidade denominacional
Identidade tem que ver com o fato de ser uma pessoa ou coisa específica, determinada por um conjunto de traços ou características que a diferencia das outras. A identidade assume a existência de uma coisa ou sujeito, no nosso caso, a Igreja Adventista, e descreve as características fundamentais que a distinguem. Isso nos ajuda a entender que nossa existência é nossa identidade, a qual expressamos quando enumeramos as características que nos distinguem no mundo cristão e das religiões não cristãs.

Portanto, a existência da Igreja Adventista como denominação cristã implica a existência de sua identidade, ou seja, as características fundamentais que a definem como uma versão universal do cristianismo. Assim, o importante não é “ter” uma identidade, mas “reconhecer” nossa identidade, seja como membros ou como líderes. É de suma importância que todos reconheçamos e internalizemos a identidade bíblica do movimento a que pertencemos, porque disso depende a salvação e a missão da igreja e do cristianismo em geral.

Crises de identidade internas da igreja
As novas gerações de nossa igreja, em vários lugares do mundo, passaram a entender a identidade adventista de diferentes maneiras. Essas novas formas de adventismo surgem de um abandono progressivo, ao longo de sucessivas gerações, do princípio Sola Scriptura, ao ponto de alguns rejeitarem a inspiração completa das Escrituras e do Espírito de Profecia. O princípio “somente pelas Escrituras” tem sido substituído pelo princípio das tradições humanas. Isso tem gerado uma reinterpretação do adventismo, de suas doutrinas, de suas práticas e de sua missão. Tudo isso tem mudado a maneira pela qual as novas gerações vivem o adventismo em sua prática diária.

Esse processo se estabeleceu devido a um progressivo “eclipse das Escrituras”, não somente em nível teológico-doutrinário, mas também em nível de liderança, pregação e espiritualidade das novas gerações de adventistas. Tudo isso se manifesta nos cultos, no momento da adoração, em que doutrinas e práticas que contradizem os ensinamentos e o espírito do adventismo bíblico original são introduzidas sorrateiramente. Felizmente esse não é o quadro geral da igreja nem o que se observa na maioria dos líderes e membros ao redor do mundo. Graças a Deus, a maioria está enraizada no princípio Sola Scriptura, que fundamenta a unidade espiritual e a missão da igreja. Deve-se alertar nossos líderes locais e institucionais sobre a existência dessa interpretação minimizada do adventismo, para que juntos retornemos às Escrituras e superemos essa situação em todos os níveis da comunidade adventista global.

Principais motivos que levam a uma separação teológica e prática entre a vida diária do cristão e sua salvação
As causas são muitas e de diferentes naturezas. Por exemplo, adventistas mais conservadores são doutrinários. Refiro-me aos que aceitam os ensinamentos da igreja, mas não estudam a Bíblia por si mesmos e, dessa maneira, não desenvolvem relacionamento pessoal com Deus. Para eles, o estudo da Bíblia e a teologia não são necessários nem para a salvação nem para a missão. O importante é proclamar o evangelho e batizar novos conversos. Estudar a Bíblia e se aprofundar nela é considerado perda de tempo. Somente a missão importa, isto é, pregar e batizar. Os teólogos são, para eles, aqueles que transmitem as doutrinas já conhecidas e aceitas às novas gerações. Essa abordagem causa separação entre a teologia e o estudo da Bíblia, a administração e a liderança pastoral da igreja. Na prática, teologia e missão se separam.

Outra causa de separação entre a teoria e a prática se deriva da “protestantização” do adventismo. Ela decorre da convicção de que o adventismo e o protestantismo concordam teologicamente em todas as doutrinas fundamentais e somente diferem em aspectos específicos e tangenciais, como a doutrina do santuário, a interpretação das profecias e o ministério profético de Ellen White. Nessa tendência generalizada, o ponto central é conceber a salvação como justificação (perdão dos pecados), excluindo a santificação, que é concebida como “fruto ou evidência” da salvação já apropriada na justificação. O importante, então, é receber a justificação, que ocorre quando respondemos à pregação da cruz. O estudo das Escrituras e da teologia não são necessários para a salvação, porque somente a prática é necessária.

Ainda outra causa que leva à separação entre a teoria e a prática é a especialização requerida pelo constante progresso na investigação das Escrituras Sagradas.

Devemos ficar alertas, especialmente os líderes da igreja, quando ouvirem a apresentação da Palavra de Deus. Precisamos retornar à Bíblia no púlpito, no lar e, acima de tudo, na mente e no coração. Isso requer uma transformação espiritual e logística em nossa vida, um reavivamento e uma reforma pessoal e também denominacional. Ela deve estar no centro de nossa identidade como igreja que anuncia a breve volta de Jesus por meio da tríplice mensagem angélica (Apocalipse 14:6-12).

Conclusão
E como podemos evitar o perigo de perder nossa identidade denominacional? Não permitindo a inércia, a fusão de doutrinas nem o abandono dos princípios fundamentais da Palavra de Deus. Somente um retorno paradigmático profundo e espiritual às Escrituras como guia, fundamento e inspiração nos salvará da pressão ecumênica de nossos tempos, e nos permitirá cumprir a missão final neste mundo.

[via T7]

Texto baseado em declarações do doutor Fernando Canale. Ele tem um extenso currículo de serviços prestados à Igreja Adventista. Graduado em Teologia e Filosofia pela Universidade Adventista del Plata (UAP), em 1978 obteve seu mestrado em Filosofia pela Universidade Católica de Santa Fé e, em 1983, o doutorado em Teologia pela Universidade Andrews, Estados Unidos. Durante alguns anos foi pastor no Uruguai. Como docente da UAP, ministrou aulas nas faculdades de Pedagogia, Filosofia e Teologia. Em 1985 foi convidado a trabalhar como professor de Teologia e Filosofia Cristã ao lado do doutor Raoul Dederen, na Universidade Andrews, onde serviu até sua jubilação, em 2013. Atualmente tem atuado como professor emérito da Universidade Andrews. Ele é autor do livro "Adventismo Secular?".

domingo, 22 de outubro de 2023

DIA DA DECEPÇÃO

Era 1844. As folhas de carvalho silvestre espalhadas pelos ventos do outono indicavam a breve chegada de mais uma temporada de frio e neve no hemisfério norte. Elas também poderiam simbolizar uma mensagem que havia alcançado milhares de pessoas na América do Norte. Convictas da iminente volta de Cristo, anunciada por Guilherme Miller e diversos pregadores voluntários, elas aguardavam com entusiasmo o dia 22 de outubro, a gloriosa data em que teria fim a história do pecado e começaria uma existência de eterna alegria no reino dos céus.

Frustração
Quando o sol raiou em 23 de outubro, muitos mileritas descobriram que, em vez das mansões celestiais, o que encontrariam em pouco tempo seriam os rigores do inverno americano. O dia 22 de outubro tornou-se conhecido no calendário milerita como a data da Grande Decepção, ou Grande Desapontamento. Alguns continuaram crendo que o retorno de Cristo aconteceria ainda naquele mês ou naquele ano, ou até mesmo em uma data não muito distante. Mas a passagem do tempo desfez todas as esperanças marcadas com prazo de validade.

Depois desse período, Miller continuou crendo no breve retorno de Cristo, mas deixou as funções de pregador itinerante e voltou às atividades em sua propriedade rural em Low Hampton. Josué Himes, o grande propagandista milerita, tentou durante algum tempo manter a unidade do movimento e liderou a assistência aos seguidores que necessitavam de amparo material. Porém, passados alguns meses, os mileritas eram como um vaso partido em muitos fragmentos.

Em busca de resposta
Alguns abandonaram não apenas o movimento, mas também a fé cristã e a esperança em uma redenção futura. Entre os que permaneceram, impunha-se a pergunta: o que realmente havia acontecido em 22 de outubro de 1844? Se os cálculos proféticos estivessem corretos, onde estaria o erro?

Para importantes líderes do movimento milerita, como Himes, algum equívoco relacionado à interpretação do tempo de cumprimento das profecias tinha ocasionado o desapontamento. Outros passaram a crer que a data e o evento estavam corretos, mas haviam se cumprido “espiritualmente”. Cristo teria voltado para o coração dos crentes. Essa era uma das interpretações apontadas pelos espiritualizadores.

Em meio às mais diversas teorias, um grupo passou a analisar novamente a Bíblia, sugerindo que a natureza do evento profetizado talvez devesse ser mais bem compreendida. Josias Litch, um dos líderes mileritas, antes mesmo do desapontamento de 22 de outubro, já havia apresentado essa possibilidade.

O santuário celestial
Uma ramificação do movimento, bem pouco expressiva após o desapontamento, seguiu a trilha apontada por Litch: a profecia havia se cumprido; porém, para entender seu cumprimento, seria necessário estudar novamente o texto sagrado à luz do ministério da salvação desenvolvido no antigo tabernáculo israelita. Só assim seria possível compreender o texto-chave dos mileritas: “Até duas mil e trezentas tardes e manhã e o santuário será purificado” (Dn 8:14).

Para esse grupo, o significado das 2.300 tardes e manhãs estava bem claro, pois havia sido estudado exaustivamente naqueles últimos anos (veja o quadro). A questão era compreender o significado da purificação do santuário. Para Miller, seria a volta de Cristo à Terra. Porém, após buscar a Deus em oração, logo após o desapontamento, o milerita Hiram Edson vislumbrou outra interpretação enquanto caminhava por um milharal próximo à sua propriedade. Ele viu que, ao se completarem os 2.300 dias proféticos, Jesus Cristo adentrava ao lugar santíssimo do santuário celestial, onde teria uma obra a realizar antes de Seu retorno à Terra.

Ao estudar a Bíblia em companhia de amigos como Owen Crosier e Franklin Hahn, Edson uniu a visão à convicção vinda da Palavra de Deus. Com base no livro Millennial Fever and the End of the World, de George Knight, podemos considerar as principais conclusões às quais chegaram Edson e seus companheiros de estudo:

1. Há um santuário literal no Céu (Hb 8:1-5).

2. O santuário terrestre era uma representação visual do plano da salvação e um modelo do tabernáculo celestial (Êx 25:8; Hb 9:23).

3. Assim como o santuário israelita tinha um ministério realizado em duas fases, sendo a segunda delas o ritual do Dia da Expiação, o santuário celestial também tem duas fases. A primeira tem início no lugar santo, com a ascensão de Cristo ao Céu. A segunda é realizada no lugar santíssimo, começando em 22 de outubro de 1844, data profética que assinala o Dia da Expiação escatológico.

4. A primeira fase do ministério de Cristo diz respeito fundamentalmente ao perdão dos pecados. A segunda parte trata principalmente da extinção do pecado e da purificação do santuário e também dos crentes.

5. A purificação do santuário de Daniel 8:14 referia-se a uma limpeza do pecado realizada por meio do sangue de Cristo e não pelo fogo.

6. Cristo não retornará até que a obra de purificação do santuário celestial esteja completa.

Caminho iluminado
Ellen G. White e seu esposo, Tiago, estavam entre aqueles que abraçaram essas convicções e tiveram a experiência espiritual renovada após o período sombrio do desapontamento. Ele relata: “Muitos de nosso povo não reconhecem quão firmemente foram lançados os alicerces de nossa fé. Meu esposo, o pastor José Bates, […] o pastor [Hiram] Edson e outros que eram inteligentes, nobres e verdadeiros achavam-se entre os que, expirado o tempo em 1844, buscavam a verdade como a tesouros escondidos. Reunia-me com eles e estudávamos e orávamos fervorosamente. Muitas vezes ficávamos reunidos até alta noite, e às vezes a noite toda, pedindo luz e estudando a Palavra” (Cristo em Seu Santuário, p. 10).

Antes mesmo que a razão para o desapontamento fosse plenamente compreendida à luz da Bíblia e propagada, Deus havia concedido a Ellen G. White uma visão de encorajamento que deveria ser apresentada ao povo do advento. Nessa primeira de muitas visões, Ellen contemplou uma luz que brilhava no início de um caminho “reto e estreito” trilhado pelos que esperavam a segunda vinda. Um anjo identificou a luz como o “clamor da meia-noite”, termo que designa a intensa pregação milerita no verão e no outono de 1844, anunciando a volta de Cristo. O caminho era mais longo do que inicialmente se acreditava, mas Cristo conduzia Seu povo à cidade santa. Os que “negavam a existência da luz atrás deles” logo se consideravam em um caminho errado e caíam para o mundo “tenebroso e ímpio”. Mas os que valorizavam a luz disponível olhavam para Cristo e para a cidade e venciam.

Firme alicerce
Com base na revelação divina apresentada por meio de visões e confirmada com criterioso estudo do texto sagrado, esse pequeno grupo de crentes encontrou coragem e esperança em meio ao despontamento. Com os olhos abertos para a realidade bíblica do ministério de Cristo no santuário celestial tiveram a certeza de que Deus os estava guiando em meio às provações. “Eu sei que a questão do santuário se firma em justiça e verdade, tal como a temos mantido por tantos anos”, afirmou Ellen G. White (Cristo em Seu Santuário, p. 11).

Passados 170 anos da decepção experimentada pelos mileritas, a Igreja Adventista do Sétimo Dia é a mais destacada ramificação do antigo movimento. Enquanto outros grupos mileritas se extinguiram ou se tornaram irrelevantes, os adventistas alcançaram o globo com a mensagem do breve retorno de Cristo. A incessante busca pela revelação divina e pela correta compreensão da Palavra de Deus transformou uma aparente derrota em vitória. Porém, os triunfos dos pioneiros não podem degenerar-se em ufanismo triunfalista. A fidelidade às revelações divinas é o firme alicerce para aqueles que aguardam o encontro com Cristo. Referindo-se à mensagem sobre o santuário celestial, Ellen G. White afirmou: “Não devemos desviar-nos da plataforma da verdade em que fomos estabelecidos.”

Entenda como se chegou à data de 22 de outubro de 1844
Grande parte dos esforços de Guilherme Miller e seus seguidores foi dedicada a desvendar o significado da passagem de Daniel 8:14: “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs e o santuário será purificado.” Veja a seguir alguns passos que ligam a profecia de Daniel à data anunciada pelos mileritas e atualmente aceita pelos adventistas do sétimo dia:

- Usando o princípio de interpretação profética dia-ano (Nm 14:34; Ez 4:4-7), é possível concluir que a profecia trata de um longo período de 2.300 anos.

- Para descobrir o tempo de seu cumprimento, é necessário encontrar a data que teria dado início à contagem profética. Conectando a passagem de Daniel 9:24-25 ao texto encontrado em 8:14, identifica-se a ordem para restaurar e edificar Jerusalém, após o cativeiro babilônico, como o evento inaugural da profecia.

- Em Esdras 7:7-9 encontra-se a referência temporal à ordem do rei persa Atarxerxes para a reconstrução de Jerusalém. Assim, com ajuda da história é possível identificar o ano 457 como o início da profecia.

- O cumprimento da profecia das 70 semanas proféticas, ou 490 anos (Dn 9:24), a primeira parte da grande profecia dos 2.300 anos, se deu com a morte de Cristo no ano 27, na metade da última semana profética (Dn 9:27).

- Selada com a morte de Cristo no calvário, a profecia das 2.300 tardes e manhãs teve cumprimento em 1844, com o início do Dia da Expiação escatológico.

- A data de 22 de outubro foi proposta com base no Dia da Expiação realizado no 10º do 7º mês do calendário judaico (Lv 16:29-30).

Guilherme Silva (via Revista Adventista)

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

A BATALHA É DO SENHOR!

Vamos estudar a profecia que está em 2 Crônicas 20:15 e 17 “Assim vos diz o Senhor: Não temais, nem vos assusteis por causa da grande multidão. Pois a peleja não é vossa… Nesta peleja não tereis de pelejar. Parai, e estai em pé e vede a salvação do Senhor… Amanhã saí-lhes ao encontro e o Senhor será convosco”.

Essa profecia foi feita por Jaaziel, que viveu em torno do ano de 896 aC. Jaaziel, da tribo de Levi, foi usado por Deus para profetizar sobre a vitória de Israel contra um poderoso exército, formado pelos Moabitas, Amonitas e Meunitas. Esses povos se uniram para saquear e destruir Judá. O rei, nessa época, era Josafá. Ele foi o quarto rei de Judá e reinou nos anos de 873 a 849 aC. Josafá foi um rei que fez a vontade do Senhor em todos os seus 25 anos de reinado. Só que agora não sabia o que fazer, a não ser buscar a Deus.

O que chama a minha atenção é a atitude de Josafá diante dessa situação. Note: “Temeu Josafá, e pôs-se a buscar o Senhor, e apregoou jejum em todo o Judá” (2 Crônicas 20:3). Um homem de Deus sempre terá esta atitude. Buscará ao Senhor com todas as forças. Josafá chegou a dizer: “Não sabemos o que fazer, mas os nossos olhos estão postos em Ti” (20:12). O povo, ao ver o exemplo do rei, imediatamente o imitou. “Judá se ajuntou para pedir socorro ao Senhor…e o povo veio para buscar ao Senhor” (2 Crônicas 20:4).

Enquanto o rei e todo o povo confessavam a Deus a sua fragilidade, um dos filhos de Israel, se levantou e fez uma profecia que, para alguns, era um conforto, um alívio, mas, para outros, era algo desesperador. A principal razão do desespero é que Jaaziel nunca havia feito uma profecia. Ele não era um profeta. O povo não o conhecia como profeta. Não tinha a experiência. Outra razão que desesperava o povo de Israel, era que o novo profeta dizia que nesta batalha ninguém teria que lutar. “Esta batalha é do Senhor. Nesta batalha não tereis que pelejar”.

A batalha seria de Deus, porém o povo precisaria ir e parar diante do inimigo e assistir a atuação do Senhor dos exércitos. Ah! meu amigo, quando nós vamos compreender que na guerra contra o mal, a batalha é do Senhor? Ele é quem luta por nós! O meu e o seu problema sempre serão de Deus, porém Ele não fará a nossa parte. Precisamos enfrentar o inimigo sem demora!

Muitas vezes, quando decidimos sair para enfrentar o inimigo, já é tarde demais. Não perca tempo, não se atrase, saia logo e enfrente o seu “leão de todo o dia”. Encare-o, certo de que Deus estará ali para lutar ao seu lado.

Problemas não precisam ser postergados. Não deixe para amanhã o que você pode fazer hoje. Há pessoas que sempre estão deixando para começar a fazer exercício físico na segunda-feira. Outros vão deixar de comer gordura, também amanhã. Outros vão começar a ler a Bíblia amanhã. Viva o hoje! O amanhã é incerto!

O povo de Israel estava temeroso com a profecia de Jaaziel. Será que isso dará certo? Será que vai funcionar? Não vamos precisar levar nenhuma pedra, nem uma pequena faca? Não, disse Jaaziel. Só deverão sair bem cedo e assistir o que Deus vai fazer.

Não era fácil crer. O rei, porém, assume o papel de líder, e de manhã bem cedo, sai com o povo para o deserto de Tecoa e diz o seguinte: “Crede no Senhor vosso Deus e estareis seguros, crede nos seus profetas e prosperareis” (2 Crônicas 20:20)

Não havia espaço nem tempo para análises ou questionamentos. Era hora de crer e não duvidar do Deus do céu. Era a hora de todos se envolverem com o Senhor e esperar o socorro. Também era hora de crer no que o profeta havia falado.

Permita-me falar um pouco sobre o significado da palavra “crer”. A melhor definição que até hoje descobri é: “envolvimento”. Hoje, o que mais o ser humano precisa, é de envolvimento com Deus, sem estar discutindo se está certo ou errado. Quando Deus fala, eu só devo ter uma atitude: envolvimento. Não fique brigando com o que Deus diz, se envolva com Ele!

Os nossos amigos israelitas de manhã cedo saíram, de acordo com a palavra do profeta e o que viram e fizeram foi maravilhoso. Apenas cantaram sobre a grandeza de Deus. Algo estranho e surpreendente ocorreu. 2 Crônicas 20:22 conta: “E ao tempo que começaram com jubilo e louvor, o Senhor pos emboscadas contra os filhos de Amom e de Moabe e os das montanhas de Seir, que vieram contra Judá, e foram desbaratados”.

Os inimigos do povo de Deus foram derrotados e a nação de Judá foi libertada unicamente pela atuação de Deus. A Bíblia conta que os povos vizinhos, ao saberem do que tinha acontecido, começaram a temer o Deus do céu.

Portanto, não esqueça nunca: “Crede no Senhor vosso Deus e estareis seguros, crede nos seus profetas e prosperareis”. Isto foi real para os habitantes de Judá no ano de 896 aC e pode ser real para você agora! Hoje, nesse momento!

[via WGospel]

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

A VIDENTE DE ENDOR

Os israelitas estavam em guerra novamente. Dessa vez, as tropas de Saul se preparavam para enfrentar os poderosos filisteus. O local da batalha era o vale de Jezreel, uma área estratégica para controlar as importantes rotas de comércio da região. O povo de Israel montou seu acampamento no monte Gilboa, a poucos quilômetros do exército filisteu, em Suném (1Sm 28:4). A cena intimidou Saul (v. 5) e, para piorar, Deus não respondia a seus apelos por meio de sonhos, Urim ou dos profetas, modos legítimos de revelação nos tempos bíblicos (v. 6). Por recomendação de seus servos, o rei foi ao encontro de uma necromante na cidade de Endor (v. 7, 8), a moderna Khirbert es-Safsafe, aproximadamente sete quilômetros do monte Gilboa, e muito próxima do acampamento filisteu. Saul se disfarçou (v. 8) justamente para não correr o risco de ser identificado como líder dos israelitas. Ele estava entrando em terreno inimigo.

Esse é o pano de fundo da narrativa mais importante das Escrituras relacionada ao envolvimento de um israelita com a necromancia, a prática de buscar os mortos com o propósito de revelar o desconhecido ou prever o futuro.1 Explicitamente condenada no Antigo Testamento (Lv 19:31, Dt 18:10-11 e Is 8:19), a necromancia é bem atestada no Antigo Oriente Médio, e os textos daquela região podem ajudar o leitor moderno a ter uma compreensão mais adequada do que ocorreu naquela noite em Endor.

A necromante
Em 1 Samuel 28:7, ela é chamada de ‘ešet ba‘alat’ ‘obh, uma expressão que geralmente é traduzida como “uma mulher que invoca espíritos” (NVI) e “uma mulher que seja médium” (ARA). A personagem era uma intermediária entre os vivos e os mortos; não uma bruxa, como é costumeiramente apresentada, mas uma necromante. No entanto, a descrição do versículo 7 pode ser também traduzida como “uma mulher [que serve] a senhora dos espíritos ‘obh.” Essa “senhora” provavelmente seja Shapshu, uma deusa solar do panteão da cidade de Ugarite, atual Ras Shamra, na Síria.2 Os textos de Ugarite são de extrema importância para entender a religião cananita no período bíblico. Neles, Shapshu é descrita em textos mitológicos e religiosos como alguém capaz de trazer o espírito dos mortos do submundo para o mundo dos vivos durante a noite. É possível que essa deusa fosse um tipo de “padroeira” da necromante de Endor. Isso também poderia explicar o motivo do rei e de seus servos terem ido consultá-la à noite (v. 8, 20, 25). Invocar os mortos durante a noite também era uma prática confirmada por textos de Ugarite e dos Hititas, uma importante civilização que governou parte do Antigo Oriente Médio durante o 2º milênio a.C.

O fato de Saul ter evitado alimentos durante o dia (v. 20) parece indicar um certo requisito para aquele ritual de necromancia. O objetivo? Assegurar a liderança “divina” para a ocasião. Um exemplo da importância do jejum no contexto de consulta a uma divindade no Antigo Oriente pode ser visto em 2 Crônicas 20, em que o rei Josafá reúne toda a nação e proclama um jejum nacional com o objetivo de buscar ao Senhor (v. 3, 4). Os termos hebraicos utilizados nesses versos para essa “busca” a Yahweh, baqash e darash (v. 3, 4) são os mesmos usados em 1 Samuel 28:7. Portanto, parece não ter sido mera coincidência o jejum de Saul nessa situação.

O ritual
A terminologia usada no diálogo entre o monarca israelita e a necromante apresenta muitas pistas que explicam as crenças dessa mulher. A palavra “espírito” no versículo 8 é o termo hebraico ‘obh, que provavelmente é emprestado da língua hitita (api) e que também é encontrado em documentos sumerianos, acadianos e ugaríticos. Seu significado básico nessas línguas é “fossa/poço para sacrifício”.3 Existem alguns exemplos em textos encontrados nas terras bíblicas onde fossas ou poços eram usados para rituais de necromancia. O exemplo mais antigo é o conto “Gilgamesh, Enkidu e o Submundo”, produzido na cidade de Nippur, no sul da Mesopotâmia, atual Iraque. Nessa história, o amigo de Gilgamesh, Enkidu, volta do mundo dos mortos através de um buraco cavado no chão.4

Alguns textos hititas também descrevem rituais de necromancia nos quais se utilizam poços no chão. Nesses relatos, uma “mulher velha”, em hitita haššawa, realiza uma cerimônia noturna na presença de vários religiosos, incluindo exorcistas, sacerdotes e médicos. Nos poços, também chamados de “fossas para sacrifício”, era colocado sangue de vários animais, entre eles porco, cachorro, aves e cordeiro. Além do sangue, uma mistura de azeite, mel, queijo, leite, vinho e cerveja era oferecida como libação às divindades do submundo. Todos esses elementos eram despejados dentro da fossa. Curiosamente, outros dois objetos eram colocados ali: uma orelha de prata, símbolo do desejo dos adoradores de ouvir a mensagem do submundo, e uma pequena escada de prata, simbolizando a vontade dos adoradores de que o espírito requerido saísse do poço. 5 O último exemplo vem de Ugarite, onde no conto de Aqhat (2Aqht I, linhas 26-29), o “espírito de um poço” é mencionado.

Por causa dessas informações, creio que a primeira parte do versículo 8 deva ser lida “invoque para mim através de um poço/fossa de sacrifício”, ao invés de “invoque um espírito para mim”. A segunda parte do mesmo texto concorda com essa proposta quando diz “fazendo subir aquele cujo nome eu disser” (ARA). A presença do verbo hebraico ‘alah, “subir”, faz sentido se ‘obh for um poço/fossa de sacrifício, como descrito no parágrafo anterior.

A necromante descreveu seu transe no versículo 13 com as palavras: “vejo deuses que sobem da terra”. A Almeida Revista e Corrigida traduziu corretamente do original, ao contrário das outras traduções consultadas, que traduziram o sujeito da frase no singular: “um deus que sobe da terra”. Esse é um detalhe importante numa leitura atentiva do texto. A mulher está vendo “deuses que sobem da terra” (v. 13), plural, mas Saul quer saber “qual é a aparência dele” (v. 14), singular. Temendo por sua própria vida (v. 8-12), a mulher aproveitou o intenso desejo de Saul para falar com Samuel e disse o que ele gostaria de ouvir, “um ancião [...] envolto numa capa” (v. 14), uma descrição extremamente vaga.

O substantivo hebraico ‘Elohim (v. 13), Deus ou deuses, dependendo do contexto, também demonstra a familiaridade do autor bíblico com o pano de fundo religioso do Antigo Oriente. Nos textos da Mesopotâmia, por exemplo, a palavra “fantasma” é precedida pelo sinal utilizado para identificar divindades (dingir) e, às vezes, o substantivo “deuses” é usado para se referir aos “mortos”. Esse mesmo conceito era conhecido em Canaã, onde os mortos eram aparentemente adorados como deuses (cf. Nm 25:2; Sl 106:28).

Apesar de os textos religiosos dos vizinhos de Israel relatarem em detalhes o processo de invocação de um espírito, na descrição de 1 Samuel 28 não há encantamentos ou feitiços recitados pela mulher durante o ritual, provavelmente devido à natureza pagã deles. O único vislumbre disso no relato bíblico é o uso do verbo hebraico qara’, “chamar”, usado para descrever a invocação de Samuel (v. 15). Essa é a mesma raiz verbal usada em textos ugaríticos para detalhar a invocação dos mortos.

No fim da cerimônia, a mulher sacrificou (zabah) um bezerro e pediu que Saul o comesse (v. 24). Em textos ugaríticos e hititas, sacrifícios eram feitos antes da manifestação de um espírito, a fim de convidá-lo para a reunião necromântica. Aqui o sacrifício foi feito no fim do ritual. Qual o motivo? Um texto acadiano da cidade de Nínive (K 2779) tem instruções de como fazer sacrifícios após um ritual de consulta aos mortos. Eles deveriam ser feitos ao deus do submundo na Mesopotâmia, Shamash, e para o morto consultado, a fim de proteger o ofertante de consequências mortais após o contato com aquele espírito.6 Contudo, para Saul, a “função protetora” do sacrifício em Endor foi ineficaz. No dia seguinte, quando a batalha contra os filisteus estava chegando a um fim trágico para Israel, ele cometeu suicídio, e três de seus filhos foram mortos no monte Gilboa, no vale de Jezreel (1Sm 31:2-6). O rei não foi protegido das consequências mortais para aqueles que decidem consultar médiuns e feiticeiros e não Yahweh (cf. Is 8:19).

As evidências apresentadas acima sugerem que o autor de 1 Samuel estava familiarizado com a terminologia e os procedimentos usados nos rituais de necromancia do Antigo Oriente. No entanto, uma pergunta deve ser respondida: Samuel realmente foi trazido do mundo dos mortos pela necromante? A resposta é um enfático não. É muito claro no versículo 6 que Deus não estava Se comunicando com Saul. O que aconteceu em Endor não teve a aprovação divina. Além disso, a Bíblia ensina que a morte é um período de total inconsciência (Ec 9:5-6, 10). Um detalhe importante da história em discussão é que o rei não viu o suposto espírito de Samuel, apenas a necromante o viu (v. 13, 14). Como dissemos, a descrição da mulher foi muito vaga: um ancião vestindo um manto (v. 14). Essas características levaram Saul a reconhecer (‘yada) que “Samuel” fora trazido de volta (v. 14). Não houve identificação visual, apenas um diálogo entre os dois.

Conclusão
Pode causar desconforto ao leitor da Bíblia o fato de o texto claramente dizer “Samuel” ao referir-se a esse espírito. Entretanto, é importante lembrar que as histórias bíblicas são narradas muitas vezes do ponto de vista dos personagens envolvidos. Para a necromante, e especialmente para Saul, aquela entidade era o falecido profeta Samuel. Contudo, à luz de outras porções das Escrituras, sabemos que isso não é possível. Ao contrário da crença dos povos vizinhos de Israel, que faziam diferenciação entre alma e corpo, o ensino bíblico é muito simples: não há separação entre esses dois elementos. As 754 ocorrências da palavra hebraica nephesh, traduzida como “alma” em algumas passagens do Antigo Testamento, nunca carregam o significado de uma entidade separada do corpo, capaz de viver quando este não existe mais.7 Se o profeta Samuel não foi trazido da morte por esse ritual de necromancia, a melhor explicação para o que ocorreu em Endor é chamar aquele incidente de uma manifestação demoníaca para ludibriar Saul. Se o monarca israelita foi até a necromante em busca de orientação divina, o que ele encontrou foi mais desespero diante do exército filisteu. O rei de Israel saiu do pequeno vilarejo de Endor sem esperança nenhuma. Se Satanás pode se disfarçar como anjo de luz (2Co 11:14), um de seus demônios poderia fazer o mesmo, fingindo ser o profeta Samuel.

Luiz Gustavo Assis (via Revista Ministério)

Referências
1 Erika Bourguignon, “Necromancy”, em The Encyclopedia of Religion, ed. M. Eliade (Nova York: Macmillan, 1987), 10:345-347; Brian B. Schmidt, Israel’s Beneficent Dead: Ancestor Cult and Necromancy in Ancient Israel Religion and Tradition (Winona Lake: Eisenbrauns, 1994), p. 154.

2 Esther J. Hamori, Women’s Divination in Biblical Literature: Prophecy, Necromancy and Other Arts of Knowledge (New Haven, CT: Yale University Press, 2015), p. 106; David T. Tsumura, The First Book of Samuel (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 2007), p. 631.

3 Harry A. Hoffner, “Second Millennium Antecedents to the Hebrew ‘Ob”, Journal of Biblical Literature, v. 86, n. 4 (1967), p. 385-393.

4 Benjamin Foster, The Epic of Gilgamesh (Nova York: W. W. Norton and Company, 2001), p. 138.

5 Billie Jean Collins, “Necromancy, Fertility and the Dark Earth: The Use of Ritual Pits in Hittite Cult”, em Magic and Ritual in the Ancient World, eds. Paul Mirecki e Marvin Meyer (Leiden: Brill, 2002), p. 224-242.

6 Benjamin R. Foster, Before the Muses: An Anthology of Akkadian Literature (Bethesda, MD: CDL Press, 1996), 2:637-638.

7 William Dyrness, Themes in Old Testament Theology (Downers Grove: InterVarsity, 1979), p. 85: “Seres humanos vivem como almas, eles não ‘possuem’ almas.” Ellis R. Brotzman, The Plurality of ‘Soul’ in the Old Testament with Special Attention Given to the Use of Nepeš (tese de doutorado, New York University, 1987), p. 222: “A ênfase do texto [Gn 2:7] é sobre o homem como um nephesh, uma criatura, uma unidade. A ideia desse texto, e do Antigo Testamento inteiro, é completamente oposta à noção grega da ‘alma aprisionada’ no corpo, e à ideia expressa em algumas divisões do pensamento protestante, que ensinam que o caminho para justiça é encontrado ao subjugar o corpo e exaltar ‘a parte mais elevada do homem’. O termo nephesh descreve o ser humano como um todo.”

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

ENTENDENDO OS JUDEUS

Como povo, os judeus rastreiam a sua origem até Davi, Moisés e Abraão. Sua antiga pátria é a Judeia, atualmente conhecida como Estado de Israel. Os judeus partilham de uma língua comum, o hebraico. Depois que os romanos recuperaram Jerusalém e destruíram o segundo templo, em 70 d.C., os judeus foram dispersos por todo o mundo e sofreram a perseguições e massacres generalizados. A pior de todas essas destruições étnicas em massa ocorreu na Alemanha nazista, entre 1933 e 1945, quando aproximadamente seis milhões de judeus foram exterminados. Durante esse tempo, mesmo tendo alguns judeus alemães mudado de religião, unindo-se às várias igrejas cristãs, a máquina racial de Hitler ainda os procurava para fazer o extermínio. Antes de Hitler, a origem étnica era o principal fator na política antissemítica do império russo, e depois na URSS. Os pogroms (motins antissemitas), que ocorreram de 1883 a 1913, levaram muitos judeus do leste da Europa a imigrarem para os Estados Unidos1. Com isso, cerca de 70% dos judeus norte-americanos hoje são asquenazitas [ou asquenazes], com raízes no Império Russo.

QUEM SÃO OS JUDEUS DE HOJE?

Frequentemente, quando as pessoas pensam nos judeus, pensam nos judeus piedosos dos dias de Jesus ou nos judeus religiosos que elas viram usando chapéus e casacos pretos compridos. Sim, eles são judeus, mas os judeus ortodoxos e ultraortodoxos representam de 15 a 20% dos judeus em todo o mundo.2 Eles são a minoria. Três grupos étnicos judeus distintos foram formados após a destruição do segundo templo: os judeus asquenazitas, os judeus sefarditas (ou sefaraditas) e os judeus mizrahins. Os asquenazitas são em sua maioria judeus de fala iídiche, originários da Europa Oriental; os judeus sefarditas são originários em grande parte da Espanha e Portugal e os judeus mizrahins são do Oriente Médio e Norte da África.

Os judeus asquenazitas são aqueles que fugiram da perseguição romana e foram morar nas proximidades do Rio Reno, na Alemanha, por volta do Terceiro Século. A partir de então, eles se espalhara pela parte oriental da Europa Medieval. Nessa época, as perseguições, expulsões e cruzadas fizeram com que a maioria dos judeus fossem para a Polônia. Em 1975, a maior parte da Polônia foi ocupada pelo Império Russo. Quase um milhão de poloneses judeus se tornaram súditos indesejados dos czares russos,3 que os trataram como cidadãos de segunda classe. Isso gerou uma imigração em massa de judeus para a América do Norte e a Palestina.4 A igualdade de direitos concedida aos Judeus russos remanescentes, após a revolução comunista de 1917, teve pouca duração. Depois da Segunda Guerra Mundial, o governo comunista tornou-se antissemita; como resultado, os judeus que ficaram na União Soviética tinham acesso limitado aos empregos e ao Ensino Superior. Isso causou uma segunda onda de imigração para os Estados Unidos e Israel nos anos 70 e 80. Os judeus soviéticos também imigraram para a Alemanha na década de 90.

Nas décadas de 1930 e 1940, o Holocausto ceifou a vida de aproximadamente seis milhões de judeus asquenazitas da Europa, de Leste a Oeste. Devido a muitos sobreviventes não terem conseguido voltar para as suas casas, eles emigraram para Israel ou para a América do Norte.

Os judeus sefarditas se estabeleceram na Península Ibérica a partir do Segundo Século. A conquista muçulmana da Espanha no Século Oitavo, curiosamente, deu início à época áurea do judaísmo espanhol, que terminou no Século 14, durante a Reconquista. Os governantes árabes da Espanha eram tolerantes com os judeus. Entretanto, no final do Século 15, os reis cristãos expulsaram todos os muçulmanos da Península Ibérica; juntamente com essa expulsão, veio também o ódio dos governantes cristãos para com os judeus. Esse ódio contra os judeus forçou muitos deles a se converterem ao cristianismo, ou a enfrentarem a execução. Muitos dos judeus sefarditas que se recusaram a se converter ao cristianismo fugiram para o Império Otomano e se fixaram no Norte da África, Grécia e Turquia. Entretanto, os judeus hispanos e portugueses, que decidiram se converter ao catolicismo, tornaram-se vítimas da Inquisição, que estava encarregada de provar a “sinceridade” de sua conversão. Qualquer judeu que fosse suspeito de “conversão insincera” tornava-se sujeito à prisão e tortura, e até mesmo à morte. Para escapar dessa situação, muitos judeus conversos fugiram para a América do Sul, onde viviam o estilo de vida católico. Alguns deles, porém, continuaram a praticar o judaísmo secretamente. Hoje, muitos cristãos sul-americanos acreditam que seus antepassados foram forçados a se converterem ao cristianismo e estão retornando à prática da fé judaica.

Depois da fundação do Estado de Israel, em 1948, e com a escalada do conflito árabe-israelense, a maioria dos judeus sefarditas do norte da África e da Turquia foram repatriados para Israel ou imigraram para a França. O recente aumento do antissemitismo na França levou muitos judeus a pedirem a repatriação para Israel.

Os judeus orientais, também conhecidos como os judeus mizrahins, representam os descendentes daqueles que não retornaram do exílio babilônico e se estabeleceram no território do atual Irã, Iraque, Iêmen e Uzbequistão. Em meados do Século 20, cerca de 75% dos judeus iraquianos emigraram para Israel. Após a revolução islâmica, em 1979, a maioria dos judeus iranianos foram repatriados para Israel, enquanto os restantes migraram para os Estados Unidos e a Europa. A maioria dos judeus bukharan, do Uzbequistão, também retornaram para Israel na década de 1990, embora alguns deles tenham se estabelecido nos Estados Unidos. Assim, podemos constatar que o povo judeu está em toda parte e não são de um mesmo padrão de tamanho ou cor. Eles são “O Povo Errante”, como frequentemente são chamados.

A FÉ E O ESTILO DE VIDA JUDAICOS

O judaísmo, da forma como conhecemos hoje, surgiu no Segundo Século, após a destruição do segundo templo. No entanto, suas raízes se estendem até as tradições orais ensina- das pelos rabinos, já antes da existência do segundo templo. Os registros dos evangelhos mostram que, embora Jesus Se opusesse a algumas das tradições orais do judaísmo (Marcos 7:3-7), Suas interpretações relacionadas às Escrituras geral- mente estavam de acordo com aquelas que eram dadas pelos primeiros rabinos (Mateus 23:2, 3). Muitos estudiosos judeus modernos que analisam os ensinos de Jesus reconhecem que Seus principais conceitos e princípios estão de acordo com aqueles que são ensinados no judaísmo.5

Depois do Oitavo Século, a “Torá Oral” das tradições jurídicas e éticas foi codificada no Talmude (uma compilação das tradições jurídicas judaicas), enquanto a tradição de interpretação das Escrituras foi compilada no Midrash (uma compilação das narrativas rabínicas, sermões e interpretações das Escrituras). O Talmude babilônico tornou-se a base para os vários códigos da Lei Medieval. Esses códigos de lei, em especial aquele conhecido como o Shulkhan Arukh, tornaram-se a base do que hoje conhecemos como o judaísmo ortodoxo clássico. Muitos princípios éticos e religiosos do judaísmo tradicional surgiram sob a coação da perseguição que os judeus sofreram na Europa durante a Idade Média. A era do Iluminismo trouxe a emancipação para as comunidades judias da Europa Ocidental e, com ela, veio o desejo de reconsiderar os princípios desenvolvidos sob a condição do Gueto Medieval. Assim nasceu o Movimento Reformista que, por sua vez, causou a divisão entre os ramos tradicionais e progressistas do judaísmo no Século 19.

Existem, atualmente, vários ramos do judaísmo: o ortodoxo, que está dividido em ultraortodoxo (que também se divide no hassídico e no yeshivish, no ortodoxo moderno e no ortodoxo aberto), conservadores, reformistas, reconstrucionistas e humanistas. Enquanto os seguidores dos dois primeiros ramos aderem estritamente aos ensinos dos rabinos medievais, os ramos progressistas se esforçam de diferentes maneiras para adaptar o judaísmo às realidades modernas. Os judeus ortodoxos acreditam que todos os mandamentos da Torá devem ser observados assim como são interpretados pela tradição oral. Os judeus reformistas acreditam que a Torá, a Mishnah, o Talmude e o Midrash devem ser interpretados no contexto dos dias de hoje. O judaísmo conservador esforça-se por conservar o patrimônio da Bíblia hebraica para o judeu moderno, enquanto os defensores do judaísmo reconstrucionista e do humanista valorizam as tradições judaicas, mas procuram encontrar a maneira de aplicar os princípios à vida contemporânea. Eles não veem nenhuma necessidade da Escritura na sociedade judaica.7

O judaísmo ortodoxo tradicional é popular hoje entre a maioria dos judeus sefarditas e orientais. Os judeus hassídicos são originários principalmente do leste da Europa. A maioria deles se fixou nas comunidades unidas de Nova Iorque e de Israel. A maioria dos judeus dos Estados Unidos e da Europa Ocidental seguem as tradições reformistas e conservadoras. Muitos judeus em Israel são da linha secular e não se associam a nenhuma tradição. Pelo fato de as comunidades ultraortodoxas não apoiarem o Ensino Superior, a maioria dos judeus que prosseguem sua carreira nas universidades seriam aqueles cujas famílias tendem para o judaísmo progressista ou aqueles que simplesmente se tornaram seculares. Em muitos campi universitários existem as casas Hillel que fazem parte de um ministério de campus dirigido pelo Movimento Reformista [judaico]. O objetivo desse projeto é ajudar os estudantes judeus a se manterem conectados com a cultura judaica. Entretanto, um movimento ortodoxo conhecido como Chabad também desenvolve um ministério em muitas universidades com o objetivo de incentivar os judeus seculares a seguirem os preceitos religiosos do judaísmo.

Ao contrário do cristianismo, o judaísmo não é uma religião de credos, mas uma religião de atos.8 Isso quer dizer que o judaísmo se concentra mais nas ações do que nas crenças. Assim, a ética ou a maneira em que um judeu deve observar os mandamentos da Torá é mais importante que as crenças da pessoa sobre a vida após a morte ou a salvação. Por essa razão, até mesmo os judeus ortodoxos tolerariam percepções divergentes sobre esses assuntos, embora mantendo absoluta uniformidade quanto às suas formas de observar os mandamentos.

Uma diferença fundamental entre o cristianismo e o judaísmo está em sua compreensão sobre Deus. Durante milênios, os judeus têm recitado as palavras: “Ouça, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor” (Deuteronômio 6:4)9 como a sua principal oração para afirmar a unidade de Deus. Portanto, a afirmação cristã de três Pessoas da Divindade parece aos Judeus como sendo uma crença em três deuses. De acordo com o que diz Maimonides, uma das maiores autoridades no judaísmo medieval, Deus é absolutamente único e não Se assemelha com nada nem com ninguém.10 Por outro lado, desde o início do judaísmo, os rabinos têm visto Deus como um Ser muito remoto e transcendente.11

A tradição judaica sempre afirmou que Deus deu a Torá a Moisés no Monte Sinai, e ela foi transmitida através das gerações aos sábios rabinos, que são aqueles que têm a autoridade absoluta para interpretá-la. Essa tradição oral ensina que Deus delegou a compreensão da Torá totalmente aos rabinos e que Ele mesmo não tem qualquer direito de intervir nesse processo. Com base nessa compreensão tão arraigada da tradição e também devido ao trauma do Holocausto, até mesmo um judeu bastante religiosos não tem uma percepção de Deus como Alguém que esteja preocupado com os seus problemas pessoais do dia a dia. Uma compreensão deísta de Deus, como Alguém que iniciou o processo e que agora observa tudo do Céu, é muito típica do judaísmo. Os ortodoxos, e em especial os judeus ultraortodoxos, estão à espera do Messias que irá restaurar o templo.12 Os judeus progressistas já não ensinam mais essa doutrina.13

A identidade judaica é um fator muito importante nos círculos modernos, reformistas, conservadores e seculares do judaísmo. Os rabinos progressistas ensinam que, se um judeu, seja homem ou mulher, aceita a Jesus, já não é mais considerado como sendo um judeu.14 Para eles, os judeus que aceitam a Jesus colocam em risco a sua identidade e ameaçam a sobrevivência das comunidades judaicas em todo o mundo. O sábado, ou shabbat, fundamental da identidade do judaísmo. Ao contrário dos cristãos, os judeus não observam nada por causa da salvação, mas sim para a preservação da autoidentificação. Os feriados judaicos, como o Purim, a Páscoa, Rosh Hashanah, Yom Kippur, Hanukkah unem os judeus como um povo possuidor de uma rica história.sempre foi o marco

O QUE OS JUDEUS E OS ADVENTISTAS TÊM EM COMUM

Indubitavelmente, o judaísmo e o adventismo partilham de uma forte convicção na imutabilidade da Lei de Deus e a observância do sábado. Durante o tempo em que estudei em instituições de Ensino Superior, descobri que os adventistas e os judeus podem aprender muito uns com os outros. Assim como os adventistas pregam a mensagem da esperança na Segunda Vinda de Cristo, que conduzirá à vida na eternidade, os judeus possuem a experiência histórica única de serem guiados pelos princípios dos mandamentos divinos aqui e agora, baseados nos princípios da Torá. Cada grupo se beneficiaria do foco enfatizado pelo outro. Os judeus que sabem como viver uma vida guiados pela Torá necessitam de esperança e segurança no mundo vindouro, enquanto os adventistas, que aguardam ansiosamente um Novo Céu e uma Nova Terra, necessitam entender como ser guiados pelos princípios da Torá agora.

Em nível teológico, os adventistas e os judeus partilham da mesma compreensão dos símbolos-chave apresentados no Dia da Expiação. Por exemplo, enquanto todos os cristãos acreditam que Cristo é simbolizado pelo bode vivo sobre o qual o sumo sacerdote confessa os pecados do povo (Levíticos 16:21, 22), os judeus15 e os adventistas concordam que o bode expiatório representa Satanás. A compreensão adventista de que o Povo de Deus está sendo selado (Apocalipse 7) no Livro da Vida, durante o Juízo, é também partilhado pelo judaísmo. Todos os anos, no Rosh Hashanah (o Ano Novo judaico), os judeus desejam uns aos outros uma “Boa Inscrição” e o “Selamento” [no Livro da Vida]. No Yom Kippur (o Dia da Expiação), eles se cumprimentam desejando uns aos outros que sejam selados.

COMO SER UM BOM AMIGO DE UM JUDEU

Muitos têm amigos judeus ou conhecem algumas pessoas judias. É importante não ter segundas intenções ao fazer amizades com eles ou ao testemunhar de sua fé para eles. Os judeus não gostam de ser alvos de evangelismo. Com os relatos de conversões forçadas e de perseguição por parte dos cristãos, o proselitismo não é normalmente bem visto pelos judeus. Em vez disso, demonstre o seu relacionamento com um Deus amoroso, pessoal, um Deus que cuida de você, que responde às suas orações e que o dirige em toda a sua vida. Seja uma pessoa simpática e compreensiva para com as questões relacionadas ao antissemitismo e ao Holocausto. Devido a alguns acontecimentos infelizes, muitas pessoas hoje toleram a retórica antizionista e os boicotes. O antizionismo é simplesmente uma forma diferente de antissemitismo. Fique do lado de seus amigos judeus, seja um defensor deles e manifeste seu apoio a eles. Mantendo-se fiel a Jesus como seu Salvador e demonstrando sincero cuidado por seus amigos judeus, você pode fazer muito para recuperar a confiança que foi quebrada entre o cristianismo e o judaísmo.

Alexander (Sasha) Bolotnikov (PhD em Estudos Hebraicos e Cognatos pelo Hebrew Union College, Cincinnati, Ohio, EUA), serve atualmente como diretor para o Shalom Learning Center na Divisão Norte Americana dos Adventistas do Sétimo Dia. É também pastor da House of Peace Adventist Church, em Vancouver, Washington, EUA. E-mail: Alexander_bolotnikov@icloud.com ou alexander_bolotnikov@me.com.

Citação Recomendada

Alexander (Stasha) Bolotnikov, "Entendendo meus amigos Judeus," Diálogo 32:3 (2020): 23-26

NOTAS E REFERÊNCIAS

  1. ila Orbach, Rússia, in Fred Skolnik, ed., Encyclopedia Judaica, vol. 17 (Thomson & Gale, 2007), 534 – 535. Ver também: Zvi Gitelman, A Century of Ambivalence: The Jews of Russia and the Soviet Union, 1881 – Present, (Indiana University Press, 1988), 1-59.
  2. David Biale, David Assaf, Benjamin Brown, Uriel Gellman, Samuel Heilman, Moshe Rosman, Gadi Sagiv and Marcin Wodzinski, Hasidism: a New History (Princeton University press: 2018), 755.
  3. Ashkenaz, em Fred Skolnik, ed., Encyclopedia Judaica, vol. 1, (Thomson & Gale, 2007), 569-571. Ver também: Haim Hillel Ben-Sasson, Alemanha, in Fred Skolnik, ed., Encyclopedia Judaica, vol. 7, (Thomson & Gale, 2007), 518-519.
  4. Dubnow, S. M., Istoria Yevreev v Yevrope on nachala ih poseleniya do kontsa xviii veka (History of the Jews in Europe: from the beginning of their settlement to the end of xviii century), vol. 1 (Moscow: Mosty Kultury, 2003), 24-38.
  5. Abraham Geiger, Judaism and Its History (Sydney: Wentworth Press, 2019); Isidore Epstein, Judaism (Penguin Books, 1983).
  6. H. L. Strack e Gunter Stemberger, Introduction to the Talmud and Midrash, (Fortress press, Minneapolis: 1992). Ver também Julius Kaplan, The Redaction of Babylonian Talmud, (Makor Publishing, 7Jerusalem: 1993).
  7. Stephen Wylen, Settings of Silver: an Introduction to Judaism, (Paulist Press, 1989), 261-296.
  8. Henry Abrahamson, Jewish History and Historians: Essential Lectures on Jewish History (https://www.youtube.com/watch?v=IcsuYXEhfz8&list=P LdiAQwLyKa8Lnfv7WLEohwn0N2PwtRvQs).
  9. A menos que de outra forma indicado, as referências bíblicas deste artigo foram citadas da Nova Versão Internacional da Bíblia Sagrada.
  10. Moses Maimonides, The Guide to Perplexed, (University of Chicago Press: 1963) vol. 1, 20-51.
  11. Ver como exemplo: Babylonian Talmud, Hagiga 13b
  12. Ver como exemplo: Rabbi Menachem M Schneerson, The Sound of the Great Shofar (Kehot Publication Society: Brooklyn, NY, 1992) 71-76; Pinchas Polonskiy, Rav Cook-Kabbala i Novyy Etap v Razvitii Iudaizma (Rav Cook: Kabballah and the New Stage in the Development of Judaism).
  13. Embora o livro de orações ortodoxo contenha várias orações especiais para a restauração do templo (ver como exemplo Rabbi Noson Scherman, ArtScroll Transliterated Linear Siddur (Mesorah Publications: 1998), essas orações não estão nos livros de orações produzidos pelos movimentos da Reforma e Conservador (ver como exemplo Rabbi Sidney Greenberg and Rabbi Jonathan D. Levine, Siddur Hadash: Woeship, Study and Song for all Sabbath and Festival Services, (Media Judaica Prayer Book Press: New York).
  14. Status of a “Completed Jew”, in Jewish Community in 109-112 (https://www.ccarnet.org/ccar- responsa/carr-109-112/).
  15. Jacob Milgrom, Leviticus 1–16: A New Translation with Introduction and Commentary, vol. 3, Anchor Yale Bible (New Haven; London: Yale University Press, 2008), 1021.